SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.15 issue3Trânsito religioso no Brasil author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


São Paulo em Perspectiva

Print version ISSN 0102-8839On-line version ISSN 1806-9452

São Paulo Perspec. vol.15 no.3 São Paulo July/Sept. 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-88392001000300013 

A CULTURA NA ESTEIRA DO TEMPO

 

MARIA APARECIDA DE MORAES SILVA
Professora do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Unesp/Araraquara e do
Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Faculdade de Medicina da Unesp/Botucatu, Pesquisadora do CNPq

 

 


Resumo: Objetiva-se neste texto analisar os traços culturais de um mundo anterior à emigração dos trabalhadores rurais para as cidades, como um dos ingredientes da memória social e individual, tendo em vista o processo de desenraizamento decorrente da modernização da agricultura, implantada no final da década de 60. A cultura material e simbólica do mundo rural de antes caracteriza-se como lugar, em razão do seu não-lugar no conjunto da sociedade atual.

Palavras-chave: cultura e memória; cultura e trabalhadores rurais; cultura e reterritorialização.


 

 

Cada vez mais afirma-se, na época contemporânea, a sociedade do esquecimento, marcada pelo domínio homogeneizador da informação midiática. Recuperar o passado individual e coletivo, por meio da memória como metodologia de análise, configura-se como um dos caminhos possíveis para a redescoberta dos processos de desenraizamento social e cultural, e, por conseguinte, para a redefinição dos projetos que articulam passado, presente e futuro.

"E o que é a lembrança para a senhora? A senhora acha que lembrar faz bem? Ah, faz! Não faz mal não. É (ri). É... nunca que a gente esquece... Tanta coisa boa, tanta modinha bonita que eu... (Pausa) da moreninha... tu és bela... é muito, é bastantinho de verso. A moça andando no fio de arame para lá, para cá, ia lá longe e vinha cá no fio de arame, dançando... E cantando... E cantando essa moreninha... Moreninha, tu és bela, és mimosa igual à flor/ Eu te adoro e te namoro, moreninha, meu amor..." (Fragmento da entrevista de dona Onícia em 1997, aos 83 anos. Faleceu dez meses depois).

No que se refere ao Brasil, especificamente ao Estado de São Paulo, a partir da década de 60, em virtude dos projetos de modernização agrícola, houve um processo continuado de emigração forçada para as cidades. As formas de produção caracterizadas pela parceria, arrendamento, colonato, posse e agricultura familiar desagregaram-se diante da implantação das grandes usinas e complexos agroindustriais. Pretende-se, portanto, tecer algumas reflexões sobre os traços culturais dos trabalhadores rurais que passaram a residir nas periferias das cidades. Várias pesquisas desenvolvidas ao longo das duas últimas décadas1 comprovam que a cultura do mundo rural de antes se desagregou em virtude da homogeneização imposta pela cultura de massa, sobretudo aquela veiculada pela televisão. O que existe são os fragmentos daquela cultura na memória e na lembrança de alguns. A fim de dar conta deste objetivo, a cultura de antes será tratada como lugar, presente na memória individual e na conservação de algumas tradições. As tradições do mundo de antes, inseridas na sociabilidade ancorada nas relações familiares, de compadrio e de vizinhança, se desmoronam com a vinda para as cidades. Esse fato está relacionado ao modo de expulsão desses trabalhadores do campo. Em outro trabalho (Silva, 1999), analisaram-se as conseqüências imediatas provocadas pelo Estatuto do Trabalhador Rural (ETR), promulgado em 1963, em todo o país. Para a região de Ribeirão Preto, espaço empírico sobre o qual se fundam as presentes reflexões, vieram milhares de migrantes rurais, provenientes não apenas do próprio Estado de São Paulo, como de várias outras áreas do país, dentre elas do Nordeste. Nesse sentido, as periferias das cidades médias e das cidades-dormitório foram constituídas pelo ajuntamento de milhares de pessoas, de várias procedências e, conseqüentemente, portadoras de múltiplas culturas e modos de vida diferenciados (Silva, 1993).

Espaços reduzidos, sociabilidade, marcada, muitas vezes, por conflitos, violência, preconceitos, e, sobretudo, por sinais de estranhamento mútuo. A sociabilidade ancorada nas relações primárias, caracterizadas pelo reconhecimento interpessoal e auto-reconhecimento, cede lugar à sociabilidade individualizada e estranhada. Com o passar dos anos, a vida social foi sendo reconstruída nesses novos espaços. No entanto, as tradições, a cultura do mundo de antes, não couberam nos limites desses espaços. Foi necessária a construção dos lugares para protegê-las, para impedir sua morte.

 

A MEMÓRIA COMO LOCUS DA CULTURA

"A curiosidade pelos lugares onde a memória se cristaliza e se refugia está ligada a este momento particular de nossa história. Momento de articulação onde a consciência da ruptura com o passado se confunde com o sentimento de uma memória esfacelada, mas onde o esfacelamento desperta ainda memória suficiente para que se possa colocar problema de sua encarnação. O sentimento de continuidade torna-se residual aos locais. Há locais de memória porque não há mais meios de memória" (Nora, 1993:7).

Essas reflexões de Nora são extremamente eficazes para a análise da memória individual e também coletiva. A idéia de encarnação da memória, após seu esfacelamento, pode ser vista a partir de alguns fragmentos das lembranças de dona Onícia, 83 anos, mineira, que viveu grande parte de sua vida no campo e, quando interrogada sobre seu tempo de juventude, fez um enorme esforço, tanto físico como espiritual e mental, para se lembrar das músicas dançadas e cantadas nos bailes. À medida que tentava se lembrar, seu semblante se transfigurava e, por diversas vezes, se levantou da cadeira, deixando de lado a bengala que lhe servia de apoio, imitando com os braços, porque as demais partes do corpo já não lhe permitiam, a dança da Seriema.

"É, lembrei de uma porção... de uma porção de versos, que nós cantávamos assim no baile. Estava com aquela moça... aquelas moças, os moços ali todos se divertindo, alegres... tinha uma dança chamada Seriema, a gente ia... assim falar com ela, ou eu, ou a senhora, saía assim valsando assim, rodando lá na sala do baile e... e valsando e cantando, e os que estavam tocando o instrumento, é... também tocando, e a gente ia valsando. Quando chegava lá perto daquele moço que a gente abanava o lenço para ele, ele vinha valsando também assim, e valsava um pouco, depois vinha e nós rodávamos. Era a dança, uma valsa. Então, era tão bonito, que só a senhora vendo! E... e... e nessa dança poderia cantar verso assim, para um outro... A gente cantava aqueles versos agradando os moços, eles cantavam agradando as moças. Então, dos versos que eu tirei da cadernetinha do meu pai, de quando ele era solteiro, é um verso assim... ''Teus olhos quantas cores/ De uma Ave-Maria/ Que um rosário de amargura/ eu rezo todo dia''. A Seriema é uma valsa... E tinha outro assim: ''Fiz as minhas queixas no meio das pedrarias/ (Não... como é que é, gente?) Fui fazer as minhas queixas no meio das pedrarias/ Minhas pedras pesam mais que quando... (Não. Meu... Ah, esse eu errei!) Fui fazer a minha queixa no meio das pedrarias... Minhas pedra(s) pesa(m) mais... do que quantas pedras havia. Joguei meu lenço n''água/ e ligeiro ele foi ao chão/ Eu amo todo... eu... amo... (Tá... estou muito esquecida hoje, ontem estava mais lembrada). Joguei o lenço n''água/ e ligeiro ele foi ao chão... ao fundo/ Eu amo só você, e você ama todo mundo.''

