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Psicologia USP

Print version ISSN 0103-6564

Psicol. USP vol.13 no.2 São Paulo  2002

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-65642002000200010 

TRISTE E INCOMPLETA: UMA VISÃO FEMININA DA MULHER INFÉRTIL

 

Zeidi Araujo Trindade e Sônia Regina Fiorim Enumo1
Universidade Federal do Espírito Santo

 

 

Este artigo relata resultados de uma pesquisa que teve como objetivo investigar as representações sociais da infertilidade feminina, entre mulheres de diferentes estratos sociais. Foram entrevistadas 180 mulheres, com idade variando entre 18 e 40 anos, sendo 90 moradoras de bairros populares, e 90 moradoras de dois bairros considerados de classe-média. Cada grupo foi dividido em 3 subgrupos: a) 30 mulheres casadas, com pelo menos um filho biológico; b) 30 mulheres casadas há pelo menos 1 ano, sem filhos; c) 30 mulheres solteiras, sem filhos. Para a coleta de dados utilizou-se a técnica de associação livre, tendo como expressão geradora "mulher que não pode ter filhos", além de perguntas específicas sobre a temática de interesse. Os dados mostraram como principais elementos do campo representacional tristeza, incompleta, frustração, cobrança dos outros, solidão, pessoa inferior, adoção, busca de soluções e não é problema, confirmando a permanência da concepção da infertilidade como uma condição estigmatizante para a mulher.

Descritores: Infertilidade. Maternidade. Representação social.

 

"Biologicamente e por temperamento... as mulheres foram feitas para se preocuparem primeiro e principalmente com os cuidados com os filhos, cuidados com o marido e cuidados com o lar" (Benjamim Spock, 1969).2

 

 

Da luz da maternidade...

As palavras de Benjamim Spock, um dos grandes nomes da literatura médica americana, retratam fielmente o espírito de uma época, que ainda ressoa fortemente neste fim de milênio. Revestidas de autoridade científica, ensinam os critérios normativos que enquadram o "ser mulher". E assim se aprende que esta é a natureza feminina.

Rocha-Coutinho (1994, p. 41) acrescenta que,

Em decorrência desta "naturalização" das funções femininas, passou a ser demarcada uma série de características femininas (como, por exemplo, dedicação, abnegação, docilidade), quase todas elas vinculadasàquelas características necessárias a uma "boa mãe", levando-se muitas vezes a se identificar feminilidade e maternidade.

Historicamente, a maternidade construída como o ideal maior da mulher, único caminho para alcançar a plenitude, a cabal realização da feminilidade, em sincronia com a necessidade da anulação pessoal, da abnegação e do sacrifício prazeiroso começa a tomar forma no Ocidente nas últimas décadas do século XVIII. Surge então o ideário do devotamento e do sacrifício e a maternidade passa a ser entendida como um sofrimento voluntário e indispensável para a mulher normal3, o que ainda hoje está fortemente presente no pensamento social.

De acordo com Tubert (1991, p. 78),

Se olharmos a história, observaremos que o lugar e a valorização da maternidade no âmbito sociocultural se modificam e variam em função das diferentes épocas e contextos respondendo a interesses econômicos, demográficos, políticos, etc. Sem dúvida, parece evidente que em toda sociedade patriarcal a mulher entra na ordem simbólica apenas como mãe.

Tal concepção pode ser encontrada em qualquer faixa etária, como mostram as pesquisas sobre maternidade na adolescência. Estas evidenciam que, principalmente nos setores populares, a maternidade é idealizada e concebida como um salto qualitativo na vida da mulher, "... ser mãe é um valor feminino maior, o par mãe-filho parece representar o ideal de beleza, de felicidade" (Nóbrega, 1995, p. 70). Transcendendo as precárias condições materiais do cotidiano, as adolescentes mães ou grávidas "sugeriram que suas percepções acerca da gravidez e do nascimento do bebê englobavam uma avaliação positiva, além da conquista de benefícios psicológicos e sociais" (Oliveira, 1999, p. 288). É o prazer idealizado e romantizado da maternidade iluminando a desesperança, os caminhos obscuros, as vidas sem brilho.

Diante dessa condição, cabe aqui perguntar como ficam aquelas mulheres que não podem ter filhos?

 

...às trevas da infertilidade

Apesar das transformações observadas nas concepções e práticas relacionadas à infertilidade, fundamentadas principalmente no avanço do conhecimento médico, a condição de infértil tem se constituído em um anátema para as mulheres, atravessando séculos de história e rompendo limites geográficos e culturais. É farta a literatura mostrando a imposição social da maternidade para a "mulher normal" e as conseqüências pessoais e sociais de problemas reprodutivos, com exemplos que abrangem sociedades e momentos históricos diferentes (Del Priore, 1997; Kitzinger, 1978; Rocha-Coutinho, 1994; Trindade, 1998; Tubert, 1991).

Kitzinger (1978), em um estudo antropológico sobre a maternidade, relata que em algumas tribos africanas a importância atribuída à fertilidade era demonstrada pelas estratégias utilizadas pelo casal: se o marido fosse impotente, a mulher era incentivada a manter relações sexuais com parentes e amigos até que engravidasse; se a mulher não engravidava, encontrava-se outra que pudesse ter filhos "em seu nome". Na antiga cultura hebraica, era permitido ao homem que se divorciasse caso a mulher fosse estéril e que a trocasse por outra quando a primeira envelhecesse.

Enquanto isso, no Brasil Colônia,

... a valorização da madre4 como órgão reprodutor levava a uma valorização da sexualidade feminina, mas não no sentido da sua realização e sim no de sua disciplina. Pensava-se que, ao contrariar sua função reprodutiva, a madre lançava a mulher numa cadeia de enfermidades, que iam da melancolia e da loucura até a ninfomania. Acreditava-se, ainda, que essas doenças tinham conexão íntima com a presença do Demônio (Del Priore, 1997, p. 83, grifos da autora).

Em Moçambique, ainda hoje, as mulheres inférteis do grupo étnico Macua sofrem diversas conseqüências pela infertilidade, sendo uma das mais importantes sua exclusão de algumas cerimônias tradicionais e de atividades sociais. A maioria delas comete adultério com a esperança de engravidar (Gerrits, 1997).

