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Revista Estudos Feministas

Print version ISSN 0104-026XOn-line version ISSN 1806-9584

Rev. Estud. Fem. vol.14 no.1 Florianópolis Jan./Apr. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-026X2006000100004 

ARTIGOS

 

Entre as tramas da sexualidade brasileira

 

In the fabric of brazilian sexuality

 

 

Maria Luiza Heilborn

Universidade do Estado do Rio de Janeiro

 

 


RESUMO

Este artigo trata dos mitos e comportamentos sexuais, com o objetivo de demonstrar a natureza fabricada da representação acerca da sexualidade brasileira como altamente erotizada e maleável. A partir de uma visão construtivista da sexualidade, os mitos em torno da natureza sexual dos brasileiros são analisados. Vigora no país a representação de que a cultura brasileira é muito aberta sexualmente, expansiva e – calorosa o que se constitui como referência positiva para a identidade nacional. A partir de dados provenientes de um inquérito domiciliar realizado em três cidades de distintas regiões do país, com jovens de ambos os sexos, de 18 a 24 anos, e de dados históricos, o artigo busca demonstrar que os comportamentos sexuais não correspondem à imagem socialmente difundida da sexualidade brasileira, fortemente codificada por relações de gênero.

Palavras-chave: sexualidade; comportamentos sexuais; juventude.


ABSTRACT

This article is about sexual myths and conducts, aiming to demonstrate the constructed nature of the Brazilian sexuality representation as highly eroticized and malleable. Starting from a constructivist perspective of sexuality, the myth of Brazilian sexual nature is analyzed. There is a widespread idea that Brazilian culture is sexually too open, expansive and warm – which is considered as a positive reference for national identity. Considering historical data and those originated from a survey carried out in three regions of the country with young people of both sexes aged 18 through 24, the article demonstrates that sexual behaviors do not correspond to the socially diffused image of Brazilian sexuality - strongly patterned by gender relations.

Key Words: Sexuality, sexual behaviors, youth.


 

 

Este artigo trata dos mitos e comportamentos sexuais, com o objetivo de demonstrar a natureza fabricada do mito da sexualidade erotizada brasileira. Ele está estruturado em três partes: na primeira, são apresentadas as idéias e hipóteses que orientam uma visão antropológica da sexualidade. Adoto uma perspectiva construtivista da sexualidade,1 que busca desnaturalizar esse domínio. O argumento da construção social do sexual considera que essa dimensão humana não é natural, nem universal em sua forma de expressão, nem inata e, de um ponto de vista sociológico, não pode ser interpretada como pulsão psíquica ou função biológica. Os antropólogos e sociólogos consideram que a expressão da sexualidade se dá em um contexto social muito preciso, o que orienta a experiência e a expressão do desejo, das emoções, das condutas e práticas corporais.2

Na segunda parte analisa-se o mito da sexualidade brasileira. Em vários contextos nacionais e internacionais há uma idéia de que a cultura brasileira é muito aberta sexualmente, expansiva e calorosa. Por assim dizer contaminados por uma permanente carnavalização, os brasileiros fariam de tudo na cama. A idéia de uma identidade nacional erotizada é muito difundida, uma imagem histórica e densamente construída. Para os brasileiros é uma referência positiva. Contudo, entre imaginário e relações sociais concretas há desconti-nuidades. No que concerne aos comportamentos sexuais declarados, como vou demonstrar, essa imagem merece reparos.

A terceira parte apresenta pequenos retratos sobre comportamento sexual e valores acerca da sexualidade entre os jovens brasileiros. Os dados são provenientes de um inquérito domiciliar (GRAVAD),3 realizado em três cidades de distintas regiões do país (Porto Alegre, Rio de Janeiro e Salvador). Essas cidades são muito heterogêneas, do ponto de vista cultural e regional. A pesquisa foi desenvolvida em colaboração com três universidades públicas brasileiras em 2002, com 4.634 jovens de ambos sexos de 18 a 24 anos.

