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História, Ciências, Saúde-Manguinhos

Print version ISSN 0104-5970

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.7 no.3 Rio de Janeiro Nov. 2000/Feb. 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59702001000600004 

 

 

 

 

A divulgação científica no Rio de Janeiro: algumas reflexões sobre a década de 1920

Scientific diffusion in Rio de Janeiro: some considerations about the 20s

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ildeu de Castro Moreira

Físico, professor e pesquisador do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
ildeu@if.ufrj.br

Luisa Massarani

Jornalista, doutoranda do Departamento
de Bioquímica Médica da UFRJ
massarani@server.bioqmed.ufrj.br

 

 

MOREIRA, I. de C. e MASSARANI, L.: 'A divulgação científica no Rio de Janeiro: algumas reflexões sobre a década de 1920'. História, Ciências, Saúde — Manguinhos, vol. VII(3): 627-651, nov. 2000-fev. 2001.

Neste artigo, fazemos um levantamento das atividades de divulgação científica desenvolvidas no Rio de Janeiro, na década de 1920, e discutimos as principais características das mesmas. No período, houve engajamento significativo de cientistas e acadêmicos nessas atividades. Como fio condutor, buscamos responder algumas questões básicas: Quais as principais características da divulgação científica feita na época? Quais os principais atores desse processo de divulgação científica? Como eles se organizaram? Quais os meios e instrumentos que utilizaram? Fizemos também uma análise geral das motivações, dos interesses e das perspectivas filosóficas e políticas da ciência naquela época, que se refletiram no tipo de divulgação científica produzida.

PALAVRAS-CHAVE: divulgação científica, década de1920, história da ciência no Brasil.

 

MOREIRA, I. de C. e MASSARANI, L.: 'Scientific diffusion in Rio de Janeiro: some considerations about the 20s'. História, Ciências, Saúde — Manguinhos, vol. VII(3): 627-651, Nov. 2000-Feb. 2001.

In this article, we collate data about the activities aimed at the diffusion of scientific knowledge, which were developed in Rio de Janeiro in the 20s, and we discuss their main characteristics. We also point out the significant involvement of members of the scientific and academic communities in such activities. The main research questions guiding the investigation are concerned with the identification of the main characteristics of scientific diffusion at the time, the main actors in such a process, their form of organization, the research means and instruments used. We also provide a general analysis of the motivations, interests, and the philosophical and political perspectives of science in the 20s, as reflected in the type of scientific diffusion produced at the time.

KEYWORDS: scientific diffusion, the twenties, history of science in Brazil.

 

 

 

 

 

 

 

1 Na década de 1920, usava-se a expressão 'vulgarização científica' para se referir ao que denominamos hoje 'divulgação científica'.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2 Reeditado pela Editora UFRJ em 1994.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

3 Para a elaboração da biografia de Amoroso Costa, foram usadas as seguintes fontes: Acervo Amoroso Costa/Mast (s. d.), (Roquete-Pinto (s. d.), Amoroso Costa (1981); Moreira (1995).

 

 

 

 

 

 

 

 

4 Reeditado pela Editora da UFRJ em 1995.

 

 

 

 

 

 

5 Reeditado pela terceira vez em 1981 pela Edusp.

 

 

6 Para a elaboração da biografia de Morize foram usadas como fontes, além das citadas ao longo do texto: Acervo Morize/Mas (s. d.); Roquete-Pinto (s. d.); Videira, (1997); Annaes (1930); Mourão (1987).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

7 Fontes usadas na elaboração da biografia de Roquete-Pinto, além das citadas no texto: Lins (1956); Gouvêa Filho (1955); Matheus (1984).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

8 Para a elaboração da biografia de Miguel Osório de Almeida, foram usadas as seguintes fontes, além das citadas ao longo do texto: Martins (1995); Roquete-Pinto (s. d.).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

9 Oswaldo Cruz seria um dos vice-presidentes, mas morreu naquele ano.

 

 

 

 

 

 

 

10 Alocução proferida no 'Círculo de professores' (Acervo Morize/Mast, s. d.).

 

 

 

11 Discurso proferido por ocasião do início da construção dos novos edifícios do Observatório Nacional, em 28 de setembro de 1913 (Acervo Morize/Mast, s. d.).

 

 

 

 

 

 

 

 

12 Alguns documentos da Rádio Sociedade podem ser localizados no acervo de Morize/Mast e da própria Rádio Sociedade. Esse último, considerado perdido durante décadas, foi reencontrado recentemente. Infelizmente, por falta de verba, foi novamente abandonado em um galpão no subúrbio do Rio de Janeiro.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

13 Os redatores de Sciencia e Educação não especificaram em que data foi elaborado o documento da ABC.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

14 Há referência explícita que tais conferências tinham propósito de divulgação científica. Exemplo disso é o discurso feito por Carlos Américo Barbosa de Oliveira, na ocasião em que transmitiu o cargo de presidente da ABE, em 22 de abril de 1927.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

