Resumo
Este artigo recupera o discurso veiculado pela imprensa escrita, em jornais de grande circulação do Rio de Janeiro e de São Paulo, sobre a acupuntura e o processo de sua legitimação, institucionalização e legalização no Brasil. Traz uma análise sociológica do tema, em três conjunturas: a primeira delas é a da década de 1970; a segunda, da década de 1980, e a terceira situa-se na primeira metade da década de 1990.
acupuntura; legitimação; institucionalização; legalização; Brasil
Abstract
Based on articles from major newspapers in Rio de Janeiro and São Paulo, the text examines the written press’s discourse on acupuncture and the process of its legitimization, institutionalization, and legalization in Brazil. The topic is analyzed from a sociological perspective, focusing on three different periods: the 1970s, the 1980s, and the first half of the 1990s.
acupuncture; legitimization; institutionalization; legalization
De panacéia mística
a especialidade
médica: a
acupuntura na
visão da imprensa
escrita
From mystical
panacea to medical
specialization:
acupuncture as
portrayed by the
written press
Marilene Cabral do Nascimento
Socióloga, pesquisadora com financiamento da Faperj,
no Instituto de Medicina Social da Universidade do
Estado do Rio de Janeiro (IMS/UERJ).
Rua São Francisco Xavier, 524/7°
20550-013 Rio de Janeiro RJ Brasil
NASCIMENTO, M. C. do: De panacéia mística a especialidade médica: a acupuntura na visão da imprensa escrita.
História, Ciências, Saúde Manguinhos,
V(1): 99-113 mar.-jun. 1998.
Este artigo recupera o discurso veiculado pela imprensa escrita, em jornais de grande circulação do Rio de Janeiro e de São Paulo, sobre a acupuntura e o processo de sua legitimação, institucionalização e legalização no Brasil. Traz uma análise sociológica do tema, em três conjunturas: a primeira delas é a da década de 1970; a segunda, da década de 1980, e a terceira situa-se na primeira metade da década de 1990.
PALAVRAS-CHAVE: acupuntura, legitimação, institucionalização, legalização, Brasil.
NASCIMENTO, M. C. do: From mystical panacea to medical specialization: acupuncture as portrayed by the written press. História, Ciências, Saúde Manguinhos,
V(1): 99-113 Mar.-Jun. 1998.
Based on articles from major newspapers in Rio de Janeiro and São Paulo, the text examines the written presss discourse on acupuncture and the process of its legitimization, institutionalization, and legalization in Brazil. The topic is analyzed from a sociological perspective, focusing on three different periods: the 1970s, the 1980s, and the first half of the 1990s.
Keywords: acupuncture, legitimization, institutionalization, legalization.
1 Do Rio de Janeiro: Jornal do Brasil (21 reportagens), O Globo (vinte) e O Dia (três); de São Paulo: O Estado de S. Paulo (nove reportagens); Folha de S. Paulo (16) e Última Hora (uma).
2 Isto explica, parcialmente, a expressiva predominância de reportagens sobre acupuntura em jornais destinados ao público de condições sócio-econômicas e culturais privilegiadas (Jornal do Brasil, O Globo, Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo).
3Última Hora, 16.1.1976; Folha de S. Paulo, 13.4.1977; O Estado de S. Paulo, 1.9.1977; O Globo, 6.11.1978; e Jornal do Brasil, 23.1.1979.
4Jornal do Brasil, 19.5.1980, 19.2.1981, 7.3.1983, 26.6.1984, 8.11.1986, 3.12.1988; O Globo, 22.11.1981, 1.7.1984, 8.7.1984, 17.7.1984, 29.7.1984, 9.11.1986, 13.11.1987; Folha de S. Paulo, 8.7.1984, 7.11.1986, 8.11.1987; e O Estado de S. Paulo, 13.5.1981.