É... é muito verso, mas a gente esquece, porque faz muito tempo que eu deixei, num cantei mais ... ''Se você diz que eu sou sua/ se eu sou sua, eu não sei/ eu amo... eu amo só você e você ama todo mundo. É. Eu tenho quatro amores/ dois de manhã, dois de tarde/ com todo sorriso e brinco/ Sou homem, falo a verdade''... Uma reza que eu vou falar para a senhora, que... quando rezava terço, nós cantávamos, e agora eu... eu deixei de rezar por causa da seita de agora... (Dona Onícia aderira à seita dos pentecostais).

É. Nós... quando nós rezávamos, nós cantávamos para beijar o santo. ''Bendito, louvado seja, bendito, louvado seja/ Olha o santíssimo... o santíssimo sacramento/ todos os anjos, os anjos, todos os anjos/ ... Os anjos benditos... (Fala muito baixo, para si mesma, tentando se lembrar) Olha o santíssimo sacramento.../ Olha o santíssimo sacramento/ Bendito, louvado seja, bendito, louvado seja/ Olha o santíssimo sacramento/ olha o santíssimo sacramento... Abre essa porta, deixa o vento entrar/ para ver os anjos no seu passear... Abre essa porta, deixa o vento entrar/ para ver os anjos no seu passear...'' Só. É, tem... tem mais coisa, modinha, mais eu esqueci as modinhas bonitas mesmo, eu esqueci.

(Na procissão), tinha as meninas vestidas de anjo, com aquelas asonas brancas bonitas... As meninas com aquele vestuário mais lindo! E, dia de festa de mês de maio... O povo saía da casa do padre, era como daqui, longe da casa do padre, lá naquela casa que tem na frente lá. Então, subia cantando... cantando, e a banda... a banda tocando, entrava dentro da igreja. Então, tinha novena à noite, tinha novena e tinha aquelas... aquelas meninas, quatro... tinha aquelas coroas, aquelas grinaldas que iluminavam aquelas flores... Então, duas meninas iam coroar. Cada uma com pratinho de rosa ali. Então, elas cantavam assim... elas cantavam... eram duas de cada lado. Faziam a coroação de Nossa Senhora ali. Então... (Dona Onícia encena) uma de cá e a outra de lá que iam coroar. Então, elas cantavam: ''Ó minha mãe o bem querida, de possuir esse... de possuir... de possuir... (Pequena pausa) ó minha mãe o bem quiser/ó minha mãe o bem... (cantando baixo, tentando se lembrar) ...possuir este tesouro, para dar neste dia uma rica coroa de ouro/ Para dar-vos neste dia uma rica coroa de ouro.'' Jogava flor, rosa e... o sino batia e as meninas desciam do altar, trepavam lá em cima. É. Mais não ficou bonito isso não. Porque eu não cantei bem bonito... Parecia que eu estava vendo a coroação.

É umas modinhas bonitas, que era um encanto que eu cantava. Houve um mutirão de panha (colheita) de café. E nós fomos apanhar café, de dia apanhando café. Depois teve a janta, teve muita coisa boa de comer. Teve macarronada, frango, carne de porco, carne de vaca, muita comida boa lá. Quando foi à noite, foi o baile. Então, eu fui. Eu era solteira, e eu cantava modinha... E o meu tio me dizia: ''Nícia, você tem que cantar''. E ali perto tinha um ponteador de violão para gente cantar, ele ponteava. Às vezes, meu namorado ponteava, no violão, e o velho Jorge, nesse tempo... Eu cantava modinha, cantava verso... ''Num tenho medo do homem, nem do ronco que ele tem/ O besouro também ronca, mas se ver, não é ninguém/ O besouro também ronca, mais se ver, não é ninguém.'' Ah, o moço respondia assim para ela. (Pequena pausa. Dona Onícia esforça-se para lembrar) ''Não... só vocês vendo uma coisa... muito verso... Mais eu vou ver se eu lembro ao menos um. (Pausa) ''Não tenho medo da mulher e nem quando elas estão dormindo/ Os olhos estão fechados e as sobrancelhas bolindo/ Os olhos estão fechados e as sobrancelhas bolindo''. Era como se fosse um desafio... Era... um cantava uma coisa e o outro respondia. É, é um desafio.

Só vocês vendo que boniteza! Até isso eu cantava, eles ponteavam, era aquela boniteza! Cantava quase a noite inteira, eu dançava bastante. Depois aí, meu tio mandava eu cantar um pouco. Os outros, às vezes, estavam dançando para lá, dançando catira, é... Que eu namorei um mocinho dessa casa, mais ele... eu gostava mais dele do que ele de mim. É, então, ele cantava moda de viola, sapateava, dançava catira. Era José..., meu cunhado, e o João. É, é... nessa casa. Eu... preciso lembrar... Tomé, eles eram os Tomé: José Tomé, Jonas Tomé, que é meu cunhado, esse José Tomé, casado com a minha amiga e... e o... e o João Tomé. Esse João Tomé era o mais novo e eu... eu namorava ele, mais é que... eu gostava mais dele do que ele de mim. Outro cântico era asssim: ''Eva querida, quero ser o seu Adão/ Eva querida, quero ser o seu Adão/ Dar-te-ei a minha vida em troca... em troca de seu coração/ Eva querida, dava minha vida... dou a minha vida... em troca de seu coração/ Eva querida...''

Se eu lembrasse de mais... eu precisava ter uma pessoa que visse eu cantar, para eu lembrar...

