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História, Ciências, Saúde-Manguinhos

Print version ISSN 0104-5970On-line version ISSN 1678-4758

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.6  suppl.0 Rio de Janeiro Sept. 2000

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59702000000500006 

 

 

 

 

Instrumentos e sinais da civilização: origem, formação e consagração da elite amazonense

Instruments and signs of civilization: the origin, formation, and recognition of the Amazon elite

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ana Maria Daou

Doutora em antropologia, professora do Departamento de Geografia da Universidade
Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
anadaou@alternex.com.br

 

DAOU, A. M.: ‘Instrumentos e sinais da civilização: origem, formação e consagração da elite amazonense’. História, Ciências, Saúde — Manguinhos, vol. VI (suplemento), 867-888, setembro 2000.

O artigo discute a formação do grupo que atuou em posições de destaque na sociedade amazonense no início do século XX e recupera a singularidade das origens sociais, as estratégias de consagração da elite amazonense e suas transformações. A discussão privilegia a presença de indivíduos que, por sua atuação, interesses e expectativas, destacaram-se no exercício de atividades políticas, administrativas, intelectuais e econômicas desde meados do século XIX até o início do século XX. Na virada do século, a exportação da borracha, então monopolizada pela produção amazônica, ocupou o segundo lugar na pauta brasileira de exportações, propiciando notável visibilidade à elite amazonense, segmento urbano que teve como emblema o Teatro Amazonas.

PALAVRAS-CHAVE: Amazônia, Manaus, borracha, elite urbana, formação, auto-representação.

 

DAOU, A. M.: ‘Instruments and signs of civilization: the origin, formation, and recognition of the Amazon elite’. História, Ciências, Saúde — Manguinhos, vol. VI (supplement), 867-888, September 2000.

The article discusses the formation of an elite within early twentieth-century Amazon society. It explores the group’s unique social origins, its strategies for obtaining recognition, and its transformations. Special attention is focused on individuals who, because of their actions, interests, and expectations, stood out in the arenas of political, administrative, intellectual, and economic activities from the mid-nineteenth through the early twentieth centuries. At the turn of the century, rubber (then monopolized by production in the Amazon) ranked second among Brazilian exports, ensuring great visibility for the region’s elite — whose emblem was the Teatro Amazonas.

KEYWORDS: Amazon, Manaus, rubber, urban elite, shaping, representation of self.

 

1 O trabalho de Sampaio (1993) caracteriza as fortunas da elite de Manaus até a década de 1880, excluindo-se, neste caso, a complexificação daquela sociedade correlata à expansão da economia gomífera, à passagem para o regime republicano e a uma significativa alteração da morfologia social. Weinstein (1993) apresenta cuidadosa análise sobre a elite paraense, mas não oferece o mesmo tratamento à elite do Amazonas.

2 Utilizamos a expressão "acontecimento da borracha" para destacar que não se trata de pensar apenas as questões relativas à exploração e comercialização da borracha e os indivíduos vinculados a estas atividades, ampliando assim o entendimento da economia gomífera naquela sociedade. Não se trata, portanto, de privilegiar a dimensão econômica dos acontecimentos e subtrair da análise a dinâmica da vida social.

3 Passo a denominá-los amazonenses, independentemente da naturalidade. Como área de fronteira , é certo que a grande maioria dos indivíduos da elite, em seus primórdios, não nasceu no Amazonas.

4 O nome de Agnello Bittencourt (1875-1973) consta de vários dicionários biográficos brasileiros e enciclopédias. Nasceu e estudou no Amazonas. Por 52 anos exerceu o magistério e, além das atividades intelectuais e da vasta bibliografia publicada, foi superintendente municipal de Manaus (1909), quando seu pai era governador do estado. Foi sócio honorário do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), entre outros. Faleceu no Rio de Janeiro em 1973. A grande maioria dos amazonenses nascidos nas primeiras quatro décadas deste século, incluindo-se os por nós entrevistados, foi aluna do "professor Agnello".

5 Após a década de 1890 já não se trata de viajantes naturalistas — entre os quais Spix e Martius (1938), Williams (1848), Castelneau (1850), Herndon (1853), Osculatti (1854), Bates (1863), Marcoy (1862), Avé-Lallemant (1980), Spruce (1908), Wallace (1979), Agassiz (1975), Keller, (1874) —, mas de agentes comerciais (Plane, 1903), jornalistas e geógrafos (Coudreau, 1897), cuja observação voltava-se para o aproveitamento dos recursos, para a exploração e continuidade do comércio da borracha amazônica e, por outro lado, com as perspectivas de comercialização de manufaturados e de colonização oferecidas aos europeus.

6 O Diretório dos Índios vigorou entre 1757 e 1798. Este conjunto de normas expressava um projeto colonizador para os índios, sendo um requisito básico para o êxito da política portuguesa, a assimilação dos indígenas, estimulada pelos intercasamentos. Sobre a experiência do diretório como projeto de "civilização", ver o trabalho de Almeida (1997).

7 Enrico Antony tornou-se Henrique, como indica o nome da rua de Manaus que lhe rende homenagem e o verbete do Dicionário
(Bittencourt, op. cit.). Enquanto viveu, recepcionou quase todos os viajantes que estiveram no Amazonas, como se conclui da leitura dos muitos relatos de viajantes que estiveram em Manaus entre 1820 e 1870.

8 É o que se conclui da análise do inventário post-mortem feita por Sampaio (op. cit.).

9 Era grande o número de médicos residentes (cerca de sessenta) em Manaus no ano de 1905 (Godinho e Lindenberg, 1906). O caso do médico Alfredo da Matta é expressivo das trajetórias aqui consideradas. Formado na Escola de Medicina da Bahia, radicou-se no Amazonas. Ganhou enorme projeção por seu trabalho como médico sanitarista.

10 As fazendas no sertão nordestino mantiveram-se como um recurso complementar na economia das novas famílias. Com a crise da borracha e a falta de oportunidades em Manaus foi comum a ida temporária ao Ceará, ao Piauí, ao Maranhão, como indicam entrevistas e o dados do Censo de 1920.

11 A fronteira entre os comerciantes de grosso trato e os varejistas era distinção significativa entre os comerciantes em Lisboa. É pertinente o uso da categoria em Manaus, onde a presença de comerciantes portugueses era acentuada. Outras relações são significativas para comparação: a codificação do vocabulário social tem no Alvará da Companhia Geral do Comércio do Grão-Pará, uma contribuição decisiva para a hierarquização do mundo mercantil português, reservando-se a expressão "homens de negócio de Lisboa" aos que pertenciam à praça de Lisboa. "Matriculados" na Junta Comercial, eram os comerciantes por grosso, consagrados na categoria "negociantes" (Pedreira, 1992).

12 O abandono da atividade comercial, pelas segundas gerações de filhos das elites latino-americanas é expressivo do padrão de estrutura ocupacional observado por Balmori et al. (1984, p. 15).

