Open-access Caso 6/2004

CORRELAÇÃO CLÍNICO-CIRÚRGICA

Caso 6/2004 - Serviço de Cirurgia Cardíaca Pediátrica - Hospital de Base da Faculdade Estadual de Medicina de São José do Rio Preto

Ulisses Alexandre Croti; Domingo Marcolino Braile; Harold Gonzalez Murilo; André Luis de Andrade Bodini

Endereço para correspondência

DADOS CLÍNICOS

Criança de cinco meses, nascida de parto normal, 3325g, sexo masculino, procedente de Limeira, São Paulo. No berçário apresentou dificuldade respiratória e cianose às mamadas, as quais persistiram nos meses subseqüentes. Há 20 dias com tosse produtiva e piora do padrão respiratório. Durante internação para tratamento de pneumonia, foi observado sopro cardíaco, sendo encaminhado para tratamento especializado. MEG, corado, afebril, desidratado, cianótico e agitado. Rítmico, hiperfonese de segunda bulha, sopro sistólico ++/6 regurgitante em borda esternal esquerda média e ejetivo em borda esternal direita. Pulmões com murmúrio vesicular presente e simétrico, roncos bilateralmente. Abdome globoso, fígado a 3 cm do rebordo costal direito. Pulsos periféricos palpáveis, porém diminuídos em membros inferiores e superior esquerdo. Saturação periférica de 60%.

ELETROCARDIOGRAMA

Ritmo sinusal, eixo elétrico do complexo QRS + 90º. Onda P positiva em D1 e AVF apiculada, com sobrecarga atrial direita. Intervalo P-R 0,24. QRS apresentando V1 com RR', denotando bloqueio incompleto de ramo direito. V5 e V6 com R amplo e V1 com S profundo, indicando grande sobrecarga ventricular esquerda.

RADIOGRAMA

Índice cardiotorácico de 0,64. Levocardia com aumento de área cardíaca à custa do ventrículo esquerdo. Proeminência vascular pulmonar.

ECOCARDIOGRAMA

Situs solitus em levocardia. Conexões veno-atrial e atrioventricular concordantes. Conexão ventrículo-arterial tipo dupla via de saída de ventrículo direito. Comunicação interventricular perimembranosa subpulmonar de 10 mm. Hipoplasia do istmo aórtico, com o arco medindo 11 mm, artérias carótida e subclávia esquerda com 5 mm, aorta após subclávia esquerda com 3mm. Forame oval patente. Ao Doppler havia gradiente entre o ventrículo direito e o tronco pulmonar de 35 mmHg.

DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL

Devem ser lembradas a transposição das grandes artérias com comunicação interventricular, a tetralogia de Fallot, o truncus arteriosus e as cardiopatias com fisiologia univentricular.

DIAGNÓSTICO

Devido às associações foi realizado estudo cineangiocardiográfico, o qual confirmou o diagnóstico de Taussig-Bing heart, com dupla via de saída do ventrículo direito, aorta anterior e pulmonar posterior ("vasos em transposição"). Comunicação interventricular subpulmonar. Coarctação de aorta pré-ductal importante com hipoplasia de arco aórtico. As medidas pressóricas do ventrículo direito foram 110/15 mmHg e a média do tronco pulmonar de 70 mmHg.

OPERAÇÃO

Toracotomia mediana transesternal (Figura 1). Instituição do auxílio de circulação extracorpórea com hipotermia profunda a 18ºC. Cardioplegia sangüínea, anterógrada, intermitente, hipotérmica a 4ºC. Dissecção ampla dos ramos pulmonares e vasos da base até a aorta descendente. Ligadura e secção do canal arterial. Secção da artéria subclávia esquerda e toda a região hipoplásica do arco aórtico. A aorta descendente foi anastomosada término-terminal ao arco aórtico, próximo ao tronco arterial inominado. Abertura do átrio direito, fechamento de grande comunicação interventricular, via atrial, com placa de pericárdio bovino. Iniciada a operação de Jatene [1] com secção da aorta e tronco pulmonar, este era dilatado sendo reduzido para adequação ao diâmetro da neoaorta. Retirados os óstios coronarianos esquerdo e direito, os quais foram reimplantados na neoaorta. Feita a manobra de Lecompte [2], reconstruídas a neoaorta e a neopulmonar. Fechado o forame oval, átrio direito. Fechamento de tórax e implante de cateter de diálise peritoneal. O tempo de perfusão foi de 207, isquemia miocárdica de 171 e de parada circulatória total de 16 minutos. No pós-operatório imediato, o paciente evoluiu com insuficiência renal, necessitando diálise peritoneal por quatro dias. Permaneceu na unidade de terapia intensiva por 10 dias, recebendo alta hospitalar no 23º dia. Seis meses após a operação, o ecocardiograma demonstrou ausência de defeitos residuais, estando o paciente em grau funcional I (NYHA) e em uso exclusivo de diurético.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. Jatene AD, Fontes VF, Paulista PP, Souza LC, Neger F, Galantier M et al. Anatomic correction of transposition of great vessels. J Thorac Cardiovasc Surg 1976;72:364-70.

2. Lecompte Y, Neveux JY, Leca F, Zannini L, Tu TV, Duboys Y et al. Reconstruction of the pulmonary outflow tract without prosthetic conduit. J Thorac Cardiovasc Surg 1982;84:727-33.

Artigo recebido em junho de 2004

Artigo aprovado em julho de 2004

  • Endereço de correspondência
    Ulisses Alexandre Croti
    Hospital de Base - FAMERP - Av. Brigadeiro Faria Lima, 5416
    CEP 15090-000 - São José do Rio Preto - São Paulo
    E-mail:
  • Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      11 Set 2007
    • Data do Fascículo
      Set 2004
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