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Revista Estudos Feministas

Print version ISSN 0104-026X

Rev. Estud. Fem. vol.14 no.1 Florianópolis Jan./Apr. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-026X2006000100015 

IN MEMORIAM

 

Betty Friedan: morre a feminista que estremeceu a América

 

 

Ana Rita Fonteles Duarte

Universidade Federal de Santa Catarina

 

 

Betty Naomi Goldstein, ou Betty Friedan, se foi em 4 de fevereiro último, em Washington, no dia em que completou 85 anos. Em nada a partida, registrada em notas discretas em jornais, revistas, sites e TVs, lembrou o tumultuado ingresso dessa ex-dona de casa na vida pública americana, mais precisamente em 1963. Foi quando ela publicou seu polêmico Mística feminina.1

O livro, que se tornou best seller nos Estados Unidos, mesmo tendo sido rejeitado, no começo, pela imprensa, discutia a crise de identidade feminina, analisando minuciosamente a construção da imagem da mulher como dona de casa perfeita, mãe e esposa. Tornou-se um dos principais desencadeadores da chamada segunda onda feminista que varreu o Ocidente.

A idéia do livro surgiu de um encontro de ex-alunos do Smith College, no qual Betty estudou. Lá, ela comprovou que suas antigas colegas estavam tão insatisfeitas em sua vida doméstica quanto ela, que tinha se casado em 1947 com Carl Friedan, de quem se divorciou em 1969.

O "problema mal formulado" ou "mal sem nome" que acometia mulheres, em especial as casadas, nas décadas de 50 e 60, tornou-se perceptível, para Friedan, também a partir de sua própria experiência e da experiência de outras mulheres que ela conheceu em seu trabalho como repórter para uma revista. Nessa época estava criando seus três filhos em Roackland Country, em Nova York.

Entrevistou várias mulheres a respeito de suas dificuldades com os filhos, o casamento, a casa, a comunidade. Segundo ela, os ecos do problema podiam ser ouvidos em dormitórios universitários, enfermarias de maternidades, reuniões de pais e mestres, almoços da Liga das Mulheres Votantes, coquetéis, carros à espera de trens. O problema ultrapassava classes sociais, idades, credos e etnias. As inquietações manifestas por pessoas de várias idades, classes sociais e credos lhe tocaram primeiramente como mulher, para mais tarde se fazerem perceber como problemas psicológicos e sociológicos.

Mas, afinal, que problema sem nome era esse? Como esse problema era descrito pelas mulheres que falavam a Friedan? O sentimento de estar vazia, sentir-se incompleta, ter a impressão de não existir, sentir-se cansada e aborrecida, zangar-se facilmente com as crianças e o marido, chorar sem motivo aparente pontuava as angustiadas falas. O problema acabava, muitas vezes, por desaguar nos consultórios de médicos, psicanalistas ou era temporariamente driblado com a ajuda de tranqüilizantes.

Camuflado por revistas femininas na década de 50, o "mal sem nome" acabou por chegar à imprensa no início da década de 60, em veículos como New York Times, Newsweek, Time, Good Housekeeping e a CBS. Artigos e reportagens abordavam a infelicidade feminina, buscando razões superficiais para explicá-la. A incompetência de profissionais que davam manutenção a aparelhos eletrodomésticos, o excesso de reuniões de pais e mestres e até o questionamento sobre a educação elevada destinada a donas de casa foram apontados como causas do problema.

Friedan não se conformou com essas explicações e resolveu colocar o dedo na ferida ao apontar a "mística feminina" como causa maior de todos esses problemas que precisariam ser encarados de maneira séria pela sociedade:

[...] O problema não pode ser compreendido nos termos geralmente aceitos pelos cientistas ao estudarem a mulher, pelos médicos ao tratarem dela, pelos conselheiros que as orientam e os escritores que escrevem a seu respeito. A mulher que sofre deste mal, e em cujo íntimo fervilha a insatisfação, passou a vida inteira procurando realizar seu papel feminino. Não seguiu uma carreira (embora as que o façam talvez tenham outros problemas); sua maior ambição era casar e ter filhos. Para as mais velhas, produtos da classe média, nenhum outro sonho seria possível. As de quarenta ou cinqüenta anos, que quando jovens haviam feito outros planos e a eles renunciado, atiraram-se alegremente na vida de donas-de-casa. Para as mais moças, que deixaram o ginásio ou a faculdade para casar, ou passar algum tempo num emprego sem interesse, este era o único caminho. Eram todas muito "femininas" na acepção comum da palavra, e ainda assim sofriam do mal.2

