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Scientia Agricola

Print version ISSN 0103-9016

Sci. agric. vol. 53 n. 2-3 Piracicaba May/Dec. 1996

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-90161996000200010 

CONSERVAÇÃO PÓS-COLHEITA DE ABACATES Persia americana MILL., VARIEDADES FORTUNA E QUINTA, POR IRRADIAÇÃO

 

R.M. de A. GERMANO; V. ARTHUR; F.M. WIENDL
Centro de Energia Nuclear na Agricultura/USP, C.P. 96, CEP: 13400-970 - Piracicaba, SP.

 

 

RESUMO: O presente trabalho teve como objetivo determinar a dose de radiações gama do Cobalto-60 capaz de prolongar a vida de prateleira de frutos de abacate de duas variedades: Fortuna e Quintal, possibilitando por conseguinte, aumentar o período de sua comercialização. Os abacates após sua colheita foram mantidos sob duas condições: em temperatura ambiente, entre 21 e 24° C e umidade relativa entre 65 e 75%, e sob refrigeração, com temperatura entre 12 e 13,5° C e umidade relativa entre 45 e 55%. Foram feitas determinações do porcentual de perda de peso diário, determinações de dias de vida pós irradiação e resistência à penetração em suas cascas. Observou-se que as radiações na variedade Fortuna induziram um prolongamento na vida de prateleira que na testemunha era de sete dias, para 11,2 dias quando irradiados com a dose de 75 Gy e para 15,2 dias se irradiados com 100 Gy. A variedade Quintal não se mostrou sensível às radiações. A refrigeração induziu nos frutos do abacate um aumento significativo de suas vidas de prateleira, independentemente da irradiação. As determinações da suscetibilidade à penetração na casca foram pouco conclusivas por dificuldades na obtenção dos resultados, indicando porém que a refrigeração causa um enfraquecimento significativo na sua resistência.
Descritores:
abacate, radiações gama, vida de prateleira, refrigeração, irradiação, Persia americana

 

SHELF LIFE INCREASE OF AVOCADOS, Persia americana MILL., VARIETIES FORTUNA AND QUINTAL, THROUGH IRRADIATION

SUMMARY: The objective of the present paper was the determination of the Cobalt-60 gamma radiation dose able to increase the shelf life of avocados of two varieties: Fortuna and Quintal, to increase their commercialization period. After harvest, the avocados were irradiated and kept under two environmental conditions: from 21 to 24° C and 65 and 75% relative humidity, and between 12 and 13.5° C and 45 to 55% relative humidity. Determinations of the daily percentage of loss weight; shelf life; and skin resistance were performed. It was observed that the variety Fortuna had a longer life span induced by the radiation. Controls had a shelf life of seven days and the irradiated avocados at the dose of 75 had a shelf life of 11.2 days, and 15.2 days if they were irradiated with a dose of 100 Gy. The variety Quintal showed no sensibility to radiation. Refrigeration alone or in combination with irradiation, induced a significatively higher life span of the avocados. The determination of susceptibility against penetration into the skin could not be performed easily, nevertheless, it could be observed that refrigeration caused a significant skin weakening.
Key Words:
avocado, gamma radiations, shelf life, refrigeration, irradiation, Persia americana

 

 

INTRODUÇÃO

A conservação de alimentos, tais como as frutas através do uso de métodos físicos é conhecida desde longa data e mesmo há tempos pré-históricos. Assim o frio é um dos primeiros a ser utilizado para prolongar a vida de prateleira de praticamente qualquer tipo de alimento.

Com a evolução dos processos tecnológicos de conservação de alimentos, observou-se há mais de meio século, que as radiações gama do Cobalto-60 ou do Césio-137 ou mesmo os elétrons acelerados são capazes de inibir a proliferação de microorganismos muitas vêzes patogênicos que podem chegar a causar sérias doenças aos consumidores (Käferstein, 1993). Como vantagem adicional, as radiações ionizantes induzem a pequenas alterações fisiológicas, principalmente em frutas, fazendo com que haja diminuição ou mesmo paralização dos processos de maturação. Isto prolonga sua vida de prateleira, incluindo aqui consideráveis vantagens econômicas (Loaharanu, 1994).

