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Revista Paulista de Pediatria

Print version ISSN 0103-0582On-line version ISSN 1984-0462

Rev. paul. pediatr. vol.33 no.3 São Paulo July/Sept. 2015

https://doi.org/10.1016/j.rpped.2014.12.003 

ARTIGOS ORIGINAIS

Alta prevalência de sedentarismo em adolescentes que vivem com HIV/Aids

Luana Fiengo Tanakaa  * 

Maria do Rosário Dias de Oliveira Latorrea 

Aline Medeiros Silvaa 

Thais Claudia Roma de Oliveira Konstantynera 

Stela Verzinhasse Peresa 

Heloisa Helena de Sousa Marquesb 

aFaculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo (USP), São Paulo, SP, Brasil

bInstituto da Criança, São Paulo, SP, Brasil


Resumo

Objetivo:

Verificar a prevalência de sedentarismo entre adolescentes com HIV/Aids e seus fatores associados.

Métodos:

Foram entrevistados 91 adolescentes de 10 a 19 anos, com HIV/Aids, em acompanhamento em uma unidade de infectologia universitária. Foram coletados dados antropométricos (peso, altura e circunferência da cintura) em duplicata, informações clínicas foram obtidas nos prontuários médicos e a prática de atividade física habitual foi medida por meio do questionário proposto por Florindo et al. O ponto de corte para sedentarismo foi de 300 minutos/semana.

Resultados:

As prevalências de altura inadequada para idade, desnutrição e sobrepeso/obesidade foram de 15,4%, 9,9% e 12,1%, respectivamente. As atividades físicas mais citadas foram: futebol (44,4%), voleibol (14,4%) e andar de bicicleta (7,8%). Os tempos medianos dispendidos com a prática de atividade física e caminhando/andando de bicicleta até a escola foram de 141 minutos e 39 minutos, respectivamente. A maioria dos adolescentes (71,4%) era sedentária, proporção maior entre as meninas (p=0,046).

Conclusões:

Foi observada alta prevalência de sedentarismo entre adolescentes com HIV/Aids, prevalência essa semelhante àquela observada na população geral. Promover a prática de atividade física entre adolescentes - especialmente entre meninas - com HIV/Aids, assim como monitorá-la, deve fazer parte da rotina de acompanhamento desses pacientes.

Palavras-chave Adolescente; HIV/Aids; Atividade física; Estilo de vida sedentário

Abstract

Objective:

To assess the prevalence of physical inactivity among adolescents with HIV/AIDS, as well as associated factors.

Methods:

Ninety-one adolescents (from 10 to 19 years old) with HIV/AIDS who are patients at a university follow-up service were interviewed. Anthropometric data (weight, height, and waist circumference) were measured twice; clinical information was obtained from medical records, and habitual physical activity was assessed by a questionnaire proposed by Florindo et al. The cutoff point for sedentariness was 300 minutes/week.

Results:

The prevalence of inadequate height for age, malnutrition, and overweight/obesity was 15.4%, 9.9% and 12.1%, respectively. The most common physical activities were soccer (44.4%), volleyball (14.4%) and cycling (7.8%). The median times spent with physical activity and walking/bicycling to school were 141 min and 39 min, respectively. Most adolescents (71.4%) were sedentary and this proportion was higher among girls (p=0.046).

Conclusions:

A high prevalence of physical inactivity among adolescents with HIV/AIDS was observed, similar to the general population. Promoting physical activity among adolescents, especially among girls with HIV/AIDS, as well as monitoring it should be part of the follow-up routine of these patients.

