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Revista da Associação Médica Brasileira

Print version ISSN 0104-4230On-line version ISSN 1806-9282

Rev. Assoc. Med. Bras. vol.43 n.2 São Paulo Apr./June 1997

https://doi.org/10.1590/S0104-42301997000200014 

Artigo de Revisão

 

Gastroparesia diabética

P.R. Cesarini, *S.R.G. Ferreira, S.A. Dib

 

Disciplinas de Endocrinologia e Metabologia e de *Epidemiologia Clínica da Universidade Federal de São Paulo — Escola Paulista de Medicina, São Paulo, SP.

 

 

UNITERMOS: Neuropatias diabéticas. Gatropatias. Gastroenteropatias. Esvaziamento gástrico. Motilidade gastrointestinal. Agentes gastrointestinais. Diabetes melito.

KEY WORDS: Diabetic gastroparesis. Diabetic complications. Metoclopramide. Antral dysfunction. Gastric emptying. Gastric stasis. Diabetes mellitus.

 

 

INTRODUÇÃO

Alterações na motilidade gastrointestinal decorrentes da neuropatia autonômica são freqüentes nos pacientes diabéticos, e se constituem em importante causa de morbidade. Os distúrbios da motilidade esofágica, gástrica ou intestinal levam a sintomas muitas vezes severos e podem, também, dificultar a obtenção de um bom controle glicêmico1.

Abordaremos, aqui, o comprometimento da função da motilidade do estômago próprio do diabetes melito, que determina retardo no esvaziamento gástrico, caracterizando o quadro da gastroparesia diabética estudada pela primeira vez por Kassander, em 19542.

 

EPIDEMIOLOGIA

Os achados, quanto à prevalência da gastroparesia diabética (GPD), são discordantes. Um estudo retrospectivo envolvendo 43.900 prontuários de pacientes do Ambulatório da Clínica Joslin, em Boston (EUA), mostrou que apenas 0,08% dos indivíduos tinha o diagnóstico de GPD3. No entanto, em estudos prospectivos radiológicos, o retardo do esvaziamento gástrico foi observado em 22% dos indivíduos diabéticos do tipo I2. Num grupo de pacientes com evidência clínica de neuropatia, que tiveram o esvaziamento gástrico estudado por método radioisotópico, foi observado retardo do esvaziamento em 27% dos casos4.

A GPD manifesta-se, geralmente, após oito a dez anos do diagnóstico do diabetes, como ocorre com a maioria das outras complicações da doença5,6.

 

PATOGÊNESE

Os fatores etiopatogênicos mais comumente implicados na GPD são a neuropatia autonômica e alterações na secreção de hormônios envolvidos na regulação da função digestiva7.

O componente neurológico seria o fator mais importante, uma vez que, na maioria dos portadores da GPD, comprova-se a presença de neuropatia autonômica e neuropatia periférica1,8. A melhora dos sintomas com o uso de agentes colinérgicos evidencia o provável papel patogênico do sistema nervoso autonômico.

No entanto, discute-se a importância da perda da função vagal na patogênese dessa complicação, uma vez que a vagotomia cirúrgica promove o esvaziamento gástrico para líquidos, fato não observado na GPD. Isso sugere a implicação de outros mecanismos na gênese da GPD9.

Nos estudos de esvaziamento gástrico com tecnécio, observa-se que há baixa correlação entre a intensidade dos sintomas e o grau de gastroparesia documentada pelos métodos de avaliação de esvaziamento gástrico6. Acometimento heterogêneo da inervação aferente explicaria, ao menos em parte, a grande variabilidade de sintomas em indivíduos com distúrbio da motilidade gástrica6. Rathmann10 demonstrou associação entre a neuropatia aferente visceral e presença de GPD oligossintomática.

Outras evidências sugerem a participação do sistema nervoso autonômico na patogênese da GPD mediante alterações na liberação de hormônios entéricos. Tais distúrbios parecem ter relação com a diminuição da atividade vagal11,12. Devido ao tônus vagal diminuído, a gastrina encontra-se elevada, causando o retardo do esvaziamento gástrico. Em adição, o pH gástrico aumentado, devido à deficiência de secreção ácida, também serve de estímulo para liberação de gastrina13. A motilina é um peptídio que provoca contrações gástricas interdigestivas (migratory motor complex — IMMC), responsáveis pelo esvaziamento do conteúdo gástrico não digerido, e sua atuação parece ser em nível da liberação local de acetilcolina14. Na GPD, os níveis de motilina encontram-se normais ou elevados (na ausência do IMMC). Diante desse achado, especula-se sobre a possibilidade de uma deficiência colinérgica dificultar a ação da motilina14. A colecistoquinina inibe o esvaziamento gástrico em indivíduos normais15. Em indivíduos diabéticos, foram verificados níveis elevados desse hormônio, que foram, ainda, maiores naqueles portadores de neuropatia autonômica16. O polipeptídio pancreático e a somatostatina diminuem a secreção e a motilidade gástricas. A hipoglicemia induzida pela insulina promove a liberação desses hormônios. Nos indivíduos com neuropatia diabética, essa resposta se encontra abolida, sugerindo a existência de papel fisiopatológico ainda pouco compreendido6.

