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Revista Latino-Americana de Enfermagem

Print version ISSN 0104-1169

Rev. Latino-Am. Enfermagem vol.15 no.1 Ribeirão Preto Jan./Feb. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-11692007000100018 

ARTIGO ORIGINAL

 

A formação do enfermeiro: contradições e desafios à prática pedagógica1

 

 

Joelma Batista Tebaldi PintoI; Alda Muniz PepeII

IEnfermeira, Doutor em Educação, Professor Titular da Universidade Estadual de Santa Cruz, e-mail: joelmatebaldi@uol.com.br
IIDocente da Universidade Federal da Bahia

 

 


RESUMO

Este estudo aborda a temática currículo, prática pedagógica e formação do enfermeiro que, na atualidade, tem tomado espaço relevante no debate acadêmico. Assim, buscou-se conhecer empiricamente e descrever analiticamente a realidade acadêmica da formação do enfermeiro no Curso de Graduação em Enfermagem da Universidade Estadual de Santa Cruz. Trata-se de estudo descritivo, que pode proporcionar nova visão do problema, tendo tido o cuidado de observar, descrever e explorar aspectos da situação, interpretando a realidade, sem nela interferir para modificá-la, estando, conseqüentemente, aberto a novos estudos. Para análise dos dados, utilizou-se estatística descritiva com cálculo de freqüência simples e percentual. Sinteticamente, os resultados apontaram que os professores e alunos têm dificuldade em conceituar currículo. E o currículo estudado se caracteriza como do tipo coleção, com uma prática pedagógica voltada, predominantemente, para o modelo tradicional e, em conseqüência, a formação do enfermeiro continua tendo características do modelo biomédico-tecnicista.

Descritores: currículo; docentes; papel do profissional de enfermagem


 

 

INTRODUÇÃO

Na história da formação superior de enfermeiros no Brasil, pode-se verificar que houve quatro mudanças curriculares, sem que nenhuma delas promovesse mudanças significativas na prática dos profissionais(1-3). Considera-se que isso se deve ao fato da prática pedagógica dos formadores de enfermeiros não terem acompanhado as mudanças curriculares pretendidas, no que tange aos seus pressupostos filosófico-metodológicos e objetivos, mantendo traços marcantes da prática pedagógica tradicional(4-6). Essa prática perpetua o modelo biomédico-tecnicista(7) que se opõe à formação do enfermeiro requerido pela contemporaneidade.

Hoje, percebe-se o Cuidado Humano(8-9), em outra dimensão, que evoluiu para o "par do ato de saúde", sendo esse compreendido como uma troca entre sujeitos, no atendimento ao cuidado integral. Entretanto, até a década de noventa, isso não chegava a ser motivo de grandes preocupações. A palavra cuidado era pouco utilizada, e o termo mais usado era assistência, o que implicava em prestar assistência de enfermagem, ato esse, que, sob outra ótica, era realizado sem refletir sobre o seu significado para quem recebia o cuidado, nem para quem o prestava.

Por outro lado, a formação esteve quase sempre ligada a atividades de natureza técnica. O cuidado administrado pelos profissionais não raro é realizado de forma mecânica, norteado por tarefas, seguindo rigidamente normas e prescrições. As relações pessoais, por sua vez, quase sempre seguem frágeis.

Com base nessa perspectiva é que se percebe, com a aprovação do novo currículo mínimo para os cursos de enfermagem no Brasil, aprovado segundo Portaria 1721/94 do Ministério da Educação e Cultura (MEC), o desejo de trabalhar com a temática "Currículo" e "Prática Pedagógica", na formação do enfermeiro.

Partiu-se do pressuposto de uma interdependência entre o currículo, que representa a pretensão, o que e como deve ser a formação, e a prática pedagógica que deve dar vida a esse plano, sendo, pois, o processo de formação acadêmica.

Percebe-se, adicionalmente, a necessidade de estudos mais específicos, direcionados a realidades concretas, vividas no cotidiano profissional pedagógico.

