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Estudos Avançados

Print version ISSN 0103-4014On-line version ISSN 1806-9592

Estud. av. vol.19 no.54 São Paulo May/Aug. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40142005000200015 

DOSSIÊ AMAZÔNIA BRASILEIRA II
CULTURA

 

Meus poemas favoritos de ontem & hoje

 

 

Benedito Nunes

 

 

As preferências não elidem o juízo crítico. Os poemas que escolhi são esteticamente autônomos. Diferem pela escrita, pelo tom ou pela atitude perante o mundo e os outros. Prefiro os de menor clicheria verbal, os mais sóbrios e os menos "regionalistas", sem desvalorizar a região ou a cor local como meio de passagem ao universal. Excluo os novidadeiros, os modistas, os domingueiros. As qualidades de linguagem enunciativa de cada qual, a fala em lugar do falatório, condicionam largamente minhas preferências. Enfim, estão aqui doze poetas paraenses distintos, reunidos tão só, malgrado as diferenças de idade, época e escola, tão só pelas suas qualidades afins.

 

 

 

 

O nativo de câncer (fragmento do poema)

Tessitura do arcano, equipagem noturna,
alva rede balança. Juramento nem lei
a ligam à pátria. Cordas e fronteiras
não a prendem:

Esta é Tisbe,
onde as pombas adejam ruidosas.
Esta Eleusis,
de Ceres e de Mário a mais amada.

E, grudado ao negro cabrestame, equinócios
de visgo, luas, peixes, nas quilhas
dessa rede itinerante.

Ó Alcino, sogro e rei, às tuas praias
de perenes lembranças retornei,
pois, se das águas salvo fui um dia,
das voragens do amor não me salvei,
e nessa nau que vês, nutriz de sonhos,
a Óbidos, aos deuses consagrada,
a inupta consorte levarei.
E dois agora somos nesse barco,
mas, se a Circe somarmos somos três.

Ruy Barata (1920-1990), Antilogia. Coletânea de poemas, 2000.

 

Ode

Os dedos contam as ondas,
os minutos talvez,
jamais o anelo.

Podes marcar a face disfarçada,
a barba,
os bens,
todos os sonhos,
mas escravos do real só te aceitamos
na tua farda de pêlos,
sangue
e ossos.

Quando recriarás a trança libertária,
o horizonte do mito,
o Deus negado,
a tela do perene e do intocável?

Quando libertarás a página e o relógio,
o ser distante que revel condenas
às arestas da ruga e aos frutos sazonados?

Quando
(deste olhar em diagonal ao espelho e à morte)
farás ruir ao peso de teu gládio
e ao sulco de teu grito
as taças do não ser,
o veneno da aurora,
as portas do visível,
e do invisível?

Ó jamais seremos sós perante a Fonte,
jamais seremos nós e a ti mostramos
o sorriso de "clown" que se reparte
em contorções de esperma,
tédio,
e ódio.

Jamais conservaremos o perfume e a liturgia,
e a hora que se esvai não justifica
este desabrochar em cálice e corola.

Não ser
                 (embora seja no retrato),
não ter
              (para ao flagelo condenar-se),
não sentir o chamar do céu porque beleza
e memória de ausências povoada.

Estamos sós,
bem sei,
e como é noite
arrancas o teu mundo no arbitrário,
e a poesia morde o que não é.

Quem te susteve o braço suicida:
a ode ou o catecismo?
Quem te ligou à sorte deste povo:
o sonho ou a promissória?
Quem te fez espalmar a mão como inocente
e a cabeça baixar como culpado?

Ó tempo,
ó dimensão do exílio e da orfandade,
e se não digo eterno,
quase eterno,
deixai toda esperança
"voi che entratte".

Ruy Barata, A linha imaginária, 1951.

 

Canção dos quarenta anos

Poema, suspende a taça
pelos dias que vivi.
Espelho, diz-me em que jaça
mais fiel me refleti.
Quarenta anos correram
e neles também corri.

