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Estudos Avançados

Print version ISSN 0103-4014On-line version ISSN 1806-9592

Estud. av. vol.20 no.57 São Paulo May/Aug. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40142006000200020 

MEMÓRIA

 

Corações partidos no porto de Gênova

 

 

Por Roberto Gambini

 

 


RESUMO

O ENSAIO é uma busca de sentimentos perdidos: partindo de uma apresentação histórica de uma Itália recém-unificada, sob o espectro ameaçador da falta de trabalho — e a correspondente situação de um Brasil pós-escravagismo, necessitado de mão-de-obra, o foco desse estudo é considerar os estados de alma dos imigrantes e acompanhar as dramáticas peripécias de suas transmigrações. Reconhecendo a importância da música para constelar sentimentos coletivos e expressá-los, o autor interpreta trechos de ópera de Verdi e também, em clave subjetiva, cartões-postais familiares, trocados entre membros separados de uma mesma família partida, discernindo conflitos afetivos que vieram a contribuir para a formação do grande amálgama anímico brasileiro.

Palavras-chave: Imigração italiana, Sentimentos, Verdi, Alma brasileira.


ABSTRACT

THIS ESSAY searches for lost feellings: beginning with an historical presentation of recently unified Italy, under the threatening specter of joblessness — and the corresponding situation of post-slavery Brazil, in need of manpower, the focus of this paper is to capture the immigrants's soul, observing the dramatic situation of their transmigrations. Acknowledging the importance of music to constellate and express collective feelings, the author interprets some pieces of Verdi’s operas, alongside with, on a subjective level, family postcards exchanged between members of broken families, focusing on affective conflicts that eventually contributed to the making of the great Brazilian animic amalgam.

Keywords: Italian immigration, Feelings, Verdi, Brazilian soul.


 

 

 

"A Itália é indescriptível. Não é apenas o país mais belo do mundo;
é qualquer coisa fora e acima deste mundo,
assim mais ou menos pendurada a meio caminho entre o céu e a terra
[...] a gente italiana é, entre todas, a mais bonita e a mais simpática,
a mais humana de todas, a mais alegre."

(João Guimarães Rosa, Carta aos pais. Paris, 3.9.1950).

 

Ai miei cari nonni
Dolores Peracchi (Parma) e Romeo Gambini (Brescia)
Ida Vannucci (Lucca) e Basílio Puntel (Udine)

 

NA CASA de meu pai havia um cômodo que chamávamos de "escritório". Abria-se para uma pérgola coberta por ramos de videira — pequena transposição de um charme italiano para o lote que adquirira no Pacaembu e onde construiu uma casa para a família, que hoje é minha. Sua escrivaninha era imponente, de madeira lustrosa; sentado frente a ela eu o via nos fins de semana trabalhando em seus assuntos particulares. O escritório abrigava também as atividades artesanais de minha mãe, que lá fazia maravilhosas flores de seda e cetim, até o dia em que parou. O grande armário escuro de portas retráteis abrigava, na parte alta, o enxoval de minha tia solteira; na parte do meio, os brinquedos Estrela com que eu e minha irmã nos entretínhamos nas horas de folga, ela com suas bonecas e jogos de chá, eu com meu laboratório de química, o Banco Imobiliário, o Mecano, o trem de corda, os fantoches e os bonecos de João Minhoca, que se calçava nas mãos. Embaixo, na parte inferior do armário, é que ficava um caixote de madeira. Que continha: recibos, faturas e ordens de entrega de garrafas de água da Fonte da Juventude, negócio que meu avô tivera numa localidade hoje perdida no mapa, chamada Rodovalho; enormes cartazes para sempre dobrados, de propaganda turística da época mussoliniana, retratando a costa de Abbazia e de Sorrento, assim como outros logradouros atraentes da velha terra natal; folhetos e material promocional do amaro Gambarotta e outras bebidas de estirpe; fotografias de ótima qualidade — tanto que não se alteraram até hoje — produzidas pela conceituada firma Alinari, sobre as principais obras da pintura e da escultura renascentista; carteiras modelo 19, o único documento de identidade dos imigrantes reconhecido pelo governo brasileiro; comprovantes de associação ao Circolo Italiano e grêmios de várias espécies; e uma grande coleção de cartões-postais, cujas mensagens eu não decifrava, mas que atraíam a imaginação sonhadora com suas caligrafias antiquadas, suas cenas, paisagens e cores de um mundo que eu não conhecia.

 

 

Esse caixote de madeira continha o mistério da Itália. Cinco décadas depois, tomei em mãos essas velharias todas, em especial os cartões-postais vindos da Itália, curioso por compreender as mensagens e os sentimentos que em suas curtas linhas vinham expressos, e que são a matéria-prima histórica e familiar de que, em seus primórdios, revestiu-se a Anima em minha vida.

Procuro, portanto, reavivar e desvelar os sentimentos que os italianos tinham no século XIX quando começaram a emigrar para o Brasil. Tenho curiosidade, para não dizer necessidade, de compreender quais eram os conflitos fundamentais que abrigavam em sua psique, e discernir como esses componentes vieram a contribuir para a formação da alma brasileira moderna. Meu foco, o que de fato me interessa neste pequeno ensaio, é configurar fugidios estados de alma e acompanhar as dramáticas peripécias de suas transmigrações transatlânticas. Quero crer que também de um ponto de vista teórico esse tema possa interessar a um público mais amplo, de outra extração, visto que nos remete de imediato para a questão da relação entre alma e terra, psique, cultura e história.

Quando, em outras ocasiões, procuro refletir sobre a alma ancestral do Brasil, costumo retomar certos escritos de Jung sobre essa controversa relação entre espírito e terra, que tanto o sensibilizou, a despeito dos equívocos interpretativos que gerou de um ponto de vista político-ideológico.1

Essa questão teórica naturalmente se apresenta quando se estuda a imigração, embora não seja esse o procedimento adotado pela maioria dos historiadores. O que significa, em termos psicológicos, o abandono da terra natal? O abandono do cenário, da geografia, da paisagem na qual a alma se reflete, na qual a alma se espelha ou é projetada? A alma humana projeta-se nos lagos, nas montanhas, no clima, na cara das outras pessoas, na língua falada, na comida, nos túmulos, nas ruas, nas esquinas. Ela se projeta nas histórias, na música, nas tradições, como imagem familiarmente reconhecida num imperceptível espelho duplo. A alma é projetada e reconhecida nessas coisas, que, por sua vez, a conformam e lhe conferem uma identidade temporariamente estável e não contraditória.2 Não se pode, portanto, falar da alma nas nuvens ou no espaço abissal, pois ela está sempre vinculada a um solo concreto e às pessoas que nesse solo vivem e criam cultura e história.

Ora, quando se pensa na imigração, o grande fenômeno de deslocamento espacial dos séculos XIX e XX, observa-se evidentemente um correspondente deslocamento de almas, além daquele correspondente a pessoas, famílias, pertences, moedas, força de trabalho. Visões de mundo, conceitos, ideologias, atitudes, fés religiosas, sonhos, mitos, fábulas, contos folclóricos, idéias, valores, sentimentos, fantasias, amores, ódios, saudades e amargos ressentimentos também migram sem malas nem baús. Ou seja, o inconsciente grupal e nacional também atravessa o mar, como entre nós vem ocorrendo desde os alvores do século XVI, com a chegada dos portugueses e dos primeiros escravos africanos. De meu ponto de vista, que é o de um analista junguiano comprometido com a tradição das Ciências Sociais, ainda nos falta encarar essa questão com esse conjunto de indagações em mente. De que modo é afetada a alma quando lhe é subtraída a terra pátria sobre a qual se humanizou no decorrer de longos e intrincados processos históricos e psicológicos? Quanto tempo decorre até que essa inefável substância anímica possa fincar raízes em outro solo? A muda transplantada mingua, vinga, se adapta ou se transforma? A alma transmigrada é bem recebida pela outra, já presente e estruturada no lugar de desembarque? Será que facilmente encontra eco, ou resistência, será que é assimilada, interpenetrada, fertilizada e renovada, ou negada, oprimida, hostilizada, incompreendida? Será que a alma transmigrada consegue espelhar-se em novas paragens e refletir sua luz?

Se estudarmos com algum detalhe, veremos que esse processo, que afetou cada grupo de imigrantes que para as Américas se transferiu, faz parte, nestas plagas, do longo processo de formação do grande amálgama anímico brasileiro, como já vinha ocorrendo desde os primórdios de nossa sociedade com o choque e a assimilação, por parte da antiqüíssima alma indígena, dos componentes anímicos aportados pelos portugueses e, logo em seguida, pelos africanos escravizados. Já se estudou muito, entre nós, a mistura biológica e a cultural, mas muito pouco foi elaborado — exatamente por falta de teoria e de conceitos adequados — sobre a questão da interpenetração psíquica. Sendo, como acredito, o Brasil um país essencialmente alquímico, no sentido que Jung deu a esse termo e que tomamos a liberdade de aplicar nesse contexto, cabe perguntarmos: em que fase estará o processo anímico que coletivamente vivemos? Haverá alguma etapa dessa alquimia histórica que porventura tenha sido abortada? E quais eventualmente poderiam ser os passos seguintes de um movimento subterrâneo e inconsciente que anseia por um reconhecimento consciente? Como se dão esses processos de fusão superficial, ou profunda, de matéria bruta psíquica? E ainda: não traz a questão do amálgama, em seu ventre, o problema da identidade? A identidade brasileira é clara, é obscura, é contraditória, tem lacunas, tem potenciais não vividos, é única, é massificada, ela existe ou não como fenômeno único? Não somos por acaso nós todos que aqui vivemos seus perplexos portadores?

