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Revista Estudos Feministas

Print version ISSN 0104-026XOn-line version ISSN 1806-9584

Rev. Estud. Fem. vol.10 no.2 Florianópolis July/Dec. 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-026X2002000200004 

A belle époque das romancistas

 

The belle époque of women novelists

 

 

Gabrielle Houbre

Université Paris 7 Denis Diderot

 

 


RESUMO

O texto trata da presença crescente de romancistas mulheres no final do século XIX e início do século XX, o que transformou a paisagem literária da belle époque na França. Essa transformação foi notada com surpresa e contrariedade por alguns homens de letras que reagiam com comentários desqualificadores das obras dessas mulheres, muitas vezes fazendo afirmações estereotipadas sobre a inexistência nelas do dom de criar. Além de apontar a visibilidade que tais mulheres romancistas ganharam, a autora compara a maneira como apresentavam os personagens femininos e a relação entre os sexos com a forma como os romancistas homens construíam, na época, as suas narrativas. Na belle époque, o crescimento do número de leitoras, promovido pela ampliação da alfabetização feminina e de novas oportunidades de educação e aliado à atuação das feministas, parece ter proporcionado ambiente propício para que inúmeras mulheres abandonassem antigos pseudônimos masculinos e passassem a adotar pseudônimos femininos ou, até mesmo, a assinar seu próprio nome nos romances que escreviam.

Palavras-chave: literatura, relações entre sexos, história.


ABSTRACT

The article deals with the growing presence of women novelists in late nineteenth and early twentieth century, a fact which changed the literary landscape of the Belle Époque in France. This change surprised and angered some men of letters, who reacted by criticizing such women, often stereotypically affirming the absence of creative power in their work. Besides pointing out the visibility gained by these women writers, the author compares the way they presented female characters and the relations between the sexes to the manner in which the male novelists of the times built their narratives. In the Belle Époque, the growth of female readership brought about by increased literacy among women and by new educational opportunities, together with feminist activism, seems to have created an environment which allowed a large number of women to abandon old male pseudonyms and take up female pseudonyms or even to write under their own names.

Key words: literature, relation between the sexes, history.


 

 

"Uma das características da literatura contemporânea é o número crescente de obras femininas. Todas as épocas tiveram, decerto, mulheres que escreviam. Mas trata-se hoje de um batalhão, continuamente acrescido de talentos muito diversos e desiguais, que se impõe tanto pelo volume como pelo mérito. Salvo poucas exceções, essas mulheres se dedicaram ao gênero do romance, a que as qualidades femininas, imaginação e sensibilidade, se prestavam com perfeição."1

Às vésperas da Primeira Guerra Mundial, Léo Claretie, autor de uma minuciosa Histoire de la littérature française [História da literatura francesa], desenvolvida em cinco volumes, menciona com muita propriedade um fenômeno que abalava o meio editorial - amplamente masculino - da belle époque: por um lado, mulheres em número cada vez maior tomam da pena e produzem cada vez mais livros; por outro, não satisfeitas em investir aritmeticamente o serralho literário, elas em geral se afirmam no romance, gênero que até então constituía domínio privilegiado dos escritores do sexo masculino. O fenômeno parece assumir uma amplitude considerável a partir dos anos 1880-1890, a ponto de suscitar vívidas reações por parte dos homens de letras. Estes se sentem ameaçados, em sua atividade profissional, pelo sucesso quase imediato alcançado por muitas daquelas romancistas inéditas. Mostram-se também singularmente afetados pela nova visão que elas apresentam da sociedade, das relações entre mulheres e homens, particularmente no campo amoroso: a crispação identitária deles, em um momento em que se manifesta um verdadeiro movimento feminista, é facilmente perceptível.

 

1. "Vem sendo lançado, nos últimos tempos, um número considerável de romances escritos por senhoras, muitos dos quais se impuseram à atenção."2

Ainda faltam estudos que permitam calcular com precisão o número de mulheres de letras em atividade durante a belle époque. Está claro, porém, que a cifra 2.133, apresentada sem qualquer justificativa por Octave Uzanne, para o ano de 1894,3 e mais ainda a de 5.000, divulgada sem verificação por Jacques des Gachons em sua pesquisa publicada em fevereiro de 1910 no Le Figaro illustré,4 são bastante superestimadas e refletem sobretudo o sentimento de 'invasão' experimentado por homens de escrita, indesejosos de ver suas homólogas femininas disputando seriamente com eles o mercado editorial. Uma estimativa razoável pode ser feita a partir das autoras membros da Société des Gens de Lettres (SDGL) [Sociedade das Pessoas de Letras]. A instituição, criada em dezembro de 1837, contava com 36 mulheres para um total de 614 membros, de acordo com seu Almanach de 1869 (5,86%);5 75 mulheres para um total de 646 membros (11%) em 1887, conforme a obra de Édouard Montagne;6 chegando a 671 mulheres para um total de 3.077 membros (21,8%) em 1928-1929, segundo Jean Larnac.7 A Société des Gens de Lettres está, evidentemente, longe de congregar a totalidade das escritoras em atividade, mas é pouco provável que elas ultrapassassem o milhar durante a belle époque: o número de 778 mulheres de letras, contabilizadas por Jean de Bonnefon em sua obra sobre La Corbeille des roses ou les dames de lettres [A corbelha de rosas ou as damas de letras] (1909) com base nos catálogos de livrarias é, nesse sentido, um indicador interessante, mesmo que aparentemente só leve em conta as mulheres que publicaram em 1908.8

Surge assim, a partir dos anos 1880,9 uma legítima geração de romancistas, sendo talvez Rachilde, Gyp, Séverine, Marcelle Tinayre, Colette Yver, Gabrielle Réval, Colette e Anna De Noailles10 as mais conhecidas - é preciso lembrar, além disso, nomes que são, em sua maioria, pouquíssimo conhecidos entre nós, mas gozavam na época de sólido prestígio, como Marguerite Audoux, Camille Pert, Daniel Lesueur, Georges de Peyrebrune, Tony Ulmès, Claude Ferval, Gérard d'Houville, Myriam Harry, Jeanne Marnie, Lucie Delarue-Mardrus e outros sessenta e tantos arrolados por Léo Claretie no seu capítulo dedicado ao 'romance feminino'.11 Essas mulheres, que hesitam cada vez menos em assinar seus livros, quer com o próprio nome, quer com um pseudônimo feminino - deixando pouco a pouco de lado o recurso cômodo, porém constrangedor, do pseudônimo masculino -, não se contentaram em escrever um ou dois romances mas, no mais das vezes, produziram uma obra que contabiliza dezenas de títulos, mais de quarenta para as mais prolixas.

