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Estudos Avançados

Print version ISSN 0103-4014On-line version ISSN 1806-9592

Estud. av. vol.20 no.58 São Paulo Sept./Dec. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40142006000300025 

TEXTOS

 

Clima e endemias tropicais

 

 

Marcus Barros

 

 


RESUMO

O ARTIGO trata dos distintos olhares sobre os trópicos e da relação entre o clima tropical e a saúde da população. Ao descartar a idéia preconceituosa de que as doenças se devem unicamente às condições climáticas, o autor propõe uma análise mais atenta à realidade socioeconômica, mais humanitária e menos fatalista, e vislumbra o desenvolvimento sustentável como forma de estabelecer o equilíbrio entre o ser humano e a natureza.

Palavras-chave: Trópicos, Doenças tropicais, Mudanças climáticas, Sanitarismo, Sustentabilidade.


 

 

"Olhar apenas para uma coisa não nos diz nada. Cada olhar leva a uma inspeção, cada inspeção a uma reflexão, cada reflexão a uma síntese e então podemos dizer que com cada olhar atento ao mundo já estamos teorizando."
(Goethe)

 

O OLHAR ESTRANGEIRO sobre os trópicos está muito além da nossa compreensão. Afinal, à medida que somos foco do seu olhar nos transformamos, também, em estrangeiros, sob os olhos de quem chega. Determinar paradigmas é tarefa ingrata quando o alvo da categorização são pessoas, civilizações e culturas distantes da nossa. O diferente nos parece, muitas vezes, errado, inconveniente e repulsivo. Tomamos por base o padrão estabelecido e nos ressentimos com a imagem que vemos. Afinal, quando não nos vemos refletidos no outro, tendemos ao preconceito e à aversão.

Por conta disso, uma mesma visão pode ter distintas representatividades, o que ocorreu justamente com relação à imagem dos trópicos. Para alguns artistas, historiadores, escritores e intelectuais, como Gilberto Freyre, os trópicos constituem-se em local onde a abundância, a fartura e o calor evocam o paraíso perdido, e, para outros, aí destacado Lévi-Strauss e sua percepção niilista, os trópicos são sinônimo de lassidão, indolência e promiscuidade.

Carlos Lessa (2000), em seu Auto-estima e desenvolvimento social, comenta que entre os europeus existia a crença de que o paraíso estaria longe da Europa, uma vez que a Idade Média a moldara como um local cinzento, de terror, de pestes, de fome, com florestas cheias de bruxas e espíritos malignos. Então, quanto mais próximos do Equador, mais perto estariam do paraíso, onde, imaginavam, seria um lugar quente e aconchegante. Pelos olhos dos navegadores ibéricos vemos que o paraíso só podia estar, de fato, nos trópicos. Encantados com as indiazinhas nuas tomando banho, os pássaros coloridos e as flores perfumadas, eles não duvidaram de que finalmente haviam encontrado o lugar em que Adão desafortunadamente não conseguira penetrar. A partir do primeiro contato com o descoberto, os adjetivos tornam-se pequenos para retratar os substantivos em terra firme. Um mundo novo de cor e forma delineava-se, sem contar na presença exótica e alienista dos habitantes do paraíso: os indígenas.

Na pintura, artistas como Franz Post e Eckhout documentaram a natureza que saltava aos olhos e que quase não cabia na moldura, tamanha beleza e exuberância. Foram cachoeiras, matas, mares, índios, frutas e flores imortalizados pelos seus pincéis.

