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Caderno CRH

Print version ISSN 0103-4979

Cad. CRH vol.26 no.68 Salvador May/Aug. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-49792013000200013 

RESENHA

 

Marques, Rafael. Diamantes de sangue: corrupção e tortura em Angola. Lisboa: Tinta-da-China, 2011, 230p

 

 

Sílvia de Oliveira

 

 

As investigações em torno do garimpo e do tráfico de diamantes permitem sustentar a ideia de que estas pedras valiosas não só alimentam as guerras com que se debatem a maioria dos países que dispõem dessa riqueza no seu território, como, num período pós-conflito, continuam a estar "debaixo de olho" dos principais interesses econômicos. Dificilmente alguém poderá concluir a leitura de Diamantes de Sangue sem pôr em causa tudo o que tem ouvido e aprendido sobre Angola, nomeadamente no que toca ao recente crescimento econômico e ao cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM). A obra, publicada pelo angolano Rafael Marques, jornalista e ativista de direitos humanos, centra-se na análise da violação dos direitos humanos, na corrupção e na pobreza a que estão sujeitas as populações mais carenciadas que habitam nas duas zonas diamantíferas onde o autor realizou a sua investigação, nomeadamente, Xá Muteba e Cuango. O tema, já de si sensível, corresponde a uma continuidade das investigações anteriores realizadas pelo autor, nomeadamente "Lundas: As Pedras da Morte" e "Operação Kissonde: os Diamantes da Humilhação e da Miséria".

Rafael Marques parte do fato de que "a história da exploração de diamantes em Angola, desde 1912 até ao presente, tem sido marcada por atos de contínua violência variando apenas as motivações ideológicas que os justificam" (p. 25) e direciona a sua investigação em torno da exploração de diamantes e seus "malefícios" nesta fase de reconstrução pós-guerra. Essa viagem pelo mundo do garimpo é feita através dos discursos, narrados na primeira pessoa, de vítimas associadas à exploração de diamantes e, nos casos fatais, de testemunhas oculares e familiares.

Rafael Marques tenta, assim, não só chamar a atenção da comunidade internacional para essa realidade, mas, igualmente, "acordar" os angolanos da dormência em que foram colocados depois da independência, primeiro com a promessa de uma Angola mais justa e igualitária [construção do estado socialista (1975-1991)] e, posteriormente, com a promessa do desenvolvimento (1991- atualidade). Pois, se, ao longo dos anos, essas pedras constituíram um dos pilares econômicos da guerra civil, atualmente continuam a dizimar centenas de angolanos que, sem escolarização, formação ou emprego, veem no garimpo a única forma de sobrevivência.

A escrita acessível e direta convida todos à leitura e não deixa espaço para interpretações ambíguas, estando a obra longe de ser sensacionalista. Prova disso é o fato de o autor ter transcrito, na segunda parte do livro, os 109 casos de vítimas de tortura que comprovam a veracidade dos acontecimentos narrados. O livro assenta numa interpretação bastante crítica e negativa da realidade angolana, acabando por evidenciar uma série de estereótipos em relação à cumplicidade do Estado no que toca à violação dos direitos humanos.

Realçamos, na obra, a análise que o autor faz em torno da cumplicidade entre os efetivos das FAA (Forças Armadas Angolanas) e as empresas privadas de segurança: "no Cuango, ambas as organizações se confundem como uma só força de repressão e comando unificado" (p. 90), indo ao encontro de um conceito que Boaventura de Sousa Santos denominou de Estado Paralelo, isto é, o Estado que se compromete com a legalidade é o mesmo que aceita ou até incentiva a sua violação (Cf. Boaventura de Sousa Santos, O Estado e a Sociedade em Portugal (1974-1988), 1992).

Apesar de a obra estar assente em instrumentos teóricos e metodológicos próprios das ciências sociais, tais como a entrevista, a observação participante e direta, denota-se uma necessidade de aprofundamento dos conceitos apresentados pelo autor, bem como de um melhor enquadramento histórico do próprio país, pois, das 230 páginas do livro, mais da metade foram ocupadas com a transcrição das entrevistas realizadas pelo autor, bem como anexos que dão suporte às informações apresentadas pelo autor.

Por outro lado, denota-se uma certa agressividade por parte de Rafael Marques em relação às elites políticas e econômicas daquele país, condicionando, assim, o seu afastamento em relação ao objeto de estudo, o que levou a uma ação judicial por parte desses mesmos elementos, não só contra o autor, como, também, em relação à própria editora.

Para o autor, trata-se de diamantes de sangue, sangue do povo angolano, que continua a ser derramado, sangue de um povo que ainda não encontrou a paz social, que continua a viver em condições de pobreza extrema, sem perspectivas de um futuro melhor, sangue de inocentes que apenas almejam a mera sobrevivência, sangue de filhos que deixam as mães inconsoláveis, de maridos que deixam viúvas desamparadas. Diamantes que trazem mais infortúnios do que fortuna, dor em vez de alegria, escuridão em vez de luz. Diamantes da morte.

 

 

Recebido para publicação em 30 de setembro de 2012
Aceito em 24 de fevereiro de 2013

 

 

Sílvia de Oliveira -Mestre em Estudos Africanos, especialização em Desenvolvimento Social e Econômico em África, ISCTE-IUL (Instituto Universitário de Lisboa). Investigadora do Centro de Estudos Africanos (CEAIUL). Experiência na investigação sobre Angola, principalmente nos seguintes temas: pobreza e exclusão social, questões de desenvolvimento, educação, gênero, mercado de trabalho e enquadramento profissional. slviadeoliveira9@gmail.com

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