SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.11 issue2Dante Moreira Leite: mestre da psicologia socialDante Moreira Leite: psychological science, interdisciplinarity and difference author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Psicologia USP

Print version ISSN 0103-6564On-line version ISSN 1678-5177

Psicol. USP vol.11 no.2 São Paulo  2000

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-65642000000200003 

DANTE MOREIRA LEITE: UM PIONEIRO DA PSICOLOGIA SOCIAL NO BRASIL1

 

Geraldo José de Paiva2
Instituto de Psicologia – USP

 

 

Apresenta-se o trabalho pioneiro no Brasil, na área da Psicologia Social, de Dante Moreira Leite, consignado em três obras: O Caráter Nacional Brasileiro, Psicologia Diferencial e Psicologia e Literatura. Nessas obras examinam-se em particular os tópicos relações interpessoais, caráter nacional e vinculações entre Literatura e Psicologia. Apresentam-se também, brevemente, o Autor em suas atividades de professor, pesquisador, escritor, tradutor e administrador acadêmico.

Descritores: Leite, Dante Moreira. Caráter Nacional. História da psicologia. Brasil. Psicologia e Literatura. Psicologia social.

 

 

Dante Moreira Leite foi um cientista social em várias frentes. De sua pesquisa e de seu ensino se beneficiaram a educação (Nagle, 1976), a literatura (Castello, 1976), a história das idéias e da cultura no Brasil (Bosi, 1970, 1979, 1983; Mota, 1977; Ortiz, 1985). Mas foi sobretudo na Psicologia Social que ele deixou uma contribuição notável: relações interpessoais, caráter nacional, vinculações entre psicologia e literatura foram, em nosso meio, explorações pioneiras. Na psicologia social, Dante realizou a delicada junção de enfoques nítidos porém parciais: de um lado, a Psicologia, tradicionalmente voltada para o indivíduo; de outro, a Antropologia e a Sociologia, direcionadas para o cultural e o coletivo. Área de intersecção, ora reclamada pelos dois campos, ora rejeitada por ambos, a Psicologia Social é a área da mediação. Por isso mesmo, a área do talvez, ressalva tão isomorfa à pessoa do Autor, cuja hesitação nascia não da dúvida ignorante mas da dúvida informada a respeito do caleidoscópio da realidade. Dante conjugava a aparência e a realidade, sabedor de que a aparência tem sua realidade, quando não outra, a psicossocial; conjugava o ingênuo e o científico, o consciente e o inconsciente; prolongava, em sua atividade profissional, as tendências que, no esboço autobiográfico inédito, reconhecia em si mesmo, de ordenação clara e de anarquia.

Dante faleceu aos 48 anos, aos 24 de fevereiro de 1976, como Diretor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Nascera em Promissão, SP, aos 22 de outubro de 1927, filho de Alcides Moreira Leite e Claudina Pietraroia Moreira. Licenciou-se em Filosofia, em 1950, pela então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo. Desse tempo destacou, no Memorial para o Concurso de Professor Titular (1973), as influências de Cruz Costa, Martial Guéroult e Lívio Teixeira, na Filosofia; de Florestan Fernandes e Antônio Cândido, na Sociologia; de Annita Cabral, na Psicologia. Embora licenciado em Filosofia, voltou-se cada vez mais para o estudo da Psicologia e, nesta, adotou um enfoque fundamentalmente gestáltico, lewiniano e heideriano. Em 1954 doutorou-se em Filosofia com a famosa tese, na área de Psicologia, intitulada O Caráter Nacional Brasileiro: Descrição das Características Psicológicas do Brasileiro através de Ideologias e Estereótipos. Em 1964 tornou-se Livre-docente em Psicologia Educacional, com a tese Psicologia e Literatura. Em 1973 obteve o título de Professor Titular no Departamento de Psicologia Social e do Trabalho, do Instituto de Psicologia da USP.

Um evento que deve ser destacado em sua biografia é a estada na Universidade de Kansas, logo após o doutorado. Seguiu, então, cursos com Fritz Heider e Roger Barker, cuja influência resumiu no Memorial:

A teoria de Heider foi útil como nova perspectiva para entender alguns problemas de percepção de grupo que tinham ficado em suspenso em minha tese de doutorado. Além disso, acredito que sua perspectiva de uma psicologia ingênua, não contaminada pelos esquemas teóricos da psicologia científica, continua a ser uma forma produtiva de estudar as relações interpessoais, mas útil também em outros domínios da psicologia, como a motivação, a percepção social, a competição etc. De certo modo, todos os trabalhos que realizei depois de voltar para o Brasil refletem essa influência. No caso de R. Barker (...), sua influência pode ser vista no interesse que passei a ter pela psicologia da criança e pela psicologia experimental, ou pelo menos certa perspectiva da psicologia experimental. (Leite, 1973, p. 4)

Dante, em sua vida profissional, foi professor, pesquisador, escritor, tradutor e administrador. Todas essas, foram atividades de alguma forma interligadas, e apenas para a ordenação da exposição virão em separado.

Como professor, Dante enfrentou todas as condições do ofício, desde o "assistente extra-numerário," anterior à carreira, até o professor titular. Foi professor, de 1951 a 1958, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, da USP, e de 1959 a 1970 na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara. Em 1967 foi professor visitante do Departamento de Português e Espanhol da Universidade de Wisconsin. De 1971 a 1976 trabalhou no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Professor, encarregou-se, como de praxe, de cursos na graduação e na pós-graduação, exercendo, nesta, também a função de Orientador de dissertações de mestrado e teses de doutorado.

Como pesquisador, cedo ocupou posição de liderança. Já em 1958, a convite de Fernando de Azevedo, dirigiu a Divisão de Estudos e Pesquisas Educacionais do Centro Regional de Pesquisas Educacionais de São Paulo. Os resultados dessas primeiras pesquisas encontram-se em Pesquisa e Planejamento, revista do Centro, de 1958 a 1960. Contrário à prematura especialização (1973), realizou estudos em diversas áreas, com destaque de Literatura Infantil, Psicologia e Literatura, Personalidade e Cultura, Psicologia e Educação, Processo Social, Relações Interpessoais e Desenvolvimento da Criança (Leite, 1973, pp. 5-8; Spinelli, 1976, pp. 37-40). A segura formação em Filosofia e nas principais ramificações das Ciências Humanas e Sociais permitiu-lhe atingir pluralidade e articulação de perspectivas nos diversos temas. Caberia aqui chamar a atenção para o fato de que Dante Moreira Leite participou da gestação da nova Psicologia Social que, sob a influência de Heider, estava nascendo, e que veio a ser conhecida como psicologia das relações interpessoais. O ponto de partida dessa psicologia é a psicologia ingênua e alguns de seus desdobramentos se tornaram sumamente férteis, como a teoria do equilíbrio e a teoria da atribuição de causalidade. A análise psicológica da literatura brasileira da motivação (Leite, 1975) demonstra o papel de Dante na introdução da psicologia social cognitiva no Brasil. Finalmente, ainda no campo da pesquisa, cumpriria apontar a grande obra que iniciou mas não chegou a concluir: o estudo compreensivo e crítico da psicologia contemporânea, situando-a em seu substrato da história das idéias e das transformações sociais. Dessa ambiciosa empresa restaram, inéditos, os capítulos referentes à Parte I, das sete previstas, intitulada A Psicanálise. A crítica científica dos estereótipos literários da identidade nacional, a inclusão das relações sociais - além das de raça e cultura - na discussão do caráter nacional brasileiro, a introdução, na crítica literária, do enfoque psicológico fundamentado e a inserção do psicológico no horizonte amplo da Filosofia e das Ciências Sociais, tornam a obra de Dante referência não só obrigatória como exemplar.

O escritor. Dizem os que mais intimamente privaram com ele que ser escritor foi o grande desejo de sua vida. Além de vários ensaios (Leite, 1979), Dante deixou diversos contos, alguns deles publicados. O sentido desse seu interesse e a avaliação de sua expressão ele mesmo nos revela no esboço da autobiografia:

Ao aproximar-se dos 50 anos, a sua atividade indica uma mudança radical - embora até certo ponto prenunciada em trabalhos juvenis e notas esparsas da maturidade. A partir dessa época, volta-se quase que exclusivamente para a ficção, onde procura descrever a vida brasileira dos cinco primeiros decênios, com suas ramificações sociais e seus reflexos psicológicos. Pode-se dizer que sua ficção tende a buscar a realidade social, mas procurando vê-la através das deformações (por exemplo, de doentes mentais, no romance As Mãos Espalmadas) ou de fixações em modelos sociais ultrapassados (no romance O Retrato na Sala). Os críticos geralmente apontam a tentativa de uma linguagem poética como o grande obstáculo que o autor não conseguiu conciliar adequadamente com os temas que enfrentou. De outro lado, outros críticos salientam que, mesmo na ficção, o autor revela falta de imaginação e inclinação para descrição quase linear de estados da mente e situações sociais da metade do século XX, caracterizada pelo vôo da imaginação e pela busca do sobrenatural.

