services
História, Ciências, Saúde-Manguinhos
Print version ISSN 0104-5970
Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.6 no.2 Rio de Janeiro July/Oct. 1999
doi: 10.1590/S0104-59701999000300002
|
Corpos ultrajados: quando a medicina e a caricatura se encontram Bodies scorned: when medicine and caricature meet
Myriam Bahia Lopes Doutora em História pela Universidade Paris 7
|
|
| Breve introdução à caricatura A caricatura ganha esse nome, no prefácio de Mosini (1646), preparado para a edição dos desenhos do italiano Carrache, sobre o tema dos ambulantes e dos refrões publicitários. A hierarquia das artes plásticas A temática da caricatura, para ilustrarmos com um exemplo, aproxima-se da pintura holandesa (Alpers, 1990), ou dos quadros que Frans van Mieris pinta das cenas do cotidiano (Figura 1).
Os caricaturistas, por volta de 1840 (Riout, s. d.), satirizam as regras do mundo artístico, criando os salões de caricatura. O grande porte da pintura histórica e o tamanho dos monumentos históricos tornam-se fontes de humor. Os caricaturistas exploram a polarização do grande e do pequeno e elaboram uma reflexão sobre os materiais empregados e a morfologia da grande arte, que tem, por suporte, telas enormes, ricamente enquadradas, de difícil transporte, conservadas por colecionadores ou reunidas em museus, de preferência ao abrigo dos efeitos destruidores do tempo.
Nesse período, os críticos de arte identificam a renovação do estilo gótico como responsável pela produção de uma poluição visual na arquitetura.4 A atualidade e a história Ao longo dos anos, a medicina vem fornecendo temas que integram a tradição cômica. Rabelais6 e Molière são dois de seus grandes exemplos. A rica produção de caricaturas sobre a medicina forma um ramo da produção de desenhos humorísticos (Desprez, 1994).
No comentário sobre a epidemia, contido na legenda, a morte anda de automóvel, enquanto o Brasil anda de carro de boi: na corrida técnica, a ciência de Jenner é vencida pela velocidade da morte.
O autor poderia ter composto a palavra da seguinte forma: in, prefixo de negação mais o radical mort e o sufixo vel, mas optou pela sonoridade da palavra imorrível. A legenda da caricatura faz uma alusão crítica à entrada do dr. Oswaldo Cruz na Academia Brasileira de Letras (ABL). Às críticas lançadas contra o homem das letras, dr. Oswaldo Cruz, segue-se um jogo de palavras. Se alterarmos a ordem de composição da frase da legenda, reforçaremos a ironia do caricaturista, que sugere termos um débito para com o dr. Oswaldo Cruz. As caricaturas de Oswaldo Cruz As caricaturas sobre o dr. Oswaldo Cruz são abundantes na imprensa da época. Freqüentemente, para retratar um homem público, os desenhistas fazem alusão a algum figurante da galeria dos grandes personagens da história. Se, à primeira vista, a alusão conserva a autoridade da eminência, observamos, em seguida, que ela desvaloriza o homem público ao colocá-lo numa situação ridícula. A astúcia do caricaturista se faz presente, ainda, quando desdobra os pontos de visibilidade. No desenho reproduzido a seguir, Oswaldo Cruz torna-se o Nero da Higiene. Do personagem histórico, o caricaturista expõe um ponto de identidade com o dr. Oswaldo Cruz: a crueldade. A cena histórica aludida no desenho é o incêndio provocado por Nero em Roma. O desenhista Cícero Valadares transpõe o personagem conhecido da história, Nero, para um contexto familiar ao leitor, provocando a sensação de estranheza e o riso.
O próximo exemplo (Figura 6) é uma demonstração da ironia provocada pela justaposição dos personagens. A caricatura de Kalixto intitula-se O Luís XIV da seringação. Relendo o nome de Luís XIV, identificamos uma mot-valise produzida pela adição das palavras sering(a) e ação. A legenda da caricatura exprime um trocadilho de frases homônimas, em francês: Létat cest moi O Estado sou eu e "Le tas cest" "Essa bagunça sou eu". "Le tas" faz alusão ao conjunto de peças de vestimentas provenientes de diferentes épocas, que compõem o traje do representado: a gola pregueada, o colarinho plissado e engomado, típico das roupas de homens e mulheres no século XVI e início do século XVII, o traje à Henrique III e, nos pés, sapatos medievais. Para completar, o Luís XIV da seringação apresenta-se sem calças.
