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Psicologia: Reflexão e Crítica

Print version ISSN 0102-7972

Psicol. Reflex. Crit. vol.13 n.1 Porto Alegre  2000

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-79722000000100014 

A influência de filmes violentos em comportamento agressivo de crianças e adolescentes

Paula Inez Cunha Gomide 1  2
Universidade Federal do Paraná

 

 


Resumo
Teóricos da Aprendizagem Social salientam que as pessoas comportam-se de maneira similar a modelos que avaliam com alto status social ou de sucesso. Esta pesquisa foi realizada para avaliar a influência de filmes violentos em comportamento agressivo tanto de crianças como de adolescentes. O experimento I estudou 360 adolescentes, de ambos os sexos, em quatro grupos, um controle e três que tiveram seus comportamentos agressivos, medidos em jogo de futebol, após assistirem a filmes violentos, com e sem herói e não violento. O experimento II registrou os comportamentos agressivos de 160 crianças, dos dois sexos, em jogo de futebol, antes e após assistirem a filme violento e não violento. Os resultados mostraram que o comportamento agressivo das crianças e adolescentes do sexo masculino aumentou após assistirem a um filme violento, com herói, o mesmo não ocorreu com as mulheres. Porém, quando a violência refletiu abuso físico, psicológico ou sexual houve um aumento significativo do comportamento agressivo em adolescentes dos dois sexos. Essa última variável, apesar dos correlatos positivos com comportamento antisocial precisa ser melhor investigada.
Palavras-chaves: Filme violento; comportamento agressivo; crianças e adolescentes.

The influence of violent films on children’s and adolescents’ aggressive behavior

Abstract
Social learning authors pointed out that people behave in a way to imitate the pattern which they evaluate as having high social status or success. The present research was designed to assess the influence of violent films on children and adolescents’ aggressive behavior. Experiment I studied 360 adolescents, of both genders, in four groups: one was a control group and the other three watched violent films, with and without a hero, and a nonviolent film. Aggressive behavior was measured in a football game after they had watched the films. Experiment II recorded the aggressive behavior of 160 children, both genders, during a football game, before and after watching a violent and a nonviolent film. The results showed that aggressive behavior of male children and adolescents increased after they had watched the violent film with a hero. This effect was not observed with females. Still, when violence involved sexual, psychological, or physical abuse there was a significant increase in aggressive behavior of both genders. This variable showed positive correlations with antisocial behavior and needs more investigation in the future.
Keywords: Violent films; aggressive behavior; children and aolescents.


 

 

A sociedade moderna convive, diuturnamente, com grupos de seres humanos que apresentam altos índices de agressividade. Antropólogos, filósofos, psicólogos e cientistas sociais têm se debruçado sobre a questão da agressividade humana, investigando, principalmente, a sua natureza (Gomide, 1997). Inata ou aprendida? Esta questão foi formulada no início do século, na tentativa de orientar os estudos sobre a agressão, e permeou as principais investigações sobre o tema. Teóricos aqui representados por Bandura e Iñesta (1973/1975), Bowlby (1969, 1973), Eibl-Eibsfeldt (1970, 1989), Hinde (1974), Lorenz (1966), Montagu (1971, 1978) e Skinner (1969) entre outros, chamam a atenção para a influência de determinadas circunstância ambientais para o desenvolvimento do comportamento agressivo. A espécie humana é programada, assim como as demais espécies do planeta, para viver harmoniosamente em seu meio ambiente desde que as condições ambientais sejam favoráveis. Alterando-se o habitat natural do ser humano, através da privação de alimento ou espaço, da retirada do afeto ou dos cuidados parentais, ou provocando dor, física ou psicológica, em seu organismo, pode-se produzir um indivíduo com altos índices de agressividade quando comparado com outro que vive em ambiente favorável. As pesquisas, na área da agressão, têm demonstrado o aumento da agressividade dos indivíduos, humanos e de outras espécies animais, quando estimulações aversivas, com alto grau de violência, são apresentadas aos participantes em estudo, (Azrin, Hutchinsone & Mclaughlin, 1965; Bandura & Iñesta, 1973/1975; Berkowitz & Alioto, 1973; Eron, Lefkowitz, Huesmann & Walder, 1972; Meddnick, Brenannan & Kandel, 1988; Stiffman, Dore & Cunningham, 1966; Tulloch, 1995; Widom, 1989; Worchel, Hardy & Hurley, 1976). Da mesma maneira, têm se encontrado aumento da agressividade, quando os indivíduos são criados sem afeto, isolados socialmente, negligenciados (Bowlby, 1969, 1973; Harlow & Harlow, 1962), ou ainda, quando sofrem abuso, físico, sexual ou psicológico, na infância (Widom, 1989).

As duas principais causas de mortalidade do mundo moderno, segundo Rosenberg e Fenley (1991) têm sido as doenças infecciosas e a violência. Entre os adolescentes, das cinco principais causas de mortalidade três estão relacionadas à violência: ferimento, homicídio e suicídio, e na classe de adolescentes negros é a violência a principal causa de mortalidade.

A American Psychological Association (APA; http://www.apa.org ) publicou um relatório informativo, de 1985, abordando os principais estudos e conclusões realizados sobre os perigos, em crianças e adolescentes, de assistir a filmes violentos. As pesquisas psicológicas mostraram três grandes efeitos dos filmes violentos, a saber: 1) crianças e adolescentes podem tornar-se menos sensíveis a dor e ao sofrimento dos outros. Aqueles que assistem muitos programas violentos são menos sensíveis a cenas violentas do que aqueles que assistem pouco, em outras palavras, a violência os importuna menos, ou ainda, consideram, em menor grau, que o comportamento agressivo está errado; 2) crianças e adolescentes podem se sentir mais amedrontados em relação ao mundo ao seu redor. A APA relata que programas infantis têm vinte cenas violentas a cada hora, permitindo que crianças que vêm muita TV pensem que o mundo é um lugar perigoso; 3) crianças e adolescentes podem, provavelmente, se comportar de maneira agressiva ou nociva em relação aos outros, ou seja, comportam-se de maneira diferente após assistirem a programas violentos em TV. Além disso, crianças que assistem desenhos animados, mesmo considerando-os engraçados, têm maior probabilidade de bater em seus companheiros de jogos, desobedecer regras, deixar tarefas inacabadas, e estão menos dispostas a esperar pelo que desejam, do que as que não assistem a programas violentos.

A revista Veja realizou nos meses de maio e junho de 1997 uma pesquisa a respeito da insatisfação dos pais e mães frente à televisão brasileira (Valladares, 1997). Foram entrevistadas 180 pessoas de seis cidades brasileiras (Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Recife, Uberlândia e Goiânia). Os resultados mostraram que o maior constrangimento para os pais ocorre quando assistem cenas de sexo, estupro e relações homossexuais com sua família. Além de considerarem as novelas, os filmes e os programas policiais inadequados para crianças, não gostam que seus filhos assistam às cenas de homossexualismo e de uso de drogas. Essa discussão sobre o que é ou não adequado para ser transmitido pelas emissoras de televisão ocorre também em outros países como os EUA, a França e a Argentina. Neste último, por exemplo, houve um acordo entre o governo e as emissoras que durante o horário, das oito horas da manhã até as 20 horas, - chamado horário de proteção ao menor de idade, não seriam transmitidos filmes violentos ou programas com cenas de sexo. Por outro lado, a França obriga, através de lei especial, as emissoras a transmitir um mínimo de três horas semanais de programas educativos (Valladares, 1997).

