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Revista Estudos Feministas

Print version ISSN 0104-026XOn-line version ISSN 1806-9584

Rev. Estud. Fem. vol.16 no.2 Florianópolis May/Aug. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-026X2008000200025 

RESENHAS

 

Um passo além: o resgate de escritoras brasileiras do século XIX

 

 

Anselmo Peres Alós

Universidade Federal do Rio Grande do Sul

 

 

Memórias de Marta: romance.
ALMEIDA, Júlia Lopes de.
Atualização do texto, introdução, cronologia e notas por Rosane Saint-Denis Salomoni.
Florianópolis: Mulheres; Santa Cruz do Sul: EDUNISC, 2007. 168 p.

úlia Lopes de Almeida (Rio de Janeiro, 1862-1934), a mais famosa escritora do século XIX no Brasil, fazia parte do elenco de escritoras oitocentistas brasileiras que foram esquecidas pela crítica e pela historiografia literária que as sucederam. Contudo, nas últimas décadas, um grande grupo de pesquisadoras (e pesquisadores), a maioria da área acadêmica, disseminadas/os pelos quatro cantos do Brasil, vem desenvolvendo importantes pesquisas no sentido de resgatar essas escritoras olvidadas e de trazê-las para a realidade da nossa literatura, em um movimento que já foi classificado como de uma verdadeira arqueologia literária. Embrenhando-se em bibliotecas públicas e coleções privadas, escavando as seções de obras raras e soprando o pó acumulado nas estantes da memória cultural brasileira, aos poucos os textos literários esquecidos no século XIX emergem em pleno século XXI, são reeditados uma vez mais e aguardam por novas leituras e por novos leitores que os avaliem criticamente, reestruturando seus lugares na série diacrônica da literatura brasileira. Esse é o caso do livro que agora se resenha, Memórias de Marta, reeditado pela pesquisadora Rosane Saint-Denis Salomoni e publicado graças ao convênio da própria organizadora com a Editora Mulheres e a EDUNISC.

O mérito desse livro, todavia, não se reduz ao resgate do romance. Cabe destacar o árduo trabalho de pesquisa bibliográfica realizado por Rosane Saint-Denis Salomoni, investigadora que vem trabalhando há mais de uma década com a obra romanesca de Júlia Lopes de Almeida.1 Enquanto preparava a reedição de Memórias de Marta, romance de estréia da escritora e que, segundo as pesquisas realizadas, foi publicado pela primeira vez como folhetim no jornal Tribuna Liberal do Rio de Janeiro, entre 1888 e 1889, e apenas dez anos depois, em 1899, em forma de livro, pela Editora Casa Durski, de Sorocaba (São Paulo), a pesquisadora pôde averiguar significativas diferenças entre a edição folhetinesca do romance e a primeira edição em livro, as quais foram cotejadas com a terceira edição (segunda em livro), impressa em Paris, pela Livraria Francesa e Estrangeira Truchy-Leroy, citada por vezes como sendo de 1899, quando em realidade data de 1930. Entre as diferenças constatadas, cabe mencionar as variantes relativas ao conteúdo do início da narrativa, nas três edições, e a omissão de alguns parágrafos finais nas duas edições em livro, o que, quando estudadas criticamente, ampliam o universo romanesco e criam novas expectativas de leitura.

Como seria de se esperar de um romance brasileiro escrito e publicado no final do século XIX, Memórias de Marta apresenta traços bastante significativos do período real-naturalista; em especial, a predominância do determinismo do meio, embora um tanto quanto suavizada pela ótica feminina, de modo que essa narrativa pode ser aproximada tanto do seu contemporâneo O Ateneu, de Raul Pompéia, publicado em 1888, no que se refere às vivências escolares, quanto do clássico de Aluízio Azevedo, em relação ao espaço e aos núcleos étnicos retratados. Ambientado em um cortiço do Rio de Janeiro (à época, Capital Imperial do Brasil), é possível especular que Memórias de Marta tenha sido o antecessor de O Cortiço, publicado em 1890 e considerado o primeiro romance brasileiro a estruturar um cortiço como espaço narrativo. Ainda segundo Rosane Saint-Denis Salomoni, cabe "ressaltar que ao decorrer da leitura encontramos muitos pontos de contato entre as duas obras [Memórias de Marta e O Cortiço], perfeitamente aceitáveis em razão dos dois autores conviverem no mesmo espaço, na mesma época, e relacionarem-se amigavelmente, fato comprovado pela correspondência trocada entre os dois artistas" (p. 15).

