Resumo
O artigo discute a formação do grupo que atuou em posições de destaque na sociedade amazonense no início do século XX e recupera a singularidade das origens sociais, as estratégias de consagração da elite amazonense e suas transformações. A discussão privilegia a presença de indivíduos que, por sua atuação, interesses e expectativas, destacaram-se no exercício de atividades políticas, administrativas, intelectuais e econômicas desde meados do século XIX até o início do século XX. Na virada do século, a exportação da borracha, então monopolizada pela produção amazônica, ocupou o segundo lugar na pauta brasileira de exportações, propiciando notável visibilidade à elite amazonense, segmento urbano que teve como emblema o Teatro Amazonas.
Amazônia; Manaus; borracha; elite urbana; formação; auto-representação
Abstract
The article discusses the formation of an elite within early twentieth-century Amazon society. It explores the group’s unique social origins, its strategies for obtaining recognition, and its transformations. Special attention is focused on individuals who, because of their actions, interests, and expectations, stood out in the arenas of political, administrative, intellectual, and economic activities from the mid-nineteenth through the early twentieth centuries. At the turn of the century, rubber (then monopolized by production in the Amazon) ranked second among Brazilian exports, ensuring great visibility for the region’s elite - whose emblem was the Teatro Amazonas.
Amazon; Manaus; rubber; urban elite; shaping; representation of self
Instrumentos e sinais da civilização: origem, formação e consagração da elite amazonense
Instruments and signs of civilization: the origin, formation, and recognition of the Amazon elite
Ana Maria Daou
Doutora em antropologia, professora do Departamento de Geografia da Universidade
Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
DAOU, A. M.: Instrumentos e sinais da civilização: origem, formação e consagração da elite amazonense. História, Ciências, Saúde Manguinhos, vol. VI (suplemento), 867-888, setembro 2000.
O artigo discute a formação do grupo que atuou em posições de destaque na sociedade amazonense no início do século XX e recupera a singularidade das origens sociais, as estratégias de consagração da elite amazonense e suas transformações. A discussão privilegia a presença de indivíduos que, por sua atuação, interesses e expectativas, destacaram-se no exercício de atividades políticas, administrativas, intelectuais e econômicas desde meados do século XIX até o início do século XX. Na virada do século, a exportação da borracha, então monopolizada pela produção amazônica, ocupou o segundo lugar na pauta brasileira de exportações, propiciando notável visibilidade à elite amazonense, segmento urbano que teve como emblema o Teatro Amazonas.
PALAVRAS-CHAVE: Amazônia, Manaus, borracha, elite urbana, formação, auto-representação.
DAOU, A. M.: Instruments and signs of civilization: the origin, formation, and recognition of the Amazon elite. História, Ciências, Saúde Manguinhos, vol. VI (supplement), 867-888, September 2000.
The article discusses the formation of an elite within early twentieth-century Amazon society. It explores the groups unique social origins, its strategies for obtaining recognition, and its transformations. Special attention is focused on individuals who, because of their actions, interests, and expectations, stood out in the arenas of political, administrative, intellectual, and economic activities from the mid-nineteenth through the early twentieth centuries. At the turn of the century, rubber (then monopolized by production in the Amazon) ranked second among Brazilian exports, ensuring great visibility for the regions elite whose emblem was the Teatro Amazonas.
KEYWORDS: Amazon, Manaus, rubber, urban elite, shaping, representation of self.
1 O trabalho de Sampaio (1993) caracteriza as fortunas da elite de Manaus até a década de 1880, excluindo-se, neste caso, a complexificação daquela sociedade correlata à expansão da economia gomífera, à passagem para o regime republicano e a uma significativa alteração da morfologia social. Weinstein (1993) apresenta cuidadosa análise sobre a elite paraense, mas não oferece o mesmo tratamento à elite do Amazonas.
2 Utilizamos a expressão "acontecimento da borracha" para destacar que não se trata de pensar apenas as questões relativas à exploração e comercialização da borracha e os indivíduos vinculados a estas atividades, ampliando assim o entendimento da economia gomífera naquela sociedade. Não se trata, portanto, de privilegiar a dimensão econômica dos acontecimentos e subtrair da análise a dinâmica da vida social.