Nos estudos históricos e antropológicos, raramente se encontram referências à infertilidade masculina, o que sugere que os problemas reprodutivos do casal têm sido, desde sempre, atribuídos às mulheres, engendrando metáforas e simbologias pejorativas e humilhantes, principalmente nas sociedades patriarcais.

Como outros autores, Rocha-Coutinho (1994) observa que é a maternidade que transforma Eva em Maria. No final da década de 70, analisando a maternidade contemporânea, Kitzinger (1978) explicava que, em nossa sociedade ocidental, geralmente é aceito um mito da maternidade que afirma que o ato biológico de dar à luz transforma o eu das mulheres, tornando-as abnegadas, generosas e extremamente satisfeitas com o sacrifício pessoal, cristalizado pela Virgem Mãe. Desprovida de paixão, simboliza "a pureza das mulheres a serviço do filho" (p. 161).

A Psicologia tem sido também chamada para explicar esse fenômeno, como veremos a seguir.

 

A infertilidade sob a ótica da Psicologia

Apesar do interesse antigo da Psicologia pela maternidade, mais especificamente pelos efeitos da relação mãe-criança no desenvolvimento infantil, os estudos sobre a infertilidade só começaram a ganhar visibilidade na década de 50. Talvez porque não houvesse interesse real na mulher-mãe e sim na mãe-instrumento, a serviço do filho.

Stanton e Dunkel-Schetter (1991) fizeram uma revisão da literatura e encontraram basicamente três modelos psicológicos de infertilidade. Até a década de 705, predominou o primeiro modelo, que focalizava as causas da infertilidade e a conceitualizava como doença psicossomática, que atingia principalmente as mulheres. Baseados em pressupostos psicodinâmicos, os pesquisadores da época atribuíam esses mecanismos psicogênicos a conflitos relacionados ao papel materno, a problemas com a identidade sexual feminina, à imaturidade feminina e à neurose. As pesquisas geradas por este modelo objetivavam demonstrar diferenças entre: mulheres férteis e inférteis, tanto na estrutura da personalidade como no padrão emocional; mulheres cuja infertilidade tinha causa orgânica e mulheres cuja infertilidade não podia ser explicada organicamente; e mulheres consideradas inférteis que conseguiam engravidar posteriormente e aquelas que não conseguiam. Contudo, as autoras observam que os estudiosos que se dedicaram à revisão da literatura sobre a psicogênese da infertilidade "...concluíram que a maioria dos estudos não revela evidências consistentes ou que causem maior impressão sobre as causas psicológicas da infertilidade" (p. 7).

A concepção de que os conflitos emocionais apresentados por casais inférteis seria uma conseqüência do problema e não sua causa começa a se fortalecer como decorrência do avanço das técnicas de diagnóstico médico e da diminuição do interesse pelo modelo psicogênico6. Voltados principalmente para o domínio da intervenção e preocupados com a qualidade do atendimento aos casais que passavam por esta experiência, profissionais da área propõem um segundo modelo, que conceitualiza a infertilidade como uma das principais crises da vida. Concebe-se, então, a infertilidade como "... um problema geralmente insolúvel que ameaça importantes objetivos de vida, onera recursos pessoais, e traz à tona importantes problemas do passado não resolvidos" (Stanton & Dunkel-Schetter, 1991, p. 8) produzindo uma seqüência previsível de padrões emocionais.

Essas autoras reconhecem as contribuições deste segundo modelo, que orientou as preocupações dos profissionais para as conseqüências da infertilidade e estabeleceu o ajustamento dos casais a esta condição como um problema digno de atenção. Entretanto, advertem que as pesquisas por ele geradas não diferiram substancialmente daquelas voltadas para o modelo psicogênico, permanecendo na verificação de semelhanças e diferenças emocionais entre sujeitos férteis e inférteis, negligenciando-se a variabilidade individual.

O terceiro modelo analisa a infertilidade a partir dos estudos sobre estresse e é assim descrito por Stanton e Danoff-Burg (1996, p. 273):

... conceitualiza a infertilidade como uma experiência potencialmente estressante e utiliza teorias psicológicas estabelecidas para identificar as condições sob as quais aqueles que se confrontam com a infertilidade são vulneráveis a uma extrema angústia e a uma ruptura em sua vida ou têm maior probabilidade de mostrar um funcionamento adaptativo.

As pesquisas geradas por este último modelo têm se preocupado em descrever e analisar os indicadores que facilitam ou dificultam o ajustamento à situação, considerando também a relação dos sujeitos com a paternidade e a maternidade.

O quadro atual das pesquisas sobre infertilidade feminina mostra efeitos psicológicos múltiplos e interrelacionados, abrangendo desde aqueles propriamente pessoais, como o estresse, sentimentos de perda e o comprometimento da auto-estima, até as dificuldades para o relacionamento conjugal, implicando mesmo em prejuízo para o relacionamento social mais extenso (Dunkel-Schetter & Lobel, 1991; Hansell, Thorn, Prentice-Dunn, & Floyd, 1998).

Entendemos que houve um avanço considerável na forma como se concebe a infertilidade. Primeiramente, porque se ultrapassou o modelo psicogênico, que atribuía a infertilidade às características psicológicas da mulher, contribuindo decisivamente para a sua culpabilização. Além do mais, passou-se a considerar a centralidade do significado da maternidade e da paternidade como possíveis indicadores para o ajustamento à infertilidade. No entanto, existe uma lacuna que pode ser melhor preenchida valendo-se de contribuições teóricas da Psicologia Social, buscando a compreensão desses fenômenos a partir de uma perspectiva sócio-histórica.

Com base nessa perspectiva, em trabalho anterior realizado com usuárias de um Ambulatório de Infertilidade7, encontramos, entre outros aspectos, elementos de representações sociais da infertilidade que remetiam a sentimentos de inferioridade, de culpa, de solidão e de tristeza, bem como referências à pressão social sofrida. Há aqui uma questão metodológica a ser ressaltada: geralmente, as pesquisas que focalizam a infertilidade têm como sujeitos clientes de clínicas de reprodução humana, o que implica em ser a condição de infertilidade percebida sempre como problema. Indicamos, portanto, a necessidade de dados que mostrassem as representações da infertilidade em grupos sociais diferentes, com a intenção de melhor compreender a gênese e as condições de manutenção do significado da infertilidade entre as mulheres (Trindade, 1998).