Quarenta anos, quarenta.
Quantos mais inda virão?
Morrerei hoje de infarto
ou amanhã de solidão?
Serei pasto da malária?
Serei presa do avião?

A morte engendra esperança.
A morte sabe fingir.
A morte apaga a lembrança
da morte que vai ferir.
E em cada instante que passa
a morte pode surgir.

Quem pode medir um homem?
Quem pode um homem julgar?
Um homem é terra de sonhos,
sonho é mundo a decifrar.
Naveguei ontem no vento,
hoje cavalgo no mar.

Hoje sou. Ontem não era.
Amanhã de quem serei?
Um homem é sempre segredos.
Por qual deles purgarei?
Dos meus netos, qual o neto
em que me repetirei?

Que virtudes foram minhas?
Que pecados confessar?
Que territórios de enganos
a meus filhos vou legar?
A quem passarei meu canto
quando meu canto passar?
Ah! Como a vida é ligeira!
Ah! Como o tempo deflui!
Esse espelho não mais fala
da criança que já fui.
Das minhas rugas ruindo
apenas um nome rui.

Quedê rede balançando?
Quedê peixinhos do mar?
Quedê figo da figueira
pro passarinho bicar?
E o anel que tu me deste
em que dedo foi parar?

Dezembro chama janeiro.
Fevereiro irá chamar?
Monte-Cristo se me visse
não iria acreditar.
Como está velho, diria
a donzela Dagmar.

Um homem cresce espalhando
o reino em que foi feliz.
Onde Athos? Porthos?
Onde o tímido Aramis?
Um homem cresce querendo
e cresce quando não quis.

Crescer é rima de vida,
mas também é de morrer.
Crescer é terna ferida
que só dói no entardecer.
Em cada raiz da morte
há sempre um verbo crescer.

E cresço: macho e poeta.
Subo em linha, volto em cor.
Cresço violentamente.
Cresço em rajadas de amor.
Cresço nos filhos crescendo.
Cresço depois que me for.

Cresço em tempo de eternidade,
cresço em luta, cresço em dor,
não fiz meu verso castrado
nem me rendo ao opressor.
Cresço no povo crescendo,
cresço depois que me for.

E cresço na aurora livre
galopando esse corcel.
Cresço no verso espumando
entre as linhas do papel.
Cresço rubro de esperança
na barba de Don Fidel.

Quarenta anos, quarenta.
E nem sequer percebi.
Quarenta anos correram
e neles também corri.
E nesses quarenta anos,
oitenta de amor por ti.

Ruy Barata, Antilogia. Coletânea de poemas, 2000.

 

Elegia

Por que de estranhas terras eu te acompanho lua solitária
E durmo ouvindo os teus passos de anjo pela noite
Quando os velhos desejos desaparecidos voltam à flor das ondas
E a noite do exílio levanta as suas árvores de sonho,
De um tempo imemorial eu acompanho as tuas viagens,
Tu que vestes os mortos com o que cai do coração dos vivos
Eu te acompanho pelo céu escuro
Sentindo como tua a vertigem da morte que anuncias.

Paulo Plínio Abreu (1921-1959), Poesia.

 

O comedor de fogo

Veio do comedor de fogo e de seus milagres a esperança impossível.
Do comedor de fogo e de seus milagres à porta de sua tenda
Onde dormiam os cães numa nuvem de moscas.
Veio do comedor de fogo a esperança dos mundos impossíveis.
Veio dessa lembrança hoje apagada pelo tempo o sombrio desejo de evasão.
Veio do comedor de fogo a visão da vida aberta como um grande circo
E o convite irreal para a distância onde se esconde a morte.
Até o amor se perdeu nessa lembrança de um estranho comedor de fogo
E toda a infância confundiu-se com os milagres desse saltimbanco
E de seus cães doentes à porta de sua tenda.

Paulo Plínio Abreu, Poesia.