3 Passo a denominá-los amazonenses, independentemente da naturalidade. Como área de fronteira , é certo que a grande maioria dos indivíduos da elite, em seus primórdios, não nasceu no Amazonas.
4 O nome de Agnello Bittencourt (1875-1973) consta de vários dicionários biográficos brasileiros e enciclopédias. Nasceu e estudou no Amazonas. Por 52 anos exerceu o magistério e, além das atividades intelectuais e da vasta bibliografia publicada, foi superintendente municipal de Manaus (1909), quando seu pai era governador do estado. Foi sócio honorário do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), entre outros. Faleceu no Rio de Janeiro em 1973. A grande maioria dos amazonenses nascidos nas primeiras quatro décadas deste século, incluindo-se os por nós entrevistados, foi aluna do "professor Agnello".
5 Após a década de 1890 já não se trata de viajantes naturalistas entre os quais Spix e Martius (1938), Williams (1848), Castelneau (1850), Herndon (1853), Osculatti (1854), Bates (1863), Marcoy (1862), Avé-Lallemant (1980), Spruce (1908), Wallace (1979), Agassiz (1975), Keller, (1874) , mas de agentes comerciais (Plane, 1903), jornalistas e geógrafos (Coudreau, 1897), cuja observação voltava-se para o aproveitamento dos recursos, para a exploração e continuidade do comércio da borracha amazônica e, por outro lado, com as perspectivas de comercialização de manufaturados e de colonização oferecidas aos europeus.
6 O Diretório dos Índios vigorou entre 1757 e 1798. Este conjunto de normas expressava um projeto colonizador para os índios, sendo um requisito básico para o êxito da política portuguesa, a assimilação dos indígenas, estimulada pelos intercasamentos. Sobre a experiência do diretório como projeto de "civilização", ver o trabalho de Almeida (1997).
7 Enrico Antony tornou-se Henrique, como indica o nome da rua de Manaus que lhe rende homenagem e o verbete do Dicionário
(Bittencourt, op. cit.). Enquanto viveu, recepcionou quase todos os viajantes que estiveram no Amazonas, como se conclui da leitura dos muitos relatos de viajantes que estiveram em Manaus entre 1820 e 1870.
8 É o que se conclui da análise do inventário post-mortem feita por Sampaio (op. cit.).
9 Era grande o número de médicos residentes (cerca de sessenta) em Manaus no ano de 1905 (Godinho e Lindenberg, 1906). O caso do médico Alfredo da Matta é expressivo das trajetórias aqui consideradas. Formado na Escola de Medicina da Bahia, radicou-se no Amazonas. Ganhou enorme projeção por seu trabalho como médico sanitarista.
10 As fazendas no sertão nordestino mantiveram-se como um recurso complementar na economia das novas famílias. Com a crise da borracha e a falta de oportunidades em Manaus foi comum a ida temporária ao Ceará, ao Piauí, ao Maranhão, como indicam entrevistas e o dados do Censo de 1920.
11 A fronteira entre os comerciantes de grosso trato e os varejistas era distinção significativa entre os comerciantes em Lisboa. É pertinente o uso da categoria em Manaus, onde a presença de comerciantes portugueses era acentuada. Outras relações são significativas para comparação: a codificação do vocabulário social tem no Alvará da Companhia Geral do Comércio do Grão-Pará, uma contribuição decisiva para a hierarquização do mundo mercantil português, reservando-se a expressão "homens de negócio de Lisboa" aos que pertenciam à praça de Lisboa. "Matriculados" na Junta Comercial, eram os comerciantes por grosso, consagrados na categoria "negociantes" (Pedreira, 1992).
12 O abandono da atividade comercial, pelas segundas gerações de filhos das elites latino-americanas é expressivo do padrão de estrutura ocupacional observado por Balmori et al. (1984, p. 15).
13 Este ponto será discutido mais adiante.
14 É enorme a diversidade de trajetória de seringalistas e um trabalho a respeito do assunto está por ser feito. Os donos das empresas seringalistas não aparecem arrolados entre as "famílias tradicionais" e apenas excepcionalmente foram biografados por Bittencourt (op. cit.). A trajetória de alguns nordestinos que chegaram ao Amazonas, abriram seringais e enriqueceram como patrões das empresas seringalistas leva a crer que sua atuação na capital não concorreu com a daqueles segmentos sociais urbanos que vêm sendo aqui tratados, pois os seringalistas só "chegaram" à cidade, após um "período de acumulação", o da abertura dos seringais e consolidação de seu empreendimento.