A hiperglicemia retarda o esvaziamento gástrico, tanto em indivíduos normais como em diabéticos17,18. Horowitz17 encontrou relação inversa entre o esvaziamento gástrico e a glicemia, quando esta ultrapassa 180mg/dL. A atividade contrátil interdigestiva (IMMC) é inibida nos estados hiperglicêmicos, podendo levar à retenção de material não digerível na luz gástrica19.

Não foi observada correlação entre níveis de hemoglobina glicosilada e o grau de gastroparesia, sugerindo que a contratilidade gástrica seria mais afetada pelas variações agudas da glicemia do que pelos estados hiperglicêmicos mantidos1.

A retenção de alimentos no estômago pode levar a um retardo da absorção de glicose e, por conseqüência, a picos tardios de hiperglicemia. Assim, estabelece-se um "descompasso" entre os picos da ação da insulina e os períodos de glicemia mais alta. Desta forma, o pior controle do DM levará ao agravamento da GPD6. Ao lado disso, Groop e DeFronzo20 demonstraram uma diminuição de absorção da glipizida nos estados hiperglicêmicos em indivíduos normais. Tal fenômeno, segundo os autores, poderia ser explicado pela gastroparesia induzida pela hiperglicemia. Assim, a ocorrência de picos hiperglicêmicos tardios e a provável diminuição na absorção de hipoglicemiante oral apontam a GPD como um fator de piora do controle metabólico.

Embora o estômago seja descrito como "protegido" contra a isquemia, do ponto de vista anatômico, foram descritos casos da chamada "gastropatia isquêmica" secundária a lesões arterioscleróticas difusas dos vasos que o irrigam. Esse processo leva a quadros de gastrite, ulcerações da mucosa e atonia gástrica21. Em diabéticos com neuropatia autonômica e gastroparesia, não foi observado o aumento fisiológico do fluxo sanguíneo pós-prandial nas artérias mesentérica superior e celíaca22. Também não foram evidenciadas alterações sugestivas de oclusões arteriais, sugerindo que distúrbios funcionais hemodinâmicos podem ter papel na patogênese da GPD.

Discute-se o papel da insulinopenia na GPD. A insulina promove o esvaziamento gástrico, provavelmente, por aumento do tônus vagal, enquanto que o glucagon tem efeito contrário. Um estado insulinopênico em indivíduos diabéticos, associado à presença de glucagon, poderia contribuir para a redução da motilidade gástrica6.

 

FISIOPATOLOGIA

A motilidade gástrica é regulada pelo sistema nervoso entérico, por enervação extrínseca simpática e parassimpática (vagal), sendo submetido a um controle endócrino e parácrino6.

Do ponto de vista funcional, o estômago pode ser dividido em duas partes: o estômago proximal (fundo e porção superior do corpo) e o estômago distal (porção inferior do corpo, antro e piloro)6. O estômago proximal funciona como um reservatório de alimentos. Sua musculatura é responsável pelo relaxamento adaptativo do estômago, importante elemento no controle do gradiente pressórico e da pressão intragástrica. O esvaziamento de líquidos é controlado pelas contrações proximais, que atuam sinergicamente com o antro, o piloro e o duodeno. No esvaziamento de líquidos ocorre um relaxamento da musculatura gástrica, seguida de contrações da porção proximal do estômago. O estômago distal retém e "tritura" alimentos sólidos em partículas menores que 2mm, antes de permitir a passagem para o duodeno. As contrações da musculatura antral têm mínima atuação no esvaziamento de líquidos ingeridos, mas são fundamentais no esvaziamento de sólidos6. As partículas alimentares não digeríveis (fibras em geral) são eliminadas do estômago entre as refeições no período dito "interdigestivo". Durante esse período, estabelece-se um ciclo de atividade contrátil, o chamado interdigestive migratory motor complex — IMMC. Esse ciclo é constituído de três fases distintas, na terceira das quais ocorrem contrações de grande magnitude, responsáveis pelo deslocamento de partículas "não digeríveis" em direção ao duodeno. As contrações dessa fase III ocorrem em salvas de 5 a 10min a cada uma ou duas horas, seguidas de abertura do piloro5,6,14,23-25.