13 Este ponto será discutido mais adiante.

14 É enorme a diversidade de trajetória de seringalistas e um trabalho a respeito do assunto está por ser feito. Os donos das empresas seringalistas não aparecem arrolados entre as "famílias tradicionais" e apenas excepcionalmente foram biografados por Bittencourt (op. cit.). A trajetória de alguns nordestinos que chegaram ao Amazonas, abriram seringais e enriqueceram como patrões das empresas seringalistas leva a crer que sua atuação na capital não concorreu com a daqueles segmentos sociais urbanos que vêm sendo aqui tratados, pois os seringalistas só "chegaram" à cidade, após um "período de acumulação", o da abertura dos seringais e consolidação de seu empreendimento.

15 Compõem o conjunto dos estrangeiros que conviviam em Manaus ingleses, alemães, franceses, italianos, espanhóis, portugueses, judeus e árabes. Não consideramos judeus e árabes, visto que sua projeção na sociedade amazonense é posterior ao período aqui tratado, embora mereça atenção o fato de que nos dois casos trata-se de uma inserção social de notável permanência e assimilação, o que não pode ser dito, por exemplo, em relação a uma boa parte dos estrangeiros.

16 Há referências a estrangeiros que se embrenharam pelo interior, como proprietários de terras ou regatões nos rios (Coudreau, 1887).

17 Por muitos anos, o governo do Amazonas subsidiou a Ligure Brasiliana, uma companhia de navegação italiana que ligava Manaus a Gênova, o maior porto italiano de então. O subsídio à companhia favoreceu a ida das companhias de ópera e facilitou a vinda de artistas italianos tanto para as obras de decoração do Teatro Amazonas quanto para que ali apresentassem espetáculos musicais.

18 Utilizamos como fonte de dados os relatórios de presidentes da província do Amazonas, na sessão de despesas e a documentação relativa à administração estadual. O trabalho dos irmãos Tapajós (1979) oferece muitos dados sobre o assunto.

19 O país das Amazonas é nome da obra de Frederico José de Santana Nery, publicada em 1887, em Paris, em que apresenta a região em "sua harmoniosa unidade", de modo a "suscitar energias, inflamar coragens"; conclamava os europeus à colonização da "terra da borracha, o legendário El Dourado, as terras virgens que esperam a semeadura da civilização" (1979, p. 16).

20 O título de barão lhe foi concedido pelo Vaticano, o que o singulariza no conjunto dos oito barões biografados por Bittencourt (op. cit., pp. 81, 254), cujo recebimento do título resulta dos serviços prestados ao Império do Brasil, na delimitação das fronteiras, na demarcação de terras e abertura de rios, como se anuncia em alguns dos nomes: barão de Tefé e barão do Juruá.

21 Como registrado no periódico Amazonas, de 2 de julho de 1892, o Congresso amazonense subvencionou os cursos de quatro estudantes, no valor de 200$000, fora do Brasil.

22 Não há referência, na documentação consultada, ao patrocínio da educação feminina pela Assembléia, sendo significativo o fato de que filhas de exportadores tenham tido a educação na Europa promovida pelos pais.

23 A cidade transformada durante a administração do engenheiro militar Eduardo Ribeiro (1892-96), tornou-se conhecida como "Manaus moderna" em oposição à imagem da cidade acanhada, identificada com uma "aldeia".

24 Sobre a belle époque (1880 a 1914) como uma época de euforia e satisfação na perspectiva das classes alta e média, ver Hobsbawn (1994, p. 21).

Introdução

     O Amazonas, penúltima província brasileira criada no século XIX, tem sido objeto de poucas reflexões que elucidem a formação de sua sociedade, da elite que ali se fixou e ganhou projeção nacional e internacional favorecida pela exploração e a comercialização da borracha. No início do século XX, a Hevea brasiliensis, borracha nativa da Amazônia, chegou ao segundo lugar na pauta das exportações brasileiras (Fausto, 1995). Os seringais do Pará, do Amazonas e do Acre monopolizaram a produção mundial da goma-elástica até o final da década de 1910. Transformações econômicas e sociais marcaram profundamente as sociedades. O lucro da borracha, especialmente advindo do avultado valor das exportações, promoveu uma significativa alteração na morfologia social, facultou aos indivíduos o acesso a novos estilos de vida e tanto Belém quanto Manaus foram objeto de expressivas intervenções no sentido da modernização dos serviços urbanos, da ampliação dos espaços públicos e do reforço dos controles sociais.
     O fato de ter permanecido, até meados do século XIX, como comarca do vasto território da província do Grão-Pará justifica, por um lado, em grande parte, a ausência de trabalhos relativos às especificidades da sociedade amazonense. Há, por outro lado, uma tendência à uniformização, a partir da posição geográfica e das marcas da história comum ao vasto domínio que é a Amazônia, ou tudo o que se associe ao ‘Norte’; e uma outra uniformização, a partir do recorte econômico inicial — das chamadas drogas do sertão — e, depois, a borracha, perspectiva que tende a se impor sobre a diversidade das configurações sociais particulares. São reduzidas as informações sistemáticas sobre a origem dos indivíduos de posição elevada na hierarquia social,1 sobre os valores que os aproximavam, sobre as estratégias acionadas no sentido da consolidação das posições sociais por eles empreendidas como segmento da elite urbana que viabilizou o "acontecimento da borracha".2
     Os indivíduos aos quais nos reportamos, tendo ou não nascido no Amazonas, são considerados "amazonenses ilustres"3 por seus contemporâneos e por seus descendentes, em decorrência de sua projeção em diferentes atividades no período que vai da formação da província do Amazonas, em 1852, até as primeiras décadas do século XX, quando a borracha projeta nacional e internacionalmente o distante Amazonas e seus representantes. Foram os anos em que a elite amazonense gozou de maior prestígio e visibilidade nacional e internacional.