15 Compõem o conjunto dos estrangeiros que conviviam em Manaus ingleses, alemães, franceses, italianos, espanhóis, portugueses, judeus e árabes. Não consideramos judeus e árabes, visto que sua projeção na sociedade amazonense é posterior ao período aqui tratado, embora mereça atenção o fato de que nos dois casos trata-se de uma inserção social de notável permanência e assimilação, o que não pode ser dito, por exemplo, em relação a uma boa parte dos estrangeiros.
16 Há referências a estrangeiros que se embrenharam pelo interior, como proprietários de terras ou regatões nos rios (Coudreau, 1887).
17 Por muitos anos, o governo do Amazonas subsidiou a Ligure Brasiliana, uma companhia de navegação italiana que ligava Manaus a Gênova, o maior porto italiano de então. O subsídio à companhia favoreceu a ida das companhias de ópera e facilitou a vinda de artistas italianos tanto para as obras de decoração do Teatro Amazonas quanto para que ali apresentassem espetáculos musicais.
18 Utilizamos como fonte de dados os relatórios de presidentes da província do Amazonas, na sessão de despesas e a documentação relativa à administração estadual. O trabalho dos irmãos Tapajós (1979) oferece muitos dados sobre o assunto.
19O país das Amazonas é nome da obra de Frederico José de Santana Nery, publicada em 1887, em Paris, em que apresenta a região em "sua harmoniosa unidade", de modo a "suscitar energias, inflamar coragens"; conclamava os europeus à colonização da "terra da borracha, o legendário El Dourado, as terras virgens que esperam a semeadura da civilização" (1979, p. 16).
20 O título de barão lhe foi concedido pelo Vaticano, o que o singulariza no conjunto dos oito barões biografados por Bittencourt (op. cit., pp. 81, 254), cujo recebimento do título resulta dos serviços prestados ao Império do Brasil, na delimitação das fronteiras, na demarcação de terras e abertura de rios, como se anuncia em alguns dos nomes: barão de Tefé e barão do Juruá.
21 Como registrado no periódico Amazonas, de 2 de julho de 1892, o Congresso amazonense subvencionou os cursos de quatro estudantes, no valor de 200$000, fora do Brasil.
22 Não há referência, na documentação consultada, ao patrocínio da educação feminina pela Assembléia, sendo significativo o fato de que filhas de exportadores tenham tido a educação na Europa promovida pelos pais.
23 A cidade transformada durante a administração do engenheiro militar Eduardo Ribeiro (1892-96), tornou-se conhecida como "Manaus moderna" em oposição à imagem da cidade acanhada, identificada com uma "aldeia".
24 Sobre a belle époque (1880 a 1914) como uma época de euforia e satisfação na perspectiva das classes alta e média, ver Hobsbawn (1994, p. 21).
Introdução
O Amazonas, penúltima província brasileira criada no século XIX, tem sido objeto de poucas reflexões que elucidem a formação de sua sociedade, da elite que ali se fixou e ganhou projeção nacional e internacional favorecida pela exploração e a comercialização da borracha. No início do século XX, a Hevea brasiliensis, borracha nativa da Amazônia, chegou ao segundo lugar na pauta das exportações brasileiras (Fausto, 1995). Os seringais do Pará, do Amazonas e do Acre monopolizaram a produção mundial da goma-elástica até o final da década de 1910. Transformações econômicas e sociais marcaram profundamente as sociedades. O lucro da borracha, especialmente advindo do avultado valor das exportações, promoveu uma significativa alteração na morfologia social, facultou aos indivíduos o acesso a novos estilos de vida e tanto Belém quanto Manaus foram objeto de expressivas intervenções no sentido da modernização dos serviços urbanos, da ampliação dos espaços públicos e do reforço dos controles sociais.