No diabetes melito, o acometimento da motilidade gástrica é progressivo. Inicialmente, ocorre a perda da fase III do IMMC, levando à retenção de alimentos sólidos não digeríveis, predispondo a formação de bezoares. Posteriormente, observa-se a diminuição da contratilidade antral com retenção de sólidos digeríveis. A retenção de líquidos é mais tardia, revelando deficiência na motilidade da porção proximal do estômago6. Além das alterações motoras, nota-se diminuição da secreção ácida, possivelmente devido à neuropatia autonômica. A gastrite atrófica auto-imune, presente com relativa freqüência nos diabéticos do tipo I, também pode levar à hipocloridria, contribuindo para o distúrbio de esvaziamento gástrico26.

 

QUADRO CLÍNICO

Os sintomas mais comuns da GPD compreendem náuseas, vômitos, saciedade precoce, eructação, distensão abdominal e emagrecimento. Tais quadros podem durar dias ou semanas e, freqüentemente, são intercalados por períodos de remissão. Os pacientes devem ser questionados especificamente sobre aspectos da disfunção autonômica, tais como impotência erética, sudorese vasomotora ou hipotensão postural. A GPD está associada com outras complicações crônicas, como nefropatia (44%), retinopatia (58%) e neuropatia periférica (88% dos casos)6. Quadro de dor abdominal grave é incomum, devendo-se, nesse caso, afastar outras possibilidades diagnósticas6. Há fraca relação entre a intensidade dos sintomas com as medidas objetivas do esvaziamento gástrico, como, também, podem ocorrer períodos de remissão, mesmo em quadros inicialmente graves17,27. Assim, o achado de esvaziamento gástrico retardado, independente do grau de sintomatologia, pode ser considerado marcador de GPD19. O exame físico não mostra sinais específicos, devendo ser dirigido para identificar outras evidências de neuropatia autonômica. A GPD é infreqüente na ausência de neuropatia clinicamente detectável6.

 

DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL DAS GASTROPARESIAIS NO DIABETES

O diagnóstico diferencial é extenso (tabela). Cerca de 76% dos indivíduos diabéticos referem queixas digestivas, dos quais 30% manifestam náuseas e vômitos e 34% queixam-se de dores abdominais28.

 

 

Devemos pesquisar, no interrogatório, drogas como antidepressivos, opiáceos, agentes anticolinérgicos, atropínicos, bloqueadores ganglionares, drogas agonistas beta-adrenérgicas e vincristina, que podem retardar o esvaziamento gástrico8,23.

A gastroparesia pode ser observada nos carcinomas mamário, brônquico ou esofágico quando cursam com invasão do nervo vago8. Além disso, é descrita como integrante da síndrome paraneoplásica nos tumores carcinóide e carcinoma pulmonar de pequenas células29.

 

EXAMES SUBSIDIÁRIOS

Como regra geral, antes de utilizarmos esses exames, devemos nos certificar de que o paciente esteja com seus níveis glicêmicos normalizados ao menos nas últimas 24 horas, não tendo feito, nesse intervalo, uso de drogas que possam retardar o esvaziamento gástrico6.

A avaliação do esvaziamento gástrico com radionuclídeos (cintilografia) consiste da ingestão de alimentos marcados com tecnécio-99, sendo a radioatividade do conteúdo gástrico avaliada mediante uma gama-câmara ao longo de 90min. Em indivíduos normais, após 60 minutos, a atividade residual captada deve ser inferior a 50% da inicial6,30.

O teste de esvaziamento gástrico com contraste baritado é um exame com menor sensibilidade que a cintilografia19. O método parece guardar maior correlação quando da deficiência do esvaziamento para líquidos6, que costuma ser de aparecimento tardio no curso da GPD. Constitui método cuja interpretação depende da experiência do radiologista que o executa e, muitas vezes, dá margem a dúvidas. É útil no diagnóstico de casos graves e para excluir processos obstrutivos ou mesmo detectar bezoares. Os achados radiológicos para firmar o diagnóstico de gastroparesia compreendem8: a) peristalse diminuída com retenção de contraste na luz gástrica após 30 minutos, sem evidência de obstrução mecânica; b) presença de resíduos sólidos após uma noite de jejum; c) estômago alongado "em salsicha", sem nível ar-líquido; presença de enfisema gastrico; d) dilatação gástrica.