Ela analisou, em seu livro, como as mulheres americanas estavam se casando cada vez mais jovens e como iam cada vez menos à universidade, com obsessão durante toda a vida pela condição de objeto belo, preocupando-se em adaptar seu corpo e seu rosto às modas. A cozinha configurava-se como habitat 'natural' da mulher, daí decorrendo todo o esforço de decoradores e da indústria de eletrodomésticos para convertê-la em um lugar agradável. O lar, como referência maior, era o lugar de onde as mulheres saíam apenas para comprar, levar as crianças à escola ou acompanhar seus maridos a reuniões sociais.

As mulheres viam esses problemas, quase sempre, como falhas no seu matrimônio. Que espécie de mulher se era, se não sentia uma mística realização encerando o chão da cozinha?, provocava Friedan. Não ajustar-se ao papel de feminilidade, ao papel de mãe e esposa, era o tal "problema sem nome", afinal.

O livro caiu como uma bomba nos Estados Unidos e provocou, em muitas leitoras, o desejo de dispor de uma associação. Em outubro de 1966, fundou-se, em Washington, uma Conferência Nacional, onde se constituiu a Organização Nacional de Mulheres, conhecida como NOW – National Organization for Women. À frente da organização estava Betty Friedan, a essas alturas feminista assumida.

Entre os princípios da NOW estava a denúncia das idéias sexistas de nossa sociedade, seus costumes e preconceitos, e do consumismo que convertia as mulheres em objetos. Como objetivo as feministas dessa organização colocavam a obtenção da igualdade para as mulheres na sociedade cujas estruturas elas não questionavam. As mulheres, segundo a NOW, predicavam a necessidade de auto-realização e de busca de identidade individual. Suas componentes pertenciam à classe média e ignoravam, em larga medida, os problemas das classes inferiores. Mulheres destas classes, incluindo as negras, pouco tiveram participação na organização.

Mas essas críticas não comprometem a importância da NOW para a organização das mulheres nos Estados Unidos. Uma manifestação emblemática organizada pelo movimento em 26 de agosto de 1970, em várias cidades americanas, mostrou àquela sociedade a dimensão do que estava sendo gestado. Milhares de mulheres foram às ruas em Nova York, Washington, Boston, Detroit e várias outras cidades do país. Não estavam unidas como estudantes, operárias, esposas de grevistas ou de empregados, nem como mães de soldados, mas simplesmente como mulheres. E essa era a grande novidade.

A passeata foi o ápice de uma série de reuniões, conferências, atos de protestos, mensagens ao Congresso e outras formas de ação tendentes a conscientizar as mulheres e despertar a atenção do público e dos legisladores sobre importantes questões vinculadas à posição da mulher naquele momento. Quatro pontos básicos eram pleiteados por elas: oportunidades iguais de acesso ao trabalho e à instrução, paridade de salários para tarefas iguais, legalização do aborto, abertura de creches em regime de tempo integral em todo o país.

Assim como em outros momentos protagonizados pelas feministas, a passeata foi alvo de uma onda de sarcasmo. A imprensa fez de tudo para desqualificá-la pela ironia e pelo ridículo, mostrando-a como uma colossal manifestação de histeria coletiva. Betty Friedan e outras líderes do movimento foram descritas como frustradas, neuróticas, homossexuais, megeras ressentidas, espumando de ódio contra o sexo masculino.

Em 1969, Betty ajudou a fundar a Associação Nacional para a revogação das Leis do Aborto, hoje conhecida como Naral América Pró-Escolha (NARAL Pro-Choice America). Em 1971, com Gloria Steinem e Bella Abzug, fundou a Organização Política de Mulheres. Por esse tempo, Mística feminina era usado como verdadeira Bíblia pelo movimento de mulheres americanas. A polêmica trazida por esse livro tinha espraiado reflexos pela Europa e também chegou ao Brasil, primeiro através da imprensa, e depois com a publicação do próprio livro, em 1971, no país, pela ousadia de Rose Marie Muraro, que à época estava à frente da Editora Vozes, no Rio de Janeiro. Na orelha da primeira edição brasileira, a apresentação dizia que aquele havia sido o primeiro livro a denunciar a manipulação da mulher pela sociedade de consumo.