Elites: as múltiplas noções e os amazonenses
As elites estão associadas à idéia de uma minoria que se destaca em relação ao conjunto da sociedade não apenas nas situações pautadas na hierarquia e na ordem, como naquelas pautadas no individualismo e na igualdade. Em diferentes contextos, têm sua ação remetida a interesses econômicos, ao monopólio do poder e às orientações culturais na vida de um grupo. Isso se traduz em seu papel de orientadoras da maioria, de promotoras de identidade, de portadoras dos interesses dos grupos que nelas se fazem representar ou, ainda, de protetoras da coletividade face ao inimigo externo.
A recuperação das origens e da formação da elite amazonense mostra as estratégias de inserção e mobilidade social que propiciaram a alguns indivíduos sua consagração e permanência em determinadas posições do espaço social (Daou, 1998).
A reflexão sobre as elites remete a questões centrais para a antropologia, pois envolve o entendimento e o reconhecimento das classificações sociais e dos valores norteadores das ações coletivas, relacionadas à constituição e à permanência de grupos sociais. A perspectiva antropológica referida aos estudos em microescala em que os pesquisadores se colocam atentos à perspectiva dos agentes sociais e das concepções que os mesmos elaboram a propósito de suas experiências é favorável ao estudo de "comunidades de elite" (Marcus, 1983c, 1983b). Nossa análise da elite amazonense privilegiou reconhecer os valores, as categorias de auto-representação e os procedimentos levados a termo pelos indivíduos que ocupavam posição de destaque.
O processo interno de organização da elite amazonense em suas conexões com as dinâmicas nacional e internacional mostra como determinados indivíduos, "subjetiva e objetivamente, inseriram-se em processos sociais mais amplos" (idem, 1983b, p. 30), e promoveram transformações no seio do grupo que se consolidava. Para Marcel Mauss (1969), a expectativa está na base de todos os atos de natureza coletiva; constitui o próprio centro da vida social. A noção maussiana encara a elite como grupo cuja atuação não só deriva como também promove a existência de expectativas em comum. Seguindo ainda Mauss, procedemos ao ordenamento do heterogêneo material etnográfico: periódicos verbetes biográficos, trajetórias familiares, histórias de vida, um conjunto de iniciativas e ações implementadas por indivíduos e grupos dos quais emanam intenções articuladas, urdidas em tecido social. É certo que em torno de determinadas expectativas se estabeleceram interdependências (Elias, 1987) entre diferentes agentes que, em prol da conquista e manutenção de determinadas posições sociais, atribuíram a si mesmos a defesa dos interesses da província, depois estado do Amazonas.
A aproximação e o envolvimento dos indivíduos aqui considerados nas esferas político-administrativas não levaram, de início, a que se considerasse tratar-se de uma "elite política", evitando-se a ênfase nas relações de ordem institucional, ou mesmo percebê-la em relação a uma dimensão específica de seu comportamento social. Com relação ao Amazonas, é comum o uso de categorias genéricas para se referir a indivíduos que enriqueceram com a economia gomífera e que foram reconhecidos pela atuação pública excessivamente ostentatória (Souza, 1994; Burns, 1961). Há ainda autores que aludem a uma "oligarquia tribal" para se referir ao grupo que dominava a elite política do Amazonas na primeira década do século XX (Pang, 1979; Santos, 1990).
O procedimento analítico adotado privilegiou o reconhecimento das relações entre as instituições e aqueles cujas funções controlam interesses e recriam domínios de relações pessoais, muitas vezes estendidos para além dos domínios funcionais e oficiais. Desdobram-se, nessa perspectiva, as relações que conectam as esferas locais de atuação com as dinâmicas nacionais.
O papel desempenhado pela educação nas sociedades complexas ganha ênfase na sociologia de Pierre Bourdieu (1979). Para este autor, as instituições de formação profissional são elementos centrais para a promoção das classificações sociais e para a construção social da distinção. No que se refere à formação da elite amazonense por força, inclusive, do papel que a complementação dos estudos assumiu naquela formação social , coube perceber como os agentes participaram da produção de determinadas preferências, consagrando escolhas e contribuindo para a reprodução da estrutura de distribuição das diferentes espécies de capital: o cultural, o econômico e o simbólico.