Essa última característica se explica facilmente: escrevendo primeiro e principalmente para as mulheres, as romancistas se beneficiam com o aumento constante do eleitorado feminino. Em sua contribuição à Histoire de l'édition française [História da edição francesa], Anne Sauvy afirma que o período de 1890 a 1950 foi aquele em que as francesas mais leram e que elas compõem o "público mais ávido de leitura, principalmente de romances", fato que ela justifica por três motivos principais.12 O primeiro diz respeito aos consideráveis avanços na alfabetização das mulheres, conseqüência direta das leis escolares promulgadas e postas em prática durante a segunda metade do século. O segundo se refere à origem social das leitoras: oriundas principalmente da burguesia, ainda permanecem - em sua maioria - nos lares e podem dedicar tempo à leitura. Finalmente, o livro e o jornal constituem, nessa época, o entretenimento mais acessível, a forma cultural mais evidente, a que ainda não fazem concorrência os tímidos começos do cinematógrafo ou, a fortiori, o rádio e a televisão. E conclui Anne Sauvy: "Quando mais não fosse por seu papel de leitoras e da influência que tiveram, enquanto público, sobre o mundo da edição ou até sobre a criatividade das autoras, as mulheres cumpriram naquele período um papel importante na história da produção impressa."13

Com efeito, as romancistas encontram rapidamente leitoras assíduas, e seu sucesso, por vezes estrondoso, manifesta-se de várias maneiras. Para começar, a consagração pública, como atestam as reedições e vendas de diversos títulos, como La Maison du péché [A casa do pecado] (1902) e La Rebelle [A rebelde] (1905), de Marcelle Tinayre, ou o prêmio Femina 1910 - Marie-Claire, de Marguerite Audoux - com tiragem de 75.000 exemplares. Depois, a consagração literária: enquanto a Académie Française esperou até 1918 para outorgar, pela primeira vez, seu Grande Prêmio de Literatura a uma mulher, no caso Gérard d'Houville,14 o prêmio Femina coroou cinco mulheres antes de 1914: Myriam Harry, por La Conquête de Jerusalém [A conquista de Jerusalém] (1904), André Corthis, por Gemmes et Moires [Gemas e chamalotes] (1906), Colette Yver, por Princesses de science [Princesas de ciência] (1907), Marguerite Audoux, por Marie-Claire (1910), e Camille Marbo, por La Statue voilée [A estátua velada] (1913).15 Esse prêmio fora criado, em 1904, por um comitê composto exclusivamente de mulheres que queriam protestar contra o fato de o júri da Académie Goncourt - onde a participação da primeira mulher, Judith Gautier, se deu entre 1910 e 1917 - negar-se a consagrar uma romancista, e rapidamente adquirira importância suficiente para ameaçar a influência do prêmio Goncourt. Finalmente veio a consagração social, quando as escritoras acederam a títulos de reconhecimento público até então exclusivos dos homens. Assim, - algumas como Jane Dieulafoy ou Daniel Lesueur - foram agraciadas com a Legião de Honra, privilégio acerbamente defendido pelos homens, como demonstra, em 1908, o estranho caso da Legião de Honra perdida de Marcelle Tianyre. Esta, com apenas 38 anos de idade e ainda em começo de carreira, foi indicada, não sem certa audácia, por Aristide Briand, então ministro da Instrução Pública e das Belas Artes, para a cobiçadíssima condecoração. Cometeu a imprudência de conceder várias entrevistas à imprensa antes de sua nomeação ser publicada no Journal Officiel [Diário Oficial]. Declarou, notadamente que, se estava feliz por receber - de "improviso", especifica, sem convencer ninguém - aquela "muito elogiosa distinção", evitaria usá-la na rua, temendo não conseguir mais andar de bonde ou metrô sem suscitar a curiosidade das pessoas: "Ora, pensariam, vai ver essa mulher foi religiosa e cuidou dos pestíferos... Ainda assim, é jovem demais para ter sido vivandeira em 1870!"16 O efeito de coquetismo causou escândalo, e orquestrou-se contra ela uma virulenta e bem-sucedida campanha da imprensa, já que o conselho da ordem da Legião de Honra voltou atrás do decreto ministerial e privou a jovem mulher da fita vermelha. Jean Ernest-Charles publicou, acerca desse caso, um número do Censeur politique et littéraire essencialmente constituído de artigos, quase todos hostis a Marcelle Tinayre e onde irrompe, pela pena de inúmeros colegas seus, um antifeminismo patético.17

 

2. "O sucesso da atual literatura feminina foi fulgurante, nos surpreendeu a todos, nos mortificou a todos, nos humilhou um pouco a todos."18

