SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.3 issue5Treinta años de la Casa de las AméricasDiscurso de outorga do título de Professor Emérito da USP author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Estudos Avançados

Print version ISSN 0103-4014On-line version ISSN 1806-9592

Estud. av. vol.3 no.5 São Paulo Jan./Apr. 1989

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40141989000100008 

ARTIGOS ASSINADOS

 

Je vous Salue Marie: um filme cheio de graça

 

 

Annie Goldmann
Tradução: Mário Laranjeira

 

 

O perfume de escândalo que cercou o lançamento do filme de Godard obscurecen o seu verdadeiro significado. Considerado sacrílego por alguns, incompreensível por outros, a polêmica ocultou a profunda espiritualidade, evidente, entretanto, desta obra. Como sempre, Godard surpreende ao mesmo tempo pela novidade de sua abordagem, pela forma original e pela audácia da mensagem.

Diante do mistério da natividade de Jesus, Godard simplesmente perguntou a si mesmo: como contar essa história em nossa modernidade? Como contar um acontecimento tão extraordinário que se deu a 2 mil anos e que é o fundamento de fé de milhões de indivíduos no mundo e, principalmente, como contá-lo em função dos modos modernos de comunicação?

Enquanto Pasolini, com O Evangelho segundo São Mateus, permanece no registro são-sulpiciano da reconstituição histórica e da mensagem tradicional cristã, Godard tenta dela fazer a narrativa como se estivesse se dirigindo a crianças da nossa época, habituadas com os heróis das séries televisionadas e com a leitura das histórias em quadrinhos. É por isso que transpõe o maravilhoso cristão para o mundo imaginário de hoje, mistura de Pieds Nickeles e de Star Trek. Em vez de um anjo do outro mundo, Gabriel é um homem comum, que viaja de avião; já não é só e seráfico, mas pragmático e acompanhado por uma garota maliciosa, como a heroína de Alice no País das Maravilhas; a estrela dos Reis Magos é substituída pela bandeirinha de um carro-socorro; Maria é filha de um frentista e membro de um time de basquete, e José é motorista de táxi... Gente simples, comum, exatamente como eram os pais de Jesus no tempo de Herodes. O lugar já não é o campo primitivo, mas a cidade com as suas atividades — o trabalho de José, as relações humanas, as relações difíceis entre os homens e as mulheres, uma cidade alheia aos mistérios da fé, onde Maria vai encontrar-se sozinha para enfrentar o seu destino em meio à indiferença e ao ceticismo que caracterizam o mundo moderno. Esta opção de atualizar o acontecimento tem por função recolocar a problemática da mensagem cristã no mundo de hoje e não mais relegá-la ao museu imobilizado da instituição religiosa; os cartões repetitivos e insistentes Naquele tempo servem para marcar, ao mesmo tempo, a intemporalidade e a contemporaneidade do acontecimento. Ao transportar rigorosamente a natividade para o mundo atual, Godard atualiza por isso mesmo a mensagem milenar e lhe confere perenidade.

Eis por que as duas personagens principais estão bem situadas em sua época e vivem os conflitos de um casal moderno: José tem um caso com outra mulher e Maria duvida do seu amor.

Entretanto, de acordo com a tradição, Maria é jovem, inocente e virgem. Diante da incapacidade da ciência para explicar a sua milagrosa fecundação, a moça vai aceitando pouco a pouco o inacreditável por caminhos outros que não os da razão. Como imaginar, em nossa época, semelhante acontecimento e como fazê-lo aceitar aos outros? A princípio há a expectativa: a jovem espera algo de extraordinário: "Indagava-me se algum fato notável ia acontecer na minha vida" pois, contrariamente aos homens, "todas as mulheres desejam alguma coisa que seja única neste mundo". Em seguida, após a Anunciação, ela vai aos poucos assumindo o seu destino e descobrindo uma outra dimensão na vida, uma dimensão secreta que não pode partilhar com ninguém, porque cada um deve fazer a sua própria descoberta da espiritualidade. "Quero que a alma seja corpo e não se poderá dizer que o corpo é alma (...) Não mais haverá sexualidade em mim, conhecerei o discurso verdadeiro da alma." Mas Maria é feita de carne humana, tem desejos de mulher e a castidade que se impõe lhe pesa. Nua na cama, vê-se a braços com o desejo, como todas as mulheres; e trava um combate desgastante contra a tentação; daí as alusões à masturbação recusada, que são talvez chocantes, mas que se inscrevem perfeitamente no projeto godardiano de tornar viva e credível a personagem. Tais tentações não empanam a espiritualidade de Maria, ao contrário, é pelo combate contra si mesma que atinge o mistério do espírito e se eleva em relação aos outros. Se tudo lhe fosse dado, se tudo lhe fosse fácil, o seu mérito seria menor. A sua ascese não está definitivamente adquirida, é o resultado de um esforço sobre a carne, sobre a vida cotidiana. Godard transgrediu a imagem tradicionalmente passiva de Maria, simples receptáculo da Palavra, simples instrumento da Divindade, para lhe dar uma consciência, uma elevação pessoal que a coloca acima de todos os outros. Ela adquire, enquanto mulher, uma verdadeira grandeza; ela é cheia de graça.