O tradutor. A tradução, em sua vida, não foi uma atividade periférica. O "Ofício de tradutor" (Leite, 1979, pp. 119-137) se impunha por duas razões: a ausência de obras de Psicologia em português e a inexistência de um vocabulário ao mesmo tempo padrão e vernáculo (Leite, 1973). Só, ou com a colaboração de Míriam Moreira Leite, traduziu 48 títulos, quase todos de Psicologia, que formaram toda uma geração de psicólogos e educadores. O primeiro deles foi Psicologia Social, de Solomon Asch, em 1960. Dentre as obras traduzidas ele destacava (Leite, 1973, p. 9), com especial agrado, os manuais de Krech e Crutchfield (Elementos de Psicologia), Anastasi (Testes Psicológicos ) e Coleman (A Psicologia do Anormal e a Vida Contemporânea), e os livros teóricos de Heider (Psicologia das Relações Interpessoais) e de Baldwin (Teorias do Desenvolvimento da Criança). A esses acrescentaríamos como contribuições importantes, além do de Asch, já citado, os livros de Allport (Personalidade), Cartwright e Zander (Dinâmica de Grupo), Krech, Crutchfield e Ballachey (O Indivíduo na Sociedade), Goffman (Manicômios, Prisões e Conventos), e como contribuições interessantes os de O'Dea (Sociologia da Religião), Blanton (Diário de minha Análise com Sigmund Freud) e Százs (A Fabricação da Loucura). Embora preparado para o mister (veja-se "Ofício de tradutor," em O Amor Romântico ... 1979), é forçoso reconhecer que nem todas as traduções atingiram o mesmo nível de excelência. A razão disso pode ser, ao menos em parte, encontrada nas dificuldades editoriais insinuadas no Memorial (1973).

E, finalmente, o administrador. Além da Chefia do Departamento de Educação da FFCL de Araraquara e do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho, do Instituto de Psicologia da USP, Dante foi Diretor do mesmo Instituto. Por força do cargo de Diretor foi membro de diversos colegiados superiores da Universidade. Ocupou também cargos de direção em sociedades de Psicologia.

Reconhecendo a multiforme contribuição de Dante para a Psicologia no Brasil, o Conselho Federal de Psicologia, pela Resolução 09/82, de 27 de agosto de 1982, Dia do Psicólogo, instituiu, ao lado do Prêmio "Lourenço Filho," o Prêmio "Dante Moreira Leite," "pelo conjunto de escritos referentes ao exercício profissional da Psicologia." A Prefeitura Municipal de São Paulo prestou-lhe homenagem dando seu nome a uma via pública e à Escola Municipal de Educação Infantil, no bairro de Campo Limpo.

Das dezenas de trabalhos publicados por Dante selecionamos três para uma apresentação mais detalhada. O critério da seleção foi a amplitude e a organicidade de O Caráter Nacional Brasileiro, Psicologia Diferencial e Psicologia e Literatura.

Da contribuição intelectual de Dante Moreira Leite a mais celebrada é, certamente, o estudo do caráter nacional brasileiro. Apresentado como tese de doutoramento em 1954, foi publicado in litteris, em 1959, no Boletim nº. 230, da FFCL e nº. 7 da Cadeira de Psicologia. Com o subtítulo História de uma Ideologia, foi editado pela Livraria Pioneira Editora em 1969, como "edição revista, refundida e ampliada," reeditado em 1976 e, finalmente, editado como "4a edição definitiva, com introdução de Alfredo Bosi," pela mesma Editora, em 1983. Em 1992 a Editora Ática produziu nova edição.

O trabalho chamou a atenção não exatamente por ser uma discussão de Psicologia Social mas porque, utilizando o procedimento científico, recentemente introduzido no país na área das ciências sociais, verrumava friamente uma das mais caras convicções dos intelectuais: a de que nos conhecíamos a nós mesmos. A contemporaneidade da análise aguçava o sobressalto: Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Fernando Azevedo, Vianna Moog, Cruz Costa eram vivos; Paulo Prado, Arthur Ramos, Oliveira Vianna tinham falecido havia pouco. Visto, hoje, sob perspectiva mais acadêmica, o livro surpreende como trabalho pioneiro, não só em nosso meio mas, até certo ponto, no plano internacional, na área da discussão crítica da noção de caráter nacional e no exame de um caráter particular, o brasileiro.

Na apresentação desse opus magnum ater-nos-emos à edição de 1983, que reproduz as anteriores a partir da segunda. Somente quando esclarecedor, faremos referência à primeira edição.

Se quiséssemos, num relance, intuir o que o Autor concluiu de seu estudo bastaria comentar a citação de Guimarães Rosa, colocada como exergo: "existe é homem humano." Como resultado de pesquisa científica, não consta, para Dante, que exista o brasileiro, com características psicológicas que o diferenciem, quantitativa ou qualitativamente, de outros povos. As descrições do "caráter nacional" podem ser aceitas, segundo o Autor, como expressões do ponto de vista pessoal do escritor. Quando se pretendem explicações, não obrigam à adesão, uma vez que não têm critério de verificação. Não quer ele dizer que não se possa perceber com objetividade características psicológicas de grupos: a dificuldade está em se ampliar a todo um povo e, não raro, por longos períodos de sua existência, características observadas numa porção destituída da propriedade de amostra e com abstração da situação histórica, econômica, social, educacional e política dessa parcela do povo. Bem observadas, sugere mais de uma vez, as semelhanças entre os grupos humanos parecem dar-se muito mais ao longo do corte das classes sociais do que ao largo das nacionalidades. Por conseguinte, a apriorização das características de personalidade é, funcionalmente, uma forma sutil de racismo, porquanto essas características são revestidas da imutabilidade condicionante anteriormente atribuída à constituição genética das raças. Não deixa de ser revelador que exatamente um psicólogo seja quem mais impiedosamente denuncie o psicologismo.

Como entender, então, a multiforme proclamação do caráter nacional brasileiro? Eis aí uma segunda função do psicólogo social: explicar o fenômeno social da atribuição de um caráter nacional brasileiro. Dante o fez ou, melhor, pretendeu fazê-lo com as categorias de percepção social, estereótipo e preconceito, ambientadas nas tendências ambivalentes ante o estranho e na personalidade autoritária, equivalente psicológico do etnocentrismo. Na verdade, ele não chegou a realizar o projeto em sua inteireza. Aparentemente, ao retomar o estudo para a segunda edição, preferiu decrever melhor, conceitual e historicamente, o fenômeno, deixando para depois a investigação psicológica de seu processo.

À atribuição aos brasileiros, como povo ou nação, de um caráter, isto é, de características psicológicas, explicadoras da inferioridade nacional, Dante deu o nome de ideologia, "descrição que nem sempre se fundamenta em observações cientificamente conduzidas" (Leite, 1959, p. 86), mas "campo de idéias relativamente bem sistematizado" (Leite, 1973, p. 3), distinta do estereótipo pela amplitude e da teoria científica pela atitude. Nesse ponto o Autor empreende sutil discussão dos níveis de conhecimento em relação à amplitude de seu objeto, em particular do objeto humano (Leite, 1983, p. 13 ss). Sua posição final ampara-se, com toda a prudência desejável, na conceituação de Mannheim. Como se sabe, para Mannheim a ideologia não é a inversão exata da realidade. É, antes, uma deformação da realidade, proveniente das condições de existência das pessoas e dos grupos. Aliás, essa deformação só se denomina ideologia quando conservadora, pois quando revolucionária recebe o nome de utopia. Mannheim pensava que os intelectuais seriam capazes de superar a perspectiva deformada da realidade, ou seja a ideologia, dada sua posição exterior às classes sociais e a seus interesses. Um eco dessa esperança escutamos em Dante quando fala dos intelectuais formados pela ciência, nova safra no panorama brasileiro, capazes de uma visão da realidade desatrelada do interesse dos dominantes e simpática às classes desprotegidas (Leite, 1983, pp. 343, 364). E é bom que se frise que se trata do intelectual cientista que, na discussão encetada, alcança um segmento, e não a totalidade, da amplitude do objeto humano de conhecimento. Esse, o conceito de ideologia. Sua história, porém, é sinuosa, pois se tomou forma de xenofilia e de preconceito contra os nacionais, significou uma sorte de xenofobia e de apreço pelo Brasil no momento inicial, quando integrou, dentro do Romantismo, a idéia do nacionalismo e da identidade nacional. O período da ideologia do caráter nacional está muito exatamente - alguns diriam demasiado exatamente - balizado entre o Romantismo e a visão técnico-científica a partir dos anos 50. Com o advento do Realismo é que a ideologia do caráter nacional passou a servir de explicação não das nossas excelências mas das nossas mazelas. É importante notar que Dante escreve uma história literária da ideologia, o que não significa que a ideologia seja decorrência de movimentos literários. Ao demonstrar, do ponto de vista científico, a inconsistência da atribuição do caráter nacional e ao sugerir que ela provém dos processos de cognição social, nos quais exercem amplo papel o estereótipo e o preconceito, o Autor enraíza a ideologia no campo das relações de dominação social. Apesar isso, o conceito não é idêntico ao entendimento marxista, e certamente por essa razão alguma vez foi considerado ingênuo (Mota, 1977). Registre-se, nessa ocasião, que a Dante interessa propriamente o sentido denotativo do estereótipo e do preconceito, como percepções falsas; o sentido conotativo, prejudicial a terceiros, é uma decorrência.