Nos anos 1900-1910, o sucesso das romancistas se ostenta com tamanha insolência que suscita abundante literatura por parte dos que controlam o meio editorial. Não satisfeitos em publicar resenhas de livros, além de estudos biográficos e bibliográficos de autoras mais em evidência, como Marcelle Tinayre - cuja fama atravessou animadamente as fronteiras -, os críticos se entregam a amplas investigações de fundo e tentam examinar aquilo que se impõe como um verdadeiro "fenômeno".19 Longos artigos informativos ("Les Femmes de lettres françaises" [As mulheres de letras francesas], por Jacques Des Gachons, no Le Figaro illustré datado de fevereiro de 1910) ou de crítica (a "Revue littéraire" editada por René Doumic na prestigiosa Revue des Deux Mondes, em maio-junho de 1906, é integralmente dedicada aos 'romances de mulheres') sucedem-se na imprensa, em alternância com diversas obras pifiamente favoráveis às mulheres. Assim, na esteira da Sra. Aurel, que desde 1907 se pergunta "Comment les femmes deviennent écrivain" [Como é que as mulheres se tornam escritoras], Jules Bertaut publica uma análise interessante sobre La Littérature féminine d'aujourd'hui [A literatura feminina hoje] em 1909, ano em que se assiste igualmente à publicação das obras de Jean de Bonnefon, La Corbeille des roses ou les dames de lettres, e de Paul Flat, Nos Femmes de lettres [Nossas mulheres de letras], antes de Ernest Tissot se dedicar às Nouvelles princesses de lettres [Novas princesas de letras] (1911).

Confrontados com a amplitude e diversidade das formas abarcadas pelo sucesso das mulheres escritoras, os "romancistas demonstraram sua preocupação com aquela concorrência que não tinham previsto", observa, não sem certo eufemismo, o crítico René Doumic em La Revue des Deux Mondes, 1906.20 Na verdade, as reações masculinas são, no mínimo, impregnadas de acrimônia e fel, e Jules Bertaut pode começar seu livro sobre La Littérature féminine aujourd'hui com esta frase que soa como uma confissão: "Tenhamos a coragem e a sinceridade de reconhecer desde a primeira página deste livro: o sucesso da atual literatura feminina foi fulgurante, nos surpreendeu a todos, nos mortificou a todos, nos humilhou um pouco a todos".21 Em 1907, em artigo não assinado sobre a obra de Colette Yver, publicado no La Liberté d'opinion, lê-se: "As mulheres costumam acusar o egoísmo masculino e afirmar que ainda queremos mantê-las na antiga escravidão. Porém, enquanto é tão difícil para um escritor ser, não só editado, como lido, eis que as mulheres estão invadindo a carreira, subitamente brilhando e sendo acolhidas com indiscutível fervor".22 Temos aqui uma possível explicação para os humores tristonhos dos homens de letras. De fato, um rápido inventário do microcosmo editorial permite constatar que ele atravessa, desde os anos 1890, um período de marasmo que iria durar praticamente até as vésperas da Primeira Guerra Mundial.23 Os livros já não se vendem tão bem, o que obriga os editores a exercitarem a imaginação para estimular as vendas. A partir dos anos 1900, mudam suas práticas comerciais, publicam menos títulos novos e adotam procedimentos publicitários mais agressivos: não satisfeitos em 'jogar' com o número de edições ou de exemplares vendidos que podem empurrar para cima, procuram igualmente captar de modo diferente a atenção do leitorado. Para isso, desenvolvem os efeitos de anúncio, mesmo incorrendo, vez ou outra, à reserva dos críticos: "embora La Maison du péché [de Marcelle Tinayre] não sendo exatamente, como diz o anúncio da livraria, 'o sensacional acontecimento do momento no mundo das letras'", assim contemporiza Emile Faguet em La Revue latine de 1903, "é uma obra notável e, em algumas partes, uma bela obra". Some-se a isso a prática cada vez mais generalizada da entrevista jornalística, a que se prestam de boa vontade os autores (quando eles próprios não lhe dão início)24 e que ocorre, de preferência no caso das senhoras, no quadro de sua vida cotidiana, conforme aponta - não sem certa perfídia - Jules Bertaut:

A reportagem, junto com um gosto pelo reclame intenso, nos iniciou em todos os detalhes da vida privada daquelas mulheres, ao mesmo tempo em que se publicavam os seus livros. Tais indiscrições, facilitadas pelas próprias autoras, revelaram-nos que a maioria daquelas amazonas literárias eram grandes damas, senhoras da sociedade, ou mulheres e filhas de artistas conhecidos, pertencentes à sociedade.25

A observação não é destituída de fundamento, mas há que acrescentar que o "reclame intenso" beneficia igualmente os homens, aliás nem sempre isentos do pecado de mundanidade: pois não foi Marcel Prévost, um dos homens de letras mais conhecidos da belle époque, qualificado por um de seus colegas como "um dos melhores escritores franceses para as salas de espera de dentistas americanos, em Paris ou em Chicago e, também, para todos os garden-partys [sic] de todos os Elysées presentes e futuros"?26 Mas Bertaut, insistindo na origem social privilegiada dessas senhoras, enfatiza antes sua capacidade de "ditar a moda" e "decidir reputações" do que um talento passível de conquistar o público. Do mesmo modo Doumic, por trás de um elogio de fachada que a ninguém engana, tende a desacreditar o valor literário da produção feminina negando às suas autoras a seriedade do estatuto do escritor profissional:

Um dos atrativos, em muitos de seus livros, é não sentirmos neles o esforço do profissional: mal chegam a ser livros; para suas autoras, não passaram de um entretenimento elegante, algo como uma conversa à hora do chá ou uma partida de bridge. Nisso reside seu atrativo e originalidade.27

Outra pedra jogada com força no jardim das romancistas, e que visa mais uma vez, ao contestar suas capacidades literárias, a diferenciá-las cuidadosamente de seus colegas masculinos, é sua suposta inaptidão para verdadeiramente criar um universo romanesco, eterno debate sobre a suposta ausência de talento criador nas mulheres. Assim, para Doumic, "as mulheres são, na arte, criadoras medíocres; mas são notáveis para incorporar os resultados adquiridos. Nisso, como em tudo mais, elas seguem a moda",28 opinião compartilhada pela Senhora Aurel, que não acredita ser "a mulher chamada a inventar a forma de escrever, a ferramenta"29 e reserva ao homem o dom da criatividade. De tudo isso, Bertaut faz com que decorra uma espécie de uniformidade, de estandardização que definiria as romancistas do pré-guerra e traria a marca evidente de sua fragilidade em relação aos romancistas masculinos: "não há individualidades menos dessemelhantes entre si do que as mulheres de letras [...] Essa similitude de temperamento constitui, é claro, nos dias de hoje, um sinal de inferioridade da mulher."30