15 Várias edições de Electron trazem a programação da Rádio Sociedade.

Introdução

     Ao iniciarmos a pesquisa que resultou neste artigo, procuramos estudos que tivessem abordado aspectos históricos da divulgação científica no Brasil. Quase nada encontramos. No entanto, pesquisando arquivos, localizamos um número relativamente grande de publicações e registros de outras atividades relacionadas à divulgação científica produzidas nos dois últimos séculos.
     Em particular, a década de 1920 presenciou, no Rio de Janeiro, aumento significativo nas iniciativas de divulgação científica. Além de se usar com mais intensidade jornais, revistas e livros, organizaram-se também conferências periódicas, abertas ao grande público, e utilizou-se o rádio para a difusão de informações de conteúdo científico e educativo (Massarani, 1998). Na época, houve também reflexão sobre a importância da divulgação científica,1 tendo sido escrito A vulgarização do saber, talvez o primeiro livro brasileiro a discutir o papel e as dificuldades dessa atividade no país. O autor, Miguel Osório de Almeida (1931, p. 237), escreveu: "A vulgarização científica bem conduzida tem, pois, por fim real, mais esclarecer do que instruir minuciosamente sobre este ou aquele ponto em particular. Mantendo constantemente a maioria das inteligências em contato com a ciência, ela virá criar um estado de espírito mais receptível e mais apto a compreender. Ela se destina mais a preparar uma mentalidade coletiva, do que realmente a difundir conhecimentos isolados."
     A década de 1920 foi também momento importante para a ciência do país. Nela, surgiu o embrião da comunidade científica brasileira que começou, em um movimento mais organizado, a lutar por melhores condições para que a ciência se desenvolvesse aqui. A criação de novas instituições científicas, a renovação daquelas já existentes e a valorização social da ciência e do cientista são alguns aspectos que marcaram a década. Defendia-se com vigor a ciência básica, vista então como 'pura' e 'desinteressada'.
     Faremos, nessa introdução, um apanhado das atividades de divulgação científica que ocorreram no Brasil a partir do início do século passado, momento em que, com a vinda da corte portuguesa, a proibição de imprimir foi suspensa. Iniciou-se então a publicação de livros, revistas e jornais, com a criação, em 1810, da Imprensa Régia. Onze anos mais tarde, passou a ser permitida oficialmente a importação de livros. Com isso, textos e manuais ligados à educação científica, embora em número reduzido, começaram a ser publicados ou, pelo menos, difundidos no país. Nesse período, os jornais O Patriota e o Correio Braziliense publicaram artigos relacionados à ciência (Oliveira, 1998). Após a independência política, essas atividades parecem ter sofrido redução em sua intensidade.
     Na segunda metade do século XIX, as atividades de divulgação voltaram a se intensificar em todo mundo, na seqüência da segunda revolução industrial na Europa, acompanhando as esperanças sociais crescentes acerca do papel da ciência e da técnica. Uma onda de otimismo em relação aos benefícios do progresso técnico — expressa, por exemplo, na realização das grandes exposições universais — percorreu o mundo e atingiu, ainda que em escala menor, o Brasil. Aqui, no período final do Segundo Reinado, a produção de pesquisa científica tinha caráter marginal, limitando-se a poucas pessoas, estrangeiras ou formadas no exterior, que realizavam atividades individuais, e em áreas como astronomia ou ciências naturais (Azevedo, 1995). O quadro geral da instrução pública e da educação científica era restrito a uma pequena elite, embora o interesse de d. Pedro II pela ciência tenha favorecido algumas atividades ligadas à difusão de conhecimentos. Elas tinham como característica marcante a idéia de aplicação das ciências às artes industriais.
     Um caso que exemplifica a intensificação do interesse pela divulgação científica é a Revista Brazileira Jornal de Sciencias, Letras e Artes, iniciada em 1857 e dirigida por Candido Baptista de Oliveira. O periódico publicava tanto textos de brasileiros como transcrições de artigos extraídos de publicações estrangeiras. Em 1881, Felix Ferreira criou Sciencia para o Povo, revista semanal que reunia obras de ciências popularizadas por escritores notáveis, nacionais e estrangeiros. Cinco anos mais tarde, começou a circular no país a Revista do Observatório, editada mensalmente pelo Imperial Observatório do Rio de Janeiro, que tinha o propósito de vulgarizar os conhecimentos astronômicos. De sua comissão de redação, constavam cientistas de destaque como Luis Cruls e Henrique Morize. Merece referência ainda o livro O doutor Benignus,2 publicado por Augusto Emílio Zaluar em 1875, um dos primeiros em nossa literatura a tomar a ciência como tema. Em estilo similar ao de Júlio Verne, Zaluar relata uma hipotética expedição científica ao interior do país.
     Em 1873, iniciou-se uma das atividades de divulgação científica mais significativas da história brasileira e que durou quase vinte anos: as Conferências Populares da Glória que, ao que parece, deixaram marcas na elite intelectual carioca (Fonseca, 1995-96; Correia, 1876). As palestras versavam sobre os mais variados assuntos, entre eles períodos glaciais, origem da Terra, doenças, taquigrafia, bebidas alcoólicas, ginástica, Luís de Camões, papel social da mulher, ensino particular e público, clima e Dante Alighieri. As Conferências Populares da Glória transformaram-se muitas vezes em palco para discussões polêmicas, como liberdade de ensino, criação de universidades e disputas entre concepções científicas. Miranda Azevedo, por exemplo, chocou muitos integrantes da platéia ao defender a controversa teoria da seleção natural de Darwin-Wallace, formulada alguns anos antes e ainda pouco conhecida no Brasil (Collichio, 1988). Por um período de dez anos, a partir de 1876, ocorreram também os Cursos Públicos do Museu Nacional, ministrados por pesquisadores da instituição, em especialidades como botânica, agricultura, zoologia, mineralogia, geologia e antropologia (Sá et al., 1996).
     Documento importante para a compreensão do quadro da divulgação científica da época foi redigido pelo biólogo francês Louis Couty (1854-84), que veio ao Brasil a convite de d. Pedro II para lecionar biologia aplicada na Escola Politécnica do Rio de Janeiro. Preocupado com o desenvolvimento da ciência brasileira e muito ativo nesse particular, Couty (1879), escreveu um artigo na Revista Brazileira, em que discorreu sobre a situação da divulgação científica na Europa — atividade muito intensa naquele momento — e em que propôs um programa de popula-rização da ciência no nosso país.
     No período posterior a essa época — última década do século XIX e primeiros anos do século XX —, observa-se que as principais atividades de divulgação científica sofreram redução apreciável, com possíveis exceções de caráter regional. Essa redução não parece ser um fato isolado, estando relacionada à diminuição similar no contexto internacional. Por outro lado, do ponto de vista da ciência brasileira, tocada pelas necessidades de saneamento do Rio de Janeiro, houve nesse momento um acontecimento importante: a institucionalização e a consolidação da pesquisa na área biomédica, traduzida na criação do Instituto de Manguinhos.

A década de 1920: por uma ciência acessível

     Um marco determinante na abertura do período, que se caracterizou pela retomada das iniciativas de divulgação científica no Rio de Janeiro, foi a criação, em 1916, da Sociedade Brasileira de Ciências (SBC), que se transformaria depois na Academia Brasileira de Ciências (ABC).
     Em 1923, foi criada a primeira rádio brasileira, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro. Significativamente não foi fundada pelo governo ou por alguma empresa privada, mas sim por um movimento de cientistas e intelectuais do Rio de Janeiro. Tinha propósitos educativos e de difusão científica, como atestam suas atas iniciais. A rádio era mantida por associação que congregava grande número de pessoas.
     A Associação Brasileira de Educação (ABE), que desempenhou, durante muitos anos, importante papel em defesa da educação pública no Brasil, foi criada em 1924. Ao longo da década, promoveu periodica-mente cursos e conferências de divulgação, feitas por professores e pesquisadores brasileiros e estrangeiros. Esses eventos recebiam boa afluência de público, sendo anunciados em jornais cariocas.
     Livros, vários deles traduzidos, e até coleções de divulgação, também foram publicados nesse período, além de muitos artigos em jornais e revistas. As visitas de alguns importantes cientistas estrangeiros, como Jacques Hadamard, Émile Borel, Paul Langevin, Marie Curie e, principalmente, Albert Einstein, despertaram interesse na imprensa, contagiaram a pequena comunidade acadêmica e atingiram um público mais amplo e diversificado. No terreno filosófico, na esteira de Otto de Alencar, promovia-se crítica intensa ao positivismo comtiano (principalmente por parte de Amoroso Costa), que exercia profunda influência nas escolas profissionais e na vida educacional e política brasileira.
     Sem dúvida, a década de 1920 foi um dos períodos mais férteis do ponto de vista da divulgação científica no Brasil. Para Miguel Osório de Almeida (1931, pp. 236, 235), "a divulgação da cultura científica traria como resultado a familiaridade de todos com as coisas da ciência e sobretudo uma consciência esclarecida dos serviços que estas podem prestar" . Dizia ele: "A vida moderna está cada vez mais dependente da ciência e cada vez mais impregnada dela."
     Os registros deixados em livros e artigos por esse grupo de cientistas e intelectuais, participantes ativos na divulgação científica naquela década, exibem algumas crenças e expectativas, quanto aos resultados dessa atividade, semelhantes, em muitos aspectos, às que se observam hoje. Em particular, uma atitude muito otimista, por parte de vários de seus proponentes, em relação ao potencial da divulgação e da educação científica por meio das novas tecnologias — na época, o rádio — similares ao que presenciamos atualmente com a Internet e, anos atrás, com a televisão. Acreditava-se, como muitos hoje, que as novas tecno-logias permitiriam uma disseminação barata, rápida e fácil dos conhecimentos, até os lugares mais remotos do Brasil. Essas iniciativas se coadjuvavam também com um espírito renovador, que refletia um aspecto cultural mais amplo e uma ânsia grande quanto à definição de brasilidade, existente também nas artes, como exemplificado na realização da Semana de Arte Moderna.

