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Estudos Avançados

Print version ISSN 0103-4014

Estud. av. vol.22 no.64 São Paulo Dec. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40142008000300022 

RESENHAS

 

Clarice Lispector: imagem, vida e obra

 

 

Lucília Maria Sousa Romão

 

 

Não apenas original e bela, mas sobretudo inaugural, assim pode ser definida a última obra de Nádia Battella Gotlib, em que Clarice Lispector é tema para um estudo em formato de imagens fotográficas que desenham uma trajetória para além de uma biografia rasteira ou de uma cronologia factual de acontecimentos acidentais. A obra é tessitura de fragmentos imagéticos e de textos curtos sinalizadores de dados contextuais, de indicações literárias, de apontamentos explicativos sem os quais o leitor perderia a oportunidade de interpretar o que está para além do visível. Nesse sentido, Nádia costura fios de referências verbo-visuais com delicadeza tecendo, no material que ela mesma retirou da poeira do tempo, um modo novo de conceber o literário afetado por outra forma de organização e exposição, qual seja, estudar a vida de um autor recuperando fragmentos espalhados e perdidos no tempo, reunindo-os para significá-los em movimentos de letra e de traço.

Ao marcar como os lugares afetaram Clarice e as tramas de sua obra, como ela viu de certos ângulos o espaço e o tempo de antes, como certas pessoas tornaram-se inspiração para a autora criar personagens e conflitos, como inquietações derivadas da vida social foram albergadas na ficção, como amigos e amores foram sendo significados ao longo de uma vida intensa, Nádia mobiliza todos os seus estudos anteriores e também a experiência de pesquisadora criteriosa, observadora da minúcia, rigorosamente atenta àquilo que poderia ser considerado pequeno, como uma anotação na dedicatória de um livro ou um registro fotográfico aparentemente insignificante. Assim, com pistas colhidas no miúdo do cotidiano, a obra oferece ao leitor um efeito de totalidade construído pelo trabalho incansável de dez anos de pesquisa e buscas em que Nádia vasculhou caixas de fotografias antigas, revirou gavetas de arquivos institucionais tais como museus, hemerotecas, bibliotecas, buscou registros em acervos familiares e de amigos, comprou fotografias aqui e acolá – acolá esse de uma ordem bem distante. Só para se ter uma idéia desse trabalho exaustivo, ela refez o trajeto de vida de Clarice, visitando todos os lugares pelos quais a criadora de Macabéa passou no país e fora dele, ou seja, Tchechelnik, Maceió, Recife, Rio de Janeiro, Belém do Pará, Nápole, Berna, Torquay, Washington e Rio novamente. Em todos esses locais, foi intensa a busca por fragmentos dispersos de uma vida clariciana profundamente andarilha por territórios físicos e ficcionais, reconstituindo o perdido e trazendo à luz o que fora deixado na sombra do esquecimento. O trabalho tem o mérito de fixar uma ordem bem-sucedida e construída pela tentativa de driblar o efêmero, de marcar a persistência de memórias, de preservar em formato de livro aquilo que poderia ter sido devorado pela traça voraz do abandono. Persegue-se o registro de algo que permita não se esquecer de todo e, assim, possibilite ver Clarice (ou pedaços do que dela ficou impresso em documentos e fotografias) ordenados criativamente.

 

 

Fotobiografar, nessa direção, possibilita reconstruir uma linha povoada por várias narrativas possíveis e sugeridas pelo documento visual; isso porque fotografias antigas, distantes e dispersas poderiam dirigir o olhar e a interpretação do leitor para todos os lugares e lugar nenhum, sendo assim dissolvidas de compreensão; então, a palavra de pesquisadora de Nádia borda o texto necessário para que os sentidos intervalares do entreimagens não fiquem soltos, prendendo o frouxo em uma trança cuja tessitura é a vida de Clarice. Documentos pessoais, bilhetes, anotações cotidianas, registros de viagens, cartões, dedicatórias de livros, cartas, rascunhos, manuscritos, frases escritas somam-se a um vasto acervo de fotografias primorosamente selecionadas. As imagens de lugares distantes são belíssimas, cidadezinhas do Leste Europeu (os primeiros vestígios da família Lispector), cenas da guerra, portos e navios de viagem, deslocamentos distantes de partir e chegar para, de novo, partir uma vez mais; os registros do Brasil nordestino na vida de algumas capitais (a livraria que inspirou a paixão de Clarice pelos livros e pela relação de ser amante deles) e do cenário carioca (a mulher na praia com os filhos) igualmente merecem destaque pelo rigor estético; o movimento basculante de Clarice com viagens para a Europa (a vista da janela da casa onde Clarice viveu) e para os Estados Unidos (com a vida social intensa de mulher de diplomata) e os retornos ao Brasil para férias ou para residência também são nutrientes ricos para esta fotobiografia.

