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Educar em Revista

Print version ISSN 0104-4060On-line version ISSN 1984-0411

Educ. rev.  no.28 Curitiba July/Dec. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-40602006000200018 

RESENHA

 

 

Glaucia da Silva Brito

Professora Doutora do Departamento de Comunicação e do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Paraná. glaucia@ufpr.br

 

 

SANCHO, J. M.; HERNANDEZ, F. et al. (Org). Tecnologias para transformar a educação. Porto Alegre: Artmed, 2006.

Como em outras épocas, neste momento, há uma expectativa grande de que as Tecnologias de Informação e Comunicação – TIC – nos trarão soluções rápidas para a melhoria da qualidade na educação. Porém, se a educação dependesse somente de tecnologias, já teríamos achado as soluções para essa melhoria há muito tempo. Acreditamos que a escola, em relação às TIC, precisa estar inserida num projeto de reflexão e ação, utilizando-as de forma significativa, tendo uma visão aberta do mundo contemporâneo, bem como realizando um trabalho de incentivo às mais diversas experiências, pois as diversidades de situações pedagógicas permitem a reelaboração e a reconstrução do processo ensino-aprendizagem.

A comunidade escolar se depara com três caminhos: repelir as tecnologias e tentar ficar fora do processo; apropriar-se da técnica e transformar a vida em uma corrida atrás do novo; ou apropriar-se dos processos, desenvolvendo habilidades que permitam o controle das tecnologias e de seus efeitos.

Consideramos a terceira opção como a que melhor viabiliza uma formação intelectual, emocional e corporal do cidadão, que lhe permita criar, planejar e interferir na sociedade. Pensamos na importância de um trabalho pedagógico em que o professor reflita sobre sua ação escolar e efetivamente elabore e operacionalize projetos educacionais com a inserção das tecnologias da informação e da comunicação – TIC – no processo educacional, buscando integrá-las à ação pedagógica na comunidade intra e extra-escolar e explicitá-las claramente nas propostas educativas da escola.

Corroborando com nosso posicionamento, Juana Sancho e Fernando Hernández propõem neste livro um repensar sobre as tecnologias de informação e comunicação (TIC) na educação. O conjunto de artigos organizados neste livro surgiu a partir da proposta de um curso de verão realizado na Universidade Internacional da Andaluzia, Espanha, e tinha como objetivos: (a) analisar as configurações da escola atual que dificultam a integração educativa das tecnologias de informação e comunicação; (b) explorar possíveis cenários da escola do amanhã, assim como suas conseqüências para os professores, os equipamentos, a organização e a formação dos docentes; (c) analisar diferentes concepções do conhecimento representadas no currículo e seu significado para a plena integração das TIC; (d) experimentar e analisar diferentes ambientes digitais de ensino e aprendizagem que favoreçam a inovação docente e a inclusão dos alunos com necessidades educativas especiais.

Quanto à escolha do título do livro – Tecnologias para transformar a educação – os organizadores concluíram, após a leitura do conjunto dos textos, que os autores colaboradores não falaram apenas em TIC, mas falaram de "um conjunto de tecnologias – formas de fazer e intervir no mundo da educação – conhecimentos e saberes fundamentais para olhar a educação de outras maneiras".

No capítulo 1, Juana María Sancho faz um resgate da sua história de vida profissional e a interação com os computadores, fazendo um link com as concepções atuais de ensino-aprendizagem, tendo como referência as TIC. Ela reflete sobre a necessidade de os professores, diretores, assessores pedagógicos, especialistas em educação revisarem sua forma de entender como se ensina e como aprendem as crianças e jovens deste século, pois isto é fundamental e primordial para que se possa planejar e colocar em prática projetos educativos. A Autora traz dois questionamentos que se fazem atuais e também aplicáveis à realidade brasileira em relação ao caráter transformador das TIC: 1. Por que, apesar da existência de programas específicos de introdução do computador nas aulas, na maioria dos países sua presença costuma ser insuficiente? 2. O que precisaria mudar na política educacional e nas escolas para que professores e alunos pudessem beneficiar-se das contribuições destas tecnologias?

Descreve ainda as etapas de um projeto de pesquisa europeu e revisa os axiomas para a prática de implantação das tecnologias de informação e comunicação, propostos por McClintock (2000).