Atores do processo

     O crescimento das atividades de divulgação científica no Rio de Janeiro na década de 1920 está ligado ao surgimento de um pequeno grupo de pessoas — entre as quais Manoel Amoroso Costa, Henrique Morize, os irmãos Osório de Almeida, Juliano Moreira, Edgar Roquete-Pinto, Roberto Marinho de Azevedo, Lélio Gama e Teodoro Ramos —, que participaram intensamente de várias atividades que começaram a traçar um caminho para o desenvolvimento da pesquisa básica e para a difusão mais ampla da ciência no Brasil. São professores, cientistas, engenheiros, médicos e outros profissionais liberais, ligados em geral às principais instituições científicas e educacionais do Rio de Janeiro, e que tinham como estratégia o desenvolvimento da pesquisa científica. Buscavam ainda a construção da identidade de um novo tipo de intelectual no Brasil: o cientista puro (Ferreira, 1993).
     Embora tenham sido várias as pessoas atuantes nesse processo, muitas das quais terão seus nomes citados neste artigo, concentramos nossos esforços em conhecer as atividades realizadas por quatro cientistas: Amoroso Costa, Henrique Morize, Edgar Roquete-Pinto e Miguel Osório de Almeida. Nossos critérios de seleção foram a inegável contribuição para a divulgação científica da época, além da diversificação das áreas de conhecimento em que trabalhavam (respectivamente, matemática, astronomia e física, ciências biológicas e antropologia). Faremos, a seguir, um esboço biográfico sucinto de cada um deles.

     a) Amoroso Costa3
     Nasceu no Rio de Janeiro, em 13 de janeiro de 1885. Estudou no Instituto Henrique Köpke, que estimulava o civismo e tinha um laborató-rio para experimentação em ciências. Ingressou na Escola Politécnica, formando-se em engenharia civil. Em 1906, colou grau como bacharel em ciências físicas e matemáticas e se tornou catedrático, em 1924, na Escola Politécnica. Participou da fundação da Sociedade Brasileira de Ciências, ocupando, nas duas primeiras diretorias da entidade (1917-20 e 1920-23), o cargo de segundo secretário. A partir de 1923, dirigiu ali a Seção de Ciências Matemáticas.
     A inserção de Amoroso Costa no movimento de renovação da educação das duas primeiras décadas do século fez com que, em 1928, ele assumisse a presidência da ABE. Em anos anteriores, Amoroso Costa presidiu a Seção de Ensino Técnico e Superior da instituição, na qual promoveu muitas palestras de pesquisadores brasileiros e estrangeiros, como as de Langevin e Hadamard. Várias das atividades foram financiadas pelo próprio Amoroso Costa, que pertencia a uma família de posses.
     Segundo Caffarelli (1995), foi o primeiro divulgador e expositor da teoria da relatividade de Einstein. Seu artigo inaugural sobre o tema foi uma notícia curta, publicada em O Jornal, em 12 de novembro de 1919. Nela, comentou os resultados das observações do eclipse, em Sobral (Ceará), que foram divulgados dias antes, em Londres, e que estavam de acordo com as previsões de Einstein. Em 1922, publicou Introdução à teoria da relatividade,4 livro que reúne conferências realizadas na Escola Politécnica. Trata-se de texto de excelente qualidade científica, claro e conciso e que tem uma característica ousada: a de pretender apresentar ao leitor brasileiro os elementos básicos de uma das mais importantes teorias físicas que, na época, constituíam um corpo de conhecimentos absolutamente novo.
     Suas conferências, voltadas para apresentar novas idéias a um público ilustrado de várias áreas científicas, ficaram famosas no Rio de Janeiro. As principais foram: 'Conferência sobre Otto de Alencar', 1918, na qual criticava as idéias positivistas; 'A filosofia matemática de Poincaré', 1920; 'A teoria da relatividade', 1922; 'As idéias fundamentais da matemática', 1926; 'As geometrias não euclidianas', 1927; 'A estrutura e a evolução do mundo sideral', 1927. A série de palestras sobre as idéias fundamentais da matemática resultou em livro com o mesmo título,5 publicado postumamente, em 1929. Além de importantes artigos científicos, Amoroso Costa escreveu também textos de divulgação em jornais, sobre outros temas, como as novas idéias na filosofia da ciência e na microfísica. No dia 3 de dezembro de 1928, no auge de suas atividades acadêmicas, morreu no trágico acidente do hidroavião Santos Dumont, que caiu nas águas da baía de Guanabara.

     b) Henrique Morize6
     Nasceu em 31 de dezembro de 1860, na França. Aos 14 anos, veio para o Brasil, onde permaneceu até sua morte. Ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro em 1880. Cinco anos mais tarde, tornou-se astrônomo do Imperial Observatório do Rio de Janeiro. Em 1890, formou-se engenheiro industrial.
     Em 1896, foi nomeado professor de física experimental da Escola Politécnica. Assumiu a direção do observatório em 1908. Chefiou, em 1919, a missão brasileira para a observação do eclipse solar total em Sobral. Participou da fundação da SBC, sendo eleito seu primeiro presidente, cargo em que permaneceu até 1926. Ativo participante da criação da Rádio Sociedade, foi, também, seu primeiro presidente. Morreu em 19 de março de 1930.
     Mais velho entre os quatro personagens ressaltados neste artigo, Morize já realizava atividades de divulgação científica desde o final do século XIX. Ele fez parte da equipe que criou, em 1886, a já citada Revista do Observatório. Ao longo das duas primeiras décadas do século XX, escreveu diversos artigos de divulgação científica sobre temas da astronomia, em particular cometas, e das geociências. Teve papel de destaque na pesquisa em várias áreas vizinhas à física e à astronomia, tendo iniciado os estudos de sismologia no Brasil. Em 1905, instalou, no Observatório do Castelo, instrumentos que lhe permitiram registrar sismos. Deu também importantes contribuições à meteorologia, em particular na organização de rede nacional de estações meteorológicas.
     Morize foi um dos primeiros a utilizar radiografias no Brasil, poucos meses após a descoberta de Roentgen (Moreira et al., 1998), feita em novembro de 1895. Criou também processo simples e rápido para localização de projéteis dentro do corpo, que foi publicado nos Comptes Rendus da Academia de Ciências de Paris (Morize, 1898). Desempenhou papel relevante na difusão do ensino experimental de física nas escolas superiores do Rio de Janeiro, no primeiro quartel do século XX, estimulando muitos jovens estudantes como os irmãos Osório e Roquete-Pinto.

