SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.7 issue1"As the twig is bent, so is the tree inclined": children and the Liga Brasileira de Higiene Mental’s eugenic programsBiosafety: a historical focus through oral history author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


História, Ciências, Saúde-Manguinhos

Print version ISSN 0104-5970On-line version ISSN 1678-4758

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.7 no.1 Rio de Janeiro Mar./June 2000

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59702000000200008 

 

 

I M A G E N S

Só rindo da saúde

A humorous look at health care

 

     É comum ouvirmos a frase: "Rir é o melhor remédio."
     Provavelmente, Manuel José de Araújo Porto Alegre também ouviu, pois foi ele quem publicou a primeira charge na imprensa brasileira, dando início à utilização de uma das mais temidas formas de comunicação impressa.
     O humor pode até ser entendido como meio de satisfazer a necessidade de alegria. Mas, sem dúvida, ele é uma severa disciplina de pensamento, pois é dele que surge o riso que ataca os atos e defeitos do homem. Aí entra o importante papel do artista, um amante da perfeição, portanto, um eterno inconformado.
     O poder da caricatura está ligado à necessidade de satisfazer uma demanda editorial que requer comentário gráfico da atualidade.
     Algumas publicações desempenharam papel ativo na vida brasileira em fins do século passado e início do atual. Podemos citar Semana Ilustrada, Vida Fluminense, Revista da Semana, O Malho, Tagarela, Tico-tico, Careta, Fon-Fon, entre outras. Em suas páginas desfilaram grandes nomes que fizeram a história do humor no Brasil. Manuel José de Araújo Porto Alegre, Angelo Agostini, Henrique Fleiuss, Leonidas, J. Carlos, K. Lixto, Raul Pederneiras, Luiz Sá foram alguns desses artistas.
     O sanitarista Oswaldo Cruz, então diretor da Saúde Pública, foi considerado autoritário em suas medidas, pela população e pela imprensa, com as campanhas contra a varíola, a peste e a febre amarela. As revistas ilustradas não o perdoaram, fustigando-o com o traço mordaz dos chargistas.
     ‘Só rindo da saúde' é uma crítica impiedosa à precariedade da saúde pública no Brasil. A realidade nua e crua dela está bem à vista, sob os olhares negligentes das autoridades.
     A Fiocruz, uma instituição comprometida com o ensino, a produção e a pesquisa científica, não poderia se abster de participar de campanhas que visam esclarecer, denunciar e levar à discussão temas historicamente ligados a sua esfera de ação.
     Foi com esse pensamento que a Coordenadoria de Comunicação Social da instituição passou a promover ‘Só Rindo da Saúde', uma exposição de humor itinerante, que busca levar para perto do povo a crítica ao quadro crítico da nossa saúde, através do traço que ridiculariza, que provoca o riso, sem, contudo, deixar de suscitar a reflexão.

Manoel Caetano Mayrink
Cartunista, curador da exposição

 