No capítulo 2, Fernando Hernandez já nos provoca com o título do seu texto: Por que dizemos que somos a favor da Educação se optamos por um caminho que deseduca e exclui? O autor resgata aqui as potencialidades e a necessidade de uma visão integrada da educação escolar no contexto atual, pois sem essa visão não poderemos aproveitar todo o potencial das TIC na sala de aula. Destaca também que optar por uma visão integrada da educação não é mera estratégia organizativa, pois sempre teremos o desafio que significa a possibilidade de construir projetos de emancipação em um mundo repleto de contradições. Incluo aqui projetos inovadores que envolvam as TIC no ambiente educacional.

No capítulo 3, Juan de Pablos fundamenta a lógica disciplinar e nos leva a uma reflexão sobre as diferentes perspectivas com que se tem abordado o conceito de interdisciplinaridade, pois segundo o autor isto se deve ao fato de sua conceitualização se fundamentar em finalidades diferentes, identificar distintos objetos de estudo e recorrer a um sistema referencial e a modalidade de aplicação também diferentes. Dentro das perspectivas disciplinares e das TIC, o autor destaca que as possibilidades são evidentes, mas que a formação pedagógica do professores em TIC deve ser considerado como um dos fatores-chave para seu uso efetivo.

No capítulo 4, Anne Gilleran explora a teoria construtivista da aprendizagem compartilhada ou comunitária. Apresenta-nos dois estudos realizados com o apoio da Rede de Escolas Européias da Comissão Européia. Um dos estudos traz os resultados sobre o uso das TIC nas escolas européias chamado de eWatch; o outro estudo é sobre o uso de um ambiente virtual de aprendizagem chamado Future Learning Environment 3 (FLE3). Este ambiente foi criado para ajudar estudantes a desenvolver sua própria base de conhecimento a partir de princípios construtivistas. Esta autora nos traz dados atuais sobre o uso das TIC nos sentidos educativo e pedagógico no contexto europeu.

No capítulo 5, Ángel San Martín nos instiga a refletir sobre como a gestão e a organização das escolas têm contribuído para aumentar as dificuldades de incorporação das TIC como ferramentas de ensino-aprendizagem. Este autor considera que estamos no início de uma mudança profunda das organizações escolares.

No capítulo 6, Carmen Alba se preocupa com a questão da inclusão, ou seja, o acesso às tecnologias de informação das pessoas com necessidades especiais. Aborda alguns recursos que possibilitam ou melhoram as condições de acesso à educação das pessoas com deficiência e destaca a necessidade de se diferenciar o entendimento que se tem sobre a utilização de recursos tecnológicos como solução para os problemas de um aluno com necessidades especiais e o uso destes recursos na aprendizagem.

No capítulo 7, Manuel Área destaca que já faz vinte anos que diferentes governos ocidentais incorporaram às suas políticas educacionais a necessidade de os computadores ingressarem nas escolas. O autor recorre principalmente aos contextos dos Estados Unidos e da União Européia e faz uma análise mais aprofundada do processo de incorporação das novas tecnologias no sistema escolar nas Ilhas Canárias. Conclui que as políticas, para "obterem sucesso", deverão se concentrar mais na inovação da prática educativa e deixar de dar tanto destaque a estatísticas, equipamentos e infra-estrutura nas escolas.

No capítulo 8, David Istance nos apresenta as idéias de um programa de pesquisa que começou no final do século XX, desenvolvido no Centro de Pesquisa e Inovação Educativa (CERI) pertencente à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Este programa, chamado de A ESCOLA DO AMANHÃ, tem seis cenários que, segundo o autor, têm o objetivo de ajudar a incrementar a consciência sobre as alternativas a longo prazo para se transformar as escolas; isto poderá ajudar os diferentes grupos envolvidos com educação. Os cenários são apresentados e analisados em três perspectivas: a sociedade em que este cenário pode tornar-se realidade; a profissão docente; e o uso das TIC. O programa está entrando na terceira fase, que promete ser a mais ambiciosa, pois ampliará seus focos para a aprendizagem e o ensino universitário.

Os textos reunidos neste livro confirmam que temos a nossa frente um vasto campo de pesquisa, que diz respeito à utilização das Tecnologias da Informação e Comunicação no processo ensino-aprendizagem. Esse campo, necessariamente interdisciplinar, tem que considerar dois principais componentes: a utilização cada vez maior das TIC em nossa sociedade e o redimensionamento do papel da escola e do professor.

 

 

Texto recebido em 12 maio 2006
Texto aprovado em 06 jun. 2006

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