Elites: as múltiplas noções e os amazonenses

     As elites estão associadas à idéia de uma minoria que se destaca em relação ao conjunto da sociedade não apenas nas situações pautadas na hierarquia e na ordem, como naquelas pautadas no individualismo e na igualdade. Em diferentes contextos, têm sua ação remetida a interesses econômicos, ao monopólio do poder e às orientações culturais na vida de um grupo. Isso se traduz em seu papel de orientadoras da maioria, de promotoras de identidade, de portadoras dos interesses dos grupos que nelas se fazem representar ou, ainda, de protetoras da coletividade face ao inimigo externo.
     A recuperação das origens e da formação da elite amazonense mostra as estratégias de inserção e mobilidade social que propiciaram a alguns indivíduos sua consagração e permanência em determinadas posições do espaço social (Daou, 1998).
     A reflexão sobre as elites remete a questões centrais para a antropologia, pois envolve o entendimento e o reconhecimento das classificações sociais e dos valores norteadores das ações coletivas, relacionadas à constituição e à permanência de grupos sociais. A perspectiva antropológica — referida aos estudos em microescala em que os pesquisadores se colocam atentos à perspectiva dos agentes sociais e das concepções que os mesmos elaboram a propósito de suas experiências — é favorável ao estudo de "comunidades de elite" (Marcus, 1983c, 1983b). Nossa análise da elite amazonense privilegiou reconhecer os valores, as categorias de auto-representação e os procedimentos levados a termo pelos indivíduos que ocupavam posição de destaque.
     O processo interno de organização da elite amazonense em suas conexões com as dinâmicas nacional e internacional mostra como determinados indivíduos, "subjetiva e objetivamente, inseriram-se em processos sociais mais amplos" (idem, 1983b, p. 30), e promoveram transformações no seio do grupo que se consolidava. Para Marcel Mauss (1969), a expectativa está na base de todos os atos de natureza coletiva; constitui o próprio centro da vida social. A noção maussiana encara a elite como grupo cuja atuação não só deriva como também promove a existência de expectativas em comum. Seguindo ainda Mauss, procedemos ao ordenamento do heterogêneo material etnográfico: periódicos verbetes biográficos, trajetórias familiares, histórias de vida, um conjunto de iniciativas e ações implementadas por indivíduos e grupos dos quais emanam intenções articuladas, urdidas em tecido social. É certo que em torno de determinadas expectativas se estabeleceram interdependências (Elias, 1987) entre diferentes agentes que, em prol da conquista e manutenção de determinadas posições sociais, atribuíram a si mesmos a defesa dos interesses da província, depois estado do Amazonas.
     A aproximação e o envolvimento dos indivíduos aqui considerados nas esferas político-administrativas não levaram, de início, a que se considerasse tratar-se de uma "elite política", evitando-se a ênfase nas relações de ordem institucional, ou mesmo percebê-la em relação a uma dimensão específica de seu comportamento social. Com relação ao Amazonas, é comum o uso de categorias genéricas para se referir a indivíduos que enriqueceram com a economia gomífera e que foram reconhecidos pela atuação pública excessivamente ostentatória (Souza, 1994; Burns, 1961). Há ainda autores que aludem a uma "oligarquia tribal" para se referir ao grupo que dominava a elite política do Amazonas na primeira década do século XX (Pang, 1979; Santos, 1990).
    O procedimento analítico adotado privilegiou o reconhecimento das relações entre as instituições e aqueles cujas funções controlam interesses e recriam domínios de relações pessoais, muitas vezes estendidos para além dos domínios funcionais e oficiais. Desdobram-se, nessa perspectiva, as relações que conectam as esferas locais de atuação com as dinâmicas nacionais.
     O papel desempenhado pela educação nas sociedades complexas ganha ênfase na sociologia de Pierre Bourdieu (1979). Para este autor, as instituições de formação profissional são elementos centrais para a promoção das classificações sociais e para a construção social da distinção. No que se refere à formação da elite amazonense — por força, inclusive, do papel que a complementação dos estudos assumiu naquela formação social —, coube perceber como os agentes participaram da produção de determinadas preferências, consagrando escolhas e contribuindo para a reprodução da estrutura de distribuição das diferentes espécies de capital: o cultural, o econômico e o simbólico.
     O acesso às informações sobre a sociedade amazonense no período aqui tratado deu-se através dos dados contidos numa obra singular, o Dicionário amazonense de biografias: vultos do passado (Bittencourt, 1973). Seus verbetes promovem uma seleção significativa dos indivíduos que faziam parte da chamada "alta sociedade" ou das famílias de "Manaus antiga",4 e, por sua vez, "transcrevem o julgamento social de uma época" (Charle, 1987, p. 12). Para recompor as trajetórias individuais e familiares, foram relevantes não só os dados veiculados por diversos periódicos do Amazonas, publicados entre 1852 e 1910, como também os registros de viajantes naturalistas e agentes comerciais que, em suas viagens de subida ou descida do grande rio, conviveram com indivíduos de posição social de destaque. 5
     Inicialmente, apresentamos a gênese da elite amazonense, a procedência e a composição social dos ‘pioneiros’, seu envolvimento com o Estado monárquico, suas relações com os grupos locais, e a passagem do Império para a República, quando a borracha mobiliza homens e capital e os mecanismos de socialização dos filhos da elite aproximam-se do que ocorria com segmentos de outras elites regionais. Por fim, enfoca-se a construção do Teatro Amazonas como emblema da elite e palco de rituais de afirmação de sua distinção social. As noites de gala no teatro ofereceram material privilegiado para os comentários sociais de crítica e consagração da conduta de indivíduos e famílias. Como mostram alguns autores, a fofoca (gossip) tem importante função social, especialmente em grupos de pequenas dimensões, pois reforçam a coesão social (como, por exemplo, a sociedade de corte estudada por Elias, 1987).