E um último ponto, sentimentalismos à parte: a terra brasileira é — não é — receptiva? E o nosso povo, consciente ou não de sua identidade histórica típica, altaneiro ou subjugado, senhor de si ou abobalhado, acaba sempre por aceitar mais um, muitas vezes expulso de sua terra natal. Imagens recorrentes: ninho que se expande, mesa onde sempre cabe mais um, casa com cama de reserva. Mãe com colo grande. Nossa terra brasileira estruturada pelo arquétipo da Grande Mãe.3

* * *

Passemos agora à nossa pretendida busca de sentimentos perdidos. Nosso tempo, neste ensaio, é o último quartel do século XIX e o panorama, uma Itália que não era um país, mas uma colcha mal costurada de cidades-Estado, províncias, ducados e terras ocupadas por potências estrangeiras. Nesse período ocorre uma sincronicidade histórica entre Brasil e Itália, do tipo mão e luva. A Itália expele seus excedentes demográficos, e o Brasil precisa de mão-de-obra em condições de vender sua força de trabalho (Smith, 1987).4

A partir da invasão napoleônica da península, começa a tomar corpo um revoltado sentimento nacional entre os italianos. Como é sabido, até a unificação, realizada por Garibaldi em 1870, a maior parte da península estava ocupada por militares do vizinho império austríaco, que, entre outras intromissões políticas, econômicas e culturais, erguiam odiosas barreiras alfandegárias para controle do tráfico de pessoas e mercadorias entre as várias províncias. A polícia, a magistratura, o fisco e os órgãos de censura à produção cultural considerada subversiva eram prerrogativas austríacas que tiranicamente importunavam a vida diária dos habitantes das províncias do Vêneto, da Lombardia, de Piemonte e outras regiões setentrionais. A cidade de Roma e a Úmbria eram controladas pelo Vaticano, a Sicília, pela dinastia Bourbon, tendo Parma e seu entorno sido transformados em um ducado austríaco diretamente administrado por Viena. Quer dizer, a Itália estava toda dividida e ocupada por forças estrangeiras de ocupação. Os habitantes rurais dessas regiões caracterizavam-se por um forte apego emocional ao solo, ao vilarejo, à pequena propriedade da qual provinha seu parco sustento, à família e vizinhança, aos laços sociais de todos os tipos, à tradição local. Mas a situação política vigente dificultava sua identificação nacional com o vizinho de outra região, com seus vários dialetos, porque para deslocar-se de uma a outra era preciso passar por uma alfândega e exibir passaporte. A Itália não era um país, não era uma nação, mas um mosaico cheio de cercas, composto por oitenta portentosas cidades-Estado autônomas, muitas delas herdeiras de um esplendoroso apogeu renascentista. Uma linda terra, mas não um país. É no decorrer do século XIX que pouco a pouco vai sendo tecido um genuíno sentimento nacional.

Detecta-se, logo de início, o surgimento da incômoda vergonha de serem os italianos um povo controlado por uma potência estrangeira invasora. Os descendentes das antigas glórias do Império Romano e do Renascimento não conseguiam engolir essa depressiva humilhação. Não havia movimentos políticos organizados na primeira metade do século e a censura austríaca vetava a divulgação de idéias ou de obras que excitassem esse sentimento. Na época em que compunha Rigoletto, em 1850, Giuseppe Verdi, para citar só um exemplo, teve que se submeter ao veto imposto ao roteiro de seu libretista Francesco Piave, por terem os censores detectado uma disfarçada crítica aos regentes vienenses (Castellani, 1986).

Ao lado da crescente fermentação política, irá gradualmente se infiltrando e estruturando um sentimento novo e vigoroso, que desempenhava a função de compensar as prevalecentes sensações de dominação, humilhação e inferioridade. Esse sentimento irá se fortalecendo no decorrer da segunda metade do século XIX até explodir numa paixão desenfreada e maníaca de amor pela pátria recém-unificada. No exato momento em que Garibaldi avança para o norte com suas tropas e começa a combater e expulsar o exército austríaco, os italianos já estavam sentimental e psicologicamente preparados para expressar uma idéia de pátria.

Caberia aqui pensar se o patriotismo não poderia ser compreendido, no plano psicológico, como uma forma coletivamente organizada de manifestação do Self coletivo, no sentido que Jung deu a esse termo (cf. Jung, 1969-1970b, cap.4, "The Self"). Mas para nós brasileiros é muito estranho dizer isso, vinculando o sentimento patriótico a uma instância estruturadora da consciência emanada do inconsciente coletivo, por tratar-se, entre nós, de um sentimento historicamente manipulado por forças políticas conservadoras num grau apenas presente em sociedades colonizadas, como se observa até a proclamação da Independência e, mais recentemente, durante os períodos ditatoriais do Estado Novo (1937-1945) e da incorretamente denominada Revolução de 1964 (até 1985). Nesses períodos críticos, o sentimento nacional era violentamente desvinculado de suas raízes populares e oficialmente definido por cartilhas militares, segundo as quais o amor à pátria desvirtuava-se num indigesto civilismo artificial, fóbico e contraditório. Soava politicamente escorregadio e reacionário declarar, nesses períodos obscuros, que se sentia amor pelo Brasil. Esse sentimento se perdeu, perdeu o nome, perdeu a precisão. Virou massa confusa. Parte dele não passa de simples vergonha do passado colonial; outra parte é rejeição da ascendência portuguesa e, posteriormente, da condição de subdesenvolvimento que passou a caracterizar a sociedade brasileira. Tudo englobando, o afeto pela terra, pelo país, pelo povo, pela cultura acabou marcado a ferro e fogo pelo estigma de uma qualidade ontológica inferior.

Nos estudos contemporâneos, esse tema escapou da área dos psicólogos, como se não fosse assunto digno de nossa atenção. Mas, se pensarmos comparativamente, veremos que o fortalecimento e a declaração orgulhosa do amor pela pátria acaba sendo um eixo de estruturação da personalidade e dos afetos — e era isso que os italianos estavam procurando nas últimas décadas do século XIX, porque, enquanto essa certeza emocional e ideológica não se instalasse, eles se sentiam fracos e desorientados, a ponto de serem invadidos e dominados sem efetiva resistência. Quem acompanhar a vida de Giuseppe Verdi, o grande compositor, perceberá como sua trajetória humana, e mesmo o trabalho de composição de suas obras, serve de escala para se medir o grau de evolução da consciência do sentimento nacional (ibidem). Voltaremos mais adiante ao grande maestro. Mesmo uma passagem rápida pelos compêndios modernos de história italiana no século XIX detecta o avanço, no plano político, das forças de união e integração, de superação de divisões regionais desagregadoras. O amadurecimento do sentimento nacional corresponde a uma reestruturação psicológica que perpassa a sociedade de ponta a ponta. A bem da verdade, a vontade de irmanar-se a conterrâneos, o desejo fraternalmente compartilhado de pertencer a algo grande e nobilizado, o orgulho italiano, enfim, cresce como curva ascendente até 1870, momento da unificação garibaldina; a partir daí, porém, quando explode e rapidamente esvanece o fogo de artifício de felicidade delirante diante de uma pátria liberada e reencontrada, imediatamente a curva entra em sua rota descendente. Como dolorosa contrapartida, a unificação trouxe novos problemas para a Itália, um deles, talvez o de mais profundas conseqüências, sendo a penetração do capitalismo no campo, com o conseqüente acirramento das diferenças entre o Norte rico e o Sul pobre.

A Itália tem sido estruturalmente marcada por um antagonismo entre esses dois pólos, assim como ocorre no Brasil entre o Nordeste pauperizado e o Sul-Sudeste desenvolvido. As projeções de inferioridade grupal geográfica que ocorrem tanto na Itália como no Brasil são de fato muito parecidas. Os meridionais sicilianos, calabreses ou napolitanos são vistos pelos altivos milaneses, turineses ou venezianos como inferiores, menos capacitados intelectual e profissionalmente, na verdade como portadores exclusivos da sombra nacional, assim como no Brasil os habitantes do Sul-Sudeste projetam sobre os nordestinos as qualidades negativas do brasileiro em geral, atribuindo seu atraso econômico à incapacidade histórica para o trabalho e a organização etc. etc. Na Itália, esse fenômeno psicossocial é sintoma de dissociação crônica, que perdura mesmo estando o país hoje integrado à Comunidade Européia.

Eis o drama: depois de séculos, uma sociedade culturalmente coesa, porém política e economicamente dividida, finalmente é unificada; mas no momento em que se une num plano, acirra-se a cisão em outro. A penetração do capitalismo no campo, se, de um lado, o dinamizou, criando novas formas de produção e de divisão de classes, de outro, gerou empobrecimento dos que apenas tinham a força de trabalho para vender, seguida pela melancólica desagregação dos modos de vida tradicionais — de que a emigração é o amargo fruto. Porém a questão é mais complexa do que parece e há estudos contemporâneos — como a vasta pesquisa histórico-sociológica de José de Souza Martins (1973, 1979a, 1979b, 2003) — que lançam luzes sobre um modelo de compreensão do fenômeno migratório, que acabou por estereotipar-se. Em vista do alcance das questões levantadas por Martins e dos propósitos mais focalizados do presente ensaio sobre a temática dos sentimentos, restrinjo-me a citar uma das análises exemplares desse sociólogo, com sua visão sobre a natureza do processo de transição do regime de trabalho escravo para o de trabalho assalariado, extraído de um de seus livros, O cativeiro da terra:

As mudanças ocorridas com a abolição da escravatura não representaram, pois, mera transformação na condição jurídica do trabalhador; elas implicaram uma transformação do próprio trabalhador. Sem isso não seria possível passar da coerção predominantemente física do trabalhador para a sua coerção predominantemente ideológica. Enquanto o trabalho escravo se baseava na vontade do senhor, o trabalho livre teria que se basear na vontade do trabalhador, na aceitação de legitimidade da exploração do trabalho pelo capital, pois se o primeiro assumia previamente a forma de capital e de renda capitalizada, o segundo assumiria a forma de força de trabalho estranha e contraposta ao capital. Por essas razões, a questão abolicionista foi conduzida em termos da substituição do trabalho escravo pelo trabalhador livre, isto é, no caso das fazendas paulistas, em termos de substituição física do negro pelo imigrante. O resultado não foi apenas a transformação do trabalho, mas também a substituição do trabalhador. (Martins, 1979b)

Assim também, Constantino Ianni (1972), em obra que busca detectar aspectos que escaparam às análises tradicionais, baseado em estudos da movimentação financeira de grandes bancos italianos como o Banco de Nápoles, expõe a dimensão dramática e menos perceptível da imigração como se essa fosse apenas o produto da desagregação de um antigo modo de vida que se tornou inviável. Em resumo, Ianni modificou a compreensão convencional do tema ao apontar três aspectos fundamentais: 1) uma parcela expressiva dos emigrantes passou por um verdadeiro processo de aliciamento, falsas promessas e informações inverídicas, dando-se conta, ao instalar-se na nova sociedade, da dureza e das desvantagens que os aguardavam — razão pela qual muitos voltaram atrás; 2) em que pesem o elemento melancólico e o sentimentalismo patriótico da "expulsão" do excedente de mão-de-obra, Ianni demonstra a existência de outros interesses econômicos de enorme vulto (desvalorização da mão-de-obra rural, da produção agrária e da propriedade fundiária), posto que o grande alvo da nova economia era a capitalização, a concentração de renda, a industrialização, a formação de um proletariado e o pacto Indústria/Bancos; 3) e, por fim, o estudo de Constantino Ianni revela a poderosa informação de que o capitalismo italiano foi financiado pelo dinheiro remetido do exterior para os bancos italianos pelos emigrados, que trabalharam sob condições ainda mais árduas do que as que enfrentavam na terra natal.