Daí nosso intento de realizar um estudo que focasse a realidade vivida enquanto docente e co-partícipe de sua administração, uma vez que houve a oportunidade de vivenciá-lo enquanto professora, coordenadora de Colegiado de Curso e Diretora do Departamento de Ciências da Saúde.

Nesse sentido, apresenta-se o problema e o objetivo deste estudo questionando se a mudança de currículo alterou a prática docente e, por conseguinte, modificou a formação do enfermeiro. Isso porque se acredita-se que, se essa mudança (da prática pedagógica) não se confirma, o enfermeiro egresso do Curso de Graduação em Enfermagem da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), não está sendo formado segundo as exigências dos nossos dias, ou seja, formação do enfermeiro requerido pela contemporaneidade.

Assim, é importante reafirmar que este trabalho não buscou apresentar uma proposta pronta de nenhum modelo de currículo ou prática pedagógica e nem tampouco de explorar toda a profundidade da formação de enfermeiros, bem como dos elementos facilitadores e de dificuldades infligidos pelas mudanças evocadas pelos SENADEns - Seminário Nacional de Diretrizes para a Educação em Enfermagem no Brasil.

Mister ressaltar ainda que se visou considerar o momento acadêmico vivido pelo Curso estudado à época da publicação da Resolução CNS/CES Nº 3, de 2001, que instituiu as Diretrizes Curriculares do Curso de Graduação em Enfermagem.

 

OBJETIVOS

Objetivo Geral

Descrever e explicar a prática docente, no Curso de Enfermagem da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC) em sua coerência com os princípios e pretensões do currículo atual (Portaria 1721/94 do MEC).

Objetivos Específicos

- Caracterizar a prática pedagógica dos docentes do Curso de Graduação em Enfermagem da UESC.
- Analisar se tal prática é compatível/atende as pretensões filosófico-metodológicas e científicas da proposta curricular nacional.
- Analisar a proposta curricular do Curso de Graduação em Enfermagem da UESC, no que se refere a:
- concepções filosófico-metodológicas (pressupostos e objetivos);
- características/perfil do profissional que objetiva formar;
- organização curricular.

 

MÉTODOS

O presente estudo é de natureza descritiva e foi realizado na Universidade Estadual de Santa Cruz, localizada no Município de Ilhéus, Região Sul do Estado Bahia e em Hospitais e Postos de Saúde (campo de aulas práticas e estágios supervisionados dos alunos do Curso de Graduação em Enfermagem - UESC), no Município de Itabuna, área de influência da UESC, cuja população esteve composta por Docentes e Discentes da UESC.

Foram considerados alguns critérios de inclusão para a seleção da amostra do estudo: ser professor que lecionou ou leciona no Curso de Graduação em Enfermagem da UESC, na condição de efetivo ou substituto, e ser aluno do 8º semestre do Curso, compondo uma população de 72 docentes e 41 discentes a serem pesquisados. Dessa população, foram selecionados para a pesquisa aqueles compareceram no dia da coleta de dados no período de março a junho de 2001. Desse modo, a amostra constituiu-se de 45 professores e 37 discentes, ou seja, 82 sujeitos.

Os instrumentos de coleta de dados foram compostos por um questionário direcionado para os docentes e um para os discentes, ambos constando de questões abertas e fechadas, e roteiros de observação direta com registro escrito das atividades teórico-práticas dos docentes e discentes durante as aulas, reuniões do Departamento de Ciências da Saúde e Colegiado do Curso de Graduação em Enfermagem da UESC, do cotidiano do Curso, sendo completada pela análise de documentos.

Para análise dos dados quantitativos foi utilizada a estatística descritiva (média, percentuais e freqüências). Os dados coletados nas observações diretas das aulas teórico-práticas, atividades docentes e discentes, observação de reuniões do Departamento de Ciências da Saúde, observação do cotidiano do Curso, entrevista com dirigentes do Departamento e Colegiado e análise de documentos permeiam este estudo, qualitativamente, juntando-se como dados complementares àqueles das tabelas, esclarecendo, sustentando e/ou ampliando a possibilidade de análise dessas tabelas, bem como a discussão dos resultados e as suas conclusões.