Os mesmos músculos

     Todo humorista brasileiro já ouviu a pergunta mais de uma vez, de uma forma ou de outra: como é possível fazer humor num país como este, numa hora como esta? Às vezes a pergunta tem o tom de elogio – só vocês mesmos, para nos fazer rir desta situação – e às vezes tem o som irado de uma cobrança: vocês não se dão conta de onde estão, não? Assim o humorista tem que escolher entre várias caras para usar: a de um herói do distanciamento que consegue manter a razão e a graça apesar de tudo, a de bobo necessário, a do inconsciente flagrado dando uma gargalhada no velório.
     De certa maneira, as três caras servem. O humorista é um herói da resistência, como demonstrou durante nosso regime de generais. Mesmo quando não podia ser abertamente crítico, o humor brasileiro (principalmente o gráfico) manteve viva uma idéia de irreverência que nos ajudou na travessia. Não se podia dizer que o general estava nu, mas se podia fazer fiu-fiu quando ele passava e fingir que tinha sido o vizinho. Não por acaso, a grande revelação do cartunismo brasileiro desta época foi o Henfil, no Pasquim. Ele fazia uma coisa paradoxal, humor fino de criança malcriada, que diz pum na frente das visitas. Foi o melhor exemplo de humor como travessura, que manteve o regime militar, senão alerta ao seu próprio ridículo, pelo menos desconfiado. Com a abertura e a permissão para dizer tudo, o desafio para o cartunista passou a ser o senso de medida. Mas esta deve ser uma preocupação menor, tanto para o chargista quanto para o homem público que ele alveja. Entre o exagero e a omissão, o humorista deve sempre escolher o exagero, mesmo com o risco de magoar.
     E são bobos necessários também, por que não? O humor inconseqüente pode existir sem que o humorista seja chamado de alienado, se é que alguém ainda use o termo. Principalmente porque num país como o Brasil o humor nunca é completamente apolítico, mesmo que ele tente. A comédia de costumes será sempre um retrato de costumes marcados pela desigualdade e pelo anseio social e até a deliberação de não ser político acaba sendo uma opção política. E se o humor pode existir apenas para divertir ou atrair pela sua engenhosidade ou inteligência, ninguém deve deixar de fazê-lo só para não parecer que está sendo cúmplice de uma desconversa. A única inconseqüência inadmissível num humorista é não provocar riso.
     Finalmente antes que todos se virem para quem deu a gargalhada no velório e peçam comedimento e respeito, é melhor saber que tipo de gargalhada foi. Certas situações são tão dramáticas e tristes que só rindo. Certamente a saúde no Brasil chegou a uma situação que permite apenas dois tipos de comentário: palavrão ou riso. As duas reações comportam graduações que vão da mobilização indignada ao desespero terminal, de um lado, e da sutil ironia à gargalhada de cair da cadeira, do outro. A gargalhada não é sinal de desrespeito, insensibilidade, bebedeira ou loucura, é apenas o choro com outra trilha sonora. Rimos e choramos com os mesmos músculos, o riso, no caso, só parece uma forma mais socialmente aproveitável de indignação. O riso provoca, enquanto o choro pede piedade. E, mesmo, não daria para fazer uma exposição de humor com soluços.

Luís Fernando Veríssimo
Jornalista e escritor

Adail José de Paula nasceu em 1930 em Registro (SP). Jornalista, cartunista, começou a publicar em 1948 nos semanários humorísticos O Governador e A Marmita, de São Paulo. No Rio de Janeiro, iniciou suas atividades no Diário de Notícias em 1957. Colaborou em vários jornais e revistas, tais como O Cruzeiro, Cartum JS (suplemento humorístico do Jornal dos Sports), Correio da Manhã, Pasquim e O Dia. Atualmente colabora no Jornal Espírita.

 

Luiz Agner nasceu no Rio de Janeiro em 1959. Começou a desenhar profissionalmente aos 16 anos no semanário alternativo Pasquim. Estudou na Escola de Desenho Industrial (ESDI). Publicou seus cartuns no Jornal do Brasil, Jornal dos Sports, Rede Globo, SBT e TV Manchete. Foi premiado no I Salão Carioca de Humor. Participou de diversas exposições no gênero dentro e fora do país.
Na Internet mantém um site de charges intitulado ‘Cartum netiuorque’, aberto à colaboração de cartunistas simpatizantes.

Sérgio Jaguaribe, o Jaguar, carioca, 66 anos, começou sua carreira em 1957, na revista Manchete. Colaborou na Tribuna da Imprensa, ocupou o cargo de editor de humor na revista Senhor e foi chargista de Última Hora. Um dos fundadores do Pasquim, onde trabalhou do primeiro ao último número, ilustrou todos os livros de Stanislaw Ponte Preta e as anedotas do Pasquim, de Ziraldo.
Atualmente é chargista de O Dia, mantém uma seção (‘Inverdades & Mentiras’) na revista Sexy, faz vinhetas para a TV Globo e é colaborador em várias revistas. Recebeu, em 1998, o prêmio Líbero Badaró, na categoria charge, pela revista Caros Amigos. É o único chargista que produziu, sem interrupção, desde 1957 até hoje, num período de 41 anos. Nesse tempo, fez aproximadamente vinte mil desenhos, dos quais, segundo diz, não guardou nenhum.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Herminio Macedo Castelo Branco nasceu em Fortaleza (CE) em 1944. Formado em direito, é jornalista, cartunista, ilustrador, artista plástico e programador visual. Publicou as obras No Words (cartuns), O pequeno planeta perdido (em parceria com Ziraldo), Poeminos e Minha vã filosofia (poesia e pensamentos), Os Peixes (monografia).
Lançou a revista de humor O Almanaque Mino. Foi premiado em vários salões internacionais.

