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História, Ciências, Saúde-Manguinhos

Print version ISSN 0104-5970On-line version ISSN 1678-4758

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.6 no.2 Rio de Janeiro July/Oct. 1999

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59701999000300014 

Homeopatia como medicina do sujeito: raízes históricas, fronteiras epistemológicas

 

     A homeopatia vem crescendo como alternativa assistencial, ocupando espaços inclusive na rede pública de serviços de saúde, o que faz aumentar sobre ela a pressão para validar cientificamente sua intervenção terapêutica. Diante dessas exigências, cabe perguntar: será que a metodologia corrente dos ensaios clínicos pode ser útil às necessidades de fundamentação da prática homeopática? Deve a homeopatia procurar no mesmo tipo de racionalidade da chamada ‘alopatia’ os fundamentos da validade que vem conquistando entre as práticas de saúde? Buscando responder a tais perguntas, definiu-se como objetivo geral deste trabalho contribuir para a compreensão do saber homeopático e, portanto, de suas efetivas possibilidades e necessidades de fundamentação empírica. Foram objetivos específicos do estudo: recuperar as diversas etapas históricas de construção teórica da medicina homeopática em seus correspondentes contextos político-institucionais na Europa, América do Norte e Brasil; identificar nesse desenvolvimento as bases epistemológicas do saber homeopático e as particularidades das mesmas em relação aos saberes biomédicos em geral; e relacionar essas particularidades com os desafios e alternativas colocados hoje para sua fundamentação empírica. A metodologia utilizada baseou-se na chamada Escola Francesa de Bachelard e Canguilhem. Realizou-se uma reflexão histórico-epistemológica sobre o corpus teórico homeopático, enfocando-se os conceitos de sensibilidade, suscetibilidade e idiossincrasia, o princípio da similitude e sua relação com a patogenesia e os procedimentos de experimentação in anima nobili, diluição infinitesimal de fármacos e individualização diagnóstico-terapêutica. Como material de estudo foi utilizada bibliografia selecionada dos séculos XVIII e XIX – sobre as ciências da vida, textos médicos em geral e homeopáticos em particular, especialmente os trabalhos originais de Hahnemann. Recorreu-se também a textos técnicos, crônicas históricas e comentários de autores contemporâneos.
     Dentre as contribuições do estudo, destaca-se a profunda relação entre a teoria homeopática e as vertentes vitalistas de compreensão dos fenômenos da vida e da saúde. Conclui-se pela necessidade de superar o isolamento através de um ativo diálogo interdisciplinar. Defende-se a necessidade de reconhecer o caráter hipotético – o que não significa "não científico" – da ação terapêutica das doses infinitesimais, sugerindo-se algumas estratégias de pesquisa que podem fazer avançar esse aspecto. Aponta-se, porém, outros desafios igualmente fundamentais a serem enfrentados, como a ausência de consenso e amadurecimento filosófico sobre o que seja o ideal de saúde e, por conseguinte, de cura, próprios à homeopatia; o paradoxo terapêutico entre a busca da singularidade do doente e a restrição a um arsenal de medicamentos necessariamente limitado. Talvez, aparentemente, a homeopatia como medicina do sujeito não seja uma terapêutica adequada à lógica das sociedades industriais e informatizadas, onde tempo é dinheiro e poder. Mas, talvez, isso mesmo é que faça dela uma alternativa assistencial fundamental.

Paulo Rosenbaum
Dissertação de mestrado, 1999
Faculdade de Medicina da
Universidade de São Paulo (USP)
Av. Joana Angélica, 1620/51
01228-100
São Paulo — SP Brasil
e-mail: rosenb@netpoint.com.br

 

Estado, ciência e autonomia: da institucionalização à recuperação de Manguinhos

     Este trabalho trata das relações entre Estado, ciência e tecnologia no campo da saúde pública, a partir da análise de uma instituição, a Fundação Oswaldo Cruz. Mostro que o período de 1900 a 1937 corresponde à ascensão e ao declínio de um projeto voltado para a construção de uma ciência biomédica brasileira, em bases relativamente autônomas. Examinei, ainda, o período compreendido entre 1975 e 1979, quando este projeto foi retomado, tendo o Instituto Pasteur de Paris como modelo. A história institucional de Manguinhos parece corroborar a pertinência das noções de apogeu, ostracismo e recuperação, a partir de sua relação com o Estado. A dissertação discute os graus e limites da intervenção do Estado e da autonomia possível na instituição, além de fazer uma análise comparativa das trajetórias dos institutos Pasteur e de Manguinhos.