O deslumbramento, a partir do século XVIII, perde, no entanto, força nas afirmações do naturalista Buffon, para quem o continente americano era recente e débil, a começar pelos animais que em nada se comparavam com os de grande porte como o elefante, o puma, o tigre e o leão. Buffon vai mais além, questionando a virilidade dos habitantes dos trópicos, seres imberbes e com reduzido poder reprodutivo. O inglês Buckle, no século XIX, faz coro às críticas do naturalista e acrescenta que ter uma natureza rica seria desvantagem, à medida que criaria uma população preguiçosa e sem obstáculos a superar. Segundo ele, o povo tropical não poupa, não trabalha, porque não tem o desafio do frio. A civilização só é possível com clima e geografia desafiantes (Lessa, 2000). Nessa época, o índio sofre com o estigma de preguiçoso, rebelde, alcoolista – nem de longe semelhante a Peri, valente e destemido personagem alencariano. A linha do Equador torna-se a porta para o inferno, para o mundo sujo e envolto no pecado, na orgia.

Não se pode, no entanto, exigir complacência do olhar estrangeiro quando, em muitos casos, nem entre os próprios brasileiros a situação é vista com compreensão, a tomar-se o exemplo de Monteiro Lobato, escritor que criou Jeca Tatu, caipira preguiçoso e indolente, que passava as horas acocorado sobre os calcanhares, num fastio eterno. Depois de retratar o personagem de maneira pejorativa, o escritor se dá conta de que Jeca Tatu é vítima da verminose, do impaludismo, da precária saúde pública do começo do século XX. Ou seja, é réu da saúde pública. A partir daí, redime-se e passa a engajar-se em campanhas sanitaristas e a escrever textos para o jornal O Estado de S. Paulo ("De par com três flagelos endêmicos, a opilação, a malária e a moléstia de Chagas, uma só das quais bastava para derrancar o país, a lepra campeia infrene, a sífilis alarga os seus domínios, a tuberculose avulta cada vez mais e a leishmaniose, essa horrenda úlcera de Bauru ou ferida brava, deforma milhares de criaturas").1

Anos depois, Monteiro Lobato cria o Jeca Tatuzinho, publicado no famoso almanaque da indústria farmacêutica Fontoura, para ensinar hábitos saudáveis à população, como lavar as mãos antes das refeições e a importância de andar sempre com os pés calçados.

O que vemos, então, é uma profunda inconsistência na defesa dos valores nacionalistas, um apego aparente que se intensifica ou desaparece de acordo com a inteligentsia da época, a qual se prolonga provavelmente até o início do século XX, quando os movimentos artísticos se rebelam contra a aculturação e resolvem refazer a história do Descobrimento, resgatando as origens da terra e do povo, e concebendo a história com mais realismo.

A transformação por que passa Monteiro Lobato se estende aos demais escritores, e o povo perde o ranço da indolência em razão da pobreza e da falta de políticas públicas que intercedam por sua vida. Agora ele não é mais culpado pelo estado de miséria em que se encontra, nem a barriga enorme que ostenta causa antipatia aos outros. Ao contrário, a injustiça social o castiga e mina sua saúde, sua força física, sua vontade de trabalhar. As doenças penetram a esfera da literatura e são levadas para dentro dos livros de autores como Graciliano Ramos, Euclides da Cunha e Guimarães Rosa. Esse último, especialmente no conto "Sarapalha", da obra Sagarana, cuja temática gira em torno da malária, que dizima vidas e esperanças no interior do país:

Tapera de arraial. Ali, na beira do rio Pará, deixaram largado um povoado inteiro: casas, sobradinho, capela; três vendinhas, o chalé e o cemitério; e a rua, sozinha e comprida, que agora nem mais é uma estrada, de tanto que o mato a entupiu. Ao redor, bons pastos, boa gente, terra boa para o arroz. E o lugar esteve nos mapas, muito antes da malária chegar.
Ela veio de longe, do São Francisco. Um dia, tomou caminho, entrou na boca aberta do Pará, e pegou a subir. Cada ano avançava um punhado de léguas, mais perto, mais perto, pertinho, fazendo medo no povo, porque era sezão da brava – da "tremedeira que não desamontava" – matando muita gente. – Talvez que até aqui ela não chegue...
Deus há-de... Mas chegou; nem dilatou para vir. E foi um ano de tristezas. Em abril, quando passaram as chuvas, o rio – que não tem pressa e não tem margens, porque cresce num dia mas leva mais de mês para minguar – desengordou devagarinho, deixando poços redondos num brejo de ciscos: troncos, ramos, gravetos, coivara; cardumes de mandis apodrecendo; tabaranas vestidas de ouro, encalhadas; curimatãs pastando barro na invernada; jacarés, de mudança, apressados; canoinhas ao seco, no cerrado; e bois sarapintados, nadando como búfalos, comendo o mururê-de-flor-roxa flutuante, por entre as ilhas do melosal. Então, houve gente tremendo, com os primeiros acessos da sezão. – Talvez que para o ano ela não volte, vá s'embora... Ficou. Quem foi s'embora foram os moradores: os primeiros para o cemitério, os outros por aí afora, por este mundo de Deus. (Rosa, 1984)