Antes da borracha: os contornos da elite

     A sociedade em estudo ganhou seus contornos a partir da segunda metade do século XIX, embora passe a ter notável visibilidade na virada do século. Antes disso, acontecimentos políticos e administrativos revelaram-se cruciais para a alteração da dinâmica da vida social amazonense e merecem destaque, na década de 1850, a formação da província, a introdução da navegação a vapor, e, no final da década de 1860, a abertura dos portos do Amazonas à navegação internacional. A passagem do Império à República trouxe alterações significativas às formas de gestão do espaço urbano, sendo esse período correlato às transformações nos modos de apropriação dos recursos da floresta, especialmente na configuração das empresas seringalistas e nas formas de consolidação do patrimônio. Assim, antes que a seringa assumisse o papel de destaque nas atividades econômicas, os representantes dos interesses locais já se empenhavam para que o governo central facultasse a inserção do Amazonas no fluxo do mercado internacional, sendo o comércio e as trocas pontos significativos da pauta de atuação de uma elite ainda incipiente.
     Em meados do século XIX estavam pouco definidos os critérios de diferenciação social na então comarca do rio Negro, parte da grande província do Grão-Pará cuja sede contava com pouco mais de cinco mil habitantes (Amazonas, 1852). Vivia na antiga Barra, depois Manaus — que veio a ser a capital da província do Amazonas —, um grupo restrito de moradores: brancos, de origem estrangeira, especialmente portuguesa, alguns brasileiros, comerciantes e profissionais liberais. A estes se somavam os funcionários da administração do Império designados para a instalação da província, os quais trouxeram profissionais capacitados a iniciar na nova unidade do Império o serviço de imprensa e a criação de pequenas manufaturas, configurando um conjunto de transformações que promoveriam a consolidação da província e reforçariam a presença do Estado monárquico. A inserção do Amazonas na dinâmica da ordem monárquica promoveu a emergência de um modo de vida mais citadino, com a fixação de maior número de indivíduos que trabalhavam para a consolidação, reprodução e controle da referida ordem. A implantação da capital da província conjugou-se às tarefas administrativas e à fundação de instituições nacionais até então ausentes naquele domínio, ponto comum a outros contextos latino-americanos (Morse, 1973). Além das atividades relativas aos impostos, aos fluxos de pessoas e mercadorias, à manutenção da ordem e controles exercidos pelo Estado, concorriam também as que incidiriam sobre a internalização dos controles, os autoconstrangimentos, os comportamentos calculados e percebidos como expressivos de condutas civilizadas. Nos processos de implantação da província e formação da elite operavam as duas dimensões do avanço do processo civilizador, conforme propõe Elias (1990 , 1987).
     A população de Manaus na década de 1850 era predominantemente de índios e caboclos, aspecto que não passa despercebido aos já referidos viajantes. Os registros assinalam a notável presença indígena na composição das primeiras famílias, as chamadas "famílias mais antigas". Os nomes de família originários deste período mantêm-se por mais de três gerações, o que é um dado significativo de continuidade e permanência. Era freqüente o casamento entre brancos e mulheres indígenas, que tanto resultava em um caminho de abrasileiramento de estrangeiros quanto em uma forma de assimilação dos indígenas, tal como já propusera, por exemplo, a lei do diretório pombalino,6 atualizando no século XIX as práticas implantadas no período colonial. Desde então, portugueses e demais estrangeiros estabeleceram descendência e, com isso, garantiram a permanência de nomes de projeção na vida social local.
     É o caso de Enrico Antony, nascido na Córsega e, já na década de 1820, instalado na antiga sede da capitania do Rio Negro. Representava o imperador no Amazonas, quando ainda não havia sido constituída a província do Amazonas. Na antiga Barra do Rio Negro, o italiano gozou de notável prestígio, atuando junto aos índios remeiros e fornecendo montaria, imprescindíveis para dar prosseguimento às viagens antes do evento do vapor.7
     Antony transitava por diferentes domínios da vida social, resultado de sua posição de liminaridade característica da condição de estrangeiro (Simmel, 1983), de suas atividades cotidianas como político e comerciante e do estabelecimento de laços primários consolidados com o casamento e o compadrio com os índios mura (Herndon,1853). De poucas posses materiais,8 dispunha, no entanto, de um significativo capital simbólico — de relações sociais —, tornando-se um homem de prestígio, status e poder.
     Outras trajetórias demonstram a importância do casamento como estratégia de inserção e aceitação junto à sociedade local. Não apenas os estrangeiros realizaram este tipo de união: as mulheres de origem indígena (caboclas) por muito tempo foram mais numerosas, como mostra o Recenseamento Geral de 1872.
     Algumas das características da biografia de Antony são comuns a indivíduos que conviviam na pequena cidade de Manaus, como, por exemplo, as muitas dimensões em que atuavam, dedicando-se ao comércio, preenchendo cargos político-administrativos, fazendo a mediação entre nativos e autoridades do governo central ou entre o governo e os estrangeiros que visitavam a remota província.


A ampliação da elite: profissionais liberais, exportadores e importadores

     Entre meados do século XIX e a instauração da República, o povoamento da província do Amazonas intensificou-se, aproximando-se em 1890 de 150 mil almas, das quais 50% eram de indivíduos oriundos do Ceará (Reis, 1931, p. 219). Em 1876, comenta Reis, chegaram a Manaus cerca de seis mil retirantes, que depois se espraiariam pelo interior; ainda assim é expressiva a ampliação da população fixada na capital: de 5.081 pessoas recenseadas em 1852, chega-se a 38.720 contabilizadas em 1890, 52.040 em 1900, e oitenta mil em 1908.
     São muitas as trajetórias familiares que respaldam a afirmativa de que a sociedade amazonense de elite, seus valores e estilo de vida foram notavelmente marcados pela influência de indivíduos das províncias da Bahia, Pernambuco, Piauí, Alagoas, Ceará, Paraíba, Rio Grande do Norte e Maranhão. Oriundos das áreas distantes da plantation de cana-de-açúcar, como a grande maioria dos trabalhadores incorporados à produção de borracha, distinguem-se destes últimos por sua origem social, pela formação escolar e pelo lugar que a ida para o Amazonas preenche como parte de suas estratégias de mobilidade social.