É, e nós numa bancada assistindo (no teatro). Que o papai levava nós e o povo gostava mesmo das modinhas. O povo cantava, batia palma, gritava, só vendo. É... era muito bonita. E cada verso bonito mesmo... e nós cantávamos, nós cantávamos um verso, às vezes assim ali junto do pessoal, todas moças, os moços, os chefes da casa, tudo ali, era aquela boniteza, que era um respeito, que só a senhora vendo. Num saía nada... nada ruim, era lugar de dançar. É o finado Zé Quim que, na mocidade dele, em São Thomás de Aquino, ele morava na roça; hoje, ele ficou pobre de fazer festa para amigos. Que os bailinhos que ele fazia aí... lá ele fazia aqueles bailes... Ele andava muito bem vestido e nesses bailes só ia quem estava na casimira, quem entrava nesses bailes lá em São Thomás de Aquino. Só quem tivesse na casimira! Quem não estivesse assim na casimira, não entrava. E... ou senão, um terno... tinha uns ternos que existiam para ir naqueles bailes. Isso é no tempo da mocidade do meu pai, do meu cunhado, da minha cunhada. Como é que chamava? Esqueço... Um tal de..., ele era músico em São Thomás de Aquino, era maestro de música. Quando tinha aquelas festas de igreja, os músicos cantavam, subiam as ruas cantando... faziam procissão..."

Os fragmentos dessas lembranças fornecem a matéria-prima para o trabalho da memória. Ao mesmo tempo em que os fios da memória vão sendo puxados, vêm os personagens, as cenas e o cenário, jorrados na sucessão-sobreposição de tempos e espaços. À medida que as lembranças vão brotando dos subterrâneos da memória e se dirigindo à superfície, aquilo que era, até então, nebuloso vai aos poucos assumindo formas nítidas com conteúdos multicoloridos. As rosas lançadas pelas duas meninas durante a coroação de Nossa Senhora, a casimira dos homens durante os bailes como exigência dos bons costumes, a bailarina que se equilibrava no fio de arame enquanto cantava a música da moreninha, assistida por muitas pessoas, o baile da seriema, a dança catira após o mutirão, as músicas ponteadas pelos violeiros, a insistência do tio para que ela cantasse, o namorado que gostava pouco dela, a família dos Tomé, manifestam a sociabilidade das pessoas daquele tempo, as quais, por meio de suas lembranças, encarnam-se no tempo/espaço presente. O passado assume diante do ouvinte uma realidade tal que, no final de cada narrativa, ela se levantava, acenava, cantava, num esforço supremo, em razão de seus problemas de saúde, e completava dizendo: "só a senhora vendo que boniteza que era ...".

O mundo rural de dantes, as festas, a fartura, a sociabilidade entre parentes e vizinhos são reconstruídos pela memória individual da lembradora. Não obstante, apesar de seu esforço, não consegue lembrar de tudo. Em determinados momentos, chega a dizer que, se houvesse alguém para ajudá-la a lembrar, ela teria condições de cantar todas as músicas. Ou ainda, se lamenta pelo fato de ter perdido os almanaques, nos quais estavam escritas as letras das músicas. Também se entristece pelo fato de não possuir fotos das pessoas dessa época. Um ponto forte de seu depoimento refere-se à comida, particularmente às quitandas. Observa-se que o ato de preparar a comida era social:

"Então, uma vizinha, chamada Afonsina, forneava e ela mandava me chamar, para ajudar a enrolar aqueles biscoitos... Bem do jeito que ela enrolava, eu enrolava. Porque na minha casa, a minha mãe era quitandeira, nós ajudávamos a mamãe, ela fazia doce de quinze em quinze dias... A mamãe forneava tudo quanto era qualidade de quitandas. Interessante que de sal só fazia... só fazia... biscoito. Mais tudo era de doce! Meu pai gostava muito de tudo que é doce. Fazia rosca, só rosca, aquelas roscas que a senhora ia comer rasgava assim feito um embrulho, de... de macia. Rosca de dois fermentos... Então, fazia bolo de farinha de trigo, fazia bolacha, que eu adoro uma bolacha bem-feita em casa. Que ela fazia aquelas bolachas tão gostosas, que só a senhora vendo, mamãe...! Fazia umas... Nossa vizinha, que era mulher do delegado, fazia umas broinhas de fubá feitas assim: quebra os ovos ali, bate bem, põe gordura ali, põe canela ali, uma meia dúzia de ovos e bate bem.... bate batido com a mão mesmo, ali. Depois ainda engrossava aquelas broinhas com o fubá de milho, vai ficar aquelas broinhas desse tamanho (demonstrando), bem assadinhas, ficavam macias, gostosas. Comia com bicarbonato..., a mamãe aprendeu fazer com essa mulher. Ela fazia e mandava para mamãe uma biscoiteira cheinha daquelas broinhas. Tinha uma tal de broinha que faz com manteiga de leite... gordura, era manteiga de leite, muito gostosa. Fazia aquela porção de quitanda, que ela forneava de quinze em quinze dias. Lá era casa de fazenda, tinha um forno muito bem-feito, muito grande... Ela... é... até hoje, é nisso que eu estava vendo a casa e tudo que tinha lá: aquele forno bem-arrumado...

Tinha moinho de moer milho para ter fubá... Nós íamos trocar fubá lá, eu ia com a otra irmã mais nova que eu. Aos domingos, às vezes, nós íamos passear lá, a mulher era italiana, muito boa, ela cozinhava só com cebola de cabeça. Ela fritava a cebola na gordura para refogar a comida, a senhora acredita que era uma comida tão boa que ela fazia, que eu nunca vi mais o gosto daquela comida feita só com cebola, gostosa demais. Nós jantávamos lá, nós íamos passear e jantar. Não deixava nós sairmos sem janta: a mamãe, eu e minhas irmãs.. Então, ela também sempre ia passear lá na nossa casa, era... numa fazendinha, era a casa que o patrão mandou papai fazer e morar, criar os filhos. Lá nós moramos 11 anos naquela casa. Se plantou de tudo quanto foi arvoredo. Primeiro o povo morava nas fazenda num... tempo mesmo! Dava tempo de plantar... plantava laranja, plantava abacaxi e banana, mangueira, e... e enchia aqueles pomares de mandioca, só vendo, aquela fartura! E agora, acabou tudo isso, não é mesmo?"

Como bem afirma Halbwachs (1990:54), a memória é individual e social. Quem lembra é o indivíduo. No entanto, a memória individual não está inteiramente fechada e isolada. "Um homem, para evocar seu próprio passado, tem freqüentemente necessidade de fazer apelo às lembranças dos outros. Ele se reporta a pontos de referência que existem fora dele, e que são fixados pela sociedade." As palavras dessa mulher evocam um mundo rural, cuja cultura se assentava nas relações primárias, pessoais, de conhecimento mútuo. As festas, os bailes, o preparo da comida, com a conseqüente distribuição entre os conhecidos, faziam parte de relações de compromisso, lealdade, existindo como dádiva, na expressão de M. Mauss.

Antes da implantação das usinas canavieiras, quando grande parte da população habitava essa região do Estado de São Paulo, um dos traços culturais dos sitiantes era a troca de produtos – como pedaços de carne de animais abatidos nos sítios, quitandas, doces, polvilho e pamonhas – entre os vizinhos. Todos esses produtos eram considerados iguarias, especialidades que, doadas aos vizinhos, seriam retribuídas, assim que eles as produzissem. Os costumes, assentados nas tradições, solidificavam as relações sociais imprimindo a essas populações um modo de vida com características bem-definidas. A sociabilidade, assentada basicamente na solidariedade, era o substrato para as manifestações simbólicas de todo o grupo social. O cumprimento das promessas pode ser um dos exemplos dessas manifestações.