Tem-se a certeza de que Nádia escolheu o que havia de mais belo nas imagens, ficando com aquelas que impressionam pela profundidade de ângulos pouco usuais, pela justaposição de figuras em planos diversos, pela entrada de luz e sabotamentos de sombra, pelo tom sépia que o tempo inevitavelmente imprimiu aos papéis, às lembranças e aos relatos. É possível imaginar aqui quantas imagens de lugares foram avaliadas para escolher essas que estão expostas na obra, e também quantas escolhas a pesquisadora precisou fazer para deixar aparecer o que se mostra nas 652 páginas do livro. Trabalho igualmente intenso foi compor algo para além da seleção de cada objeto fotográfico isoladamente, visto que a soma das imagens estabelece uma ordem, apresenta uma seqüência de vida e obra, relaciona cada partícula solta em um encadeamento coeso, ou seja, constrói um percurso dialógico entre todos os documentos ali apresentados.

Os registros das fotografias pessoais de Clarice surpreendem pela variedade. Há cenas da vida privada em que comparece a menina: a fotografia que ela bateu da tia com os primos, o documento escolar, o momento com o pai, o olhar perdido na imagem da sacada do sobrado e o Rio Capibaribe ao fundo. A palavra de Nádia é fundamental para nortear os gestos de entendimento do leitor: "No jardim Derby, perto do chafariz, Clarice, com dez anos, veste luto pela morte da mãe"; "Vista parcial da Praia do Carmo, em Olinda, onde Clarice, o pai e irmãs tomavam banho de mar". Vez por outra, ouve-se a voz da própria Clarice exposta em destaque no livro, ecoando como a dar o seu parecer sobre as imagens: "Meu pai acreditava que todos os anos se devia fazer uma cura de banhos de mar. E nunca fui tão feliz quanto naquelas temporadas de banhos de Olinda, Recife". Dessa heterogeneidade de vozes, o leitor colhe os mais saborosos frutos. Da adolescente, as imagens são igualmente deliciosas: o vestido claro e o olhar simpático na foto com as irmãs, os closes requintados em que o rosto de Clarice é documentado de diferentes ângulos, a fotografia de formatura, as notas de curso complementar, os colegas de escola, o atestado de vacinação contra a varíola, o quase-sorriso da moça no momento em que Nádia afirma apenas "Clarice nas férias de 1937".

As imagens do período intitulado "Bacharel, jornalista e contista" inscrevem fotografias da "moradora do bairro da Tijuca" com a irmã, das capas da Revista Pan em que Clarice publica seu primeiro conto e de capas de livros comprados por ela. Qual seria a relação entre essas pistas? A própria Nádia explica: "Clarice compra a edição brasileira do livro com o primeiro dinheiro ganho com trabalho próprio. Não conhecia a autora, mas identifica-se logo com ela: 'Mas essa sou eu', afirma ao ler os contos da escritora neozelandesa". Outras pessoas importantes para a formação de Clarice integram esse capítulo, são expostas fotografias de Antônio Callado e Lúcio Cardoso. Sobre o último, a voz da própria Clarice é ouvida: "ele fora a pessoa mais importante da minha vida durante a minha adolescência. Naquela época, ele me ensinava como se conhecem as pessoas atrás das máscaras, ensinava o melhor modo de olhar a lua".

Somam-se, ainda, imagens de residências, prédios públicos e monumentos cariocas, capas de livro dedicados a Clarice ou comprados por ela. O trabalho da jovem jornalista é apresentado em duas imagens singulares, a primeira fotografia foi tirada dentro do Palácio do Itamaraty com ela fazendo anotações em uma folha de papel muito branca tendo uma janela aberta ao fundo e um embaçamento do que está fora, do que está para além, do que não se pode ver de todo, do que escondido também significa, eixo temático de muitos conflitos da ficção clariciana. A outra é de uma Clarice sorridente em almoço no Serviço de Alimentação da Previdência Social, "Entre tantos jornalistas, é a única mulher", afirma Nádia. A fotografia com o noivo, a carteira profissional, a foto da formatura do Curso de Direito, a mulher na janela com uma mecha de cabelo atrevida na face e o início de tantos deslocamentos do casal Gurgel Valente. A cada cidade, Nádia dá pistas do cenário da época e dos pontos importantes percorridos pela escritora. Com o peso das distâncias e a emergência das saudades, muitas fotografias de cartas aparecem albergando impressões da mulher comprometida com a leitura e amante da criação, e também da esposa para a qual a vida social era tão obrigatória quanto dela a autora parecia estar deslocada e ausente nas tantas imagens que se seguem.