5 Ver, entre outros trabalhos, os de Viana (1995), e Viana, Queiroz e Ibanez (1994).
6 Parecer do Conselho Federal de Medicina n° 22/92, aprovado em 14.8.1992.
7 Ver Luz (1979), em que encontramos inspiração para o modelo de análise aqui desenvolvido.
8 Sobre esse tema ver, por exemplo, O Estado de S. Paulo, 31.3.1974, 20.12.1975, 15.5.1994; Folha de S. Paulo, 26.5.1976, 8.5.1977, 2.11.1986, 8.11.1987, 19.9.1994; e Jornal do Brasil, 25.2.1996.
9 Impresso intitulado O absurdo projeto do técnico em acupuntura, distribuído pela SMBA a seus associados, em reação ao projeto de lei 67/95, em que se previa a regulamentação da profissão de técnico em acupuntura. Embora este não seja um material extraído dos jornais, consideramos importante citá-lo, por introduzir informações que nos permitem avançar na análise.
10 Ver Santos em Machado (1995), em que nos baseamos nesta argumentação.
Introdução
Nosso objetivo é apresentar a visão veiculada pela imprensa escrita, em jornais de grande circulação do Rio de Janeiro e de São Paulo, sobre a acupuntura e o processo de sua legitimação, institucionalização e regulamentação no Brasil, nas duas últimas décadas. Além disso, nos propomos a analisar este processo, a partir da visão da imprensa, e através de uma abordagem sociológica, principalmente de natureza político-institucional e sócio-econômica, embora também consideremos alguns aspectos históricos e culturais da questão.
A década de 1970 e a construção da legitimidade da acupuntura
O interesse por outros sistemas médicos e práticas terapêuticas pode ser localizado, em sua fase inicial, no desdobramento dos movimentos de contracultura, originados em especial nos Estados Unidos e países da Europa, principalmente a partir da década de 1960. De tendência naturista e antitecnológica, esses movimentos seduziram segmentos da população jovem e intelectual, que passaram a valorizar aspectos culturais do Oriente, principalmente da Índia e da China. Estes sistemas terapêuticos e práticas de medicação e cuidado "defendiam formas simplificadas e não- invasivas no tratamento de doenças, o consumo de medicamentos oriundos de produtos naturais (não químicos) e uma proposta ativa de promoção da saúde (distinta do preventivismo médico), ao invés da postura de combate às doenças, característica da medicina científica" (Luz, 1995b).
A década de 1980: legitimação e institucionalização
A década de 1990 e o acirramento da polêmica entre médicos e não-médicos
O tema mais recorrente nas reportagens sobre a acupuntura publicadas neste período foi a disputa em torno do direito ao seu exercício. Crescia o debate no sentido da obtenção de uma legislação capaz de configurar a profissão no país, garantindo o monopólio da acupuntura a um grupo delimitado e excluindo do mercado os irregulares.
A década de 1990 se iniciou com uma agudização da conjuntura econômica e fiscal no país, e uma profunda crise financeira em todos os níveis do setor público. Houve declínio no financiamento público do setor de saúde e o recrudescimento das forças políticas conservadoras e clientelistas. Ao mesmo tempo, o processo de municipalização dos serviços de saúde, parte da implementação do Sistema Único de Saúde (SUS), veio acompanhado de uma progressiva diminuição do espaço de atuação dos outros níveis de governo, propiciando cada vez mais a construção de acordos e soluções locais.
No início da década, os jornais informavam sobre a tentativa de regulamentar a acupuntura em São Paulo. A iniciativa foi do Centro de Vigilância Sanitária (CVS), da Secretaria Estadual de Saúde (SES) de São Paulo, face à necessidade de conceder o "alvará de funcionamento a clínicas e consultórios" (Jornal do Brasil, 5.8.1990) e normatizar "a atividade de 2.500 acupunturistas existentes no estado" (Folha de S. Paulo, 20.8.1990). No entanto, ainda na fase de formação do grupo de trabalho, o Conselho Regional de Medicina (CRM) levantou resistências à iniciativa do CVS, negando-se a comparecer às reuniões promovidas pela SES.
