SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.2 issue3The end of cognition? Science and technology studies challenge the concept of the cognising agentL'etude de cas: un dialogue entre histoire sociale et biographie medicale author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


História, Ciências, Saúde-Manguinhos

Print version ISSN 0104-5970On-line version ISSN 1678-4758

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.2 no.3 Rio de Janeiro Nov./Feb. 1996

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59701996000400007 

FONTES

 

As 'Conferências Populares da Glória': a divulgação do saber científico

 

People's Conferences in the neighborhood of Gloria: disseminating scientific knowledge

 

 

Maria Rachel Fróes da Fonseca

Pesquisadora da Casa de Oswaldo Cruz Professora de História da PUC-RJ

 

 

A documentação relevante para o desenvolvimento de estudos na área da história das ciências biomédicas no Brasil é bastante diversa, incluindo os documentos relativos à história das instituições (de ensino e de pesquisa), à legislação específica, à formação dos profissionais e à própria produção científica (teses, livros, artigos, relatórios de viagens e de pesquisa). No desenvolvimento de um projeto sobre a institucionalização da medicina no Brasil, realizado no Departamento de Pesquisa da Casa de Oswaldo Cruz, constatamos a existência de algumas lacunas documentais nos acervos disponíveis, notadamente no que se refere à divulgação científica, em diferentes espaços. É nesta perspectiva que apresentamos as 'Conferências Populares da Glória' como um importante acervo documental, que reflete a divulgação do saber científico em um espaço não-institucional.

As 'Conferências Populares da Glória', assim denominadas por se realizarem em escolas públicas localizadas na Freguesia da Glória, no Município da Corte, iniciaram-se em 23 de novembro de 1873 sob a iniciativa e coordenação do conselheiro Manoel Francisco Correia, senador do Império. A identificação da escola pública que sediou estas conferências não é uma questão totalmente esclarecida, porém as referências indicam que, inicialmente, estas realizaram-se em uma das escolas públicas da Glória (na época haviam seis escolas em ruas que atualmente pertencem aos bairros do Flamengo e da Glória), posteriormente, na Escola São José (de janeiro a maio de 1875) e, finalmente, em um prédio construído para tal fim (as indicações sugerem a atual Escola Amaro Cavalcanti, no Largo do Machado, construída entre 1874 e 1875). Transcorriam, inicialmente, nas manhãs de domingo (posteriormente estendidas para dois dias semanais), e eram rotineiramente anunciadas antecipadamente nos mais importantes jornais da época (Jornal do Commercio, Gazeta de Notícias e Diário do Rio de Janeiro).

Muitas conferências foram publicadas conjuntamente, em 1876, sob a forma de uma publicação, de curta existência, igualmente intitulada Conferências Populares da Glória. Paralelamente a esta iniciativa, também costumava-se publicar um resumo da maioria das conferências nos jornais citados, alguns dias após a sua realização. Ao lado disso, muitas destas conferências foram reproduzidas em obras biográficas ou antológicas da época. Dessa forma, tornava-se imprescindível a realização de um extenso levantamento, buscando localizar os registros destas conferências (sob a forma integral de seu conteúdo, sob a forma de resumo ou de aviso) nas fontes referidas.

De acordo com seu criador, o conselheiro Correia, as conferências deveriam ser franqueadas a todos, tendo em vista o seu principal objetivo, isto é, a instrução do povo. No entanto, através de relatos da época, constatamos que a sua platéia era constituída por um seleto público, sendo notada a presença da família imperial, da aristocracia da corte, de profissionais liberais e estudantes.

Sua função primordial era, segundo seu criador, a de se tornar um meio para despertar o espírito para os mais diversos assuntos, excetuando-se as "paixões políticas", "as abordagens relativas à divisão de crenças e princípios" (Correia, 1873). Acreditavam os protagonistas das conferências que, através da ilustração do país, da divulgação da ciência e da cultura, a nação poderia ser transformada. Para seus mentores, sua relevância decorria também do fato de existirem congêneres em países europeus, onde autores como Laboulaye, Guizot e Cousin refletiam sobre o significado de tais realizações.

Sua repercussão, no próprio país, pode ser aquilatada pelo surgimento, na época, de uma verdadeira disputa pelo pioneirismo de sua realização, contrapondo as conferências coordenadas por Cunha Leitão no Sergipe às do conselheiro Correia na Corte (Moura, 1874).