Apresentaremos neste capítulo resultados de um programa de pesquisa8 no qual se vem investigando as representações sociais de diferentes objetos relacionados à saúde reprodutiva, focalizando aqui as representações sociais da infertilidade feminina analisadas em confronto com uma concepção de maternidade socialmente construída, vez que são face e verso de uma mesma moeda: a da reprodução.

Como instrumento para a produção de conhecimento sobre objetos sociais relevantes, a teoria das representações sociais tem cumprido importante papel no desvendamento do sentido das metáforas, das simbologias, das imbricações sincréticas e das aparentes contradições que são parte constituinte do pensamento social9.

As representações sociais "... exprimem a relação de um sujeito com um objeto, relação que envolve uma atividade de construção, de modelização e de simbolização"(Vala, 1997, p. 357). Nesse sentido, encontram-se na interseção entre o psicológico e o social. Em outras palavras, as representações sociais são construídas pela interface da afiliação dos sujeitos a diferentes grupos sociais, tanto em suas características objetivas como subjetivas, assumindo a condição de socialmente produzidas e socialmente partilhadas.

Vala (1996, p. 151) ensina que as representações sociais não são apenas enunciados reprodutores da realidade e, sim,

... teorias sociais práticas sobre objetos relevantes na vida dos grupos. Enquanto teorias, são organizações de crenças, atitudes e explicações; enquanto teorias práticas, são organizadores da ação; enquanto teorias sociais, são produzidas no quadro das comunicações cotidianas suscitadas pelas identidades sociais.

Diversas pesquisas têm demonstrado as relações entre as representações e o contexto no qual são produzidas. São de interesse mais próximo as investigações que têm como objeto os papéis parentais, como a pesquisa de Frascarolo, Chillier, e Robert-Tissot (1996). Estes autores verificaram as relações entre o tipo de engajamento paternal no cotidiano e as representações sociais dos papéis parentais. Encontraram diferenças significativas entre os pais tradicionais e os novos pais10: estes últimos tinham as representações mais igualitárias de papéis paterno e materno.

Trindade (1993) também encontrou relação entre as representações de maternidade e paternidade e as condições de vida dos sujeitos. Os resultados deste trabalho mostram que, nas representações da paternidade, o elemento Pai Provedor apareceu entre os homens que tinham 3 filhos ou mais, eram mais velhos, mais pobres e com menor nível de escolaridade. Estes fatores, na análise dessa autora, atuam em conjunto com o ideário dominante, ressaltando, para o pai, "... o esforço despendido para o sustento da família, transformando esta atividade na característica paterna primordial por ser a mais – ou a única – enfatizada em seu cotidiano" (p. 544). Por outro lado, só entre os homens sem filhos a paternidade foi definida como condição estruturante da identidade masculina. Este fato, para a autora, também mostra a força das condições de existência. Pode-se supor que a concretização da paternidade "... pode alterar as características da representação da paternidade, deslocando seu núcleo principal para outro elemento, tornando um elemento anacrônico e enfatizando outros" (p. 544).

Tomando, então, como pressuposto a condicionalidade recíproca entre as representações e o contexto no qual são produzidas, procuramos investigar as possíveis diferenças de representações sociais da infertilidade feminina entre grupos com diferentes inserções sociais. Delimitamos três condições de cotidiano que consideramos ter potencial para produzir diversificações nas representações sociais em foco: a) a condição de solteira, que demarcaria a seleção de mulheres para quem a maternidade e, por conseqüência, a infertilidade ainda não pertencem concretamente ao cotidiano e não devem aparecer como preocupações prementes; b) a condição de casada, sem filhos, que delimitaria a seleção de mulheres para quem maternidade também não pertence concretamente ao cotidiano, no plano das condições objetivas, mas a infertilidade já pode estar presente como preocupação mais ou menos premente, dependendo da situação; e c) a condição de casada, com pelo menos um filho biológico, que demarcaria a seleção de mulheres, para as quais o exercício da maternidade é parte do cotidiano e estão descartadas preocupações pessoais com a infertilidade.11

 

Método

Sujeitos - A coleta de dados foi feita com dois grupos de setores sócio-econômicos diferentes.

Setores populares: Grupo I (GI) - 90 mulheres, com idade mínima de 18 e máxima de 40 anos, moradoras de dois bairros da periferia da Grande Vitória, ES, considerados bairros populares, onde se concentram segmentos de trabalhadores da construção civil e empregadas domésticas. Foram estabelecidos 3 subgrupos: a) 30 mulheres casadas, com pelo menos um filho biológico; b) 30 mulheres casadas há pelo menos 1 ano, sem filhos; c) 30 mulheres solteiras, sem filhos.

Setores médios: Grupo II (GII) - 90 mulheres, moradoras em dois bairros da orla marítima de Vitória, considerados bairros de classe-média e média alta, onde se concentram segmentos de profissionais liberais e empresários, seguindo os mesmos critérios do Grupo I para a constituição dos 3 subgrupos.

Instrumento - Protocolo de entrevista. Além dos dados pessoais de interesse, como idade, estado civil, renda familiar, nível de escolaridade e existência de filhos, os dados específicos foram coletados a partir dos seguintes núcleos temáticos: infertilidade; gravidez; aborto, doenças sexualmente transmissíveis, contracepção e práticas relacionadas à saúde reprodutiva.

Cada um destes núcleos temáticos gerou palavras ou expressões indutoras que foram utilizadas para associação livre, permitindo a verificação dos elementos da representação social e das relações produzidas.

Procedimento - As entrevistas foram realizadas nas casas ou locais de trabalho das participantes, sendo gravadas sempre que permitido.

A expressão "mulher que não pode ter filhos"12 foi utilizada como geradora para a associação livre a partir da experiência em outra pesquisa que focalizou as representações sociais da infertilidade entre mulheres com problemas nessa área (Trindade, 1998) e do pré-teste realizado com o instrumento.

 

Resultados

Sobre as participantes

Procuraremos descrever aqui algumas das características das respondentes que podem contribuir para melhor configurar o perfil da amostra.

Considerando o total de sujeitos, 62,8% estavam inseridos no mercado de trabalho, sendo maior a participação dos sujeitos dos setores médios (GI = 51,1% e GII = 74,4%).