A aspereza dos homens diante das mulheres escritoras - a crispação identitária facilmente percebida em seus discursos - deve igualmente ser analisada em função do conteúdo das obras femininas e, principalmente, em função dos retratos de novas heroínas que vêm embaralhar a tradicional divisão dos sexos.31

 

3. "[A mulher] então percebeu que merecera, que podia conquistar algo mais que pão cotidiano, roupas e moradia: independência moral, direito de pensar, de falar, de agir, de amar a bel prazer..."32

A legitimidade dessa "independência moral" é uma das questões sociais mais debatidas na virada do século, e as romancistas naturalmente assumem, por intermédio da ficção, posições a esse respeito. Vou me deter aqui em três delas, muito conhecidas por seus/suas contemporâneos/as, e em algumas de suas obras que, além de terem sido publicadas na primeira década do século XX, chamaram a atenção dos críticos e marcaram a opinião. Trata-se de Gabrielle Réval (1870-1948), diretora das edições Mirasol, ex-aluna da École Normale de Sèvres e ex-professora de liceu de moças, duas experiências que ressurgem em Les Sévriennes [As normalistas] (1900). De Marcelle Tinayre (1872-1948), que colaborou notadamente em La Fronde - o jornal feminista lançado em 1897 por Marguerite Durand - assim como em vários outros jornais, e de seu romance La Rebelle, que teve grande repercussão quando de seu lançamento em 1905.33 Essas duas mulheres de letras são claramente a favor da emancipação feminina, mesmo que seu feminismo contenha às vezes algumas ambigüidades. Em compensação, Colette Yver (1874-1953) ocupa posições mais retrógradas, como demonstram três de seus romances mais conhecidos: Les Cervelines34 (1903), Princesses de science (1907) e Les Dames du palais [As damas do palácio] (1910).

As obras dessas romancistas apresentam tramas narrativas avizinhadas nas quais predomina, em suas heroínas, o conflito entre o investimento na vida privada (amor, casamento, maternidade) e o engajamento em uma vida profissional valorizadora (jornalismo, ensino, medicina, direito...), conflito que questiona diretamente o teor habitual do relacionamento entre os sexos. Essa temática, evidentemente, deve ser situada no contexto das lutas e conquistas feministas que marcam as primeiras décadas da IIIa República.35 Sem conquistar nenhum avanço significativo no campo dos direitos políticos, não obstante uma mobilização que se intensifica mais e mais, as mulheres, em compensação, investem paulatinamente no ensino superior e nas carreiras ligadas a ele.36 As áreas científicas são as que se mostram mais favoráveis às mulheres, e as do direito, as que resistem por mais tempo: Emma Chenu, segunda francesa a passar no baccalauréat37, em 1863, conseguiu se matricular na faculdade de ciências em 1867, enquanto que a primeira matrícula na faculdade de direito data somente de 1884. Madeleine Brès se torna a primeira mulher doutora em medicina em 1875, enquanto que Jeanne Chauvin, doutora em direito em 1892, enfrenta as maiores dificuldades para se impor na ordem dos advogados de Paris: sua candidatura é rejeitada em 1897, pelo saboroso motivo de que não dispõe de direitos políticos; seriam precisos três anos de uma veemente campanha empreendida por La Fronde, além do apoio político de Pointcaré, para que uma lei de 1899 outorgasse às mulheres o direito de defender uma causa.

O período da belle époque assiste às feministas relançarem as discussões no campo dos costumes, prosseguindo particularmente em "sua crítica radical da 'servidão da esposa', do dote e do regime de comunhão de bens", como é lembrado por Florence Rochefort.38 Elas estão bem longe, contudo, de falar a uma só voz, e se dividem fundamentalmente ao abordar a questão da sexualidade: as moderadas (em maioria) insistem na necessidade do respeito pela individualidade feminina no amor e impulsionam um novo, embora ainda tímido, discurso sobre os comportamentos amorosos, com a idéia de que o prazer partilhado é um fator de equilíbrio indispensável ao casal. Distantes desses ideais conjugais, algumas militantes radicais, como Madeleine Pelletier ou Arria Ly, pregam a 'castidade militante' e a negação da instituição matrimonial, necessariamente alienante para as mulheres. O casamento, já abalado pela lei Naquet, que reestabelece o divórcio em 1884, é, aliás, objeto de virulentos ataques. As libertárias, que pregam a união livre, e os neomalthusianos, que chamam a atenção do público para as maneiras de dissociar sexualidade e procriação, causam escândalo, assim como o jovem advogado Léon Blum, que, em 1907, pleiteia uma sexualidade pré-nupcial (Du Mariage [Do casamento]).

Através de seus romances, as mulheres necessariamente se posicionam em assuntos delicados. Marcelle Tinayre, cuja reputação de feminista não é nada imerecida, em La Rebelle se distingue cuidadosamente das radicais, que ela escarnece nas personagens da Sra. Gonfalonet e da Srta. Bon, duas militantes da "Fraternidade Feminina, associaçãozinha feminista socialista e revolucionária, em que gordas senhoras bigodudas e magras iluminadas chamavam-se heroicamente de 'cidadãs' e votavam em ordens do dia que murchavam o parlamento burguês".39 A Sra. Gonfalonet e a Srta. Bon acusam Josanne Valentin, a heroína rebelde, de trair a 'causa' contentando-se com seu amor pelo escritor Noël Delysle:

[Srta. Bon:] ...sinto falta da mulher que você foi outrora, a verdadeira feminista, séria, valente, livre e deliberadamente pura... Um tão belo tipo de trabalhadora intelectual!... Citei você como exemplo às senhoras da "Fraternidade".