O campesinato italiano tem séculos de tradição; era, no final do século XIX, a base da sociedade, sobre a qual se assentava a superestrutura ideológico-cultural, do direito à religião, da mentalidade aos sentimentos, da fantasia ao folclore. Terra e inconsciente coletivo associados sem fricção. O modo de produção pré-capitalista estabelecera na Itália um modo típico de ser italiano.

Ora, a partir de 1860 ou 1870, no alvorecer da revolução industrial e política na Europa, as transformações correm rápidas: os capitais começam a se concentrar, gradualmente novas tecnologias são introduzidas, a mão-de-obra já não encontra mais alocação remunerada, os impostos sobem, a divisão da terra em decorrência de processos hereditários passa a tornar a pequena propriedade improdutiva. Chega-se a um ponto, lá por 1880, em que cresce desproporcionalmente o número de famílias sem condições de subsistir, porque já não dá mais para funcionar como outrora, ou seja, cultivar lavouras de trigo, uva, azeitona, arroz, milho — como faziam os avós — e vender aquela produção localmente para manter a família. O preço dos gêneros alimentícios cai, os impostos se multiplicam, os quinhões de terra são reduzidos, finalmente surgindo o ameaçador espectro da falta de trabalho e da miséria. Dito de outro modo, o avanço da miséria na Itália paradoxalmente acompanha a concentração de capitais, as inovações tecnológicas, as novas relações internacionais e a pungente intensificação do sentimento nacional. O país acaba de se descobrir, os fogos de artifício mal iluminaram a cúpula do Duomo de Milão, recém-içada foi a bandeira tricolor e arriada a austríaca, e a fome e a depressão rapidamente começam a se espalhar. Que efeito gerará esse paradoxo sociológico? A massa rural procurará vender trabalho em outras praças — de início, como se sabe, na construção de obras faraônicas, como a abertura do canal de Suez, ou na construção de estradas de ferro na Inglaterra, na Escócia, na Alemanha e na França. Mas as distâncias não tardarão a se ampliar.

Todo um contingente de mão-de-obra rapidamente passará a se deslocar por quilometragens nunca dantes imaginadas: até o Egito, por exemplo, para em seguida retornar à terrinha com algum dinheiro no bolso e de novo partir, numa onda humana de movimento incontido que vai crescendo até firmar-se como emigração sem volta. Tanto se sonhou, tanto se esperou pela aurora dessa pátria desejada... ela surge, à sua moda, mas ela não segura no colo, não aquece, não dá segurança, não alivia a ansiedade, não protege, não abriga indistintamente aos que têm e aos que quase já não têm mais nada.

Essa, e precisamente essa, é a dor dos italianos: na hora em que falta pão a pátria não lhes dá cobertura, e, indiferente, permite friamente que partam. Pode-se até dizer que os expulsa, já que deles não se ocupa na hora do desespero e os abandona à própria sorte. E ainda mais: com bases nos estudos históricos aqui apenas mencionados, é de supor que interessasse à pátria esse descomunal êxodo, visto que no seu avesso descobriu-se um vigoroso processo de geração de renda no exterior. Em termos junguianos, essa seria a sombra do processo migratório: o que parece apenas "pena", ocultamente é lucro.

 

 

Surgirá naturalmente quem nesse êxodo encontre bom proveito, com esse nome: as companhias de imigração responsáveis pela propaganda, pelo aliciamento, pelo translado e pela contratação de trabalho em terras longínquas. No Brasil, que ocupará nossa atenção logo a seguir, também é fundada uma organização similar para arrebanhar imigrantes. Até 1902, o governo italiano literalmente fecha os olhos para o que viesse a acontecer com seus súditos desfavorecidos além das fronteiras. Que sentimento há de ter alguém que trabalhou a terra até o limite de suas forças e que, na hora de partir com a trouxa nas costas, só encontra frieza, abandono e formulários? Aí os corações começam a partir. E a primeira partição ocorre exatamente no porto de Gênova.

A Itália querida não dirá adeus a quem embarcar no cais. Depois de 1902, instala-se uma celeuma nos jornais, alegando-se com razão que os imigrantes estão sendo maltratados no Brasil, que são acometidos por malária, que trabalham num regime de semi-escravidão. Uma agitação no Congresso nacional dá lugar à criação de uma comissão que se desloca até o Brasil para investigar as condições reais a que são submetidos os embarcados pelas companhias de imigração, de que resulta um relatório minucioso e a aprovação de uma lei que estanca a imigração em 1902. Mas logo em seguida a lei vira letra morta, e os interesses econômicos multilaterais (governo italiano, governo brasileiro, bancos e agências de capitalização) novamente promovem os embarques em massa nos navios que deixam o porto de Gênova. Apesar do enorme número de italianos que vieram para o Brasil no decorrer de meio século — algo em torno de dois milhões e meio —, nunca houve de fato um bem-elaborado acordo comercial entre Itália e Brasil, como se estabeleceu com a Alemanha, por exemplo, caso em que foram estipulados tratamento diferenciado para os produtos comercializados entre ambos os países, quotas preferenciais, reserva de mercado etc. Nunca houve nada desse tipo entre a Itália e o Brasil, o que não deixa de estimular um questionamento dessa dimensão sombria da imigração, esse descuido recíproco que acabava relegando os imigrantes à própria sorte e às forças atuantes no mercado de trabalho.

Retomando: o modo de produção capitalista começa a penetrar no campo, destrói relações primárias, relações diretas, desestrutura a vida agrária. Os habitantes das áreas mais afetadas por esse processo sentem-se expulsos por um pontapé e partem em busca de um lugar onde possam reproduzir, ou até mesmo reinventar a Itália. Ignorando, no entanto, que sua partida facilitava processos que iam muito além de sua compreensão, como apontam estudos históricos mais recentes, aos quais aludimos de passagem (José de Souza Martins (2003, 1973, 1979a, 1979b), Constantino Ianni (1972), Chiara Vangelista (1991), João Batista Borges Pereira (1991)). O sentimento que vem na bagagem seria expresso por algo como: "se amar minha pátria já não posso, pois tão pouco valor a mim confere, tentarei amar esta outra, e para esta trarei comigo a que me pertence, e que perdi". Ocorrerá, portanto, uma transferência de vínculo afetivo, no sentido clássico que a psicanálise conferiu a esse termo. Imagino o monólogo interior: "preciso de um solo, de uma plantação, uma vaca, um chiqueiro, árvores, uma igrejinha, uma festa de San Gennaro, uma polenta e uma tarantella, sem isso não sei viver! Se não é mais possível aqui, como sempre foi, que então seja em outro lugar, não importa onde".

O Brasil, dado o momento histórico que vivia, candidatava-se — mas não era o único — a tornar-se o depositário dessa transferência projetiva em razão de seus vácuos culturais e geográficos, de sua necessidade de mão-de-obra que aliasse ao trabalho a capacidade de consumir, e porque, servindo-nos de uma linguagem simplória, mas belamente metafórica, nesse colo havia lugar. Ao desembarcarem, parte da confusa carga afetiva trazida pelos italianos era esse incômodo sentimento de amor estancado, suspenso no ar, posto em regime de suspeição. Quando finalmente, depois de muita luta sangrenta, se generalizou um sentimento patriótico, tornou-se inviável exercê-lo coletivamente. Foi um sentimento erigido por todos, mas não era para todos.

No Brasil, esse complexo afetivo será vivido de forma dupla e contraditória: nostalgia pela Itália perdida e raiva da Itália que expulsava. Concomitantemente, os princípios de um amor pelo Brasil receptivo logo se fazem acompanhar por um ressentimento pelo país que obriga a trabalhar duro e passa desdenhosamente a denominar seus novos moradores de carcamanos. A duplicidade de sentimentos conseqüentemente localiza-se tanto numa ponta como na outra.

Comentar as condições da miséria na Itália rural é quase desnecessário, porque nessa matéria o Brasil era pródigo. Eram misérias parecidas, lá e cá: habitações insalubres, pouco de tudo, um par de tamancos de madeira, uma roupa tecida e cosida em casa, carne boa poucas vezes por ano, trabalho de sol a sol, acomodações rústicas ao lado de animais, de porcos, a família toda apinhada, a saúde malcuidada... Não estamos evocando a vida dos escravos nas fazendas de café, mas uma população italiana vivendo sob condições ásperas, como aliás ocorria com a população rural européia em geral.

Na última década do século XIX, o embarque no porto de Gênova era mais ou menos assim: as pessoas viajavam, mesmo em pleno inverno, vindas de longas distâncias, de carroça, a cavalo, a pé, como fosse possível. Nas proximidades do velho porto, grupos que se formavam dormiam nas ruas até a hora do embarque, crianças sozinhas, mulheres grávidas ou com bebê no colo, idosos decididos a enfrentar a difícil aventura, com sacolas, um saco de grãos, algumas frutas secas, um queijo, um pão. Seriam vinte dias no mínimo pela frente. Alguns dispunham de passagem paga pela Sociedade Protetora de Imigração Brasileira, alguns se arriscavam por conta própria, alguns poucos eram remediados e tinham posses.

O escritor Edmondo De Amicis, em 1889, embarcou no porto de Gênova e fez a viagem dos imigrantes, publicando logo a seguir um relato inteligente e informativo, que infelizmente não é conhecido por quase ninguém (De Amicis, 1889).5 A distribuição dos imigrantes pelas três classes do navio reproduzia com exatidão sociológica a estrutura social italiana: a burguesia proprietária na primeira classe (essa viajava com interesses bem mais assegurados de sucesso, pois trazia capital para investir no Brasil), o estrato médio (artesãos, pequenos comerciantes, trabalhadores qualificados, quase já operários) na segunda, e o campesinato pobre na terceira. A estrutura social italiana, atravessando intacta o Atlântico, instala-se no Brasil mantendo as mesmas diferenças de classe da origem. Alguns tinham dinheiro, outros cultura, outros mais, habilidades e talentos especiais. Mas a grande maioria só sabia mesmo era pegar no pesado. Alguns logo acharão lugar nas cidades, outros irão para fazendas recém-abertas, ou mesmo para os descampados paulistas e gaúchos.

De Amicis era um grande observador, e vale a pena reproduzir algumas das observações que nos deixou, especialmente no que concerne à mentalidade dos imigrantes, discutindo no porão da terceira classe, como fazem os italianos até hoje sobre qualquer assunto que cair na roda: os monstros marinhos, o desaparecimento da Atlântida, os canibais negros da costa africana e o calor abrasador que haveria de derreter miolos assim que o Galileo chegasse ao Equador; e a mais interessante de todas as discussões, sobre a esfericidade ou não da Terra: a conclusão, a olhos vistos, era de que a Terra evidentemente era plana como um prato, pois se assim não fosse, depois de cruzado o Equador o vapor começaria a descer, contornando o globo como uma formiga ao redor de uma bola (ibidem, p.204-26). E a preciosa frase de um camponês veneto, que em sua simplicidade resume as razões da imigração: "Mi razono in sta maniera. Di peggio di come stavo non mi può capitare. Tutt'al più mi toccherà di patir la fame laggiù come la pativo a casa. Digghio ben? [...] Mi emigro per magnar" (ibidem, 290-1).6 Sim, meu amigo, você disse tudo.