     c) Edgar Roquete-Pinto7
     Nasceu no Rio de Janeiro, em 26 de setembro de 1884. Cursou a Faculdade de Medicina, formando-se em 1906, ano em que ingressou no Museu Nacional como professor. Naquele ano, publicou seu primeiro trabalho etnográfico. Incorporou-se à expedição Rondon, ao Mato Grosso, retornando em 1907; os resultados de suas investigações sobre os índios pareci e nambiquara foram reunidos em Rondônia (1975). Segundo Azevedo (1995, p. 423), essa obra "teve larga repercussão, por seu duplo interesse, geográfico e etnológico, e foi então acolhida como um modelo de monografia antropológica sobre as tribos indígenas da Serra do Norte".
     Sempre preocupado com a educação, Roquete-Pinto deu aulas de história natural no Colégio Aquino, no qual ele próprio estudara, e na Escola Normal. No que diz respeito ao ensino das ciências, escreveu 'A história natural dos pequeninos' (1927), que apresenta aspectos funda-mentais do ensino científico que deveriam ser levados em conta na sala de aula.
     Roquete-Pinto participou ativamente da Rádio Sociedade, em 1923, tendo tido a idéia de criá-la (Bodstein, 1984). Ele próprio era o apresentador do Jornal da Manhã. Em 1926, assumiu a direção do Museu Nacional. Em 1934, criou a Rádio Escola Municipal do Rio de Janeiro, hoje Rádio Roquete-Pinto. Dois anos mais tarde, fundou e dirigiu o Instituto Nacional de Cinema Educativo. Aposentou-se em 1947, tendo falecido em 18 de outubro de 1954.
     Foi um dos maiores defensores da radiodifusão educativa no Brasil, deixando vários trabalhos sobre o assunto. Seus artigos de divulgação, que têm como fio condutor a questão educativa e a valorização do homem brasileiro, estão espalhados por várias publicações da época, como as revistas Electron e Radio. Muitos deles foram reunidos nos livros Seixos rolados e Ensaios brasilianos. Além da radiodifusão, abordou assuntos variados, como a obra de cientistas brasileiros e estrangeiros (Amoroso Costa, Morize, Fritz Müller, Orville Derby, Frei Leandro e muitos outros), pesquisa básica, ciência e arte, literatura, populações indígenas, as tendências da medicina moderna etc. Participou ativamente de diversas atividades que envolviam o uso de novas tecnologias — rádio e cinema —, tendo visto a televisão ser difundida.
     Nas proximidades da morte, Roquete-Pinto declarou (Lins, 1956, p. 117): "Agora, o meu desejo é divulgar os conhecimentos das maravilhas da ciência moderna nas camadas populares. Essa a razão dos estudos que estou agora realizando. Eu quero tirar a ciência do domínio exclusivista dos sábios para entregá-la ao povo."

     c) Miguel Osório de Almeida8
     Nascido no Rio de Janeiro em 1o de agosto de 1890, Miguel é muitas vezes citado, pelos historiadores da ciência, juntamente com seu irmão Alvaro como os irmãos Osório de Almeida. Embora reconheçamos a importância que Alvaro teve na ciência brasileira, escolhemos apenas Miguel como personagem de destaque neste artigo, em virtude de suas contribuições específicas à divulgação científica.
     Como Amoroso Costa, Miguel estudou no Instituto Henrique Köpke. Cursou a Faculdade de Medicina e foi trabalhar, juntamente com Alvaro, em um modesto laboratório de fisiologia montado no porão da casa dos pais. Em 1915, a família Osório mudou-se e o laboratório ficou mais bem instalado. Branca Fialho, irmã de Alvaro e Miguel, também colaborava em seus trabalhos.
     Com a morte de Oswaldo Cruz, Carlos Chagas assumiu a diretoria de Manguinhos e, em 1919, aceitou a idéia de Alvaro de criar ali a Seção de Fisiologia. Alvaro recusou o convite de chefiar a unidade, indicando seu irmão, que aceitou o posto.
     Miguel foi, de 1917 a 1937, professor catedrático de fisiologia da Escola de Agricultura e Medicina Veterinária. O período mais longo da produção científica passou em Manguinhos, de 1919 a 1921 e de 1927 até sua morte. Era membro da ABC, da qual foi presidente em 1929-30.
     Publicou vários textos de divulgação científica, muitos dos quais podemos ler em A mentalidade científica no Brasil, Homens e coisas de ciência e A vulgarização do saber. Escreveu ainda, em 1933, Almas sem abrigo, romance sobre a vida de um matemático no Brasil. Morreu em 2 de dezembro de 1953, cerca de um ano e meio depois de seu irmão Alvaro.

Um movimento organizado

a) Academia Brasileira de Ciências

     Formava-se, na década de 1920, o embrião da comunidade científica brasileira que, em um movimento organizado, tentava criar condições para a institucionalização da pesquisa no país. "Os homens de ciência adquiriram uma fisionomia à parte", avaliava Miguel Osório de Almeida (1925, p. 122) naquele momento.
     Como já foi dito, na década anterior, criou-se a Sociedade Brasileira de Ciências, que, se transformou, em 1922, na ABC, destinada ao estudo e à propaganda das ciências no Brasil. Formavam a primeira diretoria: Morize (presidente), J. C. da Costa Senna, Juliano Moreira (vice-presidentes),9 Alberto Löfgren (secretário-geral), Roquete-Pinto (primeiro secretário), Amoroso Costa (segundo secretário) e Alberto Betim Paes Leme (tesoureiro).
     Para Miguel Osório de Almeida (1929, p. 18), o órgão tinha como função centralizar os esforços dos sábios brasileiros, sem "substituir as agremiações ou sociedades especializadas, que estudam um domínio mais particular do ilimitado campo da ciência. Ao contrário, ela auxiliará todas e permanecerá como um instrumento de síntese e coesão, tentando unificar todas as atividades em um conjunto harmonioso e homogêneo."
     Na avaliação de Morize (1987, pp. 9, 4), o fim principal da nova organização era "espalhar a importância da ciência como fator de prosperidade nacional". Para ele, "era indispensável que se fundasse um grêmio, onde aqueles que estudam as questões de ciência pura pudessem encontrar fraternal agasalho e no qual se promovesse a formação de um ambiente intelectual capaz de transformar a indiferença, ou mesmo em alguns casos a hostilidade, com que a maioria habitualmente acolhe a publicação de tudo quanto não tem o cunho de utilidade material".
     Ainda a favor da pesquisa básica, "a qual é infelizmente considerada pelos governos e pela grande massa do público como simples ornato de luxo que somente os povos ricos podem manter",10 Morize afirmou: "não trepido em afirmar que todos os estudos, mesmo os mais abstratos, são de transcendente utilidade que infelizmente escapa àqueles que não possuem cultura suficiente. Pode-se sem receio asseverar que quase todos os progressos positivos, materiais até, suscetíveis de serem avaliados em moeda, derivam de trabalhos puramente teóricos, empre-endidos por pesquisadores desinteressados, que se consideravam suficientemente recompensados de seus esforços pelo descobrimento de alguma verdade nova."11
     Em 27 de maio de 1923, Amoroso Costa (1981, p. 150) fez, em O Jornal, o seguinte balanço de atividades:

A Academia, da qual talvez o leitor nunca tenha ouvido falar, foi fundada há sete anos por alguns amigos da ciência, que uma vez por mês se reúnem, trocam idéias, expõem os seus próprios estudos e pesquisas. Nesse curto período de tempo, mais de duzentas notas e memórias têm sido apresentadas nessas reuniões, e em não poucas se encontram resultados novos e interessantes. Lutando contra toda sorte de dificuldades materiais, e também contra a indiferença geral, a Academia publica esses trabalhos em uma revista, que evidentemente não é leitura amena, mas que tem recebido elogios das sociedades estrangeiras às quais é remetida. Seria injusto negar o mérito desse esforço paciente e obscuro, que pouca gente conhece.