Antes da borracha: os contornos da elite
A sociedade em estudo ganhou seus contornos a partir da segunda metade do século XIX, embora passe a ter notável visibilidade na virada do século. Antes disso, acontecimentos políticos e administrativos revelaram-se cruciais para a alteração da dinâmica da vida social amazonense e merecem destaque, na década de 1850, a formação da província, a introdução da navegação a vapor, e, no final da década de 1860, a abertura dos portos do Amazonas à navegação internacional. A passagem do Império à República trouxe alterações significativas às formas de gestão do espaço urbano, sendo esse período correlato às transformações nos modos de apropriação dos recursos da floresta, especialmente na configuração das empresas seringalistas e nas formas de consolidação do patrimônio. Assim, antes que a seringa assumisse o papel de destaque nas atividades econômicas, os representantes dos interesses locais já se empenhavam para que o governo central facultasse a inserção do Amazonas no fluxo do mercado internacional, sendo o comércio e as trocas pontos significativos da pauta de atuação de uma elite ainda incipiente.
Em meados do século XIX estavam pouco definidos os critérios de diferenciação social na então comarca do rio Negro, parte da grande província do Grão-Pará cuja sede contava com pouco mais de cinco mil habitantes (Amazonas, 1852). Vivia na antiga Barra, depois Manaus que veio a ser a capital da província do Amazonas , um grupo restrito de moradores: brancos, de origem estrangeira, especialmente portuguesa, alguns brasileiros, comerciantes e profissionais liberais. A estes se somavam os funcionários da administração do Império designados para a instalação da província, os quais trouxeram profissionais capacitados a iniciar na nova unidade do Império o serviço de imprensa e a criação de pequenas manufaturas, configurando um conjunto de transformações que promoveriam a consolidação da província e reforçariam a presença do Estado monárquico. A inserção do Amazonas na dinâmica da ordem monárquica promoveu a emergência de um modo de vida mais citadino, com a fixação de maior número de indivíduos que trabalhavam para a consolidação, reprodução e controle da referida ordem. A implantação da capital da província conjugou-se às tarefas administrativas e à fundação de instituições nacionais até então ausentes naquele domínio, ponto comum a outros contextos latino-americanos (Morse, 1973). Além das atividades relativas aos impostos, aos fluxos de pessoas e mercadorias, à manutenção da ordem e controles exercidos pelo Estado, concorriam também as que incidiriam sobre a internalização dos controles, os autoconstrangimentos, os comportamentos calculados e percebidos como expressivos de condutas civilizadas. Nos processos de implantação da província e formação da elite operavam as duas dimensões do avanço do processo civilizador, conforme propõe Elias (1990 , 1987).
A ampliação da elite: profissionais liberais, exportadores e importadores
Entre meados do século XIX e a instauração da República, o povoamento da província do Amazonas intensificou-se, aproximando-se em 1890 de 150 mil almas, das quais 50% eram de indivíduos oriundos do Ceará (Reis, 1931, p. 219). Em 1876, comenta Reis, chegaram a Manaus cerca de seis mil retirantes, que depois se espraiariam pelo interior; ainda assim é expressiva a ampliação da população fixada na capital: de 5.081 pessoas recenseadas em 1852, chega-se a 38.720 contabilizadas em 1890, 52.040 em 1900, e oitenta mil em 1908.
São muitas as trajetórias familiares que respaldam a afirmativa de que a sociedade amazonense de elite, seus valores e estilo de vida foram notavelmente marcados pela influência de indivíduos das províncias da Bahia, Pernambuco, Piauí, Alagoas, Ceará, Paraíba, Rio Grande do Norte e Maranhão. Oriundos das áreas distantes da plantation de cana-de-açúcar, como a grande maioria dos trabalhadores incorporados à produção de borracha, distinguem-se destes últimos por sua origem social, pela formação escolar e pelo lugar que a ida para o Amazonas preenche como parte de suas estratégias de mobilidade social.
Os estrangeiros e a elite
A complementação dos estudos: uma estratégia de distinção social
O teatro como palco da elite: o cenário da consagração
O Teatro Amazonas, inaugurado em 1896, é um edifício cheio de significados, seja como instituição que prestigia a cidade e seus moradores seja enquanto lugar privilegiado da memória social, ou, ainda, como opera house reconhecida internacionalmente (Hobsbawm, 1994). Muitas vezes identificada com o "teatro supercênico" (Freyre, 1990), a elite amazonense fez do nobre edifício um símbolo de sua identidade. É como espaço privilegiado de consagração da elite que este será aqui considerado.