Keywords Adolescent; HIV/AIDS; Physical activity; Sedentary lifestyle

Introdução

Cerca de 9% das mortes prematuras (cerca de 5,3 milhões dos 57 milhões de mortes em 2008) e de 6% a 10% das principais doenças crônicas não transmissíveis, como diabete, doença coronariana e cânceres de cólon e mama, podem ser atribuídos à inatividade física. Caso os indivíduos sedentários se tornassem fisicamente ativos, calcula-se que a expectativa de vida mundial sofreria um aumento de 0,68 ano.1 Estudo feito nos Estados Unidos com pessoas de 50 anos ou mais e fisicamente inativas revelou que abandonar esse comportamento representaria um ganho da ordem de 1,3 a 4,7 anos de vida. Assim, a inatividade física é comparável com outros importantes fatores de risco mutáveis, como o tabagismo e a obesidade.2

Em pacientes com HIV/Aids, a prática de atividade física pode integrar as abordagens não farmacológicas de controle da doença. Desde a introdução da terapia antirretroviral de alta potência, as alterações metabólicas e morfológicas passaram a preocupar os profissionais de saúde e os pacientes em tratamento. Essas alterações incluem a perda de gordura da região facial, dos membros superiores e inferiores (lipoatrofia) e o acúmulo de gordura nas regiões abdominal, cervical e nas mamas (lipo-hipertrofia), assim como a elevação da concentração de colesterol total e triglicérides séricos e o aumento da resistência periférica à insulina.3

A atividade física, no entanto, pode ajudar a mitigar os efeitos colaterais desse tipo de terapia. Tamanha é a importância do tema que o Ministério da Saúde lançou, em 2012, a cartilha “Recomendações para a prática de atividades físicas para pessoas com HIV e Aids”. De acordo com o órgão, algumas das vantagens da prática de atividade física por essa população são: estimulação do sistema imunológico, alívio da depressão e prevenção ou redução de efeitos colaterais do uso de terapia antirretroviral.4 Outras instituições, como o Conselho Federal de Educação Física, também recomendam a prática de atividade física para essa população.5

Apesar de sua importância para indivíduos com HIV/Aids, poucos estudos analisaram a prática de atividade física na população adolescente. Assim, o objetivo do presente estudo foi verificar a prevalência de sedentarismo entre adolescentes com HIV/Aids e seus fatores associados.

Método

Estudo transversal, aninhado a uma coorte de crianças e adolescentes que vivem com HIV/Aids atendidos na Unidade de Infectologia do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Entre abril e setembro de 2010, foram identificados 124 adolescentes entre 10 e 19 anos matriculados no referido serviço. Desses, oito não haviam comparecido às consultas agendadas nos seis meses anteriores; dez não foram localizados; dez faltaram à avaliação agendada; três se recusaram a participar e dois foram excluídos por problemas de saúde que comprometiam a prática de atividade física.

Para este estudo, foram entrevistados 91 adolescentes, o que corresponde a 73% dos pacientes elegíveis, que responderam ao questionário de atividade física habitual desenvolvido e validado por Florindo et al.6

O questionário é composto por 17 questões, divididas em dois blocos. O bloco I contempla esporte ou exercícios físicos. As questões do bloco I (questões de 1 a 15) referem-se às três principais atividades físicas praticadas pelo adolescente, a frequência semanal e a duração. Para o cálculo da duração semanal (em minutos) da prática de atividade física é necessário multiplicar a duração dos esportes/atividades pela frequência semanal. O bloco II (questões 16 e 17) considera as atividades físicas de locomoção até a escola (a pé ou de bicicleta). O escore de locomoção até a escola é o tempo gasto com essa atividade multiplicado por cinco. A soma dos escores dos blocos 1 e 2 gera o escore final “minutos de atividade física semanal”. A partir desse valor, os adolescentes foram classificados como sedentários (<300 minutos de prática de atividade física por semana) e ativos (≥300 minutos/semana), de acordo com o ponto de corte proposto por Pate et al. 7

Os exames bioquímicos analisados neste estudo referem-se aos três meses anteriores ou posteriores à entrevista. As informações foram coletadas nos prontuários médicos.

Informações socioeconômicas foram obtidas por meio de um questionário respondido pelos responsáveis no momento da entrevista.