     Defensor da ciência pura, Amoroso Costa afirmava que o valor supremo da ciência não é seu valor de utilidade prática, nem mesmo o seu valor de verdade, é o seu valor de beleza (Osório de Almeida, 1925, p. 128).
     A crítica ao positivismo, pelo menos na versão hegemônica difundida no Brasil, que ainda exercia grande influência nas escolas profissionais, foi também um denominador comum entre alguns cientistas da década de 1920, em particular entre os vários fundadores da ABC.

b) Rádio Sociedade12

     Em 20 de abril de 1923, fundou-se, dentro dos salões da ABC, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, que teria sido a primeira rádio brasileira. Sua primeira transmissão ocorreu no dia 1o de maio do mesmo ano. Foi criada por um grupo de pessoas, entre elas os membros da ABC, que se cotizaram para implantar esse novo veículo de comunicação, que seria usado para a difusão de assuntos culturais e científicos. O conselho diretor ficou assim constituído: Morize (presidente), Roquete-Pinto (secretário), Democrito Seabra (tesoureiro), diretores: Carlos Guinle, Luiz Betim Paes Leme, Alvaro Osório de Almeida, Francisco Lafaytte, Mario de Souza e Angelo da Costa Lima. Presidente honorário: Francisco Sá. Diretores honorários: general Ferrié, prof. Abraham, general Rondon, Paulo de Frontin, Octavio Mangabeira, João Teixeira Soares e Gabriel Osório de Almeida.
     O caráter de divulgação científica da Rádio Sociedade foi explicitamente enfocado em reunião da ABC, segundo ata da sessão de 29 de abril de 1925: "Foi aprovado um voto de congratulações para a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, pela passagem de seu segundo aniversário, tendo o sr. Alvaro Alberto realçado a grande obra de educação e de vulgarização científica que vem realizando essa instituição nascida no seio da Academia" (Ata, 1926). Na comemoração de seus três anos, o arquivo da Rádio Sociedade se achava inteiramente organizado e continha cerca de dez mil documentos, alguns do maior valor para a história do rádio no Brasil. A biblioteca contava com oitocentos volumes e a sala de leitura dispunha de publicações periódicas de telefonia sem fio e de ciência em geral.
     A legislação brasileira marcou a Rádio Sociedade em dois momentos: no seu início e no seu fim. Em 1923, por motivo de segurança nacional, era proibida a radiotransmissão, sendo considerado crime político a existência de radiorreceptores em casas particulares. Com a pressão de vários setores, particularmente da ABC, os governantes cederam e a legislação foi mudada. Mas novas leis inviabilizaram a Rádio Sociedade uma década depois. Na última ata, de 3 de setembro de 1936, o parecer: "A Rádio Sociedade não poderá continuar os seus serviços de radiodifusão senão sofrendo uma profunda remodelação de sua própria organização, deixando de ser instituição puramente educativa, como tem sido, para adquirir caráter comercial, à vista das exigências da atual legislação em vigor" (Salgado, 1946, pp. 37, 39). Em 7 de setembro de 1936, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro foi doada ao Ministério da Educação. No último relatório da sociedade, a sentença final: "Não dispondo de capital para aumentar a potência da sua estação — conforme exige o governo — a Rádio Sociedade resolve encerrar suas atividades."

c) A luta por uma faculdade de ciências

     As instituições científicas no Rio de Janeiro que apresentavam maior tradição de pesquisa eram o Instituto Oswaldo Cruz (IOC) e o Museu Nacional, ambos nas áreas biológicas e de ciências naturais (Azevedo, 1995). No domínio das ciências exatas, havia ausência quase completa de pesquisa científica. Uma pequena exceção no domínio das ciências exatas era a astronomia, na qual, desde o século XIX, mas com muitos altos e baixos, criara-se uma tradição significativa de pesquisa experimental, em torno do Observatório Nacional. Havia pequeno número de instituições de nível superior, sendo que as poucas escolas de engenharia voltavam-se basicamente para a formação profissional e, freqüentemente, eram dotadas de um ensino dogmático e atrasado.
     Para os irmãos Osório e vários outros, a solução do problema seria a criação de uma faculdade de ciências com ênfase na ciência pura, que aproveitasse homens de ciência brasileiros e estrangeiros. Embora apoiasse essa idéia, Amoroso Costa (1981, p. 152), em 1923, era ainda bastante pessimista quanto às possibilidades de concretizá-las:

A dificuldade não vem ... de alguém que conteste à ciência a sua soberana utilidade. O mundo moderno, com o seu fanatismo do progresso material, não desconhece o que deve ao trabalho dos homens de ciência. Nos países novos esse fanatismo é levado ao auge, e muitas pessoas muito instruídas ignoram por completo que exista um ideal científico superior ao do homem que fabrica mil automóveis por dia, ou do que opera uma apendicite em dez minutos. Daí a opinião quase unanimente admitida entre nós: a ciência é útil, porque dela precisam os engenheiros, os médicos, os industriais, os militares; mas não vale a pena fazê-la no Brasil, porque é mais cômodo e mais barato importá-la da Europa, na quantidade que for estritamente suficiente para o nosso consumo. Tal a mentalidade dominante entre aqueles que nos educam e, por mais forte, entre aqueles que nos governam. Não admira que assim seja; é a mentalidade de que só hoje, no fastígio da riqueza e da força, se começam a libertar os Estados Unidos.

     Em 1927, Amoroso Costa presidiu várias reuniões da ABE nas quais se discutiu a importância de criar uma faculdade de ciências. No mesmo ano, por ocasião da Primeira Conferência Nacional de Educação, Amoroso afirmou: "A fundação das faculdades de Letras e de Ciências, sem as quais uma universidade está longe de merecer esse nome, representa hoje uma necessidade inadiável, se quisermos criar a verdadeira cultura superior" (Acervo Amoroso Costa/Mast).
     Destaque-se também o texto escrito pela redação da revista Sciencia e Educação (1929) em que se defende a necessidade de ser criada a "Faculdade Superior de Ciências, destinada ao cultivo da ciência pura, isto é, da ciência desinteressada, que não vise o exercício prático de uma profissão determinada". No artigo, transcreve-se documento da ABC, assinado por Morize, Juliano Moreira, Miguel Osório de Almeida e Mario de Souza e enviado ao presidente da República.13
     Os apelos, no entanto, só foram parcialmente atendidos em 1935, quando foi implantada a Universidade do Distrito Federal (UDF), mantida pela Prefeitura do Rio de Janeiro, com sua Escola de Ciências. A UDF durou pouco tempo, sendo extinta quatro anos depois e seus cursos transferidos para a Universidade do Brasil, em "nome da disciplina e da ordem, características do regime autoritário que vigia" (Fávero, 1996, p. 73). Em São Paulo, a Universidade de São Paulo (USP) foi criada em 1934, com sua Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, que teve direção inicial de Teodoro Ramos, um matemático egresso da Escola Politécnica do Rio de Janeiro.