De forma similar ao projeto Inamps, a proposta desenvolvida no CVS, com o apoio das entidades de acupuntores do estado e de vários conselhos de profissionais de saúde, não restringiu a prática da acupuntura aos médicos, e foi igualmente engavetada. Mais uma vez a resistência da corporação médica se interpôs a um projeto capaz de promover a acupuntura, enquanto atividade social e prática terapêutica.
No argumento contrário à formação e à prática de profissionais não-médicos se acrescentou o risco de mascaramento de doenças graves em virtude da ausência de diagnóstico adequado. A resposta para o risco de contaminação de doenças poderia passar por uma solução exterior à ação médica, através de uma norma que determinasse a esterilização ou o uso de agulhas descartáveis. O risco de perfuração de órgãos se reduziria ao mínimo se no currículo de formação do acupuntor houvesse conteúdo suficiente de anatomia. A questão do diagnóstico, por sua vez, pelo menos na medicina ocidental contemporânea, é uma ação exclusivamente médica. Por outro lado, os que defendiam os profissionais não-médicos denunciavam a tentativa de elitizar a acupuntura, tanto na prática como no uso, e enfatizavam a inocuidade de sua ação terapêutica.
Cerca de dois anos mais tarde, em fins de 1992, um outro projeto era anunciado, dessa vez por iniciativa e no interior de um grupo médico, a Associação Paulista de Medicina (APM). A proposta era discutir a acupuntura do "ponto de vista neurofisiológico" (Folha de S. Paulo, 19.11.1992), buscando-se uma possível correlação entre pontos de acupuntura e aspectos anatômicos e fisiológicos do sistema nervoso. Em outros termos, procurava-se uma tradução da acupuntura para a linguagem científica.
Os argumentos dos médicos que votaram contra o projeto da APM eram a ausência de cientificidade da técnica e a identificação de sua ação ao chamado efeito placebo. Embora minoritária no caso da APM, a resistência médica à acupuntura continuava considerável. Mas crescia, dentro da categoria médica em geral, a tendência a incorporá-la como uma técnica dentro da lógica e do arsenal terapêutico da medicina ocidental contemporânea. Mais do que isto, inclinava-se a uma apropriação mecânica de aspectos terapêuticos da acupuntura, dentro da lógica médica convencional. Havia uma propensão a não se considerar suficientemente o sistema coerente e integrado de que se origina e faz parte a acupuntura, ou seja, um sistema médico em que homem e natureza são integrados numa perspectiva de macro e microuniversos, e o sujeito humano é entendido em sua integralidade, incluindo-se aí seus aspectos psicobiológicos, sociais e espirituais: "A acupuntura uma técnica milenar chinesa começa a ser desvendada pela ciência moderna ... . Conceitos vagos e pouco científicos ... estão sendo substituídos por explicações anatômicas e fisiológicas" (idem, 19.9.1994).
A acupuntura na visão da imprensa escrita
A leitura comparativa dos jornais nas três conjunturas 1974-79, 1980-89 e 1990-95 mostrou certa coerência e revelou um mesmo grupo de temáticas no tratamento do noticiário sobre a acupuntura.
Comprovação científica e eficácia terapêutica
A visão da imprensa nos sugere a existência de um eixo explicativo para a crescente aceitação da acupuntura, onde esta transita entre a crendice e o charlatanismo, de um lado, e como portadora de um possível status científico, de outro. No entanto, as posições que a acupuntura vem alcançando ao longo deste eixo, embora exerçam uma importante influência, não parecem estar determinando sua crescente percepção como uma abordagem legítima face ao adoecimento.
A disputa pelo estabelecimento do monopólio
Todos argumentam contrariamente à prática dos chamados charlatães. Mas, além daqueles que apenas dispõem de um mínimo ou nenhum treinamento formal, quais são os segmentos a serem enquadrados neste estigma? A questão está centrada em torno da definição de quais segmentos serão considerados aptos à formação e ao exercício legal da acupuntura, ou seja, do estabelecimento das bases do monopólio, se amplas ou restritas.