O tema também está presente na magistral obra Grande sertão: veredas, que neste ano completou cinqüenta anos. Guimarães Rosa se vale de sua formação em medicina para rechear a história de Riobaldo com episódios de viroses infantis, hanseníase e doenças infectoparasitárias, típicas da pobreza do sertão.

Parece-me que o trópico é uma soma de tudo: ao mesmo tempo que é o paraíso perdido, é também o inferno dantesco. É a abundância de frutas e sabores, mas é a pobreza, a barriga vazia de comida e cheia de verminose. É o queixo preguiçoso escorado na enxada sob o sol forte que cozinha o cérebro, mas é a sola dura do pé que caminha, corajosamente, quilômetros debaixo do mesmo sol em busca de sombra, de água, de sorte. É a terceira margem do rio, proposta por Guimarães Rosa, uma leitura alternativa da realidade, menos maniqueísta, menos dualista, que oferece espaço a um repensar sobre a situação – os trópicos dão vazão a múltiplas concepções, visitando a tristeza, a alegria, o sexo pulsante, a sensualidade e – por que não? – o tédio e a mansidão de quem não tem pressa, porém está sempre em busca do bem-estar.

 

As doenças nos trópicos

Hoje sabemos que o termo "doenças tropicais ou exóticas" está impregnado de preconceito e de uma concepção pernóstica, herança da mentalidade européia, que julgava os povos dominados sob um crivo faccioso e superficial. Assim, a começar pelos índios, cuja existência da alma era posta em dúvida pelo branco, as relações com o dominador sofrem brusca mudança desde o primeiro contato.

A população nativa gozava de saúde e, quando acontecia de adoecer, tinha conhecimento das plantas e dos remédios para seus males. Mas a febre chegou, e aportaram, também, o cólera, a varíola e outras doenças de branco. Se aos olhos do conquistador os índios eram exóticos, para os índios exóticas eram as doenças vindas de fora e com as quais foram paulatinamente contaminados, o que se explica pelas temperaturas elevadas e pelo excesso de umidade nos trópicos, condições ideais para as doenças.

Traçando um paralelo entre o que ocorreu à época do descobrimento do Brasil e o conteúdo do primeiro livro do Antigo Testamento (Gênesis), percebemos uma curiosa semelhança. No capítulo 2, Deus planta um jardim, o Éden, e nele coloca o homem para viver. Faz brotar do solo todas as espécies de árvores, cujos frutos saborosos saciariam a fome e cuja beleza alimentaria a alma. Além disso, põe um rio que se divide em quatro braços para regar o Éden, e salpica o céu de aves e a terra de animais. Adão vivia em harmonia com a natureza, respeitando as plantas e os pássaros; comendo e bebendo o que a terra e os rios lhe ofereciam, sem temer as feras ou qualquer outro ser vivente. No versículo 15 está clara a mensagem: "Deus tomou o homem e o colocou no Jardim do Éden, para que o cultivasse e o guardasse". Cultivar e guardar. Parece que a humanidade não entendeu a mensagem, tão simples e, ao mesmo tempo, tão emblemática. A partir do momento em que Eva provou do fruto proibido, uma maldição é jogada para sempre: "maldita seja a terra por sua causa. Enquanto você viver, dela se alimentará com fadiga. A terra produzirá para você espinhos e ervas daninhas" (versículos 17 a 19).