Meios e instrumentos de divulgação

     Entre as várias publicações que se dedicavam à divulgação científica, podemos citar Radio Revista de divulgação científica geral especialmente consagrada à radiocultura. Publicação bimensal, era órgão oficial da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro e, posteriormente, da Rádio Clube de Pernambuco, da Rádio Clube Cearense e da Rádio Sociedade da Bahia. Lançada em outubro de 1923, era dirigida por Roquete-Pinto e administrada por Carlos Sussekind de Mendonça.
     Em fevereiro de 1926, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro começou a publicar outra revista bimensal de radiocultura, Electron, sob direção de Roquete-Pinto e distribuída a seus sócios. Com tiragem de cerca de três mil exemplares, a publicação abordava assuntos de interesse dos associados, como programação da Rádio Sociedade, resumo de cursos e palestras, balanço das atividades, temas técnicos de radiotelefonia, notas sobre artistas e criação de novas rádios etc. Trazia ainda alguns artigos de interesse da comunidade científica, como é o caso da home-nagem feita a Marie Curie na ABC, em 1926.
     A revista Sciencia e Educação surgiu em fevereiro de 1929, sob direção de Adalberto Menezes de Oliveira e com redação de Eduardo de Brito e Cunha. Segundo o editorial do primeiro número, o objetivo da revista era a divulgação científica articulada com a questão educacional.
     Alguns boletins e revistas de caráter científico ou técnico também deram espaço para a divulgação científica, como o Boletim da ABE, iniciado em 1925. O mesmo ocorreu com a Revista da Sociedade Brasileira de Ciências, de 1917, e outras publicações da ABC.
     Eu sei tudo, que se apresenta como um resumo das principais revistas do mundo, é um exemplo de revista de variedades que contém notícias relacionadas à ciência, possuindo até mesmo seções especificamente orientadas para o assunto, como 'A ciência ao alcance de todos' e 'Tudo se explica'. Era mensal e foi criada, em 1917, pela Editora Americana.
     Ao longo de toda década, jornais diários, em maior ou menor grau, mas sem cobertura sistemática, abriram espaço para notícias relacionadas à ciência. Eventos marcantes, como a visita de cientistas estrangeiros, catalisavam esse interesse esporádico. Por exemplo, a visita que Einstein fez ao Brasil, de 4 a 12 de maio de 1925, foi amplamente divulgada pela jornais cariocas, entre eles O Jornal, Jornal do Brasil, O Imparcial, A Noite, Jornal do Commercio e Gazeta das Notícias (Videira et alii, 1995; Moreira, 1995). De forma mais discreta, a imprensa relatou também a visita de Marie Curie ao Brasil, em 1926.
     Na década de 1920, publicaram-se também vários livros voltados para a divulgação da ciência, entre eles O neo-relativismo einsteiniano, de Carlos Penna Botto, Introdução à teoria da relatividade e As idéias fundamentais da matemática, de Amoroso Costa, A vulgarização do saber, Homens e coisas da ciência e A mentalidade científica no Brasil, de Miguel Osório de Almeida, Conceito atual de vida e Seixos rolados, de Roquete-Pinto. Entre os livros traduzidos, destacamos os de Henri Poincaré, como O valor da ciência. Foram criadas ainda algumas coleções científicas, como a Biblioteca de Filosofia Científica, dirigida por Pontes de Miranda, da Livraria Garnier, na qual se publicou O valor da sciencia. Outro exemplo é a Coleção Cultura Contemporânea, dirigida por Afrânio Peixoto, da Livraria Científica Brasileira.
     Miguel Osório de Almeida era um defensor de que fossem produzidos livros brasileiros relacionados à ciência, em particular para serem usados nos estabelecimentos de ensino brasileiros. Em 1925 (op. cit., pp. 179-80), ele dizia: "há de se tomar em consideração as tendências de espírito que são peculiares a cada povo. Muitas dificuldades que são encontradas pelo estudante brasileiro na leitura dos livros europeus provêm dos hábitos próprios de raciocínio, das características de mentalidade que são diferentes e mesmo da própria organização dos estudos que é diversa. "Ele defendia ainda que, "ao lado da literatura didática, poderia ser colocada a literatura de vulgarização, também praticamente não existente entre nós", enfatizando que "as vantagens de compor uma série de livros que despertem o interesse geral para as coisas científicas são evidentes".
     Investigamos também conferências relacionadas à difusão científica na década de 1920, sendo que as principais foram realizadas pela ABE, entre 1926 e 1929.14 Elas foram apoiadas, em muitos casos, pelo Instituto Franco-Brasileiro de Alta Cultura. Eram semanais e totalizaram cerca de cinqüenta por ano, entre cursos e palestras, possibilitando apresentações de muitos dos cientistas e acadêmicos da época, além de estrangeiros como Marie Curie, Paul Rivet e Langevin. Cobriam assuntos científicos variados, com graus diferentes de aprofundamento; transitavam de temas muito especializados para exposições destinadas a pessoas leigas. Recebiam boa afluência de público, chegando a ter "um auditório assíduo de cerca de uma centena de pessoas" (Barbosa de Oliveira, 1926). Ele estimava que, como a audiência variava conforme a atividade, havia entre três e quatro centenas de ouvintes para os diversos cursos.
     Em 1928, Amoroso Costa fez a seguinte avaliação dos cursos e das palestras da ABE, que, segundo ele, logravam grande êxito: "Eles não se destinam apenas a divulgar tais ou quais conhecimentos, por muito úteis ou interessantes que estes sejam; sua finalidade superior consiste em despertar o gosto pelos estudos de toda a ordem e em criar um ambiente favorável ao desenvolvimento desses estudos." Poucos meses antes, o matemático escreveu em O Jornal: "Os cursos da ABE estão no seu terceiro ano de funcionamento; obedecem a um programa eclético e destinam-se a auditórios, os mais diversos, auditórios que nunca lhes faltaram. Não sei de outra instituição no Brasil que se possa gabar de haver promovido cursos sobre assuntos tão variados, desde os que versam sobre questões de educação doméstica, sobre pedagogia ou metodologia do ensino, até os de vulgarização científica ou técnica, os de feição literária, histórica, artística, ou ainda os de extrema especialização. Percorrendo os seus programas desde 1926, encontra-se uma lista de nomes prestigiosos e todos os domínios do conhecimento, toda a escala das coisas que são a honra do espírito humano."
     A Rádio Sociedade trazia programas variados:15 além de informativos e música clássica e popular, havia inúmeros cursos, entre eles de inglês, francês, história do Brasil, literatura portuguesa, literatura francesa, radiotelefonia e telegrafia. Ministravam-se também muitos cursos e palestras de divulgação científica por esse meio de comunicação, sendo alguns exemplos: mina de ouro (Ferdinando Labouriau), higiene (Sebastião Barroso), estados físicos da matéria, como nascem os rios (Othon Leonardos), marés (Mauricio Joppert), química (Mário Saraiva), física (Francisco Venancio Filho) e fisiologia do sono (Roquete-Pinto). Vários deles tinham sua síntese publicada na revista Electron. As crianças foram premiadas com programa semanal de João Köpke. A Rádio Sociedade também irradiou conferências de Marie Curie, em sua estada no Brasil. Destaque-se ainda as conferências de literatura ministradas por Catulo da Paixão Cearense. Segundo estimativa de Roquete-Pinto, (1927, p. 236), cerca de 150 mil pessoas ouviam diariamente os programas difundidos pela Rádio Sociedade.
     Outro veículo de comunicação usado para divulgação científica — embora mais orientado para a educação científica — foi o cinema, mas como essa atividade só se intensificou na década de 1930, estendendo-se aos anos seguintes, não entraremos em maiores detalhes. Vale ressaltar, no entanto, que foram realizados vários filmes com fins educativos e também de documentação científica, técnica e artística, incluindo temas como prevenção e tratamento de doenças, costumes, plantas, animais. Na área de física, há, por exemplo, filmes sobre hidrostática, propriedades gerais da matéria e alavancas (Antonacci, 1993, p. 147). Há registros ainda de filmes sobre as pesquisas de Cardoso Fontes (morfogênese das bactérias), Vital Brazil (ofidismo), Evandro Chagas Filho (leishmaniose americana), Miguel Osório (fisiologia nervosa), Carlos Chagas (peixe-elétrico e cultura de tecidos in vitro), Dutra e Silva (choque elétrico no tratamento de psicopatas) e Maurício Gudin (cirurgia asséptica), fazendo parte do que Roquete-Pinto considerou como "arquivo palpitante da inteligência do Brasil".