— Mas, minha cara senhorita Bon, sejamos lógicas!... Se as feministas clamam por liberdade, é provavelmente para usá-la!... Por que colocar acima da mulher apaixonada a mulher "deliberadamente pura"?... Cada qual com o seu gosto! O amor não é um pecado. Não somos religiosas laicas. Não acho que eu seja menos séria e menos valente, menos livre, ou que represente um tipo menos "bem-sucedido" de trabalhadora intelectual, por estar apaixonada...40

Pois Josanne é uma "nova mulher",41 uma liberada, uma Eva moderna, que tenta conciliar suas atividades profissionais com o florescimento de sua vida amorosa. Assim, embora casada, não experimenta nenhum sentimento de culpa ao tomar Maurice como amante, reivindicando, pelo contrário, seu direito à felicidade:

Aceitei a servidão doméstica: não rompi completamente o "fio de lã", mas me senti dona do meu coração e da minha pessoa... Não é um vil sentimento interesseiro, não é o medo da opinião alheia que me segura neste casamento, neste triste casamento em que carrego um duplo fardo... Não quero deixar meu pobre Pierre, mas não posso viver sem felicidade, não posso...42

Embora de certo modo legitime o adultério, Marcelle Tinayre se abstém de pregar a favor da união livre: assim, Josanne e Noël Delysle, não obstante seu desejo de libertação amorosa, acabam se casando, epílogo que provoca os sarcasmos do crítico Ernest Tissot:

Não há ninguém menos rebelde que sua heroína maria-vai-com-as-outras. É um feminismo para uso das parisienses dadas aos jogos do amor e do acaso [...] Com seus ares de virgem louca, isto é, de pessoa muito ocupada, ela repete o triunfo, a apologia das virtudes hipócritas! Tem aquele jeito de quem vai derrubar a Bastilha, quando é, na verdade, tão burguesa como uma pantufa.43

Gabrielle Réval dá a Marguerite, uma de suas normalistas, um destino diferente: quando Henri, o noivo de sua amiga Charlotte, confessa que, apesar de todo o seu amor, não poderá se casar com ela (pois Charlotte lhe fez jurar, em seu leito de morte, que jamais se casaria com outra mulher), ela renuncia à carreira que se abre com o concurso de professor em que acaba de passar em primeiro lugar e desdenha o casamento, para simplesmente seguir o homem que ama: "Não serei sua mulher diante dos homens", ela lhe escreve, "não ocuparei, em sua casa, o lugar vago. Quero ser sua mulher diante de Deus, diante da sua consciência; serei, ao seu lado, a companheira oculta, mas leal e fiel, de toda a sua existência."44 É verdade que Gabrielle Réval parece ter colocado muito de si mesma na personagem de Marguerite, inclusive seu desejo de assumir uma relação amorosa alheia a qualquer laço matrimonial.45

Longe de defender as idéias progressistas de suas colegas, Colette Yver vê emergir um verdadeiro perigo social na multiplicação daquelas que ela chama de "cervelines", quer dizer, mulheres que, "depois de deixar a vida refluir para o cérebro, simplesmente já não precisam mais de amor. Elas não se casam; não são chamadas de solteironas, são personalidades... é personalidade que se diz, entende. Elas pululam."46 É o caso, em Les Cervelines, de Jeanne Boerk, residente de medicina no hospital Hôtel-Dieu, que prefere se dedicar inteiramente à sua carreira de médica, desdenhando o amor apaixonado de seu chefe, pronto para se casar com ela. Do mesmo modo, sua amiga Marceline Rhonans, que leciona em um liceu de moças e profere conferências de sucesso sobre a Antigüidade, renuncia - não sem alguma hesitação - a um casamento com um homem que lhe agrada, é certo, mas que só a contragosto aceita que ela continue a trabalhar; lembremos que uma disposição do Código Civil de 1804 estipulava que a mulher precisava de autorização do marido para exercer atividade assalariada. Assim, as duas "cervelines" se expõem naturalmente a uma sombria solidão.

Embora Colette Yver aceite o enriquecimento intelectual das moças pela continuação de seus estudos, embora conceba a importância do crescimento individual das mulheres pelo exercício de uma profissão escolhida segundo a inclinação pessoal, só o faz com a idéia muito clara de que essas mulheres devem sacrificar sua carreira quando se casam; quando marido e mulher se dedicam com igual fervor à profissão, é obviamente em detrimento do equilíbrio do casal e da indispensável harmonia familiar. Assim, as intrigas de Princesses de science e Dames du palais, construídas de modo estereotipado, põem em cena uma médica e uma advogada, ambas bonitas - Colette Yver pelo menos se diferencia de certos estereótipos de bas-bleus, obrigatoriamente feiosos - e inteligentes, que brilham na profissão a ponto de eclipsar seus maridos. Sua vida privada logo começa a se ressentir da situação, e a romancista as faz endossar a responsabilidade pelo fracasso de seu casamento: em Princesses de science, principalmente, o marido se acha no limiar do adultério por não encontrar uma esposa compreensiva a esperá-lo em casa; sua mulher, Thérèse, é o contraponto negativo de Dina Skaroff, a estudante russa que, embora prosseguindo obstinadamente os estudos, abandonou toda ambição profissional ao casar, opção que resulta em uma felicidade prosaica, mas serena. A condenação assume a mais terrível forma de punição, pois as heroínas são atingidas como mães: o filho negligenciado por sua mãe-médica morre, o da advogada não morre por pouco (como o filho de Josanne em La Rebelle). Moral da história: as duas mulheres acabam sacrificando a carreira para auxiliar o marido, gesto quase expiatório que salva o casamento. "Você tem uma obra a cumprir, Fernand", acaba reconhecendo, um pouco desencantada, a Thérèse de Princesses de science: "vou ajudá-lo: você há de vencer. Quanto a mim, serei simplesmente sua companheira, sua obscura auxiliar e, como nos disse um dia, deliciosamente, Dina Skaroff, 'sua assistente'".47