Sérgio Gil Marques dos Santos
Dissertação de mestrado, 1999
Instituto de Filosofia e Ciências Sociais
Programa de Pós-Graduação em História Social
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
Fundação Oswaldo Cruz/Presidência
Av. Brasil, 4365 — Pavilhão Mourisco
21045-900 Rio de Janeiro — RJ
e-mail: gsergio@netra.castelo.fiocruz.br

 

Aids, sexualidade e gênero: a lógica da proteção entre jovens de um bairro popular carioca

     Esta dissertação contribui para o esforço de problematizar o discurso da prevenção do HIV/Aids. Questiona o enfoque epidemiológico do risco e a ênfase na responsabilidade individual, destacando a importância da lógica cultural subjacente aos comportamentos. Analisa a percepção que os jovens de grupos populares urbanos têm dos cuidados em relação à saúde, em particular à transmissão do HIV. Numa abordagem antropológica, apresenta e analisa trajetórias biográficas e experiências sociais relativas a gênero e sexualidade de rapazes e moças da favela de Vigário Geral (RJ), dando ênfase às representações e práticas de auto-proteção. Mostra também que o contexto sócio-econômico, conjugado ao predomínio de valores tradicionais sobre os valores do individualismo moderno, dá um sentido específico à lógica de proteção, ao reforçar a percepção de que o familiar protege. Torna-se clara a falta de convergência entre os comportamentos adotados pelos sujeitos e o conhecimento e eventual acesso que têm aos meios de prevenção, como o preservativo. A contraposição do discurso preventivo hegemônico à lógica cultural de proteção do grupo estudado demonstra a necessidade de se elaborarem alternativas mais adequadas às singularidades materiais e simbólicas dos variados segmentos sociais.

Simone Monteiro
Tese de doutoramento, 1999
Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP)
Laboratório de Educação em Ambiente e Saúde
Depto. de Biologia/Instituto Oswaldo Cruz
Av. Brasil, 4365
21045-900 Rio de Janeiro — RJ

 

Reflexões históricas sobre a criminologia ou críticas a um conjunto teórico arrogante. O manto de silêncio sobre os trabalhadores do Rio de Janeiro — DF (1890-1930)

     A tese teve como principal objeto de pesquisa a criminologia como instrumento do Estado para referendar, politicamente, a ação cotidiana de duas instâncias hierárquicas em seu interior: a polícia e a Justiça. No desenvolvimento deste trabalho, verifica-se a presença nítida da ciência do crime, apoiada no sólido tripé medicina - psiquiatria - direito. Aí viceja a criminologia, amparada pela antropologia criminal (de que é parte integrante), e abre espaço para o desenvolvimento da Escola Positiva, moldada, principalmente, nos princípios do médico italiano Cesare Lombroso. Tentei demonstrar como essa escola, depois de fazer furor na Europa, foi calorosamente recebida nos meios policiais, jurídico-penais e até mesmo médicos do Brasil e Argentina. Por isso mesmo, procurei mostrar como a criminologia foi concebida e desenvolvida tendo em vista a necessidade de submeter a sociedade, e particularmente e os trabalhadores, a mecanismos de controle social. O movimento dos trabalhadores estava na ordem do dia e exigia toda a atenção e vigilância dos lombrosianos, mas a ‘página’ seguinte estava reservada às chamadas classes perigosas: presidiários, prostitutas, mendigos, homossexuais, alienados, epilépticos, assassinos e ladrões. Finalmente, a sociedade, quase como um todo, passava pelo crivo da vigilância que ela mesma delegara a esses teóricos. O pano de fundo deste quadro social, que se inicia em 1890 e se arrasta em tumulto até 1930, se afirma na cadência conservadora de um conjunto político em confronto com novas idéias, abertas à transformação. Nesse sentido, as práticas eugênicas desempenham um papel quase de algoz — os modernos e ‘científicos’ processos de identificação policiais (antropometria, retrato falado, impressões digitais e papilares, uso de fotografias etc.) —, a penalogia positivista que inverte totalmente a ‘defasada’ sistemática da Escola Clássica ("liberal e ingênua"), a descoberta das disposições inatas para o crime, o darwinismo social e, muitas vezes, o próprio chauvinismo que integra esse elenco. Nisso tudo, convém sempre lembrar uma das características mais notáveis da criminologia positivista: recorrer aos métodos infalíveis da ‘boa ciência’, ou seja, infalível porque científica. Ciência, aqui, são os números frios de uma estatística, não se discute; são as fotos fiéis de um álbum policial, não se duvida. E ciência é também, nessa mesma ótica, a geografia — fornecedora irrefutável de dados que comprovam o valor determinante do meio físico. Quantos passos faltariam para se aportar efetivamente no fascismo? Aliás, Enrico Ferri e Mario Carrara — apenas para citar duas grandes expressões da Escola Positiva — tornaram-se importantes quadros do partido e do Estado fascistas.

Pedro Tórtima
Tese de doutoramento em história, 1998
Universidade de São Paulo (USP)
Rua Augusto Severo, 8 10º andar
20021-040 Rio de Janeiro — RJ Brasil

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