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Revista Estudos Feministas

Print version ISSN 0104-026XOn-line version ISSN 1806-9584

Rev. Estud. Fem. vol.12 no.spe Florianópolis Sept./Dec. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-026X2004000300018 

EXPERIÊNCIAS EDITORIAIS FEMINISTAS

 

Revista "A Mensageira": alvorecer de uma nova era?

 

Magazine A Mensageira: dawn of a new age?

 

 

Rosana Cássia Kamita

Universidade Estadual de Londrina (UEL)

 

 


RESUMO

A Mensageira "revista literária dedicada à mulher brasileira", lançada por Presciliana Duarte de Almeida (1867-1944), circulou em São Paulo, entre os anos de 1897 a 1900. Destinada à produção literária feminina, publicava também artigos que defendiam a emancipação das mulheres, reivindicando especialmente uma educação de qualidade. Em suas páginas figuravam nomes como os da escritora Júlia Lopes de Almeida (1862-1934) e da portuguesa Guiomar Torrezão (1844-1898), escritora e líder feminista.

Palavras-chave: revista A Mensageira; literatura; feminismo.


ABSTRACT

A Mensageira "literary magazine dedicated to the Brazilian woman", introduced by Presciliana Duarte de Almeida (1867-1944), it was available in São Paulo, between the years of 1897 to 1900. Destined to the feminine literary production, it also published articles that defended the women's emancipation, especially demanding a quality education. In its pages appeared names like the writer Júlia Lopes de Almeida (1862-1934) and the Portuguese woman Guiomar Torrezão (1844-1898), writer and feminist leader.

Keywords: A Mensageira, literature, feminism.


 

 

A Mensageira, "revista literária dedicada à mulher brasileira", foi lançada em São Paulo pela escritora e feminista Presciliana Duarte de Almeida,1 circulou entre os anos de 1897 e 1900, de início com periodicidade quinzenal e mensal a partir de 1899. Eram publicados textos em prosa e verso, com ênfase à produção literária feminina, e artigos nos quais se salientava a preocupação com a posição da mulher na sociedade e os preconceitos por elas enfrentados.

Não é uma publicação, como outras do período que destacavam assuntos como trabalhos manuais, moda, culinária, puericultura. A intenção era a de discutir questões relativas à emancipação da mulher, com a veiculação de textos literários, artigos que tratassem do tema, além dos editoriais com a reflexão crítica acerca da situação feminina. Para esse trabalho foi utilizada a edição fac-similar, em dois volumes, publicada pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo.2

O valor de um periódico como esse pode ser melhor avaliado se for devidamente contextualizado na época em que foi divulgado. O século XIX foi marcado por muitas transformações, destacando-se a consolidação do capitalismo, o desenvolvimento da vida urbana, e o fortalecimento de ideais burgueses, responsáveis, em grande parte, pela organização familiar, incluindo-se aí os papéis atribuídos a cada membro da sociedade.

A partir da segunda metade do século XIX as mudanças se acentuaram, os avanços tecnológicos aportavam no Brasil vindos da Europa, o que incitou o desenvolvimento de alguns centros urbanos. O panorama já poderia ser considerado mais favorável à educação formal das mulheres. Através desses pequenos progressos, uma parcela limitada da população tornou-se alfabetizada. Em relação à mulher ela deveria receber uma educação voltada à sua vida familiar, ou seja, não receberia instrução que a levasse à autonomia crítica, mas a ênfase recairia sobre sua formação moral.

Se hoje a posição da mulher na sociedade se distancia cada vez mais do papel feminino exercido no século XIX é graças ao empenho de mulheres que viveram à frente de seu tempo, expondo-se às críticas e lutando para conquistar o espaço quase sempre bastante cerceado. Esse percurso em árido terreno fez com que as mulheres fossem pouco a pouco almejando ampliar sua atuação na sociedade, não se limitando à esfera doméstica: "No final do século XIX, algumas mulheres não mais queriam apenas respeito, tratamento favorável dentro da família ou direito à educação, mesmo educação universitária, mas sim o desenvolvimento pleno de todas as suas faculdades, dentro e fora do lar".3 Com todas as limitações intelectuais e sociais, houve escritoras brasileiras que superaram os obstáculos e escreveram. Torna-se importante, sem condescendência, reconhecer a dedicação e coragem das brasileiras que publicaram suas obras, fazendo prevalecer a vontade acima dos preconceitos que poderiam vir a sofrer. Não era fácil às escritoras insurgirem-se aos padrões impostos para o comportamento feminino, e mesmo após a publicação de suas obras, ainda haveria a opinião do público leitor e dos críticos literários da época: condescendência com censura embutida ou mesmo desestímulo preconceituoso em relação à iniciativa de algumas escritoras. Se a tentativa literária demonstrasse senso crítico ou se posicionasse em relação a temas que se distanciassem do espaço doméstico ou do sentimentalismo vazio, a crítica se tornava mais severa.