 

A abordagem sócio-antropológica da sexualidade

A sexualidade é objeto de análise sociológica de diversos autores que contribuíram para a compreensão do processo histórico que produziu a sua autonomização como uma dimensão do humano. Norbert Elias, em O processo civilizador,4 descreve como foram construídas fronteiras entre os corpos, aumentando o domínio da intimidade dos individuos, censurando a espontaneidade dos gestos e modelando as demonstrações afetivas.5 Esse processo de controle social mais amplo da gestão das emoções e da pacificação das relações entre os indivíduos teve importantes desdobramentos, influenciando o modo como se dão as interações corporais. Em um longo processo histórico, foram instituídos padrões de privacidade, de pudor e de nojo que são de crucial importância para o exercício da sexualidade.

O processo civilizador – que varia de uma sociedade a outra – teve na análise elisiana a França do século XVII como o caso clássico. Cada sociedade que pertence ao denominado mundo ocidental apresenta processos históricos distintos de estabelecimento de etiquetas corporais. No entanto, por efeito da difusão cultural, esses processos acompanham as linhas gerais estabelecidas pelo modelo francês de demarcação das fronteiras entre os corpos e a produção de dimensões íntimas da subjetividade.

Os estudos dos processos histórico-culturais demonstram como algumas condutas, perfeitamente aceitas em determinados momentos da história, passam a ser interditadas em outros períodos, modificando a forma como os sujeitos vivenciam as sensações corporais. Através do autocontrole individual os interditos são internalizados e atos que eram praticados publicamente se transformam em comportamentos cada vez mais privados.6 Essa censura pode ser demonstrada por meio de alguns exemplos simples: atualmente compartilhar com alguém o mesmo copo onde se bebe água é um ato que exige um certo nível de intimidade. Nesse caso, estão em jogo representações da ordem do "sujo" e "desconhecido", em oposição às dimensões do "limpo" e "conhecido". Assim, uma das maneiras de demonstrar amor é suspender as barreiras entre os corpos.7 Um casal de namorados pode trocar chicletes já mastigados sem que isso provoque nojo entre eles, o que ilustra a suspensão dos limites entre os corpos das pessoas que se amam.

Outro autor importante que se dedicou a compreender o caráter social da sexualidade foi Michel Foucault.8 Para ele, a sexualidade é uma invenção do século XVIII, quando fatos ligados à expressão do sexo e a determinados contatos corporais visando à obtenção e à produção do prazer adquiriram um conteúdo específico. Na trajetória ocidental, a sexualidade passou a significar uma dimensão da pessoa moderna ocidental, crucial para a definição do sujeito. Segundo Foucault,9 vários saberes, instituintes e instituídos em hospitais, presídios, manicômios e também fabricados pelo próprio dispositivo da sexualidade, fizeram dela o lugar de enunciação da verdade interna dos sujeitos. A partir da "modernidade", cria-se um conjunto de discursos sobre o sexo, codificados em termos do caráter do desejo sexual, definido pelas noções de heterossexualidade e homossexualidade. Essa forma de classificação é derivada da psiquiatria do século XIX e, portanto, bastante peculiar à sociedade ocidental.

Feita essa breve introdução, considero que o sexo deva ser tomado como qualquer outra atividade humana, tal como a alimentação e os hábitos de higiene, uma atividade aprendida. Os indivíduos são socializados para a entrada na vida sexual por meio da cultura, que orienta roteiros e comportamentos, considerados aceitáveis para cada grupo social. Conseqüentemente, as práticas sexuais se diferenciam no interior de cada sociedade, variando de acordo com os referenciais dos diversos segmentos sociais que a compõem. Às expressões e manifestações relativas à sexualidade correspondem distintos significados, segundo os valores vigentes em um dado estrato sócio-cultural. Portanto, os atos sexuais não são necessariamente unívocos. Gagnon10 já salientou, por exemplo, que a performance do felattio tanto pode significar um caráter altamente erótico como representar uma estratégia para evitar um intercurso sexual penetrativo. A socialização que o exercício da sexualidade demanda está intimamente relacionada ao modo como as relações de gênero estão organizadas em um determinado contexto.11 Homens e mulheres são modelados socialmente de maneiras muito variadas. Nesse processo intervêm representações sociais profundamente entranhadas no modo de conceber a sociedade, na produção de discursos e nas próprias práticas sociais.12 Essas diferenças são particularmente notáveis tanto entre as classes sociais como entre os gêneros,13 podendo ser acompanhadas pelos roteiros sexuais que os indivíduos seguem.