A decisão de selecionar sujeitos tendo como critério locais de moradia de diferentes padrões foi eficaz para obter 2 grupos bastante diferenciados, tanto em relação à renda familiar, cujas médias foram de 6,01 e 21,84 salários mínimos (para GI e GII, respectivamente), como em relação aos níveis de escolaridade, como mostra a Figura 1.

 

 

Entre as moradoras dos bairros populares, as maiores freqüências encontradas foram para ensino fundamental completo (42,2%) e incompleto (35,6%), enquanto que, entre as moradoras dos bairros considerados de classe média e média-alta, as maiores freqüências foram para ensino médio (68,9%) e ensino superior (22,2%). Vale registrar ainda que, à época da coleta de dados, 3 mulheres de GI (3,3%) cursavam o ensino fundamental, 7 (7,8%) estavam matriculadas no ensino médio e 1 mulher (1,1%) cursava o nível superior. Entre as mulheres dos segmentos médios, 31 freqüentavam cursos de nível superior (34,4%) e 1 mulher (1,1%) cursava o ensino médio.

A presença de filhos implicou na seleção de subgrupos diferenciados com relação à faixa etária: entre as mulheres solteiras e casadas sem filhos, predominou a faixa etária de 18 a 25 anos (80%), e entre as mulheres casadas com filhos, predominou a faixa etária de 34 a 40 anos (50%).

Considerando a amostra em seu conjunto, 45 das participantes (25%) relataram já ter tido ou estar tendo problemas relacionados aos órgãos reprodutores. Apenas 16 delas (8,8%), distribuídas de forma equivalente entre os subgrupos, indicaram problemas que podem inviabilizar a maternidade biológica, como malformação uterina e abortos espontâneos repetidos.

 

Sobre as representações sociais da "mulher que não pode ter filhos"

Os resultados foram organizados visando a comparação entre grupos e subgrupos. Sempre que se percebeu ser a condição "sem filhos" mais importante do que ser "casada" ou "solteira", os dois subgrupos foram analisados em conjunto.

A literatura aponta como possibilidade, quando o objetivo é descrever a estrutura das representações em termos de suas principais dimensões de significados, a utilização da análise de correspondência (ANACOR), que permite também verificar as diferenças entre grupos e subgrupos (Ceotto, 1999; Manetti & Tanucci, 1993; Zonta, 1997).

Para delinear o espaço semântico do campo representacional, seguimos as orientações de Ceotto (1999) e Zonta (1997): a) inicialmente, os dados foram processados pelo software SPADT13, que permite a homogeneização das palavras ou expressões obtidas a partir da expressão geradora e, posteriormente, produz uma nova listagem pela ordem de freqüência; b) com as nove palavras mais freqüentes, foi construída uma matriz simétrica que mostrou as freqüências dos cruzamentos dessas palavras; c) a partir dessa matriz, optamos por apresentar a análise de correspondência através de um gráfico de dispersão (scatterplot)14, lembrando que com os dados de freqüências já seria possível analisar o conteúdo representacional. A opção pela forma gráfica mostra concordância com Zonta (1997, p. 45): "O que queremos analisar é o perfil desta freqüência, ou seja, como ela se manifesta no conjunto dos sujeitos".

Como o campo representacional demarcado é gerado pelas palavras ou expressões de maior ocorrência, podemos dizer que o gráfico mostra o perfil que a freqüência estabelece, indicando também as possibilidades de interpretação da distribuição dos pontos. As palavras com posição mais central foram associadas com maior freqüência com a(s) outra(s) mais próxima(s) a ela(s), "... o que demonstra que elas têm uma presença mais 'forte' ou, no melhor sentido do termo, mais consistente" (Ceotto, 1999, p. 82). Além disso, todas as palavras próximas entre si formam subgrupos que indicam a existência de correspondência entre elas.

A Figura 2 mostra os elementos da representação social de "mulher que não pode ter filhos" para o conjunto da amostra.

 

 

Na Figura 2, considerando o eixo central, verificou-se que os elementos com maior tendência à centralidade foram tristeza e incompleta, fortemente associados. Os mais periféricos foram adoção, que tem correspondência com busca de soluções, e o elemento não é problema, que aparece distante de todos os outros. Frustração e pessoa inferior têm uma correspondência mais fraca com o termo incompleta, e os termos cobrança dos outros e solidão também aparecem com fraca correspondência entre si.

Os gráficos de dispersão relativos à inserção social não apresentaram diferença expressiva de perfil, mantendo a forte associação e a maior tendência à centralidade dos elementos tristeza e incompleta. Contudo, aplicando-se o Qui-quadrado, verificou-se a existência de diferenças estatisticamente significativas em relação à presença de dois elementos, mais freqüentes entre as mulheres dos setores médios: busca de soluções, (c2 = 9,24; p< 0,002) e cobrança dos outros (c2 = 7,36 ; p< 0,007).

A configuração do campo representacional relativo à existência ou não de filhos mostrou dados aparentemente desconcertantes, que serão discutidos posteriormente. O elemento solidão só aparece entre as mulheres com filhos e a aplicação do Qui-quadrado indicou diferenças para o elemento não é problema, mais freqüente entre as participantes sem filhos (c2 = 5,40 ; p< 0,02).

Em um segundo momento, procurando melhor compreender o significado dos elementos produzidos pela técnica de associação livre e ampliar as possibilidades de produção de outros elementos relevantes, solicitou-se que as respondentes apontassem os fatores a que atribuíam a ocorrência da infertilidade feminina. Perguntou-se também se consideravam como problema o fato de não se poder ter filhos, tanto para a mulher como para o homem, justificando suas respostas. Seria possível, assim, verificar possíveis diferenças de significados atribuídos à infertilidade feminina e masculina.

Considerando respostas múltiplas, a infertilidade feminina foi atribuída a problemas orgânicos (80%), problemas emocionais/psicológicos (18,9%), fatalismo(12,2%), que incluiu respostas como "É a vontade de Deus" e "Cada um tem seu destino" e negligência(7,8%), com respostas que indicavam falta de cuidado com a saúde. A análise das diferenças entre os grupos e subgrupos mostrou como única diferença significativa a freqüência da categoria problemas emocionais/psicológicos, mais citada pelas mulheres dos segmentos médios (28,9%) do que pelas mulheres dos setores populares (6,7%).