Outras mulheres também não perderam a oportunidade de denunciar a discriminação feminina, principalmente aquelas que tiveram condições de se instruírem, e se colocaram a serviço de uma causa social, objetivando tirar do marasmo, da ignorância e do servilismo a maioria das mulheres da época. A imprensa muito colaborou no sentido de superar preconceitos e garantir às mulheres uma participação mais ativa na sociedade brasileira do século XIX, como por exemplo: Jornal das Senhoras, Belo Sexo, A Família, A Mensageira, dentre outras publicações. No primeiro número de A Mensageira no texto intitulado "Entre amigas", Júlia Lopes de Almeida,4 uma das principais colaboradoras da revista, reflete sobre o valor da iniciativa de Presciliana Duarte de Almeida:

Não é sem algum espanto que escrevo este artigo, para um jornal novo, e, de mulheres! É uma tentativa sem grandes fundamentos? Viverá pouco? Ficará? Só o tempo poderá responder a estas perguntas; entretanto, que fique, ou que passe no sopro ligeiro dos dias curtos, esta revista assignala um facto, digno de attenção de que o movimento feminista vae desenvolvendo a força de suas azas, no Brazil.5

A revista A Mensageira preocupava-se em defender uma educação de qualidade para as mulheres. A princípio os textos eram fundamentados em argumentos que de certa forma corroboravam com o preconceito em relação à mulher, ou seja, a educação feminina era defendida porque assim ela teria condições de exercer com maior competência seu papel de mãe e criar filhos que seriam melhores cidadãos. Em um segundo momento, no entanto, os argumentos pautavam-se na necessidade de uma educação à mulher que lhe permitisse participar do mercado de trabalho, ideal partilhado por muitas feministas da época, que consideravam esse o caminho para a autonomia feminina econômica e intelectual. Os excertos abaixo ilustram essas concepções, o primeiro pertence ao editorial "Falso encanto", escrito por Maria Emilia,6 o segundo, "Carta do Rio", foi escrito por Maria Clara da Cunha Santos:7

Pensem assim ou não, entretanto, queiram ou não queiram, a mulher instruida, forte, capaz de velar à cabeceira de um filho enfermo, auxiliando as prescrutações da sciencia; ou de repellir com energia as chalaças de qualquer imbecil, será a mulher do futuro, será a verdadeira companheira do homem, que sabe participar de todos os seus pensamentos e ajudal-o em todas as resoluções difficeis.8
A proposito da educação moral da mulher, escreveu Maria Amalia Vaz de Carvalho, no "Jornal do Comércio", um excellente artigo intitulado "A mulher do futuro". A illustre escriptora penitencia-se em publico e raso do seu antigo modo de pensar a proposito das profissões que as mulheres deviam adoptar.
Ate então Maria Amalia aconselhava e dizia em bonitos e bem lançados artigos que a mulher devia estudar e se instruir para embellesar a vida do seu companheiro de existencia, do eleito de su'alma, para se tornar a flor delicada do lar, centro de todo o carinho, para ser, em summa, o ideal e o unico pensamento do marido; hoje, mais pratica e mais positiva, ensinada, talvez, por grandes desillusões, ella aconselha o estudo como uma arma de combate; a profissão liberal como uma providencia immediata e mostra com elevado estylo e fortes analyses de factos incontestaveis a necessidade que a mulher tem de se preparar para a lucta, procurando pelo esforço próprio a sua independencia, a sua vida.
Ainda bem! Causava-me espanto o antigo modo de pensar da illustre escriptora relativo a esse ponto de magna importancia no momento actual. Hoje, que ella publicamente se mostra arrependida de seu modo de pensar – poetico em demasia – eu venho annunciar, com alegria, esse facto aos leitores desta revista.
Mais uma para o nosso lado!9

As escritoras que colaboraram com a revista tiveram a oportunidade de um meio de comunicação que lhes permitisse expressar seus anseios e expectativas e a literatura não se limitava a uma arte, mas projetava-se também como meio de reflexão, enquanto mulher e escritora. Era uma publicação "dedicada à mulher brasileira", o propósito era o de alertar as mulheres para seu estado de submissão, mostrar-lhes que era possível ambicionar uma participação mais efetiva na sociedade, deixar no passado a imagem de um ser frágil, incapaz de embates intelectuais, a passar tardes inteiras distraída com meadas de linhas e de quando em vez passar os olhos por poemas de Casimiro de Abreu ou verter algumas lágrimas ao terminar de ler o último capítulo de um folhetim. Esse era o estereótipo da mulher do século XIX, cumpria-se agora construir a imagem da mulher do futuro. Os trechos a seguir transcritos expressam as expectativas em relação à revista A Mensageira e o desejo de que publicações como essa colaborassem para uma nova perspectiva em relação à emancipação feminina, como é possível perceber pelos testemunhos de Anália Franco10 e Guiomar Torrezão:11