 

O polichinelo

O seu segredo era como o dos outros.
Seus olhos eram de vidro azul
e na boca vermelha
o riso da ironia.
O humor profundo, amargo e doloroso
vinha de sua boca;
o riso da sabedoria
e do desespero
gritava da sua boca aberta em sangue.
O riso do polichinelo
vinha do coração ausente, era uma advertência.
Era apenas o riso
e falava de um mundo
maior que sua alma.

Paulo Plínio Abreu, Poesia.

 

Nam sibyllam...

Lá onde um velho corpo desfraldava
As trêmulas imagens de seus anos;
Onde imaturo corpo condenava
Ao canibal solar seus tenros anos;
Lá onde em cada corpo vi gravadas
Lápides eloqüentes de um passado
Ou de um futuro argüido pelos anos;
Lá cândidos leões alvijubados
Às brisas temporais se espedaçavam
Contra as salsas areias sibilantes;
Lá vi o pó do espaço me enrolando
Em turbilhões de peixes e presságios —
Pois na orla do mundo as delatantes
Sombras marinhas, vagas, me apontavam.

Mário Faustino, O Homem e sua hora.

 

...

Gaivota, vais e voltas,
gaivota, vais – e não voltas.
Somem-se os homens, deixam-se os peixes
ir à deriva –
mal se respira
o ar do mundo
e experimenta-se a voracidade
do mar, do fundo
envenenado:
esperma – e mente,
ira – e sorriso,
esperança – e dança.
Alguém traz a mirra,
traz açafrão, azeite, vinagre:
eis o homem disposto, com suas faixas,
ei-lo em templo deposto, entre seus panos.
Maresia, santidade – que perfume!
Exaure-se a vela de ouro, esgota-se o pavio,
cala-se alguém que não quis beber,
alguém que não quis
o mar, em vão e nada, o árduo mundo,
gota após gota, anos e anos.
Contemplando o poente, os albatrozes
refletem-se nos elmos derrotados.
Alguém canta o refrão. As algas dançam
no mar de vinho amargo. Xerxes, Xerxes,
açoite após açoite.
agora, enfim, é noite
e esvaem-se os navios.
– É esta, então, a Vera Cidade?
– É essa, Adão, a tua verdade?
Alguém não quis viver,
alguém não quis seu fardo, suas rotas,
alguém entre alcatrazes,
entre peixes vorazes, ser disforme –
santo lume nascente, ou heresia?
Um rei entre santelmos –
(pássaro, pássaro, cala-te, dorme,
Lázaro, Lázaro, vai-te, não voltes.)
...

Mário Faustino, O Homem e sua hora.

 

Não me avisaram de teu pouso

Para Mário Faustino

Quando te vi no início
– nas linhas do livro –
o sol trabalhava a louça azul esmaltada
os pássaros moravam em teus calcanhares
e voavas.

Quando te vi novamente
– no fim do filme –
o musgo trabalhava a lousa fria póstuma
mas teu epitáfio era legível:

A morte tem o peso de um pouso.

Paulo Vieira, Infância vegetal.

 

Prece para um carneiro morto

Rezemos uma prece em memória do carneiro assassinado
antes que a justiça atinja nossas testas
com um golpe certeiro e seco
do machado dos dias.
Paulo Vieira, Infância vegetal.

 

Matéria eterna

Hoje deixe tudo o que é breve
E te consome os olhos sem sono

Perca o caminho do trabalho
Reconheça luas e sóis

Deixe tudo o que parece eterno mas é breve
e cuida de tua matéria
(o que parece breve não o é)

experimente:

retire os sapatos
e as meias três quartos

com pés de anjo
palmilhe o corpo de tua infância vegetal

depois repouse os pés
na terra cheirosa de tua posteridade

e esqueça tudo o que é breve.

Paulo Vieira, Infância vegetal.

