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História, Ciências, Saúde-Manguinhos

Print version ISSN 0104-5970On-line version ISSN 1678-4758

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.15  suppl.0 Rio de Janeiro  2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59702008000500004 

ANÁLISE

 

Proeminência na mídia, reputação em ciências: a construção de uma feminista paradigmática e cientista normal no Museu Nacional do Rio de Janeiro

 

Prominence in the media, renown in the sciences: the construction of a paradigmatic feminist and a scientist at Rio de Janeiro's Museu Nacional

 

 

Maria Margaret Lopes

Professora do Instituto de Geociências. Núcleo de Estudos de Gênero - Pagu, Unicamp - Caixa Postal 6152 - 13083-970 Campinas - SP Brasil. mmlopes@ige.unicamp.br

 

 


RESUMO

Bertha Lutz foi uma das mulheres de sua geração que desfrutaram de incontestável autoridade política e científica. Escreveu muito, e mais ainda se escreveu sobre ela, especialmente em sua época. Notícias de jornais, crônicas de Lima Barreto, inúmeras cartas, artigos científicos e textos inéditos da própria Bertha, comentados neste artigo, nos permitem observar que seu feminismo emprestou-lhe notoriedade e visibilidade - cuidadosamente construídas -, que se articulariam com seu desempenho profissional, impulsionando-o. A ciência lhe conferia prestígio social e garantia legitimidade para suas causas. Nesse período em que a comunidade científica tomou para si a tarefa de tornar públicas as suas conquistas, a proeminência feminista de Bertha na mídia emprestou-lhe reputação em ciências.

Palavras-chave: Bertha Lutz; história das ciências; história do feminismo; gênero em ciências.


ABSTRACT

Bertha Lutz was one of the women of her generation who enjoyed indisputable political and scientific authority. She wrote much and even more was written about her, especially during her day. The newspaper chronicles by Lima Barreto, countless letters, scientific papers, and unpublished texts by Bertha herself that are surveyed in this article indicate how much her feminism - inseparable from other dimensions of her life - fostered her professional career. Her feminism earned her a carefully constructed renown and visibility that interlocked with her professional performance. Science lent her social prestige and guaranteed legitimacy for her causes. During a period when the scientific community itself was engaged in publicizing its own activities, Bertha's feminist prominence in the media helped her make a name in the sciences.

Keywords: Bertha Lutz; history of science; history of feminism; gender in science.


 

 

Bertha Lutz foi uma das mulheres de sua geração que desfrutaram de incontestável autoridade política e científica.1 Foi uma daquelas mulheres mais ou menos famosas que - como Emilie Snethlage, sobre quem escreveu; Heloisa Alberto Torres, com quem trabalhou; Carlota Pereira de Queiroz, com quem disputou; Maria Lacerda de Moura, cujos ideais não compartilhou; Consuelo Caiado, com quem se correspondeu; Carmen Velasco Portinho, com quem militou2, e muitas outras com quem conviveu - transgrediram convenções estabelecidas para sua geração. Limites e contradições dessas transgressões e convenções têm sido apontados pela literatura, que invariavelmente se ocupa muito de Bertha quando o tema é feminismo no Brasil e pouco ou quase nada quando o tema é história das ciências no Brasil.

A complexidade dessas transgressões e convenções é algo sobre o que temos insistido, considerando a indissociabilidade das práticas feministas e científicas de Bertha, referendadas internacionalmente e inseridas nos movimentos que marcaram o período de consolidação das ciências básicas no país, entre 1920 e 1930. Neste artigo acompa-nharemos, especialmente através da imprensa, aspectos da circulação de Bertha em meio aos espaços da ciência pública brasileira que delineava novos contornos. Seguimos - longe de qualquer possibilidade de sermos exaustivas - sua ampla circulação por uma lista interminável de espaços e redes de sociabilidade científica pelos quais se diversificava e se ampliava, para alcançar também as Américas do Norte e do Sul, o ambiente intelectual do Rio de Janeiro.3

Cercada por definições e classificações como Carlota, "seja por estar irremediavelmente de acordo com as percepções correntes - extremamente enraizadas", seja por estar exatamente nos lugares que ocupou, Bertha se apropriou de

estratégias claras de inserção e construção de si, concordando, discordando, deslocando-se com racionalidade em meio aos espaços deixados [mas também que ampliou, eu diria] pelas sobre-determinações sociais. Conhecer os mecanismos da norma para mover-se em seus interstícios é não somente parte integrante dos modos de inscrição dos atores no mundo social e na história, mas também representa, para o pesquisador, uma forma de ultrapassar as falsas dicotomias entre normas e práticas sociais, entre indivíduos e grupos. (Cerruti, 1995, citado em Schpun, 2004, p.205)

Bertha escreveu muito e mais ainda se escreveu sobre ela, especialmente em sua época. A leitura de notícias de jornais, inúmeras cartas, artigos científicos e textos inéditos de Bertha, materiais inesgotáveis, nos dá a nítida impressão de que ela conheceu como poucas e poucos os mecanismos da norma que conservou e transgrediu em suas práticas.