Desse modo, o estudo da sexualidade põe em evidência a idéia mais relevante da teoria sociológica: a relação entre sociedade e indivíduo e como são produzidos contextualmente os nexos entre esses dois pólos. Os roteiros sexuais espelham as múltiplas e diferentes socializações que uma pessoa experimenta em sua vida: família, tipos de escolas, acesso a distintos meios de comunicação, redes de amizade e vizinhança. Esses roteiros são especialmente relevantes na fase em que a sexualidade se torna uma questão muito importante: na adolescência/juventude, quando se dá o início da vida sexual com parceiro, e, a seguir, na passagem à vida adulta.14 Uma determinada concepção de sexualidade está em jogo quando da entrada na vida sexual, intimamente vinculada com o uso social do corpo, sendo este modelado pelas normas culturais.

O uso social do corpo é uma dimensão da antropologia da pessoa que assinala como socialmente construída a maneira como caminhamos, sorrimos ou rimos, olhamos, escutamos ou empreendemos muitas das funções consideradas naturais de nossos corpos. Quando duas pessoas se olham, por exemplo, há diferenças notáveis conforme a nacionalidade: os brasileiros podem olhar alguém de seu próprio sexo ou do outro sexo de forma muito direta, com contato direto entre os olhos. No entanto, em países europeus não se deve olhar frontalmente nos olhos do outro, pois isso pode significar uma tentativa de sedução. Os brasileiros se comunicam com outras pessoas por diversas formas de contato corporal muito direto: pelo olhar, com abraços e beijos, tocando no corpo alheio para chamar a atenção – o que, por exemplo, na França, seria considerado inadequado15 e possivelmente interpretado como um avanço indesejado e talvez agressivo.

A forma como cada cultura considera adequado o uso dos corpos diz respeito às idéias dominantes na sociedade, em cada momento histórico. Assim, os conceitos de beleza podem ser muito distintos e variar de uma região para outra em um mesmo país, de um grupo social para outro, de um período histórico para outro. Por exemplo, uma mulher gorda e roliça era considerada um modelo de beleza no Taiti do século XIX e na Renascença italiana do século XV – o que, nas sociedades contemporâneas ocidentais é significado muito diversamente, podendo inclusive ser o oposto do ideal estético hegemônico. Uma aparência física que não seja considerada bela pode acarretar, tanto em uma mulher como em um homem, conseqüências importantes em sua forma de expressão da sexualidade. Esse exemplo, apesar de referir-se a um plano individual, demonstra também que há uma apreciação social dos corpos que intervém diretamente sobre as oportunidades relativas ao exercício da sexualidade, tais como a atração exercida sobre outras pessoas, a qual possibilita obter parceiros.

Outro tópico relevante é a concepção do sexo como atividade legítima de comunicação ou de mobilidade social, o que também varia de acordo com o gênero, a classe e o contexto histórico. O sexo pode ser pensado como uma alternativa digna ou menos aceitável de estabelecer relações que não almejam somente um vínculo erótico, afetivo ou reprodutivo. Na cultura brasileira é altamente possível o uso do sexo como forma de ascensão social em determinados contextos. A preferência de homens negros por mulheres brancas, em casamentos inter-raciais,16 é reveladora de uma forma de ascensão social e de uma hierarquia, tanto de beleza como racial, o que integra distintos modos de prática e de representações da sexualidade. Esse exemplo ilustra não somente um determinado modo de ascensão social, como também evidencia relações de gênero e sua codificação em regras jurídicas e em costumes sexuais. Cada sociedade possui um código, com normas relativas à idade apropriada ao exercício da sexualidade e aos tipos de união conjugal, o que pode ser ilustrado pelo casamento inter-racial na África do Sul, interditado durante muito tempo, o que nunca foi objeto de sanção legal no Brasil. Conclui-se, portanto, que as distintas formas de interpretar as relações sexuais possibilitam impactos diversos na forma de vivência da sexualidade em cada contexto.

A sexualidade pode ser pensada também a partir da articulação entre o nível mais amplo, societário, e a trajetória individual e biográfica dos indivíduos. Partimos do pressuposto de que a sexualidade é objeto de um processo de aprendizagem e este, por sua vez, é pautado tanto pelas concepções de gênero como pelo sexo anatômico do indivíduo. Assim, as pessoas vão sentir atração ou interesse por outras a partir de determinados parâmetros, como, por exemplo, a altura dos homens e mulheres. Michel Bozon,17 em seu artigo sobre a composição de casais, ressalta que geralmente, quando se pensa em um par, o homem deve ser mais alto que a mulher. Por que é esteticamente inadequado que uma mulher seja mais alta que o homem? Essa formulação expressa uma relação hierárquica de gênero, revelando uma representação de gênero baseado na dominação masculina.

