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Revista Brasileira de Farmacognosia

Print version ISSN 0102-695XOn-line version ISSN 1981-528X

Rev. bras. farmacogn. vol.18  suppl.0 João Pessoa Dec. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-695X2008000500016 

ARTIGO

 

Efeito da farinha da casca do maracujá-amarelo (Passiflora edulis f. flavicarpa Deg.) nos níveis glicêmicos e lipídicos de pacientes diabéticos tipo 2

 

Effect of the flour of the yellow passion fruit peel (Passiflora edulis f. flavicarpa Deg.) in the glycemic and lipid levels of type 2 diabetes patients

 

 

Daniele Idalino JanebroI, *; Maria do Socorro R. de QueirozII; Alessandra T. RamosII; Armando U. O. Sabaa-SrurIII; Maria Auxiliadora L. da CunhaII; Margareth de Fátima F. M. DinizI

ILaboratório de Tecnologia Farmacêutica "Delby Fernandes de Medeiros", Universidade Federal da Paraíba, Caixa Postal 5009, 58051-970 João Pessoa-PB, Brasil
IIDepartamento de Farmácia, Universidade Estadual da Paraíba, Campus Universitário, Bodocongó, 58100-753 Campina Grande-PB, Brasil
IIIDepartamento de Nutrição Básica Experimental, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Cidade Universitária, 21949-900 Rio de Janeiro-RJ, Brasil

 

 


RESUMO

A suplementação da dieta com fibras solúveis pode ser considerada uma importante medida terapêutica no tratamento de pacientes diabéticos e obesos. Para avaliar o efeito da farinha da casca de maracujá amarelo rica em pectina, foi realizado um ensaio clínico fase II com 43 pacientes portadores de Diabetes Mellitus tipo 2. Estes receberam diariamente 30 g do produto testado durante 60 dias. Observou-se diferença estatística significante na glicemia de jejum (p = 0,000) acompanhada pela redução nos valores médios da hemoglobina glicada (p = 0,032). Em relação ao perfil lipídico, não foi verificado redução dos níveis de colesterol total e colesterol LDL nos pacientes ao longo deste estudo; entretanto, houve redução nos níveis de Triglicerídeos e aumento do colesterol HDL nos mesmos. Os níveis glicêmicos apresentados pelos pacientes antes e após o uso da farinha da casca do maracujá são compatíveis com uma ação positiva no controle da glicemia como adjuvante das terapias convencionais.

Unitermos: Passiflora edulis, Passifloracea, pectina, diabetes, atividade hipoglicemiante, produtos naturais.


ABSTRACT

The supplementation of diet with soluble dietary fiber can be considered an important therapy measure in the treatment of diabetic and obese patients. In order to evaluate the effect of the flour of the yellow passion fruit peel which is rich in pectin, a phase II clinical trial with 43 patients with type 2 Diabetes Mellitus was performed. They received daily 30 g of the tested product for 60 days. Statistically significant difference was observed in fasting plasma glucose (p = 0.000) accompanied by a reduction in the average values of glycated hemoglobin (p = 0.032). In relation to the lipid profile, there were no reduced levels of total cholesterol and LDL-cholesterol in patients during this study; however, there were reduction in the levels of Triglycerides and increase in HDL cholesterol in them. The glycemic levels presented by the patients before and after the use of the passion fruit peel flour are compatible to a positive action to control blood glucose as an adjunct of conventional therapies.

Keywords: Passiflora edulis, Passifloracea, pectin, diabetes, hypoglycemic activity, natural products.


 

 

INTRODUÇÃO

O Diabetes Mellitus (DM) constitui um grave problema de saúde pública por sua alta prevalência na população, suas complicações crônicas, mortalidade, altos custos financeiros e sociais envolvidos no tratamento e deterioração significativa da qualidade de vida.

Em países, como o Brasil, está previsto aumento na prevalência de DM de 170% no período de 1995 a 2025 (King et al., 1998; Narayan et al., 2000; Figueiredo & Modesto-Filho, 2008). Mesmo em países desenvolvidos, apesar dos avanços científicos e o acesso fácil a cuidados contínuos de saúde, a prevalência do diabetes está aumentando e intervenções com a finalidade de prevenir essa condição, como dieta e atividade física, são subutilizadas (King et al., 1998).