Em busca das origens do conceito de caráter nacional, Dante as encontra no nacionalismo e no racismo europeus. Embora o tratamento do tema, pelo Autor, seja muito matizado, poder-se-ia resumir sua posição como segue. A idéia de caráter nacional tem duas origens mais ou menos contemporâneas: uma, política, francesa; outra, estética, alemã. A Revolução Francesa e as guerras napoleônicas tinham expandido a idéia de uma unidade política constituída pelo povo como nação; o movimento Sturm und Drang, do pré-romantismo alemão, com Goethe, Schiller e Herder, reconhecia, contra o classicismo iluminista, na peculiaridade histórica de cada nação, um "espírito nacional," cuja origem fazia remontar à história e, se, preciso, a mitos fundamentais. No Brasil, a criação de uma identidade nacional de índole política deu-se, através do Romantismo, com a invocação do passado colonial e do índio. Estranhamente, talvez, o conceito de caráter nacional veio a dever também ao racismo, que conheceu o período áureo na Europa da segunda metade do século XIX e dos primeiros decênios do século XX. O racismo fundamentalmente apregoava uma diferença biológica entre as classes sociais, mas no expansionismo colonialista serviu como justificativa para o domínio de povos "inferiores" do ponto de vista biológico. No Brasil, o caráter nacional foi, no mínimo, impregnado de conotação racista, uma vez que as caracterizações pessimistas por ele oferecidas se destinavam às classes inferiores, constituídas de descendentes dos escravos negros.

A seguir, o Autor demonstra como, apesar da persistência das descrições psicológicas de povos e nações por parte de escritores e filósofos, a Antropologia, a Sociologia, a Psicologia Diferencial e a Genética praticamente destruíram as bases racistas do caráter nacional.

A idéia de caráter nacional pôde, contudo, ser retomada depois da Segunda Guerra Mundial tanto por razões científicas como por motivações de guerra. Quanto às primeiras, representadas pelos novos conceitos de "padrão de cultura" e "personalidade básica," o Autor se mostra insatisfeito, por não serem capazes de explicar o comportamento concreto e suas transformações. De outra parte, por ocasião da Guerra, os cientistas americanos foram solicitados a empreender o estudo tanto do caráter americano como do caráter dos inimigos, para subsidiar o esforço de guerra e para preparar a reconstrução do sistema educacional dos povos vencidos. São dessa época os conhecidos estudos de Mead sobre os americanos, de Benedict sobre os japoneses, de Schaffner sobre os alemães e de Gorer sobre americanos, ingleses, russos e japoneses. De modo geral, o Autor reconhece méritos científicos nesses trabalhos, apesar da motivação etnocêntrica conjuntural. Faz notar, contudo, a debilidade fundamental de todos eles: responsabilizar características psicológicas por uma posição de conflito cujas razões deveriam ser procuradas no solo da Economia e da Política.

Entre outros aspectos ligados à discussão do caráter nacional, Dante faz referência a três orientações que presidem aos estudos do tema, a saber, o caráter cultural, a personalidade modal e o caráter social, e a alguns trabalhos que utilizam metodologia mais apurada, como os de McClelland, sobre o motivo de realização, e o de Stoetzel, sobre atitudes da juventude japonesa no pós-guerra. Pondera, a propósito, que é difícil existir motivação psicológica desvinculada das condições sociais e econômicas concretas e observa que a expressão do motivo no nível da fantasia pode encobrir a incapacidade real:

Quando se pensa nos estudos sobre nível de aspiração, esse processo fica ainda mais claro: a partir de certo nível, a aspiração substitui a capacidade realista, isto é, o indivíduo aumenta o seu nível de aspiração para compensar o fracasso. (Leite, 1983, p. 89)

O problema que vê no uso que faz Stoetzel de questionários de atitude ou de opinião pública é seu uso transcultural, que requer se resguarde a equivalência básica de situações nas várias culturas.

O Autor discute, a seguir, dois pontos imbricados em todo estudo de caráter nacional: a relação entre personalidade e cultura e a existência de culturas nacionais. A relação entre personalidade e cultura não deixa de ser problemática, pois liminarmente é difícil descrever e interpretar uma cultura. Facilmente passa-se da percepção de algumas dimensões expressivas para a inferência de um padrão de relações, que é tomado como dado objetivo. A interpretação das culturas, por sua vez, tem-se valido principalmente de conceitos psicanalíticos. Ora, os antropólogos trabalham com dados observáveis, que correspondem ao registro do consciente, ao passo que a hipótese psicanalítica se situa no registro do inconsciente, cujo acesso exige método próprio. Parece, pois, comprometida, em larga escala, a junção dos aspectos descritivos com a formação da personalidade. O segundo ponto, isto é, a existência de culturas nacionais, não é menos problemático quando se consideram as sociedades modernas. De fato, o contato constante e direto com outras culturas modifica obviamente a chamada cultura material de um povo e torna ainda mais difícil estabelecer a peculiaridade da dimensão "espiritual" da mesma. Além disso, no interior de cada suposta cultura nacional existe uma diferenciação extrema, de que podem ser exemplos as classes sociais e, no interior dessas, as múltiplas divisões de natureza profissional, educacional e econômica: por essa razão seria, até, preferível falar de "culturas de pobreza" a falar de "culturas nacionais" (Leite, 1983, p. 121). Finalmente, a permanência de um núcleo que seria preservado na evolução histórica de uma cultura, por sob as rápidas transformações a que cada vez mais estão as culturas sujeitas, é uma hipótese e não uma evidência, ao menos se se levar em conta a rápida adaptação dos indivíduos (supostamente portadores da personalidade modal) às possibilidades e exigências de novas condições culturais.

Após a discussão das fases racista e cultural da ideologia do caráter nacional e de seus maiores expoentes europeus e norte-americanos, Dante escrutinará, na segunda parte do ensaio, as ideologias mais importantes do caráter nacional brasileiro. Oferece um esquema da ordenação dos assuntos, que nos parece útil reproduzir:

I - A fase colonial: descoberta da terra e o movimento nativista (1500-1822)
II - O Romantismo: a independência política e a formação de uma imagem positiva do Brasil e dos brasileiros (1822-1880)
III - As ciências sociais e a imagem pessimista do brasileiro (1880-1950)
IV - O desenvolvimento econômico e a superação da ideologia do caráter nacional brasileiro (1950-1960).

Além do esquema, anuncia o Autor o método de que se vai servir para a pesquisa do caráter nacional nos escritos dos intelectuais: uma combinação de análise de conteúdo quantitativa e de análise intuitiva ou compreensiva.

O Caráter Nacional Brasileiro destaca com nitidez a fase propriamente ideológica do conceito, isto é, o período de 1880 a 1950. Procura, contudo, nos séculos anteriores as condições que prepararam, de algum modo, a fase mais significativa. Assim, indica na literatura o sentimento nativista e os temas que os românticos trabalharam de forma nacional: a terra, o índio, as riquezas do solo, os frutos agrícolas, os mestiços, o torrão natal.

A seguir, apresenta um quadro complexo daquele que parece ter sido o período literário de sua preferência, o Romantismo. E desde as primeiras linhas o distingue como marcado pelo desequilíbrio (em itálico). Como se verá, é o desequilíbrio o conceito teórico que para Dante melhor dá conta da análise psicológica do processo literário. No caso brasileiro, o Romantismo foi concomitante com o nacionalismo e a esse serviu de forja e veículo de expressão. Acentuando o isomorfismo entre a natureza e o novo homem, cultuando o índio do início da colonização (não o índio contemporâneo, aviltado e em extinção), reivindicando a peculiaridade de um idioma nacional, o Romantismo contribuiu, como movimento literário e como sintetizador de contribuições outras, para uma imagem altiva do brasileiro. Nesse sentido, criou um estereótipo positivo, embora não propriamente uma ideologia do caráter nacional. De realçar-se a análise dos romances indianistas de Alencar como criadores de uma "Idade Média Brasileira" (O Guarani) e, mesmo de uma "Idade de Ouro" (Iracema). A contradição entre o estereótipo positivo e a realidade escravagista, de início ignorada, tornou-se aguda em Gonçalves Dias e dramática em Castro Alves. Essa contradição encaminhava o conteúdo do caráter nacional para o polo oposto, que seria expresso pelo Realismo.