 

 

No Brasil, o regime escravista estava chegando ao fim. Repor mão-de-obra escrava, a partir de 1880, já não compensava mais. Em São Paulo havia três situações socioeconômicas e geográficas distintas. A primeira corresponde ao Vale do Paraíba, a segunda ao Oeste paulista circunvizinho a Campinas, e a terceira é o chamado "Oeste novo", regiões de terra roxa abarcando a região de Ribeirão Preto a Casa Branca, em direção ao Oeste. A situação de trabalho era muito diferente nos três casos.7 O Vale do Paraíba, rica região das tradicionais fazendas que utilizavam mão-de-obra escrava, produziu um ciclo pujante de prosperidade, como atestam nos núcleos antigos algumas magníficas mansões rurais — que sob alguns aspectos evocam villas italianas — nas cidades ou nas cercanias de Guaratinguetá, Taubaté, Areias e Bananal. Ao final do Império, a região como um todo, e sua correspondente aristocracia agrária, elite política que deteve o poder econômico brasileiro, entrava em decadência, ao mesmo tempo que tomava corpo o movimento abolicionista, brilhantemente liderado pelas idéias e atitude desse grande brasileiro que foi Joaquim Nabuco. O Oeste de São Paulo, em torno de Campinas, despontou na seqüência, mas já vinha produzindo café há algumas décadas, bem suprido de mão-de-obra escrava em constante reposição. Após a proibição do tráfico negreiro (1850) e a promulgação da Lei do Ventre Livre (1871), instaura-se como prática alternativa a comercialização interna de escravos entre diferentes estados do Brasil: os fazendeiros de Campinas, por exemplo, com sua mentalidade antiabolicionista, viam-se forçados a buscar mão-de-obra negra do Nordeste, provinda de engenhos decadentes, para suprirem seus projetos de expansão cafeeira.

No Oeste Novo, até então habitado por índios das etnias kaingang, terena e guarani, com suas vastidões cobertas de matas e um solo de cor vermelha — terra rossa (que acabou em português sendo denominada "terra roxa", um tipo de solo que se revelou fertilíssimo) —, é precisamente nessa área que uma nova mentalidade econômica toma corpo. Os fazendeiros agora querem produzir café de um modo novo, assalariando um trabalhador — mas jamais os negros, mesmo com a perspectiva de que logo seriam libertados da condição escrava —, trabalhador esse capaz de consumir bens com seu salário. E, poderíamos dizer, branco, e não negro, por injunções de ordem simbólica, já que essa mentalidade fazendeira de vanguarda almejava a implantação de uma nova ordem sociopolítica e cultural. As primeiras experiências de assentamento de colonos europeus, alemães, suíços ou italianos vêm dos idos de 1840, por iniciativa de empreendedores como o comendador Vergueiro, por exemplo, sem que lhes faltasse certa aura romântica ou mesmo anarquista. Às vésperas da abolição da escravatura (1888), e um ano após o fim do Império e a proclamação da República (1889), surgem novos líderes políticos, defensores dessa nova ideologia, como o fazendeiro da região de Araras, Martinho Prado Jr., que passará ativamente a promover a imigração italiana, sagazmente percebendo nessa mudança os enormes dividendos econômicos e políticos (como de fato ocorreu, com sua família, nas décadas seguintes8) que esse novo processo viria a proporcionar. O que esses fazendeiros ilustrados (e muitos de fato estudaram na Europa) acabaram por promover foi uma guinada modernizadora (muito a seu favor) na economia brasileira, plantando a semente do mercado interno. As relações sociais e o modo de produção agrícola irão se alterar, mas os excluídos do processo serão novamente os escravos e seus descendentes, a quem não foi oferecido trabalho assalariado algum. Essa é uma das marcas mais cruéis da sombra social brasileira, cujos efeitos discriminatórios e marginalizadores de milhões de afro-descendentes fazem-se presentes até a atualidade, engendrando uma iniqüidade que até hoje se tem revelado irremissível. A chegada dos imigrantes italianos impregnou-se das forças geradas por energias renovadoras; mas a saída dos escravos das fazendas, e sua dispersão anômica pelo interior como um bando de desprezados da história, era pautada pela energia que rege os estados terminais. Os italianos desprezados pela Itália acharam uma nova pátria no Brasil, mas os negros finalmente libertos da escravidão não acharam pátria em lugar nenhum.

Essa foi a sincronicidade histórica ocorrida entre os processos sociais dos dois países: evidentemente não são causadores um do outro, mas um "resolve" o outro. A compilação de tabelas de entrada de imigrantes revela uma curva ascendente a partir de 1870 até o fim do século, sendo 1895 o ano de pico (Alvim, 1986). Os avós de muitos brasileiros de minha faixa etária embarcaram no porto de Gênova (ou de Nápoles, em menor número) e desembarcaram em Santos (meu bisavô montou uma pensão na zona do cais para abrigar compatriotas, entre os quais, alguns anos depois, seus dois filhos, que viajaram sozinhos com pouco mais de dez anos) aproximadamente nessa época. Os viajantes que viajavam com o bilhete pago pelo governo de São Paulo na chamada "imigração subvencionada" desembarcavam em Santos, tomavam um trem especial, fechado, e desembarcavam na estação da Hospedaria dos Imigrantes construída pelo governo paulista em 1888 para esse fim, na Rua Visconde de Paranaíba, Brás — que logo se tornaria um verdadeiro bairro italiano na capital paulista.

Em seu alentado Emigrazione Italiana nell'America del Sud, o pesquisador italiano Antonio Franceschini descreve — a partir de fontes oficiais, obtidas nos consulados — como era esse percurso do imigrante recém-chegado:

Apenas desembarcados, os imigrantes são recolhidos na Hospedaria dos Imigrantes, grandes alojamentos divididos em cubículos e grandes dormitórios coletivos, capazes de abrigar por vezes setecentas pessoas, onde se amontoam centenas e milhares de famílias de colonos. Os dormitórios com bancos servem de refeitório, aqueles com esteiras diretamente sobre o solo (não imune de parasitas) servem de dormitório. Geralmente o imigrante pode solicitar à autoridade brasileira ser colocado como meeiro ou diarista junto às feitorias, ditas fazendas, para cultivar açúcar ou café; ou pode solicitar um lote de terreno para cultivar. Os imigrantes que pediram para serem colocados como meeiros ou assalariados nos cafezais são reagrupados e apresentados aos fazendeiros admitidos na hospedaria. Estes selecionam as famílias ou colonos de aparência mais robusta, fazem as ofertas, apresentam as condições (ajustes) e a paga, conforme o gênero de trabalho, pagamento cujo valor o imigrante mal conhece, embora o contrato venha traduzido verbalmente pelo intérprete (nem sempre confiável), e freqüentemente fazem também a apresentação do pão que será distribuído nas respectivas fazendas. O colono negocia com o fazendeiro, sem garantia alguma de honestidade e solvibilidade de quem lhe oferece trabalho, e se alista sob o comando deste: apenas colocado, cessa qualquer obrigação por parte do Estado. (Franeschini, 1908, p.626-7, apud Franzina, 1994, p.136-7)

É a esse processo que se refere Constantino Ianni (1972), como tráfico de mercadoria.

O que assustava os recém-chegados não era o trabalho que os esperava — miséria por miséria, era trabalhar duro lá ou cá —, mas aqui uma situação nova e doída se anunciava: o isolamento. Os camponeses de qualquer parte do mundo são gregários e solidários; imaginemos agora essas fazendas novas, na imensidão de um território ermo arrancado a tribos indígenas dizimadas a fogo de carabina, começando a ser cortado por linhas férreas. Os imigrantes se assustavam com a tarefa a muitos imposta de derrubar floresta e arar a terra para plantar café, trabalho rude até então reservado a escravos.

Algumas cartas de imigrantes (de 1876 a 1902) recolhidas por Emílio Franzina (1994, p.135), o maior historiador do Vêneto, em seu admirável Merica! Merica! (em que analisa a correspondência de imigrantes vênetos e friulanos na América Latina), comprovam essa enorme decepção dos italianos aqui aportados. Assim escreve, por exemplo, o outrora artesão de Treviso, Sante Paparoto, que foi parar em Guabirobas, distante duzentos quilômetros da cidade de São Paulo, no dia 6 de janeiro de 1889, à sua "Cara Molglie":

Dopo il longo e borascoso mare trascorso arivamo all'America dove si credeva trovare le delizie della tera cioè lavorare poco e guadagnare molto, ma invece non è cosí, al contrario si lavora molto e si guadagna poco e si magna anche male perche di cibi non ano sustanza como queli di Litalgia.

Qui ove ora io mi ritrovo piú superfulo è il chafè che bisogna alsarsi a prima chespunta il giorno per recharsi al travalio e si racolie alla sera a note avanzata cosí e di metodo braselero, poi al lavore che siamo veniamo tormentati da molti inseti provenienti dai boschi vicini.9

Onde antes não havia nada, só restos de um passado indígena — que a memória coletiva não faria esforço algum para reter como elemento fundamental para um dia se compreenderem os trânsitos da alma brasileira —, pequenos agrupamentos foram-se formando. Mas padre não havia, nem festa, nem cemitério; não havia ainda compadrio, vizinhança num vilarejo ao qual se pudesse chegar a pé. O isolamento era coisa dos Trópicos. Muitos não agüentaram, largaram tudo e voltaram para a Itália. Mulheres grávidas sofreram surtos psicóticos, desprovidas que estavam de amparo grupal como sua cultura provia. Quando contratos de trabalho assinados eram rompidos, o desertor chegava a ser perseguido e trazido de volta ao eito, como se fosse um trabalhador servil. Os que escapavam para as cidades mais próximas iam vender jornal na rua, comprar garrafas velhas, vender macarrão, qualquer coisa, para fugir do isolamento no campo desabitado. Outros tiveram destino diverso, adaptaram-se à vida nas fazendas, construíram fortunas para os proprietários e um pequeno pecúlio para si mesmos. Parte de seus descendentes está por lá até hoje, como pequenos sitiantes em extinção ou moradores bem-sucedidos nas várias cidades cujas listas telefônicas são pródigas em sobrenomes italianos.