A procura na medicina popular de fontes naturais para o tratamento de doenças crônicas não transmissíveis, entre elas o diabetes, vem sendo cada vez mais intensificada. A importância da inclusão de alimentos que promovam uma melhora na tolerância a glicose, em dietas de pacientes diabéticos, tem sido estudada (Barbosa-Filho et al., 2005; Silva et al., 2006; Cavalli et al., 2007; Menezes et al., 2007; Torrico et al., 2007; Ferreira et al., 2008; Rodríguez et al., 2008; Santos et al., 2008).

A família Passifloraceae consiste de aproximadamente 16 gêneros e 650 espécies, sendo o gênero Passiflora considerado o mais importante, com cerca de 400 espécies. Essas plantas crescem essencialmente nas regiões tropicais, mas também estão presentes nas áreas subtropicais e temperadas do mundo (Petry et al., 2001) e muitas espécies deste gênero são utilizadas na medicina popular (Morais et al., 2005; Carlini et al., 2006; Silva et al., 2006; Agra et al., 2007 & 2008). A farinha da casca de maracujá (Passiflora edulis f. flavicarpa Deg.) cv amarela é rica em pectina, uma fração de fibra solúvel que têm a capacidade de reter água formando géis viscosos que retardam o esvaziamento gástrico e o trânsito intestinal (Galisteo et al., 2008). Estudos epidemiológicos mostraram que dietas ricas em fibra dietética estão associadas com um risco reduzido de Diabetes e doenças cardiovasculares (Liu et al., 2000; Fung et al., 2002; Venn & Mann, 2004) assim como inversamente relacionadas com a resistência à insulina e com conseqüente aumento na sensibilidade desta (Ylonen et al., 2003).

Estudo utilizando farinha da casca de maracujá na alimentação de ratos normais e diabéticos verificou com eficácia, o controle do diabetes, devido a sua ação hipoglicemiante, por se tratar de um subproduto rico em pectina (Junqueira-Guertzenstein & Srur, 2002). No entanto, a base molecular para estes efeitos da fibra dietética permanece não esclarecida (Galisteo et al., 2008).

A relação entre o surgimento das complicações agudas e crônicas do DM com o tratamento inadequado, promovendo a manutenção da hiperglicemia, é o principal agente desencadeante das mesmas (Lima, 2004). Portanto, é extremamente necessário encontrar métodos que promovam a compensação glicêmica, a fim de se evitar e/ou minimizar essas complicações. Por isso, inúmeros trabalhos têm buscado a melhor forma de tratamento, chegando-se ao vital papel da dieta no controle glicêmico (Galisteo et al., 2008).

Considerando que a pectina em alguns estudos realizados apresentou ações hipoglicemiantes, sendo a mesma de fácil aquisição, uma vez que é obtida do albedo de frutas cítricas como o maracujá e que pode ser utilizado como alimento funcional, este estudo se propõe a verificar o efeito do albedo do maracujá, como suplemento alimentar, sobre os níveis de glicose e lipídeos em indivíduos com DM tipo 2 (DM2), contribuindo assim para a melhora da tolerância à glicose e conseqüentemente o número de óbitos por essas causas nestes pacientes.

 

MATERIAL E MÉTODOS

O produto de origem vegetal utilizado para o estudo foi o maracujá-amarelo (Passiflora edulis f. flavicarpa), obtido na forma de farinha do albedo e do flavedo (casca) produzida no Laboratório de Processamento e Análise de Alimentos do Departamento de Nutrição Básica e Experimental da Universidade Federal do Rio de Janeiro, pelo professor Dr. Armando Ubirajara Oliveira Sabaa Srur.

Foi realizado um ensaio clínico fase II para o estudo da eficácia da farinha da casca do maracujá como suplemento alimentar, objetivando investigar as possíveis atividades hipoglicemiantes, hipolipemiantes em pacientes com DM2.