 

CASA-NOITE, quatro
janelas

através, um grilo

opera todo o seu ser
composto de arredores – paisagem
e quase só som por dentro

                  Entre

norte, sul, leste, oeste, cinco
sentidos quase janelas
abertas ao

                            não dito 

Alfabeto-Grilo

Antônio Moura, Hong Kong & outros poemas.

 

Almoço na relva

Do céu fechado
(semi-
círculo)
sobre o
lago
cai verde
uma gota de ave

                             – excremento –

abre n'água
círculos
concêntricos

O lago, outro
círculo

verde
circundado
por mais verde avermelhado
pelo círculo do sol
poente

relva onde talo teso gramo

às portas do seu
triângulo jardim

Antônio Moura, Hong Kong & outros poemas.

 

III

Canoeiro. Poeta. A lua
avança, peixe, entre ondas.
Uma via láctea de sílabas
canta em coral com piabas.
Que noite ampara esta clara
ave palavra sem pouso,
que ousa, entre Ursa e a rara
estrela, traçar seu verso?

Quem faz o texto navega
vaga e refaz tudo o que
desfez em outros começos,
rema entre rumos até

que o pêndulo das marés,
nesse relógio primeiro,
resolva parar no tempo
de algum poema, o ponteiro.

João de Jesus Paes Loureiro, O ser aberto.

 

V

A minha canoa vive
além de mim e da morte.
A forma é sua eternidade.
Língua e linguagem. A sorte.

Eu sou, enquanto navego,
de seu ego, nave, templo.
A sua razão de ser.
Metáfora do momento.

Oh! Geometria com alma!
Assim é minha canoa...
Boiúna boiando. Vago
lume vago que flutua.

O que ficará de nós,
além do nada que é nosso:
madeira, quilhas e ossos
cabelo, pedra e verso?

João de Jesus Paes Loureiro, O ser aberto.

 

Pai João

Pai João sonolento bambo na pachorra da idade
cisma tempo de ontem.
De olhos vendo o passado recorda o veterano
a vida brasileira que ele viu e gozou e viveu!
Mãe Maria contou que o pai dele era escravo...
Moleque sagica e teso, destro e afoito num rolo,
Pai João teve fama da capoeira e navalhista.

– Eita!... era o pé comendo,
quando a banda marcial saía à rua,
com tanto soldado de calça encarnada.

E rabo-de-arraia, cabeçada na polícia,
xadrez, desordens, furdunço no cortiço
e o ronco e o retumbo do zonzo som molengo do carimbó.

                    "Juvená
                     Juvená!

                     Arrebate
                     esta faca
                     Juvená!

                     Arrebate
                     esta faca
                     Juvená!

De amores... uma anágua de renda engomada,
um cabeção pulando nos bicos duns peitos,
umas sandálias brancas bem na pontinha dum pé.

E o rebolo bolinante dos quartos roliços da Chica Cheirosa...
E a guerra do Paraguai! Recrutamento!
Gurjão! Osório! Duque de Caxias!
Itororó! Tuiutí! Laguna!

E não sabia nem o que era monarquia!

... Agora, sonolento o bambo,
tendo em capuchos a trunfa,
Pai João ao recordar a vida brasileira,
que ele viu e gostou e viveu,
diz do Brasil de ontem:

AH! MEU TEMPO!...

Bruno de Menezes (1893-1963), Batuque.

 

Batuque

(1)    – "Nêga qui tu tem?
        – Maribondo Sinhá!
        – Nêga qui tu tem?
        – Maribondo Sinhá!"

CANTIGA DE BATUQUE – (MOTIVO)

RUFA o batuque na cadência alucinante
– do jongo do samba na onda que banza.
Desnalgamentos bamboleios sapateios, cirandeios,
cabindas cantando lundús das cubatas.

Patichoulli cipó-catinga priprioca,
baunilha pau-rosa orisa jasmim.
Gaforinhas riscadas abertas ao meio,
crioulas mulatas gente pixaim...