Penetramos, então, no núcleo do ensaio, que disseca, de Sílvio Romero e Euclides da Cunha a Paulo Prado e Gilberto Freyre, as interpretações da realidade brasileira, todas supostamente científicas mas, na verdade, expressões de preconceito de raça, de classe, alguma vez de religião, em relação à maioria pobre da população. Expressões de preconceito, as ideologias desagregavam a nação que os românticos procuraram unificar. As interpretações são ditas supostamente científicas, porque durante muito tempo, praticamente até a criação da Universidade, em 1934, o que da Europa chegava ao Brasil como ciências do homem eram, geralmente, vulgarizações ou, então, uma ciência etnocêntrica, adequada à dominação dos estratos superiores sobre os inferiores nas sociedades européias e dos povos europeus sobre as populações colonizadas. Com os conceitos de raça e meio ou de cultura, associados à hipótese biossocial darwinista da sobrevivência dos mais aptos, mantinha-se intocada a hierarquia das classes sociais. Quando se pensa que essa ciência era recebida por autodidatas, intelectuais sem formação acadêmica específica, não se poderia esperar outro resultado que não ideologias: descrições ambiciosas mas subjetivas da realidade nacional, ingênuas quanto à própria origem e incongruentes no recurso a conceitos e teorias. Com base na raça ou no meio físico, ou na interação entre um e outro, ou na cultura, o que todos os ideólogos encontram como explicação da inferioridade dos brasileiros em relação a outros povos são características psicológicas, geralmente intuídas nas raças originárias ou no precipitado de suas fusões, e transmitidas até os contemporâneos através da hereditariedade propriamente genética ou de uma hereditariedade social não bem explicada. Essa atribuição, propensa a responsabilizar o agente por quaisquer efeitos que dele de alguma forma procedam, situa-se na fase anterior à psicologia científica que, essa, leva em conta os fatores situacionais, com suas forças próprias e suas exigências peculiares.

O que ressalta de todos os ideólogos é o preconceito racial. Algumas vezes contra os portugueses e os ibéricos, freqüentemente contra os índios, quase sempre contra os negros e os mestiços. Numa perspectiva contemporânea, Dante assimila o preconceito racial ao preconceito de classe ou, ao menos, associa muito intimamente um ao outro. De nossa parte, acreditamos que essa aproximação seja correta, não só porque a matriz teórica européia a ela induz, mas porque os responsabilizados pelo atraso do Brasil eram, as mais das vezes, as camadas pobres e analfabetas. Ora, essas camadas, vistas hoje dinamicamente, constituem exatamente as classes sociais desfavorecidas, desprotegidas ou dominadas. Parece-nos, contudo, não ser necessário identificar em todos os ideólogos ou na inteira ideologia de cada um o preconceito racial com o preconceito de classe, pois um grupo estranho, devido eventualmente a diferenças de cor, de habitat, de religião, pode provocar reações preconceituosas de defesa.

Qual o juízo sobre esses setenta anos de explicação ideológica do brasileiro? Não terão produzido nenhum conhecimento válido sobre seu objeto? Dante observa que é difícil separar e avaliar separadamente as diversas fases de um processo de auto-conhecimento (Leite, 1983, pp. 135, 314). Reconhece, obviamente, casos extremos de preconceito, num Gustavo Barroso ou num Oliveira Vianna, cujas posições em nada contribuíram para o conhecimento; outros vê, como Euclides da Cunha ou Gilberto Freyre, que falharam no essencial mas realizaram obra de valor, seja do ponto de vista literário, como visão pessoal da realidade brasileira, seja em hipóteses que levantaram, seja em estudos particulares que produziram. Outros, ainda, vê a meio caminho entre a ideologia e sua superação, como Sérgio Buarque de Holanda e Fernando Azevedo, presos a esquemas raciais mas familiarizados com as modernas ciências históricas e sociais. É verdade que as características intuídas ou supostas são numerosas demais e por demais díspares para corresponder a um povo e distingui-lo dos demais. No estudo acadêmico de 1954 Dante quantificara as características nos ideólogos que analisou. Não quantificou, infelizmente, o número de vezes que cada atributo ocorria em cada ideólogo, mas o número de ideólogos em que ocorria. Conseguiu 62 características, metade das quais classificou em quatro categorias (individualismo, sentimentalismo, indolência e tolerância), deixando as restantes avulsas. Sua apreciação final, deixá-la-emos para a conclusão deste apanhado.

Dentro da perspectiva do Autor, à medida que se foi formando uma elite verdadeiramente intelectual, nutrida na tradição universitária, foi-se dinamizando o quadro descritivo e explicativo do povo brasileiro. A um quase fatalismo biológico ou cultural, dado por assim dizer de uma vez por todas e cristalizado em características coletivas imutáveis, foi sucedendo uma dinâmica de relações interpessoais e sociais e de relações de trabalho. A nova intelectualidade "parece apresentar menor número de preconceitos de classe ou raça" (Leite, 1983, p. 311), tem um atitude diferente com relação às classes mais pobres (p. 364), não se identifica com os grupos dominantes e é simpática às classes desprotegidas (p. 343), é empática com os negros ou os índios que estuda (p. 364). Essa nova posição, que leva em conta as condições materiais e sociais da economia, os conflitos entre grupos e classes, as oportunidades de instrução, é o que Dante considera a superação da fase ideológica. A própria Literatura, que outrora espelhara as deficiências do esforço ideológico, passou a refletir o amadurecimento da percepção: a universalidade da grande Literatura brasileira rompeu, ao mesmo tempo, com o regionalismo empobrecido e com o universalismo alienado de muita literatura precedente.

Seria impossível uma apresentação adequada da discussão que Dante trava com cada um dos ideólogos.3 Apenas à guisa de ilustração de como procede o Autor, selecionamos, para breve exposição, Euclides da Cunha e Gilberto Freyre.

Euclides (Leite, 1983, pp. 210-233) pretende entender o episódio de Canudos, que via inicialmente como inconformismo de monarquistas contra a República, mas, em seguida, como evento histórico e social. Para entender o fato, vai às origens, e a teoria - européia - de que dispõe leva-o a investigar o meio e a raça. Logo se convence da dificuldade de seus conceitos: o meio físico brasileiro são vários e opostos; a raça, no Brasil, não é uma mas três; a relação entre meio e raça é diversa, conforme o impacto do clima. No caso concreto de Antonio Conselheiro, Euclides enxerga, na ótica da ciência de então, o embate entre dois estágios culturais: um, que o reconhece como líder messiânico, outro, que o tem na conta de paranóico. Dante ressalta que as observações de Euclides são exatas e argutas, mas deixa claro que os esquemas teóricos de meio, raça e evolução por estágios não podiam conduzir à compreensão do fenômeno de Canudos. E conclui que, fruto de um grande ideólogo, Os Sertões é um dos monumentos da grande literatura brasileira, nascido em solo regional mas portador de uma visão humana ampla e original, de alguém que se pôs ao lado dos vencidos.

Gilberto Freyre (Leite, 1983, pp. 297-316) pretende compreender o brasileiro de nossos dias. Reconhece que "mais que a própria Igreja (...) foi a família patriarcal ou tutelar o principal elemento sociológico da unidade brasileira" (p. 308). Estuda, então, em Casa Grande & Senzala, de 1933, a família patriarcal do Nordeste, situada nas condições concretas da colonização tropical: agrária, escravocrata e híbrida. Seus recursos teóricos incluem a tese culturalista, de Boas, para quem não existem raças superiores ou inferiores e, dentro da tradição brasileira, o interacionismo entre raça e meio. É de notar-se que para Freyre o brasileiro não pode ser entendido apenas pelas características psicológicas das raças formadoras em fusão, senão também pelas relações concretas de trabalho da família patriarcal. Entre as características gerais dos brasileiros são citadas: "sadismo na classe dominante e masoquismo nos grupos inferiores; animismo; crença no sobrenatual; gosto de ostentação; personalismo; culto sentimental ou místico do pai; maternismo; complexo de refinamento" (p. 308). Dante valoriza a percepção de Freyre de que a história brasileira resulta do trabalho de dois grupos antagônicos (embora mutuamente simpáticos), a família senhorial e os escravos negros. Destaca, igualmente, o valor literário de Casa Grande & Senzala, que considera uma "obra prima" (p. 300). Apresenta, no entanto, sérias críticas à fundamentação teórica pouco coerente e à metodologia de pesquisa amplamente subjetivista de Freyre, que não o libertam de uma perspectiva aristocrática e, daí, preconceituosa em relação à sociedade brasileira como um todo.