A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética e Pesquisa da Universidade Estadual da Paraíba (parecer nº 0146.0.133.000-07). A seleção dos pacientes ocorreu através de amostragem aleatória, entre homens e mulheres adultos com DM2 atendidos pelo Programa de Atenção Farmacêutica (PROATENFAR) desenvolvido pela Universidade Estadual da Paraíba em parceria com o Serviço Municipal de Saúde na cidade de Campina Grande-PB.

A participação dos voluntários foi de forma livre e espontânea, os quais após os devidos esclarecimentos assinaram um Termo de Compromisso Livre e Esclarecido, que continha todas as informações relativas ao estudo, assim como a autorização dos mesmos concordando em participar da pesquisa e autorizando a divulgação dos resultados em publicações científicas. Durante todo o experimento, os voluntários foram instruídos a comunicarem ao pesquisar qualquer sinal ou sintoma clínico que porventura viessem a aparecer.

Inicialmente todos os participantes se submeteram a exames clínicos e laboratoriais, os quais incluiriam ou não os mesmos na pesquisa. Foram excluídos desse estudo pacientes considerado inapto durante a anamnese e/ou exame físico, ou que demonstraram alterações laboratoriais nos exames de análises clínicas, que revelassem disfunção hepática, renal, alterações cardíacas graves, alcoólatras ou que estivessem realizando algum tipo de dieta alimentar e praticando atividade física.

Foram avaliados, inicialmente, 60 pacientes para o estudo, 36 mulheres e 24 homens, com idade entre 50 e 80 anos, sem distinção de cor, no período de junho/2007 a junho/2008. Destes, 43 voluntários permaneceram até o final do experimento, sendo 28 do gênero feminino e 15 do gênero masculino. Duas pessoas foram retiradas do estudo por não estarem condizentes com a avaliação clínica e laboratorial. Os demais que não permaneceram até o término foi por desistência devido ao sabor residual forte e desconfortos abdominais.

O período do estudo foi de 60 dias, sendo o acompanhamento laboratorial e clínico realizado a cada 30 dias. As coletas de sangue para os exames laboratoriais foram realizadas no período da manhã após jejum de 12 horas no Serviço Municipal de Saúde e encaminhadas devidamente ao laboratório de Análises Clínicas da UEPB para obtenção do soro, o qual foi acondicionado sob refrigeração e transportado em embalagens térmicas, para o Laboratório de Análises Clínicas do Hospital Universitário Lauro Wanderley (HULW), onde foram realizadas as dosagens bioquímicas.

A primeira coleta foi feita antes da ingestão da farinha denominada tempo basal (TO) onde foram obedecidos todos os critérios de exclusão. As outras duas foram após 30 (T30) e 60 (T60) dias de uso da casca da farinha do maracujá.

Após a coleta sanguínea, foram realizados exames físicos: mensuração de peso e altura, os quais se repetiram nos tempos, T30 e T60, com exceção da altura. O IMC foi calculado dividindo-se o peso (kg) pela altura ao quadrado (m2), utilizando-se das faixas do IMC, adotadas pela Organização Mundial da Saúde (1998) para classificação do estado nutricional.

A partir do segundo dia em diante, os pacientes submetidos ao estudo receberam semanalmente sete embalagens plásticas, contendo cada uma delas, 30 g da farinha da casca de maracujá, a qual correspondia a 17,4 g de fibras totais, sendo 6,3 g de fibras solúveis e 11,1 g de fibra insolúvel, para ser ingerida ao longo do dia juntamente com os alimentos, podendo ser entre outros, sucos, frutas e leite.

As concentrações séricas de Glicemia, Triglicerídeos, Colesterol Total, Colesterol HDL, foram determinadas utilizando Kits comerciais de marca Biosystem® e analisador bioquímico automatizado A-25 Biosystem®. O valor do colesterol LDL foi calculado pela fórmula de Friedewald, para valores de triglicérides até 400 mg/dL. Enquanto os valores acima deste foram dosados pelo método direto (colorimétrico enzimático).

A dosagem de hemoglobina glicada (HbA1c) foi determinada pelo método de Turbidimetria da Biosystem® e os valores de referência tiveram como base os adotados pelo International Federation of Clinical Chemistry (IFCC). Para um bom controle levou-se em consideração os níveis de 4,8 a 6,4% e para os valores acima deste último foram considerados não controlados.