Essas regras inconscientes funcionam em nossa seleção de par, orientando por quem nos enamoramos. As representações são valores interiorizados pelos sujeitos, sem uma consciência permanente de sua presença, e todas essas dimensões interiorizadas dos sujeitos desempenham um papel relevante na maneira que cada um vive sua biografia sexual, orientada pelos roteiros sexuais.18

Uma abordagem sociológica sobre a sexualidade é extremamente relevante, por demonstrar que os mecanismos inconscientes de origem social conformam a subjetividade do indivíduo, de modo que o intrapsíquico não tem origem somente em uma psicologia individual, mas em regras coletivas que estão totalmente interiorizadas. Um bom exemplo dessas regras sociais pode ser retomado, em debate com as posições defendidas por Michel Bozon em seu livro Sociologia da sexualidade.19 Ele argumenta que a idéia de revolução sexual é uma falsa noção. Ele desconstrói a categoria de revolução ao afirmar que não houve uma reviravolta total nos princípios que ordenam o exercício da sexualidade, ainda que mudanças importantes tenham-se produzido no decorrer das três últimas décadas. Defendo o argumento de que a idéia de revolução sexual deva ser tomada como mais uma categoria nativa: os sujeitos crêem que houve uma revolução sexual, que diz respeito à liberalização de determinados códigos mais restritos das condutas – sobretudo os das mulheres e a uma maior liberdade em tratar publicamente o tema da sexualidade. Nesse plano analítico, o êmico, a revolução sexual teve lugar, ainda que no plano conceitual não seja preciso referir-se às mudanças de comportamentos sexuais observadas nas últimas três décadas. O gênero e a assimetria nas relações entre homens e mulheres20 permanecem sendo organizadores poderosos do modo como se desenrolam a atividade sexual e a capacidade de negociação entre parceiros do que se passa em um intercurso sexual, nuançando no plano analítico a transformação profunda que a sexualidade teria presenciado.

 

O mito da sexualidade brasileira

Geralmente se considera que os brasileiros são muito desinibidos, "quentes", calorosos e estão sempre prontos a fazer de tudo na cama. É como se o país fosse uma espécie de paraíso sexual. Essa noção foi construída historicamente: trata-se de uma imagem do Brasil que remonta à idéia de que os portugueses, ao chegarem ao país, descobriram indígenas que viviam sem roupa e conheciam formas de organização social muito simples. Segundo relatos, o Brasil-colônia era uma terra "sem rei e sem lei", com costumes como, por exemplo, o das tribos Tupi (da região costeira), de homens oferecerem suas mulheres a forasteiros como prova de reciprocidade, o que era muito estranho para os europeus. A idéia dos colonizadores era de que o Brasil era um país sem moralidade sexual, com nativos muito sensuais, imagem que foi muitas vezes reproduzida por historiadores e viajantes europeus.21 Assim, se apresenta uma ideologia da nacionalidade brasileira, apoiada na idéia de mistura étnica de três raças: brancos europeus, indígenas e africanos, que foram enviados ao país como escravos. Por muito tempo se acreditou na existência de uma democracia racial no Brasil,22 na ausência de preconceito racial. Essa imagem é especialmente forte quando se compara o Brasil com a África do Sul ou com os Estados Unidos. A miscigenação do branco com indígenas e negros é considerada responsável na cultura brasileira pelos componentes de espontaneidade, afetividade, sensualidade e da habilidade corporal para o samba e o futebol.23

Essa imagem do Brasil como um país de moralidade sexual flexível diante dos padrões europeus oriundos do catolicismo e protestantismo é resultante de um conjunto heterogêneo de representações científicas e populares. Entre as primeiras pode-se mencionar as de Gobineau, o pai do racismo científico. Ele esteve no Brasil durante dois anos no final do século XIX, quando o Brasil era um império. Esse pensador francês desenvolveu suas idéias sobre a hierarquia racial a partir de sua experiência no Brasil e do contato com os negros africanos, trazidos como escravos.24

