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Revista Brasileira de Farmacognosia

Print version ISSN 0102-695XOn-line version ISSN 1981-528X

Rev. bras. farmacogn. vol.16 no.2 João Pessoa Apr./June 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-695X2006000200018 

ARTIGO

 

Avaliação do perfil cromatográfico em espécies de Polygonum e amostras comercializadas como "erva-de-bicho"

 

Evaluation of the chromatographic profile of species of Polygonum and samples of the "erva-de-bicho"

 

 

Cláudia Andréa Lima CardosoI,*; Neli Kika HondaII; Edna Scremin DiasIII

IUniversidade Estadual de Mato Grosso do Sul, Curso de Química, Rodovia Dourados/Ithaum km 12, Caixa Postal 351, 79804-970, Dourados, MS, Brasil
IIUniversidade Federal de Mato Grosso do Sul, Departamento de Química, Cidade Universitária, Caixa Postal 649, 79070-900, Campo Grande, MS, Brasil
IIIUniversidade Federal de Mato Grosso do Sul, Departamento de Biologia, Cidade Universitária, Caixa Postal 549, 79070-900, Campo Grande, MS, Brasil

 

 


RESUMO

As espécies Polygonum punctatum, Polygonum hydropiperoides, Polygonum ferrugineum, Polygonum acuminatum foram analisadas quanto ao perfil cromatográfico e comparadas com amostras comercializadas como "erva-de-bicho". As análises foram realizadas empregando cromatografia líquida de alta eficiência. Verificou-se que as amostras analisadas exibem perfil cromatográfico distinto. O perfil cromatográfico das amostras comercializadas como "erva-de-bicho" foram semelhantes aos obtidos para as amostra de Polygonum acuminatum ou Polygonum ferrugineum ou não apresentaram picos nos cromatogramas. Foram monitorados na determinação do perfil cromatográfico os comprimentos de onda de 254 nm e 362 nm.

Unitermos: Polygonum acuminatum, Polygonum ferrugineum, Polygonum hydropiperoides, Polygonum punctatum, cromatografia líquida de alta eficiência.


ABSTRACT

The species Polygonum punctatum, Polygonum hydropiperoides, Polygonum ferrugineum, Polygonum acuminatum were analyzed and compared with commercialized samples of "erva-de-bicho". This analysis was performed using high performance liquid chromatography. It was verified that the analyzed samples show a distinct. The chromatographic profile of the samples commercialized as "erva-de-bicho" was similar to the Polygonum acuminatum or Polygonum ferrugineum profiles, or did not present peaks in the chromatograms. The chromatographic profiles were monitored in the 254 nm and 362 nm.

Keywords: Polygonum acuminatum, Polygonum ferrugineum, Polygonum hydropiperoides, Polygonum punctatum, high performance liquid chromatography.


 

 

INTRODUÇÃO

As espécies de Polygonum (Polygonaceae) são conhecidas como "erva-de-bicho" (Correa, 1978) e empregadas como antidiarréicas, anti-hemorroidais, adstringentes (Martins et al., 1995; Simões et al., 1986).

As espécies de Polygonum são consideradas como invasoras e são muito combatidas por serem tidas como prejudiciais, no entanto, em alguns casos podem ser benéficas quando integram sistemas de manejo (Macedo, 1995).

As espécies de Polygonum apresentam grande diversidade de metabólitos secundários, sendo que algumas espécies são ricas em flavonóides, outras em terpenos e algumas em outras classes de metabólitos (Xiao et al., 2000; Yagi et al., 1994; Furuta et al., 1986).

Na literatura encontra-se descrito que o decocto de Polygonum punctatum apresentou atividade antiinflamatória em ratos (Falcão et al., 2005). Polygonum hydropiperoides é uma espécie utilizada na fabricação de pomadas, pílulas e supositórios empregados no tratamento de hemorróidas. Jácome et al. (2004) encontrou variações nos teores de polifenóis e taninos em amostras de P. hydropiperoides, coletadas no outono e primavera. Muitas pessoas utilizam o chá de erva-de-bicho por via oral no tratamento de hemorróidas e por este motivo é importante conhecer mais detalhes de seus perfis cromatográficos.