Tomando o conjunto da amostra, a tendência dos sujeitos é avaliar que a condição de ser infértil é mais problemática para as mulheres (80,0%) do que para os homens (68,9%). A comparação entre os grupos para a resposta positiva (a infertilidade é um problema), tanto em relação às mulheres como em relação aos homens, não indicou diferenças significativas (GI = 81,1% e GII = 78,9% para as mulheres; GI = 70,0% e GII = 67,8% para os homens); mas, a freqüência de respostas negativas (a infertilidade não é um problema) foi maior para os homens, sendo que entre as mulheres dos setores populares (23,3%) também foi maior do que entre as mulheres dos setores médios (12,2%).

Diferenças expressivas, tanto para as respostas positivas como para as negativas, foram encontradas na comparação entre mulheres com filhos e sem filhos, como mostra a Figura 3. Pode-se verificar que estão entre as mulheres casadas com filhos as maiores freqüências de respostas positivas para a mulher (88,3%) e negativas para o homem (25%).

 

 

Como complemento, a resposta "depende da mulher" foi dada por 22 sujeitos (12,2%) e a resposta "depende do homem" por 24 sujeitos (13,3%).

A análise das justificativas foi feita a partir da elaboração de categorias. Estabelecemos como critério a apresentação das categorias que foram indicadas por pelo menos 10% dos sujeitos, sempre considerando a possibilidade de respostas múltiplas.

A categorização das justificativas das participantes que consideraram o fato de não poder ter filho um problema para a mulher, tendo como referência 144 sujeitos, evidenciou:

1.Naturalização (52,1%): Foram incluídas falas que indicavam tanto a ótica do natural/biológico, como as que se referiam à naturalização do valor social da maternidade.

2.Casamento (21,5%): Foram incluídas falas que se referiam ao filho como necessário para a felicidade ou para a manutenção do casamento.

3.Estigma(21,5%): Foram incluídas referências a sentimentos ou percepção de inferiorização e adjetivações pejorativas.

4.Sentimentos(20,8%): Falas que se referiam à tristeza, à frustração, à solidão, ou indicavam a necessidade de um filho para não ficar sozinha.

5.Filho biológico (10,4%): Respostas que apontavam a necessidade de um filho biológico como condição de concretização da maternidade.

As categorias e freqüências encontradas na análise das justificativas das respondentes que consideraram não poder ter filhos como problema para o homem, tendo como referência 124 sujeitos, foram:

1.Ciclo natural(29,0%): Incluiu respostas que indicavam a paternidade como uma etapa do processo de desenvolvimento masculino.

2. Ameaça à virilidade (27,4%): Falas que se referiam à paternidade como uma demonstração de potência sexual ou à incapacidade de ter filhos como um acontecimento que põe em dúvida a virilidade.

3.Casamento/Família(18,5%): Falas que apontavam a necessidade de um filho para preservar o casamento ou a vontade masculina de constituir família.

4.Descendência(16,9%) – respostas que se referiam à necessidade masculina de continuidade.

5.Sentimentos(15,3%):Falas que se referiam a sentimentos de tristeza, frustração e revolta.

É de interesse também analisar as justificativas dadas para as respostas negativas. Entre as participantes, 14 (7,8%) avaliaram que a infertilidade não é problema para a mulher e 32 (17,8%) que não é problema para o homem, sendo maior a freqüência desta última resposta entre as mulheres dos segmentos populares (GI = 23,3% e GII = 12,2%) e entre as mulheres casadas com filhos (solteiras = 13,3%; casadas sem filhos = 15,0% e casadas com filhos = 25,0%).

A possibilidade de adoção e de utilização de técnicas de reprodução assistida foi a justificativa dada com maior freqüência pelas participantes que não consideraram a infertilidade feminina como problema (42,8%)15, seguida por respostas que apontavam maior liberdade para a mulher sem filhos (21,4%) e argumentos de que a mulher também tem outros interesses além da maternidade (21,4%).

Entre as participantes que não consideraram a infertilidade masculina um problema, predominaram as justificativas que atribuíam ao homem características como insensibilidade, egoísmo e irresponsabilidade (56,2%), com falas como:

A segunda justificativa mais freqüente apontava o fato de os homens terem outros interesses (15,6%), como "o homem não tem esse sonho, o homem pensa mais em ter dinheiro" (solteira).

 

Discussão

Triste e incompleta: é assim que se sentem as mulheres impedidas de viver o que os dados apontam como a realização feminina: a glória da maternidade. Além disso, sentem-se pressionadas, solitárias, frustradas e inferiores.

A avaliação feita pelos sujeitos que consideraram a condição de infértil um problema para a mulher corrobora as evocações produzidas pela associação livre, mostrando que poucas mulheres percebem a situação como não problemática. No campo representacional, a expressão não é problema aparece sem correspondência com qualquer outra porque, em princípio, são incompatíveis.

De qualquer forma, o que se vê é a manutenção de uma representação social da infertilidade, que implica em depreciação e estigmatização da mulher, intrinsecamente associadas às representações da maternidade. Esta é sempre naturalizada, ora como destino biológico inarredável, ora como valor social inseparável da concretização da identidade feminina.

A análise do conjunto de dados mostra poucas diferenças entre grupos e subgrupos, apontando para a existência de preceitos comuns que transcendem as particularidades do cotidiano. Cabe aqui a observação de Vala (1997), ao ressaltar que, apesar da ênfase que se dá ao papel ativo do sujeito na construção de suas representações, é preciso ter presente a relação entre as representações e as configurações culturais dominantes, por um lado, e a dinâmica social, por outro. As linhas de força decorrentes destes dois fatores conjugados, por sua vez,

...ajudam a compreender o que podemos designar como pressões para a hegemonia e homogeneização de certas representações sociais (...) Verifica-se, assim uma larga permanência temporal de algumas representações como, por exemplo, a representação social sobre o trabalho como um dever, geralmente atribuída à ética protestante, mas que penetrou noutros padrões culturais e se mantém relativamente consistente desde há séculos. (p. 378)

A associação entre adoção e busca de soluções é clara, uma vez que a adoção é apontada como uma das possíveis soluções para a mulher infértil. Pensando as novas tecnologias reprodutivas, intensamente veiculadas pela mídia, é fácil entender a incorporação do elemento busca de soluções na representação social da infertilidade. Também é facilmente explicável a diferença encontrada para este elemento de acordo com a inserção social dos sujeitos, visto que as soluções apontadas focalizaram apenas o tratamento médico visando a reversão do quadro e as técnicas de reprodução assistida mais conhecidas, como a inseminação artificial e a utilização de "barriga de aluguel". Tanto o nível de informação sobre as técnicas de reprodução assistida como a possibilidade concreta de acesso a elas são maiores entre as mulheres com melhor nível de escolaridade e mais recursos financeiros.