No exemplo da Figura 7, Raul explora o humor negro, representando o dr. Oswaldo Cruz no papel de Herodes. O desenho está assinado por Bambino, pseudônimo do caricaturista Artur Lucas, criador de tipos populares que, mais tarde, viriam a ser adaptados para o teatro, como Sô Lotero e Nhá Ofrásia. Artur Lucas chegou a ilustrar uma edição brasileira do conhecido romance policial Sherlock Holmes, surgido em 1911 e escrito por Conan Doyle, com o pseudônimo de W. Taylor.
O caricaturista produz forte tensão a partir da identidade dos representados. Nesse desenho, a identificação do dr. Oswaldo Cruz com Herodes é feita por meio dos elementos do vestuário de ambos os personagens. A coroa de Herodes Cruz possui uma forma que nos lembra as coroas dos condes, porém, no desenho, o acabamento da coroa é composto por pequenas seringas que, nesse contexto, representam o emblema do poder. À direita, seu assistente segura uma vassoura e um boné da brigada sanitária. Vale ressaltar que a identidade dos personagens apresenta-se de forma equívoca na composição dos seus nomes: Herodes Cruz e Herodiades Higiene, que representa a morte. A tensão referente à questão da identidade é resolvida pela frase final que nos remete ao contexto intencional da caricatura; vemos, então, a crueldade do dr. Oswaldo Cruz: "Se fosse a cabeça de João Batista, seria mais histórica." O desejo de se tornar um personagem histórico exprime claramente a vaidade de Herodes Cruz. O tom apologético do discurso do dr. Oswaldo Cruz, concebido como o guia de uma missão histórica, confirma a expressão do personagem. E o leitor descobre que a cena antiga é a representação de um instante da atualidade. A lanceta Na Inglaterra, Lancet é o título de um periódico médico de grande reputação. Lanceta é o instrumento técnico utilizado para a imunização contra a varíola. O estudo etimológico dessa palavra nos fornece pistas dos possíveis caminhos de acesso à metáfora da vacinação. Lanceta é uma palavra de origem latina, tradução precisa de lanceola e diminutivo de lancea. Conseqüentemente, as palavras lance ou pique, em francês, designam a palavra lancea. Ora, tanto a lança quanto o pique são armas utilizadas para as lutas. Ao manipular a lanceta, perfura-se o tecido, varando a epiderme, como as armas o fazem.
Retomando o contexto deste artigo, perguntamo-nos: de que maneira a historiografia pode fossilizar a caricatura? Nossa hipótese é que a historiografia, ao reproduzir o sentido do acontecimento da vacinação antivariólica, tal como é apresentado por seus defensores, perde a tensão que engendra o humor. Se o caricaturista, de um lado, multiplica os pontos de vista do leitor, por outro, ele assume um olhar relativista. Diferentemente, os médicos preocupam-se tão-somente em edificar o monumento da medicina científica; fixam a imagem de uma origem que desemboca na medicina atual. A caricatura sem humor No relatório inglês sobre a vacinação antivariólica, o dr. John Simon médico inglês que foi um dos fundadores da Sociedade Epidemiológica e primeiro oficial da Saúde da cidade de Londres, participante também da Comissão Real de Vacinação em 1889-90 faz alguns comentários sobre o pano de fundo da caricatura de James Gillray.14 Cinqüenta e quatro anos depois da edição de A vacina ou os maravilhosos efeitos da nova inoculação esta caricatura inspira o seguinte relato: E, para aqueles que ignoram a experiência de Gloucestershire, nada de bom poderia surgir de tal fonte a não ser uma estranha suposição. O medo era maior do que a esperança. O que se poderia esperar de um humor bestial, a não ser o risco de novas e terríveis doenças? Quem poderia supor os limites de suas conseqüências, físicas ou morais? Que segurança temos contra chifres nascendo nos vacinados? (Comitê Geral de Saúde, 1857, p. xvii) E John Simon sentencia: "os que não se remetem à origem, quer dizer, ao espetacular lançamento da vacinação antivariólica feito por Jenner, não têm direito à palavra. Aqueles que não escutam a história são pessoas degradadas, cegas pelas superstições."