O temário abordado pelos conferencistas incluía um conjunto amplo e eclético de conhecimentos, desde temas essencialmente culturais (literatura, teatro, história das civilizações, educação) até as temáticas intrínsecas ao conhecimento das diversas ciências (matemática, biologia, medicina, botânica, ciências físicas...). As epidemias, o papel das condições atmosféricas na incidência de enfermidades, as diversas terapêuticas, a questão do contágio, entre outros assuntos médicos, mereceram, reiteradas vezes, a atenção de expoentes da medicina que se apresentavam naquele espaço.

A tribuna da Glória, como ficou conhecido este espaço, foi se transformando, ao longo do século XIX, no verdadeiro palco das polêmicas sobre a liberdade do ensino, sobre a criação de universidades, sobre as diversas doutrinas científicas (contagionistas versus anticontagionistas...). Nesta direção, podemos apontar como seu grande momento o ano de 1880, quando um grupo de professores e alunos da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, liderados pelo prof. Francisco Praxedes de Andrade Pertence, ocupou este espaço para expor a precariedade do ensino médico praticado no país. Andrade Pertence e os demais professores denunciavam fundamentalmente o estado de penúria (desaparelhamento dos gabinetes, falta de laboratórios, inexistência de uma sede própria) das instituições de ensino médico, e a inadequação do ensino (ensino teórico excessivo, incipiente desenvolvimento da medicina experimental). Estas reivindicações, que já haviam sido formuladas em outras instâncias, porém sem resultados, conseguiram nesta tribuna a repercussão necessária, a ponto de influir positivamente no processo de reforma daquela instituição. O conde Afonso Celso de A. Figueiredo, um dos assíduos palestrantes, procurou, perante uma comissão do Senado, sinalizar o impacto destas conferências: "...homens distintos por seu patriotismo e ilustração demonstravam, em conferências públicas, a urgente necessidade de colocar-se aquela escola na altura em que hoje se acha, quer sob o ponto de vista material, quer sob o das lições teóricas e práticas, para que pudesse preencher os fins de sua instituição." (Figueiredo, 1883).

As 'Conferências Populares da Glória', segundo os registros acessíveis, ocorreram até 1889, quando foram interrompidas, sendo retomadas em 1891, sob a direção do conselheiro João Manuel Pereira da Silva, por ocasião do 4º Centenário do Descobrimento da América. Entendemos, entretanto, que o período de 1873 a 1880 foi o mais representativo, durante o qual contaram com a participação dos mais importantes expoentes das ciências biomédicas no país, como Andrade Pertence, Kossuth Vinelli, Silva Araújo, Cipriano de Freitas, Monteiro Caminhoá, Miranda de Azevedo, Bento Gonçalves Cruz, Cruz Jobim, Feliciano Bittencourt, João Martins Teixeira e Nuno de Andrade. As palestras destes 'científicos' objetivavam a divulgação dos conhecimentos científicos, e a conscientização do poder das idéias e da ciência no aperfeiçoamento da sociedade.

Neste levantamento apresentaremos uma listagem de todas as conferências realizadas no período privilegiado, indicando a data de ocorrência, o número correspondente, o autor, o título e as fontes que as reproduziram. As fontes principais são os periódicos da época (Jornal do Commercio, Diário do Rio de Janeiro, Gazeta de Notícias e Conferências Populares), que anunciavam sua realização (aviso) e as reproduziam na íntegra ou sob a forma de resumo. Por outro lado, indicamos também algumas obras ou coletâneas de trabalhos de conferencistas que apresentaram o conteúdo integral ou parcial de algumas conferências.

 













 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

Correia, Francisco Manoel 1873 'Ensino primário obrigatório'. Conferências Populares nº 1. Rio de Janeiro, 23 de novembro.         [ Links ]

Figueiredo, Afonso Celso de Assis 1883 Discursos sobre a reforma das faculdades de medicina proferidos do Senado em diversas sessões de 1882 pelo cons. Afonso Celso e Pedro Leão Velloso. Rio Janeiro, Tip. Nacional.        [ Links ]

Moura, Francisco 1874 As Conferências Populares do Brasil (iniciativa do Sr. Cunha Leitão). Rio de Janeiro, Tip. Pinheiro & C.         [ Links ]

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License