 

4. "O flerte é o pecado das mulheres decentes."48

Contrariamente a seus homólogos femininos, os romancistas repugnam colocar suas heroínas em condição de seguir carreira e permanecem à margem das evoluções sociais e econômicas que pervertem as mulheres, segundo eles, desnaturando 'A' mulher. Continuam limitando as atividades da mulher ao relacionamento amoroso e se animam descobrindo Evas que teriam rompido com a inocência romântica.49 Constatam, com suas colegas mulheres, que tanto as senhoritas como as de mais idade estão cada vez menos passivas no jogo amoroso e, com freqüência, compartilham-no totalmente (por exemplo, nos três romances citados de Colette Yver); mas, à diferença delas, revelam-se obcecados pelo grau de conhecimento das 'coisas do sexo' que as jovens parecem ter e pela liberdade insólita de seu comportamento. Enquanto as romancistas calam as batidas do coração de suas heroínas com ambição profissional ou fazem-nas rugir com tentações adulterinas, os romancistas introduzem, já desde meados dos anos 1880, a personagem da moça, ou mulher, que se entrega ao flerte poupando-se de qualquer perturbação sentimental. O tema floresceu rapidamente, sob todas as formas literárias (romances, teatro em prosa ou versificado, monólogos...) e lexicais (flertação, flertagem, flerte, flertadora...), primeiramente pelas penas masculinas: Eugène Adenis, Flirtation [Flertação] (1884); Jean Malic, Flirtage [Flertagem] (1885); Édouard Bonnaffé, Flirt [Flerte] (1888); Paul Hervieu, Flirt (1890); Lionel Radiguet, Flirts (1891); Hippolyte Rodrigues, Le Flirtage (1893); Henry de Fleurigny, Un Flirt (1895); Albert Clairouin, Le Flirt (1897); Léon Michaud d'Humiac, Miss Cherry, professeur de flirt [Miss Cherry, professora de flerte] (1897); Paul Gavault, Un Flirt à Montmartre [Um flerte em Montmartre] (1898); Jan Kermor, Un Piège à flirts [Armadilha de flertes] (1899); Michel Provins, L'École des flirts [A escola de flertes] (1899); Paul Barret, Flirt blanc [Flerte em branco] (1901); Paul Gavault e Georges Berr, Madame Flirt (1901); Jacques Lévy, Madame Flirt (1902). Quando os homens parecem ter esgotado o filão romanesco, algumas mulheres resolvem reativá-lo por um breve momento, como Trilby, com Flirteuse [Flertadora] (1904), Suzanne Chebroux, com Le Flirt (1904), ou Jane de La Vaudère, com Pour le flirt! Saynètes mondaines [Pelo flerte! Sainetes mundanos] (1905).

Os primeiros títulos, como o Flirtation de Eugène Adenis, o Flirt de Édouard Bonnaffé ou, aqui, o Flirtage de Jean Malic, em geral apresentavam heroínas inglesas ou americanas e insistiam na influência do modelo educativo protestante dos países anglo-saxões, que deixa às moças uma relativa autonomia em seu comportamento, inclusive amoroso:

[Jean] tinha diante de si ora a mulher mais desejável e deliciosa, ora uma garota louca e risonha; mas, mulher ou garota, ela exalava um encanto estranho e cativante, sobretudo para Jean, acostumado com a educação de alta compressão de nosso belo país, a França. Ficara primeiramente estupefato, e logo seduzido, por aquela liberdade de atitudes atribuída, decerto que por ironia, às jovens inglesas, e que só se vê entre as americanas.50

"Liberdade de atitudes" grosseiramente explicada por Michel Provins em uma "Conférence sur l'amour moderne et le flirt" [Conferência sobre o amor moderno e o flerte] que abre a edição de sua comédia L'École des flirts [A escola dos flertes], representada durante quatro meses em Paris: "o Flerte é uma mercadoria de importação - contra a qual, aliás, não usamos o único protecionismo que seria benéfico usar. Nasceu dessa necessidade em que se encontram as garotas inglesas e americanas que, não possuindo dote, são obrigadas a fazer caça ao homem."51 As 'misses', portanto, provocariam fisicamente os pretendentes virtuais, dada a impossibilidade de o fazer materialmente. Essa confortável distribuição de papéis, que faz do sexo feminino o agressor, e dos homens, presas inocentes, alimenta um imaginário de vitimização masculina. De acordo com os romancistas, as jovens francesas também manifestam esse comportamento flertante, com algumas variações.

O exemplo mais espetacular é dado por Marcel Prévost, cuja obra Les Demi-vierges [As semivirgens] (1894) é um dos mais retumbantes sucessos de livraria da belle époque. Sua argumentação baseia-se na observação de dois "crashes" que modelariam a "virgem moderna". Um "crash do pudor", já que a jovem teria se tornado demasiado sábia no amor, por obra da mãe - em detrimento do marido -, e um "crash do dote", o qual faria uma falta cruel: "O deflorador não se casa e, o que é realmente de se admirar, é que as moças sabem disso. Mais ainda: não fazem questão nenhuma que ele se case, pois trata-se em geral de um aventureiro sem grandes fortunas [...] e a moça moderna quer o dinheiro através do casamento."52 A demonstração se dá por intermédio de Maud, jovem aristocrata sem fortuna, que não quer se casar com Julien, que ela ama, porque ele, igualmente aristocrata, é igualmente destituído de fortuna; ela então obriga Julien a se contentar com um flerte, enquanto procura um noivo mais endinheirado:

