SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.19 issue1Lo arbitrario del lenguaje y el lugar de la culturaEscolarização de meninas e meninos brasileiros: o desafio da co-educação author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Pro-Posições

On-line version ISSN 1980-6248

Pro-Posições vol.19 no.1 Campinas Jan./Apr. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-73072008000100020 

DIVERSO E PROSA

 

Modernistas em um diner

 

 

Telê Ancona Lopez

Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) – Universidade de São Paulo (USP). http://www.ieb.usp.br

 

 

O arquivo de Mário de Andrade, no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo, guarda, entre os cardápios que o escritor preservou, este, de um jantar oferecido por René Thiollier a Olívia Guedes Penteado, em 1925, 7 de maio. Perdão! Trata-se do menu do diner, que distingue a homenageada como "Madame" e designa em francês todas as iguarias de sal – sopa, peixe, massa leve recheada (vol au vent) com recheio de fígado de gansos desafortunados, peru à brasileira, presunto de York, salada –; as sobremesas – bolo batizado com o nome do amigo distante, o poeta franco-suíço Blaise Cendrars, salada de frutas e sorvete. As bebidas são champanhe e licores, estes, assim como o café, para fechar o ágape que confraterniza os modernistas de São Paulo e seus mecenas, no ano da publicação de Pau Brasil, de Oswald de Andrade. O nome "Mario de Andrade", a tinta preta, no alto, indica a organização dos convivas à mesa; o apuro gráfico do cardápio; a mansão da avenida Paulista que tem por nome "Villa Fortunata" e se mostra em fotografia trabalhada pelo estúdio Stern, de Paris, testemunham o vínculo de certos representantes da elite social e econômica com a renovação das artes e das letras. Os três mecenas do modernismo paulistano estão presentes: o anfitrião, dona Olívia Guedes Penteado e Paulo Prado. Thiollier, contista de O senhor dom Torres (1921), e o editor da Revista do Brasil haviam se empenhado para a realização da Semana de Arte Moderna, em 1922, e Dona Olívia, em seu salão nos Campos Elíseos, destacava-se como a Senhora das Artes, segundo a historiadora Denise Mattar. Os três assinam o verso do cartão, assim como Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade (como "Pau Brasil"), Guilherme de Almeida e outros presentes. Mário de Andrade constrói seu souvenir, desperto para o relato da História nos documentos do cotidiano.

Em abril do ano anterior, na viagem a Minas Gerais, que empreendera com D. Olívia, Tarsila, Oswald e o filho dele, Nonê, Paulo Prado, René Thiollier, Gofredo da Silva Telles e Blaise Cendrars, viagem na qual nascera a estética Pau Brasil, Mário de Andrade copiara, para seu arquivo, os dados pessoais deixados pelos excursionistas no Hotel Macedo, em São João Del Rei. Eis o registro impregnado do "claro riso dos modernos", unindo mecenas, pintora e poetas: "D. Olívia Guedes Penteado, solteira, photographer, anglaise, London. D. Tarsila do Amaral, solteira, dentista, americana, Chicago. Dr. René Thiollier, casado, pianista, russo, Rio. Blaise Cendrars, solteiro, violinista, allemand, Berlin. Mário de Andrade, solteiro, fazendeiro, negro, Bahia. Oswald de Andrade Filho, solteiro, escrittore, suíço".

 

 

 

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License