Embora não mostre alterações específicas, a endoscopia digestiva alta é útil no sentido de descartar patologias associadas, como a estenose pilórica, candidíase esofágica, úlcera péptica e gastrite por refluxo biliar6,19. Também é útil no diagnóstico e na retirada de bezoares.

A avaliação clínica do sistema nervoso autônomo é fundamental, já que a presença de anormalidades, nos reflexos autonômicos, é de regra nos pacientes portadores de GPD31. Vários testes de função autonômica têm sido descritos, e, dentre estes, os adotados pelos estudos de Ewing e Clarke são os mais comumente utilizados6. Entretanto, não tem sido verificada relação entre a severidade do GPD e a intensidade da disfunção autonômica31.

 

COMPLICAÇÕES DA GASTROPARESIA DIABÉTICA

O retardo de esvaziamento para partículas não digeríveis pode determinar a formação de bezoares5,8. O paciente com GPD tem uma maior tendência de desenvolver dilatação gástrica aguda durante os episódios de cetoacidose6, podendo requerer aspiração por sonda nasogástrica por longos períodos.

A candidíase esofágica acomete cerca de 15% desses pacientes, possivelmente devido à estase e ao refluxo gastroesofágico secundário à GPD33.

Como outras complicações diretas ou indiretas, ainda podem ser citadas: o enfisema gástrico, absorção errática de medicações, piora da êmese gravídica, perda de peso, desnutrição, pneumonias por aspiração e o mau controle do diabetes melito6.

 

TRATAMENTO

a) Dietético

Recomenda-se uma dieta fracionada, evitando-se alimentos gordurosos e líquidos hipertônicos, que retardam o esvaziamento gástrico19,34. Os suplementos de fibra devem ser evitados, pois possibilitam formação de bezoares5,8. Nos casos graves, pode ser indicada dieta líquida. Nos casos refratários ao tratamento clínico e nas exacerbações prolongadas, pode ser necessária nutrição enteral ou mesmo parenteral6. A dieta por jejunostomia é opção em muitos desses casos35.

b) Tratamento medicamentoso

Uma vez indicado o tratamento farmacológico, há o consenso de que as medicações devem ser ministradas, preferencialmente, na forma líquida e antes das refeições6,19. O rodízio de drogas a cada 3 ou 4 semanas ou associações de medicações merecem ser melhor avaliados. Não existe, até o momento, uma terapia clínica comprovadamente efetiva, a longo prazo6. As opções disponíveis são mencionadas a seguir, e algumas drogas, como a eritromicina e a clonidina, têm sido objeto de recentes estudos quanto à sua utilidade.

A metoclopramida, pela sua ação antidopaminérgica, acelera o esvaziamento gástrico, inibe o relaxamento fúndico e coordena a motilidade gástrica, pilórica e duodenal com efeito propulsivo (efeito pró-cinético). A metoclopramida tem, também, efeito antiemético central36. Estudos clínicos mostraram melhora significativa no esvaziamento gástrico por curtos períodos de utilização. Porém, tal efeito não foi observado após período de uso continuado37. É possível que a melhora dos sintomas referida em uso crônico seja devida tão-somente ao seu efeito central antiemético. A dosagem preconizada consiste em 5 a 20mg, uma hora antes das refeições e antes de dormir. São descritos efeitos colaterais, como irritabilidade, sonolência, mioclonias, galactorréia e manifestações extrapiramidais6.

O domperidona é um antagonista dopaminérgico específico, com a vantagem de praticamente não ultrapassar a barreira hematoencefálica, causando menos efeitos adversos que a metoclopramida. Curtos períodos de uso melhoram o esvaziamento gástrico, porém, administrado por mais de 30 dias, perde significativamente seu efeito, apesar de persistir alguma ação em nível de estômago proximal, facilitando o esvaziamento para líquidos38.

O cisaprida é um agente pró-cinético que facilita a liberação de acetilcolina em nível de plexos nervosos do trato gastrointestinal e poucos são seus efeitos colaterais do trato gastrointestinal. Não apresenta efeito antidopaminérgico39. A melhora do esvaziamento gástrico parece ser mantida ao menos por um ano de uso contínuo40,41. McHugh et al.42, comparando o cisaprida com metoclopramida, demonstraram uma equivalência de efeito aguda após infusão endovenosa. Porém, o cisaprida, na sua dose máxima, foi mais efetivo no esvaziamento gástrico do que a metoclopramida. Neste estudo não foi comparada a eficácia dessas drogas em uso prolongado ou administração por via oral. Champion43 avaliou nove pacientes com GPD sintomática, submetendo-os a dois esquemas terapêuticos por quatro semanas de tratamento com cisaprida e domperidona, intercalados por período de quatro semanas sem medicação, para comparar o esvaziamento gástrico e a melhora dos sintomas. A melhora no esvaziamento gástrico foi semelhante com ambas as drogas, e, em relação à sintomatologia, o cisaprida parece ter trazido maiores benefícios no que diz respeito à sensação de distensão abdominal, náuseas e dor epigástrica. A posologia do cisaprida recomendada é de 10mg, três vezes ao dia, 30 a 60 minutos antes de cada refeição6,19.