Alguns efeitos da caricatura Em nossa tese (Lopes, 1997, cap. IV), interpretamos o trabalho desenvolvido pelos antivacinadores como um movimento importante de formação da opinião pública para a qual a ilustração exerce um papel fundamental. Uma outra causa é a caricatura contra a vacinação, na qual esta é apresentada como fonte causadora de uma variedade de novas e terríveis doenças, de aparência monstruosa e aterrorizante. Algumas dessas representações foram impressas de forma a alarmar os pais e desencadear a apreensão das pessoas desinformadas. As publicações com estas representações tiveram grande circulação e, embora tenham surgido da total ignorância ou de concepções deliberadamente inexatas, contribuíram para aumentar a desconfiança de muitas pessoas em relação ao processo de vacinação, especialmente entre as classes menos favorecidas. Entretanto, não se pode atribuir a isso nenhum efeito permanente em relação ao retardamento do progresso da vacinação, pois, à medida que o público analisá-la friamente e sem surpresa, o medo cairá no esquecimento (Câmara dos Comuns, 8.7.1807, op. cit., pp. 6-9) Os médicos ocupam-se em desmentir o conteúdo da caricatura ao mesmo tempo que desqualificam seus leitores. Como aceitar que essa linguagem seja mais eficiente junto ao público do que a dos próprios médicos? |
NOTAS
1 Alguns dados sobre o circuito das publicações no Rio de Janeiro, a partir do Almanaque Laemmert (1844-75):
| Ano | Livrarias | Antiquários | Oficinas de tipograf |
| 1844 | 10 | | 12 |
| 1875 | 21 | 8 | 50 |
2 Daumier (1808-79) nasceu em Marselha, mas viveu em Paris, onde trabalhou.
3 José Carlos de Brito Cunha, J. Carlos (1884-1950) produz algumas caricaturas para os periódicos ilustrados: O Tagarela (1902-03); Avenida (1903-04); Século XX; Leitura para Todos; Tico-Tico; Fon Fon entre outras.
4 Bouhours (p. 399, apud Stafford 1991, p. 232), no seu Manière de bien penser. Sobre outras referências ao gótico, ver Baltrusaitis (1983, pp. 90-113).
5 Pedro Américo de Figueiredo e Mello (1843-1905) nasceu em Areia, Paraíba, e morreu em Florença, Itália, em 1905. Aos dez anos de idade, seguiu o naturalista Louis Jacques Brunet. Doutor em ciências físicas pela Universidade de Bruxelas, dedicou-se a cursos de filosofia e literatura em Paris, onde esteve para uma temporada artística. Ingres, Flandrin e Horace Vernet são alguns dos pintores que ele apreciava. Escreveu um livro intitulado Refutação à vida de Jesus de Renan. Entre seus quadros, encontramos A Batalha dí Avao, O Grito do Ipiranga, Judite e Holofernes, Rabequista árabe. Seu retrato encontra-se na Galeria dos Ofícios, em Florença. De volta ao Brasil, tornou-se professor na Academia Imperial de Belas-Artes, inicialmente como responsável pelo curso de desenho e, mais tarde, pelos de história da arte, estética e arqueologia.
6 Rabelais graduou-se em medicina, em Montpellier; Baktin (1970) nos mostra como a obra de Hipócrates influencia tanto as suas concepções filosóficas e médicas, como seu estilo e o tipo de imagens que ele usa.
7 Esse álbum, objeto de uma edição fac-símile (Falcão, 1972), encontra-se no Museu da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
8 A palavra lira, em português, tem duplo sentido: tanto pode ser uma pequena orquestra, como as cantigas populares. A expressão pessoal da lira aparece, igualmente, em outras legendas da época, nesta última acepção.
9 O caricaturista Pinheiro Guimarães (J. Mill) produz um interessante auto-retrato publicado no Bazar Volante (20.10.1865). Deslizando o olhar sobre as linhas do seu bigode, que o artista alongou para formar sua metáfora, encontramos, de um lado, uma fada e, de outro, um diabo.
10 Para Rodolphe Topffer, suíço nascido em Genebra, um dos princípios da estória em quadrinhos é fixar um ponto e fazer dele um sinal permanente da expressão. Este ponto torna-se a chave para a identificação do personagem dando unidade uma série narrativa (Groensteen, 1994).
11 Quase um ano após a revolta, Gil elabora a estória em quadrinhos Aventuras fantásticas de um grande caçador, publicada nas edições de O Malho, dos dias 4 e 18 de novembro e 2 de dezembro de 1905.
