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Estudos Avançados

Print version ISSN 0103-4014

Estud. av. vol.17 no.47 São Paulo Jan./Apr. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40142003000100013 

CRIAÇÃO
ARQUITETURA

 

Urbanização de favelas

 

 

Paulo Bastos

 

 

 

NO PROJETO de urbanização do conjunto de favelas por nós elaborado para o Programa Guarapiranga, a postura assumida, considerada como responsabilidade fundamental do arquiteto, foi a de trabalhar com os moradores desde a concepção, fazendo com que participassem da formulação dos seus próprios espaços públicos e familiares, assimilando o conteúdo dos problemas a enfrentar e discutindo as alternativas para uma possível solução.

Dessa forma, a necessidade de transferência dos assentados em áreas de risco para outros locais da favela, o alargamento ou abertura de vielas, com impacto em várias habitações - para possibilitar acessos adequados a todos - e a proposta de criação de espaços de convivência coletiva, foram assimilados pela comunidade em um processo de discussão pelo qual se objetivava a consolidação de incipientes princípios de organização, habilitando a comunidade a participar da construção dos espaços criados e, posteriormente, de sua gestão. Autogestão, portanto.

O corte das verbas (previstas) necessárias à condução desse processo interrompeu sua continuidade, frustrando uma experiência rica e promissora que visava, também, a resgatar o repertório cultural de cada grupo (usos, costumes, culinária etc.) como parte importante no reconhecimento de sua identidade.

 

Figura 02

 

No Jardim Floresta, os projetos basicamente criaram um sistema de vielas para pedestres (secundárias) nas encostas, articuladas a vielas de fundo de vale (principais) aproveitando o máximo possível o existente. A elas acoplaram-se algumas áreas livres compondo um conjunto, ao mesmo tempo, de espaços abertos de uso comunitário e acessibilidade às moradias, permitindo trânsito esporádico de caminhões de lixo, ambulâncias, bombeiros, caminhões de manutenção das tubulações de esgoto etc. no interior da favela. A coleta de águas pluviais nas vielas secundárias se dirige para os córregos canalizados dos vales; a de esgoto, para interceptores ligados à rede oficial.

 

 

 

Figura 04

 

 

Figura 05

 

No caso de Imbuias I, o projeto propôs a canalização do córrego São José, afluente importante da represa, ao longo do qual se desenvolveu e se consolidou a favela, e da linha d'água que nele desemboca, para dotá-la de um eixo central de acessibilidade, com as mesmas características do sistema adotado no Jardim Floresta, inclusive em relação à coleta e ao despejo de águas pluviais e esgotos. Os troncos de abastecimento de água potável e as redes de força e iluminação acompanham também a linha das canalizações.

Da mesma forma, a canalização fechada do córrego foi pensada em termos de agregação, antes inexistente no assentamento, dos espaços públicos de convivência e uso de pedestres previstos.

 

 

 

 

 

 

À medida, porém, que a urbanização foi implantada, os trechos de encosta, antes abandonados e incorporados pelo projeto às áreas públicas, foram ocupados pelos moradores.

Uma negociação bem-sucedida, conduzida pelas equipes de acompanhamento social da Prefeitura, conseguiu recuperar tais áreas, onde, então, foram projetados equipamentos urbanos dedicados ao uso da comunidade. Uma celebração simbólica deste fato dar-se-ia com sua participação na construção e na pintura de uma parede-brinquedo sinuosa, que permite a escalada e a travessia das crianças por meio de fendas e seteiras, espetáculos de bonecos através de uma janela proposta para esse fim, bem como rabiscos a giz de caras e roupas nos vultos humanos nela desenhados. Como parte significativa dessa celebração, em um grande setor da superfície da parede, pretende-se que as pessoas imprimam em cores diversas a marca de sua própria mão, inscrevendo e escrevendo nela o respectivo nome, como uma espécie de tomada de posse comunitária da favela urbanizada.

Em ambos os assentamentos, para os removidos das áreas de risco, foram propostas novas habitações, com tipologias diversas, de modo a atender programas familiares diferenciados e condições topográficas desfavoráveis. Paisagisticamente, o elemento mais importante é a arborização, formada por espécies frutíferas.

Assim, mais do que em um projeto de saneamento, trabalhou-se em um projeto de identificação da comunidade organizada com seu próprio espaço, abrindo a possibilidade de que ela também assumisse, em sua inserção urbana, uma identidade cultural específica.

 

 

As favelas Jardim Floresta e Imbuias I, na Capela do Socorro (Região Sul de São Paulo), integram o projeto de urbanização elaborado pelo arquiteto Paulo Bastos e equipe, de um conjunto de quatro favelas do Programa Guarapiranga; a primeira favela está com suas obras terminadas e a segunda, parciamente executada.
Paulo Bastos, arquiteto, é professor-titular da Faculdade de Arquitetura da Universidade Católica de Santos.
O projeto do Jardim Floresta recebeu o "Grande Prêmio Ex-Aequo de Urbanismo da 4ª Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo" (para obras executadas), concedido pelo júri composto dos arquitetos Acácio Gil Borsoi (Brasil), David Reznik (Israel), José Forjaz (Moçambique), Francine Houben (Holanda), Paulo Bruna (Brasil), Sylvia Ficher (Brasil) e o crítico Jorge Glusberg (Argentina). Os Projetos do Jardim Floresta e Imbuias I integraram a Mostra Brasileira na Bienal Internacional de Veneza, com o tema "Favelas Upgrading", por escolha da Fundação Bienal de São Paulo, encarregada pelo governo federal de montar a referida mostra.