RESENHAS
Ecos de uma história silenciosa das mulheres
Karina Janz Woitowicz
Universidade Estadual de Ponta Grossa
As mulheres ou os silêncios da história.
PERROT, Michelle.
Bauru: Edusc, 2005. 520 p.
Uma narrativa em que as mulheres ocupam lugar central, sob os mais diversos olhares, fontes e abordagens. Esta é a principal característica dos textos da historiadora Michelle Perrot que integram o livro As mulheres ou os silêncios da história, publicado em 2005 pela editora Edusc.1 A autora, reconhecida no meio acadêmico devido aos seus trabalhos sobre a história das mulheres, é professora emérita de História Contemporânea na Universidade de Paris VII Denis Diderot. Entre suas principais obras estão A história das mulheres no Ocidente, da Antigüidade até nossos dias (1991-1992), coleção organizada com Georges Duby composta por cinco volumes, que foi traduzida em várias línguas, Os excluídos da história (1992), Mulheres públicas (1998) e Minha história das mulheres (2007).
É importante destacar que Michelle Perrot participou desde o início de um movimento de pesquisas sobre as mulheres, que surgiu no início dos anos 1970, com contribuições pluridisciplinares.2 A autora desenvolve em seus trabalhos interessantes reflexões sobre a história, na medida em que discute a ausência das mulheres na narrativa historiográfica como parte de uma sedimentação seletiva. Para ela, as mulheres são estão sozinhas nesse silêncio profundo, mas ele pesa mais fortemente sobre elas, em razão da desigualdade dos sexos.
A perspectiva teórico-metodológica da historiadora insere-se no campo da nova história, principalmente no que diz respeito à busca por novos objetos. As reflexões e rupturas que envolvem a nova história coincidem com o movimento de liberação das mulheres, quando novos sujeitos passam a reivindicar o seu lugar na 'escrita' da história. Perrot apresenta, nesse contexto, motivações que pautaram seu interesse no silêncio das mulheres, recuperando datas e episódios que a conduziram a esse campo de pesquisa, ao reunir elementos de sua trajetória pessoal e acadêmica. "O movimento das mulheres, de cuja base eu participei, ocasionou a minha 'conversão feminista' e meu engajamento na história das mulheres, transformada então em um dos eixos maiores de meu trabalho" (p. 20), conta a historiadora.3
Em As mulheres ou os silêncios da história, dividido em cinco partes e 23 capítulos, Perrot reúne diversos artigos que marcaram sua produção acadêmica em diferentes períodos, apresentando aos leitores e leitoras um amplo cenário de temáticas, fontes e abordagens, em constante diálogo com autores como George Duby, Joan Scott, Michel Foucault, entre diversos outros, e percursos interdisciplinares que transitam entre a história, a filosofia, a literatura e outros olhares plurais. A primeira parte, "Traços", é composta por quatro capítulos em que são valorizadas as práticas de memória feminina, através de cartas das três filhas de Marx, e do diário de uma moça, Caroline, e seu livro de notas da casa, descoberto em um velho baú no mercado das pulgas. "Mulheres no trabalho", a segunda parte do livro, ao longo de seis capítulos, aborda greves femininas, discursos dos operários franceses e trabalhos de mulheres no século XIX, e "Mulheres na cidade", composta por cinco capítulos, traz análises sobre as mulheres no espaço público e a cidadania feminina. "Figuras", quarta parte do livro, recupera os escritos de duas mulheres que experimentaram os limites de sua época: as pesquisas de Flora Tristan sobre a exploração operária e os textos políticos de George Sand, que têm em comum a defesa da igualdade e, por vezes, esbarram em certas contradições. E, por fim, o livro conta com "Debates", seção que lança diferentes e interessantes olhares sobre os espaços público e privado, identidade, igualdade e diferença, sexualização do gênero, o lugar da família e do corpo, disputas de poder e a contribuição de Michel Foucault para a história das mulheres. Em síntese, o conjunto da obra discute, a partir de uma perspectiva historiográfica com tensões e aproximações com outras áreas de conhecimento, os silêncios das mulheres e suas rupturas nem sempre visíveis.
Evidentemente, a irrupção de uma presença e de uma fala femininas em locais que lhes eram até então proibidos, ou pouco familiares, é uma inovação do século XIX que muda o horizonte sonoro. Subsistem, no entanto, muitas zonas mudas e, no que se refere ao passado, um oceano de silêncio, ligado à partilha desigual dos traços, da memória e, ainda mais, da História, este relato que, por muito tempo, "esqueceu" as mulheres, como se, por serem destinadas à obscuridade da reprodução, inenarrável, elas estivessem fora do tempo, ou ao menos fora do acontecimento (p. 9).