Durante toda a pesquisa 09 diabéticos estavam recebendo glibenclamida, outros 09 metformina, alguns estavam tomando associações glibenclamida e metformina (11); metformina e insulina (07); glibenclamida e insulina (01); 05 aplicando insulina, e 01 ainda não estava fazendo tratamento com hipoglicemiantes por ter sido recentemente diagnosticada. A dose dos medicamentos utilizados não foi alterada durante o estudo.

Para análise estatística descritiva dos dados utilizou-se dois programas EpiInfo, nas versões 6.04 e 3.4 e SPSS versão 14, aplicando-se o teste t de Student pareado. Em todos os testes foram considerados o intervalo de confiança de 95% e o nível de significância de 5% (p < 0,05). Os resultados foram relatados como Média ± DP.

 

RESULTADOS

As características físicas dos pacientes, tanto basais como após as oito semanas da pesquisa estão demonstradas na Tabela 1. Como pode ser observado, o peso corporal dos participantes permaneceu constante nos primeiros 30 dias (p = 0,472), apresentando-se um pouco mais elevado após 60 dias (p = 0,000); entretanto, quando comparado este parâmetro entre os gêneros foi visto que no gênero masculino não ocorreu diferença significante da avaliação basal para 60 dias (p = 0,119). Para o diagnóstico nutricional, utilizou-se o Índice de Massa Corporal (IMC). A média geral do IMC no início do tratamento foi 27,76 ± 3,24 kg/m2 e em relação ao gênero feminino e masculino foi 28,10 ± 2,57 e 27,75 ± 3,24, respectivamente. No final do estudo, estes valores passaram a ser 28,13 ± 3,16; 28,62 ± 2,48; 28,13 ± 3,16, observando-se que o sobrepeso esteve presente tanto no tempo basal quanto no final do tratamento (Tabelas 1 e 2).

 

 

Com relação à glicemia de jejum observou-se uma diminuição significante (p = 0,000) após a suplementação com a casca do maracujá amarelo. Esta redução foi observada já nas primeiras quatro semanas do estudo (p = 0,000). A HbA1c também apresentou diferença significante (p = 0,032) durante o estudo, acompanhando a redução nos valores médios da glicose em jejum (Tabela 3). A comparação entre os grupos masculino e feminino nas glicemias de jejum (p = 0, 136), glicemia após 30 dias (p = 0,321), glicemia após 60 dias (p = 0,954), HbA1c basal (p = 0,123) e HbA1c 60 dias (p = 0,879) não mostraram diferença estatisticamente significante ( p < 0,05) (Tabela 4).

 

 

Analisando o colesterol total e LDL-c após 30 e 60 dias do ensaio clínico através do teste t para amostras independentes, não comprovamos diferença estatística. Enquanto ao comparar os valores médios basais do TG (211,98 ± 119,31), observa-se uma redução dessa variável, após oito semanas (161,21 ± 91,09) (Tabela 3). Em relação ao colesterol HDL nas avaliações por gênero, as médias foram correspondentemente mais elevadas em ambos, fato observado tanto na quarta como na oitava semana. Nesta última avaliação os valores chegaram dentro da normalidade tanto para as mulheres quanto homens, respectivamente, com valores médios de 53,50 ± 10,82 e 43,20 ± 8,13 (Tabela 4).

 

DISCUSSÃO

Diabetes Mellitus (DM) é um importante problema de saúde pública com alta morbidade, mortalidade e repercussões econômicas significativas. Hoje, procura-se por uma terapêutica onde haja a contribuição de várias formas de tratamento do diabetes, envolvendo a nutrição, realização de atividade física e uso de medicamentos adequadamente, visto que a ocorrência da referida patologia está intrinsecamente relacionada à prática incorreta destes itens.

Estudos têm mostrado que mudanças no estilo de vida levam a uma redução na incidência de DM maior que o uso de metformina (Alberti et al., 2007). Portanto, métodos não farmacológicos no tratamento do Diabetes são eficazes, devendo ser usados para todos os pacientes metabolicamente descompensados ou mesmo os que se encontram controlados (Knowler et al., 2002; Hennesse, 2007).