(1)    – "Nêga qui tu tem?
        – Maribondo Sinhá!
        – Nêga qui tu tem?
        – Maribondo Sinhá!"

Sudorâncias bunduns mesclam-se intoxicantes
no fartum dos suarentos corpos lisos lustrosos.
Ventres empinam-se no arrojo da umbigada,
as palmas batem o compasso da toada.

(2)    – "Eu tava na minha roça
       maribondo me mordeu!..."

Ó princesa Isabel! Patrocínio! Nabuco!
Visconde do Rio Branco!
Euzébio de Queiroz!

E o batuque batendo e a cantiga cantando
lembram na noite morna a tragédia da raça!

Mãe Preta deu sangue branco a muito "Sinhô moço"...

(3)    – "Maribondo no meu corpo!
        – Maribondo Sinhá.!"

Roupas de renda a lua lava no terreiro,
um cheiro forte de resinas mandingueiras
vem da floresta e entra nos corpos em requebros.

(1)     – "Nêga qui tu tem?
         – Maribondo num dêxa
         – Nêga trabalhá!..."

E rola e ronda e ginga e tomba e funga e samba,
a onda que afunda na cadência sensual.
O batuque rebate rufando banseiros,
As carnes retremem na dança carnal!...

(3)    – "Maribondo no meu corpo!
        – Maribondo Sinhá!
        – É por cima é por baxo!
        – é por todo lugá!"

Bruno de Menezes, Batuque.

 

Visita de Santo

Meu S. João,
na noite do vosso dia,
com fogueiras brilhando de alegria,
com alegras cantando num rojão,
parai um pouco na melancolia
do meu portão!

Ponde aqui o cordeirinho!...
Sentai no banco a meu lado!...

Tanta estrela no céu, e eu tão sozinho!...
Na terra, tantos sons, e eu tão calado!...

Meu santo bom, por outra noite vossa,
igual a esta (que lembrá-la possa
durante a vida que viver eu vou!...),
mandei-vos, num balão, um sonho lindo
que foi subindo,
foi subindo,
foi subindo,
té que, muito no alto, se queimou...

Mal de muitos?... Eu sei...
Mas também sei
que nunca mais outro balão soltei.
Nunca mais, nunca mais...

........................................................................

                              Que brisa fria!...  

Lá vem o sol como balão dourado!
Levantai-vos, partis?!... Muito obrigado!
DEUS vos pague no céu, meu S. João,
esta parada na melancolia
do meu portão!...

Antonio Tavernard (1908-1936), Místicos e bárbaros.

 

Última carta

Sobre o leito de morte do poeta, foi
encontrado esse papel cheio de letras
trêmulas e manchado de lágrimas.

Por que não me vens ver? Estou doente...
É possível que morra com o luar...
Anda, lá fora, um vento, tristemente,
as ilusões das rosas a esfolhar.
E, aqui dentro, na alcova penumbrada,
onde arquejo, sozinho, sem sequer
a invisível presença abençoada
de um pensamento meigo de mulher,
há o desconsolo imenso, a imensa dor
de alguém que vai morrer sem seu amor...

De quando em quando,
o coração, que sinto
cada vez mais cansado, se arrastando,
marcando o tempo, recontando as horas,
pergunta-me, num sopro quase extinto,
quando é que virás...
Volta depressa, sim?... Se te demoras,
já não me encontrarás...

Ouço, longe, a gemer de harpas eólias...
É de febre... Começo a delirar...

Desabrocham, no parque, as magnólias...
Vem surgindo o luar...
E, como a luz do luar que vem nascendo,
eu vou aos poucos, meu amor, morrendo...

Antonio Tavernard (1908-1936), Místicos e bárbaros.