No dia 13 de dezembro era comemorado o dia de Santa Luzia, protetora dos olhos. A festa dessa Santa era feita com base na coleta de donativos dos vizinhos. O beneficiado da graça recebida percorria todos os sítios, levando consigo o quadro com a imagem da Santa, ornado com flores de papel. Ao receber o pagador da promessa, o morador o fazia entrar na casa, levando a imagem a todos os cômodos, à medida que ia pedindo a sua proteção. Em seguida, oferecia-lhe algo para beber ou comer e lhe entregava o donativo, que podia ser em produtos ou dinheiro. No dia da festa, rezava-se o terço com a presença de todos diante da imagem da Santa. Após a celebração, distribuía-se a comida angariada com os donativos. As crenças, as manifestações simbólicas individuais somente tinham sentido porque eram compartilhadas por todo o grupo, e, mais importante, dele dependendo a sanção, para serem validadas individual e socialmente. Pode-se perceber, portanto, a importância do grupo para a vida material e simbólica do indivíduo. Nesse sentido, as lembranças de dona Onícia são definidas pelo meio em que viveu, e, pour cause, ela tanto queria que alguém viesse em seu auxílio para ajudá-la a lembrar, apesar de ter enxergado (sic) "a casa, com o forno bem-arrumado!".

Um outro ponto que merece ser destacado é a lembrança do espaço. Os locais dos bailes, do teatro onde a bailarina se equilibrava sobre o fio de arame, da procissão, da casa que alojava o forno bem-arrumado, eram retratados com muita nitidez não somente pela fala, como também pelos gestos que apontam para a localização. Assim, vale a pena inserir o depoimento de uma outra trabalhadora rural, também falecida, dona Durvalina (70 anos).

"Quando eu era católica, eu tinha muita fé, fé nos Santos, em Jesus. Eu freqüentava muito as procissões. Na Semana Santa, havia a procissão dos homens que ia lá pelo estradão e procissão das mulheres que passava pela colônia aqui. Lá longe, as duas se encontravam, lá na encruzilhada. Havia a separação por causa do encontro de Nossa Senhora com Jesus na encruzilhada... Mas, agora, já acabou tudo, há seis anos mais ou menos que não tem mais... também acabou a Folia de Reis. Antes passava a Folia nas casas, agora, não passa mais, eu não sei por que, mas acabou tudo..."

O estradão, a colônia, a encruzilhada, da mesma forma que os lugares de dona Onícia, são imagens espaciais que se definem como as marcas do grupo. Na verdade, há uma simbiose entre espaços e grupos, construída pelas marcas produzidas tanto por uns quanto por outros.

"Assim, não há memória coletiva que não se desenvolva num quadro espacial. Ora, o espaço é uma realidade que dura: nossas impressões se sucedem, umas às outras, nada permanece em nosso espírito, e não seria possível recuperar o passado, se ele não se conservasse, com efeito, no meio material que nos cerca. É sobre o espaço, sobre o nosso espaço – aquele que ocupamos, por onde sempre passamos, ao qual sempre temos acesso, e que, em todo o caso, nossa imaginação ou nosso pensamento é a cada momento capaz de reconstruir – que devemos voltar nossa atenção; é sobre ele que nosso pensamento deve se fixar, para que reapareça esta ou aquela categoria de lembranças". (Halbwachs, 1990:143, grifos nossos).

As reflexões desse autor são de extrema importância para a compreensão da realidade dos trabalhadores rurais, expulsos do campo e transformados em moradores das periferias das cidades. Como foi dito anteriormente, houve um processo de desenraizamento cultural, em virtude da perda dos substratos materiais para o alojamento das manifestações culturais. Nas cidades, ao terem os espaços reduzidos aos limites da casa, esses trabalhadores perderam as condições para as manifestações culturais de dantes. Dessa sorte, essas manifestações culturais, alojadas nos subterrâneos da memória de cada um, são revivificadas a partir da reconstrução desses espaços no nível do imaginário. "A imaginação não é apenas uma construção da mente, é também o meio pelo qual os homens agem sobre eles mesmos, uma ação autoplástica que adquire tanto mais importância quando a ação aloplástica (transformadora da realidade externa) se revela impossível. Com efeito, quando os homens não conseguem mudar o mundo... é toda uma configuração imaginária que se transforma e tenta se adequar às aspirações inconscientes" (Bertrand, 1989:29).

O processo de reconstrução do passado, ao levar em conta esses elementos materiais e simbólicos da cultura, atinge um conteúdo político, capaz de ser um importante elo no conjunto de um projeto de transformação social. A fim de acrescentar outros dados a essas reflexões, passa-se à análise das formas de recriação cultural de uma das tradições mais importantes desses trabalhadores, a Festa de Reis. De antemão, cabe lembrar que, em várias cidades dessa região, todos os anos, as prefeituras locais patrocinam as Festas de Reis, que ocorrem no mês de janeiro, as quais contam com a presença de várias Companhias de Reisados não somente do Estado de São Paulo como também de outros Estados.2 Essas festas nas cidades se enquadram naquilo que Nora afirmou antes a respeito da problemática dos lugares. É necessário construir um lugar para elas, pois já não mais existe o lugar das festas. Além dos patrocínios financeiros, contam com a presença da mídia televisiva e, algumas delas, já incorporaram elementos dos sons modernos para atender aos gostos da cultura de massa urbana. Nos limites deste texto não será feita a análise desses lugares, pois se optou por tecer algumas reflexões sobre as Festas de Reis, que, embora sejam em número bastante reduzido, são ainda realizadas pelos trabalhadores rurais nas cidades, cujas tradições são conservadas pela recriação.

 

A RECONSTRUÇÃO DAS TRADIÇÕES

Em recente artigo, Burke (2001:11), ao comentar sobre o livro A invenção das tradições (Hobsbawn e Ranger, 1984), afirma que, na realidade, não há propriamente uma invenção das tradições e sim uma recriação ou mesmo uma reconstrução, já que o que ocorre não é tanto a criação a partir do nada, mas uma tentativa de bricolagem, de dar novos usos a materiais antigos. Para esse historiador, a cultura é continuadamente recriada, "como uma espécie de canteiros de obras onde os andaimes nunca são desmontados porque a reconstrução cultural nunca termina".