A Resolução-RDC no 48 de 16 de março de 2004 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) visa a normatização de medicamentos fitoterápicos e traz entre suas exigências, a necessidade de controle de qualidade com métodos analíticos que incluam perfis cromatográficos e resultados de prospecção fitoquímica, além de comprovação de segurança de uso, incluindo estudos de toxicidade pré-clínica. Para atender às exigências no produto acabado, é necessário estabelecer bem a espécie vegetal correta a ser empregada, para obtenção do medicamento fitoterápico desejado e a obtenção de seu perfil cromatográfico é uma ferramenta de grande importância na identificação de uma espécie vegetal.

Em função da diversidade química apresentada em espécies de Polygonum e do alto consumo deste vegetal no Mato Grosso do Sul no tratamento de hemorróidas e outras doenças, foram avaliadas quatro espécies encontradas em áreas úmidas, amostras comercializadas como "erva-de-bicho" por raizeiros e amostras de farmácias de manipulação em relação aos seus perfis cromatográficos obtidos empregando Cromatografia Líquida de Alta Eficiência acoplada ao detector de Ultra-Violeta (CLAE-UV).

 

MATERIAL E MÉTODOS

Amostras comerciais

Foram analisadas amostras comercializadas por quatro raizeiros de Campo Grande-MS. Segundo os raizeiros estas amostras foram secas ao sol durante 2 dias, com exposição de 8 horas diárias. Este mesmo procedimento foi realizado para as amostras coletadas e identificadas. Duas amostras adquiridas em farmácias de manipulação, nas quais em seu laudo de aquisição pela farmácia constava como P. hydropiperoides.

Plantas

Foram coletadas na Base de Estudos do Pantanal, às margens do Rio Paraguai no município de Corumbá. A identificação foi realizada pela bióloga Valli Pott da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Campo Grande. As exsicatas foram depositadas no Herbário do Departamento de Botânica da UFMS, Campo Grande-MS, sob o número 11946 (Polygonum punctatum), número 11945 (Polygonum hydropiperoides), número 11942 (Polygonum ferrugineum), número 11938 (Polygonum acuminatum).

Solventes utilizados

Os solventes empregados no desenvolvimento das metodologias para os medicamentos fitoterápicos e aqueles empregados em CLAE-UV foram de grau CLAE. A água utilizada foi tratada pelo sistema Milli-Q (Millipore).

Condições cromatográficas

Cromatográfo líquido Shimadzu LC-6AD com detector de UV-Vis (Modelo SPD-6AV, Shimadzu), coluna: fase reversa octadecil Shim-pack CLC-ODS (25 cm x 4,6 mm x 5 mm) e pré-coluna (2,5 cm x 4,6 mm) de mesma fase da coluna, comprimento de onda: 254 e 362 nm.  Sistema gradiente com eluente: acetonitrila – água de 5:95 v/v para 100:0 v/v em 50 minutos, voltando à condição inicial em 20 minutos, com aquisição dos primeiros 50 minutos, com fluxo de 1,1 mL min-1.

Preparo das amostras para análise

As amostras após secagem foram pulverizadas em moinho de facas. Os extratos foram preparados pesando 100 mg de cada uma das amostras e colocando em contato com 5 mL de álcool etílico absoluto P.A. (99,8%) em banho ultrassônico por 20 minutos. Após filtração em papel de filtro comum seguida de filtração em filtros de 0,45 mm, os volumes foram completados para 5 mL em balão volumétrico e diretamente analisados em CLAE-UV. O procedimento foi realizado em triplicata.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

O extrato etanólico obtido foi analisado em relação ao perfil cromatográfico, empregando condição de análise em gradiente e dois comprimentos de onda (254 nm e 362 nm) nas análises. Houve similaridade nos perfis cromatográficos obtidos nos testes em triplicata realizados para a mesma amostra.