Na cidade de São Paulo, os italianos foram a grande força de trabalho que fez funcionarem as máquinas inglesas que deram origem ao nosso impressionante processo de industrialização. A partir de 1890, cinco bairros de operários italianos (os "5 Bês") foram-se formando: Brás, Belém, Barra Funda, Bexiga e Bom Retiro (que anos depois se tornou um bairro judeu). Alguns viajantes estrangeiros comentavam que São Paulo mais parecia uma cidade italiana, com jornais nessa língua, casas comerciais típicas, agremiações. Artesãos de talento construíam e decoravam as mansões que esses novos fazendeiros, agora milionários, levantavam na Avenida Paulista; ou o Teatro São José, o Teatro Municipal, o edifício Martinelli. Foram aparecendo os cantores de ópera, os músicos de orquestra, os pintores, escultores, os donos de restaurante... e os primeiros empreendedores arrojados e visionários. A aristocracia agrária descapitalizada acabava superando sua superioridade defensiva para render-se, por meio de interessantes uniões matrimoniais, ao sucesso dos carcamanos de pouco tempo atrás, agora fundadores de hospitais ou de impérios industriais. Assim misturou-se o nobre sangue das estirpes paulistanas a sobrenomes como Crespi, Morganti, Pignatari e Matarazzo.

E no campo, pouco a pouco, foi ocorrendo um tipo de assimilação social tipicamente brasileira e distinta da americana, no sentido de que entre nós os imigrantes de qualquer origem não tinham que pagar o preço de ocultar ou abandonar sua cultura em troca de um lugar na sociedade. Dessa matriz resulta o riquíssimo processo de fertilização cruzada e sincretismo que sempre pautou a expansão da alma e da psicologia brasileira. Mas não devemos deixar de lado, como necessário contraponto, a lembrança de que o imigrante italiano empunhou, no início, o cabo da enxada deixada pelo escravo.

O secular sofrimento da alma negra no Brasil não desembocou em redenção alguma. Essa dor sem nome ainda impregna a camada mais profunda da alma brasileira. Após a abolição da escravatura e o preenchimento dos novos postos de trabalho com mão-de-obra importada, a população negra, deserdada mais do que liberta, sem trabalho, sem um plano de governo que a contemplasse, não terá outro destino do que o de perambular pelas estradas e periferias pobres das cidades em busca de chances mínimas de sobrevivência, e de adaptação social nos estratos inferiores da estrutura social (cf. Costa, 1966; Karasch, 2000). Aquele que deixa de ser escravo não chega a ser cidadão. Esse é o dramático paradoxo dessa história toda: o imigrante italiano merecidamente acabou recebendo um reconhecimento pela enorme energia criativa que aportou à sociedade que o recebeu, mas as populações indígenas e africanas, as primeiras a trabalhar e criar alma neste país, assim como suas fusões de tão variadas formas, foram todas, lembrando uma expressão inesquecível de Karl Marx, jogadas na lata de lixo da história.

* * *

Aos domingos, na casa de meus pais, onde meus avós moravam, ouvia-se música italiana (Enrico Caruso, Titto Schipa, Beniamino Gigli, Carlo Butti, os mais apreciados na colônia) e às vezes ópera, em grandes discos de 78 rotações por minuto. Eu me entusiasmava sempre que punha na vitrola O barbeiro de Sevilha, para deliciar-me com a agilidade do Fígaro soltando a voz no Largo al Factotum. Não freqüentávamos o Teatro Municipal, embora vários na parentela fossem violoncelistas, harpistas, violinistas, maestros e professores de música. Giuseppe Verdi, que minha avó recordava ter visto, ainda menina, atravessando a Piazza Garibaldi de Parma com sua barba branca, seu enorme chapéu preto e uma longa écharpe da mesma cor em volta do pescoço, foi um dos espíritos que mais contribuíram para a estruturação da imaginação sentimental italiana bem antes da unificação política do país. Suas árias candentes tinham o poder, que a música acima de tudo detém, de sensibilizar uma certa região da geografia da alma capaz de produzir um amálgama coletivo de emoções e posturas mentais. Na ausência de um hino oficial, o hino nacional da Itália, capaz de fazer multidões erguerem a cabeça, era um coro da ópera Nabucco (ou Nabucodonosor, que estreou em 1842). Permita-me o leitor citar o texto do Coro dos Escravos Hebreus, do terceiro ato, mais conhecido como Va Pensiero, de autoria do libretista Temistocle Solera,10 com uma tradução livre:

Va pensiero, sull’ali dorate
Va, ti posa sui clivi, sui colli
Ove olezzano tepide e molli
L’aure dolci del suolo natal!
Vai pensamento, sobre asas douradas
Vai e pousa nas colinas e encostas
Onde recende tépida e morna
A doce aragem do solo natal!
Del Giordano le rive saluta,
Di Sïone le torri atterate...
Oh mia patria sì bella e perduta!
Oh membranza sì cara e fatal!
Saúda as margens do Jordão
E as torres arrasadas de Sião...
Oh pátria minha, tão bela e perdida!
Oh lembrança tão cara e fatal!
Arpa d’ôr dei fatidici vati
Perchè muta del salice pendi?
Le memorie nell petto raccendi,
Ci favella del tempo che fu!
Harpa dourada dos fatídicos poetas
Por que emudecida do salgueiro pendes?
As memórias no peito reacende,
Conta-nos do tempo que passou!
O simìle di Solima ai fatti
Traggi un suono di crudo lamento
O t’ispiri il Signore un concento
Che ne infonda al patire virtù
Che ne infonda al patire virtù...
E seguindo de Sólima (Jerusalém) a sina
Emitirás o som de um duro lamento,
Ou então te inspire o Senhor um concerto
Que ao sofrimento infunda virtude
Que ao sofrimento infunda virtude

Esses versos magníficos, cantados centenas de vezes em teatros cheios ou nas ruas, por coros populares, alavancavam um sentimento gerador de um efetivo desejo de transformação histórica. Baseiam-se no "Livro do Profeta Jeremias",11 que no começo de sua carreira Verdi já havia utilizado como inspiração para um balé.

Sob o rígido controle da censura austríaca, a metáfora histórica prestava-se perfeitamente para retratar o estado em que se encontrava a população italiana, respeitadas as amplificadas licenças poéticas. O lamento de Jeremias, ou do salmista, equipara-se ao de Jó, tal a intensidade de sua dor por não terem sido ouvidas suas visões proféticas sobre os desvios de conduta dos hebreus e o terrível castigo que Javé impiedosamente lhes infligiria, permitindo que as colunas do templo fossem derrubadas e a cidade arrasada e conquistada pelos exércitos caldeus de Nabucodonosor (figura substituta para o arquiduque da Áustria). Os hebreus, desterrados, trabalhariam como escravos por setenta anos. A evocação inicial ao vôo do pensamento nas asas douradas da imaginação é a proposta política de resistência ao status quo, de não-aceitação da realidade atual, remetendo a outra, no momento perdida, em que a terra natal assegurava uma vida digna, autônoma e prazerosa. O apogeu é atingido no dramático e belíssimo verso da segunda estrofe, "Oh mia patria sì bella e perduta!", cuja mera evocação provoca uma lembrança cara, porém fatal. A harpa da inspiração emudeceu. Os italianos precisavam de uma memória do que eram e do que um dia foram, para que as forças do peito se reacendessem. Para mudar o destino, ou se possível não fosse, para ao menos sofrer com dignidade. E aí, nessa associação livre de imagens bíblicas, infiltra-se, como convém ao tema, uma pequena profecia: muitos perderão de fato a terra amada — não para os invasores, que afinal serão vencidos e expulsos, mas porque quase setenta anos depois começarão a emigrar.

Os italianos edificaram no decorrer dos séculos uma cultura da beleza. A feiúra e a desonra da miséria, em especial, lhes eram insuportáveis. Uma civilização que atingiu o apogeu de um momento sublime como foi o Renascimento não suporta conviver com a humilhação da fome e da desorganização social, doenças estruturais que ferem de modo doloroso os alicerces fundados na adoração à estética de Vênus. Nos momentos de desespero cívico ou pessoal, sempre foi a música o agente portador do consolo e do retorno à dignidade. As cabeças se erguiam novamente, o que nunca deixou de ter desdobramentos políticos. A música, como a de Verdi, que exaltava a pátria, arregimentava multidões, da mesma forma que o hino da Internacional Socialista ou a Bandiera Rossa comunista. Mesmo a canção melodramática, numa certa conjuntura, pode tornar-se política.

A meu ver, a cultura e a alma italiana têm como substância de apoio a emoção. Costuma-se dizer, aceitando-se por óbvios todos os riscos do esquematismo, que a civilização alemã excedeu no pensamento filosófico; a inglesa, no pragmatismo tecnológico; e a vizinha civilização francesa realizou as grandes mudanças revolucionárias da história moderna. Criar, nomear, diferenciar, controlar, desreprimir, sublimar, elevar e tratar de emoções não é tarefa para principiantes, como logo descobriu a prática psicanalítica ao tentar entender a histeria no final do século XIX.

É difícil trabalhar com emoção, quando essa se sobrepõe a princípios ou regras rígidas de conduta — como é mais comum entre os povos protestantes. Os italianos às vezes acertam em cheio, quando a tornam sublime e a transformam em arte, em gosto pela vida. Outras vezes erram feio, ao se fixarem em subprodutos como a emocionalidade descontrolada ou sem propósito. A extrema sensibilidade à flor da pele, as lágrimas que brotam por quase nada, as paixões levadas ao paroxismo são na verdade antídotos de Logos, embargando a voz, turvando a clareza do pensamento e da palavra, sabotando projetos e decisões racionais. E esse complexo emocional mais aparentado a um Eros por vezes infantilizado do que a um Logos exercido segundo suas leis peculiares revela uma certa afinidade eletiva com a alma brasileira. Talvez não deixe esta de ser uma razão que explique esse amálgama que o tempo foi cimentando entre esses pedaços de almas transmigradas de tantos diversos nascedouros. Se no Brasil o sentimentalismo lamentavelmente não evolui à condição de compaixão diante da iniqüidade há séculos perpetrada contra os despossuídos, a emocionalidade dramática italiana gerou a figura popularesca da matrona sempre contrariada, que de tanto enaltecer a dureza de sua vida acaba se transformando em monumento da dor, presa fácil de um tipo sádico de animus implacável, que com suas críticas e julgamentos sem apelação anula e emudece as filhas e com os filhos perpetua laços edipianos inextricáveis, lançando-os ao lacrimoso conflito de emoções opostas e insolúveis. Essa é a figura da mãe mestra na arte de criar culpas familiares e destinos imutáveis. E a seu lado, complementarmente, essa mesma emocionalidade mal-elaborada configura toda uma galeria de personagens masculinos grotescamente inflados, exibidores de uma pseudo-superioridade tão grandiloqüente quanto ineficaz, ou, inversamente, subservientes e melancolicamente acovardados.