Analisou-se os dados relativos à compreensão que os docentes e discentes do Curso têm de currículo, à luz do conceito trabalhado na disciplina Currículo do Mestrado em Educação - UESC/UFBA (1995); para o item tipos de currículo, construi-se um referencial de acordo com a abordagem de dois estudiosos(10-11) do tema que trabalham com Tipologia de Currículo; para a temática abordagens do processo ensino-aprendizagem e práticas docentes, elaborou-se um referencial a partir de autores(4,12) que trabalham com o tema em questão. Tomou-se, também, como referência o documento da Associação Brasileira de Enfermagem: proposta de novo currículo para o curso de enfermagem: a formação do enfermeiro(13) e as Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Enfermagem(14).

A presente pesquisa teve como referencial ético a Resolução do Conselho Nacional de Saúde (CNS) de Nº196/96, que dispõe sobre pesquisas envolvendo seres humanos (Aprovação pelo Comitê de Ética da Santa Casa de Misericórdia de Itabuna) e assinatura de toda amostra do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

 

ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

Antes de se passar aos resultados, vale registrar a marcante carência de estudos referentes à Prática Pedagógica dos docentes de Graduação em Enfermagem, bem com aqueles voltados ao currículo desse mesmo Curso. Mister ainda ressaltar que esses mesmos estudos são inexistentes no tocante ao Curso de Graduação em Enfermagem da UESC.

Somente a título de caracterização da amostra, constatou-se que essa, no tocante aos docentes, foi constituída, em sua maioria, por sujeitos do sexo feminino (82,2%), na faixa etária entre 31 e 50 anos. A maior parte desses (93,4%), reside na cidade de Itabuna e são professores efetivos; lotados no Departamento de Ciências da Saúde (DCS) da UESC; em regime de trabalho de 40 horas semanais e foram graduados pela UESC. A maioria dos docentes estava à época da coleta de dados em fase de capacitação stricto sensu, em contato formal com Curso/disciplina de Capacitação Pedagógica. Quase a metade da amostra tem entre 6 e 15 anos de serviço na UESC e a maioria teve experiência docente anterior à UESC em Cursos de Formação de Técnico e de Auxiliar de Enfermagem, onde ministraram ou ministram disciplinas do tronco pré-profissional e profissional. Dos que exercem atividade técnica atual, a maioria atua em hospitais ou na administração dos serviços de saúde. Tratou-se, pois, de amostra ideal de sujeitos para esta pesquisa, visto estarem em contato com os campos de trabalho do enfermeiro e ocupados também com a formação de enfermeiros.

Quanto ao Ano de Conclusão da Graduação, a maioria graduou-se no curso oferecido pela UESC entre os anos 80 e 2000, isto é, nas duas últimas décadas, significando que a maioria deles (80%) foi graduada segundo o "antigo" Currículo, que vigorou entre os anos de 1972 a 1997 e, portanto, deveria, teoricamente, ter conhecimento da reforma curricular.

Trabalhou-se, ainda, com amostra de alunos do último semestre do Curso, também com maioria absoluta do sexo feminino (81%), em faixa etária entre 22 e 33 anos, e média de idade de 23 anos. Portanto, um grupo de formandos jovens, e que também confirma a enfermagem como profissão preponderantemente feminina.

As Tabelas 1 e 2 ilustram os resultados obtidos da aproximação das concepções de currículo de professores e alunos pesquisados, permitindo perceber quanto suas concepções estão próximas (professores e alunos), o que autoriza concluir que a maioria dos docentes e, conseqüentemente, dos alunos parecem não saber conceituar currículo.

 

 

 

A maioria dos docentes pesquisados (62,3%), apesar de afirmar conhecer as razões que levaram a ABEn - Associação Brasileira de Enfermagem(13) a propor reforma do Currículo do Curso de Graduação em Enfermagem - 1972 (Currículo Antigo), quando solicitados a explicar essas razões, não conseguem emitir justificativa que se aproximasse das reais razões. Observou-se, ainda, que, apesar da maioria desses sujeitos informar ter conhecimento das mudanças pretendidas para o Curso de Graduação em Enfermagem da UESC, quando solicitados a citar essas mudanças, não conseguem respostas que coincidissem, coerentemente, com a reforma curricular pretendida.