 

 

Para dar ao acontecimento uma significação ainda maior, Godard o liga ao cosmos. Maria está sozinha no meio dos seres humanos. "Há muito tempo não sei o que é uma conversação comum (...) Eu quisera falar como toda gente." — mas o universo inteiro participa da gestação miraculosa, os elementos e os astros — a lua, principalmente, astro feminino por excelência — acompanham-na; pela janela entreaberta do quarto, durante as noites solitárias e as sestas abrasadoras, são os seus únicos confidentes, testemunhas protetoras do seu ventre que se arredonda; o vento, a água, os campos estão no segredo que os homens ignoram. Maria está próxima do cosmos em movimento que, como Jesus, é criado por Deus. Mesmo o homem de ciência, o professor que tenta explicar aos seus alunos as leis da criação, acaba por admitir que um grande computador com uma inteligência fabulosa é o único ser que pode estar na origem da complexidade do universo. "A vida foi fruto de uma vontade, desejada, prevista, ordenada por uma inteligência resoluta." A intervenção divina se dá em todos os níveis: no da criação e no da revelação através do menino que vai nascer1. Há um paralelo voluntário entre a fé de Maria e a ciência que é incapaz de explicar racionalmente a origem da vida. Numa síntese ousada, Godard remete o nascimento de Jesus à grande questão do Princípio.

Longe de ser o ancião passivo da tradição cristã, José é um homem jovem, ardente (tem uma amante), materialista, sem ideal, que recusa obstinadamente a renunciar aos seus direitos sobre Maria. Será necessária a intervenção truculenta de Gabriel, que mais parece um executor de quadrilha do que um enviado angélico, para obrigá-lo a isso. A sua incompreensão não é senão um paradigma da incomunicabilidade do casal moderno e do egoísmo masculino. Durante algum tempo ele cultiva uma dupla relação amorosa, exatamente como o professor que rompe brutalmente com a sua jovem amante para manter o próprio conforto. O amor que José tem por Maria é a sombra da sombra, prisioneiro do ciúme, furioso por ser excluído, ele quer entender tudo, esquece a confiança, como os outros. Usa óculos de cego. Também ele terá de percorrer o seu caminho pessoal para descobrir em si o verdadeiro amor e aceitar Maria em sua diferença, para acreditar, também ele, que o espírito age sobre o corpo e não o contrário.

A segunda parte do filme, mais rápida, esboça o destino do menino, mas sobretudo a evolução de Maria alguns anos após o acontecimento tão grande que tudo é consumido. O que nos mostra Godard é um casal banal, um marido autoritário e um garotinho voluntarioso, mimado pela mãe. Na realidade, Maria conhece o destino de seu filho; longe de se opor a ele, entrega-lhe o menino, como se esse destino não mais lhe dissesse respeito. O gesto da criança explorando-lhe o corpo por debaixo do vestido não é obscenidade, mas o último vestígio da ligação extraordinária que existiu entre o seu corpo e o seu filho, ligação única de que José está excluído.

Como acontece com freqüência nos filmes de Godard, a mulher é dotada de um poder de adivinhação, de um instinto de que o homem é desprovido e, nesse sentido, este filme é uma homenagem à glória da mulher. "Sempre me indaguei o que é que se sabe de uma mulher (...) há um mistério." Mas o mundo em que vivemos já não percebe esse segredo e é muito duro carregá-lo na solidão. Maria, como todos nós, esqueceu; negligenciou as recomendações da pequena acompanhante de Gabriel:

"Maria, seja dura, seja pura, siga apenas o seu caminho. Não esqueça".

 

 

Ela voltou a ser uma mulher como as outras, que caminha pelas ruas da sua cidade, dirige o carro e se pinta. Perdeu a sua inocência e pureza. Eis por que, quando Gabriel cruza com ela por acaso e a interpela: "Ave, Maria", a lembrança da extraordinária missão de que fora investida e que abandonou lhe aflora à mente por um instante; um véu de nostalgia e de melancolia — de culpa talvez — enrijece-lhe o rosto maquilado. Uma hesitação e... o batom se esmaga sobre a boca aberta, buraco negro, obsceno, mudo sobre o que foi e não mais será. Não haverá Mater Dolorosa nem Rainha do Céu; resta uma mulher comum que se juntou à materialidade do mundo. "Eu, sou algo como virgem, e nunca quis ser nada disso."

 

 

Para contar esta história moderna, Godard utiliza uma linguagem moderna, aquela que uma criança de nossos dias conhece. O filme está construído em tomadas fixas, como figuras de história em quadrinhos bem enquadradas, legíveis, entrecortadas de cenas paralelas que fazem alternar os dois universos, o de Maria, que sabe, e o dos outros. Aí tem cabimento o humor, as personagens estão muito próximas dos estereótipos das histórias em quadrinhos, como o anjo Gabriel, desajeitado e violento, moderado pela mocinha ("Não, não, tio Gabriel, você está se enganando de texto."). É o universo infantil que Godard tenta reencontrar, desembaraçado de toda hagiografia2. Mas a conclusão permanece amarga: a oportunidade dada à humanidade foi perdida e esquecemos que ela nos foi dada.

 

 

Annie Goldmann é diretora de pesquisas na École des Hautes Études en Sciences Sociales (França) e participante de dois Cafés Acadêmicos no IEA em 1988.
1 Trata-se, bem-entendido, de uma análise do filme e não das minhas posições pessoais.
2 Em dois lugares, entretanto, ele parece fazer concessões à imaginária tradicional: quando do nascimento de Jesus, algumas tomadas de neve, de uma vaca e de um jumento inserem-se artificialmente, e quando o rapazola atribui aos seus companheiros de brincadeiras os nomes de seus futuros discípulos. Por outro lado, a frase "Eu sou aquele que é." pronunciada pelo menino parece uma interpretação abusiva, tendo sido dirigida por Deus a Moisés e certamente não por Jesus.

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License