ORIGENS E ATUAIS LINHAS DE PESQUISA
HUMANIDADES
Fidelino de Figueiredo na origem dos estudos de Literatura Portuguesa no Brasil
Antônio Soares Amora
Os idealizadores da Universidade de São Paulo estávamos então no começo dos anos 30 partiram do princípio que, para fundar uma instituição de ensino superior que contribuísse, efetivamente, para a renovação da cultura brasileira, era indispensável criar, na sua base, uma faculdade voltada ao mesmo tempo para a docência e a pesquisa ou, mais explicitamente, para a formação de jovens orientados para a produção original no campo da filosofia, das ciências ou das letras e para, com o espírito de pesquisa ou especulativo, atuar no ensino. E esta é a razão porque, para os quadros docentes dessa faculdade, que veio a denominar-se Filosofia, Ciências e Letras, foram convidados, no Brasil e no estrangeiro, de preferência especialistas que se vinham distinguindo por suas contribuições para o progresso do conhecimento e se mostravam interessados na formação de discípulos. Correspondendo a esse modelo, foram contratados em Portugal, para a pesquisa e o ensino nas áreas da língua e da literatura portuguesa, dois professores, Rebelo Gonçalves, jovem professor da Faculdade de Letras de Lisboa, que começava a impor-se como brilhante filólogo e Fidelino de Figueiredo, já com renome internacional, pelo seu trabalho na renovação da crítica, da história e da teoria literária em Portugal e pela ação que desenvolvera na criação dos estudos de literatura portuguesa na Espanha (Universidade Central de Madri) e nos Estados Unidos (Universidade da Califórnia, em Berkeley).
Contratado, em 1938 (1), para ministrar um curso de literatura luso-brasileira, Fidelino de Figueiredo, tão logo iniciou suas atividades de ensino e pesquisa, solicitou a Universidade três medidas que considerava essenciais ao desempenho do programa de ação que se impôs: a primeira, a instalação de um gabinete de trabalho, indispensável ao exercício de seu tempo integral na instituição; a segunda, a efetivação do desdobramento da cadeira em dois cursos: Literatura Portuguesa (que era sua especialidade e, portanto, ficaria a seu cargo) e Literatura Brasileira, que, a seu ver, deveria, por todas as razões, ficar sob a responsabilidade de um professor nacional (2); e como terceira medida, a criação de uma linha de publicação destinada a recolher a produção crítica da cadeira e a promover suas relações com congênere produção nacional ou estrangeira. O gabinete de trabalho em que Fidelino de Figueiredo começou a escrever sua produção paulista e onde, de 1938 a 1939, era normalmente encontrado, criou na cadeira de Literatura Portuguesa da USP a tradição do ensino e da pesquisa em efetivo tempo integral na Faculdade. Quanto às publicações da cadeira, recorde-se que já em fins de 1938 Fidelino de Figueiredo publicaria num boletim da Faculdade, intitulado Letras nº 1, os resultados de suas últimas pesquisas de documentos sobre a ambiência heróica em Portugal, no século XVI (3). E a separação dos cursos das literaturas de língua portuguesa, em que sempre insistiu, acabou por se fazer em 1940. Apesar de extremamente dedicado às aulas, ao convívio universitário, às suas pesquisas, à sua a no campo da teoria literária e ao intenso relacionamento epistolar com o mundo (4), Fidelino de Figueiredo ainda participou do programa de difusão cultural para que também estava voltada a Universidade de São Paulo e, neste sentido, deu regular colaboração à imprensa (5). Em 1939, para atender ao interesse de grande audiência de profissionais do ensino, da crítica e da biblioteconomia, deu, na Biblioteca Pública Municipal de São Paulo, quatro conferências sobre as últimas tendências da bibliografia, da historiografia e da crítica literárias, logo editadas num volume, Aristarchos, de sabida influência na crítica brasileira e portuguesa, bem como no ensino da literatura, que então começava a expandir-se no Brasil, no curso superior, ou de Letras.
Tendo colaborado também na fundação da Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro, onde organizou, em 1940 e 1941, o curso de Literatura Portuguesa da Faculdade Nacional de Filosofia, hoje Faculdade de Letras da UFRJ, Fidelino de Figueiredo retomou, em 1942, suas atividades na USP e, em um decênio, completou o projeto do curso iniciado em 1938:
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fez publicar mais oito boletins de
Letras, sendo três de sua autoria e dois com seu prefácio;
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formou um corpo de assistentes e continuadores, levando dois ao doutoramento e, destes, um à livre docência;
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a partir de 1946 deu ao seu curso dois níveis, um de licenciatura e outro de especialização (mais tarde transformado em pós-graduação);
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convencido de que uma cadeira tinha limitados recursos de pesquisa e ensino, propôs à Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, em 1948, a criação de um Instituto de Literatura, de pronto aprovado, mas por dificuldades materiais só instalado, com algumas modificações, em 1955, como Instituto de Estudos dos Portugueses da USP (hoje Centro de Estudos Portugueses), instituição que inspirou a criação de vários centros semelhantes no país;
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participando, mais uma vez, do programa de difusão cultural da Universidade de São Paulo deu, em 1942, na Biblioteca Pública Municipal de São Paulo e novamente para um grande público, em quatro conferências destinadas a comemorar o centenário do nascimento de Antero de Quental, uma demonstração de como entendia e ensinava a crítica: não como biografia ou impressões pessoais de leituras, mas como uma ''direção de espírito" (
6).
E sempre convencido da importância das idéias, manteve, até 1947, sua colaboração jornalística no Brasil.
Em dezembro de 1951, ao viajar para Portugal por motivo de doença que lhe veio ser fatal em 1967, Fidelino de Figueiredo podia estar certo de que, em São Paulo, deixara um centro de estudos de literatura portuguesa, orientado e potencializado para uma fecunda produção, para sua disseminação no Brasil e para um amplo relacionamento internacional. Estava cumprida sua missão no Brasil.
Notas
Antônio Soares Amora é Professor Emérito da USP.