Muitos estudos têm examinado os diferentes fatores associados com comportamento violento: alguns examinam a influência dos fatores genéticos (Dilalla & Gottesman, 1991) e contribuições fisiológicas (Meddnick, Brenannan & Kandel, 1988); outros têm examinado o baixo desempenho escolar, a baixa auto-estima e a baixa expectativa (Oetting & Beauvais, 1987), ou ainda o uso de substâncias tóxicas (Stiffman, Earls, Dore, Cunningham & Farber, 1996). Há ainda quem analise a influência do ambiente na gênese da violência, focalizando o abuso sexual na infância, relações de família e comunidades violentas (Ropper, 1991). Este último autor, por exemplo, aponta que adolescentes homicidas são mais comumente provenientes de famílias criminalmente violentas e que sofreram abuso sexual na infância. Dois terços dos assassinos tiveram experiência brutal, continua e implacável na infância, segundo Mason (1991).

Entre as variáveis estudadas, uma delas chama especial atenção da sociedade e dos pesquisadores, pois não se inclui entre os chamados comportamentos de risco ou anti-sociais: trata-se dos efeitos de filmes violentos no desenvolvimento de comportamentos agressivos nas pessoas (Azrin e cols., 1965; Bandura & Iñesta, 1973/1975; Berkowitz & Alioto, 1973; Eron e cols., 1972; Friedrich-Cofer & Huston, 1986; Geen, 1990; Iñesta, 1975; Liebert & Sprafkin, 1988; Meddnick e cols., 1988; Snyder, 1991, 1995; Stiffman e cols., 1966; Tulloch, 1995; Widom, 1989; Worchel e cols., 1976).

As perguntas formulada pelos cientistas da área de filmes violentos abordam duas questões: A observação da violência pode tornar as pessoas mais agressivas do que seriam naturalmente? e Em que extensão um comportamento agressivo pode ser influenciado pela observação da violência na mídia? O paradigma básico das pesquisas têm sido a manipulação de vários fatores situacionais e motivacionais antes e após a apresentação de filmes agressivos aos participantes e a oportunidade posterior destes engajarem-se em alguma forma de comportamento agressivo.

A industria cinematográfica começa a retratar delinqüência juvenil em 1930 e, essa prática, continua até os dias de hoje. Jovens de doze a dezoito anos compreendem 40% dos freqüentadores de cinemas americanos, sendo que essa faixa etária corresponde a apenas 19% da população. Os delinqüentes aprovam o estilo de vida antisocial dos filmes e rejeitam os estilos de vida convencionais. O comportamento delinqüente é aprendido em interação com outras pessoas em um processo de comunicação e o processo de aprendizagem do delinqüente ocorre dentro de um grupo íntimo, de acordo com Sutherland e Cressey (1978). Se um filme que representa a delinqüência está consonante com as próprias experiências dos jovens, um alto poder interativo poderá ocorrer com o delinqüente, ou futuro delinqüente. Dois processos podem ser desencadeados, segundo Snyder (1995), o da desinibição e o da dessensibilização. Para este autor, desinibição é um fenômeno que ocorre quando atos violentos, em filmes, são percebidos como justificáveis aumentando comportamentos agressivos de quem os assiste em uma situação posterior e dessensibilização é quando, jovens predispostos a aceitar comportamento delinqüente em outras pessoas, podem aumentar o seu próprio índice de comportamento agressivo, após breve exposição a cenas violentas e tal atitude de aceitação pode ser até mesmo maior do que a de jovens que se comportam agressivamente contra outros.

Aprendizagem Social

Os estudos de laboratório de Bandura e Iñesta (1973/1975) fornecem um interessante modelo teórico para explicar a aprendizagem por observação. Participantes aprendem a se comportar agressivamente a partir de observação de um modelo que é reforçado pelo seu comportamento agressivo. A maioria dos heróis de filmes violentos (Stallone, Van Dame, Bruce Lee, etc.) justificam seu comportamento violento por estar em defesa de valores sociais ligados à família, governo, território, etc. Essa justificativa permite que participantes, após assistirem muitas horas de programas violentos, deixem de considerar aqueles comportamentos agressivos como desviantes, e passem a aceitá-los como maneira apropriada para resolver problemas da vida real. O efeito da violência da televisão na agressão é relativamente independente de outros fatores tais como status social do observador, aspirações, prática religiosa, etnia e desarmonia entre os pais, diz Eron e colaboradores (1972).

A teoria da aprendizagem social postula que os valores e as condutas anti-sociais dos adultos e companheiros vêm servir como normas a serem seguidas, as quais serão imitadas pelos delinqüentes em potencial. Sarason (1968) afirma que a conduta social aceitável e muitos desvios às normas comumente se explicam em razão dos tipos de informação a que o indivíduo têm acesso e a importância dada a essas informações. Por exemplo, os adolescentes que não acreditam na possibilidade de obter o que desejam por meios legítimos talvez sucumbam à tentação de utilizar táticas anti-sociais para expressar seu descontentamento ou para obter o que desejam. Diz o autor, que "já os psicopatas, apesar de conhecerem o Certo e o Errado, utilizam-se de quaisquer meios para atingir seus fins." (p. 256)

Essa linha de pesquisa demonstra que uma maneira da violência na mídia influenciar a agressão é ensinando novas respostas agressivas através do processo de aprendizagem observacional. A violência que é apresentada como moralmente justificada, onde a vítima merecia ser atacada, elicia comportamento agressivo, enquanto que violência não justificada não têm efeito ou pode até mesmo provocar uma inibição da agressão. Foi verificado, também, que quando participantes observam, em filmes, um atentado de vingança fracassado eles tendem a ser menos agressivos em atividade posterior, do que quando a vingança é seguida de sucesso, ou seja, a observação de um ataque de vingança fracassado pode parecer ao participante que a retaliação têm conseqüências punitivas e pode reforçar inibição (Geen, 1990).

Estudos salientam que quando o observador identifica-se com o agressor é mais provável que ele tenha seu comportamento agressivo alterado. As pesquisas de Berkowitz e Alioto (1973) e de Feshbach (1955) têm mostrado que quanto mais semelhante à situação real for a violência na mídia, maior será o aumento da violência. Por outro lado, quanto mais a violência se assemelhar à ficção, menor será o aumento da violência posterior. Estes autores sugerem que crianças que observam violência praticada por crianças ficam mais tolerantes a comportamento agressivo de crianças. Estes estudos relataram que crianças que viram violência na TV manifestaram um aumento na tolerância para atos agressivos quando os testemunharam pela primeira vez. Demonstraram, também, que crianças, filhos de pais agressivos e rejeitadores, são mais agressivas que crianças que vêem filmes violentos.

Pesquisas mostraram resultados alentadores com jovens delinqüentes presos, que após terem sido submetidos a programas, em que tiveram a oportunidade de aprender comportamentos pró-sociais por observação, tornaram-se seres mais adaptados socialmente (Patterson, 1971; Reid, 1975; Sarason, 1968; Sarason & Ganger, 1969).