Foi entre as mulheres sem filhos que a expressão indutora evocou com maior freqüência o elemento não é problema, o que foi corroborado pelos dados que mostram as mulheres com filhos mais presentes quando se solicitou a avaliação da condição de infértil. Algumas considerações podem aqui ser feitas: em primeiro lugar, as participantes sem filhos eram mais novas, muitas estavam matriculadas em cursos universitários, o que pode ter contribuído para produzir uma avaliação menos impregnada dos modelos tradicionais. Em segundo lugar, a maioria delas ainda não passou pelo "teste da fertilidade", ainda não experienciou a pressão familiar e social decorrente da situação, o que torna a avaliação da situação mais distante das implicações afetivas e emocionais. Estas implicações transformariam necessariamente a qualidade da relação sujeito/objeto, podendo explicar também a ausência do elemento cobrança dos outros em seu campo representacional.

Em relação às atribuições, as causas orgânicas foram as mais citadas, o que é compatível com os dados médicos atuais. No entanto, ainda se encontram ecos da psicogênese como constituintes das representações, principalmente entre pessoas dos setores médios; muito embora, haja indicações de que "o estresse pode prejudicar a espermatogênese e a ovulação em alguns casos" e que "... os modelos que atribuem a responsabilidade da infertilidade à psicopatologia feminina não são mais seriamente considerados",segundo Stanton e Danoff-Burg (1996, p. 272). De qualquer forma, são alicerçadas, assim, crenças que patologizam as mulheres, com conseqüências perversas tanto no plano pessoal quanto conjugal.

Tentar entender como as mulheres percebem as diferenças de gênero é fundamental quando se quer compreender representações estreitamente vinculadas à maternidade, produzidas em sintonia com as representações sociais da paternidade, como no caso da infertilidade. Dunkel-Schetter e Stanton (1991) advertem que a angústia gerada pela descoberta da infertilidade pode variar de acordo com a valorização dada à maternidade/paternidade. Assim, os estudos que têm como objetivo compreender as reações à infertilidade devem estar atentos para a importância que os indivíduos dão à parentalidade, seja como um aspecto estruturante da identidade, seja como um objetivo de vida. Essas autoras enfatizam ainda que,

Na medida em que os papéis sexuais tradicionais ditam que as mulheres devem valorizar a maternidade, e é inadequado se elas não se tornam mães, as diferenças de gênero nas reações à infertilidade podem refletir esta diferença socializada na importância de tornar-se mãe/pai. (p. 203)

Na análise das categorias construídas para as justificativas da avaliação da infertilidade como problema, a presença recorrente de explicações focalizadas no "ser mãe/pai é..." evidencia o estreito vínculo entre as representações da infertilidade e as representações da maternidade/paternidade. Apenas duas categorias incluíram verbalizações que expressavam o mesmo sentido tanto para a infertilidade masculina como para a feminina: a que se referia a sentimentos de tristeza e frustração e a que indicava a necessidade de um filho como condição para a felicidade ou para a manutenção do casamento.16 Como crença e como prática, ainda hoje se concebe o filho como recurso para "segurar seu homem" ou como exigência para a legitimação do casamento. Produz-se aqui uma distorção, que faz pensar nas implicações para a relação mãe-criança, quando a criança, a parte mais frágil da díade, é considerada a responsável pela felicidade conjugal dos pais.

Nos outros casos, apareceram diferenças de significado que merecem destaque. A primeira diferença diz respeito à naturalização da maternidade e da paternidade, pondo novamente em evidência o vínculo entre as representações da infertilidade e da maternidade/paternidade: enquanto a maternidade é representada como meta natural, cujo caminho começa a ser trilhado desde o nascimento, sem qualquer referência ao processo de desenvolvimento, a paternidade também é natural na vida do homem, mas a partir de um determinado momento. É como se a mulher já nascesse preparada para a maternidade, mas o homem precisasse passar por um processo de amadurecimento que o prepararia para a paternidade. Este tipo de crença mostra a difusão de explicações biológicas indevidamente apropriadas. Na verdade, apenas a gestação e o parto são biologicamente definidos; mas, tanto o exercício da maternidade como o exercício da paternidade são socialmente aprendidos.

A categoria estigma,referente à infertilidade feminina, pode ter correspondência com a categoria ameaça à virilidade, porque ambas podem ser entendidas como uma forma de inferiorização. No entanto, não couberam ao homem infértil metáforas depreciativas como as que foram utilizadas para as mulheres, sempre ancoradas na associação simbólica mulher-natureza: "tronco oco", "árvore sem frutos", "árvore seca", "terra árida", entre outras, que, em conjunto com as evocações incompletaepessoainferior, comprovam a permanência do estigma da infertilidade feminina no pensamento social. Por outro lado, enquanto a infertilidade masculina foi representada como fortemente ligada à sexualidade, pondo em dúvida a potência sexual do homem, não houve qualquer referência à sexualidade quando o foco era a infertilidade feminina, reafirmando o estereótipo da mulher-mãe como um ser assexuado, fundamentado na dupla moral sexual que até hoje permeia as relações de gênero, que tem como argumento as diferenciações biologicamente determinadas.

A falácia da argumentação centrada nas características biológicas é exposta em diversos estudos históricos, como o de Levack (1988, p. 130) que, reportando-se ao período da caça às bruxas na Europa, explica que a "... imagem da mulher como o membro mais carnal e sexualmente indulgente da espécie foi generalizada na culturaeuropéia medieval e moderna inicial; somente no século XVIII é que deu lugar à imagem alternativa como sexualmente passiva".