Atualmente, o desenvolvimento da irradiação de alimentos vem sendo promovida pela Agência Internacional de Energia Atômica (IAEA, Viena, Austria), pela Organização Mundial da Saúde (OMS, Genebra, Suíça), e pela Organização de Alimentos e Agricultura (FAO, Roma, Itália), sendo que o Grupo Consultivo Internacional de Irradiação de Alimentos (ICGFI, Viena, Austria) é seu órgão regulamentador para congregar estas três organizações, representando atualmente mais de quarenta países que se interessam por esse assunto, entre êstes o Brasil. Desta forma, a humanidade está amplamente amparada com milhares de trabalhos, não apenas científicos, mas também tecnológicos, econômicos, sociais, etc., que visam a divulgação e introdução desta tecnologia em bases comerciais em todos os países, com amplas vantagens sob o ponto de vista principalmente de salubridade e economia para os consumidores. Associada aos procedimentos pós-colheita normalmente empregados, as radiações gama, em baixos níveis de dose, têm mostrado ser um excelente método para prolongar a vida comercial das frutas, retardando os processos de amadurecimento e senescência, bem como reduzindo significativamente o apodrecimento causado por fungos e bactérias patogênicas (Käferstein & Moy, 1993).

Os resultados já obtidos em experimentos para incremento da vida comercial de abacates, indicam que não há uma dose ou faixa de doses uniforme que poderia ser preconizada para todas as variedades. O abacate mostrou-se como sendo uma das frutas mais sensíveis às radiações ionizantes, sendo que, para a maioria das variedades estudadas, doses acima de 100 ou 200 Gy causam severas descolorações da polpa e escurecimento da casca. Observou-se que a dose ótima varia bastante entre variedades e mesmo para abacates da mesma variedade, quando cutivados em regiões diferentes. Assim Young (1965) relatou que abacates da variedade Fuerte, na Califórnia, irradiados no estágio pré-climatérico com doses de 50 a 100 Gy, amadureceram normalmente, ainda que alguns dias mais tarde que as testemunhas. Frutas irradiadas com doses entre 500 e 1000 Gy não amadureceram. Seus tecidos permaneceram firmes mas escureceram durante o armazenamento a 20°C.

Em 1968 Kahan et al. irradiaram abacates uniformemente maduros das variedades Ethinger, Fuerte, Hass e Nabal, cultivadas em Israel, no mesmo dia de sua colheita e três ou quatro dias depois, com doses de 100 e 1000 Gy, armazenando-os depois sob resfriamento a 14° Centígrados. Observações resultaram em determinadas diferenças no amadurecimento entre as variedades, desde um retardo lento até uma aceleração significativa. Foi observado também que para uma certa dose, o retardo foi menor para frutas colhidas em estágio mais avançado de amadurecimento. Assim para a variedade Ethinger a irradiação com 150 a 350 Gy no terceiro dia após a colheita, causou menor atraso de amadurecimento que estas mesmas doses quando aplicadas nos primeiros dias após sua colheita. Na variedade Fuerte, os efeitos observados foram opostos à primeira variedade: intervalos maiores entre colheita e irradiação retardaram mais o amadurecimento. Notaram-se ainda alguns danos em todos os níveis de dose, exceto nas frutas das variedades Ethinger e Nabal irradiadas com as doses de 50 e 100 Gy e nas frutas da variedade Hass, expostas a 100 e 200 Gy. Na variedade Fuerte, a dose de 150 Gy causou ligeiro escurecimento na superfície da polpa quando cortadas. Os autores observaram que os danos causados pelas radiações eram modificados pela taxa de dose. Assim uma taxa de 850 Gy por hora pareceu causar menores danos que as taxas de 4000 ou 75 Gy por hora. A irradiação de frutas resfriadas a 6° C ou úmidas resultou na aceleração dos danos quando tratadas com a dose de 350 Gy.

Estudos conduzidos na África do Sul por Brodrick & Thomas publicados em 1978, mostraram que frutos colhidos precocemente no estágio imaturo (com 11 a 15% de conteúdo de óleo), podem estar sujeitos a manchas externas e descoloração da polpa, sendo que a irradiação pode acentuar esses problemas. O melhor prolongamento da vida comercial foi obtido com frutas colhidas em época de maturação correta, enquanto que nenhum efeito benéfico foi observado em frutas colhidas tardiamente (com 23 a 25% de conteúdo de óleo). Verificaram que frutas colhidas na época correta suportaram doses de radiação duas ou três vezes maiores do que as outras, colhidas prematura ou tardiamente.

O presente trabalho teve como objetivo verificar a dose de radiação gama do Cobalto-60 capaz de prolongar a vida de prateleira de frutos de duas variedades de abacates: "Quintal" e "Fortuna", a fim de aumentar seus períodos de comercialização.