Skinner (1969) afirma que a agressão filogenética poderá reduzir-se ao mínimo diminuindo-se os estímulos eliciadores e desencadeadores da agressão. Afirma o autor que "poderemos construir um mundo onde o mal causado às demais pessoas não tenha nenhum valor de sobrevivência e que, por essa e outras razões, não chegue nunca a funcionar como reforçador. Será por necessidade, um mundo em que os comportamentos não agressivos sejam reforçados abundantemente com base em programas eficazes." (p. 216)

A literatura da área tem encontrado, consistentemente, que homens imitam mais comportamento agressivo que mulheres (Bandura & Iñesta, 1973/1975; Strasburger, 1999). Existe uma socialização diferencial entre meninos e meninas. Muito cedo, as meninas aprendem que a agressão física é um comportamento indesejável para meninas e, então, adquirem comportamentos mais compatíveis e esperados para o seu sexo. Uma das hipótese levantadas para a não violência em mulheres diz respeito a expectativa de sucesso do comportamento violento. As garotas têm maior expectativa negativa de resultados de seus próprios atos agressivos do que garotos, de forma que é possível que diferenças comportamentais sejam produzidas por essas diferenças de resultados, com garotas se socializando menos agressivamente. Desde que apresentam baixo índice de comportamento agressivo, consequentemente, recebem pouca punição ou reforçamento para tal comportamento e não se tornam muito responsivas para dicas do ambiente para agressão. Bandura e Iñesta (1973/1975) demonstraram, por outro lado, que quando garotas são reforçadas positivamente por imitar comportamento agressivo elas passam a responder de maneira similar aos meninos. No entanto, há uma taxa muito baixa de violência cometida por mulheres, em programas de TV, de forma que as meninas encontram poucos modelos a imitar.

A pesquisa de Tulloch (1995) revelou que enquanto as mulheres mostram um aumento generalizado da rejeição da violência com a idade os homens respondem aos programas específicos. No esporte há um aumento da tolerância da violência entre os homens a medida que aumenta a idade. Durante a adolescência a perspectiva dos garotos e garotas quanto à violência no esporte fica associada à masculinidade, nos garotos a violência no esporte faz parte da subcultura. Quando a violência estava associada ao seu próprio grupo social os estudantes da classe trabalhadora rejeitaram mais a violência que os de classe média. Estudantes rejeitam as soluções para a agressão doméstica, incluindo estratégias de apaziguamento e não intervenção.

Outras Evidências Experimentais

Estudos longitudinais têm demonstrado uma correlação positiva entre tempo despendido em ver filmes violentos e comportamento agressivo, ao longo de anos (Eron e cols., 1972; Huesmann, 1986). Também os estudos transculturais realizados por Huesmann e Eron (1986) durante três anos, com mais de 1000 jovens do sexo masculino e feminino, em vários países (Finlândia, Polônia, Israel), demonstraram consistência com os dados obtidos nos EUA.

Programas de televisão com forte ênfase em violência interpessoal, em situações de ilegalidade, foram investigados por terem correlação com incitar agressão e ensinar técnicas específicas de comportamento agressivo (Eron e cols., 1972). Em laboratório têm-se demonstrado aparecimento imediato de comportamento agressivo em participantes que presenciaram filmes violentos (Bandura & Iñesta, 1973/1975).

Eron e colaboradores (1972) correlacionaram comportamento agressivo e hábito de assistir a filmes violentos em 427 adolescentes, 211 homens e 216 mulheres, coletando dados, em uma primeira fase aos oito-nove anos e dez anos mais tarde. As medidas utilizadas para medir agressividade foram: taxa de comportamento agressivo atribuída por colegas (peerrated aggression) e preferência por programas violentos na televisão. A preferência pelo programa de TV foi feita perguntando-se às mães e aos participantes qual os três programas preferidos por eles, os quais foram categorizados por juizes independentes, como violentos ou não violentos. Os autores encontraram alta correlação entre comportamento agressivo e preferência por filmes violentos nos meninos. Este efeito, no entanto, não foi observado entre as meninas. Participantes que assistem TV, por muitas horas, e preferem programas violentos não consideram estes comportamentos agressivos como desviantes, mas como formas apropriadas de resolverem problemas.

Tulloch (1995) avaliou respostas alternativas em crianças em função de trechos de filmes que contêm violência institucionalizada. Foram utilizados 1135 participantes com idade média de 9a4m, 12a6m, 15a7m. Seis programas diferentes foram usados como variável independente: um documentário sobre violência policial com trabalhadores; um filme sobre violência no esporte, debatendo a legalidade e ilegalidade deste tipo de violência; uma novela com violência familiar contra a mulher; um episódio de treinamento do exército, com táticas agressivas; um filme sobre guerra do Vietnã e um filme de ficção científica, com tortura de rebeldes. Todos os filmes não classificados como filmes infantis, representando vários países, Austrália, Inglaterra e EUA. Após os filmes os participantes respondiam a um questionário onde se avaliava se eles estavam aceitando ou rejeitando a agressão cometida pelo agressor, pela vítima ou por outro participante. Os resultados indicaram que as violências mais rejeitadas foram aquelas referentes à violência doméstica e as que sofreram menor rejeição foram as apresentadas pelos policiais no documentário. Outro resultado encontrado foi o de que crianças mais velhas rejeitaram mais violência do que as mais novas e que mulheres rejeitaram muito mais do que homens. Quanto ao nível sócio-econômico, as diferenças revelaram que os participantes de nível médio aceitaram menos a violência no esporte, na guerra e na ficção científica do que os participantes da classe trabalhadora e estes rejeitaram mais a violência no documentário.

Worchel e colaboradores (1976), nessa linha, estudaram respostas agressivas seguidas da visão de filmes violentos e não violentos. Os autores usaram 126 participantes universitários, que foram subdivididos em grupos de participantes que assistiram a três tipos de filmes: 1) filme com violência representada, intitulado The Wild One, onde Marlon Brando protagonizava um elemento de uma gang de motoqueiros; 2) filme com violência realística, intitulado Attica, que consiste em um documentário sobre uma prisão; e, 3) filme não-violento: um filme cômico, intitulado Mouse that Roared. Para metade dos grupos de participantes os filmes foram interrompidos periodicamente por conjuntos de comerciais. A medida de agressividade utilizada foi uma avaliação, sobre a assistente de pesquisa, que era feita após o experimento, onde perguntava-se aos participantes se ela deveria ou não ser contratada pela equipe. A assistente cometia três erros durante os procedimentos com objetivo de irritar os participantes. Os resultados confirmaram as predições de que respostas agressivas ficam mais elevadas após assistirem filmes agressivos do que não-agressivos, e as respostas agressivas ficam mais elevadas se os filmes são interrompidos por comerciais, do que quando isto não ocorre. A hipótese dos autores predizendo interação entre filme violento e interrupção por comercial foi confirmada. Nessa pesquisa os comerciais serviram para deixar os participantes mais raivosos e tensos, ou seja, foram utilizados como uma variável instigadora. Os autores sugerem que os comerciais aumentam os efeitos dos filmes violentos pois são uma fonte de frustração e é sabido que uma das variáveis geradoras da agressão é a frustração. Propõem ainda que a estimulação e o modelo são dicas suficientes para eliciar comportamento agressivo. Nenhuma diferença na agressividade foi encontrada quando se apresentou filme realístico ou de violência representada.

Geen (1990) argumenta que a expressão do comportamento agressivo pode ser facilitada pela excitação, ou seja, pelo aumento da estimulação autonômica. Três processos podem ser sugeridos como causas da facilitação do comportamento agressivo pelo aumento da estimulação: 1) a excitação produzida pela observação da violência pode simplesmente elevar o nível geral de atividade da pessoa e fortalecer qualquer resposta inclusive a agressiva; 2) a excitação eliciada pela mídia, principalmente a muito forte, pode ser aversiva para o observador, o que pode estimular agressão da mesma maneira que estímulos aversivos de dor provocam essas respostas; 3) estímulos eliciados por filmes agressivos podem ser um equívoco (mistaken) para a raiva em situação envolvendo provocação, então, produzindo comportamento agressivo motivado pela raiva.