Para Dante, a fase ideológica do caráter nacional brasileiro chegou ao fim na década de 50. Para a superação das ideologias, prenunciada em Manuel Bonfim e Alberto Torres, entrevista em Sérgio Buarque de Holanda e outros, foi decisivo o aparecimento de um novo tipo de intelectual, surgido da Universidade, e de escritores de envergadura internacional. Para essa superação contribuiu também, acrescenta, uma nova compreensão do nacionalismo brasileiro, que aspirava realizar a unidade nacional em torno do desenvolvimento. O novo nacionalismo, com a ênfase deslocada para a dimensão econômica, "parece ter contribuído para eliminar definitivamente, pelo menos nos grupos intelectuais de certo nível, qualquer interesse pelo caráter nacional brasileiro" (Leite, 1983, p. 356). A conclusão de Dante parece, realmente, levar em conta os vários componentes da situação: dados o número e a diversidade das características psicológicas atribuídas ao brasileiro, não se pode pensar que correspondam efetivamente a um grupo brasileiro ou ao brasileiro em geral; seria preciso distinguir os grupos, segundo critérios de região e de classe social e, além disso, apurar técnicas de quantificação, para ajuizar da correspondência, ou não, de certas características a certos grupos; finalmente, ainda que se estabeleçam correspondências, as características psicológicas não poderão ser entendidas como origem das condições de vida observadas: ao contrário, serão essas que originariamente determinarão aquelas características as quais, num segundo momento, poderão influir na vida social, desde que persistam, ao menos parcialmente, as condições que lhes deram origem.

Na pequena obra-prima Psicologia Diferencial (1966), Dante aborda, com clareza e elegância, um de seus temas favoritos: a psicologia das diferenças. Tema favorito, porque Dante era avesso à estereotipia e ao preconceito e, por aí, sensível à originalidade das pessoas. Nesse pequeno livro, que não hesitaríamos em qualificar de clássico, o que encanta, além da informação ampla e atualizada, é a forma: estilo límpido e corrente, preciso e enxuto quando lida com a mensuração, jocoso quando o tema o permite. O texto revela o cuidado do Autor com o vernáculo:

No sistema estamental, predominante na Idade Média européia, embora a posição da pessoa também fosse determinada pelo nascimento, existiam vários processos pelos quais a pessoa poderia ascender na estrutura social, o mais importante dos quais era o casamento. A expressão "dourar os brasões" faz referência ao casamento de pessoa nobre, mas empobrecida, com pessoa rica, mas estranha à nobreza. (Leite, 1966, p. 137)

Sente-se aqui o erudito, o literato, recordando uma expressão elegante no contexto de uma discussão psicossocial.

O que escreve sobre a capacidade criadora explica a maior parte de seus próprios escritos:

a segunda questão refere-se à possibilidade de facilitar o pensamento produtivo. Pelo que se sabe, não existe uma regra fixa para isso; no entanto, algumas sugestões parecem adequadas. A primeira consiste em não limitar o ensino ao conhecimento já estabelecido mas complementá-lo com a indicação do que ainda não se consegue explicar corretamente. Isso é indispensável, pois o pensamento criador se realiza através de soluções novas. Outra sugestão refere-se ao processo de ensino, que deve salientar inter-relações, bem como a multiplicidade de interpretações aparentemente corretas. Através desse processo é possível facilitar o aparecimento de novas interpretações, talvez melhores que as até agora existentes. A última sugestão refere-se ao cuidado com as novas criações apresentadas. Embora a crítica seja indispensável, não deve ser apresentada antes de uma solução completa; aparentemente, a crítica prematura faz com que o indivíduo criador não chegue ao fim de sua hipótese ou de seu trabalho literário, ainda que isso fosse possível e satisfatório. (Leite, 1966, pp. 98-99)

Dante situa-se resolutamente na tradição da psicologia acadêmica, ao privilegiar a interação organismo-ambiente. Por vezes acentua tanto o ambiente que parece ouvir-se um eco behaviorista. Embora não explicite, e nem seria o caso, o modo das interações entre o organismo e o ambiente, o Autor é muito claro ao atribuir as diferenças entre as pessoas à diversidade de recursos materiais e humanos que o contexto sócio-econômico oferece. Essa atribuição é patente na discussão das "diferenças entre classes sociais," que consagra uma visão moderna e dinâmica dos fatores situacionais sem, contudo, identificar-se simplesmente com a dicotomia dos "proprietários dos bens de produção e os assalariados," uma vez que "as distinções mais importantes da inteligência se referem, não à posse de bens, mas ao nível educacional dos pais" (Leite, 1966, pp. 138-139). Tão resolutamente se coloca Dante ao lado da tradição psicológica que se filia também ao princípio de que os homens são fundamentalmente iguais (Leite, 1966, p. 14), afirmando, até, que "do ponto de vista moral, o princípio de que todos os homens são iguais parece o mais correto, pois é aquele que permite o maior desenvolvimento do indivíduo, assim como dos vários grupos humanos" (p. 15).

Um tema em destaque, como era de se esperar, é o das diferenças psicológicas entre raças e povos. Em síntese exemplar, o Autor oferece uma versão didática de extensos capítulos de O Caráter Nacional Brasileiro, com considerações apropriadas à Psicologia Diferencial. Ao entrelaçar primorosamente dominação, preconceito, atração, negros e judeus, constata que "quando dois grupos raciais vivem na mesma sociedade, quase nunca têm os mesmos direitos e as mesmas oportunidades" (Leite, 1966, p. 112); o preconceito tem como função manter os privilégios do grupo dominante, mas "do ponto de vista psicológico, a situação parece bem mais complexa" (p. 112), pois, a menos que o preconceito seja exacerbado, não é incomum a ocorrência de uniões inter-raciais e de atração intensa pelo grupo proibido. No caso do preconceito, "o grupo dominante tende a atribuir características indesejáveis ao grupo dominado e a justificar, através delas, a situação de inferioridade em que coloca este último" (p. 113): exemplo disso é o preconceito contra o negro, nos Estados Unidos, por não ser ambicioso e trabalhador, e contra o judeu, na Alemanha de Hitler, exatamente por ser trabalhador e ambicioso. Em resumo, é muito difícil verificar cientificamente as diferenças entre raças e povos quando se atribuem tais diferenças a fatores genéticos ou a fatores culturais, mediados embora pelos procedimentos de criação dos filhos. Não que essas diferenças não existam: existem, e devem-se a fatores de ordem econômica, social e educacional. Fundamentalmente, porém, a variação que se diz existir entre povos e raças resulta de atribuições imprecisas por falta de observação sistemática, não verificadas por procedimentos científicos e confundidas pela interveniência de variáveis de classe social.

Finalmente, são discutidas as "diferenças psicológicas entre os sexos." Após uma introdução histórica e antropológica, que transita da etologia infra-humana às recentes conquistas femininas, discute as diferenças intelectuais e afetivas entre homens e mulheres. Reconhecendo que é diferente a produtividade intelectual de homens e mulheres, aponta dois grupos de fatores explicativos: educação e estrutura afetiva moldada pelos padrões culturais. A educação das meninas, por comparação à dos meninos, tende a ser no sentido de restrição à independência, o que interfere na criatividade; do ponto de vista emocional a mesma restrição, associada ao maior controle da agressividade, tende a restringir a autoconfiança. O que o Autor consegue demonstrar, mais uma vez, é a complexidade dos fatores e de suas interações (diferenças biológicas, ritmo diverso de maturação, educação para papéis sociais diferenciados, correspondências às expectativas que os confirmam, apreço social e econômico pelo trabalho masculino ou feminino). A discussão das "diferenças afetivas e emocionais entre os sexos" é aberta de forma exemplar:

A observação do comportamento emocional de homens e mulheres mostra algumas diferenças aparentes: as mulheres se emocionam mais facilmente, e mais facilmente exprimem a emoção, através do choro, medo, e assim por diante; as mulheres parecem também dar maior importância às relações interpessoais e ter uma visão "mais subjetiva" das pessoas e das coisas, isto é, parecem ter maior dificuldade em separar sua avaliação e sua relação afetiva. Algumas dessas diferenças são aceitas como indiscutíveis, enquanto outras podem resultar de prevenção contra o comportamento feminino ou de sua idealização. Além disso, as diferenças observadas em uma classe social não ocorrem em outra, e o comportamento considerado "masculino" em uma classe social pode parecer "efeminado" em outra. Existem também diferenças individuais tão grandes que é extremamente difícil delimitar um tipo "masculino" e outro "feminino." (Leite, 1966, p. 164)

A apresentação da interpretação de Freud das diferenças psicológicas entre os sexos e da conhecida elaboração do esquema freudiano por Helen Deutsch é o núcleo da discussão. Dante sumaria a posição freudiana quanto à inveja do pênis e à diferença do édipo, que estariam na base "da inveja, do ciúme e da falta de espírito de justiça das mulheres," que consomem grande parte da energia feminina. Ressalta, contudo, que a análise de Freud é tributária da extraordinária situação repressiva do século XIX e que sua confirmação clínica não poderia ser outra. Quanto à elaboração de H. Deutsch, o Autor não é menos reticente, pois "embora contenha muitos aspectos sugestivos, parece incapaz de apresentar uma efetiva comparação com os homens" (Leite, 1966, p. 170).

É no capítulo derradeiro, "Conclusões" (Leite, 1966, pp. 173-176), que Dante demonstra a estatura do cientista capaz de organizar equilibradamente todos os aspectos do problema e, mesmo, de avaliar seu sentido final. É um texto que merece figurar em qualquer antologia de suas obras.