     Os dados relativos às histórias de vida daqueles que compõem o principal fluxo de indivíduos incorporados à elite de Manaus conjugam-se a um fenômeno mais amplo descrito por Gilberto Freyre (1980) como a urbanização brasileira e o aburguesamento das elites agrárias no século XIX. A ida para Manaus é expressão de estratégias individualizadas, em que a escolha da próspera capital era realçada por seu valor simbólico, permitindo a passagem definitiva para um modo de vida urbano, pautado na qualificação profissional e nas carreiras meritocráticas. É certo que, na virada do século, ampliou-se em Manaus o mercado de trabalho para profissionais liberais: advogados, farmacêuticos, engenheiros e médicos.9 Por sua vez, estes jovens, portadores de um notável capital simbólico, foram facilmente incorporados à sociedade amazonense; além da inserção profissional, casaram-se com as filhas de famílias já estabelecidas na cidade. É com o casamento do ‘pioneiro’, já em Manaus, que tiveram início muitas das famílias reconhecidas como ilustres. Ampliou-se, portanto, nas décadas finais do século XIX e primeira do século XX, o rol de nomes das famílias da ‘alta sociedade’. É o que revelam as trajetórias de herdeiros de fazendas no sertão do Ceará e Piauí, que, depois de terem completado os estudos nas faculdades de Medicina da Bahia ou Direito em Recife, vão para o Amazonas, e decidem se casar e ‘fazer família’. Subjacente a esta decisão repousa a ruptura com o modo de vida de seus antepassados fazendeiros no sertão nordestino, embora tal ruptura não signifique o abandono das propriedades familiares nos locais de origem.10
     Mas, além dos profissionais liberais, também foram incorporados à elite os comerciantes. Operava-se em Manaus uma notável distinção entre o comércio a varejo e o comércio a grosso, de competência dos "comerciantes matriculados",11 assim reconhecidos e respeitados na praça. Esta é a história de um senhor nascido na Paraíba que decide ir para o Amazonas em 1870, num momento em que ser portador de um diploma ainda não é a principal característica dos que foram incorporados à elite. Ali chegando, tornou-se "comerciante matriculado", dono de um trapiche. Como comerciante atacadista e proprietário de desembarcadouros, escapou do tradicional comércio dos rios e assumiu uma posição de destaque na hierarquia social local. Munido desse capital simbólico, casou com uma das filhas de um importante comerciante português estabelecido na praça de Manaus e tornou-se o ‘patriarca’ de uma família de notáveis amazonenses. Observa-se nas trajetórias de seus descendentes o afastamento da atividade comercial em favor das carreiras profissionais liberais e da inserção na política e administração pública, comportamento recorrente a outras situações latino-americanas.12
     Em Manaus, a desvalorização da atividade comercial pelos filhos das famílias tradicionais está associada à crescente incorporação de estrangeiros, nas mãos de quem se manteve, predominantemente, o comércio e a exportação no período em que a elite amazonense ganhou maior projeção, favorecida pelo incremento da economia gomífera. O aumento do número de indivíduos ligados a profissões liberais não é particular à sociedade amazonense ou às famílias da elite que se consolidava. No contexto específico aqui considerado, significou, no entanto, o fortalecimento das bases familiares, à medida que indivíduos de uma mesma família expandem seu campo de atuação; ampliam-se as oportunidades de incorporação dos jovens nas carreiras políticas, nas esferas de atuação técnicas — e daí a valorização das carreiras profissionais de muito promovidas e estimuladas pelos cofres públicos.13 Diante dos ricos exportadores europeus ou dos funcionários das firmas estrangeiras encarregadas da prestação de serviços urbanos, afirmava-se a elite de nacionais cujos filhos ou genros ocupavam cargos prestigiosos: médicos encarregados da saúde pública, engenheiros vinculados à prefeitura, advogados, promotores e juízes.
     Além de comerciantes e profissionais liberais, há referências a jovens chegados a Manaus que fizeram fortuna em atividades estreitamente ligadas à modernização — expressas num conjunto de transformações das quais se ocuparam sucessivas administrações entre 1892 e meados da década de 1900. Novos loteamentos estimularam o mercado urbano de terras e, além dos corretores, não raro foram os agrimensores que enriqueceram com a demarcação de terras fosse na cidade, fosse no interior, quando se tratou de demarcar seringais. Estes profissionais, embora não dispusessem dos títulos de escolaridade, acumularam prestígio e fortuna, o que lhes facultou a aceitação nos ambientes sociais freqüentados pela ‘alta sociedade’ ou pelas ‘famílias.’ Desfrutaram a vida citadina de então, animada pela intensificação das formas de interação social, correlata à ampliação dos espaços públicos trazida pelas reformas que remodelaram a cidade. Estes recém-chegados são parte do público freqüentador das temporadas teatrais, dos bailes e banquetes, do convívio com os europeus.
     Embora sejam comuns as referências a nordestinos que vieram a ser ‘patrões’ em seringais, não parece, pertinente considerá-los como promotores da ampliação da elite no período aqui discutido.14 Além dos nordestinos, há evidentemente estrangeiros que também se dedicaram à exploração dos seringais. Em qualquer dos casos, os que se tornaram patrões de seringais não participaram, com a mesma freqüência e visibilidade, dos círculos sociais, das redes de interação social que caracterizam a Manaus da virada do século e da década de 1900. Nesse sentido, reforça-se o caráter urbano da atuação da elite amazonense, em que grandes comerciantes, profissionais liberais e políticos promoveram o "acontecimento da borracha" e garantiram uma intensificação da sociabilidade característica do período em que se ampliam as redes de relações familiares e os compromissos políticos.
     É destes homens e mulheres que falam as crônicas sociais sobre a vida mundana nos principais jornais e tablóides dedicados à vida teatral (O Boato Theatral). Esses comentários, que dão conta das expectativas sociais, das tensões e disputas entre indivíduos e grupos, dos valores de aceitação geral, pouco se detinham na atuação dos patrões de seringais. Para estes, por sua vez, a ida à capital estava mais ligada ao calendário da extração da seringa, ao embarque da borracha e à compra de gêneros para o abastecimento do seringal do que propriamente à participação nos rituais de consagração social, onde a elite urbana dava sentido à sua existência. Essas observações permitem, também, que se relativize a importância dos lucros da borracha e, portanto, da riqueza, como base da hierarquia de prestígio na sociedade amazonense. Em compensação, pertencer à elite resulta de uma "cotação social em prestígio" (Elias, 1987, p. 72), pautada na apreciação da posição social dos indivíduos no que se refere ao controle da origem familiar, ao conhecimento das redes de relações familiares, aos compromissos políticos e ao capital cultural de cada um.