Manipulações experimentais nessa área de pesquisa têm ampla variação incluindo variáveis como a similaridade entre raiva instigada e característica do filme violento, pistas de vítimas de dor e agressão justificada (Geen, 1990). A ligação entre filmes agressivos e aumento da agressividade está estabelecida, para estes autores. Excitação de participantes têm sido acompanhada de uma variedade de maneiras, incluindo induzir raiva. Essas pesquisas (Geen, 1990) têm, consistentemente, demonstrado que participantes estimulados que viram filmes violentos aumentam sua agressividade em relação a participantes não estimulados. Embora esteja claro que filmes violentos aumentam a agressividade de participantes não estimulados, fica evidente que a combinação entre estimulação e assistir a filmes violentos serve para maximizar essas respostas agressivas.

Outro fenômeno interessante para o estudo da agressão gerada pela observação tem sido um efeito chamado de habituação, ou seja, repetidas exposições ao estímulo violento deixam de produzir as respostas de agressão geradas em primeira mão por estes estímulos. O estudo de Geen (1990) mostra que exposições preliminares a cenas violentas em crianças e adultos reduzem a magnitude das respostas subsequentes de condução da pele quando comparados com participantes que foram expostos a filmes não violentos, segundo Geen (1990). O autor também encontrou uma correlação negativa entre quantidade de tempo despendido pelos participantes vendo filmes violentos e respostas de condução da pele. Exposição à violência na TV tem aumentado os níveis de agressão no telespectador, com efeitos a curto e longo prazo, por exemplo, crianças que assistem muitos filmes violentos têm baixos níveis de respostas emocionais medidas por condução da pele e pressão do sangue (Cline, Crofte & Courier, 1973).

Os efeitos de filmes pornográficos pesquisados (Strasburger, 1999) demonstraram que embora a observação de vídeo erótico, não violento, não gere comportamento violento subsequente, cenas que envolvem estupro foram associadas positivamente com aumento de respostas agressivas (liberação de choques em vítima feminina, por exemplo). Isso foi verdade mesmo quando os participantes não tinham motivo para terem raiva da vítima. As cenas pornográficas-agressivas também eliciaram mais agressão contra mulheres do que contra homens. Homens após assistirem filmes com estupro, mostraram maior tendência a estuprarem mulheres do que aqueles que não assistiram a este tipo de filme. Os testes foram feitos através de questionários que perguntaram sobre estupros garantindo que os participantes não seriam punidos por suas respostas. Outros autores, citados em Geen (1990) buscando correlacionar os efeitos de filmes eróticos com comportamento agressivo têm demonstrado que filmes eróticos eliciam um maior número de respostas fisiológicas que filmes agressivos e não violentos, e encontraram que participantes que assistem filmes eróticos são mais agressivos do que os que assistem filmes violentos ou neutros.

Usualmente, os estudos em ambiente natural obtêm seus dados em registros públicos e arquivos (Geen, 1990; Strasburger, 1999), evitando contato direto com os participantes da pesquisa. Em um estudo realizado por William (1986) em uma comunidade no Norte do Canadá que não tinha televisão, os indicadores de violência verbal e física foram verificados antes e depois da introdução da televisão. Comparando com outras comunidade que não tinham televisão, William encontrou um aumento significativo de respostas verbais e físicas de agressão. O autor concluiu que o aumento da agressão estava associado à introdução da televisão. Outro resultado relatado pelo mesmo autor mostrou uma correlação positiva entre a incidência de suicídio e o relato do mesmo pela imprensa, ou seja, a incidência aumentava imediatamente após um suicídio ter sido relatado pela imprensa, alcançando o ponto máximo durante o mês subsequente à reportagem.

Widom (1989) analisou os efeitos de observação e testemunho de comportamento violento no desenvolvimento do comportamento agressivo. Seus resultados salientam que ser testemunha de violência dos pais ou assistir à extrema violência na TV podem causar sérias conseqüências às crianças. Straus, Gelles e Steinmetz (1975) dizem que a quantidade de violência experenciada na infância por membros da sociedade é um dos fatores que contribuem para o desenvolvimento e manutenção das normas culturais que suportam o uso da violência no dia-a-dia. Este autor sugere que a criança que é testemunha de violência no lar (mães que são espancadas pelos maridos) além de sofrer em conseqüência dessa experiência, convivem também com o stress da mãe.

Agressão Pró-Social versus Comportamento Pró-Social

Ver um ato de agressão como um momento de descontrole do indivíduo é ignorar as características sociais violentas do século XX, de acordo com Tulloch (1995). Por outro lado, aceitar o conceito de violência institucionalizada reconhecendo que essa ocorre em função das estruturas da sociedade é legitimar socialmente a violência. Ataques de policiais a greves de trabalhadores, a tortura de políticos de oposição, o uso de treinamentos agressivos em recrutas do exército são exemplos de violência protegidas socialmente. A violência no esporte precisa também ser entendida em termos das estruturas sociais, das normas e papéis nas quais a violência é inaceitável e em que outros contextos é legitimada ou ao menos tolerada.

Agressão pró-social é definida por Tulloch (1995), como "aquela cujos caminhos e propósitos são socialmente aprovados e aceitos dentro dos padrões morais de um grupo." (p. 98). Inevitavelmente, perceber a agressão como pró-social é parte da compreensão de cada um diante do mundo e as percepções individuais são profundamente influenciadas pela idade, sexo, classe social e etnia. Neste sentido, Tulloch (1995) ressalta que, em vez de se concluir que TV inculta aceitação da violência, deve-se pensar que o telespectador pode diferir em como ele interpreta o que vê e como isso afeta seus construtos sociais. Um dos aspectos da construção do observador do seu mundo é o seu sistema de crenças e valores morais. Kohlberg (1963) sugere que o desenvolvimento moral depende das mudanças que ocorrem com a idade. Crianças pequenas tendem a avaliar o certo ou errado dependendo da punição ou reforçamento que o comportamento recebe. Enquanto homens vêem moralidade em termos de obrigação e responsabilidade, mulheres, provavelmente, vêem as questões morais em termos de valores interpessoais de cuidados e verdade, considerando, a não violência em si, como um princípio moral em estágios avançados. Vítimas, por sua vez, percebem uma ação como agressiva se acreditam que o agressor têm uma alternativa disponível na qual poderia ser menos violento. A disponibilidade das opções comportamentais pode ser aplicada não somente para o agressor, mas também para a vítima e outros participantes.

Os filmes fazem parte do processo global de socialização dos jovens e seus efeitos pró-sociais não podem ser ignorados. Filmes podem auxiliar escolas, famílias na educação sobre a fenomenologia da delinqüência juvenil. Adolescentes sozinhos podem usufruir da instrução em habilidades sociais. Filmes podem, também, ser empregados para fornecer exemplos apropriados ou aberrantes para uma grande variedade de situações sociais. Podem fornecer modelos apropriados ou inapropriados em uma larga variedade de situações. Podem, inclusive, ser utilizados para tratamentos, fornecendo exemplos de comportamento desejável em confrontação com o indesejável ou anti-social. Comportamentos pró-sociais como altruísmo, controle de impulsos agressivos, aguardo por gratificação, reparação de maus comportamentos, resistência à tentação, simpatia, aumentam com a exposição de jovens a certos programas de TV (Liebert & Sprafkin, 1988). Estes autores definem comportamento pró-social como aquele comportamento que pode ajudar o indivíduo ou a sociedade através do altruísmo e autocontrole, como uma gratificação posterior.