Além da dificuldade em conceituar currículo, os docentes tiveram limitações ao citar as principais mudanças trazidas pelo "Novo" Currículo para o Curso de Graduação em Enfermagem da UESC.

Do processo comparativo entre as cargas horárias do currículo "antigo" e currículo "novo", observou-se que, da carga horária total do Curso, hoje com 3.825 horas, da ordem de 41% desse tempo está destinado às disciplinas consideradas da área hospitalar e apenas 21% é ocupado por disciplinas da área de saúde coletiva. Convém observar que esses dados mantiveram coerência com resultados de pesquisa anterior, quando se detectou que, da carga horária total do Curso de 2.970 horas, 44,4% era destinada às disciplinas ligadas à área hospitalar e apenas 13,1% às disciplinas da área de saúde pública(15).

Concernente ao tipo do Currículo, segundo a tipologia proposta(10-11), a maioria dos docentes pesquisados, pelas suas respostas, demonstra conceber o atual currículo, como um currículo do tipo coleção, caracterizado por princípios organizativos, desintegrados, isolados e rígidos. Nesse currículo, o conhecimento (conteúdo) é hierarquizado. Os conteúdos são obrigatórios, separados uns dos outros; o conhecimento/conteúdo é disciplinar/fechado, especializado; e considerado como propriedade sagrada de poucos. A relação entre as disciplinas é do tipo fechada, com os conteúdos delimitados em relação vertical. O conteúdo está nas mãos de quem o ensina e quem o avalia, podendo cada professor atuar à sua maneira dentro de limites prescritos. As disciplinas são isoladas por tarefas individualizadas. Quanto à avaliação da aprendizagem, tal currículo valoriza a subserviência e passividade do aluno face ao conhecimento, promovendo o individualismo e introduzindo a lógica das relações de mercado no sistema de ensino (prevalece a quantidade).

No que se refere à concepção de Prática Pedagógica, os resultados obtidos nos permitem afirmar que a maioria dos docentes tem uma idéia de prática pedagógica aproximada ou coincidente com a concepção tradicional, conforme proposta(10), revelada por ações técnico-mecanicistas, em detrimento de abordagem e ações humanistas, preconizadas pela reforma curricular, estando esses dados confirmados pela opinião dos alunos. Esses dados estão apresentados nas Tabelas 3 e 4.

 

 

 

A classificação das concepções de Prática pedagógica como: Tradicional (CT), Humanista (CH) e Vago/Confuso/Impreciso (CVCI) foi feita considerando-se o critério "estar próximo ou não" dos conceitos de Prática Pedagógica(10) (CT e CH), construídos/descritos, segundo 11 itens: ensino, homem, mundo, sociedade-cultura, conhecimento, educação, escola, ensino-aprendizagem, professor-aluno, metodologia e avaliação.

As informações de quase 80% dos docentes corroboraram com a conclusão de que a reforma curricular não determinou mudança da Prática Pedagógica, em função do "novo" Currículo. Os dados obtidos por entrevista com o Diretor do Departamento de Ciências da Saúde também revelaram isso, ao afirmar.

Sim, houve mudança, mas muito pouco. E as mudanças havidas foram devidas à capacitação docente e implantação do curso de medicina, com o modelo do PBL. E os professores substitutos que sempre trazem uma proposta mais aberta. Não acho que a reforma curricular contribuiu para a mudança na prática pedagógica.

Concluiu-se que, como parte da prática docente, as Práticas de Planejamento não têm o caráter de ações integradas, nem a participação, reafirmando o currículo como do tipo coleção(10-11). E, ainda, reforça o ensino numa abordagem tradicional, ou seja, "em todas as suas formas, centrado no professor" e o aluno é considerado como "inserido no mundo que irá conhecer através das informações que lhes serão fornecidas e que se decidiu serem importantes e úteis para ele".