Características da divulgação

     Comparando-se as atividades de divulgação científica na década de 1920 com as realizadas no final do século anterior, por exemplo, percebe-se que aquelas estavam voltadas mais para a difusão de conceitos e conhecimentos da ciência pura e menos para a exposição e a disseminação dos resultados das aplicações técnicas dela resultantes. Na década de 1920, a motivação principal para a atividade era criar condições para o desenvolvimento da pesquisa básica no país. Tomemos como exemplo a série de conferências realizada nos dois momentos históricos: cerca de 2/3 dos eventos promovidos pela ABE referem-se a domínios de ciência pura, enquanto que essa proporção cai para menos de 15% nas Conferências Populares da Glória. A divulgação científica do período imperial carregava as marcas da visão de ciência predominante, enfatizando-se os aspectos aplicados.
     Outra característica distintiva das ações de divulgação científica na década de 1920 é que elas começaram a ser mais organizadas e passaram a ter a participação de destacados cientistas e acadêmicos do Rio de Janeiro, o que reflete a importância que eles lhes atribuíam. O sentimento de nacionalidade também marcou bastante o conteúdo dessas atividades, em particular no que se refere a Roquete-Pinto, que buscava valorizar o homem brasileiro. No entanto, o caráter da divulgação realizada na referida época era ainda fragmentado e lacunar, reflexo direto da situação ainda muito frágil do meio científico de então. Como os conteúdos veiculados diziam respeito, em geral, à especialidade do cientista, que era o agente do processo de comunicação, muitas áreas do conhecimento ficaram a descoberto, por causa do número reduzido de pessoas atuantes.
     No que se refere aos quatro personagens destacados neste artigo, o conteúdo transmitido em seus artigos, livros e conferências era de boa qualidade científica e bastante atualizado. Em particular no caso dos escritos de Amoroso Costa, era, em geral, de apreensão mais difícil. Aparentemente, destinava-se prioritariamente a um grupo de pessoas ilustradas e bem situadas socialmente. O material veiculado pela Rádio Sociedade constituía exceção a isso, já que, pelo menos na intenção, direcionava-se a todas as camadas sociais, até mesmo os analfabetos. Apesar desses bons propósitos, é provável que o êxito de alguns cursos radiofônicos, como o de física e o de química, tenha sido bastante limitado. Destaque-se que não foi possível mensurar o impacto e a repercussão dessas atividades de divulgação científica. Essas conseqüên-cias poderiam ser avaliadas, por exemplo, se dispuséssemos de maiores informações sobre a influência exercida na opinião pública ilustrada e sobre a arregimentação de novos discípulos para as hostes da ciência.

Estudos comparativos

     No Brasil, as pesquisas dedicadas aos aspectos históricos da difusão da ciência são ainda muito limitadas. Raras exceções são, além das teses já mencionadas (Massarani, 1998; Oliveira, 1998), os trabalhos realizados sobre artigos publicados em jornais paulistas: Dantes (1998) analisou o final do século XIX; Figueirôa e Lopes (1997) investigaram o período entre 1890 e 1930.
     No entanto, em nível internacional, os estudos históricos compa-rativos da difusão científica em países e culturas diversas têm despertado bastante interesse em anos recentes, constituindo linha de investigação promissora para os estudos na área. Em particular, eles permitem abordar global e relativamente a trajetória das atividades de divulgação científica. Embora não tenhamos produzido um estudo comparativo minucioso, vamos expor, no que se segue, o resultado recolhido em fontes que se referem a aspectos históricos da divulgação científica na França e no Canadá. Um ponto marcante, que decorre dessas análises, é a constatação do crescente caráter globalizante da ciência e das ações de divulgação, especialmente a partir da segunda metade do século XIX.
     Raichvarg e Jacques (1991) apontam a existência de ciclos de atividades mais intensas de divulgação científica na França na segunda metade do século XIX e na década de 1920, coincidindo aproxima-damente com os ciclos que relatamos para o Brasil. Do mesmo modo que aqui, na segunda metade do século XIX, as atividades de divulgação enfatizavam assuntos relacionados à ciência aplicada. Na França, no entanto, começou a surgir naquele período a figura dos divulgadores especializados, o que não ocorreu no Brasil. Também a ficção científica, tendo Júlio Verne como paradigma, atingiu ali dimensões relevantes.
     O movimento pela ciência pura também teve papel de destaque naquele país a partir do final da Primeira Guerra Mundial. Cientistas como Marie Curie e Langevin, que estiveram no Brasil na década de 1920, perceberam a importância da educação e da divulgação científicas para a institucionalização da pesquisa básica. Deve-se enfatizar ainda as atividades de divulgação do físico Jean Perrin, iniciadas na década de 1910 e que se estenderam por longo período, tendo sido ele o criador do Palais de la Découverte no final da década de 1930, um dos primeiros museus de ciência com características interativas. No mesmo ano em que a Rádio Sociedade foi criada, expandia-se na França o uso do rádio na educação e divulgação científicas. No que se refere à utilização do audiovisual na popularização da ciência, seu principal estimulador foi Jean Painlevé, filho do matemático Paul Painlevé. Ele foi o fundador do Institut de Cinématographie Scientifique, em 1930, seis anos antes do similar brasileiro. A influência cultural francesa no Brasil, intensa até a Segunda Guerra Mundial, certamente terá contribuído para esse sincronismo entre os dois países.
     Estudo feito por Carle e Guédon (1988) mostra que o Canadá, embora tivesse cenário bastante peculiar, apresentou algumas similaridades com o Brasil. Também naquele país as atividades intensificaram-se na segunda metade do século XIX, envolvendo publicações e ciclos de conferências. Segundo os autores, tais atividades reduziram-se consideravelmente ao final do século, retomando sua intensidade mais elevada na década de 1920.
     Como nosso trabalho se limitou a um estudo no Rio de Janeiro, é evidente que uma extensão posterior deveria levar em conta, dentro da mesma perspectiva histórica, as atividades desenvolvidas em outros estados brasileiros, em particular no estado de São Paulo, que começava sua caminhada para a industrialização e para a hegemonia econômica no país.

Conclusão

     Como pudemos ver, a divulgação científica no Brasil tem quase dois séculos de história. Além disso, a exemplo do que ocorreu em outros países, a atividade brasileira apresentou fases distintas, com finalidades e características peculiares que refletem o contexto e os interesses da época. Já registramos que os surtos de atividades de divulgação científica no Brasil acompanharam, com intensidades e repercussões diversificadas, movimentos congêneres e mais ou menos contemporâneos em países da Europa e das Américas. Isso mostra que as características globalizadoras da ciência e da técnica, em sua inserção capitalista, estão presentes todo tempo e se refletem nos acontecimentos locais.
     Em particular, analisamos o surto de divulgação científica ocorrido na década de 1920 no Rio de Janeiro, que havia sido antecedido por período de atividades menos intensas. Na tentativa de entender o porquê do movimento expressivo de divulgação científica que surgiu naquele momento, levantamos as seguintes conjeturas:

     a) A situação internacional era favorável a esse tipo de atividade. Após o final da Primeira Guerra Mundial, que exibiu na prática o poderio emanado da ciência e da técnica, cresceu o interesse geral pela ciência, atestado, por exemplo, pela enorme repercussão que a figura de um cientista, Einstein, adquiriu. Graças ao prestígio conquistado, ele ganhou as páginas dos jornais de todo mundo e suas opiniões científicas, filosóficas, éticas e políticas passaram a ter grande repercussão junto ao público. Na busca de paz em uma Europa esgotada pela guerra, os cientistas, como o próprio Einstein e Marie Curie, desempenhavam papel importante. O interesse pela ciência nos países avançados contribuía indutivamente para atitude similar no Brasil, com uma intelectualidade particularmente influenciada pela cultura francesa.