Realmente, o pensamento de encetar uma publicação, afim de pugnar pelos direitos e deveres da mulher brazileira, para tornal-a mais valida e mais forte, podendo, como o homem, resistir altiva, corajosa a todas as luctas e amarguras da vida, é uma idéa grandiosa e de magno alcance. Emtanto, essa idéa que tem feito tantos adeptos entre os grandes apostolos do bem, entre nós ainda não envolve uma solução efficaz, pelas multiplas difficuldades que tem a vencer.
A mulher brazileira, com algumas excepções, acostumada a não amar a leitura por julgal-a um elemento de perversidade, em razão da má educação que nos deram, parece não sentir a necessidade de uma distracção superior.
A vaidade e o desejo ardente de brilhar pelas graças exteriores, constituem a estreita ambição e o pensamento de muitas, que acreditam ser esta civilisação a ultima conquista do progresso humano. As consequencias d'isto são o enfraquecimento sensível das noções da responsabilidade e do dever, a tendencia decisiva para essa preguiça mental que nos quebranta e esterilisa. Conceber o bem não basta, é preciso fazel-o fructificar; eis a missão grandiosa da Mensageira, que deve ir pouco a pouco rasgando á mulher brazileira horizontes cada vez mais vastos, visto que o progresso reclama a educação universal e pede costumes novos.12
Felicito-a pela sua Mensageira, porta-estandarte do movimento feminista no Brazil, que me traz em cada numero que leio, com progressivo e affectivo interesse, um grande e consolador jubilo.
É digno da forte e opulenta raça, exuberante de seiva, dos Estados Unidos do Sul, a aspiração para uma nova era, susceptivel, creio eu, de imprimir á humanidade um novo e modelar feitio moral, mental e social, que vibra, como o cantico da aurora, preadivinhando o glorioso dia, nas colunas da Mensageira.
Saúdo-a pelo seu emprehendimento, que tão decisiva e benefica influencia deverá ter nos destinos da mulher brazileira e no vasto território da sua patria.13

Os ideais feministas de A Mensageira devem ser entendidos a partir do cenário sócio-político-econômico de fins do século XIX. Como Guiomar Torrezão salientou: "O feminismo é a causa mais intuitivamente logica e mais importante para o aperfeiçoamento e engrandecimento da humanidade, que o seculo XIX leva á solução do seculo XX".14

 

Notas

Copyright ã 2004 by Revista Estudos Feministas.

1 Presciliana Duarte de Almeida (1867-1944). Escritora e feminista. Publicações: Rumorejos (1890); Sombras (1906); Vetiver (1939); Antologia Poética (1976 póst.).

2 Agradeço à Profa. Dra. Zahidé Lupinacci Muzart o empréstimo dessa edição.

3 June HAHNER, 1981,p. 81.

4 Júlia Lopes de Almeida (1862-1934). Escritora, uma das mulheres de maior prestígio intelectual no Brasil em sua época. Colaborou com jornais de grande circulação e periódicos produzidos por mulheres. Publicou várias obras, dentre as quais: A família Medeiros (1892); A viúva Simões (1897); Eles e elas (1910); Era uma vez... (1917); Pássaro Tonto (1934).

5 ALMEIDA, n. I, v.1, p. 3.

6 Maria Emília Lemos, prosadora, assídua colaboradora de A Mensageira.

7 Maria Clara da Cunha Santos (1866-1911), poetisa e prosadora uma das principais colaboradoras da revista A Mensageira.

8 LEMOS, v. I, n.2, p. 17.

9 SANTOS, n.II, v.30, p. 120-121.

10 Anália Franco (1856-1919). Escritora, dedicou-se a intenso trabalho assistencial.

11 Guiomar Delfina de Noronha Torrezão (1844-1898). Escritora portuguesa; líder feminista.

12 FRANCO, n.I, v.12, p. 178.

13 TORREZÃO, n.I, v.15, p. 190.

14 TORREZÃO, n.II, v.36, p. 239.

 

Referências

ALMEIDA, Júlia Lopes de. Eles e Elas. Rio de Janeiro:Francisco Alves, 1910.         [ Links ]

___. Era uma vez... Rio de Janeiro: Jacinto Ribeiro dos Santos, 1917.         [ Links ]

___. A família Medeiros. Rio de Janeiro: Empresa Nacional de Publicidade Editora, 1919.         [ Links ]

___. Pássaro Tonto. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1934.         [ Links ]

___. A viúva Simões. Florianópolis: Ed. Mulheres/Edunisc, 1999.         [ Links ]

ALMEIDA, Presciliana Duarte de. (Diretora). A Mensageira: revista literária dedicada à mulher brazileira. Edição fac-similar. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado/Secretaria de Estado da Cultura, 1987. [Reprodução em livro, dois volumes, da Revista Literária publicada de 1897 a 1900, na cidade de São Paulo.]         [ Links ]

___. Pirilampos e Rumorejos. Rio de Janeiro: Tip. Lit. de Carlos Gaspar da Silva, 1890. [Pirilampos foi escrito por Maria Clara da Cunha Santos.]         [ Links ]

___. Sombras. São Paulo: Tipografia Brasil (Rothschild & Co.), 1906.         [ Links ]

___. Vetiver. São Paulo: Tipografia Cupolo, 1939.         [ Links ]

___. Antologia Poética. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1976.         [ Links ]

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