Durante a realização da pesquisa, Mulheres da cana: memórias,3 tomou-se conhecimento de duas Companhias de Reis, existentes em Leme e Barrinha. No caso de Leme, a maioria dos integrantes da Folia era proveniente da Fazenda Amália, localizada em Santa Rosa de Viterbo, pertencente ao Conde Matarazzo, que, no final da década de 60, foi expulsa juntamente com milhares de outros trabalhadores colonos, em razão de uma greve que, segundo os resultados desta pesquisa, fora uma armadilha arquitetada pelo proprietário dessa fazenda, com o apoio do regime militar, então vigente (Silva, 1998). Com a expulsão, houve uma verdadeira diáspora para os municípios vizinhos, onde os antigos colonos foram transformados em bóias-frias e obrigados a viver nas cidades. Com o passar dos anos, muitos dos antigos membros faleceram, enquanto outros foram sendo incorporados. É preciso lembrar que essa tradição é transmitida de pai para filho. Portanto, seu desaparecimento foi ocorrendo em razão dos jovens, cada vez mais, aderirem à cultura de massas. As entrevistas com os antigos foliões revelam que os mais jovens não se interessam e, em virtude da bebida, muitos abandonaram a Folia de Reis. Essa mesma situação foi encontrada em Barrinha. Apesar de as letras das músicas diferirem, o sentido da Festa de Reis é o mesmo: ela existe em função das promessas feitas aos Santos para a obtenção de uma graça. Esse fato está manifesto na bandeira da Folia, que se apresenta repleta de roupas de crianças, chupetas, laços de fitas, fios de cabelos, fotografias de pessoas cujas graças foram alcançadas. Esse simbolismo é representativo da recriação contínua dessa tradição, apesar das mudanças havidas. Um outro ponto em comum refere-se ao fato de os donativos para a festa serem provenientes tanto da área urbana quanto da área rural. Isso significa que os integrantes da Folia percorrem os dois espaços. A fim de aprofundar as reflexões sobre a recriação dessa tradição, serão apresentadas, em seguida, a bricolagem feita pelas duas companhias, de Leme e Barrinha.4

Em Leme (músicas gravadas durante o ensaio da Folia)

Música 1:
Deus lhe salve a casa santa/Onde Deus fez a morada/Onde mora o cálice bento /Com a hóstia consagrada/Os três Reis quando souberam/Viajaram sem parar/Cada um trouxe um presente/Pro menino Deus salvar.
Vou pedir a Nossa Senhora/Para ela abençoar

Música 2:
Nasceu o menino Deus/para ser nosso salvador/A estrela do Oriente/Onde estão os três Reis Santos/Vieram os três Reis Magos lá do Oriente/Seguiram viagem pra encontrar o menino Deus/Cada um trouxe um presente/Em viagem ele seguia/Cada um levou um presente

Música 3:
Nessa hora verdadeira/Os três seguiram viagem/Na chegada nessa casa/Lá no céu deu um clarão/Quando ele adormeceu/Lá no céu deu um clarão/Os anjos de lá desceu/Vou fazer a louvação/Pra fazer a louvação/Vou pedir pro meu patrão/Pra fazer a louvação.

Reis chegou aqui com muita paz e alegria/Pra senhora peço licença/Pra entrar a Companhia/Reis seguiu viagem com muita paz e união/Também peço licença /Pra entrar os bastião/Deus te salve, casa santa/Onde Deus fez a morada/Aqui mora cálice bento/E a hóstia consagrada/Lá no céu tem três estrelas/Tem santo prestando atenção no tempo/Que o menino Jesus nasceu/Do sagrado nascimento/Sagrado Nascimento/Onde devemos de adorar/Quando era onze horas da noite/Que os anjos veio rezar/Espero o sino bater/E havia de se levantar/Nossa Senhora sofredora/Sem ter parteira nem parto/Foi virgem antes de Jesus nascer/E virgem depois do parto/Os três Reis quando souberam/Que ia nascer o menino Jesus/Arriaram seus camelos/E seguiram sua profecia/E antes de sete anos/Fizeram em sete dias/Deus menino podia ter nascido/Num lençol de ouro fino/Para dar exemplo ao mundo/Ele nasceu tão pobrezinho/Nasceu numa manjedoura/Onde boi bento comia/Vinha vaca vaquejar/Vinha mula descobria/Maldição pegou na mula/Que nunca mais deu cria/Os três Reis desceu do céu/Com o livro de São João/Louvando Nossa Senhora/E a Virgem da Conceição/Quem é nascido em Belém/E batizado em Jordão, cantador? (todos) O filho de Maria e afilhado de João/Pois Ave-Maria foi feito em Jerusalém/Lá no céu cantava os Reis/E aqui nós canta também/De vinte e quatro pra vinte e cinco/Galo serra anunciou/Que ia nascer Deus menino/pra ser nosso Salvador/Os três Reis quando souberam/De viagem lhe seguiam/prepararam os instrumentos/Pra fazer saudação /Na hora do nascimento/Os três Reis foram guiados/Com a estrela que aparecia/Até chegar em Belém/Ela foi fazendo guia/Deus menino podia ter nascido/Num lençol de ouro fino/Para dar exemplo ao mundo/Ele nasceu tão pobrezinho/Nasceu numa manjedoura/Onde boi bento comia/Vinha vaca vaquejar/Vinha mula descobria/Maldição pegou na mula/Que nunca ela deu cria/Ave-Maria foi feito em Jerusalém/Lá no céu cantaram os Reis/E aqui nós cantamos também. Pra senhora peço licença/Já fizemos louvação/Os três Reis que lhes abençoam/A senhora e a família.

Os ritos são de louvação, saudação, esmola, agradecimento e de encontro das duas bandeiras. O depoimento do embaixador revela traços muito importantes sobre as dificuldades encontradas, dentre elas, o fato de as pessoas não os conhecerem, o que revela a mudança de sociabilidade, fato que, muitas vezes, lhes impede de entrar nas casas. Além disso, as dificuldades de improvisação, em razão do alcoolismo de alguns participantes. Ao mencionar essas dificuldades, lembra de como tudo "era muito mais bonito antes", ao se referir à fé nos Santos Reis, em razão da cura de pessoas doentes. Reporta-se também ao fato de que, antes, o número de pessoas que participavam era bem maior do que nos dias de hoje.

"Na Usina Amália era aquela carreira de casa, que a turma entrava de tarde. A coisa mais bonita é que quando batia numa colônia, outra companhia chegava e pegava de lá pra cá. Era o encontro de bandeira! Nossa Senhora, era gente igual formiga! Chegava o encontro de bandeira. Coisa linda era o encontro de bandeira!! Um embaixador canta de lá, e o outro embaixador canta daqui. Vão cantando, vão cantando, aí vai até trocar esmola. Aí, cruza as espadas, cruza as bandeiras, trocam as esmolas... E aquela segue o destino dela e a outra segue no destino dela novamente. E hoje tá difícil, tá difícil!