Foi observado um perfil cromatográfico diferenciado nas amostras de plantas, os quais podem ser observados nas Figuras 1-8. A amostra de P. acuminatum (Figuras 1-2) apresentou similaridade no perfil cromatográfico nos dois comprimentos de onda monitorados  e o mesmo fato ocorreu com P. hydropiperoides (Figuras 3-4). Em relação a P. punctatum, houve uma similaridade também em relação aos comprimentos de onda monitorados, mas foi verificado um pico em torno de 38 minutos não detectado em 362 nm (Figuras 5-6). Com relação a P. ferrugineum não houve similaridade nos perfis cromatográficos obtidos nos dois comprimentos de onda analisados (Figuras 7-8).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Foram analisadas quatro amostras comercializadas como "erva-de-bicho" por raizeiros, das quais três, nos dois comprimentos de onda monitorados, apresentaram o mesmo perfil cromatográfico observado para P. acuminatum (Figuras 9-14) e a outra amostra apresentou o perfil cromatográfico de P. ferrugineum (Figuras 15-16). Nas amostras obtidas em farmácias de manipulação não foram determinados nos comprimentos de onda monitorados nenhum pico nos cromatogramas obtidos (Figuras 17-20). Este fato pode caracterizar adulteração do produto, uma vez que ainda não há fiscalização eficiente que garanta a qualidade das ervas comercializadas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

As diferentes espécies de Polygonum são empregadas indiscriminadamente no tratamento de doenças, sendo comercializadas como "erva-de-bicho". Em função dos resultados obtidos, deve-se tomar cuidado ao utilizar estes vegetais, pois perfis cromatográficos distintos implicam em composição química distinta. Este fato pode comprometer a saúde do consumidor, pois estas espécies podem não ter as mesmas atividades biológicas para serem empregadas na mesma função e/ou então apresentarem substâncias tóxicas, entre outros fatores.

 

CONCLUSÕES

O perfil cromatográfico diferenciado observado nas espécies de Polygonum, alerta para a grande diversidade de substâncias identificadas neste gênero e também para o perigo em se utilizar indiscriminadamente as diferentes espécies denominadas como "erva-de-bicho".

Baseado nos resultados, deve-se priorizar o desenvolvimento de métodos de análise em amostras de "erva-de-bicho" (plantas e medicamentos fitoterápicos) e também intensificar os estudos fitoquímicos, farmacológicos dentre outros no gênero, visando obter produtos mais confiáveis ao consumidor.

 

AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem à FUNDECT pelo suporte financeiro.

 

REFERÊNCIAS

Corrêa MP 1978. Dicionário das Plantas Úteis do Brasil e das Exóticas Cultivadas, Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, Ministério da Agricultura, v. 5.        [ Links ]

Falcão HS, Lima IO, Santos VL, Dantas HF, Diniz MFFM, Barbosa-Filho JM, Batista LM 2005. Review of the plants with anti-infl ammatory activity studied in Brazil. Rev Bras Farmacogn 15: 381-391.        [ Links ]

Furuta T, Fukuyama Y, Asakawa Y 1986. Polygonolide, an isocoumarin from Polygonum hydropiper possessing anti-inflammatory activity. Phytochemistry 25: 517-520.        [ Links ]

Jácome RLRP, Lopes DES, Recio RA, Macedo JF, Oliveira AB 2004. Caracterização farmacognóstica de Polygonum hydropiperoides Michaux e P. spectabile (Mart.) (Polygonaceae). Rev Bras Farmacogn 14: 21-27.        [ Links ]

Macedo JF 1995. Fenologia da floração das plantas invasoras no campus-Pampulha da UFMG. Daphne: Revista do Herbário PAMG 5: 15-27.        [ Links ]

Martins ER, Castro DM, Castellani DC, Dias JE 1995. Plantas Medicinais. Viçosa:UFV, Imprensa Universitária.        [ Links ]

Simões CMO, Mentz LA, Schenkel EP, Irgang BE, Stehmann JR 1986. Plantas da Medicina Popular no Rio Grande do Sul. Porto Alegre:Editora da UFRGS, 1986. 174p.        [ Links ]

Xiao K, Xuan LJ, Xu MY, Bai DG 2000. Stilbene glycoside sulfates from Polygonum cuspidatum. J Nat Prod 63: 1373-1376.        [ Links ]

Yagi A, Uemura T, Okamura N, Haraguchi H, Imoto T, Hashimoto K 1994. Antioxidative sulfated flavonoids in leaves of Polygonum hydropiper. Phytochemistry 35: 885-887.        [ Links ]

 

 

Recebido em 28/10/05.
Aceito em 24/03/06

 

 

* E-mail: claudia@uems.br, Tel. + 55-67-4119145, Fax + 55-67-4119121

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