Desde então e até há bem pouco tempo, quanto à sexualidade, a mulher verdadeiramente feminina "...destinada a ser esposa e mãe, era aquela passiva sexualmente, embora terna e amorosa. Para ela o sexo deveria ser destinado quase exclusivamente à procriação, e o desejo coisa de homem ou prostituta" (Rocha-Coutinho, 1994, p. 107).

Dunkel-Schetter e Stanton (1991) apontam alguns motivos para que a infertilidade seja ainda percebida como um estigma, enfatizando dois deles. O primeiro problema é a falta de informação: os fatos sobre a infertilidade não são adequadamente difundidos. Isto contribui para a persistência dos mitos, como a crença de que a adoção aumenta a probabilidade de concepção, ou de que a fertilidade está associada à potencialidade sexual, creditando maior fertilidade aos homens mais "másculos" e às mulheres mais "femininas".

Em segundo lugar, citam o segredo, também já mencionado por outros autores (Schaffer & Diamond, 1994; Trindade, 1998). A informação sobre a incapacidade de conceber é considerada muito privada e embaraçosa, em parte porque a infertilidade envolve o comportamento sexual, assunto que nem todos se sentem confortáveis para discutir com familiares e amigos. Discussões sobre infertilidade podem expor as pessoas a comentários ou sugestões relacionadas a seu comportamento sexual, nem sempre benvindos. Além disso, os casais também podem se abster de discutir seus problemas de concepção por temerem as reações dos membros da sua rede social, como piadas, brincadeiras ou conselhos não solicitados (Dunkel-Schetter & Stanton, 1991).

Outra diferença aparece nas falas que constituíram a categoria filhobiológico como uma necessidade para a mulher, quando cotejadas com a categoria descendênciaque, de acordo com as participantes, é uma necessidade masculina. As respostas sugerem que a necessidade feminina parece estar centralizada na garantia de "autenticidade" do produto ("se ela adotar, não é o sangue dela, não vai ser mãe de verdade") e na obrigação de vivenciar todo o processo ("se você não parir, não é a mesma coisa"). Quando falam sobre os homens, entretanto, o filho biológico assume o sentido da continuidade, aludindo à necessidade masculina de garantir a descendência ("todo homem quer ser pai, gosta de ter alguém para continuar com o nome da família"; "A maioria dos homens tem aquela idéia de hereditariedade, de deixar sua marca no mundo").

O significado da expressão não é problema, constituinte do campo representacional, pode ser melhor interpretado à luz dos argumentos utilizados quando se solicitou às respondentes que justificassem sua resposta. A afirmação de que a infertilidade não é problema para a mulher ocorreu com baixa freqüência. As justificativas dadas, ao mesmo tempo em que mostram a resistência feminina aos modelos tradicionais quando se reportam à liberdade e a outros interesses, reforçam a adesão a estes mesmos modelos, quando situam a solução do problema nas técnicas de reprodução assistida, por mais contraditório que possa parecer. Estas explicações propõem um sentido oposto para a resposta não é problema e mostram a necessidade de investigar além da resposta produzida pela associação livre, procurando desvelar o que exprimem os termos encontrados: na verdade, a infertilidade feminina é um problema que estas participantes acreditam poder ser resolvido através das novas técnicas reprodutivas.

Considerando todos os momentos em que foram citadas, as referências às tecnologias de reprodução assistida alcançam uma freqüência relativamente alta, o que suscita outra preocupação. Cabe assinalar que as discussões sobre a utilização e, principalmente, sobre a divulgação maciça e acrítica destas técnicas pela mídia, têm produzido polêmicas, ora enaltecendo sua função libertadora, ora criticando sua função opressora. Podem ser consideradas libertadoras porque permitem acabar com o sofrimento de homens e mulheres que têm suas vidas abaladas pelo diagnóstico de infertilidade. A cautela, contudo, é necessária. Antes de eleger as técnicas de reprodução assistida como a solução perfeita, existem dilemas éticos e jurídicos que devem ser considerados, investigados e amplamente discutidos, focalizando principalmente as conseqüências sócio-afetivas, tanto para os pais como para as crianças.

Nossos dados indicam as mulheres dos setores médios como as que mais se referem a essa possibilidade e mostram também que são as que mais sentem a pressão social para a maternidade. A busca de solução, através das técnicas de reprodução assistida entre estas mulheres, confirma tanto o maior acesso à informação como a maior disponibilidade de recursos financeiros. Entretanto, pode-se aventar a possibilidade de que a pressão social, ou pelo menos o sentimento de estar sob pressão, esteja sendo potencializado exatamente pela exposição às freqüentes e altissonantes informações divulgadas pela mídia.Concretiza-se, assim, a função opressora dessas técnicas, que podem não estar libertando a mulher de um destino cruel, mas aprisionando-a cada vez mais ao "destino natural" da maternidade, principalmente quando se verifica que estes recursos só são apontados quando está em pauta a infertilidade feminina. Hagenfeldt (1991, p. 222) adverte que "...é preciso considerar que a existência desses métodos pode pressionar casais sem filhos e, involuntariamente, forçá-los a uma paternidade que, no fundo, não foi desejada".

A solidão como elemento da representação social da infertilidade feminina teve presença expressiva apenas entre as mulheres com filhos, exatamente o subgrupo que, com maior freqüência, avaliou que a infertilidade não é problema para os homens, qualificados como insensíveis, egoístas e irresponsáveis. Relacionados ou não, estes dados revelam a importância do cotidiano na produção das representações, neste caso configurado pela imbricação de dois relevantes fatores, experienciados apenas pelas mulheres casadas com filhos: a qualidade da relação conjugal e o modo como é exercida a paternidade em seu contexto imediato. O filho como antídoto para a solidão retrata uma condição de vida conjugal marcada pela ausência concreta ou metafórica do marido. Do mesmo modo, as adjetivações utilizadas revelam o vigor do modelo tradicional de paternidade, espelhando a convivência com um pai nominal, distante dos cuidados e das preocupações próprias das relações parentais, principalmente entre as mulheres dos setores populares, como sempre mais penalizadas.17

Lembrando que as representações sociais são "... fatores produtores da realidade, com repercussões na forma como interpretamos o que nos acontece e acontece à nossa volta, bem como sobre as respostas que encontramos para fazer face ao que julgamos ter acontecido"(Vala, 1997, p. 356), os dados encontrados preocupam porque denotam a produção de uma realidade que ignora as dificuldades objetivas para o exercício da maternidade, mesmo entre mulheres com filhos que convivem cotidianamente com essas dificuldades. O cansaço decorrente da dupla jornada de trabalho, as preocupações geradas pelas precárias condições financeiras, a ausência do pai, a responsabilização/culpabilização pelo desenvolvimento dos filhos, o desgaste emocional e a anulação pessoal não são contemplados.