A idéia de que a sensualidade se deve a essas raízes negras é reforçada nesse período e é fortemente expressa no mito da sexualidade aberta e desinibida dos brasileiros. Esse mito está presente também na divulgação de um tipo de propaganda do país, na publicidade do turismo, que promove, por exemplo, a imagem da mulata: uma mulher sexualmente muito liberada, "quente" e "fogosa", o resultado da miscigenação de um homem branco com uma mulher negra. A publicidade difunde uma imagem de um país no qual as pessoas andam quase nuas nas praias, com mulatas, de modo que há uma associação entre as imagens do carnaval com as de paraíso sexual. Mais recentemente, o Brasil também é vendido como um paraíso gay, indicando um país onde há muita tolerância e liberdade em relação à homossexualidade, tanto masculina como feminina. Na realidade, não é exatamente assim que se passa. Para tratar dos retratos mais aproximados do que ocorre nesse "paraíso sexual, aberto e tolerante", lanço mão dos dados da pesquisa GRAVAD sobre juventude, sexualidade e reprodução, realizada em três cidades brasileiras.

 

Retratos de uma sexualidade

Muito se fala sobre as mudanças de costumes na contemporaneidade e grande parte das discussões é dirigida à conduta dos jovens. A juventude sempre atraiu interesse de estudiosos, uma vez que é nela que se podem observar as tendências de mudanças nos processos sociais.25 Atualmente, o tema da sexualidade juvenil está internacionalmente na ordem do dia. Observa-se hoje que na socialização das gerações mais jovens há um relativo declínio da importância da família na transmissão de valores relativos à sexualidade e uma crescente influência da escola, não como disciplinadora da conduta, mas cada vez mais como propiciadora de novas interações entre iguais.26 Os jovens estão desempenhando um papel gradativamente mais relevante em sua própria socialização. Verifica-se uma horizontalização dos processos de socialização, na qual os jovens são produtores de novas condutas.27

A investigação GRAVAD foi uma pesquisa domiciliar com entrevistas semi-estruturadas. Inicialmente realizaram-se 123 entrevistas nas três cidades, com um sistema de cotas entre os sexos, de classe e experiência de maternidade e paternidade, de modo a garantir uma representabilidade razoável passível de oferecer elementos para a elaboração do questionário. Assim, desenvolveu-se uma investigação qualitativa desenvolvida anteriormente à aplicação do questionário, com o objetivo de torná-lo culturalmente adequado às diferenças regionais do país. A pesquisa foi desenvolvida levando em conta um problema social considerado extremamente importante no Brasil: "a gravidez adolescente". Trata-se de um fenômeno freqüentemente tido como um problema social de saúde pública de dimensões alarmantes, tanto pelas instâncias governamentais como pela mídia. Em particular, a mídia associa a parentalidade do jovem como uma das possíveis causas do aumento da criminalidade, uma vez que são os jovens mais pobres os que mais se envolvem com a maternidade e a paternidade tidas como precoces.28

Foram entrevistados jovens de 18 a 24 anos, com uma amostra domiciliar estratificada em três estágios. O questionário ampliado continha 336 perguntas e o tempo de resposta variava: se o jovem era virgem respondia em 10 minutos. No entanto, se ele tivesse filhos, o tempo ultrapassava uma hora. A média de tempo de aplicação foi de 42 minutos. O primeiro achado relevante consistiu na idade mediana da iniciação sexual: para os rapazes, 16,2 anos; e para as moças,17,9 anos. Portanto, há um intervalo de 2 anos entre os sexos, um padrão bastante difundido em diversos países da América Latina (Tabela 1). Essa diferença de 2 anos no calendário de iniciação sexual contrasta com o padrão observado em países europeus, como França e Alemanha, onde há uma aproximação das idades masculina e feminina.29

 

 