12 No Brasil, originalmente, o canivete foi uma arma utilizada pelos capoeiras, praticantes de uma tradição africana, a qual se apresenta ora sob a forma de dança, ora de luta, com ritmos muito característicos, marcados por movimentos corporais amplos, que desafiam a força da gravidade. Em certas ocasiões, os dançarinos escondiam seus canivetes de forma a surpreender seus adversários em um ataque. De origem africana, a capoeira foi proibida no Brasil. (A capoeira era considerada crime nos artigos 402-404 do Código Penal de 1890.) Os negros, então, introduziriam algumas pantomimas, possibilitando dissimular a luta, para conquistar o direito de praticá-la. O nome capoeira designa, também, os empregados do corpo policial extra-oficial que, à época, faziam justiça pelas próprias mãos, segundo as ordens de seus mandatários. Em 1904, por ocasião da repressão da revolta contra a vacinação antivariólica obrigatória no Rio de Janeiro, a polícia saiu à caça dos capoeiras que circulavam entre os bairros mais populares. Um ano mais tarde, a dança ganhou projeção e tornou-se conhecida do grande público através de uma produção cinematográfica, exibida no Teatro Lírico do Rio de Janeiro (Empresa Candburg, nov. 1905).
13 A variolação é a inoculação do vírus da varíola. Segundo Salomon-Bayet (1986, p. 33), a leitura desses termos nos faz relembrar a história das técnicas de imunização. Assim, temos variolização, jennerização e vacinação, três termos que pontuam, na história das ciências, um tempo que vai da prevenção empírica de uma doença a varíola ou, em francês, também chamada de petite vérole , à teoria microbiana das doenças infecciosas, ao conhecimento de seus agentes e à fundamentação de uma nova disciplina, a imunologia.
14 James Gillray (1765-1815) foi caricaturista, pintor e gravurista, considerado pela crítica o primeiro caricaturista profissional da Inglaterra.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Alpers, S. 1990 Lart de dépeindre. Paris, Gallimard. [ Links ]
Baktin, M. 1987 A obra de François Rabelais e a cultura popular da Idade Média e da Renascença. São Paulo, Hucitec. [ Links ]
Baltrusaitis, J. 1983 Le roman de larchitecture gothique. Em Aberrations. Paris, Flammarion. [ Links ]
Bergson, H. 1989 Le rire. Paris, PUF. [ Links ]
Dagognet, F. 1982 Faces, surfaces, interfaces. Paris, Vrin. [ Links ]
Desprez, J. L. 1994 La chimère du Monsieur Desprez. Paris, Museu do Louvre, Exposição de 11.2 a 2.5. [ Links ]
Falcão, Cruz O. 1972 Álbum de recortes de jornais. Rio de Janeiro, Biblioteca da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz. [ Links ]
Falcão, Edgard de Cerqueira 1972 Oswaldo Cruz monumenta histórica. A incompreensão de uma época. Oswaldo Cruz e a caricatura. São Paulo, Brasiliense. Coleção Monumenta Histórica, vol. VI, t. I. [ Links ]
General Board of Health 1857 Papers relating to the history of vaccination Londres, Câmara dos Comuns, GE Eyre. [ Links ]
Groensteen, Thierry (org.) 1994 Toepffer. Linvention de la bande dessinée Paris, Hermann.. [ Links ]
Jeudy, Henri-Pierre set. 1984 Diagonale. Traverses. Lépidémie Paris, Centre Georges Pompidou, vol. 32, p. 110. [ Links ]
Jouve, Michel 1992 Lâge dor de la caricature anglaise. Paris, Presse de la Fondation Nationale de Sciences Politiques. [ Links ]
Le Men, S. (org.) 1992 Les français peints par eux-mêmes. Paris, RMN. [ Links ]
Locke, John 1966 Quelques pensées sur léducation. Paris, Vrin. [ Links ]
Lopes, M. B. 1997 Les corps inscrits: vaccination antivariolique et biopouvoir (Londres Rio de Janeiro, 1840-1904). Tese de doutoramento, Paris, Universidade Paris 7. [ Links ]
Melot, Michel 1975 Loeil qu rit. Fribourg, Office du Livre. [ Links ]
Preiss-Basset, N. 1993 Les physiologies, un miroir en miettes. Em Segolene Le Men (org.), Les français peints par eux-mêmes. Paris, Reunion des musées nationaux, p. 67. [ Links ]
Reid 1871 Descriptive catalogue of the works of George Cruikshank Londres, British Museum. [ Links ]
Riout, D. Les salons comiques. Em Romantisme. Paris, CEDES, no 75. [ Links ]
Salomon-Bayet, C. 1986 Pasteur et la révolution pasteurienne. Paris, Payot. [ Links ]
Stafford, B. M. 1991 Body criticism. Cambridge/Londres, Massachusetts Institute of Technology [ Links ]
Recebido para publicação em março de 1997.
Aprovado em maio de 1998.










Curriculum ScienTI

Fig. 4 O Nero da Higiene