 

A casa

Esta casa é uma ruína,
quase terreno baldio:
coração de minha mãe
– esta terra de ninguém,
está cheio e está vazio.
Esta casa vem abaixo,
está prestes a cair.
Esta casa foi à lua,
esta casa foi um tronco,
foi navio
com seu mar encapelado
e bandeiras em abril
(minha mãe na capitânea,
na janela minha irmã).
Tantos anos se passaram,
tantos sonhos se esgotaram;
minha mãe nos sustentava,
nos amava e costurava
nossa vida à sua alma
como a roupa que vestia.
Esta casa é uma ruína
que dá pena a seus vizinhos.
Sobem ervas nas paredes
desta casa-soledade
encolhida pela vida
que dentro dela cresceu;
esta vida que é poeira
esta vida que é silêncio
esta vida que é fechada
esta vida que é goteira
nesta casa condenada.
Esta casa tinha escada,
esta escada três degraus.
E no último tropeçaram
estes sete filhos seus.
Nesta casa inda ressoa
o pigarro de meu pai
(seu cigarro era uma brasa
nessa noite que o escondeu
de seus filhos tropeçados
nesta vida que os comeu).
Esta casa vai cair!
Veio abaixo nossa vida,
veio a chuva, foi-se o sol;
a lama sobe a escada,
às paredes sobe o limo:
esta casa enlouqueceu!

Nossa mãe se ressequiu.
Sua vida é uma máquina
que de surda enrouqueceu
(único sinal de vida
que a escada não desceu).
Mas é forte esta sua lida,
sua máquina que não pára
que nos cose e nos trabalha.

Max Martins, Não para consolar.

 

X

A tarde era um problema
(emblema)
a
re
(sol)
VER

O parque

Um violino com seu arco – armava a ponte-pênsil
para o crepúsculo
teias
fibras, fi(m)lamentos
entre
sombras, sabres maduros, árvores
em silêncio.

Idem
a Catedral
de granito, dura
enigmagnetíssima
gótica
no meio do parque
OLHO
genitoris ego
cêntrico

órgão só ave
e
santo
CANTO
ergo:

Imo                                                                 D'ego
lado: panis                          !                     lado: penis   

Era
a hora do juízo

Estendido sobre a grama nu o poeta ruminava a sua
semente-alvo
Salvo
(e insolúvél)

Max Martins, Não para consolar.

 

Travessia – I (1926-1966)

Existe é homem humano. Travessia.
                      João Guimarães Rosa

Nasci no mar, dans le bateau
ivre, drapeau d'Arthur, de la muit;
batel fazendo o mapa e o mapa
estas suas águas mágoas,
vagas lembranças, lenços e quebrantos.
– eu era o mar ovante sobre os ombros,
ardendo nas virilhas.
Ou o mar aberto, pulcro de silêncios,
enxame de vidrilhos.
Um bem cevado mar, galhardo moço,
às vezes calmo e desportivo.

Canto esta viagem donde trouxe
astros e asas pelos mastros
(e aos seus lamentos eis-me chegado
piapitum (*) no rio defunto
                                             impaludado).

Max Martins, Não para consolar.

 

Sou o mundo

Sou o mundo.
O possível é o horizonte...
Criaturas do mar dormem
balançando-se nas ondas.
Ressoam as vagas
na concha do tempo.
Vem.
A promessa pousa
suas asas entre nós.
Navega.
A certeza é o poente.

Lilia Silvestre Chaves, E todas as orquestras acenderam a lua.

 

Amar é esquecer-se para o outro

Amar
é esquecer-se para o outro.
É a procura da alma nos sentidos.
É sentir que a liberdade está perdida,
Nos longes de uma eterna despedida.

Amar
é esperar pelo passado
Que se perde no reverso das estrelas.
E, se a memória do tempo é desventura,
A vida é traço de palavra impura.

Lilia Silvestre Chaves, E todas as orquestras acenderam a lua.

 

Eu temo mesmo que um dia

Eu temo mesmo que um dia,
de tanta melancolia,
torne-me nuvem na alma,
perca-me em tua calma,
dissolva meu desvario
no longe rumo do rio.

Cuidado com este corpo,
é um desenho já morto,
sem cor, sem vida, vazio.