A televisão tem sido apontada como uma importante fonte de informação capaz de promover a internalização de valores agressivos, que incluem respostas agressivas e suas prováveis consequências. Freqüentemente boas ações violentas, justificadas socialmente, com motivações pró-sociais são avaliadas mais positivamente do que agressão instrumental ou hostil. Um perigo de tais instruções cognitivas de papéis é que delinqüentes poderão simplesmente aprender alguns caminhos mais efetivos de atos delinqüentes. É preciso que a aprendizagem social seja combinada com o desenvolvimento de mais motivos pró-sociais e aumento dos níveis de razões morais. Por outro lado, televisão não só mostra violência como sucesso, mas também fornece informação sobre se a ação é louvável ou depreciável (Snyder, 1995). Em contrapartida quando crianças, após assistirem filmes violentos, recebem orientação dos pais para comportamentos alternativos e/ou não-violentos, aos problemas apresentados nos filmes, apresentam níveis bem mais baixos de respostas agressivas, quando comparadas às crianças que não receberam orientação. Participantes que assistem filmes com final feliz têm menor nível de excitação e menor agressividade, do que aqueles que vêm filmes com finais trágicos.

Evidências recentes (Patterson, Reid & Dissihion, 1992; Stoff, Breiling & Maser, 1997) sugerem que o uso da agressão para resolver problemas sociais começam na infância, ou seja, quanto mais agressiva for enquanto criança mais, provavelmente, agressivo se tornará como adulto (Patterson, 1971). A questão central que ainda predomina é: Qual o grau de previsibilidade que a agressividade na infância tem para o adulto criminoso? Novamente, as pesquisas revelam uma alta correlação entre o comportamento agressivo instalado até a idade de oito anos e a manutenção do mesmo em idades que giram em torno dos trinta anos, especialmente para meninos (Strasburger, 1999).

Catarse

Nos seres humanos, a participação direta na violência pode ser menos reforçadora que a observação dela ou de seus efeitos. Por exemplo, a luta de boxe, as brigas de galo ou de cachorros, as touradas, as lutas entre gladiadores, sempre atraíram multidões de espectadores entusiasmados. Alguns teóricos como Keehn (1975) afirmam que a observação da agressão suprime a participação real em eventos agressivos. Outros (Bandura & Iñesta, 1973/1975) argumentam que a observação da agressão estimula a emissão do comportamento agressivo. Feshbach (1955) desenvolveu uma teoria sobre a catarse na qual propunha que a expressão simbólica ou lei vicária da agressão poderia reduzir a probabilidade da agressão subsequente quando instigada.

Aristóteles (Trad. 1989), em sua obra Poética (Aristotles Poetics, s/d), acreditava que o ser humano ao assistir cenas agressivas liberava sua agressividade realizando uma catarse. Os psicanalistas, por outro lado, consideram que para ocorrer o processo catártico é preciso vivenciá-lo, em situação protegida, como em uma sessão de psicanálise, por exemplo. No modelo aristotélico, então, a catarse se dá através de uma experiência vicária das reações emocionais exibidas pelos modelos sociais, enquanto que no modelo freudiano, a catarse permite ‘a pessoa expressar por si mesma sua conduta emocional em suas fantasias, jogos ou mesmo na vida real (Bandura & Walters, 1963).

Caso Aristóteles estivesse correto em sua hipótese da catarse, estimular crianças consideradas agressivas a assistirem programas violentos de TV poderia vir a diminuir seus níveis de comportamento agressivo. Entretanto, os dados de pesquisa realizados nas últimas décadas apontam em direção oposta. Bandura e Walters (1963) afirmam que as provas obtidas em estúdios indicam que a participação direta ou vicária, em atividades agressivas, não reduzem a freqüência deste tipo de comportamento, ao contrário, podem aumentá-los. Segundo Bandura e Walters (1963), estudos realizados com crianças que observam modelos agressivos têm demonstrado, invariavelmente, um aumento do comportamento agressivo do participante sempre que a conduta do modelo tenha conseqüências gratificantes ou não punitivas. Os mesmos autores demonstraram que caso um terapeuta empregue o princípio da redução da energia agressiva através da observação de modelos se comportando agressivamente, para tratar crianças consideradas muito agressivas, é muito provável que exponha a criança a aprendizagem vicariante da conduta que tenta eliminar com o tratamento.

Também em situação natural há indicadores de que espectadores de esportes agressivos, freqüentemente tendem a ser mais hostis e ter menos experiência de afeto como resultado. Como no caso dos filmes violentos os estudos sobre espectadores de esportes violentos oferecem pequena evidência para a teoria da catarse simbólica. Goldstein (1984), utilizando uma escala de hostilidade, encontrou que espectadores de futebol apresentaram índices de hostilidade maior após assistirem ao jogo do que antes do jogo, isso não ocorreu com espectadores de natação. Estes dados também revelam que não há relação entre a raiva existente e a perda do jogo.

Resultados consistentes (Strasburger, 1999) indicam que, contrariando as pesquisas de Feshbach (1955) sobre catarse, assistir a filmes violentos tende a aumentar o comportamento agressivo dos participantes. Investigações da teoria da aprendizagem (Bandura & Iñesta, 1973/1975) têm desaprovado a teoria da catarse, originalmente concebida em 1950.

Críticas

Geen (1990) chama atenção para a cautela que se deve ter ao generalizar estes resultados em função de que os experimentos têm sido feitos em situação artificial, além de que, em alguns deles, foram usados segmentos de filmes, e não filmes inteiros. Este autor, sugere, contrariando os achados de Worchel e colaboradores (1976), que comerciais diminuiriam os efeitos dos filmes violentos sobre os participantes.

Teóricos da comunicação (Hodge & Trip, 1986; Murdock, 1982), citados em Tulloch (1995) têm criticado psicólogos por ignorarem o contexto político e social no qual o comportamento agressivo ocorre. Analistas da comunicação legitimam certos tipos de controle social, e neste contexto se encontra a maioria dos teóricos interessados em defender a violência na TV. Tais trabalhos (Hall, Critchter, Jefferson, Clarke & Roberts, 1978, citados em Tulloch, 1995), no entanto, examinam textos culturais com um mínimo de estudos empíricos de interpretação da audiência. Enquanto psicólogos medem comportamento individual teóricos da comunicação trabalham basicamente sobre textos, de maneira que, diz Tulloch (1995), enquanto ambos considerarem que o observador é passivo diante das mensagens transmitidas pelos programas, ficam impossibilitadas as interpretações interdisciplinares sobre o tema. Já se ambos estudassem a maneira pela qual as pessoas avaliam a TV, psicólogos e comunicólogos, criariam potencialmente caminhos complementares de entendimento. Uma abordagem interdisciplinar para a violência e comunicação poderia começar por reconhecer que indivíduos não reagem automaticamente ao estimulo ambiental, mas respondem com base na compreensão e interpretação. De modo contrário, as estruturas sociais e culturais não são reproduzidas sem a participação ativa do indivíduo (Tulloch, 1995).