 

MATERIAIS E MÉTODOS

Os abacates foram colhidos nos campos experimentais do Departamento de Horticultura da Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz", procurando-se durante a colheita evitar lesões ou injúrias. As variedades utilizadas foram "Fortuna", com frutos grandes, de aproximadamente 750 gramas, polpa amarelo ouro, um tanto adocicados. A outra variedade foi "Quintal", também de frutas grandes, em média de 600 gramas, com polpa tipo manteiga e de alto valor comercial.

Depois de selecionados por tamanho e côr da casca, seus pedúnculos foram cortados até aproximadamente quatro centímetros de sua base, e imersos em cera derretida para evitar contaminação por microorganismos.

Para a irradiação, foi utilizada uma fonte de Cobalto-60, sendo que o experimento constou de cinco tratamentos (ou doses), com 10 repetições para cada variedade. Os tratamentos constaram das seguintes doses de radiações gama: controle, 25, 50, 75 e 100 Gy, sendo utilizada a taxa de 886 Gy por hora. Após irradiação os frutos foram mantidos sob duas condições, entre 21 e 24° C (ambiente) com umidade relativa variando entre 65 e 75%, e sob temperatura entre 12 e 13,5° C (geladeira), sendo que a umidade relativa variava entre 45 e 55%. Todos os abacates foram pesados individualmente logo após a irradiação e após 7, 14, 19, 27 35 e 40 dias, quando se encerrou a fase experimental no laboratório. Determinou-se a vida de prateleira e a penetrabilidade na casca, através de um durômetro marca Rex, Modêlo 1600 indicado para frutas, sempre que eram descartados.

 

RESULTADOS

Encontram-se na Tabela 1 os resultados das porcentagens médias das perdas de peso diárias dos abacates das duas variedades, submetidas às radiações gama do Cobalto-60, conforme as duas temperaturas nas quais foram mantidos após irradiação.

 

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Encontram-se na Tabela 2 os valores médios dos dias de vida de prateleira (ou dias após irradiação ou colheita) dos abacates das duas variedades, submetidas às radiações gama do Cobalto-60, conforme as duas temperaturas nas quais foram mantidos após irradiação.

 

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Encontram-se na Tabela 3 os valores das determinações das resistência das cascas dos abacates no final dos períodos de vida de prateleira (ou dias após irradiação ou colheita) das duas variedades, submetidas às radiações gama do Cobalto-60, conforme as duas temperaturas nas quais foram mantidos após irradiação. (algumas determinações não puderam ser realizadas por falta de material).

 

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DISCUSSÃO E CONCLUSÕES

- A menor perda de pêso observou-se quando os frutos foram irradiados com a dose de 25 Gy. Não houve diferença significativa, quanto à perda de pêso, entre frutos irradiados e conservados à temperatura ambiente, nem entre aqueles mantidos em geladeira.

- Em relação ao prolongamento dos dias de vida de prateleira, houve um aumento significativo nos frutos da variedade Fortuna quando irradiados com 75 e 100 Gy e depois mantidos em condição ambiente.

- Os frutos de ambas as variedades tiveram vida de prateleira significativamente aumentada quando mantidos em ambiente refrigerado, mas não houve diferença quando irradiados ou não.

- Quanto à resistência à penetração na casca, não houve dados suficientes para análise. Entretanto como observação preliminar, constatou-se que os frutos da variedade Quintal se mostraram um pouco mais resistentes quando irradiados com a dose de 100 Gy e depois mantidos em geladeira. Quando mantidos em condições de ambiente, os não irradiados se apresentaram bastante mais resistentes do que a média daqueles mantidos sob refrigeração.

Concluiu-se desse modo que, sendo para a comercialização o fator mais importante o valor de número de dias após colheita, a variedade Fortuna deve ser irradiada com doses entre 75 e 100 Gy, no caso de se prever a manutenção destas frutas em ambiente não refrigerado. A variedade Quintal praticamente não respondeu às radiações.

Ambas as variedades de abacates porém, se conservaram significativamente melhores quando mantidas em local refrigerado, onde a temperatura permanecia entre 12 e 13,5° C e a umidade relativa entre 45 e 55%.

 

AGRADECIMENTOS

Os autores expressam seus agradecimentos ao Dr. João Aleixo Scarpare Filho, do Departamento de Horticultura da Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiróz" pelos frutos de abacate, assim como a técnica Sra. Clarice Matraia por análises laboratoriais e o Prof. Alfredo José Ferraz de Mello pela correção do resumo em inglês.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido para publicação em 23.06.95
Aceito para publicação em 18.02.96