Lilia Silvestre Chaves, E todas as orquestras acenderam a lua.

 

VENDE-SE

A casa
Foi caiada
Há pouco tempo

Abriga ainda
O mormaço
Dos corpos

A penumbra
Do beijo
A ecoar

O estio
E as estações
Nas vigas nos moirões

No cercado
A violência do sol

No quintal
O cheirar das horas

Verdoengas
Reacendendo
O tempo

Oh tempo!

Que as janelas
Cantavam
E o riso florescia

Na casa

As vozes

E a indulgência do silêncio

Jorge Andrade, Em memória da chuva.

 

COTIDIANO

É de silêncio
o vazio

o dia
é viril

é de açúcar
a manga

flechada
pelo sol
e o vento

verde
a grama
umedecida

a fome
grave
greva
na boca

(é de muro
a história)

Jorge Andrade, Em memória da chuva.

 

A CADELA

Caminhava grave pela casa
          a cadela.
A cabeça quieta era sua altivez
quadrúpede no centro da cozinha.
          Caminhava. Os olhos, costelas,
          o mar de ossos, o coração
pardo e lento – caminhava.

A manhã debruçava-se pela janela: cristais no pó,
o púcaro da china, horas de louça
batendo nas palavras na sala da casa.
          A cadela caminhava, dura,
          secular.
(Domingo dormia
prolongado como um funcionário feriado).

Vivera demais. Descansava à sombra,
perto do quarador.
          Sonhava farta, invisível,
          a cadela azul,
          nua
          (o sexo velho e molhado,
          um caranguejo arcaico sob o rabo).

Dormia, vazia.

Outubro doía longe, na Ásia,
quando a Fuluca anunciou: "A Catucha morreu".

         Age de Carvalho, Ror.

 

Epitalâmio

          à Martina

[e
assim

              se inicia – duplo, orante
              o anel que aqui nos unia,
              selo e semente celebrados:

um e al, alumbrados
unoutro e ouro
              iniciamos a viagem,
tocha ofertada ao escuro,
o carvalho tatuado ao nome
e um Sempre pousado nos lábios
              (serpente folheada
               entre rosas, o coração
entalhado sob iniciais em chamas)
abençoando a primeira página
do livro,

              "Pelo casamento
                  e pela nossa aliança"

                 

                    * * * 

                     [...]
                 [...]
                 vestido [

                 [
                 açafrão [

                 vestido de púrpu[ra
                 manto [
                 guirlandas [
                 [...]
                 [...]

púrp[ura
[...]
[...]
[...]
p [

                    * * *

(Nas descargas confortáveis da noite,
            beijando o rasto luxuoso do rímel
       sob estrelas, o fósforo

                                  entre as mãos
apagando as luzes da cidade –
o mundo, velocidades
distanciando-se pelo retrovisor,
ela dizia: [...rapto,

                 ..] um brilho, sorriso

.. [ ... )

Age de Carvalho, Caveira 41.

 

Referências

ABREU, Paulo Plínio. Poesia. Belém, Universidade Federal do Pará, 1978.

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BENEDITO JOSÉ VIANA DA COSTA NUNES nasceu em Belém, Pará, no dia 21 de novembro de 1929. É professor emérito da UFPA e escritor. Colaborou em obras coletivas nacionais (O romantismo, O modernismo, Idéias estéticas no Brasil) e estrangeiras, como The Literary Historiography of Brazil in Latin América Literature III, Cambridge, 1966 e Belém, Cultural Center, Literary Cultures of Latin America, A Comparative History II, Oxford University Press, 2004. Individualmente publicou, entre outros, os seguintes livros: O drama da linguagem (Clarice Lispector), 1989; Introdução à filosofia da arte, 1989; O dorso do tigre, 1969; Passagem para o poético (Filosofia e Poesia em Heidegger), 1986 e Filosofia contemporânea, revista e atualizada, 2004.

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