Críticos aos estudos que constatam a influência de filmes violentos sobre o comportamento agressivo (Snyder, 1991, 1995) propões que as medidas de agressão não são feitas em situação real. Isso em função de que muitos estudos foram realizados utilizando aparelhos de agressão, onde os participantes liberavam choques a outras pessoas após terem assistidos os filmes selecionados. Este tipo de medida de agressividade demonstrou que participantes que viam filmes violentos liberavam mais choques a outras pessoas do que os que viam filmes construtivos (Walters & Tomas, 1963) .

A Pesquisa

A literatura até aqui apresentada, via de regra, utiliza-se de entrevistas com os próprios participantes, com professores, colegas e pais para avaliar os índices de agressividade. Este trabalho pretende testar um método alternativo, mais objetivo, que dependa, em menor grau, da subjetividade do participante e do pesquisador. Procurou-se uma atividade que pertencesse ao cotidiano das crianças e adolescentes e na qual o comportamento agressivo estivesse naturalmente presente. Estas condições foram encontradas no jogo de futebol de salão. Os comportamentos emitidos pelos jogadores foram categorizados e utilizados como a variável dependente deste estudo.

Dois experimentos foram programados para avaliar a influência de filmes violentos em comportamento de crianças e adolescentes. O Experimento I, feito com adolescentes de ambos os sexos, utilizando grupo controle, comparou três tipos de filmes: a) violento com herói; b) documentário de violência de um grupo de adolescentes; e, c) filme cooperativo. O Experimento II, feito com crianças de ambos os sexos, utilizando o participante como seu próprio controle, comparou a taxa de comportamento agressivo, antes e depois de assistirem a filmes violentos e não violentos. Ambos experimentos utilizaram como medida de agressividade os comportamentos agressivos emitidos em jogo de futebol.

 

Método

Experimento I

Participantes

A amostra foi constituída de 160 sujeitos, 80 adolescentes do sexo masculino e 80 do sexo feminino, alunos de escola pública, com idade variando entre catorze e dezesseis anos. O grupo de 80 adolescentes do sexo masculino foi subdividido em quatro, com vinte participantes em cada um deles. Cada grupo de vinte foi submetido a uma das condições experimentais: Grupo I - filme violento com herói: TimeCop - O Guardião do Tempo; Grupo II - documentário de violência com adolescentes, intitulado Kids; Grupo III - filme cooperativo, intitulado Águas Perigosas; Grupo IV - grupo controle. O mesmo aconteceu com o grupo das 80 adolescentes do sexo feminino.

Materiais

Medidas de agressividade

Foram registrados os seguintes comportamentos agressivos: a) Agarrar: segurar com uma ou ambas as mãos parte do corpo do adversário impedindo o seu movimento; b) Chutar: bater com o pé no corpo do adversário provocando o deslocamento do mesmo; c) Cotovelada: bater com um dos cotovelos no corpo do adversário provocando o deslocamento do mesmo; d) Discutir: falar em qualquer tom de voz discordando ou reivindicando com seu companheiro, adversário, técnico ou juiz; e) Empurrar: deslocar o corpo do adversário utilizando-se da parte superior de seu corpo - mãos, braços, ombro; f) Puxar a camisa: pegar a camisa do adversário provocando o deslocamento da camisa, impedindo ou não o movimento do adversário; g) Rasteira: colocar o pé ou perna junto ao corpo do adversário, provocando queda do mesmo ou perda do seu equilíbrio; e, h) Xingar: dizer palavrões, em qualquer tom, para uma pessoa ou sem participante definido.

Filmes utilizados

TimeCop - O Guardião do Tempo: Van Dame, o ator, representa um policial responsável por cuidar da "máquina do tempo", no ano 2020. Entretanto, um político corrupto consegue voltar no tempo elegendo-se presidente dos EUA. O guardião do tempo é o único que têm consciência do acontecimento e precisa lutar contra todos para restabelecer a lei no país.

Kids: o filme é um documentário que reflete os pensamentos e atitudes de um grupo de adolescentes, que usam drogas, trocam de parceiros sexuais indiscriminadamente, disseminam o vírus da AIDS, são abusados e abusam sexualmente de outros.

Águas Perigosas: um grupo de quatro adolescentes vai passar as férias acampando, acompanhados por um guia. Mesmo apresentando personalidades diferentes, o grupo aprende a agir como equipe ao se deparar com uma difícil situação, onde uns precisam cooperar com os outros para solucionar o problema.

Procedimentos

Os participantes formaram quatro times, com cinco jogadores em cada um, que jogaram futebol por um período ininterrupto de trinta minutos. Cada participante foi observado por seis minutos em intervalos alternados (1º, 6º, 11º, 16º, 21º, e assim por diante). Os comportamentos do goleiro não eram registrados. As observações ocorreram em esquema de registro de intervalo a cada dez segundos (10"). Dois participantes foram observados simultaneamente por duas duplas de observadores. Os participantes do grupo controle foram diretamente para o jogo de futebol de salão sem assistirem a qualquer filme. Os times eram formados por participantes do mesmo sexo, que jogavam sempre com participantes do seu próprio sexo.

Experimento II

Participantes

A amostra foi constituída por 160 crianças, 80 do sexo masculino e 80 do feminino, com idade variando entre nove e onze anos, da terceira e quarta séries do Ensino Fundamental, de uma Escola Estadual. Metade dos participantes, portanto 80 crianças (40 meninos e 40 meninas) assistiram a um filme violento (Mortal Kombat) e a outra metade a um filme não-violento (Babe, Um Porquinho Atrapalhado).

Materiais

Filmes utilizados

Mortal Kombat: Liu, o protagonista, vai a Hong Kong para vingar a morte do seu irmão e participar de um torneio, chamado combate mortal (Mortal Kombat), onde terá a chance de matar o assassino de seu irmão e salvar o mundo. John Cage e Sônia também são lutadores e os três foram escolhidos para lutar contra o inimigo Shang Tsung. Um deles salvará o mundo. Durante o torneio, os lutadores enfrentam seus medos, tornam-se amigos, conseguem derrotar o inimigo e salvar a Terra.

Babe, Um Porquinho Atrapalhado: Babe é um porquinho que vive em uma fazenda com vários animais, entre eles cães pastores e várias ovelhas. Vive sob os cuidados dos cães e acredita ser um deles. O fazendeiro percebe que Babe é diferente e inscreve-o em um campeonato de cães pastores. Todos duvidam de sua capacidade, mas Babe pede a colaboração das ovelhas, conseguindo organizá-las e ganha a competição.

Medidas de agressividade

Foram utilizadas as mesmas medidas de agressividade do Experimento I.

Procedimentos

Os comportamentos agressivos dos participantes foram medidos, em um jogo de futebol de salão, antes (pré-teste) e depois (pós-teste) de assistirem a um dos dois filmes programados (Mortal Kombat ou Babe, Um Porquinho Atrapalhado). Essas três atividades ocorriam num mesmo dia, em seqüência, uma após a outra, em um tempo total de aproximadamente três horas, para cada grupo. Os times eram formados por cinco componentes e o tempo de jogo era de quinze minutos (15’), em cada sessão de pré- ou pós-teste. Os comportamentos agressivos eram observados e registrados a cada intervalo de dez segundos (10"), durante todo o jogo, por observadores treinados. Os times eram formados por participantes do mesmo sexo, que jogavam sempre com participantes do seu próprio sexo.