     b) A elite intelectual carioca ligada à ciência adquiriu, na época, a consciência da importância de se criar ambiente favorável junto à opinião pública para permitir o desenvolvimento da ciência pura. Nesse sentido, aumentaram as preocupações quanto à formação de pessoal capacitado, à criação de instituições relacionadas à pesquisa e à educação superior e à consolidação das instituições já existentes.
     Dentro desse panorama geral, a divulgação científica passou a ter papel significativo na difusão das idéias de seus protagonistas sobre a ciência e sua importância para o desenvolvimento do país. Na época, a divulgação científica foi ainda uma maneira de buscar influenciar indiretamente os órgãos governamentais, ao atingir um público ilustrado. O objetivo era sensibilizar o poder público, o que propiciaria a criação e a manutenção de instituições ligadas à ciência, além de maior valorização social da atividade de pesquisa.
     Esses cientistas e profissionais liberais conscientizaram-se também de que era preciso uma renovação educacional mais ampla no país, que permitisse resgatá-lo do analfabetismo generalizado, condição necessária para que viesse a acompanhar os ritmos da modernidade européia e norte-americana. Isso levou a que muitos deles se empenhassem profundamente nas campanhas pelo ensino público.

     c) Começaram a se delinear as necessidades próprias da nova figura de um profissional que aflora no cenário da cidade: o cientista. Aqueles que se voltavam profissionalmente para as ciências desenvolveram o sentimento claro da necessidade de sua afirmação própria como cientistas. Dentro desse propósito, era também essencial a criação de espaços de reflexão e atuação como corpo, como a ABC e a ABE, que contribuíssem para a integração dos profissionais das várias áreas, aumentando-lhes o potencial de influência política.
     Destaque-se que a década de 1920 é um dos raros momentos no país em que as lideranças da comunidade científica dedicaram-se, mesmo que parcialmente, a esse tipo de atividade. A participação ativa de membros da própria ABC, até mesmo na direção da Rádio Sociedade, ilustra bem isso.
     Na busca de encontrar razões para o fato desse surto de divulgação científica da década de 1920 ter perdido impulso e refluído a partir da década de 1930, destacamos as seguintes possibilidades:

     a) Com a criação das primeiras faculdades de filosofia, ciências e letras, os cientistas e professores interessados em ciência se voltaram para o ensino universitário formal. O fato de que várias das reivindicações dos cientistas tenham sido resolvidas, pelo menos em parte, fez com que eles se voltassem predominantemente para as atividades intra-institucionais.

     b) A partir da década de 1930 e com a implantação do Estado Novo, as questões educacionais passaram a ser gerenciadas e controladas mais diretamente pelo governo. Ampliaram-se as escolas públicas, criaram-se programas de estímulo ao cinema educativo e o governo assumiu a Rádio Sociedade. Ou seja, essas e outras atividades, que até então eram desenvolvidas de forma autônoma, passaram a estar sob a égide governamental. Se isso teve aspectos progressistas, em um processo que foi estimulado pelos educadores e cientistas na década anterior, significou também um controle estatal mais rígido, até mesmo repressivo em muitas ocasiões, e que certamente teve papel inibidor de iniciativas mais ousadas.

     c) A impressão inicial do rádio (e posteriormente do cinema) como uma panacéia educativa começou a se diluir quando as dificuldades e os limites do processo de difusão e absorção dos conteúdos veiculados começaram a ficar mais claros.

     d) O esgotamento da geração que iniciou o processo: as novas gerações surgiram em contexto diverso, em que já existiam, embora em número limitado, faculdades de ciência; estavam, portanto, imersas em novas necessidades e expectativas profissionais. Além do desa-parecimento de alguns dos principais personagens, como Amoroso Costa e Morize, alguns deles se envolveram, no período getulista, em atividades governamentais, como é o caso de Roquete-Pinto, que criou e dirigiu o Instituto Nacional do Cinema Educativo.

     e) Internacionalmente, houve refluxo similar, o que teve repercussão desmobilizadora em nossa realidade.

     Um ponto importante para o qual nosso trabalho chamou atenção refere-se à existência dos surtos de atividades científicas mais intensas no Brasil (Moreira et al., 1999). Percebemos um crescimento de tais atividades com a vinda da corte portuguesa e com a criação da imprensa no Brasil. Esse crescimento teria dependido bastante, por conseguinte, do fato político singular que foi a mudança no status colonial que o país sofreu com esse episódio. Na segunda metade do século XIX, novo surto de atividades emergiu, com a criação de muitas revistas voltadas para os aspectos científicos e com as Conferências Populares da Glória. Podemos, com boa dose de aproximação, situar esse período de maior intensidade divulgadora entre 1860 e 1885. A década de 1920 apresentou, como vimos, um novo patamar de atividades intensas.
     Para entender melhor as razões do comportamento cíclico é importante que sejam examinadas algumas razões internas ao país, como já fizemos. Uma linha de abordagem complementar é a análise histórica comparativa, tocada tangencialmente neste artigo — que considera a trajetória das atividades de divulgação científica de vários países. Estudo recente que reforça o nosso ponto de vista da existência de uma forte correlação entre os diversos surtos de atividades científicas ocorridas em vários países — com algumas possíveis diferenças de intensidade e defasagens temporais, ligadas a fatores internos específicos de cada país — foi realizado por Bauer (1998). O autor defende a idéia de que a divulgação científica é um processo cultural que ocorre por meio de ciclos de expansão e contração. Para fundamentar essa afirmação, recolheu informações provenientes de vários estudos sobre as atividades de divulgação científica em países da Europa e nos Estados Unidos. Os dados citados por ele se referem principalmente ao cômputo de artigos em jornais e ao número de livros publicados, embora os dados em que se baseia sejam ainda esparsos e obtidos a partir de pesquisas de diferentes autores produzidas com perspectivas diversas. A própria definição dos períodos citados não é muito precisa e sobre isso existem alguns dados conflitantes. Mas, para o nosso propósito, é importante registrar, de maneira geral, que o trabalho de Bauer confirma a hipótese que vínhamos elaborando no que diz respeito à existência de surtos similares ocorridos no Brasil, embora possa ser registrada alguma defasagem temporal.
     As razões para a existência desses surtos devem estar ligadas a fatores externos, de natureza sócio-econômica, que podem até mesmo exibir diferenças locais, mas também a fatores internos à ciência e aos mecanismos de difusão. Bauer menciona um possível fator interno, relacionado a uma (não muito clara) instabilidade intrínseca da atividade divulgadora. Do ponto de vista dos fatores externos, ele busca corre-lacionar os ciclos de divulgação da ciência com ciclos econômicos do capitalismo em nível mundial, cuja existência é defendida por vários economistas.
     A discussão dessas conjeturas e de suas fundamentações, por mais interessantes que nos pareçam, foge ao escopo imediato de nosso trabalho. Podemos apontar, no entanto, que mereciam ser explorados fatores internos à ciência, como a existência de verdadeiras revoluções científicas ou tecnológicas nas proximidades dos períodos de surtos intensos de divulgação da ciência. A título de exemplo, mencione-se o surgimento da teoria da seleção natural de Darwin-Wallace e das leis do eletromagnetismo (com suas inúmeras aplicações industriais), por volta de 1860, e o surgimento da relatividade geral e das idéias iniciais da física quântica nos anos que antecedem à década de 1920.

 

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FONTES

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Recebido para publicação em setembro de 1999.
Aprovado para publicação em maio de 2000.