Em relação aos domínios da aprendizagem trabalhados pelas disciplinas, conclui-se que a maioria dos docentes exercita apenas aspectos do domínio cognitivo, dando menor atenção aos domínios afetivos e psicomotor, ocorrendo desarmonia entre os domínios cognitivo, afetivo e psicomotor e, por conseguinte, não atendendo a forma plena do cuidado humanizado, requerido pelo ato de saúde. É necessário compreender que humanizar o processo de atendimento à saúde requer competências afetivas e competências psicomotoras, além dos registros e competências cognitivas.

Apesar dos docentes considerarem que há integração entre as disciplinas do Curso, essa se caracteriza como uma integração tradicional, com os pré-requisitos fortemente identificados e conteúdos bem delimitados em e por disciplina. Nesse caso, acredita-se que os conceitos de interdisciplinaridade e multidisciplinaridade, ainda não foram levados em consideração ou, mesmo, não estão elaborados pelos docentes, expressando então falta de integração no processo de formação do enfermeiro.

Ora, se a contemporaneidade está a requisitar/exigir um profissional enfermeiro que tenha um perfil, garantido por formação, que lhe permita desenvolver competências e habilidades gerais, voltadas para atenção à saúde; tomada de decisões; comunicação; liderança; administração e educação permanente, conforme prevêem as Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Enfermagem(14), pode-se, desde já, compreender que a forma "antiga" de se relacionar com o conhecimento não mais tem lugar/espaço nesse novo contexto. Até mesmo porque a idéia de Programa de Disciplina, "guardado no arquivo", perde completamente o seu valor em um mundo, onde novas informações acontecem intensamente, e que o aluno não mais depende do professor, como única fonte de acesso a essas informações. Assim sendo, cabe aos professores perder o medo de inovar e "convidar" o aluno a fazer parte desse esforço de busca de conhecimento, não apenas na condição "antiga" de aluno passivo, mas como parceiro, que deve se comportar como sujeito do par pedagógico, partícipe do processo ensino-aprendizagem.

Desse modo, em princípio, para serem atendidas as Diretrizes Curriculares, acredita-se ser necessária a preocupação com a formação do enfermeiro, tomando como referência, não apenas conteúdos ricos e habilidades desconectados entre si, mas, também, trabalhar categorias de competências tais como: entender e operar múltiplas linguagens; compreender fenômenos biopsicossociais que condicionam a saúde; tomar decisões que incluam e respondam ao que ordinariamente ocorre e é feito; entender e responder ao inédito e/ou inusitado; construir argumentos e intervir na realidade, conscientes de que a realidade muda.

Considerou-se a abordagem pedagógica tradicional como modelo até então seguido pelo Curso de Graduação em Enfermagem da UESC e os professores não estão atentos ao desacordo entre tal tipo de abordagem e o que se pretende da formação do enfermeiro na atualidade, em conformidade com as Diretrizes Curriculares e os autores consultados e referidos neste trabalho. Pode-se, então, considerar que se está perdendo de vista, com esse tipo de abordagem, o papel primeiro da enfermagem, visto como o da integralidade do cuidado humano.

Os achados desta pesquisa revelam uma pálida tentativa da pré-requisitação, como a única forma de interdisciplinaridade. E essa pré-requisitação não está nem entendida, nem cuidada pelos professores, por não trabalharem as disciplinas como interdependentes e intercomplementares. Esse fato, pareceu, poder explicar, pelo menos em parte, a dificuldade de ser garantido o cuidado integral, o cuidado humano ao sujeito na sua inteireza.

Segundo dados fornecidos pelos alunos, os métodos de ensino utilizados com maior freqüência pelos professores foram: aulas expositivas, seminário e trabalho em grupo, resultados esses que coincidem com as informações dos professores, reforçadas pela observação de campo, quando se verificou serem as aulas expositivas a atividade predominante, centrada nos conteúdos.

Quanto às percepções dos professores e alunos, sobre a relação aluno-professor, pode-se afirmar que, seguramente, ambos tiveram dificuldade em caracterizar o tipo de relação que os une, entretanto, afirmam ser interlocutores, mas tiveram dificuldade em especificar características do perfil do aluno desejado, ou seja, aquele que o professor deseja e aquele que o aluno acredita que o professor deseja, pois houve uma pulverização de itens, citados pelos docentes, na tentativa de caracterizar o aluno desejado, mas sem consenso.