 

Resultados

Experimento I

O Experimento I refere-se ao estudo realizado com os adolescentes, de ambos os sexos, que foram subdivididos em quatro grupos experimentais, sendo três em função dos filmes e um grupo controle. Os dados referentes a este estudo foram analisados através da estatística do teste t de Student.

A Figura 1 apresenta a comparação entre as médias dos comportamentos agressivos durante um jogo de futebol de salão para os dois sexos. A primeira análise demonstrou que em dois grupos experimentais as diferenças entre os sexos foram significativas, ou seja, após assistirem aos filmes Time Cop e Kids (t= -2,17; p=0,05 e t =-2,09; p=0,05, respectivamente, gl=19) os adolescentes do sexo masculino apresentaram comportamentos agressivos superiores aos índices apresentados pelas adolescentes do sexo feminino. Porém no que se refere, tanto ao grupo controle (t= -1,9; p= 0,01; gl=19), como aos participantes que assistiram Águas Perigosas (t= -1,14; p= 0,3; gl=19), a média dos comportamentos agressivos para homens e mulheres foi semelhante.

 

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Em seguida, foram comparadas as médias dos comportamentos agressivos do grupo controle feminino com os três grupos experimentais do mesmo sexo. A estatística aplicada demonstrou que as diferenças entre elas não eram significativas para dois grupos, a saber: Águas Perigosas (t = 0,31; p=0,8; gl=19) e Timecop (t= -1,57 ; p= 0,10; gl=19). No entanto, quando a comparação foi feita com as adolescentes que assistiram ao filme Kids a diferença mostrou-se estatisticamente significativa (t= 4,17; p=0,001; gl=19).

E, finalmente, os dados referentes aos adolescentes do sexo masculino mostraram que quando compararam-se as médias dos participantes do grupo controle com as dos demais grupos verificou-se que essas mostraram diferenças estatisticamente significativas para aqueles que assistiram ao filme Timecop (t= -2,74; p= 0,013; gl=19) e Kids (t= 3,63; p= 0,001; gl=19). Porém, após assistirem ao filme Águas Perigosas (t= -1,03; p= 0,3; gl=19) as médias dos grupos se apresentaram semelhantes. Os desvios padrão das médias foram de 2,839 para as adolescentes do sexo feminino e 4,118 para os meninos que assistiram ao filme Águas Perigosas; de 7,818 para as meninas e 13,861 para os adolescentes do sexo masculino que assistiram ao filme Kids; de 7,222 para as meninas e 11,797 para os meninos que assistiram ao filme Timecop e de 3,242 para as meninas e 6,256 para os meninos do grupo controle.

Experimento II

Este estudo buscou avaliar a influência dos filmes, violentos e não violentos em comportamentos agressivos de crianças, de ambos os sexos. Utilizou-se em lugar de grupo controle o método do participante como seu próprio controle. Esse método diminui as influências ocasionadas pelas diferenças individuais, circunstanciais ou não, que podem estar presentes durante o experimento.

Estudos anteriores (Bandura & Iñesta, 1973/1975; Tulloch, 1995; Widom, 1989) têm demonstrado que em meninas não se observa aumento da agressividade, quando assistem a filmes de combate, de luta. Normalmente, estes filmes têm lutadores do sexo masculino, de maneira que a ausência de modelo feminino poderia ser prejudicial a aprendizagem vicariante das meninas, pois o modelo não teria as características necessárias para que a modelação ocorresse. O filme Mortal Kombat contém tanto lutadores do sexo feminino como masculino, embora seus personagens femininos gastem apenas 3’30" (5,78%) do filme em luta contra 16’36" (28,7%) dos lutadores masculinos. De qualquer maneira, a presença feminina, em comportamento de luta, atende a condição de fornecer modelo apropriado para a identificação das espectadoras. Como controle, foi utilizado o filme Babe, Um Porquinho Atrapalhado que permite a análise da influência de estímulos não-agressivos no comportamento agressivo das crianças.

A Figura 2 apresenta as médias de comportamentos agressivos em jogo de futebol, para meninos e meninas, antes e após assistirem aos filmes violento e não-violento. O primeiro resultado, que está de acordo com a literatura, demonstra que as meninas não alteram seu nível de comportamento agressivo em função de filmes violentos que envolvem lutas, mesmo que existam modelos femininos nessas encenações (tmk = -0,16; p= 0,9; gl=39). Já, para as crianças do sexo masculino, o filme violento têm um efeito positivo, estatisticamente significativo, no que se refere ao aumento da agressividade (tmk = 1,81; p= 0,01; gl= 39). Os desvios padrão das médias foram de 7,617 para o pré-teste e 7,029 para o pós-teste do grupo masculino de Babe; 5,097 para o pré-teste e 5,097 para o pós-teste do grupo masculino de Mortal Kombat; 6,523 para o pré-teste e 8,044 para o pós-teste do grupo feminino de Babe; 3,179 para o pré-teste e 4,393 para o pós-teste do grupo feminino de Mortal Kombat.

 

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Em relação ao filme Babe, Um Porquinho Atrapalhado as crianças, de ambos os sexos, apresentaram comportamentos semelhantes antes e após a exibição do filme (feminino: tb = -0,01; p= 0,989; masculino: tb = -1,10; p= 0,3; gl= 39), sendo que no caso masculino há uma tendência inclusive a diminuir a taxa do comportamento agressivo após assistirem ao filme Babe.

Alguns comportamentos agressivos foram observados com maior incidência que outros. Esses dados podem ser visualizados na Tabela 1, onde percebe-se que o comportamento de discutir e de empurrar aparecem com maior incidência em todos os grupos de crianças. Xingar apresenta a terceira maior freqüência e os demais comportamentos, chutar, dar cotovelada, agarrar, puxar a camisa e dar rasteira têm uma baixa freqüência quando analisados isoladamente, tornando-se representativos apenas quando somados aos outros.

 

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Os números absolutos demonstraram ser possível, que nestes casos, é possível se trabalhar com um número reduzido de comportamentos, retirando-se aqueles de menor freqüência, como dar cotovelada ou puxar a camisa. Por outro lado, talvez em jogos onde haja maior disputa estes comportamentos possam vir a apresentar uma maior freqüência.

 

Discussão

Em recente revisão da literatura, Strasburger (1999) chama a atenção da comunidade científica e da sociedade civil para os efeitos nocivos dos filmes violentos sobre crianças e adolescentes. Essa pesquisa demonstrou que estes efeitos ocorrem em: 1) crianças e adolescentes, do sexo masculino, quando se trata de filmes com heróis, lutadores, que se utilizam da luta para resolver problemas relevantes socialmente (Mortal Kombat e TimeCop); e, 2) que em adolescentes do sexo feminino e masculino o efeito ocorre quando se trata de filme com violência contra a mulher (estupro) ou violência contra a vida, onde haja transmissão de AIDS, uso indiscriminado de drogas (Kids). E demonstrou também, que o efeito não ocorre: 1) em crianças, do sexo feminino, quando se trata de filme violento com heroínas, lutadoras, que se utilizam da luta em nome de uma causa nobre (Mortal Kombat; e, 2) em crianças e adolescentes de ambos os sexos quando o filme tem conteúdo cooperativo ou amistoso (Águas Perigosas e Babe, Um Porquinho Atrapalhado).