No presente ensaio clínico foi utilizado à farinha da casca de maracujá (Passiflora edulis f. flavicarpa Deg.) cv amarela rica em pectina para avaliar sua eficácia no peso corporal, nos níveis glicêmicos e lipídicos do grupo de diabéticos em estudo.

A literatura apresenta vários estudos relacionados ao efeito de suplementos de fibras sobre o peso corporal (Howarth et al., 2001). Universalmente, a orientação dietética recomenda uma dieta rica em fibras, visando à promoção da saúde bem como a prevenção de doenças; no entanto, existem inconsistências na própria literatura no que diz respeito à relação entre fibra dietética e peso corporal (Slavin, 2005). Estes fatos são corroborados pelos raros trabalhos que mostram estudos em longo prazo (> 4 meses) (Rigaud et al., 1990; Makkonen et al., 1993; Salas-Salvadó et al., 2008), pela heterogeneidade das pequenas amostras populacionais com as quais os estudos são conduzidos (controles saudáveis, pacientes obesos ou diabéticos) e ainda pelas diferenças nos tipos e doses de fibras que são utilizados (Howarth et al., 2001).

O resultado do nosso estudo em relação ao peso corporal não foi significante. Salas-Salvadó et al. (2008) sugeriram, em seu estudo por um período de 16 semanas com pacientes com sobrepeso, obesos e placebo, que a suplementação com fibras solúveis, no contexto de uma dieta para redução de peso, poderia ser benéfica porque a adição de fibra induz saciedade e um perfil lipoprotéico mais favorável em longo prazo. Todavia, esses resultados não sustentam a hipótese de que suplementos de fibras podem ter efeitos adicionais na redução de peso, já que os mesmos não foram estatisticamente significativos no grupo estudado.

Chandalia et al. (2000) estudando o efeito de alta ingestão de fibras dietéticas (50 g) em pacientes DM2 durante 6 semanas também obtiveram resultados não-significativos em relação à redução de peso corporal. Em um período de 7 semanas, Behall et al. (2004) encontraram resultados significativos (p < 0,01), embora a perda tenha sido de aproximadamente 1 kg, para pacientes apresentando leve hipercolesterolemia.

O IMC dos participantes permaneceu constante no decorrer da pesquisa. Figueiredo et al. (2006) avaliaram o efeito de suplementação com a fibra solúvel goma guar por 3 meses em pacientes com DM2 e observaram que o IMC deles não foi alterado ao longo do estudo (p = 0,77). Magnoni et al. (2008), em seu estudo de 12 semanas com pacientes diabéticos, não verificaram alterações significativas tanto no peso corporal quanto no IMC.

A maioria dos indivíduos (95%) neste estudo não estava conseguindo manter seus níveis de glicose na faixa considerada como normal há alguns anos mesmo com a terapia medicamentosa. Para verificar este fato foi analisada a glicemia de jejum três meses antes do início do estudo e três meses após o término do mesmo, onde foram obtidos respectivamente os valores médios de 162,33 e 160,12; confirmando que estes pacientes realmente encontravam-se descompensados justificando a importância do uso de um método terapêutico alternativo na tentativa de obter melhores resultados em relação aos valores de glicemia em jejum.

Em relação à avaliação do perfil glicêmico em indivíduos diabéticos, não foram encontrados estudo semelhante em seres humanos a respeito da utilização da farinha da casca do maracujá amarelo, porém Ramos et al. (2007) em um estudo clínico piloto com dezenove mulheres normoglicêmicas e com dislipidemia, com idade entre 30 e 60 anos, observaram que 30 g diários da farinha da casca de maracujá por sessenta dias reduziu os níveis de colesterol total e colesterol LDL, no entanto, não houve alteração nos níveis glicêmicos destas pacientes.