A obra mais acabada de Dante Moreira Leite julgamos ser Psicologia e Literatura (2a ed., 1967). Diferentemente de O Caráter Nacional Brasileiro, é uma obra completa; diferentemente de Psicologia Diferencial, é uma obra de fôlego. Nesse trabalho revela-se o pesquisador amadurecido e seu trabalho de síntese: síntese pessoal, reunindo as duas vertentes mais evidentes de seus interesses, a psicologia e a literatura; síntese acadêmica, reunindo duas expressivas abordagens psicológicas da realidade, enquanto registrada no nível cognitivo e no nível inconsciente; síntese de um projeto, entrelaçando criação, texto e leitor.

Psicologia e Literatura é, ainda, o único texto disponível em português para o estudo sistemático da literatura do ponto de vista psicológico, em alguns de seus momentos privilegiados: o processo criador, o produto, que é o texto, e o interlocutor silente do artista, que é o leitor. No Prefácio, entrevemos alguns aspectos de Dante pessoa:

em nenhum momento deixei de considerar a imensa dificuldade da tarefa, assim como os riscos de, com o título de psicologia, fazer apenas má literatura, ou receber as críticas acumuladas de psicólogos e literatos, por realizar um estudo que contém demasiada literatura para ser psicologia, e excessiva psicologia para ser literatura. (...) Na verdade, se pudesse escolher, teria preferido fazer um pequeno estudo experimental com hipóteses e métodos já estabelecidos, e assim fazer uma contribuição ao conhecimento de determinado aspecto do comportamento do homem ou do animal. Mas não escolhemos nossos estudos ou nossas hipóteses; podemos, durante algum tempo, tentar afastar determinadas idéias, como inoportunas ou incômodas, mas não podemos eliminá-las, e continuam a aparecer, disfarçadas, em tudo que escrevemos ou pensamos. (Leite, 1967, p. 8)

Conhecedor do enfoque científico e do enfoque literário, Dante não pretende discutir o que denomina "núcleo do problema," isto é, a dimensão psicológica do critério artístico ou literário, mas tão só "delimitar a possibilidade de análise psicológica da literatura, com os recursos atuais dessa ciência" (Leite, 1967, p. 16).

Uma questão que se levanta, de início, para o crítico, não é a de se irá, ou não, valer-se da psicologia, mas de qual psicologia, ingênua ou científica, ele se utilizará. É a oportunidade para o Autor esboçar a distinção entre os dois tipos de psicologia e demonstrar que, por ausência de sistematização, a psicologia ingênua não é a melhor alternativa para o crítico. É curioso observar como, ao longo da obra, Dante se reporta muitas vezes a Heider, citando Psicologia das Relações Interpessoais, particularmente sua teoria do equilíbrio. Ora, esse trabalho de Heider é, exatamente, a sistematização de algumas áreas da psicologia ingênua que estaria ao alcance do crítico empregar. A essa possibilidade o Autor não faz menção, limitando-se a denunciar uma psicologia exageradamente ingênua nos estudos de Machado de Assis. A afirmação de que "na situação atual de nossos conhecimentos, a sistematização só pode ser dada pela psicologia científica" (Leite, 1967, p. 18) é correta, pois essa é uma das tarefas da psicologia científica, mas caberia complementar - no contexto em que são apresentados pela vez primeira os dois tipos da psicologia - que valeria o esforço de se iluminar psicologicamente a obra literária com os recursos da psicologia ingênua.

Outro aspecto interessante levantado pelo Autor é o da oportunidade da análise psicológica da literatura, por oposição à análise sociológica. Entre outras coisas, chama-se a atenção para o sentido que essa oposição adquiriu no caso da literatura brasileira: o enfoque sociológico apontaria para situações universalmente válidas, ao passo que o psicológico se restringiria à situação vivida caracteristicamente pelo brasileiro. Dante observa:

se a arte se reduzisse aos seus aspectos sociais, teria apenas o sentido de luta, no momento de seu aparecimento, ou de documentário, depois da superação das condições em que nasceu. Se continua viva como obra de arte, isso se deve, entre outras coisas, ao fato de exprimir, além das condições sociais em que apareceu, uma condição humana, válida em situações muito diversas. (Leite, 1967, p. 21)

E, acrescentamos, seria tarefa da psicologia investigar essa condição.

O Autor reconhece que as teorias e hipóteses psicológicas ainda não contam com recursos para sistematizar as relações indivíduo-grupo no caso do artista criador e do leitor, mas realça contribuições significativas da psicologia contemporânea: substituição da vida mental e da consciência pela interação organismo-ambiente como origem do comportamento; inclusão em todo comportamento de aspectos cognitivos, afetivos e conativos; descrição da vida inconsciente através de forças ou elementos dinâmicos, identificáveis na ação.

Estabelecida a perspectiva psicológica, apresenta-se a contribuição da Psicanálise, através de Freud e de Jung, e a da teoria da Gestalt no tocante aos três itens citados. Em resumo, pode-se dizer, quanto ao primeiro item, que a Psicanálise imagina os impulsos básicos em conflito (Freud) ou em contato (Jung) com a realidade exterior, e que a Gestalt vê as forças do organismo e as do ambiente como constituindo um único campo; quanto ao segundo, a Psicanálise supõe o afeto como subjacente aos processos racionais (Freud) ou como expulso pelo pensamento racional (Jung) e a Gestalt privilegia o contato inteligente com o mundo, prolongando a percepção até o afeto; quanto ao terceiro item, a Psicanálise estabelece relação de causa-efeito entre o inconsciente e o consciente, propondo submeter (Freud) ou libertar (Jung) o inconsciente, ao passo que a Gestalt não leva em conta uma instância inconsciente. Naturalmente, essa apresentação sumária, por nós ainda condensada, destina-se ao leitor não familiarizado com a psicologia moderna. Nas três Partes em que se divide a obra, o Autor se valerá de conceitos muito mais adequados à especificidade do tema analisado.

Ao considerar "O processo criador" (Leite, 1967, pp. 43-111), Dante se move num terreno de sua preferência, o da criatividade. Preliminarmente discute uma caracterização do pensamento produtivo, expressão que indica muito da direção gestáltica que o orientará. Antecipando as diferenças entre o processo criador na ciência e na técnica, de uma parte, e nas artes e na literatura, de outra, descreve o processo como a ocorrência "de uma nova solução para um problema anterior" ou de "uma expressão aceitável para outros indivíduos" (p. 43). Na ciência e na técnica parece haver, quase sempre, um problema a ser resolvido, de forma que as descobertas na ciência e na técnica são cumulativas. Nas artes não se trata de um problema, e muito menos de sua solução, mas de uma nova expressão de condições existenciais, compartilhada com os semelhantes. Aliás, essa característica lúdica e não pragmática não é exclusiva da arte e da literatura: com exceção da fase de verificação da hipótese, também o cientista brinca livre e despreocupadamente com os elementos de seu problema na fase da invenção. A seguir, situa o processo criador dentro da realidade social: o quadro de referência da época, a situação de marginalidade do artista, decorrente da filiação ao grupo intelectual, e a reação a seu trabalho. Todos esses são elementos importantes mas externos ao processo criador. O que faz, então, que nem todas as pessoas, dentro da mesma realidade social, se tornem criadoras? É o mesmo que perguntar pelos processos psicológicos no pensamento criador (pp. 61-96). Na resposta, descartam-se as posições funcionalistas, de Claparède a Skinner, por duas razões: não conseguem demonstrar o específico da criatividade conjugado com a continuidade entre ela e outros processos psicológicos, e não conseguem explicar a motivação do cientista ou do artista para a atividade criadora. A Gestalt, ao contrário, tem condição de responder à pergunta. Em primeiro lugar, a Gestalt trabalha com um campo de forças do ambiente e do organismo, que permite, entre outras coisas, explicar o eventual predomínio de um ou outro conjunto de forças. O ambiente contribui com as características do mundo objetivo e a pessoa com a organização ativa desse mundo. No caso da simples percepção, a organização é uma estruturação dos dados; no caso do pensamento produtivo, é uma reestruturação. A diferença entre as pessoas no que respeita ao pensamento produtivo não está no material da percepção ou do pensamento, mas na rigidez da estruturação. Do ponto de vista motivacional, a Gestalt possibilita entender a atividade mesmo do indivíduo não motivado organicamente graças ao desafio apresentado pela força do ambiente. Também a Psicanálise tem algo a dizer. Segundo Freud, que não discutiu a criatividade científica nem a grande literatura, a raiz do processo criador é emocional e inconsciente, pois o pensamento produtivo é a sublimação da curiosidade infantil pelo sexo. Se o produto é aceito - e aí reside o "segredo" do artista - é porque é revestido de uma forma aceitável graças ao recurso à fantasia, de caráter compensatório. As relações de Dante com a Psicanálise, diga-se de passagem, foram sempre de tensão: de forma nitidamente racional, ele não se entrega fácil à Psicanálise, mas não tem como fugir-lhe. Até o fim da vida mantém essa tensão: teoricamente, ao reconhecer que é necessário conservar juntos os níveis do cognitivo e do inconsciente; praticamente, ao lidar na análise pessoal com as "tendências de ordenação clara e de anarquia," que registra no escorço autobiográfico. Por essa razão é que, mais que com outros autores, discute com Freud, nega-o, mas, ao final, com ele fica. Na secção que nos ocupa isso é evidente. Levanta objeções ao conceito de atividade criadora e ironiza a limitação de Freud ao consciente na explicação do recurso à fantasia compensatória. Mas acaba encontrando um Freud mais autêntico quando introduz, ele, Dante, em complemento à primeira, a fantasia preditora da experiência e a fantasia criativa, e demonstra como a última tem de ser, como o sonho, quase necessariamente inconsciente, não só porque elabora, mas porque elabora com grande liberdade frente aos estímulos do mundo da vigília. E por aí reconcilia, surpreendentemente, a Psicanálise e a Gestalt, pois "se os gestaltistas mostram que a atividade produtiva depende da possibilidade de reestruturação dos dados perceptuais, a teoria psicanalítica pode sugerir explicações para maior ou menor facilidade nesse empreendimento" (p. 91).