Por meio da mensagem bíblica, vemos que a desgraça começa a pairar sobre o homem por causa de um ato de desobediência, motivado por auto-suficiência e cobiça, transformando liberdade em escravidão. O homem definha na terra hostil, vendo-se obrigado a se defender das feras e a cobrir sua nudez, agora perturbadora e desconcertante. Assim é a resposta da natureza, sintetizada na terceira Lei de Newton: "a cada ação corresponde uma reação". Aquilo que o homem faz ao meio ambiente será notado, mais cedo ou mais tarde, por meio de desastres ambientais advindos do descontrole e da falta de uso sustentável dos recursos naturais – inundações, desaparecimento de zonas agrícolas, catástrofes climáticas, aquecimento global.

Para Paulo Roberto Moraes, professor do Departamento de Ciências do Ambiente da PUC-SP, em seu trabalho de doutorado intitulado As alterações ambientais das áreas tropicais úmidas e a difusão de doenças tropicais,2 o desmatamento sem critérios dizima florestas inteiras e leva centenas de espécies à extinção. O resultado são profundas alterações ambientais de efeito local e global. Moraes ainda comenta que, somada às condições climáticas, a baixa qualidade de vida – característica da quase totalidade dos países situados em regiões tropicais – estimula a ocorrência de epidemias. Independentemente do objetivo que tem quando invade o limite suportável pela natureza, o homem sentirá na sua geração ou nas vindouras a conseqüência dos seus atos.

Os aspectos ambientais e socioeconômicos exercem, portanto, grande influência no surgimento e propagação de doenças, inclusive modificando suas manifestações e tornando a cura ainda mais resistente aos medicamentos. Assim comentam os autores do capítulo "A malária no Amazonas", do livro Espaço e doença – um olhar sobre o Amazonas (Rojas & Toledo, 1988):

A malária responde à medida que é estimulada, seguindo o seu "curso natural", observando-se, a cada ano, uma ampliação dos espaços de transmissão, quer por contigüidade ou por instalação de novos focos a distância. O declínio dos níveis endemo-epidêmicos só é verificado de forma pontual pela intensificação das medidas de controle, ou quando fatores determinantes da transmissão cessam ou diminuem de intensidade.

No Amazonas, a situação das comunidades indígenas foi bastante alterada desde o contato com os colonizadores. Nas aldeias mais isoladas e preservadas da ação do invasor, as enfermidades restringiam-se a complicações de parto, ferimentos por acidentes e infecções próprias aos ecossistemas naturais. Uma vez observada a interação com outros povos e a transformação do meio ambiente ocasionada por eles, houve uma transmissão de novas doenças, enfraquecendo o organismo dos índios por meio de infecções com as quais não estavam acostumados.

Os movimentos migratórios ocorridos de maneira imprevisível e desordenada acentuaram a piora do panorama sanitário. Situações caóticas foram sendo perpetuadas, como a construção da Usina Hidrelétrica de Balbina, que invadiu a reserva indígena Waimiri-Atroari. O empreendimento foi alvo de críticos, que viam na obra uma forma de obter lucros e benefícios às grandes construtoras, com prejuízos ecológicos e humanos irreversíveis. Com a usina e a BR-174 vieram surtos violentos de malária, responsáveis por dizimar uma grande parcela daquela comunidade.

A malária mostra-se ainda mais agressiva nos garimpos, onde as péssimas condições de vida e o trabalho pesado levam os homens a viverem em permanente estado de risco, padecendo também com outras doenças como a leishmaniose, a hanseníase e as DST. E, como o garimpo é uma atividade nômade, quando não há mais o que se explorar, os garimpeiros partem para outros locais, deixando para trás o meio ambiente degradado e levando consigo todas as enfermidades adquiridas. Ou seja, serão irradiadores das doenças, deixando por onde passarem as marcas de sua sofrida existência.