São basicamente três as propostas relativas à formação específica para a qualificação do acupunturista. A mais abrangente prevê cursos em níveis médio, superior e de pós-graduação; no último caso, para alunos com prévia graduação na área de saúde; os profissionais de nível médio seriam considerados técnicos e exerceriam a função sob orientação de acupunturistas com formação superior. A segunda proposta restringe a formação ao nível de pós-graduação e aos profissionais graduados na área de saúde. Por fim, há a proposta de que apenas os médicos sejam considerados aptos para a formação em acupuntura.
É interessante observar que a corporação médica não representa a totalidade da categoria médica, mas apenas seus segmentos politicamente hegemônicos. No caso da acupuntura, há hipóteses que apontam a existência de um amplo segmento entre os médicos que permanece resistente a sua aceitação, continuando a entender seus resultados como efeito psicológico. Da mesma forma, encontramos referência a uma significativa parcela de médicos que discorda da proposta de monopolizar esta prática.
As incertezas de um novo ciclo
O aumento da procura por modalidades de tratamento não- convencionais, assim como o crescimento da busca por formação para a prática dessas terapias, podem indicar uma ativa resistência social ao monopólio médico.
Estudos e pesquisas têm mostrado que mesmo após as grandes conquistas e o amplo prestígio alcançado pela medicina ocidental contemporânea no decorrer deste século, a crescente busca por outras abordagens terapêuticas, mais humanas e integradoras, estaria diretamente relacionada ao atual "desgaste do crédito social da medicina oficial" (Coelho, op. cit., p. 62): um crescente desconforto com suas práticas terapêuticas, especialmente por seus aspectos invasivos e iatrogênicos; insatisfação com seus resultados e descrença em suas promessas, freqüente entre os portadores de doenças crônicas, para não falar dos custos dos serviços médicos.
A tentativa de acomodar as práticas complementares de atenção à saúde dentro do paradigma biomédico revela, a nosso ver, uma dificuldade epistemológica deste em se confrontar com outras formas de conhecimento, integrantes de uma lógica estranha ao saber dominante. Trata-se também, como observamos anteriormente, de uma estratégia que visa, entre outras coisas, evitar a concorrência entre sistemas médicos distintos e preservar a autoridade cultural da medicina convencional e o monopólio médico, submetendo e controlando aquelas práticas que alcançam significativa aceitação social. Assim aconteceu com a homeopatia e assim se tenta proceder face à acupuntura e à medicina chinesa.
As raízes da medicina tradicional chinesa mergulham em uma cosmologia de fundo nitidamente religioso, cosmologia que integra homem e natureza, e que postula a integralidade do sujeito humano como constituída de aspectos psicobiológicos, sociais e espirituais. Trata-se de uma dupla integração, entre natureza e homem, e, no interior do homem, entre os múltiplos aspectos de sua existência (Luz, 1995b). Suas práticas se baseiam em um conhecimento autônomo e independente daquele que é próprio da medicina ocidental contemporânea. O que não significa que tais práticas tenham que ser necessariamente substitutivas ou mesmo competitivas. Pelo contrário, o ideal que as medicinas não-convencionais trazem é o de complementar a atenção à saúde da população.
A sociedade contemporânea defronta-se hoje com o desafio de submeter à crítica as condições trazidas pela nova dinâmica social, buscando avaliar sua pertinência e eficácia face à solidariedade social e ao movimento de construção de um modelo de atenção à saúde que atenda às premissas de resgate de cidadania. Este modelo, antes de qualquer coisa, deve estar comprometido com o desenvolvimento da relação com a saúde, no sentido de restabelecer, promover e ampliar a vitalidade do ser, a partir de uma interação mais harmoniosa com o meio ambiente e o meio social. Estes parecem ser alguns dos critérios fundamentais, capazes de nos guiar na avaliação das mudanças que se apresentam e de possibilitar uma abordagem criativa no sentido de superar os entraves ao avanço da construção de um novo modelo.
Recebido para publicação em fevereiro de 1998.
Referências bibliográficas
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