Em abril do mesmo ano, Betty foi trazida ao Brasil pela editora para o lançamento da obra. Como a própria Rose Marie Muraro escreveria, anos depois, em sua autobiografia Memórias de uma mulher impossível,3 não era fácil ser feminista no Brasil daquela época. Ela própria, feminista assumida e atuante, era constantemente malhada e ridicularizada pela imprensa. Foi chamada de lésbica e feia pelo colunista Ibrahim Sued, sofreu com a turma do Pasquim, mas acabou se saindo bem em uma entrevista realizada ainda naquele ano pelo jornal nanico.

Sem cobrar cachê, viajando apenas com as despesas pagas, como conta Muraro, Betty veio para um lançamento duplo no país: no Museu de Arte Moderna, no Rio de Janeiro, e na Biblioteca Municipal Mário de Andrade, em São Paulo.

Logo que chegou ao Rio, foi levada por Rose para ser entrevistada por Millôr Fernandes e seus asseclas, sabidamente antifeministas, no Pasquim. Provocada durante toda a entrevista, ela se irritou e "deu uma cacetada no gravador que foi parar longe", nas palavras da própria Rose.

Finda a troca de farpas, entrevistada e entrevistadores acabaram se entendendo. O número 94 do jornal, em que foi publicada sua entrevista, trazia a seguinte frase de capa: "Desculpe Dona Betty, mas nós vamos dar cobertura às furadoras da greve de sexo". Na edição, o jornalista Paulo Francis, o mesmo que havia iniciado a entrevista perguntando a ela se tinha vindo ao Brasil para dar fim à "submissão secular da mulher brasileira", declararia que eles haviam gostado dela, que "foi muito estimulante o papo com Betty Friedan".4

A peregrinação por outros jornais do Rio e de São Paulo continuou. Muraro diz que até no cabeleireiro o Jornal do Brasil veio lhe entrevistar:

[...] Demos uma entrevista coletiva no Rio de Janeiro, outra em São Paulo, e fomos a todas as televisões, durante três dias... Os jornais nos davam páginas centrais.
No Rio, a entrevista foi no Copacabana Palace, e em São Paulo, na Biblioteca Mário de Andrade. O lançamento estava cheio. Um espaço lindo que o Jair Canizela, gerente da Vozes em São Paulo, arranjou. A mídia toda estava ativada. A Veja fez uma matéria enorme comigo e com a Heloneida, deu páginas amarelas para a Betty. E o livro não vendeu essas coisas porque ainda era muito assustador.5

Uma movimentada agenda complementaria sua estada no Brasil. Conheceu as mulheres que marcharam em 64, pela família, Deus e a propriedade, visitou favelas, onde conheceria avós de 32 anos e mulheres que sustentavam suas famílias sozinhas, fazendo com que ela logo as relacionasse com as moradoras de comunidades negras americanas. Conheceu torturados, almoçou com grandes empresários da área da comunicação como Roberto Civita (Grupo Abril) e Adolpho Bloch (Bloch Editores). Deste último, tornou-se amiga ao descobrir que as famílias eram do mesmo lugar da Ucrânia.

Rose Muraro relata ainda que Friedan teria se queixado da própria Rose por ter feito pouco caso dela durante a entrevista ao Pasquim. Rose se justificou dizendo ter apenas lhe alertado de que eram os jornalistas que estavam ridicularizando o feminismo. A brasileira, por sua vez, reclamou de Friedan por ter falado tão mal dos militares, o que acabaria repercutindo depois da volta da escritora aos Estados Unidos, já que Rose seria vigiada por eles durante seis meses. Do impasse, Muraro iria se inspirar na imensa coragem de fazer o que tinha de ser feito, a partir da luta daquela americana corajosa. Keep doing (vá fazendo) passou a ser sua palavra de ordem.