Os estrangeiros e a elite

     No final do século XIX, a presença cada vez mais expressiva de estrangeiros traz novos elementos à formação e atuação da elite.15 É também no espaço da cidade que sua presença é mais evidente, como indicam os registros comerciais e relatos de viajantes na década de 1880.16 Proprietários de ascendência alemã, inglesa, francesa têm seus nomes estampados nas fachadas das casas comerciais ao lado dos portugueses, que ocupavam as principais ruas da cidade. O cosmopolitismo está bem noticiado nos jornais, onde se anunciam os serviços de tradução, os de naturalização (Burns, 1961) e os de ensino de línguas por estrangeiros natos. São numerosas as estatísticas do movimento de entrada e saída nos portos de Manaus e Belém como expressão do seu caráter cosmopolita no início de 1900.
     A presença dos estrangeiros na vida urbana apresentava-se diversificada e refere-se a uma nítida divisão das áreas de atuação. A lista de iniciativas e investimentos capitaneados por ingleses é vasta, observando-se que trabalhavam em companhias de navegação, na implantação e administração de serviços urbanos, nas melhorias urbanas e na exploração de seringais. Sua presença na vida da cidade era de tal modo marcante que a eles está associada uma temporalidade particular e uma série de comportamentos sociais, de hábitos, dignos do "tempo dos ingleses". Franceses, belgas e alemães foram bem menos numerosos e sua atuação esteve vinculada não só às representações das casas comerciais européias e à exportação, mas também à prestação de serviços urbanos.
     Indivíduos não-nacionais apenas excepcionalmente foram registrados como parte da elite, sobretudo por não serem reconhecidos como integrantes do restrito grupo de famílias da ‘alta sociedade’. Os estrangeiros muito contribuíram para a consolidação dos negócios da borracha e, embora não tenham sido significativamente incorporados às famílias da elite, foram cruciais para a consolidação da mesma. As diferentes presenças nacionais e o cosmopolitismo atribuído ao período em que conviveram na pequena cidade — movidos pelos interesses na exportação da borracha — promoveram um sentimento de comunhão de valores e gostos expressivos da ‘civilização’ e do progresso. No convívio cotidiano, os estrangeiros forneceram um importante contraponto para os valores e padrões de comportamento da sociedade amazonense associada à "Manaus moderna". Estrangeiros e nacionais interagiam não apenas nas situações mais corriqueiras — lojas, prestação de serviços urbanos — como também em situações ritualizadas, como os banquetes no Teatro Amazonas e as apresentações da lírica. A Associação Comercial do Amazonas, que contava em seus quadros com alguns estrangeiros, também pode ser vista como expressiva instituição de integração entre não-nacionais e os vários estrangeiros. Por sua vez, estrangeiros radicados no Amazonas desempenharam importante papel de mediadores entre os interesses da elite amazonense e seus compatriotas, como foi o caso do conde de Stradelli.17
     Os grandes negociantes portugueses destacam-se na discussão sobre a formação e consolidação da elite amazonense (Reis, 1976, 1931; Weinstein, 1993; Benchimol, 1999, 1995). No final do século XIX, a migração estrangeira para o Brasil era sobretudo de italianos e alemães, na Amazônia, mas os imigrantes portugueses permaneciam com a posição hegemônica (Fausto, 1995). Sua atuação é visível em diferentes domínios da vida urbana, fosse em Manaus ou em Belém. A migração portuguesa e sua grande duração contou com a significativa atuação dos grandes negociantes, que enviavam dinheiro para Portugal e alimentavam, assim, o fluxo de conterrâneos em direção ao Amazonas. Os portugueses gozavam de amplo reconhecimento social e de notável prestígio, advindos de sua atuação histórica em diferentes domínios da vida econômica e social. Presentes como comerciantes majoritários na praça de Manaus, desde antes da formação da província, quando cuidavam da importação, exportação e da comercialização de numerosos produtos, a complexificação da economia gomífera gerou a especialização de sua atuação. Na virada do século, os portugueses eram responsáveis pela importação de bens de consumo e por sua distribuição para o interior, de onde recebiam os gêneros e produtos do extrativismo, como donos das casas aviadoras e recebedores de borracha. Participavam da Associação Comercial do Amazonas, uma das mais notáveis instituições de elite, a qual extrapolava suas atribuições relativas ao mundo dos negócios, promovendo saraus e tertúlias que animavam a vida social da cidade, quando a presença de estrangeiros e brasileiros recém-chegados era expressiva. Os portugueses tiveram um importante papel como porta-vozes dos interesses locais, sendo significativa, ainda na década de 1860, sua atuação, tendo, em vista a abertura dos portos e a implantação da navegação a vapor na bacia do Amazonas. A mediação portuguesa — por intermédio de grandes comerciantes — aparece em diferentes situações representativas dos interesses e das escolhas da elite. Os negócios com a borracha atualizaram uma relação secular que se prolongou para além da permanência dos demais europeus, permanência esta restrita, na maioria dos casos, aos anos em que a borracha foi um bom negócio.
     Os valores, as atitudes, as formas de sociabilidade, as expectativas sociais de indivíduos de origem nordestina nos segmentos de elite na cidade de Manaus, sem dúvida fornecem as bases mais ‘tradicionais’ da sociedade que ali se consolidava e contrastam com a postura de indivíduos e grupos portadores de um ethos mais individualista e que também conviveram na cidade, cosmopolita e ruidosa da virada do século. Esta diferença promoveu eventuais distanciamentos e aproximações de ambas as partes. Torna-se particularmente visível em relação ao comportamento feminino, como indicam as trajetórias de mulheres descendentes de famílias da alta sociedade amazonense e de filhas de estrangeiros radicados em Manaus no final do século XIX. Estas últimas assinalam a submissão das mulheres ‘brasileiras’ às regras da casa paterna e à moral católica e a dedicação à vida doméstica.
     Excêntricos aos olhos dos amazonenses, os estrangeiros gozaram de amplo reconhecimento na vida local, ainda que em determinadas circunstâncias tenham sido alvo de restrições, o que resultou em distanciamento.
     As colocações aqui apresentadas quanto às especificidades das inserções dos muitos indivíduos que promoveram o acontecimento da borracha no contexto urbano sugerem ser temerosa uma interpretação estabelecendo identidades entre os interesses "extrativistas", os anseios dos "barões da borracha", a atuação dos "grandes importadores" e dos "exportadores" ou da "burguesia comercial" e o segmento urbano em que predominaram profissionais liberais e políticos. Há descontinuidades e áreas de atuação específicas que dizem respeito ao modo de implantação da empresa seringalista e às modalidades de exploração e comercialização da seringa, alteradas à medida que se consolidava a exploração dos seringais nos moldes do que Oliveira Filho (1979) denominou "modelo do apogeu".