Em meados do século XIX, tornou-se corrente, no plano literário e intelectual, a idéia de uma Itália unificada. O grande marco desse movimento é a publicação, em 1825, da obra-prima de Alessandro Manzoni I Promessi Sposi, que circulou vastamente entre os leitores de um país dividido e ocupado, porém culturalmente irmanado. Com esse romance, o modo de falar toscano tornou-se o estilo clássico da literatura nacional. As odes patrióticas, especialmente as de Giacomo Leopardi, atendiam a um interesse do público por narrativas protagonizadas por heróis italianos medievais que no passado venceram em batalha os inimigos franceses e sarracenos. Como bem diz o historiador Mack Smith (1987, p.36), em sua Storia d’Italia — 1861/1969: "La letteratura contribuì così a ridar fiducia agli italiani e a convincerli che non erano poi così inadatti alla guerra e alla politica come alcuni di loro avevano ritenuto".12

Em 1855, Verdi compôs uma ópera, sobre libbretto de E. Scribe e C. Duveyrier, intitulada I Vespri Siciliani,13 novamente servindo-se de fatos históricos do passado — como fizera em Nabucco, para referir-se metaforicamente à situação contemporânea de opressão. Nesse caso, o recuo não é aos tempos bíblicos, mas ao ano de 1282, quando o povo siciliano, movido por poderosas emoções e convicções, repentinamente se revoltou contra o governo tirânico de Charles d’Anjou no momento exato das orações vespertinas da Quinta-Feira Santa.14 Nessas Vésperas, após declarar seu amor pela cidade de Palermo, o protagonista Procida lança um apelo ao povo siciliano para que reencontre no fundo de si mesmo o antigo valor e se insurja contra o inimigo. Essa comovente ária, assim como o coro Va Pensiero, resume a natureza do sentimento promotor de mudanças sociais pelo qual Verdi tanto se empenhou, procurando atingir seus compatriotas mais pela via da emoção do que da doutrinação. Assim canta aquele em quem esse sentimento se torna pleno:

O tu, Palermo, terra adorata,
A me sì caro riso d’amor...
Alza la fronte tanto oltraggiata
Il tuo ripiglia primier splendor!
Oh tu, Palermo, terra adorada,
A mim, tão caro sorriso de amor,
Ergue a cabeça tão ultrajada,
Retoma teu antigo esplendor!
Chiesi aita a stranieri nazioni,
Ramingai per castella e città;
Ma, insensibil al fervido sprone,
Dicea ciascun:
Pedi ajuda a nações estrangeiras
Andei errante por castelos e cidades;
Mas, insensíveis à férvida espora
Contestavam perguntando:
Siciliani! Ov’è il prisco valor?
Su, sorgete a vittoria, al onor!
Il tuo ripiglia almo splendor
Ah!Torna al primiero almo splendor!
Sicilianos! Onde está o antigo valor?
Ânimo, conquistai a vitória e a honra!
(Oh Palermo) retoma
O antigo esplendor de tua alma!

Reerguer a cabeça, retomar a auto-estima perdida, eis os temas comoventemente musicados. Aqui estamos num terreno emocional no qual não deve haver lugar para a indiferença e o desânimo. A desafiante pergunta — "onde está o antigo valor?" — e o encorajamento para que a alma seja novamente reconhecida e honrada ecoam em nossos ouvidos modernos uma corda familiar: as palavras que um terapeuta ousa pronunciar no intuito de compassivamente tocar a dignidade e a honra que jazem ultrajadas no coração de um paciente deprimido. As nações também entram em duras fases de depressão coletiva, o que, mesmo ainda não sendo seriamente considerado por análises históricas que subtraem do panorama visível a sujetividade dos atores, não deixa de exercer um inegável efeito sobre o desencadeamento ou suspensão da ação política — como Verdi e outros artistas muito bem sabiam, razão pela qual eram capazes de atacar o âmago do problema pela via mercurial da música e da poesia.

Resta agora o sentimento do adeus. Na cultura italiana musical de meados do século XIX, nada o exprime de forma mais aguda do que a despedida — não da pátria, mas da vida —, soluçada por Violetta na quarta cena do terceiro ato da Traviata, a inigualável ária "Addio, del passato".15 Esvanecem os belos sonhos do passado diante da proximidade da morte. Violetta, a Dama das Camélias que Verdi transformou em pura música, procura, na maturidade, redimir seu passado de cortesã por meio do amor. Alfredo, que a ama sinceramente, é enganado pelo pai, mais preocupado com a honra familiar do que com a veracidade do sentimento do filho. Giorgio Germont chantageia Violetta, convencendo-a a sacrificar-se pelo bem do filho e a demonstrar que não o ama mais. A reação estarrecida de Alfredo ao vê-la numa festa em Paris — e ela representava, escondendo seu verdadeiro sentimento — é de cruel repúdio, atirando-lhe na cara o dinheiro ganho na mesa de jogo, como a uma vil prostituta. Doente, empobrecida e abandonada, percebendo no espelho a palidez do rosto, Violetta, com uma carta do velho Germont nas mãos, em que tudo por fim se esclarece, dá-se conta da irreversível passagem do tempo e da desamparada solidão de seu fim. O libretista Francesco Maria Piave assim adaptou essa passagem da novela de Alexandre Dumas:

Addio, del passato
bei sogni ridenti...
Le rose del volto
già sono palenti.
L’amore d’Alfredo
perfino mi manca
conforto, sostegno
dell’anima stanca.
Adeus belos sonhos
felizes do passado...
O rosado das faces
já começa a esmaecer.
O amor de Alfredo
tanta falta me faz
conforto e amparo
da alma cansada.
Ah! della traviata
sorridi al desio,
a lei deh perdona,
tu accoglila, o Dio!
Ah! tutto, tutto finì
or tutto, tutto finì...
Ah! atende ao desejo
da desencaminhada,
por piedade, perdoa,
Ó Deus, dá-lhe acolhida!
Ah! tudo, tudo acabou
agora tudo, tudo acabou...
Le gioie, i dolori
Tra poco avran fine;
la tomba ai mortali
di tutto è confine!
Non lagrima o fiore
avrà la mia fossa!
Non croce col nome
che copra quest’ossa!
Ah! della traviata
sorridi al desio,
tu accoglila, o Dio!
Ah! tutto, tutto finì
tutto, tutto finì...
As alegrias e as dores
logo terão fim;
a tumba, aos mortais
é o limite de tudo!
Nem lágrima ou flores
terá meu sepulcro!
Nem cruz com um nome
que cubra estes ossos!
Ah! atende ao desejo
da desencaminhada,
por piedade, perdoa!
Ah! tudo, tudo acabou
tudo, tudo acabou...

O imigrante radicado no Brasil que ouvisse essa triste despedida poderia eventualmente pensar em outra. Situação inglória: sacrificou-se pelos que puderam ficar na pátria, pois não lhes disputou o lugar; mas, ao aproximar-se o fim de uma vida de coragens, em que terra, nesta ou naquela, gostaria de ser enterrado? Já não há mais a lágrima, nem a cruz, nem a flor do túmulo ancestral. O adeus desesperado também é um sentimento imigrante, o contraponto da impetuosidade de partir e deixar tudo para trás. A Traviata é uma pérola, e uma lágrima, numa taça de champanhe. No dizer da musicóloga Silvia Camerini, "a música de Verdi dilacera Violetta, assim como a tosse dilacera seu peito".16 A lembrança do porto de Gênova deve ter sido uma cicatriz para sempre.

* * *

Meus avós recebiam cartões-postais de seus pais e irmãos, alguns dos quais nascidos após a separação, postados em Parma ou em Peschiera del Garda. Meu avô Romeo Gambini tinha treze anos, e com o irmão Guido, de onze, atravessando não sei como o norte da Itália, embarcou em Gênova em 1900, sem pai, sem mãe, sem ninguém conhecido, e desembarcou em Santos. Meu bisavô Gaetano, em viagem prévia, havia aberto uma hospedaria para imigrantes na região do porto e chamou os filhos para junto de si. Posteriormente chegaram também sua mulher, Santa, com a filha Felicita. Durante a estada do casal no Brasil, nasceu uma menina, América, e de volta à Itália, o filho Bortolo. Alguns anos depois — mas nunca descobri quando —, retornaram esses quatro para casa. Meu avô Romeo estabeleceu-se em São Paulo, onde viria a conhecer minha avó e com ela se casar, em 1908 — e nunca mais pôs os pés na Itália. Uma vez tentou, tomou um navio em Santos, mas no Rio de Janeiro desistiu e voltou atrás. Meu tio-avô Guido, que preferiu o interior (Ribeirão Preto), fez a viagem de volta, tirou uma foto com a família diante da trattoria do pai no lago de Garda, chamada Bella Italia, mas era apenas uma visita. Meu avô abriu uma firma de importação no centro de São Paulo onde vendia produtos italianos: vinhos, vermutes, amaros, conservas, queijos e presuntos para os restaurantes locais. Ficou amigo de uma legião de comerciantes conterrâneos (tenho ainda sua agenda de endereços), foi amigo do cônsul, gostava de um terno branco, foi anarquista, participou de greves operárias, fez muitos brindes, bebeu muito vinho. Minha avó Dolores Peracchi chegou em 1906, com dezoito anos, vinda de uma pequena localidade nas cercanias de Parma chamada Rocca di Fontanellato.17 Sua bisavó havia ostentado o título de condessa, tendo pertencido a uma antiga família aristocrática por essa época já sem fortuna alguma. Eram dezoito filhos; oito ficaram na Itália com a mãe (Gemma), um veio a nascer mais tarde, nove imigraram com o pai (Ernesto) e a avó materna. O pai e a avó retornaram alguns anos depois a Parma com quatro dos filhos. Os que aqui ficaram nunca mais reviram nenhum dos de lá.

Essas são breves crônicas de famílias rachadas ao meio. As histórias detalhadas do que ocorreu entre parentes, o que se passou entre maridos e mulheres, entre velhos com mentalidades ultrapassadas e jovens sequiosos de novas oportunidades, tudo isso se perdeu em gargantas apertadas. Não sei contá-las. Mas não posso refrear o pensamento de que em muitos casos, talvez nesses que me antecedem, a imigração tenha sido uma saída para conflitos e desavenças familiares que não se sabia resolver de outra forma. E a época era de partir...

Quero terminar este ensaio comentando uma série de cartões-postais,18 dez enviados pela família Gambini e 23, pela família Peracchi. Comecemos pelas mensagens distantes da primeira.