A posição de Jung descreve o processo criador de outra maneira. Para Jung é o inconsciente coletivo que, em épocas de crise, se revela nos sonhos das pessoas comuns e nas visões de artistas e poetas, restaurando o equilíbrio psicológico da época. No caso da literatura, isso acontece na literatura "visionária," que apreende os arquétipos, e não na literatura "psicológica," que se refere à vida consciente dos homens.

Concluindo a densa reflexão, há o resumo do estado da questão: as teorias psicológicas indicam processos reais, mas os consideram sob enfoques em parte inconciliáveis; não conseguem fazer a ponte entre os processos interiores e a percepção da realidade; finalmente, não integram a aprendizagem no processo criador. "Por isso, talvez seja necessário procurar conceitos mais amplos, que provisoriamente dêem conta dos processos de criação, ainda que não permitam análise rigorosa e satisfatória" (Leite, 1967, p. 106). Não é essa uma tentativa criadora? Esses conceitos, que iremos reencontrar na discussão do texto e do leitor, são equilíbrio, desequilíbrio e tensão, conceitos que acompanharam desde o início a proposição da Gestalt e que encontraram em Heider a elaboração desenvolvida.

Embora não suficiente, é condição necessária para o surgimento do pensamento criador um estado de desequilíbrio, de incompatibilidade de sentimentos ou de elementos objetivos. O desequilíbrio, dentro de certos limites, gera tensão, que exige ação reordenadora. Na ciência, a ação reordenadora conduz à solução. Nas artes, a nova expressão. O êxito do resultado não poderá ser aferido pela psicologia do processo, mas por critérios científicos ou artísticos.

É na "Análise psicológica do texto" (Leite, 1967, pp. 113-208), "objeto independente do criador e das condições em que nasceu" (p. 113), que "podemos dizer que a análise psicológica tem função literária" (p. 114). Três perspectivas se cruzam na discussão: a freudiana, a junguiana e a gestaltista, em seguida aplicadas a textos importantes da literatura brasileira.

A Psicanálise decifra o sentido pretendido, consciente ou inconscientemente, pelo autor da obra de arte, sem se ater aos aspectos formais da obra. Freud analisa o Édipo Rei, de Sófocles, e revela que a atração que a peça exerce se deve ao fato de lidar com a relação triangular universal que veio a se chamar exatamente "complexo de Édipo." Análise semelhante faz do Hamlet, cujo sentido só é mais oculto por ocorrer muitos séculos mais tarde, sob repressão muito maior. A discussão de Dante realça as virtudes da interpretação, que amplia nossa compreensão "pois tem recursos para indicar uma realidade que não se revela diretamente à nossa consciência (e por) utilizar vários conceitos que nos permitem descrever e compreender o comportamento e a experiência das personagens" (Leite, 1967, p. 126).

Aponta, igualmente, as limitações do procedimento:

diante de uma peça extremamente complexa - talvez das mais ricas que já foram criadas - Freud indica um processo infantil como forma de explicar a personagem que é o núcleo da tragédia; como a redução a conflitos infantis é a chave da interpretação, seríamos levados a admitir que todas as obras literárias têm o mesmo conteúdo, e não teríamos recursos para explicar ou descrever a sua diversidade. (Leite, 1967, p. 126)

Jung distingue a literatura psicológica e a visionária. A psicologia teria pouco interesse na análise da primeira, pois o escritor já teria dito tudo. Ao contrário, a literatura visionária seria o verdadeiro desafio para a psicologia, que se deve valer dos conceitos de arquétipo e de inconsciente coletivo. A vantagem da interpretação junguiana reside em "permitir uma explicação para a permanência da obra de arte maior, assim como para o permanente fascínio de algumas situações ou figuras" (Leite, 1976, p. 121). Em contrapartida, seu ponto vulnerável seria a admissão, na mentalidade científica moderna, de um universo extra-sensorial ou de uma alma em contato direto com um "mundo noturno" (p. 131).

A Gestalt contribui com três linhas para a análise do texto: a descrição ingênua ou fenomenológica da realidade que, graças ao isomorfismo, apreende tanto o interior da realidade como sua manifestação; a teoria da expressão, que reconhece na dimensão objetiva da realidade características expressivas captadas imediatamente pelo percebedor; a dinâmica do desequilíbrio/tensão/equilíbrio, que leva a uma reestruturação das formas percebidas. A primeira contribuição tem muito a ver com a representação literária do óbvio e do cotidiano. A segunda se aplica diretamente aos aspectos formais do texto. A terceira, que o Autor reputa a mais significativa para a discussão, permite a diferenciação entre a literatura menor e a grande literatura, ao mesmo tempo que unifica num único processo de criação a produção do texto, o próprio texto e a leitura do texto. A seguir, oferece análises concretas de grandes textos literários brasileiros: Lucíola e Senhora, de Alencar; Dom Casmurro e outros clássicos, de Machado de Assis; Campo Geral, de Guimarães Rosa.

Em "O leitor e o público" (Leite, 1967, pp. 209-239), Dante retorna a um aspecto que o incomoda: em que sentido e de que maneira a Literatura educa o leitor? Começa, situando a leitura do texto dentro da categoria "percepção," e recorda que "toda percepção depende do objeto, das condições em que este é percebido e do percebedor" (p. 211). Analisa, então, a dimensão do objeto e as condições do percebedor. Na dimensão do objeto, retorna ao caráter expressivo, ou fisionômico, do texto, que em parte explicaria a permanência da grande obra. Em parte, porque nem sempre se destaca essa característica e porque a percepção fisionômica é primitiva, pouco diferenciada. Em parte, sobretudo, porque a grande obra literária apresenta estímulos fundamentalmente ambíguos, capazes de várias possibilidades de organização. Essas possibilidades, de outro lado, se tornarão atuais em função de duas variáveis do percebedor/leitor: suas predisposições motivacionais e perceptuais e seu nível de saciedade. Porém o quadro perceptual não basta para situar a interação do leitor com o texto, pois pareceria supor um leitor passivo quando, na realidade, o leitor procura alguma coisa com a leitura: ampliação e diferenciação de conhecimentos e sentimentos, Aqui o Autor introduz, com as ressalvas de seu feitio, uma distinção esclarecedora entre a poesia e a ficção, entre a fantasia como revelação e como fuga, entre o voltar-se para si e o voltar-se para o outro. Explica como a poesia tende para uma apreensão melhor de si mesmo e a ficção para o conhecimento dos outros, embora ambas as formas literárias possam constituir-se revelação ou, no caso da ficção, também fuga do imediato.

Discutindo a influência da leitura de ficção, Dante a baliza com as posições clássicas de Platão e Aristóteles, respectivamente censura e catarse, e observa que a posição predominante na sociedade é, obviamente, a atribuída a Platão. E pergunta-se, exatamente como psicólogo e educador, até que ponto se comprova a hipótese de uma influência direta ou indireta da literatura sobre o leitor, influência suposta tanto na inclusão da literatura nos currículos escolares como na crítica à comunicação de massa. E introduz várias distinções: efeito imediato e a médio prazo, influência da literatura e da propaganda, influência nos intelectuais e no público e, finalmente, as diferenças individuais. Ao comentar, por exemplo, a influência nos intelectuais e no grande público, observa que os primeiros são capazes de entender a linguagem e os problemas do escritor, ao passo que o público só apreende fórmulas simples ou estereótipos. Ao mesmo tempo acrescenta que talvez isso não seja toda a verdade, pois a grande literatura, que fundamentalmente apresenta a realidade social como ambígua em seus valores, é vigiada pelo grupo dominante. E conclui: "A afirmação mais prudente (...) seria supor que a pessoa não se desajusta através da leitura, mas que procura a ficção desajustadora quando experimenta dificuldades de ajustamento" (Leite, 1967, p. 234).