A complementação dos estudos: uma estratégia de
distinção social

     O casamento possibilitou a ampliação das famílias de elite e a incorporação seletiva dos que chegavam à cidade. É, no entanto, significativa para o entendimento da gênese da consolidação da elite amazonense a ênfase dada à formação escolar. Numa sociedade de poucos recursos, em que as fortunas originárias da propriedade da terra e os títulos de nobreza eram inexistentes, a formação escolar emerge como um dos mais legítimos recursos de diferenciação social. Os reduzidos recursos familiares e a inexistência de instituições educativas que garantissem o prosseguimento dos estudos resultam na necessária saída da cidade para "complementação dos estudos", expediente de alto custo e quase sempre inafiançável pelas famílias. Durante a segunda metade do século XIX, apenas em alguns poucos casos esta estratégia de distinção social parece ter sido financiada pelos recursos familiares oriundos das atividades comerciais e do exercício profissional. Os dados permitem observar que a província do Amazonas, depois estado, subsidiou parcial ou integralmente os estudos, no exterior, de muitos filhos da elite. Assim argumentavam os políticos na assembléia provincial em favor da concessão de subsídios para a "complementação dos estudos".18 Trata-se de uma forma de reconversão de recursos familiares oriundos do prestígio que o exercício das funções públicas e dos cargos políticos facultava. A "reconversão" seria, nos termos de Bourdieu (1979), a capacidade de alguns indivíduos de tornar socialmente significativos e promotores de distinção os três diferentes tipos de capital: o financeiro, o cultural e o de relações sociais. Possuí-los não garantiria determinada posição no espaço social, pois esta não é dada apenas pela riqueza, mas pela capacidade de conversão de recursos e de imposição de visões de mundo específicas.
     Dessa forma, a escolaridade foi um diferenciador social, sobretudo pelas dificuldades impostas à concretização dos estudos secundário e superior para os que viviam no Amazonas. O subsídio à formação dos jovens amazonenses foi prática comum naquela sociedade: a educação era vista como investimento inquestionável de aprimoramento dos espíritos e construção da diferenciação social. Sair para estudar — com freqüência para obter uma profissão — forneceu as bases sobre as quais a elite se consolidou. Aos que retornavam, após os anos de formação, era garantida a inserção na vida urbana, através do exercício de cargos públicos. Investidos de capital simbólico — sintetizado na viagem para fora e na conquista de um título —, estes indivíduos distanciavam-se do restante da população e adquiriam as marcas de valor, quando eram reduzidas as diferenças pautadas na riqueza ou em títulos de nobreza.
     Entre outros, Manoel Coelho de Leão, filho de comerciante português, recebeu abono de 800$000 como parte do subsídio para que completasse os estudos em ciências eclesiásticas na Europa. João Carlos Antony, filho mais velho do italiano Henrique Antony, foi cursar arquitetura em Florença, onde se encontrava em 1856, na casa de seus familiares. Depois de formado, voltou para Manaus e foi incorporado aos quadros do funcionalismo, atuando junto à municipalidade como arquiteto. Durante pelo menos o ano de 1871, Joaquim Manoel Ribeiro Palheta obteve subsídios para o estudo de matemática em Louvain. Monteiro Tapajós, comerciante e político radicado em Manaus na década de 1850, teve dois dos numerosos filhos como estudantes na Itália. Favorecidos pelos recursos da província, como consta nos documentos da Assembléia Provincial, onde seu pai atuava como deputado, os dois receberam 600$000 como subsídio aos estudos e permanência fora, respectivamente em junho de 1881 e maio de 1894 (Tapajós, 1979).
     Frederico José de Santana Nery, filho de major paraense destacado para implantar a província do Amazonas, nasceu no Pará em 1848. Aos 14 anos, deixou o Amazonas em companhia do bispo do Pará e foi para a França, onde concluiu os estudos no seminário; em 1867, tornou-se bacharel em letras e ciências, e não seguiu a carreira eclesiástica. Em seguida, doutorou-se em direito pela Universidade de Roma e radicou-se em Paris, onde, inclusive, casou. Na capital francesa, projetou-se como jornalista e escritor, participando de associações literárias e culturais; escreveu e publicou estudos filosóficos e de crítica literária; por muito anos foi correspondente do Jornal do Commercio do Rio de Janeiro. Foi reconhecido divulgador do Brasil em diferentes exposições, tanto quanto do Amazonas. Embora tenha vivido na França, Santana Nery manteve estreitos vínculos com o Amazonas como representante oficial
(Daou, 1998, cap. II). Desempenhou bem-sucedido papel de mediador na sociedade francesa, e na Europa de modo geral, como porta-voz de seu O país das Amazonas.19 Gozava de ampla aceitação junto à elite do Império, "como embaixador de nosso progresso" (Nery, 1905); alcançou projeção junto ao meio literário francês e foi reconhecido publicamente por Victor Hugo; teve uma de suas obras prefaciadas pelo príncipe Roland Bonaparte. O barão de Santana Nery20 expressava, do ponto de vista da elite do Amazonas, um caso paradigmático de ascensão social pelo mérito e de notável capacidade de transitar entre diferentes círculos sociais. Sua trajetória singulariza-se por ter permanecido fora do Amazonas, o que veio a fortalecer a atuação, a posição e as redes de relações de seus numerosos irmãos mais novos, que ocuparam cargos de prestígio e poder, como governadores e políticos, por pelo menos uma década.
     A estratégia de que os estudos de "filhos do Amazonas" fossem subsidiados pelo governo se manteve também na vigência do regime republicano,21 quando os cofres públicos recebiam mais recursos em função da exportação da borracha e da descentralização fiscal promovida pela República. A riqueza da borracha, pelo menos no que diz respeito à elite amazonense urbana, não garantia o financiamento dos estudos da prole, consagrando-se, assim, o subsídio do governo como expressão da estratégia utilizada pelos que acumulavam funções políticas, administrativas, com as de profissionais liberais e mesmo de comerciantes.
     Sair para estudar, embora revertesse em mérito individual, era reconhecido e observado como expressão de uma conquista da coletividade e significava, igualmente, mútuos compromissos estabelecidos entre as famílias. Os periódicos noticiavam o vaivém de estudantes, os comunicados de partida. As iniciativas reiteravam o valor social da saída para os estudos e davam legitimidade aos pedidos de ajuda levados à Assembléia Estadual, consagrando-se, afinal, um dos mecanismos de construção da distinção social naquela sociedade.
     No início do século XX, a efervescência social propiciada pelo aumento das exportações facultou alterações no estilo de vida, nos hábitos de consumo e permitiu a determinados segmentos sociais o financiamento da educação dos filhos, sem que recorressem aos cofres públicos. É o caso de filhos e também das filhas22 de exportadores de borracha, de grandes construtores ou mestres-de-obra, recebedores ou mesmo de patrões de seringal que estudaram no exterior e viveram na Europa parte da infância e juventude. Para estes, a viagem ao exterior e o retorno não implicou a mesma consagração e facilidade que recaíam sobre os filhos das famílias tradicionais.
     Viajar tanto possibilitava um distanciamento da ‘província’, quanto facultava o aprendizado de uma língua estrangeira, o enquadramento do gosto e dos hábitos de consumo, enfim um ‘refinamento’ que resultava em importante capital simbólico. As trajetórias e biografias dos jovens que saíram para estudar, por todo período analisado, indicam, no entanto, que foram as carreiras construídas nas escolas de formação nacional, ou simplesmente a passagem por estas instituições, as que maiores dividendos políticos propiciaram. Distinguem-se as formações obtidas de forma isolada — em escolas de Louvain, Paris, Coimbra ou Florença — daquelas realizadas nas instituições brasileiras. As saídas concretizadas pelos filhos das segundas gerações, em direção às escolas no Rio de Janeiro (engenharia), na Bahia (medicina) e em Recife (direito) favorecem a aproximação dos amazonenses de outros segmentos da elite nacional, nos moldes da socialização que marca a formação de uma "elite técnica" às vésperas do golpe republicano (Castro, 1995, p. 51). Sem dúvida, na passagem do Império para a República, a socialização a que estavam expostos os alunos de escolas como a Militar do Rio de Janeiro teve implicações para a visibilidade política da elite amazonense. Nota-se, ainda, que, no caso das escolas nacionais, especialmente a passagem pelas escolas militares, a conclusão do curso, em alguns casos, importou menos do que as conexões e conhecimentos travados com os colegas brasileiros. Além do contato com os estudos "científicos" envolveram-se com "a elite intelectual da sociedade brasileira", exatamente aquela formada pelos jovens militares que disputavam espaço e poder com a elite tradicional. A passagem pelas escolas nacionais possibilitou o estabelecimento de amplas redes de relações sociais tecidas entre indivíduos que ocupariam cargos de destaque por todo vasto território nos primeiros anos da República.
     À medida que se aproxima o final do século XIX, nota-se uma tendência à especialização da elite de Manaus, no que diz respeito às atividades que exerceu ou aos cargos que desempenhou. O aumento da capacitação profissional dos jovens amazonenses corresponde ao afastamento das atividades estritamente ligadas ao comércio, permanecendo a agricultura, a coleta e o desbravamento dos rios como atividades dos mais velhos — a primeira geração
—, pois a elas não mais se dedicaram seus filhos. Os filhos da segunda e terceira gerações buscam se profissionalizar, o que lhes vai garantir o exercício de profissões liberais ou o acesso imediato aos cargos do funcionalismo e da política.
     É importante considerar ainda que nessa mesma ocasião a exportação, agora dominada pela produção gomífera, caía nas mãos dos estrangeiros, que em número acentuado vieram a se fixar no Amazonas. Houve, com isso, uma redefinição da divisão do trabalho: aos estrangeiros cabia a exportação da borracha e parte da importação; aos portugueses, a distribuição de gêneros por todo interior; e aos nacionais, o mais radical afastamento do mundo dos negócios. Observa-se, portanto, que a economia da borracha promoveu uma especialização e recaiu sobre a elite urbana o exercício das atividades distanciadas do comércio, realizando o que é sugerido pelo autor do Dicionário (Bittencourt, op. cit.), no sentido de que a seleção por ele operada expressava o conjunto dos homens que, por suas atitudes, foram considerados "instrumentos e sinais da civilização" (daí o título deste artigo), sintetizando-se nessa idéia os ideais da própria elite quanto a uma representação de si e de seus propósitos. As histórias de vida obtidas junto aos descendentes de biografados e a análise dos verbetes do Dicionário evidenciam o esforço destes indivíduos em direção ao aprimoramento pessoal e à distinção. A educação, a freqüência ao teatro, as viagens à Europa favorecidas pelo vaivém dos navios, a aproximação geográfica com os estrangeiros no convívio citadino estimularam o sentimento de comunhão dos benefícios do progresso e das benesses da civilização. Assim, em uma formação social em que inexistiam as marcas de diferenciação social decorrentes das origens aristocráticas, e a propriedade da terra não promovia, de imediato, status e prestígio, a educação, ou melhor, a saída para complementação dos estudos, assumia papel central na formação das classificações sociais e da distinção.