Certo! Seria o amante incompleto daquela moça admirável até o dia em que ela se casasse; seria seu amante no dia seguinte ao casamento [...] Ele se acostumou com o perigoso sabor daquele amor inacabado, dispensado aos seus eleitos por virgens esclarecidas, cem vezes mais pungente que as fáceis e completas alegrias dos amores comuns. Com seu temperamento de grande apaixonada, com seu impudor decidido, ela transformou Julien em seu servo, sua coisa.53

Assim, o pragmatismo, mais ou menos imbuído de cinismo, constitui uma das características essenciais das 'moças modernas', que tomam o cuidado de dissociar sentimento amoroso de casamento, quando suas semelhantes da idade romântica sonhavam em poder amar aquele com quem se casariam, e em poder se casar com aquele que amavam. Evolução radical que Trilby resume nestas frases trocadas por duas irmãs, em Flirteuse: "mas Dora, quando você está, como diz, flertando, não lhe acontece, às vezes, de amar, ou ser amada? - Miette, você me dá mesmo vontade de rir, você é bem anos 1830, escola romântica..."54 A partir de meados dos anos 1890, fica então combinado que as francesas passam a flertar tão despreocupadamente quanto as anglo-saxãs, e os autores passam a avaliar o seu nível de cultura sexual com inquieta excitação. Desse modo, acompanham, se é que não antecipam, o debate público sobre a educação sexual.55 Assim, Victor Marguerite, que ficou conhecido por seus engajamentos feministas e sua Garçonne56 de 1922, publica já em 1908 Jeunes Filles, defesa romanesca de uma iniciação das moças aos 'mistérios' do sexo:

[Marthe, moça moderna, a Jacques, rapaz convencional]: Os homens estão sempre com medo de que as mulheres se libertem da submissão junto com a ignorância [...] explique-me por que uma educação que o senhor julga excelente para si seria nociva para nós? E o que é que temos a perder, erguendo francamente um canto do véu, onde nossa curiosidade, de outro modo, só vê mistério?... O mistério! Nada é tão tentador, tão perigoso como ele!... A sombra é que, demasiadas vezes, cria o pecado. A ignorância, nesses assuntos, é perniciosa. Uma luz franca convém melhor. Quando um ato irá decidir toda uma vida, qual o inconveniente de se estar preparado para ele? E no quê poderíamos ficar diminuídas aos seus olhos pelo fato de, em nossos liceus, mulheres superiores nos iniciarem, como fazem com vocês os seus professores, no estudo de fenômenos bastante... naturais, sim, no conhecimento de todas as nossas funções, todos os nossos deveres?...57

É verdade, porém, que a posição de Victor Marguerite é excepcional entre seus pares. Eles se mostram, em sua maioria, ofendidos com os retratos masculinos encontrados nos romances femininos ("convencionais e inexistentes", recrimina René Doumic58) e temerosos diante da influência crescente das feministas. Sua obra literária reflete seu mal-estar diante das liberadas, das novas mulheres que perturbam a visão que eles têm, não só d''A' mulher, já que as romancistas da belle époque desorganizam o eterno feminino, como também as relações que regem os sexos. Marcel Prévost expressa perfeitamente essa angústia em uma reflexão sobre o feminismo que ele dá à luz em 1910:

Essas novas mulheres terão de tratar com homens por sua vez modificados, novos, diferentes dos homens de hoje [...] Sejamos sinceros: é infinitamente provável que essas mulheres de amanhã não nos agradem. Mas nossas deliciosas mulheres atuais teriam provavelmente horripilado os maridos franceses do século XVII. O importante, para as mulheres de amanhã, é agradar aos homens de amanhã: e podem ter certeza que elas irão agradar. Pois, ao mesmo tempo que elas, no mesmo sentido, os homens se terão modificado.59

Querendo adiar para o amanhã o surgimento presente das mulheres modernas, remetendo-as a hipotéticos homens modernos, ele traduz bem a incapacidade dos homens da belle époque em considerar as mais profundas evoluções referentes às mulheres, a impotência masculina para compor, junto com as mulheres, uma nova definição das relações entre os sexos.

 

Notas

1 Léo CLARETIE, 1912, p. 393.

2 René DOUMIC, 1906, p. 447.

3 UZANNE, 1894, p. 164.

4 "Dizem que há, hoje, na França, 5.000 mulheres de letras." (DES GACHONS, 1910, p. 1).

5 Esses números parecem mais verossímeis do que os apresentados por Evelyne Lejeune-Resnick em seu estudo sobre "[Les] femmes-écrivains à la Société des Gens de Lettres (1840-1870)" [[As] mulheres-escritoras na Société des Gens de Lettres], ou seja, 91 mulheres para um total de 246 membros inscritos até 1870; além de o número de membros inscritos na SDGL até 1870 parecer bastante pequeno, a percentagem das mulheres membros da instituição estaria, segundo esses números, em cerca de 37, o que parece demasiado (LEJEUNE-RESNICK , 1997, p. 151-162).

6 MONTAGNE, 1889, p. 435-450. (Observe-se o fato de o autor especificar os pseudônimos, quase sempre masculinos, utilizados pelas mulheres de letras.)

7 LARNAC, s. d. [1929?], p. 223.

8 Citado por LARNAC, s. d. [1929?], p. 223.

9 Segundo a "Liste alphabétique des membres de la société des gens de lettres existant au 10 décembre 1887, avec leur date d'entrée" estabelecida por Édouard Montagne, 11 escritoras teriam assim ingressado na SDGL entre 1858 e 1867, 16 entre 1868 e 1877, e 46 entre 1878 e 1887; faltam os números posteriores, mas é evidente que o movimento não fez senão se acentuar (MONTAGNE, 1889, p. 435-473).

10 Hoje conhecida principalmente como poetisa, Anna de Noailles alcançara, no entanto, um sólido reconhecimento já a partir de seus primeiros romances como, por exemplo, La Nouvelle espérance [A nova esperança] (NOAILLES, 1903).