A pesquisa Gravad foi realizada em três cidades muito distintas, sendo Porto Alegre a cidade mais ao sul do país, com a maior parte da população branca (75% de brancos), de origem alemã, italiana e polonesa. Já a cidade de Salvador possui 60% de negros e é a capital brasileira com a maior população negra.30 Essas diferenças podem dar origem a idéias preconceituosas, em função de estereótipos raciais. Por exemplo, quando falava da pesquisa com meus companheiros acadêmicos, lhes perguntava: qual seria a cidade com iniciação sexual mais precoce? como uma forma de aproximação do imaginário presente. Todos, sem exceção, respondiam que seria Salvador, por ser uma cidade com uma grande proporção de negros. Entretanto, o que ocorre é justamente o contrário. Esta é a cidade com a iniciação sexual mais tardia, e a iniciação sexual mais precoce foi observada na cidade com uma população que descende, em sua maior parte, de imigrantes europeus brancos. Não se trata de explicar a diferença pelo impacto modernizador dos europeus, mas de desconstruir o vínculo entre raça e sexualidade mais precoce.

A esses dados deve ser agregado que condições materiais de existência também estão presentes na modelação da sexualidade. Porto Alegre, por exemplo, governada pelo Partido dos Trabalhadores (PT) durante 16 anos, é a cidade que possui os melhores índices de desenvolvimento social e de escolaridade, maior cobertura dos serviços de saúde, melhor índice de uso de contraceptivos na primeira relação sexual e uma distribuição de renda mais equânime, em um país com tantas desigualdades sociais como o Brasil. Esse quadro sintético, em que se entrecruzam múltiplas variáveis, vem em auxílio da interpretação de por que Porto Alegre, no âmbito da comparação empreendida pela mencionada pesquisa, apresenta os percentuais de gravidez menos precoce. Esse cenário rapidamente descrito serve para relativizar os mitos difundidos sobre a sexualidade brasileira.

E quais são as idéias dos jovens sobre sexualidade? As concepções sobre fidelidade ou infidelidade são úteis para assinalar se haveria uma maior tolerância em relação à infidelidade masculina ou à feminina. Para os jovens entrevistados não é possível manter relações afetivas com uma pessoa e fazer sexo com outras pessoas quando em um relacionamento afetivo. A aceitação e difusão do ideal de uma relação entre jovens demonstra a importância do momento dessa etapa de vida, na qual o aprendizado da sexualidade se dá concomitantemente ao da afetividade (Tabela 2).

 

 

Quanto às crenças dos jovens brasileiros sobre a natureza do desejo sexual, perguntou-se se era possível controlar a vontade de fazer sexo por pouco tempo, por muito tempo ou se era impossível controlá-la. O sexo como uma necessidade física tem pequena proporção de aceitação entre mulheres de maior escolaridade e é mais aceito em moças com menor nível de escolaridade. Mas, na comparação dos dados dos jovens com alta escolaridade, observa-se uma diferença de gênero muito importante. Os homens altamente escolarizados, pertencentes às camadas médias e médias altas da sociedade, são os que melhor expressam a ideologia de gênero do sexo masculino, que associa o sexo a uma necessidade física e a uma força incontrolável, o que contrasta com as mulheres do mesmo grupo social. São exatamente os privilegiados que vão rejeitar uma perspectiva mais relacional da sexualidade, afirmando valores tradicionais da supremacia do desejo masculino.

As atitudes diante da homossexualidade (Tabela 3) – sobretudo a masculina – são ilustrativas da ideologia de gênero que venho tentando demonstrar neste texto. Gostaria de destacar que é mediante o nível de escolaridade da mãe que foi realizada uma classificação do nível social dos jovens entrevistados. O que se observa inicialmente é que a tolerância à homosssexualidade masculina é maior entre as moças do que entre os rapazes. A pergunta foi formulada se as pessoas podem fazer sexo com quem desejam, utilizando-se "transar", uma palavra ampla e coloquial no Brasil, para expressar relações sexuais. É uma maneira sutil de falar de fazer sexo, se essas pessoas podem "transar" com quem querem. As outras palavras utilizadas foram "sem vergonha" e "doente" ("homossexualidade como doença"). Os dados são reveladores: 90% das mulheres com maior nível de escolaridade aceitam a homossexualidade e entre os homens a proporção decresce para 70%. Dessa forma, permanece uma diferença de gênero muito marcada entre os mais escolarizados, indicando uma persistência da maneira como a virilidade é pensada no Brasil.

 

 

A iniciação sexual no Brasil não apresenta variações entre grupos sociais, mas as variações entre homens e mulheres são muito marcadas. Para os rapazes é uma obrigação social, um aprendizado técnico, que pode garantir o status de virilidade.31 Enquanto para os homens não há nenhum tipo de determinante social, para as mulheres a iniciação sexual depende das formas de controle da família, do nível de escolaridade e do pertencimento religioso.