O teatro como palco da elite: o cenário da consagração

     O Teatro Amazonas, inaugurado em 1896, é um edifício cheio de significados, seja como instituição que prestigia a cidade e seus moradores seja enquanto lugar privilegiado da memória social, ou, ainda, como opera house reconhecida internacionalmente (Hobsbawm, 1994). Muitas vezes identificada com o "teatro supercênico" (Freyre, 1990), a elite amazonense fez do nobre edifício um símbolo de sua identidade. É como espaço privilegiado de consagração da elite que este será aqui considerado.
     Na década de 1900, quando se apresentaram grandes companhias de óperas e operetas, a freqüência ao Teatro Amazonas promoveu o aparecimento de determinados comportamentos próprios a uma "platéia elevada". É o que retratam as crônicas teatrais em que o fulcro dos comentários e da fofoca social são as famílias e os filhos da elite urbana. Os espetáculos mais dignos de uma platéia civilizada constituem-se em rituais de consagração da elite da borracha. São momentos de reafirmação e reforço das marcas da distinção social, cuja adesão explicita um estilo de vida, um tipo de comportamento e ainda o acesso a determinados bens de consumo considerados civilizados, cujo cenário privilegiado era a chamada "Manaus moderna".23 Os paletós masculinos, os toaletes femininos desfilam a última moda; na exibição dos chapéus, constatava-se a competência e intimidade com o uso do adereço; o comportamento nos intervalos musicais, quando o esperado era a circulação pelos corredores, denunciava o valor, o traquejo social de cada um. As noites de gala forneciam verdadeiros espetáculos de exibição dos hábitos de civilização e da adesão aos ideais de progresso identificados com a belle époque.24 A preocupação com as aparências, a demonstração de certos controles das emoções eram a oportunidade de verdadeira afirmação da posição e do valor social de cada indivíduo que freqüentava o espaço nobre de exibição da conduta civilizada (Elias, op. cit., p. 212).
     O Teatro Amazonas, na década de 1900, foi o centro mundano e político da alta sociedade amazonense. Desempenhou papel significativo como "uma instituição integradora das elites sociais" (Elias, 1987, p. 71) promovendo nos espetáculos líricos e teatrais ou, ainda, nos banquetes e bailes, a interação entre grandes exportadores, estrangeiros e nacionais, políticos e negociantes.

Conclusão

     A noção de expectativa proposta no início deste artigo contribuiu para se entender a elite como grupo cuja atuação não apenas derivou da existência de expectativas em comum, como a promoveu em ações que fixaram a unidade do grupo e lhe deram forma e visibilidade social. Entre essas ações, foram indicadas aquelas que promoveram a complementação dos estudos de indivíduos que assim se veriam como promotores da civilização, sendo eles mesmos expressões dessa conquista. Assim, a auto-representação da elite da borracha refere-se às expressões de refinamento resultantes do acesso à escolaridade, da expressão cotidiana de hábitos considerados civilizados, constituindo-se o Teatro Amazonas, inaugurado em 1896, seu cenário privilegiado no contexto da cidade transformada na década de 1890.
     À preeminência e exclusividade da borracha na pauta de exportações, no Amazonas a partir da década de 1880, corresponde uma especialização das atividades políticas e econômicas entre as esferas de atuação da "elite tradicional" e daqueles que ali chegavam e cujos interesses eram dirigidos para a comercialização da borracha e atividades correlatas, especialmente as chamadas casas aviadoras, as firmas de seguros e o comércio de bens de consumo. A comunidade mercantil ampliada não era uniforme quanto às origens sociais e interesses, dela participando brasileiros e estrangeiros que atuavam diferenciadamente no longo percurso que culminava com o recebimento da borracha (em Manaus) e sua exportação, envolvendo ainda a ampla rede de distribuição de bens de consumo para todo interior.
     A elite da borracha resultou da interação entre esses dois segmentos, em função dos interesses mútuos que se estabeleceram no sentido da realização dos negócios da borracha. Os amazonenses foram os mediadores entre os interesses dos exportadores e as expectativas locais de afirmação das posições sociais e de implantação das marcas de progresso e civilização no distante Amazonas. A educação e as estratégias empreendidas no sentido de sua realização foram notáveis elementos de construção da distinção e do estabelecimento de compromissos mútuos entre os indivíduos da elite, fossem eles políticos, comerciantes ou profissionais liberais. A diversidade de percursos, as diferentes escolas cursadas em locais escolhidos, muitas vezes, em função da ascendência paterna ou da origem familiar, não garantiam, no entanto, uma socialização homogênea da elite, como o que foi observado para a elite política imperial brasileira (Carvalho, 1994). Quando os jovens amazonenses passaram a freqüentar as escolas nacionais, esboçou-se uma socialização, até então inédita, no sentido do conhecimento e da solidariedade estabelecida entre colegas de outras procedências. Sua trajetória assemelha-se à dos jovens militares republicanos (Castro, 1995), para quem a passagem pelas escolas do Rio de Janeiro ampliou o capital de relações sociais e favoreceu, especialmente no alvorecer da República, as conexões para fora do Amazonas.
     É nesse sentido que se pode afirmar que os mecanismos de socialização da elite foram dados sobretudo pela convivência na pequena cidade, por meio das redes de relações referidas à instituição familiar. Expectativas em comum e laços de interdependências, ainda tênues naquele contexto, aproximaram os agentes para além das instituições formais, de modo que se valorizaram as redes de relações estabelecidas pelo parentesco e pela afinidade. A interação social, intensificada na virada do século e na década de 1900, marcou a vida da capital — cosmopolita e mundana — (Burns, 1961), facultou a aproximação entre brasileiros e estrangeiros. Expandiram-se os círculos de interação social convergiram áreas de interesses e, por vezes, acentuaram-se as diferenças entre nacionais e estrangeiros. Mais do que pelo conteúdo da programação, o Teatro Amazonas consagrou-se como símbolo da elite, por ter sido palco de uma interação social específica em que a elite reforçou laços, reafirmou expectativas e se consolidou como grupo de poder, status e prestígio, reconhecendo-se como instrumento e sinal da civilização no país das seringueiras.

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Recebido para publicação em julho de 1999.
Aprovado para publicação em abril de 2000.

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