Cita vários casos de doentes que, pela fé, conseguiram a cura. Para provar que a fé é muito recorrente, afirma que, no final do mês de dezembro, é necessário trocar a bandeira porque ela fica muito pesada em função do número de objetos presos pelos fiéis, porém nunca jogar fora os objetos. Eles são remetidos à sala dos milagres da Basílica de Nossa Senhora Aparecida da cidade de Aparecida. Vale a pena citar um dos casos de cura relatados:

"Igual tem uma igrejinha que chama Bonsucesso, na Amália, nós cantamos lá todo ano. Aí, chegamos lá, fomos chegando perto da casa, mas um molequinho desse tamanhozinho assim, saiu correndo fardado... Era um bastiãozinho de Reis: capacete, a máscara dele pequena e coisa e tal... a roupa pintada, (...) na mão. E aquele molequinho juntou com nós. Aquele palhacinho juntou com nós. Chegamos na casa do homem, vamos cantar. E cantando ali, cantando... Aí, paramos de cantar e perguntamos pro homem o que significava aquilo. ''Olha, isso aí, eu fiz uma promessa pra esse molequinho que ele tinha paralisia infantil... só que eu fiz uma promessa pros três Reis Santos: ou vinha na minha casa, ou não vinha, sete anos ele tinha de vestir isso. E cada ano é um vestuário. Cada ano é uma máscara, cada ano é um capacete, cada ano é um pano de roupa. Então, vocês estão vindo aqui, ele está indo encontrar com vocês.'' Pra nós aquilo foi uma alegria! Uma alegria! Quer dizer que ele fez um pedido pros três Reis Santos e o molequinho sarou".

Em Barrinha

Tal como em Leme, a Companhia de Reis de Barrinha tem também sua origem rural. O embaixador atual já o era antes de vir para a cidade. Ao descrever a sua participação na Folia, ele lembra que seu pai e seus irmãos passaram a fazer parte dela em razão da doença de sua mãe, paralítica em função do reumatismo. Num determinado dia, quando uma Folia foi até sua casa, seu pai pedira aos Reis que a curassem e, se isto ocorresse, ele e os filhos fundariam uma companhia. Segundo ele, no dia seguinte, após ter beijado a bandeira, a mãe deixou a cama e começou a caminhar. Desde então, ele cumpre a promessa.

Durante a pesquisa de campo, foi possível acompanhar a preparação da Festa de Reis, realizada na cidade, na rua onde reside o mestre. Em sua casa, foi servido o almoço, realizado com as contribuições conseguidas durante a peregrinação da companhia na área rural e também na urbana. Depois do almoço, os foliões dirigiram-se à casa da festeira, onde estava guardada a bandeira. A dramatização se iniciava. Os foliões vestiram as fardas, afinaram os instrumentos e cantaram os ritos de louvação.

A música mais parecia um lamento. Lamento que ia unindo espaço e tempo, mundo de antes e de agora, corpo e alma, sentimento e dor. Música cheia de palavras reveladas, que parecia semear em cada coração uma mensagem para não sucumbir ao pranto. No momento em que a bandeira, segurada pela festeira, deixava a casa, ela, muito emocionada, chorava enquanto olhava fixamente para as imagens dos Santos. Aos poucos, a música parecia invadir a alma, provocando a calma, a concentração; música que ia capturando a palavra desgarrada, criando novos significados, transformando realidade em sonho, sonho em realidade; música que ia acompanhando a bandeira para outro pedaço de rua onde haveria o encontro com uma outra bandeira.

Esse é o momento de recriação, de bricolagem de tradições. Duas bandeiras. A dos Santos Reis, aquela que saiu pelo mundo, aquela que ensinou o povo a sair pelo mundo. A de Nossa Senhora Aparecida, aquela que não pode sair pelo mundo. Aquela que não tem foliões. Aquela que tem anjinhos, cumpridores de promessas e portadores de fé. A bandeira de Nossa Senhora Aparecida é uma espécie de convidada para a festa. O encontro das bandeiras simboliza um momento bíblico posterior, momento do encontro de Maria e Jesus durante a Via Crucis. Nesse momento, houve uma superposição de tempos. Nossa Senhora Aparecida, negra, padroeira do Brasil, toma o lugar de Nossa Senhora, mãe de Jesus de Nazaré. Há uma certa antecipação, de antevisão. Uma bandeira que representa o nascimento do Menino Jesus e outra que representa o encontro de mãe e filho no Calvário. Espécie de destino antecipado. Antevisão de um trajeto. Dramatização da vida e da morte, do começo e do fim, permeado pela fé:

"Na demora dos três Reis/ Herodes se indignou/chamou seus secretários e seu decreto, decretou/ Que seguisse pra Belém/e que lá fosse matando/e que matasse menino homem/ até a idade de dois anos".

Mais uma recriação. Em geral, as mulheres não são admitidas na Folia. Em se tratando de promessas, elas são admitidas como acompanhantes, sem direito a tocar instrumentos e nem cantar. O pretexto dessas proibições é proteger as mulheres dos comentários sobre sua reputação. Os mestres justificam a restrição afirmando que os Reis Magos não trouxeram as mulheres consigo. Outros afirmam que nenhuma mulher visitou o presépio de Jesus. A presença de mulheres desviaria o sentido da dramatização. (Porto, 1982).

Durante a apresentação, compareceram duas mulheres, uma com o pandeiro e outra que participava do coro, cujas presenças transgrediam as normas masculinas. Por outro lado, a bandeira da Santa, junto da bandeira dos Santos Reis, era mais um sinal da recriação dessa tradição por esses trabalhadores.

Depois do encontro das duas bandeiras, os participantes se dirigiram ao local da festa, uma barraca montada no meio da rua, onde havia sido erguido um altar para acomodá-las. À medida que os cânticos prosseguiam, os presentes beijavam as bandeiras e, muitos deles, pregavam chupetas, fotografias, flores, fitas nas bandeiras. Esse ritual continuou até o cair da tarde, quando foi servido o jantar, e, em seguida, houve o baile. Em todos os momentos dos ritos, a música mais parecia um lamento. Um lamento que, simultaneamente, sintetizava um tempo perdido no passado e um vir-a-ser fixado na imagem refletida na bandeira da Folia. Imagem que transcende o mundo destradicionalizado. Imagem fixada na busca da recriação de uma tradição. Um possível real e transcendental.5

A passagem de um modo de vida a outro, como foi visto com esses exemplos concretos, não se faz com a destruição de todos os traços culturais. Na verdade, há um processo de destruição-recriação continuado. Recentemente, na cidade de Altinópolis/SP, durante a Festa de Reis, patrocinada pela prefeitura local, os foliões percorriam as casas, cantavam os ritos de louvação e da esmola, a fim de angariar donativos para o próximo ano. Num desses momentos, quando solicitavam a entrada numa certa casa, o morador lhes informou que a dona da casa havia falecido há alguns meses. Em vista disso, os palhaços retiraram as máscaras, ajoelharam-se diante de uma vela acesa, enquanto o coro pedia a salvação da alma daquela senhora, havendo, portanto, a improvisação dos ritos de louvação. Todas as pessoas presentes da casa, ajoelhadas, seguraram a bandeira participando da celebração. Pôde-se observar que, naquele instante, recriou-se uma sociabilidade, baseada na religiosidade e nos autos de fé entre os foliões e as pessoas da casa. Os demais ritos se referiam ao ano anterior, momento em que, naquele mesmo espaço, a senhora havia recebido a bandeira. Parentes e foliões celebraram a ausência daquela mulher, o tempo passado, por meio da comunhão de valores, que ainda persistiam, baseados na memória de cada um. A presença da Folia naquele espaço representou para a família o detonador das lembranças, até então adormecidas, da participação nas Festas de Reis em outros tempos.