Ainda dentro do espírito ganancioso que deseja, a todo custo, demarcar territórios e sobre eles impor seu domínio, temos o patético desfecho da ferrovia Madeira–Mamoré, tão bem esmiuçado por Francisco Foot Hardman no livro Trem-fantasma: a Ferrovia Madeira–Mamoré e a modernidade na selva (2005), empreendimento que abateu vidas de milhares de trabalhadores em troca de um lucro que nunca veio. A respeito das enfermidades que "engoliam" homens e os transformavam em zumbis, diz Hardman (2005):

E que dizer então dos doentes, eternos moribundos a vagar entre delírios febris, doses de quinino e corredores da morte? O Hospital da Candelária era santuário e túmulo, monumento ao progresso científico e preâmbulo da escuridão. Foi dali, com suas instalações e equipamentos moderníssimos, que médicos e sanitaristas dirigiam seu combate aos males tropicais.

As principais moléstias que impediam os trabalhos da ferrovia eram pneumonia, sarampo, ancilostomíase, beribéri, disenteria, hemoglobinúria, febre amarela e, a pior de todas, o impaludismo (malária). Oswaldo Cruz, chamado à selva para combater emergencialmente as doenças, registrou:

A região está de tal modo infectada que sua população não tem noção do que seja o estado hígido, e a condição "de ser enfermo" constitui a normalidade. As crianças – as poucas que existem – inquiridas sobre o estado de saúde, respondem simplesmente: "não tenho moléstia, só tenho baço". E caracterizam, assim, a enorme esplenomegalia cuja presença sentem e que é consecutiva aos acessos repetidos de malária.3

Como vimos, vários outros projetos na Amazônia (garimpos, exploração mineral, hidrelétricas, rodovias, madeireiras...) causaram devastação na natureza e desestabilizaram as populações locais, levando pobreza, doença, mínimas expectativas de sobrevivência (apenas sobrevida). Esses "avanços" da modernidade arrastavam os habitantes, conduzindo-os a lugares totalmente insólitos, sem nenhuma estrutura que comportasse a perpetuação da vida.

Os efeitos da devastação ambiental são alarmantes, expondo a região a riscos variados. Por um lado, estão as ameaças representadas pelas atividades econômicas tradicionais; e, por outro, a biopirataria e a apropriação do conhecimento das comunidades locais.

O avançar da fronteira agrícola e da pecuária provoca um efeito em cadeia: extensas áreas de florestas são desmatadas para dar lugar à cultura de grãos ou servir de pasto para o gado. Com isso, o solo torna-se desgastado e enfraquecido, além de as inovações na tecnologia aplicada à agricultura fazerem que os trabalhadores sejam dispensados como mão-de-obra, caindo numa situação de miséria. Sem expectativa de sobrevivência e sustento, partem para as cidades grandes e lá são abatidos pelos males do progresso – prostituição, doenças, violência. Outra possibilidade que enxergam é o garimpo, seduzidos pela idéia de enriquecimento com o ouro. É apenas uma outra versão do mesmo destino: mais prostituição, mais doenças, mais violência.

O desflorestamento, a perda da biodiversidade e a contaminação das águas são outros grandes problemas enfrentados pela Amazônia. Com a derrubada das florestas há um significativo impacto sobre a emissão de gás carbônico, o que ocasiona mudanças climáticas e afeta substancialmente a vida da população, com destaque para a incidência de doenças transmissíveis por mosquitos e outros vetores (malária e febre amarela, por exemplo), secas, tempestades tropicais, desertificação e inundações. A poluição das águas aumenta as chances de contaminação por doenças de veiculação hídrica. Além disso, a ocupação feita de modo inadequado às margens de rios dá início a processos de erosão, os quais alteram o regime das águas e geram áreas alagadas, que agravam ainda mais as condições socioambientais.