A análise do repertório de práticas sexuais demonstra uma forte diferença entre homens e mulheres do mesmo grupo social, certamente revelando efeitos de declaração para mulheres, pelo pudor; enquanto entre os homens é possível a ocorrência de efeitos de valorização de todas as formas de contato sexual.

O quadro está longe de se aproximar da imagem de país como sexualmente desinibido. Diferenças tão profundas entre homens e mulheres atestam que um código de gênero estabelece fronteiras demarcadas entre a conduta aceitável para cada categoria de sujeitos. Modos de significação e contabilidade das práticas sexuais se apresentam como demarcadores de universos distintos para homens e mulheres. O destaque dado pelos rapazes à experiência no curso de uma vida curta do sexo anal contrasta fortemente com dados de pesquisas internacionais, considerada a mesma faixa etária32 (Tabela 4). Além disso, o material etnográfico oriundo da primeira etapa da pesquisa sinalizou como esta técnica sexual é objeto de forte negociação entre casais,33 revelando complexas relações de força e persuasão no exercício da sexualidade. Parece-me assim possível arrazoar sobre o intricado nexo entre o imaginário (o de paraíso sexual) e as condições concretas (simbólicas e materiais) do exercício da sexualidade no Brasil.

 

 

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Recebido em outubro de 2005 e aceito para publicação em março de 2006

 

 

1 Carole Vance, 1995; e Jeffrey Weeks, 1986.
2 John Gagnon e Willian Simon, 1973.
3 A pesquisa GRAVAD ("Gravidez na adolescência: estudo multicêntrico sobre jovens, sexualidade e reprodução no Brasil") foi realizada por três centros de pesquisa: o Programa de Estudos "Gênero, Sexualidade e Saúde" do Instituto de Medicina Social/UERJ, o Programa de Estudos "Gênero, Mulher e Saúde" do Instituto de Saúde Coletiva/UFBA e o Núcleo de Pesquisa em Antropologia do Corpo e da Saúde/UFRGS. O grupo de pesquisadores da equipe GRAVAD compreende Maria Luiza Heilborn (coordenadora), Estela Aquino, Daniela Knauth, Michel Bozon, Ceres Victora, Fabiola Rohden, Cecilia McCalum, Tania Salem e Elaine Reis Brandão. O consultor estatístico é Antonio José Ribeiro Dias (IBGE). A pesquisa foi financiada pela Fundação Ford e contou com apoio do CNPq e Capes.
4 Elias, 1994.
5 Anne Vincent-Bufault, 1988.
6 Vincentt-Buffault, 1988.
7 Heilborn, 2004.
8 Foucault, 1988.
9 Foucault, 1988, p. 145.
10 Gagnon, 1987.
11 Heilborn, 1999.
12 Michel Bozon, 1995.
13 Bozon e Heilborn, 2001.
14 Gagnon e Simon, 1973.
15 Clarice Peixoto, 1995.
16 Laura Moutinho, 2004.
17 Bozon, 1995.
18 Gagnon e Simon, 1973.
19 Bozon, 2004.
20 Heilborn, 1993.
21 Sérgio Buarque de Hollanda, 1972.
22 Gilberto Freyre, 1933.
23 Em certos aspectos há pontos em comum entre as concepções sobre o papel da raça negra no Brasil e na Colômbia, país que também apresenta a idéia de que os negros teriam carreado uma marca importante de corporalidade e sexualidade (cf. Mara Viveros, 2000).
24 Moutinho, 2004.
25 Helena Abramo, 1997; e Marília Sposito, 1997.
26 Olivier Galland, 1997.
27 Brigitte Lhomond, 1999.
28 Maria Luiza Heilborn, Luiz Fernando Dias DUARTE, Clarice PEIXOTO e Myriam LINS DE BARROS, 2004.
29 Bozon, 2004.
30 IBGE, 2002.
31 Heilborn, 1999.
32 Edward Laumann, John Gagnon, Robert Michael e Stuart Michaels, 1994; Alfred SPIRA, Nathalie BAJOS e o Groupe ACSF, 1993.
33 Andréa Leal, 2004.

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