 

CONCLUSÃO

Ao longo deste texto, procurou-se, a partir de evidências empíricas, mostrar a recriação da cultura dos trabalhadores rurais, cognominados bóias-frias, nas cidades, levando-se em conta a recriação da cultura em dois momentos, ou seja, como lugar sediado na memória individual e social e como tradição. Apesar das profundas transformações sociais, políticas, econômicas e espaciais, ocorridas nestas últimas décadas, que afetaram profundamente o modo de vida do mundo de antes, sem contar o domínio hegemônico da cultura de massas, foi possível perceber que a cultura rural não apenas não desapareceu, como assumiu novos significados, num processo continuado de bricolagem. Ademais da cultura massificadora veiculada sobretudo pela mídia, os rodeios praticamente em todas as cidades do interior paulista caracterizam-se, agora, como as festas dominantes, que atraem pessoas de todas as camadas sociais, inclusive trabalhadores rurais. Os rodeios representam a descaracterização da cultura de antes. O modelo, copiado dos Estados Unidos, possui estilo próprio daquele país: roupas, música country, comidas e assim por diante. Contudo, trata-se de uma festa transformada em mercadoria, da qual participam somente aqueles que podem pagar o alto preço dos ingressos. Não é mais a festa definida como valor de uso, decorrente da sociabilidade primária, da fé nos santos e das promessas realizadas. Os rodeios caracterizam-se pelas relações de estranhamento, pois reúnem pessoas de vários locais, e pela mercantilização da festa. Nesses locais, pode-se presenciar aquilo que W. Benjamin definiu como pobreza de experiência, uma nova espécie de barbárie, de uma nova miséria, referente à interioridade (1987:115 e ss.).

Quanto à festa de Reis, os depoimentos e o conteúdo das músicas revelam, ao contrário, uma forma de ação que, no fundo, é um valor, um conjunto de princípios. A mudança da dramatização dos palhaços, diante da notícia da morte da mulher, expressa a concepção da morte como algo valorizado e não banalizado como atualmente. Toda a encenação, ao girar em torno da morte, revivificou a presença, a vida por meio da memória, havendo o entrelaçamento entre vivos e mortos, por meio do simbolismo da bandeira. E. Bosi (1987), ao analisar a memória de velhos, conclui que a memória se constitui numa espécie de ação, de algo vivo, transformador.

As andanças dos foliões, o encontro de situações inusitadas, como a do menino portando a farda da Folia em cumprimento à promessa de seu pai, a ressignificação dos cânticos, como a presença da mula, que, em razão de sua atitude, ao descobrir o menino Jesus, selou seu destino de eterna esterilidade, a presença de mulheres na Folia, o encontro da bandeira de Santos Reis com a de Nossa Senhora Aparecida, composta por crianças, vestidas de anjos, em vez de duas bandeiras de Reis, a realização da festa na rua, representam a recriação continuada dessa tradição. E mais ainda. Não se trata apenas da matéria bruta dessa tradição, porém da recriação do fato, modificado, mediatizado, passando pelo processo da mimese, isto é, algo que passa pela ligação entre rememorar e reinventar, entre memória e imaginação e imaginação e desejo (Meneses, sd.).

No que se refere à memória como depositária da cultura, pode-se pensar que se trata de uma memória utópica, de um tempo sem dificuldades, sem conflitos, já que um mundo de fartura é longamente lembrado, sem contar a boa convivência entre seus membros. Seria apenas o saudosismo de um tempo que não volta mais ou uma nostalgia romântica, ou ainda a idealização do passado? Muitos autores já demonstraram que a memória é seletiva e que o silêncio é uma forma de resistência e não de esquecimento (Pollak, 1989). Durante a entrevista, por muitas vezes, d. Onícia, ao se referir rapidamente ao tempo presente, afirmou que as dificuldades da vida "levam a gente a esquecer". Em relação ao tempo passado, sua biografia revela que há momentos cuja intensidade da lembrança é muito forte, ao passo que outros, simplesmente, não são tocados. Embora não tenha sido objetivo deste texto analisar a história de vida dessa trabalhadora rural, os fragmentos de seu relato, no início apresentados, são muito fecundos para a compreensão de um espaço-tempo que já não mais existe. Os ingredientes utópicos da narrativa – manifestos numa "boniteza, que só a senhora vendo"– representam uma mistura de imaginação, ficção, desejo, enfim, um irreal que constitui o elemento fundante da realidade vivenciada num tempo passado, porém presentificado. Ao trazer para o presente aquelas imagens adormecidas da cultura, a narradora revive-a com adornos, flores multicoloridas, casemiras, vestidos feitos por uma costureira muito famosa em Santo Thomás de Aquino, bolos, broas, formando um caleidoscópio de imagens, músicas e danças, cujos personagens, embora mortos, foram renascidos pela trama da narrativa. Assim sendo, a memória, guardiã da cultura, revelou, a partir da seleção feita pela narradora, sua forma superior, a estética, num verdadeiro ritual de transfiguração, que não se comprimiu nos limites das lembranças individuais, mas retraduziu um contexto sociocultural (que não mais existe?) até então adormecido, tal qual a poesia de d. Iracema:

"A Vida de Uma Bóia-fria

Iracema: Nasci em 31-7-45, eu sou a quarta da família, sou filha de um sertanejo, nasci no sertão, até os 13 anos era uma vida muito linda, não enxergava perigos, não tinha medo, não tinha ilusões, nós éramos muito felizes, nós planejávamos passeios, para a mata levávamos um facão para marcar caminhos, um saco para trazer frutas silvestres, nós conhecíamos todas as frutas e nós comíamos raízes, ou chupávamos o caldo e conhecia pela folha, bebia água de urtiga ou de taguara, sabia orações para não encontrar com cobras, procurava mel de várias espé
cies bem como mirim, tichiguana (sic), irapuã, jataí, e outras que davam debaixo da terra, conhecia o nome das madeiras de lei, também as que eram boas para queimar e para fazer casa e que não apodrecia fácil. As frutas eram demais, umas mais gostosas que as outras, uvaia, pitanga, cereja, amora, a branca era melhor ainda. O broto era remédio, vacum, arretia (sic), sete-capote, gavejú, pinhão, banana-de-bugre, batata, pepino-de-veado, bago-de-raposa, jaracatiá, sem contar os cocos e palmitos. As abelhas Europa eram nossas amigas. Eu subia nas árvores mais altas para disputar quem conseguia subir mais alto ou pegar uma fruta, que estivesse na ponta da árvore..."