A avaliação antropométrica dos adolescentes foi feita por nutricionista previamente treinada. Foram aferidas, em duplicata, as seguintes medidas: peso (kg), por meio de balança digital; altura (metros), por meio de estadiômetro, e circunferência da cintura (cm), com fita inelástica. Para o cálculo do escore-z de altura para idade e IMC para idade foi usado o software WHO Anthroplus, versão 1.0.3.8

Medidas de tendência central e frequências absoluta e relativa foram usadas para a caracterização da amostra. Para testar a associação entre o sedentarismo e as variáveis independentes dicotômicas foi feito o teste qui-quadrado. Para as variáveis independentes quantitativas, primeiramente foi verificada a aderência à distribuição normal pelo teste de Kolmogorov-Smirnov e, em seguida, foi aplicado o teste de diferença de média de acordo com a distribuição (Mann-Whitney para não paramétricas e t de Student para paramétricas). Foram selecionadas para o modelo múltiplo todas as variáveis que apresentaram valor de p<0,20 e a estratégia de modelagem usada foi a stepwise forward. Para todas as análises estatísticas, usou-se o software SPSS (Statistical Product and Service Solutions, EUA) versão 15.

Esta pesquisa teve aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Saúde Pública e da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (protocolos 1667/2007, 0144/10 e 2239/2011). Os voluntários (acima de 18 anos) ou responsáveis (dos pacientes menores de 18 anos) assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido.

Resultados

Ao diagnóstico de infecção por HIV, a idade mediana foi de 1,7 ano e, no momento da entrevista, 14,9 anos. A maioria dos adolescentes (54,9%) era do sexo feminino, foi infectada pela via vertical (95,6%) e fazia uso de terapia antirretroviral (97,8%). O tempo mediano de uso de terapia antirretroviral foi de 11 anos.

Dez entrevistados (11%) moravam em casas de apoio. Dos adolescentes que moravam com a família, 62,5% tinham os pais (biológicos/adotivos) como cuidadores e os demais, outros parentes (tios, irmãos ou avós). A maioria das famílias dos adolescentes (76,9%) vivia com até um salário mínimo per capita (tabela 1).

Tabela 1 Número e porcentagem de adolescentes, segundo características sociodemográficas. Instituto da Criança, 2010 

Variáveis n %
Sexo    
    Masculino 41 45,1
Cor da pele    
    Branco 41 45,1
Idade ao diagnóstico (HIV)    
    0‐2 anos 51 56,0
Idade na pesquisa    
    10‐12 anos 25 27,6
    13‐15 anos 33 36,3
    16‐20 anos 33 36,3
Modo de transmissão    
    Vertical 87 95,6
    Transfusional 1 1,1
    Indeterminado 3 3,3
Uso de terapia antirretroviral    
    Sim 89 97,8
Tipo de terapia antirretroviral a    
    Terapia dupla 11 12,4
    Terapia tripla 68 76,4
    Terapia quádrupla 10 11,2
Local de moradia    
    Família 81 89,0
Cuidador b    
    Pais biológicos/adotivos 51 63,0
Renda per capita c    
    <1 salário mínimo 50 76,9
Sobrepeso/obesidade    
    Sim 11 12,1
Colesterol total alterado d    
    Sim 32 36,0
LDL‐colesterol alterado e    
    Sim 14 16,7
HDL‐colesterol alterado f    
    Sim 61 74,4
Triglicérides alterados f    
    Sim 32 36,4
Sedentarismo    
    Sim 65 71,4

aApenas para os adolescentes em uso de terapia antirretroviral.

bApenas para os adolescentes que residiam com a família.

cCálculos baseados no salário mínimo vigente em 2010 (R$ 510).

dn=89 adolescentes com o exame laboratorial disponível.

en=84 adolescentes com o exame laboratorial disponível.

fn=82 adolescentes com o exame laboratorial disponível.

As prevalências de altura inadequada para idade, desnutrição e sobrepeso/obesidade foram de 15,4% (95%IC = [8,0; 22,8]), 9,9% (95% IC = [3,8; 16,0]) e 12,1% (95% IC = [5,4; 18,8]), respectivamente.