A concepção imediatista e utilitarista do desenvolvimento, que abarca a região sem um foco firme na complexa realidade do ecossistema amazônico, redundou não apenas na redução dos recursos naturais, como também em injustiças e pobreza para as populações locais, com os conflitos por terras e os altos índices de enfermidades, entre as quais algumas que, erradicadas no primeiro mundo – tuberculose e hanseníase –, assolam as populações empobrecidas da região. Lado a lado com todos os infortúnios está o narcotráfico e toda a violência que o acompanha. Ou seja, a destruição da natureza ultrapassa a esfera ambiental e atinge todos os setores: saúde, economia, defesa, justiça, educação e outros.

Como natural do Amazonas e médico com interesse nas doenças tropicais, presenciei a crescente agressão à Amazônia de maneira mais aguda. Pude assistir de perto ao produto de quase todos os grandes projetos que avançaram por sobre a Amazônia, de onde tirei a conclusão de que as doenças contra as quais eu lutava diariamente vinham da relação do homem com o meio ambiente. Além da malária no garimpo, chegavam para mim quinze mil casos de leishmaniose tegumentar, doença que é um dos mais significativos paradigmas da resposta direta da natureza ao agressor. O que acontece é que os mosquitos transmissores – catuquis – ficam no caule e outros na copa das árvores. Quando o indivíduo penetra a motosserra na árvore, esses catuquis sugam seu sangue, fazendo-o adoecer.

Com o tempo, percebi que havia doenças nossas, mas que eram acentuadas pelo avançar da devastação ambiental, da ocupação sem critérios de áreas da Amazônia, até o ponto em que se tentava controlar com medicamentos e ações preventivas, mas era desproporcional ao potencial agressivo dos grandes projetos. Os empreendimentos deixavam marcas cada vez mais profundas. Durante a construção da Transamazônica, por exemplo, ao longo da rodovia, pessoas eram "plantadas", "descartadas". Foi traumática a experiência de penetrar naquele ecossistema, com a Transamazônica rasgando desde a Paraíba até Benjamim Constant. Um professor de Parasitologia desta USP, Samuel Pessoa, chamava essas pessoas jogadas no meio do nada, sem a menor infra-estrutura, de "triste rebanho humano". Não apenas as doenças físicas assolavam os homens, mas a quantidade de enfermidades psiquiátricas triplicou, abarrotando os hospitais da Amazônia. Afinal, a viagem não tinha retorno.

Mas novos conhecimentos trazem boas notícias: trabalhos recentes, como o estudo da Fiocruz sobre o Índice de Vulnerabilidade Geral (IVG), patrocinado pelo Ministério da Ciência e Tecnologia, sinalizam um avanço para o diagnóstico das influências climáticas associadas às doenças que atingem a população. Os pesquisadores da Fiocruz chegaram ao IVG a partir da mensuração e análise de três informações básicas: a ocorrência de doenças (Índice de Vulnerabilidade Epidemiológica), as condições de vida da população (Índice de Vulnerabilidade Socioeconômica) e as mudanças climáticas (Índice de Vulnerabilidade Climatológica). Com esse indicativo geral, será possível apontar as suscetibilidades de cada região, identificando as populações e as áreas de risco. Uma outra pesquisa, financiada pelo CNPq e também pelo MCT, consiste no mapeamento dos genes do transmissor da malária, realizado pela Rede Genoma Brasileiro. Com a análise do seqüenciamento do genoma, poderemos pensar na criação de um anofelino geneticamente modificado, que será cruzado com espécies naturais, dando origem a uma geração artificial de insetos. Desse modo, a picada não mais transmitirá o protozoário da malária, o que irá representar uma melhora expressiva na qualidade de vida da população, principalmente a da Amazônia.