Poder-se-ia perguntar: Onde está o presente (n) A vida de uma bóia-fria?

 

NOTAS

E-mail do autora: elongo@zaz.com.br 

1. As pesquisas realizadas durante este tempo analisaram, num primeiro momento, o processo de constituição do proletariado agrícola da região de Ribeirão Preto, levando-se em conta a articulação entre categorias, classe, gênero, raça/etnia e migrantes temporários. Em virtude do avanço tecnológico atual, definido pelo descarte de milhares de trabalhadores, a investigação tem se voltado para os estudos de memória e a precariedade dessa força de trabalho.

2. No mês de janeiro de 2001, a prefeitura de Ribeirão Preto/SP, por meio da Secretaria da Cultura, destinou uma verba para a apresentação de 50 Companhias de Reis, provenientes de cinco Estados: Rio de Janeiro, Paraná, Bahia, Minas Gerais, além do Estado de São Paulo. Cinco das Folias eram da própria cidade. Segundo alguns entrevistados, essa tradição está desaparecendo em razão do desaparecimento dos foliões que se entregaram ao alcoolismo. Na cidade de Altinópolis/SP, todos os anos acontece o encontro das Companhias de Reis, principalmente daquelas provenientes de Minas Gerais, que dura dois dias e tem o apoio da prefeitura local. (Folha de S.Paulo, 28/01/2001).

3. Esta pesquisa contou com o auxílio financeiro da Fapesp e a concessão de bolsas pelo CNPq. Abrangeu o estudo de memórias com trabalhadores e trabalhadoras rurais da região de Ribeirão Preto/SP. Foi possível recuperar, por meio da memória como metodologia, a história do mundo do trabalho rural de mais de meio século dessa região (Revista Fapesp, fev. 2001).

4. Por definição, a Folia de Reis é uma festa cristã que lembra a visita dos três reis magos – Gaspar, Melchior e Baltazar – a Jesus, em Belém, quando levaram presentes como ouro, incenso e mirra. No Brasil, a festa foi trazida pelos portugueses na época colonial. Um grupo de pessoas, com homens representando os três magos, vai de porta em porta nas casas, cantando e acompanhado de viola, cavaquinho, pandeiro, caixa, representando pequenas peças teatrais em troca de refeições e esmolas, que são utilizadas na Festa de Reis no dia 6 de janeiro. Geralmente, o grupo anda à noite e canta nas portas das casas, acordando seus moradores. A Folia de Reis é composta de três grupos: o bandeireiro, os palhaços e o coro. Todos são dirigidos pelo mestre, que é a pessoa mais importante da Folia, sendo também conhecido como embaixador. É o mestre quem improvisa os versos a serem cantados. O contramestre é o respondedor. Sua função é comandar o coro. Há também o ajudante de respondedor, que equivale ao tenor, o requinta, que é a voz mais característica de uma Folia. Entra em resposta ao último verso de uma Folia. O bandeireiro tem a função de carregar respeitosamente a bandeira, o maior símbolo da Folia. Apresenta-a ao chefe da casa que a leva a todos os cômodos, enquanto a Folia agradece e recebe os donativos. A bandeira é a representação dos três reis. Ela vai sempre à frente, seguida pelos representantes dos pastores que seguiam os Reis Magos. Os palhaços, com suas danças, representam o momento de distrair as tropas de Herodes, enviadas para matar o menino Jesus. O coro é constituído por tocadores de instrumentos e pelos cantores. As roupas dos foliões são chamadas fardas. O trajeto de uma Folia é definido pelo mestre. A dança é o cateretê e o balanceado.

5. Tratando-se de um bairro de trabalhadores rurais, muitas pessoas apenas se mantiveram às portas de suas casas, enquanto os foliões passavam. Durante a celebração no altar improvisado, também não era grande o número de participantes. Inquirido sobre as razões da não-participação dessas pessoas, o mestre disse que muitas delas, ao aderir às seitas dos pentecostais, eram proibidas de participar dos rituais católicos. Quanto aos jovens, muitos deles consideravam essas festas estranhas aos sons e ritmos veiculados pela cultura de massa, principalmente a televisiva, e, por isso, não consideravam que a festa era deles, embora a observassem a distância.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BENJAMIN, W. "Experiência e pobreza". In: BENJAMIN, W. Magia e técnica (Obras escolhidas). 3ª ed. São Paulo, Brasiliense, v.1, 1987.         [ Links ]

BERTRAND, M. "O mundo clivado – a crença e o imaginário". In: SILVEIRA, P. e DORAY, B. (orgs.). Elementos para uma teoria marxista da subjetividade. São Paulo, Vértice, 1989.         [ Links ]

BOSI, E. Memória e sociedade. Lembranças de velhos. São Paulo, Edusp, 1987.         [ Links ]

BURKE, P. "Bricolagem de tradições". Folha de S.Paulo, Cad. Mais, 18/03/2001.         [ Links ]

FOLHA DE S.PAULO. C-5, 28/01/2001.         [ Links ]

HALBWACHS, M. A memória coletiva. São Paulo, Vértice, 1990.         [ Links ]

HOBSBAWN, E. "A invenção das tradições". In: HOBSBAWN, E. e RANGER, E. (orgs.). A invenção das tradições. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1984.         [ Links ]

MENESES, A.M. "Memória: matéria de mimese". In: BRANDÃO, C.R. (org.). As faces de memória. Campinas, CMU, s.d.         [ Links ]

NORA, P. "Entre memória e história. A problemática dos lugares". Projeto História. São Paulo, v.10, dez. 1993.         [ Links ]

POLLAK, M. "Memória e esquecimento". Estudos Históricos. Rio de Janeiro, v.2, n.3, 1989.         [ Links ]

PORTO, G. As Folias de Reis do Sul de Minas. Rio de Janeiro, Funarte: Instituto Nacional do Folclore, 1982.         [ Links ]

REVISTA FAPESP. São Paulo, n.61, jan.-fev. 2001.         [ Links ]

SILVA, M.A.M. "A cidade dos bóias-frias". Travessia. São Paulo, CEM, ano vi, n. 15, jan./abr.1993.         [ Links ]

______. "Silêncio e medo nas encruzilhadas da violência". X Congresso Internacional da IOHA. Anais... Rio de Janeiro, Cepedoc, v.1, 1998.         [ Links ]

______. Errantes do fim do século. São Paulo, Edunesp, 1999.         [ Links ]

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License