Com relação aos exames laboratoriais, 74,4% dos adolescentes apresentaram HDL-colesterol diminuído e 36,4% triglicérides alteradas. Do total, 32 (36,4%) adolescentes apresentaram carga viral abaixo dos níveis de detecção.

As atividades físicas mais citadas pelos adolescentes foram: futebol (44,4%), voleibol (14,4%) e andar de bicicleta (7,8%). Os tempos medianos dispendidos com a prática de atividade física e caminhando/andando de bicicleta até a escola foram, respectivamente, de 141 minutos e 39 minutos. Dos adolescentes entrevistados, 29 (31,9%) afirmaram não praticar qualquer tipo de atividade física.

Foi verificada alta prevalência de sedentarismo entre os adolescentes estudados: 71,4% (95% IC=[62,1; 80,7]), proporção maior entre as meninas (meninas 80% versus 61%; p=0,046). As análises univariadas entre sedentarismo e as demais variáveis independentes não encontraram associações estatisticamente significativas (tabela 2).

Tabela 2 Porcentagem de adolescentes segundo atividade física e características sociodemográficas. Instituto da Criança, 2010 

Variáveis Sedentário (%) Ativo (%) p‐valor
Sexo     0,046
    Masculino 61,0 39,0  
    Feminino 80,0 20,0  
Cor da pele     0,286
    Branco 65,9 34,1  
    Não branco 76,0 24,0  
Local de moradia     0,222
    Família 69,5 30,5  
    Casa de apoio 89,9 11,1  
Cuidador a     0,093
    Pais biológicos/adotivos 62,0 38,0  
    Outros parentes 80,0 20,0  
Renda per capita b     0,503
    <1 salário mínimo 26,7 73,3  
    ≥1 salário mínimo 36,0 64,0  
Sobrepeso/obesidade     0,186
    Sim 54,5 45,5  
    Não 73,7 26,3  
Indetecção da carga viral do HIV c     0,791
    Sim 68,8 31,2  
    Não 72,9 27,1  
Imunossupressão atual d     0,657
    Sim 70,7 29,3  
    Não 77,8 22,2  

aApenas para os adolescentes que residiam com a família.

bCálculos baseados no salário mínimo vigente em 2010 (R$ 510).

cn=88 adolescentes com o exame laboratorial disponível.

dConsiderando o componente categoria imunológica da classificação CDC.

Não houve diferença estatística entre as médias dos exames bioquímicos e escore-z de IMC quando comparados os adolescentes sedentários e os ativos (tabela 3).

Tabela 3 Comparação de parâmetros bioquímicos entre adolescentes sedentários e inativos. Instituto da Criança, 2010 

Variável Sedentários Ativos p‐valor
Carga viral (cópias) 15.922,9 15.995,8 0,994
Contagem de células CD4+ (células) 441,7 485,5 0,596
Colesterol total (mg/dL) 161,9 155,5 0,523
HDL‐colesterol (mg/dL) 36,7 38,8 0,395
LDL‐colesterol (mg/dL) 95,2 93,9 0,874
Triglicérides 124,2 153,3 0,081
Glicemia (mg/dL) 87,8 85,2 0,546
Escore‐Z de IMC ‐0,3 0,1 0,118

O modelo final escolhido foi o univariado (sedentarismo versus sexo) - uma vez que as demais variáveis dependentes não apresentaram significância estatística nos modelos múltiplos testados - com a técnica stepwise forward (tabela 4).

Tabela 4 Modelos de regressão logística. Instituto da Criança, 2010 

    Sexob Cuidadorc Sobrepesod p‐valor
Modelo 1a OR 2,56     0,049
  IC [1,01; 6,52]      
Modelo 2 OR 2,88 2,45   0,024
  IC [1,06; 7,81] [0,82; 7,29]    
Modelo 3 OR 2,61   0,41 0,058
  IC [1,01; 6,71]   [0,11; 1,54]  

aModelo selecionado.

bSexo masculino como referência.

cPais biológicos/adotivos como referência.

dDesnutrido/eutrófico como referência.