Levando em consideração os dados referentes à relação aluno-professor e comparando-os com os dados já analisados nas categorias práticas de planejamento, práticas de execução do plano e práticas de avaliação da aprendizagem, conclui-se que, apesar de alguns docentes citarem como características desejáveis dos alunos a condição de um cidadão e profissional criativo, participativo, crítico, ético, questionador e interativo, a prática pedagógica desenvolvida na abordagem tradicional de ensino, dificulta ou mesmo impede o desenvolvimento desses traços. Na abordagem tradicional, o vínculo professor-aluno é vertical. Em um dos pólos (o professor) detém o poder de decisão quanto à metodologia, conteúdo, avaliação, forma de interação, entre outros. No pólo inferior, estão os alunos, de quem se espera o papel de submissão a esse poder. Ao professor compete informar e conduzir os seus alunos em direção a objetivos que lhes são externos, por serem escolhidos pela escola e/ou pela sociedade em que vivem e não internalizados/assumidos pelos sujeitos do processo, que são os alunos.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Pode-se à luz dos dados aqui tratados, considerar que se faz necessária a construção coletiva de um Projeto Pedagógico para o Curso em atenção a uma formação humanista e atenta aos fenômenos humanos que são de natureza biopsicossocial e que se mostram tanto como necessidades individuais quanto como necessidades do coletivo social.

A Figura 1 é um modelo analógico, que se acreditamo, representar a realidade do currículo atual do Curso de Graduação em Enfermagem da UESC.

 

 

Esse modelo que pretende expressar, analogicamente, a relação entre os elementos significativos à concepção de currículo que, nesse caso estudado, caracteriza-se como do tipo coleção e se apresenta sem articulação com a realidade a que deve servir, estando a prática pedagógica desconectada das pretensões declaradas na proposta curricular. No curso referido, evidenciam-se dois fatos: o currículo, entendido por docentes e alunos como grade curricular e a prática pedagógica de cada docente isolada, sem objetivos comuns e, assim, cada docente atuando com a sua concepção particular de prática pedagógica. Nesse modelo, a realidade está representada pelo contexto de saúde da região e, pelo que se constata, não tem sido tomada como parâmetro de referência para o curso, ou seja, o currículo e a prática pedagógica não estão considerando o contexto de saúde da região.

Nessa perspectiva, acredita-se ter obtido dados da realidade que poderão dar sustentação a um (re)pensar e/ou (re)organizar um projeto pedagógico, bem como o (re)dimensionamento do fazer pedagógico dos professores do Curso de Graduação em Enfermagem da UESC, pautado num modelo analógico que se acredita ser o ideal, ou próximo do ideal, conforme apresentado na Figura 2.

 

 

A Figura 2 é um modelo analógico, que se acredita ser o ideal, ou próximo do ideal, mais consentâneo com a realidade. Nessa concepção, o currículo, a prática pedagógica e a realidade estão integrados, atendendo necessidades comuns. Dessa forma, há um currículo do tipo integração, de prática pedagógica, com ações humanistas, onde a realidade (contexto de saúde da região) inclui todos os sujeitos, que têm prioridade quando da organização curricular, estimulando constantes avaliações de pertinência e de correções/adequações que se façam necessárias.

Aqui se refere a uma formação acadêmica de ações integradas (Figura 2), objetivando profissionais voltados para o entendimento e viabilização das ações do "Par do Ato de Saúde" - que está composto pelo profissional de saúde e pelo sujeito que busca a ajuda nos serviços de saúde, pressupondo cooperação entre pares, entre os parceiros dessas ações de cooperação, uma vez que são pessoas que se associam para uma tarefa comum de mesmo objetivo, com ações de cooperação necessárias à manutenção e/ou recuperação da saúde.

 

AGRADECIMENTOS

A Maridalva Penteado, pela colaboração na construção desse artigo.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido em: 28.9.2005
Aprovado em: 3.7.2006

 

 

1 Trabalho extraído da Tese de Doutorado