Em um toque rápido, a narrativa traz-nos duas Martas, mãe e filha, sendo que a segunda detém o foco narrativo ao longo do romance. Marta, a protagonista, irá conduzir o relato, intercalando presente e passado, em uma retrospectiva dolorosa, narrando a convivência promíscua e difícil dentro do cortiço que passa a habitar após o falecimento do pai. A realidade brasileira das classes menos favorecidas, as discrepâncias entre a classe pobre e a burguesa, a dedicação das mães para com suas proles, da professora para com sua discípula, a visão estereotipada do Brasil, como um "país tropical" de riqueza e fartura, mas, na verdade, miserável, nada escapa ao olhar atento e míope da romancista carioca. Não iremos encontrar, nesse romance, nenhuma atitude épica ou folhetinesca. Muito pelo contrário: a morte do pequeno Maneco, filho da portuguesa, por cirrose aos dez anos; a faina diária da mãe de Marta, queimando os braços no ferro de engomar para garantir a sobrevivência das duas; ou a prostituição de Clara Silvestre, antiga colega de aula, pequenos dramas e misérias que estruturam o desenrolar do enredo, retratando um mundo nada colorido, mas real, retratado por uma daquelas autoras, equivocadamente, incluídas no rol da literatura "sorriso da sociedade", quando analisada até mesmo pela crítica e escritora Lúcia Miguel-Pereira em Prosa de ficção: de 1870 a 1920.2 Afinal, mostrar a luta de duas mulheres dentro de uma sociedade machista, patriarcal, que destinava às mulheres, como único caminho de realização ou sobrevivência, o casamento, não era, para muitos, fazer crítica social. Ainda mais se uma delas se recusasse a seguir o script social destinado às mulheres do século XIX, resolvesse estudar, formar-se professora e auferir o seu próprio sustento. Uma postura que pôde ser lida, em sua época, como uma espécie de feminismo avant la lettre, e que abre novas possibilidades para a crítica literária contemporânea no que diz respeito ao papel das mulheres escritoras no Brasil do século XIX e à representação do sujeito feminino ao longo da história literária do Brasil.

A voz narrativa do romance de Júlia Lopes de Almeida evidencia certo conhecimento sobre o papel do locus de enunciação nos processos de produção de sentido no discurso literário, ao afirmar que "o mundo de cada um é limitado pelo que abrangem os raios de sua capacidade visual ou pelo que lhe sugere a sua imaginação" (p. 41). Em uma leitura atenta, é possível ler muito mais do que mero relativismo nas palavras que a autora coloca na boca de sua protagonista. Se é verdade que a história da literatura brasileira do século XIX foi escrita e canonizada por homens, de maneira a tornar a expressão "homens de letras" consagrada, é também verdade que esses forjaram um cânone literário nacional a partir de um olhar masculinista, o qual excluiu reiteradamente as mulheres da posição de produtoras de capital cultural nos processos de imaginação e simbolização da identidade nacional brasileira, permitindo que, por muitas décadas, a produção dessas mulheres fosse completamente apagada de nosso patrimônio cultural, criando uma falsa visão, ou pelo menos uma visão parcial, de nossa sociedade e de nosso sistema literário.

Essa reedição da obra traz ainda uma alentada introdução, contextualizando Memórias de Marta no amplo espectro da produção de Júlia Lopes de Almeida, bem como uma cronologia da vida da escritora, uma lista com a bibliografia publicada pela romancista e, finalmente, um inventário das obras inéditas de Júlia Lopes de Almeida, organizado a partir das investigações de Rosane Saint-Denis Salomoni no Acervo "Júlia Lopes de Almeida", que atualmente se encontra sob os auspícios do neto da escritora, Dr. Cláudio Lopes de Almeida, na cidade do Rio de Janeiro. Ignorar uma mulher como Júlia Lopes de Almeida, que publicou dez romances extremamente populares, livros de contos, peças de teatro e literatura infantil, por mais de três décadas, é, pelo menos, um fator que instiga o pesquisador a perseguir quais foram as razões que invisibilizaram o nome de Júlia Lopes de Almeida nos compêndios de História da Literatura Brasileira. E o trabalho crítico de Rosane Saint-Denis Salomoni - ao possibilitar que se leia uma vez mais as Memórias de Marta - configura-se como um importante gesto de politização da crítica literária, o qual assegura a possibilidade de uma releitura crítica de nosso passado literário através dessa narrativa a contrapelo.

 

Notas

1 As pesquisas levaram, além de inúmeros trabalhos apresentados em congressos, à elaboração da dissertação de mestrado Sob o olhar do narrador: representações e discurso em A Silveirinha, de Júlia Lopes de Almeida (SALOMONI, 2000), da tese de doutorado A escritora/os críticos/a escritura: o lugar de Júlia Lopes de Almeida na ficção brasileira (SALOMONI, 2005) e da resenha da pesquisa realizada no Acervo "Júlia Lopes de Almeida", como resultado do projeto de pós-doutorado (CNPq-PDJ) intitulado Inventário e resgate da produção romanesca de Júlia Lopes de Almeida (SALOMONI, 2007).

2 MIGUEL-PEREIRA, 1957.

 

Referências bibliográficas

MIGUEL-PEREIRA, Lúcia. Prosa de ficção: de 1870 a 1920. Rio de Janeiro: José Olympio, 1957.         [ Links ]

SALOMONI, Rosane Saint-Denis. Sob o olhar do narrador: representações e discurso em A Silveirinha, de Júlia Lopes de Almeida. Porto Alegre: UFRGS, 2000.         [ Links ]

______. A escritora/os críticos/a escritura: o lugar de Júlia Lopes de Almeida na ficção brasileira. Porto Alegre: UFRGS, 2005.         [ Links ]

______. Júlia Lopes de Almeida (1862-1934): resenha da pesquisa realizada no acervo da romancista no Rio de Janeiro. Porto Alegre: Edição da Autora, 2007.        [ Links ]

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