Discussão

Verificou-se alta prevalência de sedentarismo entre adolescentes que vivem com HIV/Aids, maior nas meninas. Outros fatores investigados, como local de residência, cuidador e renda, assim como dados antropométricos, não se mostraram associados ao sedentarismo. Com relação ao tipo de exercício físico praticado, os mais citados foram: futebol, voleibol e andar de bicicleta.

Os resultados encontrados nesta pesquisa assemelham-se àqueles apresentados por outras publicações que investigaram a prática de atividade física entre adolescentes da população geral, no Brasil e no mundo.9-15

A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (Pense) feita nas capitais e no Distrito Federal avaliou a prática de atividade física nos sete dias anteriores à aplicação do questionário. O ponto de corte foi, também, 300 minutos de prática de atividade física/semana. Do total, 56,9% dos adolescentes eram sedentários, comportamento mais prevalente entre as meninas (68,7% versus 43,8% meninos). Outra associação identificada pela pesquisa foi maior prevalência de sedentarismo entre os alunos de escolas públicas quando comparados com os alunos de escolas particulares.13

Destaca-se que, no estudo de Guthold et al.9 - que analisou dados sobre atividade física de adolescentes de 13-15 anos de 34 países e do qual o Brasil não fez parte -, foi observada apenas uma exceção quanto à proporção de meninas versus meninos sedentários: a Zâmbia, onde houve maior proporção de meninos sedentários. Um estudo feito com 177 adolescentes (100 meninas e 77 meninos) investigou a percepção sobre o comportamento de atividade física de garotas, por meio de grupos focais. Tanto meninos quanto meninas descreveram meninas ativas como sendo “agressivas demais”. Meninos consideraram, com frequência, meninas fisicamente ativas como “atléticas demais”. Esse tipo de percepção pode influenciar de forma negativa a prática de atividade física entre meninas.16

No entanto, por conta do uso de diferentes instrumentos, tanto na coleta de dados quanto na sua classificação posterior, a comparação entre estudos torna-se limitada. Apesar dessa limitação e com base nos dados supracitados, é possível concluir que a inatividade física é um problema global, prevalente tanto em países em desenvolvimento quanto em países desenvolvidos.9-14

Em se tratando da prática de atividade física em adolescentes com HIV/Aids foi possível localizar dois estudos feitos no Brasil. Uma dessas publicações investigou crianças e adolescentes (7-14 anos) órfãs por Aids e apenas 5,5% da amostra tinham sorologia positiva para o HIV. O estudo empregou o mesmo questionário e ponto de corte desta publicação, o que possibilitou a comparação direta dos resultados. A prevalência de sedentarismo foi 42%. Dois achados mostraram-se semelhantes aos encontrados no presente estudo: associação entre o sedentarismo e sexo e esportes mais referidos (futebol e voleibol).11

O outro estudo foi feito em Florianópolis e teve como objetivo primário avaliar a densidade óssea de 48 adolescentes com HIV/Aids, com a atividade física usada como variável de controle. A atividade física foi mensurada por meio de pedômetros, aplicados durante cinco dias, incluindo dois dias no fim de semana. A contagem de 10.000 passos/dia foi usada para classificar o nível de atividade física dos adolescentes. Cerca de 70% dos entrevistados apresentaram níveis inadequados de atividade física. Os autores não encontraram diferença estatisticamente significativa na média da contagem de passos entre sexos.17

A prática de atividade física pode ser uma estratégia importante para a prevenção ou o controle de alterações metabólicas e morfológicas associadas à infecção pelo vírus e também ao uso de terapia antirretroviral de alta potência. O artigo de revisão de Fillipas et al.18 analisou nove ensaios clínicos controlados aleatórios e comparou o grupo de intervenção (exercício aeróbico) com o grupo controle. Os resultados evidenciaram redução do índice de massa corporal, da prega cutânea tricipital, de gordura corporal total, da circunferência da cintura e da razão cintura-quadril. No presente estudo, não foi encontrada associação entre as variáveis antropométricas e a prática de atividade física. Destaca-se que não foram aferidas as pregas cutâneas e a medida de circunferência do quadril, o que limitou a avaliação nutricional da população estudada.