A pesquisadora destaca que o silêncio foi reiterado através dos tempos pelas religiões, pelos sistemas políticos e pelos manuais de comportamento: "aceitar, conformar-se, obedecer, submeter-se e calar-se. Este mesmo silêncio, imposto pela ordem simbólica, não é somente o silêncio da fala, mas também o da expressão, gestual ou escriturária" (p. 10). No entanto, isso não quer dizer que as mulheres respeitaram passivamente tais injunções.
Perrot traz ainda uma importante reflexão sobre as fontes primárias de pesquisa histórica ao constatar poucos registros nos arquivos públicos, normalmente destinados a atos de administração e poder, quase exclusivamente dos 'grandes homens'. Os arquivos familiares (como correspondências e diários íntimos), por sua vez, costumam ser alvo de destruições das histórias do cotidiano, das memórias e dos sentimentos das mulheres, sendo até recentemente pouco valorizados. Assim, a dificuldade de escrever uma história das mulheres deve-se, inicialmente, ao apagamento de seus traços, tanto públicos quanto privados.4
E é a partir desses objetos do mundo privado que a historiadora interpreta a memória das mulheres, observando práticas como a leitura e a escrita e o espaço da família e da intimidade. Trata-se de narrativas do cotidiano decifradas por correspondências, que buscam uma troca com um interlocutor, cúmplice ou indiferente, ou relatos de um diário, em que os desejos nem sempre encontram expressão em meio às marcas do seu tempo.
O trabalho de interpretação histórica revela-se com profunda habilidade diante dessas fontes do privado, quando a autora recupera as cartas das filhas de Karl Marx em que identifica elementos da sua relação com a família, das lutas no movimento operário, além de algumas contradições de caráter moral, marcadas pelas idéias do seu meio e de sua época e o diário de Caroline, uma moça devota, que traz o exame de consciência e o controle de si mesma como marcas de uma moral religiosa.
No que diz respeito à temática do trabalho, que compõe a segunda parte do livro, Perrot analisa a contribuição dos estudos de gênero para compreender problemáticas voltadas à família, à violência, ao assédio sexual e às disputas de poder em diferentes espaços. Em suas pesquisas sobre a greve, a autora percebe as diferenças entre os sexos no trabalho e observa que "a mulher popular é rebelde", é o contrário de uma mulher resignada. Assim, manifesta o desejo de romper "com o miserabilismo da mulher vítima e de afirmar a historicidade das práticas culturais femininas. As mulheres não são nem passivas, nem submissas. A miséria, a opressão, a dominação, por mais reais que sejam, não bastam para contar a sua história" (p. 152).
Os textos percorrem os séculos XIX e XX, trazendo reflexões sobre as atividades chamadas comumente de "boas para as mulheres" e os diferentes aspectos da divisão sexual do trabalho.5 Ao contrariar o argumento de que "o destino da mulher é a família e a costura", a autora aborda a participação das mulheres nas greves e suas reivindicações por salário, redução da jornada de trabalho, reações contra a introdução das máquinas, carestia, instituições religiosas, dignidade, entre outras.6 Apresenta ainda as incompreensões de uma sociedade que, baseada fortemente em uma moral cristã, relacionava as greves ao risco de manchar a honra das "mulheres honestas" e na qual o feminismo continuava sem adesão entre as operárias, uma vez que era entendido como um movimento burguês.7
Outra importante contribuição da obra de Michelle Perrot diz respeito à segregação social dos espaços, também acentuada no século XIX.8 Em seus textos, ela mostra como as mulheres foram se apropriando progressivamente de campos de trabalho,9 dos espaços da fábrica, dos escritórios e de alguns locais considerados masculinos, rompendo com determinados limites impostos à ordem social e desenvolvendo uma 'consciência de gênero'. Ao mesmo tempo, criam-se espaços exclusivamente femininos como os lavadouros, pontos de sociabilidade das mulheres do povo fora dos domicílios, considerados pela autora como "locais de feminismo prático".10 Trata-se de redes de comunicações horizontais que, repletas de subversões, constroem a memória do cotidiano popular.
Em suma, a historiadora analisa a cidade como um espaço social, étnico e sexuado, que demarca o espaço público como masculino e o privado como feminino, ao mesmo tempo que permite algumas transgressões a esse modelo a partir das lutas cotidianas das mulheres.
Os textos sobre memórias de mulheres, greves e trabalho feminino, cidadania, espaços público e privado, sexualidade, entre outros, compõem um rico universo de referências para compreender algumas nuances e personagens anônimas que fizeram a história de seu tempo. Assim, ao percorrer temáticas femininas através de dados históricos, interpretações, fontes variadas e olhares plurais, Michelle Perrot revela que o objeto "mulheres" permite destruir divisões tradicionais do saber e lançar outras perspectivas para os estudos históricos. A leitura de As mulheres ou os silêncios da história permite observar que, em diferentes momentos históricos e nas disputas cotidianas que marcam as vivências femininas, as mulheres resistem à sua maneira. Mais ou menos silenciosa...
Notas