Em 17 de julho de 1907 chega de Pozzolengo, vilarejo na região de Brescia, um cartão com vista do local a meu avô ainda solteiro — "Al Signorino..." — endereçado à Posta Restante, São Paulo, America. A remetente é a irmã mais velha: "Ricordati più spesso di tua sorella e famiglia e abbi un grosso bacione, tua sorella Felicita".19

Alguns anos se passam e o próximo registro que restou é de outubro de 1913, um irmão adolescente escrevendo pela primeira vez a outro que nunca conheceu: "Per la prima volta t’invio un solo saluto sperando d’aver una tua risposta. Baciami i tuoi figlioli e dividi con tua moglie il mio affetto. Ciao tuo fratello Bortolo. Papa e Mamma ti salutano e sperano che sarai ora possessore di una sua lettera".20 Essa carta não foi encontrada, mas há um cartão do pai, de maio desse mesmo ano, de uma frieza chocante, até pela despreocupação com o endereçamento: "Al Signore Romeo Gambini — Brasile — São Paulo". Sem menção alguma de qualquer tipo de sentimento pelo filho que deixou no Brasil, manda apenas um recado: "Col vapor Luiza Joana viene Tito Bartoli, (h)oggi è qui dalla Paula e si beve, si beve e si beve bottiglie. Saluto da Floriarno reduce che è assieme Tuo Padre Gaetano".21 Bebia-se.

 

 

Meu tio-avô Guido recebe da irmã, com um beijo da mãe apenso ao final, um pedido de comunicação, que certamente já rareava: "Fratello carissimo — di tante lettere mandate e cartoline non ebbi mai un tuo rigo — perchè? Cosa ti feci? Ebbene io ti voglio bene lo stesso — vogliati accetare bacioni da chi con piacere si chiama tua Sorella. Baci Mamma".22 Assim se resolvia talvez o afeto mudo: sem saber por que o outro se calava, e a causa qual fora, continuava-se a querer bem... pelo menos na intenção. As dúvidas, mágoas, indiferenças, fantasias e os ressentimentos nunca de fato chegaram a tornar-se palavra.

Em 1920, meu avô recebe notícias indiretas, vindas de Milão: "Ieri visitai tuo papà, mamma ecc. Stanno bene. Tuo Dr. P. Giorgi".23 Não há menção a outros membros da família, reduzindo-se tudo o que é essencial, ao fim e ao cabo, a um mero et cetera. Ou a um duro laconismo, como em 1925: "Saluti — tua mamma".24Belo modo de não dizer nada.

 

 

Essa pequena coleção epistolar patrilinear termina com quatro cartões, todos de 1926: "Caríssimo amico — Ricevi un grande saluto della nostra Italia forte e bella e uma stretta di mano del tuo amico Angelo Repetto".25 Postadas na mesma semana de agosto, chegam as mensagens que mais impressionam pela sua formalidade e distanciamento. Dia 20: "Dal Lido ti ricordiamo — tuo Bortolo, America, Mamma e Sigr. Silvio Dalmaso".26 A família vai dar um passeio em Veneza, e o costume é o mesmo até hoje: um cartão com texto padronizado. O ritual vazio da saudade. No dia seguinte: "Da Venezia ti ricordiamo saluti Bortolo America Mammma e Sigr. Silvio Lina e Renzo Resini Giorni fa ho mangiato con Disanti".27 E na viagem de retorno a casa, passando por Recoaro, no dia 26: "Ricordandovi vostre America e Mamma".28

 

 

Pequenos gestos. Pensierini, como se diz em italiano. A frase é curta, mas a distância era enorme.

Minha coleção de cartões desse ramo da família termina aí, o que não quer dizer que outros não tenham sido escritos. Era o que estava no caixote.

Da família de minha avó de Parma tenho um pouco mais. Muitos desses cartões não posso datar com precisão, porque eu mesmo, quando menino, deles retirava os selos, com compressas de água morna, para minha coleção. Ainda devem estar em algum álbum numa estante qualquer. Inicio com um desses, sem selo, carimbo ou data de postagem, vindo de Parma, onde habitavam os signatários, porque nesse estão elencados os que na Itália ficaram, com as tradicionais declarações de que se lembram dos que partiram, seguidas do pedido de não serem esquecidos. Assinam oito irmãos de minha avó (um nascerá mais tarde), um cunhado e a mãe, com o sobrenome de solteira (Rocchi), talvez porque o marido a deixara ao imigrar com outros oito filhos seus: "Dalla casa di Pio inviamo saluti — Giannina, Teresina, Guido, Dirce, Egle, Renato, Mario, Pio, Rocchi Gemma (a mãe) e Mario Allodi (esposo de Gianna). Tutti vi ricordiamo — ricordateci voi pure. Vi attendiamo (de fato, o pai e mais quatro retornaram anos depois). Saluti e baci a tutti i Peracchi".29

 

 

O seguinte é datado, e é exatamente o mesmo cartão: o anterior em cinza e esse em sépia, uma foto da Escola Militar de Parma. É do fim de 1914, o irmão mais velho fala por todos: "Buone feste a tutti Pio e famiglia".30 Escrito na mesma semana, segue-se um cartão para os três sobrinhos, nascidos em 1909, 1910 (meus tios) e 1912 (meu pai): "Saluti e baci delle zie Giannina e Teresina e baci da Pio, Dirce, Egle e Renato Buone Feste".31 Mario e Guido ficaram de fora, sabe-se lá por quê.

O cartão seguinte, que acredito ser da época da Primeira Guerra, refere-se — o que é raro na coleção — a pedidos de notícia e confirmação de recebimento. Nota-se, por tudo o que se lê, que essas resumiam-se a nascimento de filhos ou estados de saúde — jamais a estados de alma ou o que cada um pudesse estar pensando sobre a situação da imigração e da partição da família em duas. É como se fatos dessa magnitude sobrevoassem a vida comum, transformados em destino acima do alcance de comentários e sentimentos. As coisas ficaram assim — e pronto. Mas sobra sempre a possibilidade de desejar um Feliz Natal ou mandar beijos.

Na seqüência, há três cartões do irmão Pio, em licença de saúde após ter combatido no início da guerra, que os envia da zona controlada pela Cruz Vermelha, na região de San Remo. Os três estão carimbados pela censura, e retratam hospitais militares, onde provavelmente ele se recuperava de alguma enfermidade ou ferimento adquiridos no campo de batalha. Aqui o laconismo evidentemente é uma imposição. Em 1916: "Saluti e auguri a tutti baci Pio".32 Em 1917: "Gradisci i miei saluti e ricevi tanti bacioni dal tuo Pio saluti anche a tutti".33 E em 1918: "Bacioni cari a tutti".34 Todo o drama de quatro anos de guerra em uma só linha.

Alguns anos depois, em 1921, há um esboço de relacionamento entre primos que nunca se viram. Meus tios e meu pai, crianças, recebem de Parma um cartão, uma pintura colorida de Veneza, de dois primos, ainda mais novos, pela mão dos pais: "Bacioni dai vostri cugineti Enrichetto e Lalla Allodi Bacci affettuosi dagli zii Giannina e Mario"35 (outro desses primos, Giorgio, nascido depois, imigraria para o Brasil, já casado e com dois filhos, aparentemente por desavenças com o pai).

Três cartões, todos do princípio dos anos 1920, falam de doenças e hospitalizações, com a brevidade espantosa que lhes é peculiar. Como o primeiro é de 1923 e refere-se ao pai, registro que o retorno de parte da família a Parma foi anterior a essa data. Estranhamente, não há nenhum comentando esse portentoso reencontro e a nova separação a ele correlata, esse novo arranjo pela segunda vez transformado em destino. O que tenho para ler é: "Cari, papà sta meglio vi salutiamo Nonni".36 Teria meu bisavô adoecido na viagem de volta ao lar? Razões não faltariam: ansiedade, ambigüidades, medo da nova situação de reinserção num lar por anos abandonado, a retomada da relação conjugal após tamanha ausência, culpa por deixar quatro filhos para trás, que nunca mais reveria, saudades do Brasil? Mas ele melhorou. O cartão traz a imagem do Monumento a Verdi em Parma, um aglomerado humano de bronze tendo ao centro o compositor, rodeado de músicos e personagens de suas óperas. Ele estava novamente em casa, sim. Ou então, esse cartão-postal, com forte subtexto apelativo: "Da letto ti mando tanti bacioni da dividere in famiglia tua Mamma hai avuta la mia fotografia?".37 A imagem de triste não tem nada: o Teatro Regio, glória de Parma, que sempre teve a fama de assentar o público musicalmente mais exigente de toda a Itália. E o terceiro, retratando a cores atraentes o moderno vapor Principessa Mafalda singrando os mares com a bandeira tricolor, e aqui depende da interpretação: levando mais imigrantes para o Brasil, ou trazendo filhos de volta para casa? Diz o texto, admiravelmente compacto ante a notícia espantosa que dá — o décimo oitavo rebento! — em dez curtas palavras: "Cari — sono sortita dalla Maternità — ora vado ai raggi — baci — Mamma".38 Não se sabe quem nasceu, nem o nome nem da acolhida que poderá ter recebido de uma mãe a quem filhos vieram em excesso e de um pai que, recém-chegado, ainda é pai mais uma vez. Por sua vez, a mensagem é indiscutivelmente moderna: esse, ou essa, não nasceu em casa; e a parturiente será submetida a um procedimento de última geração, a aplicação de raios X. A Itália se atualizava...

De novo o Teatro Regio, mas de outro ângulo. Estamos em 1923, ano do último nascimento. Meu bisavô escreve à sua filha, servindo-se da ocasião proporcionada pela visita de um casal conhecido, para dizer apenas: "In compagnia di Clelia e Valter ti mandiamo i saluti Peracchi Ernesto Mamma Teresina Guido Clelia Walter".39 Um mês e meio mais tarde, ainda em 1923, chega um cartão com uma estampa de amores-perfeitos lilases e negros que sempre me fascinou, a ponto de tê-lo afixado à parede de meu primeiro quarto de rapaz solteiro recém-egresso da casa paterna: "Auguri — Saluti — baci dai tuoi Genitori".40

Entre parênteses, como algo de menor importância, vem escrito no canto inferior esquerdo, "sto meglio",41 o que certamente se refere à recuperação do mal incógnito que acometeu a meu bisavô, como já vimos antes.

Três anos se passam, estamos em 1926. O campanário de São Marcos estampado no verso já anuncia a mesma mensagem de sempre, para os três netos brasileiros: "Da Venezia vi ricordiamo nonna e zii mandiamo tanti bacioni".42 Vovô não assinou, não deve ter feito o passeio — aliás, indicativo de uma certa nova prosperidade familiar. A comunicação começava a rarear, pelo menos é o que faz crer o breve pedido dirigido aos daqui, de que não se esquecessem da velha mãe: "Miei caríssimi — avete dimenticata la vostra Mamma Gemma? Saluti e bacioni infiniti a tutti voi. Scrivete".43 E ao lado do selo, porém de ponta-cabeça: "Questa la trovai qui in mezzo ai giornali che mandai a mamma non eri adunque da me dimenticata".44 Ou seja: esse cartão não foi enviado de imediato, logo após ter sido escrito, e se perdeu no meio de jornais; foi encontrado no momento em que Gemma envia os periódicos à sua própria mãe, que passou uns anos em São Paulo, passando a ser usado como prova de permanente lembrança. A velha mãe não quer ser esquecida, porém foi ela quem permitiu, é de supor, a separação da família e a partida dos filhos. A necessidade de comprovar materialmente o afeto e a lembrança deve articular-se a uma silenciada culpa, que não será jamais expressa em palavras. A culpa de deixar partir e a de partir devem ter se infiltrado como moléculas de mofo em todos os baús embarcados no porão dos navios pelos imigrantes.