Estudo que avaliou o efeito de um programa estruturado de nutrição e atividade física em crianças com HIV verificou que, após 24 treinos, houve aumento significativo de força e resistência muscular e do pico de volume máximo de oxigênio (VO2).19

Estudos conduzidos no Brasil que analisaram a atividade física e a lipodistrofia em pacientes adultos com HIV/Aids também encontraram associações na mesma direção. Florindo et al.20 notaram associação inversa entre a duração da prática de atividade física e o acúmulo de gordura abdominal e Segatto et al.21 observaram menor prevalência de lipodistrofia em indivíduos ativos, quando comparados com os sedentários. No presente estudo não foi possível detectar associações semelhantes. Uma das possíveis justificativas para tal fato é o tipo de delineamento da pesquisa. Por se tratar de um estudo transversal, tanto a exposição (variáveis socioeconômicas e exames laboratoriais) quanto o desfecho (a atividade ou o sedentarismo) foram medidos no mesmo momento.

O incentivo à prática de atividade física faz parte da agenda da Organização Mundial da Saúde. Após a publicação do World Health Report 2002, que revelou que 60% de todas as mortes podiam ser atribuídas às doenças crônicas, foi lançada a estratégia global para a dieta, atividade física e saúde. Dessa maneira, a OMS evidenciou a necessidade de reduzir a exposição aos fatores de risco para o desenvolvimento de doenças crônicas, por meio da adoção de uma dieta saudável e prática regular de atividade física. De acordo com a OMS, “pelo menos 30 minutos de atividade física moderada na maioria dos dias reduz o risco de doenças cardiovasculares e diabetes, câncer de cólon e mama”.22 Igualmente preocupado com questões acerca da prática de atividade física entre adolescentes, o governo americano lançou o “2008 Physical Activity Guidelines for Americans”.23 Junto às diretrizes, também foi criado o “The NHANES National Youth Fitness Survey”, que coletou, em 2012, informações sobre a prática de atividade física de crianças e adolescentes de 3-15 anos residentes nos Estados Unidos.24 O monitoramento da prática de atividade física dos adolescentes por parte da equipe multidisciplinar pode ser uma abordagem para acompanhar a prática de atividade física ao longo do tempo e identificar mudanças. O questionário de atividade física habitual tem aplicação rápida, é de cálculo simples e pode ser incorporado à rotina de atendimento dos pacientes sem ocasionar grandes transtornos.

Além do monitoramento, é primordial promover a prática de atividade nessa população e levar em conta questões de gênero, a fim de reduzir o risco para o aparecimento de doenças crônicas e efeitos colaterais da terapia antirretroviral, assim como estimular o sistema imunológico e aliviar sintomas da depressão.

Financiamento

Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) (processos: 10/01187-9 e 08/53322-7), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) (processo: 135885/2011-4) e Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) (bolsa de mestrado do programa de demanda social).

Agradecimentos

À equipe médica do Instituto da Criança: Samantha Brasil Andrade, Cláudia Menezes, Vera Lúcia Moyses Borelli, Maria de Fátima Carvalho e Nádia Litvinov. Também à equipe de coleta: Sofia de Fátima da Silva Barbosa de Oliveira, Flávia Monique Santos e Elissa Carolina Mendes pela assistência prestada.

Referências

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Recebido: 1 de Setembro de 2014; Aceito: 25 de Dezembro de 2014

* Autor para correspondência. E-mail: luanaft@usp.br (L.F. Tanaka).

Conflitos de interesse

Aline Medeiros da Silva é funcionária da Janssen Pharmaceutical Companies, mas esse vínculo é posterior à pesquisa.

Creative Commons License Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a licença Creative Commons Attribution Non-Commercial No Derivative, que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que sem fins comerciais, sem alterações e que o trabalho original seja corretamente citado.