É nesse contexto que retoma, então, a pergunta sobre a motivação para a leitura. Mostra, em primeiro lugar, a inadequação do modelo habitualmente utilizado, de redução de tensão ou de busca de equilíbrio. Na leitura de ficção o leitor, na verdade, está a buscar tensão e desequilíbrio que não dizem respeito a sua adaptação ao mundo real. Dante aponta para a análise de Heider como a mais condizente com os conhecimentos contemporâneos na área: Heider reconhece que as pessoas apresentam tendência tanto para o equilíbrio como para o desequilíbrio. Detalhando a aplicação de Heider, distingue o caso em que pelo simples fato de alcançar um objetivo a pessoa pode reestruturar cognitiva e emocionalmente a situação, e o caso em que a pessoa busca efetivamente o desequilíbrio. De passagem, existe uma sutil análise da reestruturação emocional, que vamos reencontrar em "O triângulo, o ciúme e a inveja" (Leite, 1979, pp. 15-19): "A conquista do objetivo pode provocar o sentimento de culpa, mais ou menos consciente, ou provocar o medo" (Leite, 1967, p. 236). E por que? Em termos perceptuais, a repetição do padrão de estímulo pode provocar espontaneamente uma reorganização. Em termos motivacionais provoca a saciedade. A pessoa tende, então, a uma situação não equilibrada, que transformará novamente em equilíbrio. No caso da ficção, o desequilíbrio é procurado na leitura e o novo equilíbrio é obtido no final da ficção. Devem ser lembradas, aqui, as análises dos níveis de expressão literária, que determinarão a modalidade e, mesmo, a possibilidade, do reequilíbrio final. Nessa linha de pensamento, podemos concluir a apresentação de Psicologia e Literatura com o próprio Dante:

o pensamento produtivo depende da percepção do desequilíbrio, enquanto o texto literário é uma forma de exprimir, mas não solucionar esse desequilíbrio. Assim se compreende que a leitura seja também uma forma de pensamento criador e exija também a capacidade para suportar tensões e reagir produtivamente a elas. (Leite, 1967, p. 245)

Chegados ao fim da introdução ao Autor e à Obra, todos nos encontramos na situação do leitor perante o texto. Trata-se, é verdade, de um texto na quase totalidade de natureza científica, e por isso o término da leitura deveria ter instaurado ou reinstaurado o equilíbrio condizente com o encaminhamento da solução ao problema discutido. O texto científico, aliás, pretende exatamente a comunicação unívoca a partir de estímulos nítidos, e da parte do percebedor supõe quase só uma predisposição de suficiente informação prévia e de suficiente motivação para a leitura. Mas os textos que analisamos deixam abertas algumas fendas por onde se infiltra, talvez, o desequilíbrio estimulante. Antes de tudo, precisamente como textos científicos, pois é comum à ciência solucionar um problema e levantar outro. Além disso, se a comunicação se pretendeu unívoca, não faltaram paradoxos, obscuridades, matizes que confundem o espírito geométrico mas intrigam o espírito de finura. E finalmente, a empresa científica esbarra, não raro, nos limites da filosofia, da religião, da arte, da vida (Leite, 1983, p. 141) e por aí projeta novas tensões e desequilíbrios. Com isso queremos dizer que mesmo a leitura do texto científico pode ser criativa.

Até agora os textos de Dante foram mediados pelo texto do apresentador. É hora de ir aos originais.

 

 

Paiva, G. J. (2000). Dante Moreira Leite: A Pioneer of Social Psychology in Brazil. Psicologia USP, 11 (2), 25-57.

Abstract: Dante Moreira Leite’s pioneer work in Brazilian Social Psychology is presented through the analysis of three of his main books: Brazilian National Character, Differential Psychology and Psychology and Literature. The subjects especially considered in these writings are interpersonal relations, national character and the links between Literature and Psychology. His activities as professor, researcher, writer, translator and academic manager are also introduced.

Index terms: Leite, Dante Moreira. History of Psychology. Psychology and Literature. National Charater. Social psychology.

 

 

Referências Bibliográficas

Bosi, A. (1970). História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix.        [ Links ]

Bosi, A. (1979). Prefácio. In D. M. Leite, O amor romântico e outros temas (2a ed. ampl., pp. xiii-xix). São Paulo: Nacional / Ed. da Universidade de São Paulo.        [ Links ]

Bosi, A. (1983). Aventuras e desventuras de uma ideologia. In D. M. Leite, O caráter nacional brasileiro (4a ed. definitiva, pp. xix-xxvi). São Paulo: Pioneira.        [ Links ]

Bosi, E. (1976). Dante Moreira Leite. Cadernos de Pesquisa: Revista de Estudos e Pesquisas em Educação, (17), 33-36.        [ Links ]

Castello, J. A. (1976). Dante Moreira Leite e a literatura brasileira. Cadernos de Pesquisa: Revista de Estudos e Pesquisas em Educação, (17), 27-32.        [ Links ]

Damasco Penna, J. B. (1979). Dante, meu aluno e meu mestre [Depoimento]. In D. M. Leite, O amor romântico e outros temas (2a ed. ampl., pp. xxi-xxxi). São Paulo: Nacional / Ed. da Universidade de São Paulo.        [ Links ]

Heider, F. (1970). Psicologia das relações interpessoais (D. M. Leite, trad.). São Paulo: Pioneira / Ed. da Universidade de São Paulo. (Originalmente publicado em 1958 pela editora John Wiley & Sons)        [ Links ]

Leite, D. M. (1954). Caráter nacional brasileiro: Descrição das características psicológicas do brasileiro através de ideologias e estereótipos. Tese de Doutorado, Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo.        [ Links ]

Leite, D. M. (1959). Caráter nacional brasileiro: Descrição das características psicológicas do brasileiro através de ideologias e estereótipos. Boletim da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (230, Série Psicologia No. 7), 14-239.        [ Links ]

Leite, D. M. (1966). Psicologia diferencial. São Paulo: Desa.        [ Links ]

Leite, D. M. (1967). Psicologia e literatura (2a ed.). São Paulo: Nacional / Ed. da Universidade de São Paulo. (Originalmente publicado em 1965 pelo Conselho Estadual de Cultura)        [ Links ]

Leite, D. M. (1973). Memorial para o concurso de professor titular. São Paulo: Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. (Mimeografado)        [ Links ]

Leite, D. M. (1975). A atribuição de causalidade. In A. L. Angelini (Ed.), Anais do XIV Congresso Interamericano de Psicologia (pp. 447-453). São Paulo: Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. [Congresso realizado em São Paulo, de 14 a 19 de abril de 1973]        [ Links ]

Leite, D. M. (1979). O amor romântico e outros temas (2a ed. ampl.). São Paulo: Nacional / Ed. da Universidade de São Paulo. (Originalmente publicado em 1964 pelo Conselho Estadual de Cultura)        [ Links ]

Leite, D. M. (1983). O caráter nacional brasileiro: História de uma ideologia (4a ed. definitiva). São Paulo: Pioneira. (Originalmente publicado em 1969 pela editora Pioneira)        [ Links ]

Mota, C. G. (1977). Ideologia da cultura brasileira (1933-1974): Pontos de partida para uma revisão histórica (3a ed., pp. 239-244). São Paulo: Ática.        [ Links ]

Nagle, J. (1976). A reflexão pedagógica crítica: Uma necessidade e um exemplo (a propósito da obra educacional de Dante Moreira Leite). Cadernos de Pesquisa: Revista de Estudos e Pesquisas em Educação, (17), 13-26.        [ Links ]

Ortiz, R. (1985). Cultura brasileira e identidade nacional. São Paulo: Brasiliense.        [ Links ]

Spinelli, L. G. (1976). Bibliografia de Dante Moreira Leite. Cadernos de Pesquisa: Revista de Estudos e Pesquisas em Educação, (17), 37-40.        [ Links ]

 

 

 

1 Texto preparado como Introdução a volume da Coleção Grandes Cientistas Sociais, aqui publicado, com ligeiras modificações, com autorização da Editora Ática. Agradeço a leitura da primeira versão do texto e as sugestões de Ecléa Bosi, João Augusto Frayze-Pereira, Jorge Nagle, José Aderaldo Castello e Therezinha Moreira Leite.

2 Endereço para correspondência: Instituto de Psicologia. Av. Prof. Mello Moraes, 1721, São Paulo, SP – CEP 05508-900. E-mail: gjdpaiva@usp.br

3 Os ideólogos são, principalmente, Sílvio Romero, Euclides da Cunha, Monteiro Lobato, Nina Rodrigues, Oliveira Vianna, Arthur Ramos, Affonso Arinos, Gustavo Barroso, Paulo Prado, Gilberto Freyre; em alguma medida, Sérgio Buarque de Holanda, Fernando de Azevedo e Vianna Moog.

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License