Estudos têm mostrado a eficácia da eritromicina na melhora do esvaziamento gástrico na GPD. A eritromicina atua sobre receptores da motilina como um agonista, promovendo contrações semelhantes às da fase III do IMMC24,44,45. Em estudos clínicos, a eritromicina tem mostrado aumentar o esvaziamento gástrico, tanto para líquidos como para sólidos, em indivíduos normais e em diabéticos. Otterson et al. estudaram em detalhes os efeitos da eritromicina na motilidade gastrointestinal. Foi evidenciado que a eritromicina, na forma de lactobionato, inicia e aumenta a mobilidade apenas quando administrada em pequenas doses endovenosas de 1,0mg/kg, diluídas em solução salina, infundidas em 30 minutos, e não com doses maiores. Doses acima de 25mg/kg desencadeiam contrações retrógradas gigantes, vômitos complexos e períodos de inibição generalizada de toda a atividade motora gástrica46. Janssens et al.45 relataram melhora do esvaziamento gástrico, tanto utilizando estearato de eritromicina, em dose única diária de 500mg/dia, como com a posologia de 250mg, três vezes ao dia, 30 a 60 minutos antes das refeições. Doses mais elevadas como 2g ao dia têm-se mostrado pouco toleradas, havendo incidência considerável de efeitos colaterais, tais como cólicas abdominais44. Seu uso tem sido sugerido como alternativa nas agudizações da GPD, podendo ser útil no tratamento crônico44,45. No entanto, em cães, foi observado fenômeno de tolerância ao tratamento com eritromicina a longo prazo, provavelmente por mecanismo de down-regulation dos receptores da motilina. Estudos prospectivos são necessários para se estabelecer o lugar de eritromicina no arsenal terapêutico da GPD.

A clonidina, utilizada no tratamento da diarréia crônica dos diabéticos47, tem sido empregada em casos isolados de gastroparesia diabética, com alívio significativo da sintomatologia48. Rosa-e-Silvaet al.49 observaram que, de quatro diabéticos com gastroparesia, três apresentaram significativa melhora do esvaziamento gástrico com clonidina, quando avaliados através da cintilografia, com relatos de melhora de sintomas. Estudos envolvendo maior número de pacientes são necessários para confirmar a utilidade desse agente no controle da GPD.

c) Tratamento cirúrgico

É indicado somente nos casos graves e refratários ao tratamento clínico. Antes de se indicar uma abordagem cirúrgica, é importante a avaliação da motilidade do intestino delgado. A piloroplastia e a gastrojejunostomia, visando a uma melhor drenagem gástrica, não se têm mostrado efetivas. A ressecção gástrica parcial associada à gastrojejunoanastomose em "Y" de Roux parece alcançar melhores resultados, embora estes sejam muito aquém dos desejados. A jejunostomia tem-se mostrado útil em alguns casos na tentativa de garantir bom aporte nutricional para aqueles casos em que o tratamento clínico fracassou50.

 

CONCLUSÃO

Apesar dos avanços na compreensão de sua fisiopatologia, a gastroparesia diabética ainda se constitui num problema de difícil abordagem clínica, com sucesso terapêutico limitado. A dificuldade é ainda maior devido à ausência de uma nítida correlação entre os sintomas e os achados obtidos dos exames subsidiários. Para uma interpretação correta dos testes de esvaziamento gástrico, é importante afastarmos outras possíveis etiologias do processo (tabela). Uma avaliação precisa do caso dependerá de um bom controle glicêmico e dados de anamnese que indiquem uso de medicação que altere a motilidade gástrica6.

O rigoroso controle glicêmico, ao lado de medidas dietéticas, constitui o ponto de partida na terapêutica da GPD. O uso de agentes pró-cinéticos estará indicado nos pacientes que, após terem atingido um bom controle metabólico, evidenciarem clínica de retardo no esvaziamento gástrico.

 

AGRADECIMENTO

Os autores agradecem o professor L. Chehter, da Disciplina de Gastroenterologia Clínica da Escola Paulista de Medicina, pelas sua colaboração na execução deste artigo.

 

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