O resultado obtido junto ao grupo de crianças do sexo feminino não é surpreendente. As meninas não admiram as lutadoras, não têm repertório comportamental de luta, não experienciam situações onde este repertório venha a ser reforçado e nem situações em que o comportamento agressivo sirva para esquivá-las de situações aversivas. De maneira que, os dados indicam que, ao observarem estes comportamentos em filmes violentos a aprendizagem vicariante não se processa. Já o inverso ocorre com as crianças e adolescentes do sexo masculino. Os meninos têm repertório comportamental de luta, experienciam estes comportamentos junto a membros de seu grupo, portanto, passam a admirar os lutadores que são reforçados pelos seus feitos (salvam mocinhas indefesas, salvam o país, etc.) e buscam imitar estes comportamentos para receberem as mesmas conseqüências positivas dos modelos, ou ainda, para se esquivarem ou fugirem de situações aversivas (o comportamento agressivo intimida o outro, ou termina com uma briga).

Existe uma influência positiva, estatisticamente significativa, no comportamento agressivo de crianças do sexo masculino em função de assistirem a filmes violentos, com lutas. A teoria da aprendizagem social vem demonstrando que através da aprendizagem vicariante comportamentos adequados e inadequados, bons ou maus, agressivos ou pacíficos, são aprendidos. Quando o participante observa o modelo se comportando e percebe as conseqüências que o ambiente fornece para aquele comportamento as condições necessárias para que a aprendizagem vicariante ocorra estão presentes. Além disso, existem condições que aumentam a probabilidade da imitação ser bem sucedida, ou seja, a) Se as conseqüências são reforçadoras tanto para o modelo como para o participante; b) Se as conseqüências permitem a esquiva ou fuga de uma situação aversiva, tanto para o modelo como para o participante; c) Se o modelo tem status, é admirado pelo participante, se existe vínculo afetivo entre eles; d) Se o participante têm repertório comportamental para imitar o comportamento exibido pelo modelo. Essas variáveis devem ser analisadas no processo da aprendizagem vicariante, pois determinam o grau em que os comportamentos são imitados ou não.

Duas questões de ordem metodológica devem ser salientadas. A primeira refere-se à medida de agressividade utilizada neste estudo - comportamento agressivo em jogo de futebol. Essa forma de medir comportamento agressivo permitiu uma avaliação mais acurada da influência do filme sobre o comportamento das crianças e dos adolescentes, pois uma medida objetiva evita que o experimentador dependa da opinião de pais, professores, companheiros sobre o comportamento do participante em estudo. A segunda questão diz respeito ao controle experimental utilizado. O Experimento II, que utilizou o participante como seu próprio controle, apresenta um avanço metodológico nessa área de investigação. Mantendo-se constante variáveis pessoais, de história de vida, de influências ambientais podemos garantir uma maior confiabilidade nos dados. De maneira que a pesquisa foi realizada em situação natural, sem perder os controles experimentais necessários que permitem uma boa análise dos dados.

Bandura e Iñesta (1973/1975) vêm demonstrando, desde a década de 60, através de inúmeras pesquisas (Bandura, 1969; Bandura & Walters, 1963) que a aprendizagem se dá em função dos modelos observados diretamente ou através de filmes. Se estes modelos se comportam mediados por valores positivos, o aprendiz os copia comportando-se adequadamente no futuro, no entanto se o modelo resolve conflitos através da agressão e da violência o aprendiz, da mesma forma, copia o modelo, comportando de forma negativa no futuro.

Tradicionalmente, os terapeutas das mais diferentes linhas teóricas têm relatado uma série de fracassos no atendimento de delinqüentes juvenis infratores e agressivos. Parece que o fracasso dos programas terapêuticos de atendimento individual de infratores deve-se principalmente ao objetivo de ensiná-los a viver felizes em um meio social hostil. É preciso o desenvolvimento de uma metodologia que vise renovar a estrutura dos sistemas sociais que produzem, modelam, reforçam e mantém a conduta infratora, diz Schwitzgebel (1975). A regra geral na terapia de infratores é a de nunca atuar da forma esperada, introduzir constantemente elementos novos e imprevistos para manter vivo o interesse na situação terapêutica. Recomenda-se inclusive o emprego de dinheiro nas primeiras entrevistas, visto que infratores não têm instalado o comportamento de ir a compromissos antecipadamente combinados, como sessão terapêutica, escola, trabalho, portanto é preciso que estes comportamentos sejam modelados e fortalecidos e, em seguida, que estes recursos extrínsecos sejam retirados paulatinamente.

As estratégias utilizadas pela humanidade para conter a agressividade - prisões, penas de morte, penalizações legais - aparentemente não têm sido eficientes para substituir os rituais de apaziguamento presentes no repertório comportamental das demais espécies. O ambiente urbano, no qual a agressão humana acontece com maior freqüência, não contempla os neutralizadores eficazes que impediriam a agressão entre os membros da espécie. Talvez, a forma de vida contemporânea, em centros urbanos, esteja muito distanciada daquela para a qual o homem foi preparado biologicamente para viver. O estresse gerado pela convivência em grandes núcleos populacionais, com carência alimentar crônica, inviabiliza propostas de contenção da agressividade humana por ser ela a forma legítima da espécie externar a sua inconformidade com o destino da humanidade.

É preciso que escritores, intelectuais, responsáveis pela programação de TV conheçam os efeitos que estes filmes causam sobre aqueles que os assistem. Jovens que acabaram de assistir a um filme violento, poderão, resolver seus conflitos familiares, com amigos e na rua, com níveis de violência bem superiores a outros jovens que não estiveram expostos a estes filmes. Pais, educadores, autoridades, enfim, todos aqueles que se preocupam com a violência social podem contribuir com o controle de uma das variáveis responsáveis por este quadro. Orientando, apresentando atividades alternativas, fornecendo modelos antagônicos à violência pode-se dirimir, em parte, a violência presente na sociedade. Para se construir um país ético, com valores morais e com harmonia entre as pessoas é necessário que os modelos fornecidos às crianças e jovens sejam permeados por valores éticos, morais e harmoniosos.

 

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Recebido em 20.11.98
Revisado em 12.07.99
Aceito em 24.09.99

 

 

Sobre a autora:

Paula Inez Cunha Gomide é Psicóloga, Professora da Universidade Federal do Paraná, Doutora em Psicologia Experimental pela Universidade de São Paulo, Coordenadora do Mestrado em Psicologia da Infância e da Adolescência, Professora de Metodologia de Pesquisa na graduação e pós-graduação de Psicologia da UFPR.

 

 

1 Endereço para correspondência: Universidade Federal do Paraná, Departamento de Psicologia, Praça Santos Andrade 50, 1º andar, 80020-240, Curitiba, Paraná. Fone: (41) 3102644, Fax: (41) 339.2772 E-mail: pgomide@onda.com.br
2 Agradecimentos: A autora agradece a colaboração dos alunos do Curso de Psicologia da Universidade Federal do Paraná que participaram da coleta de dados. Alunas Bolsistas do PIBIC/CNPq: Franciele de Almeida (1996, 1997, 1998), Marícia Ciscato (1996, 1997, 1998) e Ivani Laidens (1996). Alunas colaboradoras: Ano 1995: Viviane H. Nieweglowski, Andressa M. Salles, Vera R. da Costa, Simone Fracaro, Rosalba R., Letícia M. Pellegrini e Miriam Gricajuk. Ano 1996: Larissa Fabiani, Michele Patrão, Maria C. Naranja. Ano 1997:  Alessandra B. da Rocha, Celina Garcia, Ester Halfon, Giovana E. Ribas, Karen Muniz, Melissa Keikeis, Mitsue C. Nojima e Viviane de M. Soares.