 


Nelatir Rebés Abreu nasceu em Santiago do Boqueirão (RS) em 1950. Trabalhou nos jornais Folha da Tarde, Correio do Povo, Coojornal, Pasquim e O Estado de S. Paulo. Foi premiado mais de uma vez no Salão Yomiur Shimbum do Japão. Recebeu prêmios nos salões de humor de Montreal e Piracicaba.
Criador do personagem gaúcho típico Macanudo Taurinho Fagundes, publicou vários livros.

 

Alexandre Rivero, publicitário e artista plástico, trabalha na imprensa petropolitana desde 1987. Premiado em várias exposições, atualmente publica uma página de humor no jornal Tribuna de Petrópolis e é ilustrador do Jornal Popular.
Ubiratan Nazareno Borges Porto nasceu em 29 de outubro de 1959 em Belém (PA). Trabalha em A Província do Pará. Recebeu vários prêmios nos salões de humor do Piauí e de Piracicaba e foi selecionado duas vezes para o Salão de Humor da Bélgica.
Publicou os livros Pacto no tucupi (charges, 1981), Swing, suor e lábias (cartuns eróticos, 1988), Biratan verde de raiva (cartuns ecológicos, 1991), entre outros.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Ferreth nasceu em Natal (RN) em 16 de março de 1951. Começou a publicar seus cartuns na década de 1970 no Pasquim. Desde então tem colaborado em jornais e revistas do país. Publicou a tira Dimenor nos jornais O Dia e O Povo, de São Paulo. Desenhou vinhetas para a Globo e foi premiado em diversos salões nacionais.
Atualmente trabalha para o jornal Extra.
Manoel Caetano Mayrink nasceu em Jequeri (MG). Jornalista, ilustrador e cartunista, começou na revista Visão em 1966. Em 1967, foi lançado por Ziraldo no Cartum JS, suplemento humorístico do Jornal dos Sports. Tem publicado seus trabalhos no Jornal do Brasil, Correio da Manhã, Última Hora, Diário Comércio & Indústria e Jornal da Tarde (SP), revistas Visão, Senhor e Tendência. Foi curador por três anos consecutivos do Salão Carioca de Humor (1992, 1993, 1994) e participou de vários salões dentro e fora do país. Recebeu o prêmio do Salão Internacional de Humor de Montreal, Canadá, em 1970.
Publicou os livros Quebra-nós (1984) e 365 dias de humor (1994) e organizou Dez + dez, a natureza se defende (1992), com a participação de cartunistas russos e brasileiros.
Atualmente é colaborador do Cartoonist & Writers Syndicate dos Estados Unidos, programador visual, ilustrador e cartunista de publicações sobre ciência e saúde da Fiocruz.

 


Lailson de Holanda Cavalcanti nasceu em Recife (PE) no dia 26 de dezembro de 1952, teve trabalhos publicados no Pasquim, Jornal da Semana, Jornal da Cidade e nas revistas Mad e KYX-93. Trabalha no Diário de Pernambuco.
Entre seus diversos prêmios, figuram os do Salão de Humor de Montreal (1983, 1985).
Ariuonauro Santos, trinta anos, cartunista, ilustrador de capas para CD’s e matérias para a Rede Globo, colabora com diversos meios de comunicação, destacando-se a revista Mad (Brasil), Cartaz Z Notícias, jornal PQP e Sapoconcho (Espanha).
Premiado no X Salão Carioca de Humor e na Mostra Maranhense de Humor’98, participou de salões internacionais da Itália, Croácia, Israel, Cuba e Holanda.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


"Espetáculo para breve nas ruas desta cidade. Oswaldo Cruz, o Napoleão da seringa e lanceta, à frente das suas forças obrigatórias, será recebido e manifestado com denodo pela população. O interessante dos combates deixará a perder de vista o das batalhas de flores e o da guerra russo-japonesa. E veremos no fim da festa que será o vacinador à força!..." Leonidas, ‘Guerra vaccubi-obrigateza’, O Malho, 29.10.1904, em Oswaldo Cruz Monumenta Historica, tomo I, A incompreensão de uma época, Oswaldo Cruz e a caricatura, tomo I, p. cxxix.

 

O terror dos ratos e dos mosquitos’, Bambino, Oswaldo Cruz Monumenta Historica, A incompreensão de uma época, Oswaldo Cruz e a Caricatura, tomo I, p. ccxxxii.

 

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License