Insatisfeita com o que chamou de fatos distorcidos pela imprensa na época, a jornalista e psicanalista Carmen da Silva manifestou nas páginas de sua seção A Arte de Ser Mulher, na revista Claudia, seu protesto pelo preconceito da imprensa brasileira contra Betty Friedan:

Durante essa visita verifiquei, por mim mesma, que nem sempre se pode dar crédito ao noticiário. Friedan dizia uma coisa e os meios de comunicação "reproduziam" outra completamente diferente. Cansei-me de ouvi-la expressar com mediana clareza idéias que logo apareciam truncadas e deformadas; vi como lhe foram atribuídos, sem cerimônia e contraditados com a maior suficiência, conceitos que ela jamais emitiu. Isso, sem falar nas perguntas primaríssimas que foram dirigidas a uma mulher com formação universitária, nos grosseiros ataques a uma hóspeda cortês e nas suposições gratuitas sobre sua vida íntima.6

No mesmo artigo, Carmen da Silva resolve resenhar o livro de Friedan como forma de reparar a "falsificação" dos pontos de vista da autora norte-americana feita por seus "detratores".

O texto de três páginas frisa o esforço intelectual e de pesquisa de Betty Friedan empreendido na coleta e análise de informações para a composição de seu livro. As entrevistas feitas com centenas de mulheres, médicos, cientistas, educadores, redatores de temas femininos, centros de saúde mental e de orientação familiar, além da leitura das publicações escritas nos últimos 20 anos a respeito da mulher, estão devidamente documentadas por Carmen da Silva, que reforça as posições da norte-americana:

Como porta-voz do Movimento de Libertação Feminina, opina Betty Friedan – e eu endosso sem reservas – que não é possível modificar o atual panorama de violência no mundo sem o concurso da mulher, que além de constituir metade do gênero humano, forma ou deforma a outra metade. Não se trata de opor-se ao homem, mas sim de que ambos, homens e mulheres, tomem consciência de sua alienação, de sua manipulação pela sociedade de consumo que os impedem de crescerem e se realizarem juntos como seres humanos ativos, felizes, úteis. Trata-se de aliar energias na tarefa de criar um mundo melhor. Trata-se de possibilitar entre eles um vínculo realmente maduro e harmonioso, em que nenhum domina o outro ou usurpa algo do outro.

A militância feminista de Betty Friedan a marcou para a vida inteira e influenciou os estudos sobre gênero e mulheres nas universidades americanas. Outros escritos importantes vieram, mas nenhum alcançou a mesma repercussão de Mística feminina, alçado à condição de clássico. Os outros livros de Friedan incluem It Changed My Life: Writings on the Women's Movement (Mudou minha vida: escritos sobre o movimento de mulheres), de 1976, The Second Stage (O segundo estágio), 1981, e The Fountain of Age (A fonte da idade), 1993.

Este último livro animou as discussões sobre o envelhecimento, tema de palestras proferidas por ela até pouco tempo atrás em seu país. Se de uns anos para cá, Betty Friedan se afastou da temática feminista, sendo acusada inclusive de traidora da causa por feministas radicais, as marcas de seu livro mais importante permanecem entre nós e nos fazem questionar se a "mística feminina", objeto de preocupação daquela dona de casa inquieta e questionadora, realmente acabou ou apenas transformou-se, tomando formas menos aparentes na sociedade atual.

 

Referências bibliográficas

BRAGA, José Luiz. O Pasquim e os anos 70: mais pra eba que pra oba. Brasília: Editora UnB, 1991.         [ Links ]

FRIEDAN, Betty. Mística feminina. Petrópolis: Vozes, 1971.         [ Links ]

MURARO, Rose Marie. Memórias de uma mulher impossível. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1999.        [ Links ]

 

 

Recebido em março de 2006 e aceito para publicação em março de 2006

 

 

1 FRIEDAN, 1971.
2 FRIEDAN, 1971, p. 27.
3 MURARO, 1999.
4 Dados recolhidos de José Luiz BRAGA, 1991.
5 MURARO, 1999, p. 169.
6 Do artigo "O que é uma mulher livre?", de Carmen da Silva, publicado em julho de 1971, em Claudia, não paginado.