 

 

Talvez o aspecto mais oculto dos processos migratórios — não apenas do italiano, mas de todos —, exatamente porque não encontra registro em nada, a não ser na vaga teia de construções sentimentais dos descendentes, seja a possibilidade de que conjunturas históricas propiciadoras de separações tenham sido consciente ou inconscientemente usadas como álibi para desejos de afastamento e separações familiares. Talvez, novamente, o único e último registro desses mistérios da alma humana só possa ser encontrado na literatura.

Restam-me em mãos sete cartões sem carimbo de postagem e sem selos, porque devem ter sido enviados em envelopes que se perderam. São vistas de Parma, a catedral de Milão e o imponente navio a vapor Re Vittorio. Poderia reproduzir um apenas, pois não há mais mensagens interessantes. Mas quero finalizar transcrevendo um por um, com suas mínimas e sutis variações na refinada arte do laconismo epistolar, palavras curtas para sentimentos que se esvaem. Foram todos enviados por minha bisavó. O primeiro é dirigido ao genro, meu avô Romeo, que deveria ser o portador do beijo enviado à filha: "Accetti i saluti e baci dalla famiglia Peracchi Romeo mi baci per piacere la mia Ninen (apelido que minha avó tinha quando menina, antes de imigrar) e i tuoi tre figli Mamma Gemma".45 Na seqüência: "Saluti — bacioni — auguri — tua mamma saluti in famiglia — scriverò — baci ai bimbi". "Saluti e baci a tutti voi Mamma Gemma Un grossone a Ginetto (meu tio)".46 Os cinco últimos, os derradeiros fios de palavras que uniam as partes irremediavelmente separadas de uma família, não precisam de fôlego para ser lidos, mas são, sim, de tirar o fôlego da alma: "Saluti baci infiniti dai vostri Genitori Buon anno Mamma Gemma". "Infiniti baci e ringraziamenti dalla tua Mamma bacioni." "Baci infiniti dalla vostra Nonna Gemma." "Saluti bacioni Nonna." "Saluti e baci infiniti Gemma.".47

 

 

O caixote se esvaziou. Mas devo dizer, num misto de distanciamento e inescapável familiaridade: não, bisavó, os beijos não são infinitos.

 

Notas

1 Ver em especial o ensaio de 1927 "Mind and earth", publicado no volume 10 de The Collected Works — Civilization in Transition (Jung, 1969-1970a).

2 O leitor encontrará um apanhado geral da psicologia da projeção em C. G. Jung em meu livro O espelho índio — Os jesuítas e a destruição da alma indígena (Gambini, 1988, p.17-63). Marie-Louise von Franz (1980) também faz um brilhante estudo da projeção em Projection and Re-Collection in Jungian Psychology — Reflections of the Soul (especialmente o capítulo 9).

3 Menciono quatro estudos, cada um com seu ângulo de abordagem: Ribeiro (1995), Skidmore (1994), Meira e Penna (1999), Calligaris (1991).

4 Agradeço a Luigi Zoja essa valiosa indicação.

5 Devo essa preciosa indicação a Lorenzo Mammi.

6 "Eu penso desta maneira. Pior de como eu estava não pode ficar. No pior dos casos, passarei fome lá como passava em casa. Digo bem? [...] Eu emigro para comer".

7 Minhas reflexões sobre o abolicionismo e a formação do mercado interno baseiam-se na obra magistral de Paula Beiguelman (1973, 1968, 1977).

8 Cf. D’Ávila (2004), onde se reconstrói a história da família Prado, de elite, durante quatro gerações.

9 "Cara mulher — Depois de uma longa e tormentosa travessia de mar, chegamos à América, onde se acreditava encontrar as delícias da terra, isto é, trabalhar pouco e ganhar muito, mas, ao contrário, não é assim, trabalha-se muito e ganha-se pouco, e come-se também mal porque as comidas não têm substância como a da Itália. Aqui onde agora eu me encontro mais supérfluo é o café, e é necessário levantar-se antes que o dia desponte para ir ao trabalho, e nos recolhemos tarde, com a noite avançada, assim é o método brasileiro, depois no trabalho em que estamos somos atormentados por muitos insetos provenientes dos bosques vizinhos..." (Franzina, 1994, p.135).

10 Cf. Giuseppe Verdi, Nabucco (1913). Em DVD: Nabucco (Verdi, 1998).

11 Cf. Também o Salmo 137 (136), "Canto do Exilado": "À beira dos canais de Babilônia nos sentamos, e choramos com saudades de Sião; nos salgueiros que ali estavam penduramos nossas harpas." E também Camões (1984, p.78), Babel e Sião: "Órgãos e frauta deixava / Despojo meu tão querido / No salgueiro que ali estava / Que para troféu ficava / De quem me tinha vencido". Agradeço a Adélia Bezerra de Meneses essa indicação.

12 "A literatura contribuiu assim para restituir a confiança aos italianos e a convencê-los de que não eram avessos à guerra e à política como sustentavam alguns".

13 Cf. Giuseppe Verdi, I Vespri Siciliani (2001, p.VIII).

14 Cf. Encyclopaedia Britannica (1953, v.23, p.107).

15 Cf. Giuseppe Verdi, La Traviata (s. d.) Em CD: La Traviata — Highlights (1989). Ouvir também: Maria Callas Vive — 2. "Addio del passato", terceiro ato de La Traviata (1996). Em DVD: La Traviata (1995).

16 Encarte do DVD citado, p.13.

17 O mestre Antonio Candido (1980) escreveu um comovente perfil de uma militante socialista, Teresina Carini Rocchi, que veio em 1890 de Rocca di Fontanellato para o Brasil, e era casada com Leovigildo Rocchi, tio de minha avó Dolores Peracchi. Em seu livro Teresina etc. ele descreve o referido lugarejo.

18 O já citado Emilio Franzina analisou cartas enviadas para a Itália por emigrantes, a partir da América Latina. Meu material é distinto no sentido de que são curtas mensagens enviadas da Itália para cá, o que me colocou diante de um desafio diferente do enfrentado pelo historiador italiano.

19 "Recorda-te com mais freqüência de tua irmã e da família e recebe um grande beijo, tua irmã Felicita."

20 "Pela primeira vez envio-te apenas lembranças, esperando ter uma resposta tua. Beija por mim teus filhinhos e divide com tua mulher o meu afeto. Tchau teu irmão Bortolo. Papai e Mamãe mandam lembranças e esperam que tenhas recebido uma carta deles."

21 "Com o vapor Luiza Joana segue Tito Bartoli, hoje ele está aqui na casa da Paula e bebe muitas garrafas de vinho. Lembranças do veterano de guerra Floriarno, que está com ele Teu Pai Gaetano."

22 "Caríssimo irmão — tantas cartas e cartões te mandei e nem uma linha recebi de volta — por quê? O que eu te fiz? Não importa, eu te quero bem do mesmo modo — aceita os beijos de quem com prazer se chama tua Irmã. Beijos da Mamãe."

23 "Ontem visitei teu pai, tua mãe etc. Estão bem. Teu Dr. P. Giorgi."

24 "Lembranças — tua mãe."

25 "Caríssimo amigo — recebe as lembranças da nossa Itália forte e bela e um aperto de mão do teu amigo Angelo Repetto."

26 "Do Lido lembramo-nos de ti — o teu Bortolo, America, Mamãe e o Sr. Silvio Dalmaso."

27 "De Veneza lembramo-nos de ti Lembranças do Bortolo, America, Mamãe e o Sr. Silvio, Lina e Renzo Resini. Há alguns dias comi com o Disanti."

28 "Lembrando de todos, vossas America e Mamãe."

29 "Da casa do Pio enviamos lembranças — Giannina, Teresina, Guido, Dirce, Egle, Renato, Mario, Pio, Rocchi Gemma (a mãe) e Mario Allodi (esposo de Gianna). Todos nos lembramos de vocês — lembrem-se também de nós. Esperamos por vocês. Lembranças e beijos a todos os Peracchi."

30 "Boas Festas a todos — Pio e família."

31 "Lembranças e beijos das tias Giannina e Teresina e beijos do Pio, da Dirce, Egle e Renato. Boas Festas."

32 "Lembranças e votos de boa sorte a todos, beijos Pio."

33 "Receba as minhas lembranças e muitos beijos do teu Pio lembranças também a todos."

34 "Beijos carinhosos a todos."

35 "Beijos dos seus priminhos Enrichetto e Lalla Allodi Beijos afetuosos dos tios Gianna e Mario."

36 "Queridos, papai está melhor lembranças seus Avós."

37 "Da cama te envio muitos beijos, para dividir com a família tua mãe recebeste minha fotografia?"

38 "Queridos — saí da maternidade — agora vou tomar raios X — beijos — Mamãe."

39 "Juntamente a Clelia e Valter te mandamos lembranças Peracchi Ernesto Mamãe Teresina Guido Clelia Walter."

40 "Boa sorte — Lembranças — beijos dos teus Pais."

41 "estou melhor."

42 "De Veneza lembramos de vocês vovó e tios mandamos muitos beijos."

43 "Meus caríssimos — esqueceram-se de sua mãe Gemma? Lembranças e beijos infinitos a todos vocês. Escrevam."

44 "Este [cartão] encontrei no meio dos jornais que enviei a mamãe portanto, não me esqueci de ti."

45 "Recebe as lembranças e beijos da família Peracchi Romeo, por favor dê um beijo na minha Ninen e nos teus três filhos Mamãe Gemma."

46 "Lembranças — beijos — boa sorte — tua mãe lembranças à família — escreverei — beijos às crianças." "Lembranças e beijos a todos vocês Mamãe Gemma Um beijão para o Ginetto."

47 "Lembranças beijos infinitos dos vossos Pais Feliz Ano Novo Mamãe Gemma." "Beijos infinitos e agradecimentos da tua Mãe beijos." "Beijos infinitos da vossa Vovó Gemma." "Lembranças beijos Vovó." "Lembranças e beijos infinitos Gemma."

 

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Recebido em 23.3.2006 e aceito em 29.4.2006.

 

 

Roberto Gambini é graduado pela USP, mestre em Ciências Sociais pela Universidade de Chicago e psicanalista pelo Instituto C. G. Jung de Zurique. @ — robertogambini@ig.com.br

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