Os amigos são vários, fotografados em visitas no exterior, em encontros familiares ou de trabalho. Os filhos entram na ciranda das imagens e a mais maternal delas tem Clarice sorrindo com Pedro no colo, o filho "nascido em Berna em 10 de setembro de 1948. Na foto quando só tinha 1 mês e 11 dias". Há uma certa sutileza de Nádia ao acrescentar ao conjunto dessa obra uma fotografia rasgada em que Clarice está de um lado e seu então marido, Maury, do outro. Por que estaria essa imagem rasgada? Que fratura se promoveu a ponto de partir ao meio o que antes estava inteiro na materialidade do papel e do traço? Clarice mãe na quitanda, no parque, na praia, em férias no navio; Clarice mulher de diplomata na Embaixada do Brasil, em jantares e poses forçadas; Clarice escritora com caneta e papel na mão; Clarice-notícia nos jornais que passam a compor narrativas diversas sobre seus livros, suas personagens, seus conflitos.

 

 

O posicionamento político de Clarice está materializado na participação dela na passeata contra a ditadura no conturbado ano de 1968 e no ato contra a ditadura na vigília do Colégio Santo Inácio. A conferencista em encontros de escritores, a autora de ficção em lançamentos de livros em noites de autógrafos ou então fumando com a máquina de escrever no colo, a dona do cachorro Ulisses em cena afetuosa, a pintora de trabalhos plásticos abstratos, a entrevistada famosa por jornais, revistas e programa de televisão: são várias as faces de Clarice. Nos últimos registros fotográficos, Nádia promove um efeito de fechamento dessa longa narrativa de vida, de obra, de palavra e de traço. Expõe imagens dos manuscritos da autora sobre a morte, marcando que "essa anotação manuscrita, no topo da página, parece premonitória, bem como outras anotações referentes ao tema da morte [...]". Na página seguinte, é a própria Clarice que se inscreve: "que não lamentem os mortos: eles sabem o que fazem". São duas as fotografias do enterro da autora no Cemitério Comunal Israelita, no Bairro do Caju no Rio de Janeiro, colhidas a partir de fotogramas do documentário "Perto de Clarice", filmado por João Carlos Horta. Instalando ainda mais o peso do falecimento da autora, Nádia selecionou um escrito de Clarice com letra pouco caprichada em que esta marca alguns efeitos de seus tantos pesos: "Minha alma tem o peso da luz. Tem o peso da música, tem o peso de uma palavra nunca dita [...] tem o peso de uma lembrança, tem o peso de uma saudade, tem o peso de um olhar. Pesa como pesa uma ausência. E a lágrima que não se chorou tem o imaterial peso de uma solidão no meio de outras".

Nádia, porém, não deixa que o livro termine com tantos pesos, inclusive com o peso da ausência de Clarice. Então, faz desse ponto, aparentemente final, o início de uma outra sessão intitulada "A obra viva". Nela expõe imagens de capas de vários livros cuja edição foi póstuma, de livros traduzidos para diversas línguas estrangeiras, de cenas de espetáculos teatrais baseados em obras da autora, de filmes inspirados em contos e romances dela, de capa de disco inspirado nela e de uma revista lançada sobre ela. Organiza ainda lugares de memória em que o acervo, a biblioteca, a obra e os sentidos da autora continuam vivos: o Instituto Moreira Salles, a Fundação Casa de Rui Barbosa, a estátua na Praça Maciel Pinheiro em Recife, a Biblioteca Nacional, a placa em homenagem à autora em Tchechelnik e a exposição do Museu da Língua Portuguesa. Apresenta ainda mais três sessões importantíssimas: na primeira, ela faz comentários sobre as imagens do livro, minuciosamente acrescentando dados às fotografias, convidando o leitor a deslocar-se do traço à palavra e vice-versa. Na segunda, esmiúça a cronologia da vida de Clarice, ampliando os horizontes para os períodos documentados pelas imagens, destacando episódios importantes na vida da autora. Finalmente, faz um levantamento rigoroso das referências bibliográficas mobilizadas no livro e de outras, sinalizando ao leitor onde encontrar dados relevantes sobre Clarice, sobre suas publicações literárias, sobre antologias e coletâneas da autora, sobre as traduções das suas obras e sobre os arquivos institucionais que, dentro e fora do país, abrigam referências sobre ela.

É certo que os desdobramentos da obra ficcional de Lispector continuam a produzir sentidos e elaborações para seus leitores, que reinscrevem(-se) a trama clariciana a cada retorno a obras de ficção, colunas de jornal, entrevistas, cartas da autora; entretanto, agora mais do que nunca, tal represença e retorno são convidativos, pois o lançamento do livro Clarice Fotobiografia abriga, em uma só obra, trajetos documentados, cenas e mistérios, que ficam ecoando muito em palavras e imagens, em letra e traços, em notas e silêncios; enfim, ao modo de Clarice em densas espessuras de significação. É igualmente certa a importância desse livro no sentido de iluminar outras fotobiografias no Brasil, de outros escritores brasileiros, que elas venham com a delicadeza, o rigor e a força que Nádia alcançou nessa obra.

 

 

Lucília Maria Sousa Romão é professora de graduação e pós-graduação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo (FFCLRP/USP). É professora colaboradora da Pós-Graduação em Ciência, Tecnologia e Sociedade da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). @ – luciliamsr@uol.com.br