As representações sociais da infertilidade, interpretadas sob a ótica do valor social da maternidade, sugerem que, apesar do cotidiano, continuamos presos à versão romântica e idealizada da maternidade, ainda hoje tão emblemática. Dificulta-se, assim, a visão de outras possibilidades, tanto em relação a "outras maternidades" como no que diz respeito à "não maternidade". Esta situação, por sua vez, contribui decisivamente para que a condição de infértil se apresente como uma transgressão das prescrições e expectativas socialmente impostas tanto para a mulher como para o homem normais.

 

 

Trindade, Z. A., & Enumo, S. R. F. (2002). Sad and Incomplete: A Feminine View of The Unfertile Woman. Psicologia USP, 13 (2), 151-182.

Abstract: This paper discusses the results of a research aimed at the investigation of social representations of female infertility, among women of different social layers. We interviewed 180 women between 18 and 40 years old, half of them living in low-income neighborhoods and the other half in middle-class neighborhoods. Each group was divided into 3 subgroups: a) 30 married women, with at least one biological child; b) 30 women married for at least a year, without children; c) 30 single women, without children. For data collection, the technique of free association was utilized, the generating expression being "woman who can't have children". Specific questions on the subject of interest were also asked. As main elements of the representational field, data showed sadness, incompleteness, frustration, pressure from others, loneliness, inferiority, adoption, search for solutions and not a problem, all of which reaffirmed the permanence of the infertility concept as a stigmatizing condition for women.

Index terms: Iinfertility. Motherhood. Social representation.

 

Trindade, Z. A., & Enumo, S. R. F. (2002). Sad and Incomplete: A Feminine View of The Unfertile Woman. Psicologia USP, 13 (2), 151-182.

Résumé : Cet article relate les résultats d'une recherche ayant comme objectif une enquête sur les représentations sociales de la stérilité féminine chez des femmes de différentes couches sociales. On a interrogé 180 femmes d'âge variant entre 18 et 40 ans, dont 90 habitent des quartiers populaires et 90 habitent des quartiers considérés de classes moyennes. Chaque groupe a été divisé en trois sous groupes : a) 30 femmes mariées avec au moins un enfant biologique ; b) 30 femmes mariées depuis au moins un an, sans enfant ; c) 30 femmes célibataires sans enfant. Pour collecter les données et on va utiliser la technique d'associations libres, avec comme expression générique « femme qui ne peut avoir d'enfants », ainsi que des questions spécifiques sur ce thème. Les données ont montré comme éléments principaux du champ de représentation : tristesse, incomplétude, frustration, pression extérieure, solitude, infériorité, adoption, recherche de solutions et « il n'y a pas de problème », ce qui confirme la permanence de la stérilité comme une condition stigmatisant la femme.

Mots-clés : Stérilité. Maternité. Représentation sociale.

 

 

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Recebido em 17.12.2001
Aceito em 05.03.2002

 

 

1Endereço para correspondência: Programa de Pós-Graduação em Psicologia/UFES. Av. Fernando Ferrari s/n – Goiabeiras. Vitória-ES. CEP: 29060-900. Endereço eletrônico: enumosrf@npd.ufes.br

2Na abertura de um capítulo sobre a saúde reprodutiva da mulher, Stanton e Danoff-Burg (1996) apresentam duas citações que, de acordo com elas, são necessárias para nos lembrar que a maternidade tem sido considerada como a realização definitiva da mulher e a infertilidade como a tragédia definitiva. Esta citação de Spock reproduzida acima é uma delas.

3Ver Badinter (1985), para compreensão sócio-histórica do surgimento da "ideologia do instinto materno".

4Nome dado ao útero pelos médicos do período colonial, como explica Del Priore (1997).

5Neste período a preocupação fundamental era com a etiologia do problema, e ainda não eram muito conhecidas as causas orgânicas que impossibilitavam a reprodução.

6Atualmente já se sabe que 80% dos casos de infertilidade têm causas orgânicas, distribuídas de forma equivalente entre homens e mulheres, e se estima que apenas 5% possam ser atribuídos a causas emocionais (Stanton & Dunkel-Schetter, 1991).

7Ambulatório de Infertilidade do Serviço de Pós-Graduação da Santa Casa de Misericórdia de Vitória-ES.

8Projeto de pesquisa integrado financiado pelo CNPq, que contou com a participação de bolsistas de Iniciação Científica.

9Para mais informações sobre a teoria das representações sociais e seus desdobramentos, ver obras de Sá (1996, 1998).

10Os autores deram a denominação de "pais tradicionais" àqueles cujo engajamento paternal estava baseado na divisão tradicional do trabalho, com a concepção de que pais e mães têm papéis complementares e diferentes. Foram denominados "Novos pais" aqueles que, no cotidiano, demonstravam um intercâmbio de papéis, sem divisão determinada pelo sexo biológico.

11Estamos nos referindo à infertilidade primária, definida como ausência de filho biológico. Podem ter ocorrido casos de infertilidade secundária, caracterizada pela ocorrência de pelo menos uma gravidez prévia.

12Também entre estes sujeitos percebeu-se que o termo "infertilidade" não era próprio para gerar significados, produzindo mais definições e sinônimos, como "não poder ter filhos" e "esterilidade".

13Sistème Portable pour l'Analyse des Données Textuelles.

14Para uma descrição detalhada deste tipo de procedimento de análise de dados, ver Ceotto (1999) e Zonta (1997).

15Também entre as participantes que deram respostas condicionais (depende da mulher) esta categoria foi a mais freqüente: 54,5%.

16Na pesquisa já citada (Trindade, 1998) com usuárias de um Ambulatório de Infertilidade, foram comuns falas como "Sem filho parece que eu nem tô casada direito".

17Dados sobre a relação entre nível de escolaridade, que no Brasil refletem a inserção sócio-econômica, e o exercício da paternidade podem ser encontrados em Trindade (1997).