11 CLARETIE, 1912, p. 393-416. Vide também Anne SAUVY, 1991, p. 269-281.

12 SAUVY, 1991, p. 269-270.

13 SAUVY, 1991, p. 270.

14 Perfeitamente integrada, aliás, ao meio literário, Gérard d'Houville (1875-1963), por nascimento Marie-Louise Antoinette de Hérédia, era filha de José Maria de Hérédia e desposou, em 1895, Henri de Régnier.

15 Vide LARNAC, s. d. [1929?], p. 222.

16 Carta de Marcelle Tinayre a Andrien Hébrard, diretor do Temps, em 7-8 de janeiro de 1908, in Le Censeur politique et littéraire, 18 de janeiro de 1908, p. 67.

17 Le Censeur politique et littéraire, 18 de janeiro de 1908, p. 65-94. Vide Gabrielle HOUBRE, 1999.

18 Jules BERTAUT, 1909, p. 1.

19 MARTIN-MAMY, 1909. Para as outras escritoras em voga na mesma época, consultar, por exemplo, os dossiês biográficos conservados na Bibliothèque Marguerite Durand, de Paris. Para o uso do termo "fenômeno", vide, por exemplo, , p. 447.

20 DOUMIC, 1906, p. 447.

21 BERTAUT, 1909, p. 1.

22 "Une nouvelle romancière, Colette Hyver [sic]. Les Cervelines - Comment s'ent vont les reines - Princesses de Sciences", La Liberté d'opinion, abril-maio 1907, p. 93-95.

23 E. PARINET, p. 161 ss.

24 Prática mencionada por Jean Ernest-Charles: "Essa indústria [o comércio literário] está começando e um de seus principais aspectos é a substituição total do editor pelo autor no trabalho de publicidade que naturalmente acompanha a publicação de um livro." (ERNEST-CHARLES, 1902, p. 13).

25 BERTAUT, 1909, p. 9.

26 ERNEST - CHARLES, 1902, p. 173.

27 DOUMIC, 1906, p. 449.

28 DOUMIC, 1906, p. 448.

29 AUREL, Mme. 1907, p. 43.

30 BERTAUT, 1909, p. 17.

31 A esse respeito, vide Annelise MAUGUE, 1987.

32 Marcelle TINAYRE, 1905, p. 13.

33 MARTIN-MAMY, 1909 e dossiê "Marcelle Tinayre", conservado na Biblioteca Marguerite Durand. Vide também Jennifer WAETI-WALTERS, 1990, p. 31-53.

34 Derivado de cervelle (cérebro), o neologismo cerveline se traduziria aproximadamente por "cerebrais", "cerebralinas" (Nota da tradutora).

35 Vide Laurence KLEJMAN e Florence ROCHEFORT, 1989.

36 Carole LECUYER, 1996, p. 166-176.

37 Baccalauréat: na França, exame prestado no final do secundário, cuja aprovação abre o acesso à universidade (Nota da tradutora).

38 ROCHEFORT, 1998, p. 188 ss.

39 TINAYRE, 1905, p. 133.

40 TINAYRE, 1905, p. 299.

41 Vide WAELTI-WALTERS, 1990, p. 174-181.

42 WAELTI-WALTERS, 1990, p. 16.

43 TISSOT, 1911, p. 166-167.

44 RÉVAL, 1900, p. 364.

45 Seu dossiê de adesão à SDGL compreende um documento assinado em cartório, datado de 14 de junho de 1939 (ela faleceu em outubro de 1938), estipulando ser seu legatário Jean de la Forterie, seu "único filho natural por ela reconhecido, segundo declaração feita na prefeitura do 16o arrondissement de Paris, em 8 de setembro de 1898" e ter sido ela erroneamente declarada, em seu atestado de óbito, viúva de Gaud Emile de la Forterie, quando de fato desposara, em primeiras núpcias, Fernand Fleuret. Conclui-se, então, que o pai de seu filho era apenas seu amante, ou concubino. Note-se que seu filho, um industrial, assina suas cartas na SDGL "Jean Réval de la Forterie", retomando o nome artístico da mãe (AP 354, Archives Nationales).

46 YVER, 1928 [1903], p. 9.

47 YVER, 1907, p. 255.

48 Palavras de uma amiga de Paul Bourget, citadas por ele (BOURGET, 1901, p. 410).

49 Gabrielle HOUBRE, 1997 (vide capítulo 4: "L'innocence des demoiselles").

50 MALIC, 1885, p. 345. Sobre essa questão, vide HOUBRE, 1995, p. 341-354. Acerca do flerte, vide Fabienne ROSAZ, 1993.

51 PROVINS, 1899, p. 11.

52 PRÉVOST, 1894, p. 68-70.

53 PRÉVOST, 1894, p. 92-95.

54 TRILBY, 1904, p. 20. Trilby é o pseudônimo de Thérèse Delhaye.

55 Vide Yvonne KNIBIEHLER, 1996, e Sylvie MOMBO, 1998.

56 Feminino de garçon (rapaz), garçonne, diferentemente do nosso rapariga, ou garota (que têm outra conotação), significa "moça de vida independente". A palavra, hoje em desuso, entrou para a língua corrente depois da publicação desse livro. Cf. Le Petit Robert - dictionnaire de la langue française (Nota da tradutora).

57 MARGUERITE, 1908, p. 33.

58 DOUMIC, 1906, p. 451.

59 PRÉVOST, 1910, p. 345.

 

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Recebido em novembro de 2001
Aceito para publicação em outubro de 2002

 

 

Tradução de Dorothée de Bruchard
Publicação original: HOUBRE, Gabrielle. 'La Belle Époque des romancières', Masculin/Féminin. Le XIXe siècle à l'épreuve du genre, Toronto, Centre d'Etudes du XIXe siècle Joseph Sablé, 1999, p. 183 -197.
Excepcionalmente neste artigo as notas, em virtude de sua extensão, estão dispostas ao final do texto.

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