 

 

Ainda que tenhamos prenúncios alvissareiros na área da saúde, resta-nos responder a uma questão fundamental: é possível haver uma intervenção na natureza que não seja prejudicial? É viável o desenvolvimento sustentável, que permita o progresso econômico e, ao mesmo tempo, preserve o meio ambiente? Para Ignacy Sachs (1995), a aplicação do conceito de desenvolvimento sustentável deve partir da identificação das possibilidades dos sistemas integrados de produção de alimentos, energia e outros bens, promovendo o manejo sustentável de florestas e a exploração agrícola das mesmas, a valorização dos recursos aquáticos e florestais, a produção de bioenergia, bem como uma vasta gama de produtos industriais e serviços baseados na biomassa. Acredito que esse é o caminho para a manutenção da Amazônia e, de modo geral, para o Brasil, cujo maior desafio, hoje, é desenvolver duas vias simultâneas de atuação: uma que aperfeiçoe a legislação ambiental e monitore, fiscalize e multe os empreendimentos econômicos que a infringirem, e outra que estimule a troca de padrões tecnológicos, favoreça a implementação de atividades sustentáveis e privilegie a valorização econômica dos recursos naturais.

Assim, o paradigma do desenvolvimento apóia-se em quatro pilares: sustentabilidade, com a criação de emprego e desconcentração de renda pela inclusão social e de projetos sustentáveis que envolvam a população local, como as reservas extrativistas; transversalidade da questão ambiental nas políticas públicas, com integração do setor de meio ambiente nas decisões sobre os projetos nacionais setoriais de desenvolvimento e articulação dos diversos organismos responsáveis pelas políticas setoriais em curso na Amazônia; controle social, como forma de dividir responsabilidades com a sociedade, elevando, assim, a consciência nacional acerca dos problemas da região; e fortalecimento do Sistema Nacional do Meio Ambiente, com ênfase no licenciamento, na fiscalização, no monitoramento, na ampliação de áreas protegidas e na gestão dos recursos genéticos.

Para encerrar, compartilho com os senhores uma imagem poética que resumiu em poucas palavras qual deveria ser a postura do homem diante da natureza. No mês de março último, durante a reunião das Nações Unidas sobre Meio Ambiente (COP8), ao ser perguntado sobre como definiria o conceito de desenvolvimento sustentável, o representante do Congo respondeu que, na sua visão, pensava uma árvore e uma serpente. A serpente, quando sobe na árvore, molda-se a ela, toma seu formato, contorna os galhos e adapta seu corpo ao tronco. Assim deve ser a relação do homem com o meio ambiente: de adequação e não de invasão, usurpação, destruição. Temos exemplos mais do que suficientes que confirmam o futuro desolador que nos espera, caso não haja consciência do mal que a ação predatória do homem provoca no meio em que vive. De doenças a desastres ecológicos, a natureza tenta, a seu modo, fazer o alerta. Por quanto tempo mais insistiremos em não ouvi-la?

 

Notas

1 Trecho disponível em: <http://www.comciencia.br/entrevistas/2005/06/entrevista1.htm>.

2 Trecho disponível em: <http://www.pucsp.br/publique/media/edicao250_PUC _pg8.pdf>.

3 Trecho disponível em: <geocities.yahoo.com.br/megasoft_informatica/madeira_mamore.htm>.

 

Referências bibliográficas

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Recebido em 6.4.2006 e aceito em 25.4.2006.

 

 

Marcus Barros é médico, especializado em Medicina Tropical, presidente do Ibama e pesquisador da Fundação de Medicina Tropical do Amazonas. Foi diretor do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e reitor da Universidade Federal do Amazonas. @ – marcus.barros@ibama.gov.br
Palestra feita pelo autor no Colóquio "Tristes Trópicos ou Terra de Boa Esperança? Obstáculos ou Vantagens Comparativas para o Desenvolvimento da Civilização da Biomassa?", realizado no Instituto de Estudos Avançados da USP em 6 de abril de 2006, dentro das atividades do Ciclo Temático sobre a Civilização da Biomassa, proposto e coordenado pelo ecossocioeconomista Ignacy Sachs, da École de Hautes Études en Sciences Sociales, França.

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