Conclusão
A noção de expectativa proposta no início deste artigo contribuiu para se entender a elite como grupo cuja atuação não apenas derivou da existência de expectativas em comum, como a promoveu em ações que fixaram a unidade do grupo e lhe deram forma e visibilidade social. Entre essas ações, foram indicadas aquelas que promoveram a complementação dos estudos de indivíduos que assim se veriam como promotores da civilização, sendo eles mesmos expressões dessa conquista. Assim, a auto-representação da elite da borracha refere-se às expressões de refinamento resultantes do acesso à escolaridade, da expressão cotidiana de hábitos considerados civilizados, constituindo-se o Teatro Amazonas, inaugurado em 1896, seu cenário privilegiado no contexto da cidade transformada na década de 1890.
À preeminência e exclusividade da borracha na pauta de exportações, no Amazonas a partir da década de 1880, corresponde uma especialização das atividades políticas e econômicas entre as esferas de atuação da "elite tradicional" e daqueles que ali chegavam e cujos interesses eram dirigidos para a comercialização da borracha e atividades correlatas, especialmente as chamadas casas aviadoras, as firmas de seguros e o comércio de bens de consumo. A comunidade mercantil ampliada não era uniforme quanto às origens sociais e interesses, dela participando brasileiros e estrangeiros que atuavam diferenciadamente no longo percurso que culminava com o recebimento da borracha (em Manaus) e sua exportação, envolvendo ainda a ampla rede de distribuição de bens de consumo para todo interior.
A elite da borracha resultou da interação entre esses dois segmentos, em função dos interesses mútuos que se estabeleceram no sentido da realização dos negócios da borracha. Os amazonenses foram os mediadores entre os interesses dos exportadores e as expectativas locais de afirmação das posições sociais e de implantação das marcas de progresso e civilização no distante Amazonas. A educação e as estratégias empreendidas no sentido de sua realização foram notáveis elementos de construção da distinção e do estabelecimento de compromissos mútuos entre os indivíduos da elite, fossem eles políticos, comerciantes ou profissionais liberais. A diversidade de percursos, as diferentes escolas cursadas em locais escolhidos, muitas vezes, em função da ascendência paterna ou da origem familiar, não garantiam, no entanto, uma socialização homogênea da elite, como o que foi observado para a elite política imperial brasileira (Carvalho, 1994). Quando os jovens amazonenses passaram a freqüentar as escolas nacionais, esboçou-se uma socialização, até então inédita, no sentido do conhecimento e da solidariedade estabelecida entre colegas de outras procedências. Sua trajetória assemelha-se à dos jovens militares republicanos (Castro, 1995), para quem a passagem pelas escolas do Rio de Janeiro ampliou o capital de relações sociais e favoreceu, especialmente no alvorecer da República, as conexões para fora do Amazonas.
É nesse sentido que se pode afirmar que os mecanismos de socialização da elite foram dados sobretudo pela convivência na pequena cidade, por meio das redes de relações referidas à instituição familiar. Expectativas em comum e laços de interdependências, ainda tênues naquele contexto, aproximaram os agentes para além das instituições formais, de modo que se valorizaram as redes de relações estabelecidas pelo parentesco e pela afinidade. A interação social, intensificada na virada do século e na década de 1900, marcou a vida da capital cosmopolita e mundana (Burns, 1961), facultou a aproximação entre brasileiros e estrangeiros. Expandiram-se os círculos de interação social convergiram áreas de interesses e, por vezes, acentuaram-se as diferenças entre nacionais e estrangeiros. Mais do que pelo conteúdo da programação, o Teatro Amazonas consagrou-se como símbolo da elite, por ter sido palco de uma interação social específica em que a elite reforçou laços, reafirmou expectativas e se consolidou como grupo de poder, status e prestígio, reconhecendo-se como instrumento e sinal da civilização no país das seringueiras.
DOCUMENTOS
PERIÓDICOS
Recebido para publicação em julho de 1999.
Aprovado para publicação em abril de 2000.
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