Neste estudo houve uma redução estatisticamente significante da glicemia de jejum após 30 e 60 dias de tratamento com a farinha da casca do maracujá. Uma possibilidade de explicação para o efeito obtido seria que as fibras contidas neste alimento, principalmente a pectina, a qual forma misturas de consistência viscosa (formação de géis) que podem alterar o tempo de esvaziamento gástrico, aumentar a saciedade e retardar o tempo de absorção dos carboidratos simples. Desta forma, ajuda a normalizar os níveis de insulina e da glicose sanguínea (Galisteo et al., 2008). Por outro lado este gel é ainda capaz de formar complexo com os sais biliares aumentando a excreção do colesterol, podendo ser usada para o tratamento ou prevenção de doenças cardiovasculares, obesidade, dislipidemias e DM2 (Galisteo et al., 2008).

No presente estudo também foi evidenciado, além da diminuição dos valores médios da glicose basal, uma redução significativa nos valores de HbA1c entre o basal e após 60 dias. Estes resultados estão de acordo com outros estudos, os quais demonstraram que a ingestão de fibras melhora o controle e reduz o risco de desenvolvimento do DM2 (Venn & Mann, 2004; Munter et al., 2007; Kochar et al., 2007; Galisteo et al., 2008).

A literatura evidencia resultados variáveis acerca dos níveis glicêmicos alcançados com a suplementação alimentar através de fibras. Dentre os efeitos terapêuticos de psyllium (casca das sementes de ) em pacientes com DM2 tratados com glibenclamida e restrições dietéticas convencionais verificou-se uma diminuição de 12,2% na absorção de glicose (diferença significativa) e uma redução não significativa na HbA1c (Sierra et al., 2002).

Silva et al. (2005), em seu estudo durante 2 semanas sobre o efeito da dieta com a fibra do farelo de arroz integral, em pacientes diabéticos, em tratamento com insulina, agentes hipoglicemiantes ou controlados com dieta, mostraram que o valor médio das glicemias de jejum e pós-prandial foi reduzido (p < 0,001) quando submetidos a dieta com 40 g da fibra em estudo.

A alta ingestão de fibras dietéticas (50 g) em pacientes DM2 durante 6 semanas estudada por Chandalia et al. (2000) mostraram uma diminuição significativa (p = 0,04) na concentração média de glicose plasmática e uma leve redução dos valores de HbA1c (p = 0,09).

Nenhuma diferença significante (p = 0,09) na média da glicose basal antes e após 3 meses de suplementação dietética com goma guar em pacientes com DM2 foi encontrada por Figueiredo et al. (2006). Todavia, aumentos significativos foram observados (p < 0,001) nos níveis de HbA1c durante o estudo. Magnoni et al. (2008), também não verificaram alterações significativas nos níveis de glicose basal e HbA1c (p = 0,056 e 0,569, respectivamente) em seu estudo de 12 semanas com pacientes diabéticos.

Os efeitos benéficos das fibras solúveis na atenuação da dislipidemia têm sido relatados em diversos estudos, tanto em animais (Junqueira-Guertzenstein & Srur, 2002; Behall et al., 2004; Artiss et al., 2006) quanto em humanos (Chandalia et al., 2000; Jenkins et al., 2005; Ramos et al., 2007). Todavia, em outros estudos esses efeitos não foram totalmente comprovados, portanto faz-se necessário um aprofundamento maior sobre seus benefícios.

Considerando o perfil lipídico, não foi observado redução dos níveis de colesterol total e colesterol LDL nos pacientes ao longo deste estudo, entretanto, houve redução nos níveis de TG e aumento do colesterol HDL nos mesmos. Mercanlingil et al. (2007), em seu trabalho avaliando o efeito de dietas enriquecidas com avelã (β-sistosterol e fibras solúveis) sobre os níveis do colesterol total e suas frações, em homens hipercolesterolêmicos, verificaram que após oito semanas houve redução do TG e aumento do colesterol HDL, sem diminuição do colesterol total e do colesterol LDL.

Diante dos achados conclui-se que os níveis glicêmicos dos pacientes após o uso da farinha da casca de maracujá amarelo são compatíveis de uma ação positiva no controle da glicemia como adjuvante das terapias convencionais em diabéticos, e que sua ação pode ser percebida logo nos primeiros meses de uso.

 

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Recebido 30 Setembro 2008
Aceito 9 Novembro 2008

 

 

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