Como boa cientista normal kuhniana, Bertha nunca esteve à parte dos interesses e mecanismos de funcionamento de setores da sua comunidade científica. Inserida plenamente nessa comunidade que internacionalizava suas atividades e voltava sua carreira para os Estados Unidos, Bertha consolidaria sua participação em diversas instituições científicas brasileiras nesses anos, para afirmar-se profissionalmente, politicamente e como liderança feminista.

Seus ideais feministas não se apresentavam como contraditórios em relação a uma concepção de ciência neutra e racional, e seus discursos político-científicos retratam as influências mútuas das nuances das discussões sociais vigentes naqueles contextos.

Sua concepção de objetividade científica justificava a "racionalização do poder" pela qual Bertha lutava em seus "13 princípios básicos: sugestões ao ante-projecto da Constituição":

Este processo só a ciência poderá fornecer, porque só ela possui uma metodologia aperfeiçoada e só ela cultiva uma atitude inteiramente objetiva e imparcial. Procura a verdade sem idéias preconcebidas e, uma vez encontrada, a aclama tal qual ela seja sem procurar dar-lhe feição artificial. A técnica científica aliada à soberania do direito promove a racionalização do poder. (Lutz, 1933, p.4)

Naquela época, em que a figura do cientista se modernizava no processo de consolidação das ciências básicas no país, em que proliferavam os espaços de associativismo também científico, professores, cientistas, engenheiros, médicos e outros profissionais liberais, ligados em geral às principais instituições do Rio de Janeiro, articularam novas estratégias para o desenvolvimento da pesquisa e da política científica, em busca de maior apoio e respaldo social para suas novas profissões acadêmicas. Carmem Portinho conta que para "incentivar e ajudar as mulheres" - ainda eram poucas as que se formavam na Universidade nas décadas de 1920 e 1930, embora esse número já começasse a aumentar - fundara em 13 de janeiro de 1929, na sua casa, a União Universitária Feminina, de que a princípio participaram Bertha Lutz, Maria Esther Ramalho, Sylvia Vaccani, Natércia Silveira, Orminda Bastos e Luiza e Amélia Sapienza, entre outras. Entre inúmeras atividades como o Chá das Calouras e o Chá da Vitória, na formatura, Carmem ainda fundaria, em 1937, a Associação Brasileira de Engenheiras e Arquitetas (Costa, nov. 1995).

Apoiados nas ciências, setores intelectuais urbanos buscavam modernização econômica e progresso, sem abrir mão dos valores primordiais e ordenadores da família, fortemente alicerçados em teorias eugenistas, então científicas (Besse, 1999; Lopes, 2006a). Construíram suas reputações e carreiras discutindo também questões - tornadas científicas - da mulher, do casamento, da sexualidade, da histeria, da puericultura, da higiene e da educação feminina. Em sua crítica às interpretações relativamente influentes, até mesmo na literatura de gênero, que tendem a minimizar os desdobramentos das reformas educacionais das décadas de 1920 a 1940, no que se refere particularmente ao perfil educacional da população feminina, Nara Azevedo e Luiz Otávio Ferreira (2006, p.217), chamam a atenção para o quanto

A ênfase desses argumentos nas estruturas históricas de permanência encobre justamente o que interessa ressaltar, isto é, os aspectos mais dinâmicos desse processo, aos quais se pode imputar a transição do perfil educacional da população feminina que, em um curto período de tempo, do início da República à década de 40, evoluiu do analfabetismo para a formação em nível superior, direcionando-se, em número cada vez maior, para as profissões científicas, que, sabemos, constituíam um monopólio masculino.

Reveladoras desses aspectos mais dinâmicos, as estatísticas da década de 1940 mostram que as mulheres se diplomavam consistentemente na área de música (2.648 mulheres para 456 homens) e sua presença acentuava-se nas áreas de farmácia (1.841 mulheres para 8.242 homens) e odontologia (1.225 mulheres para 10.817 homens), mas começavam a se fazer notar nas áreas de química industrial (125 mulheres para 15.558 homens), engenharia (96 mulheres para 13.912 homens) e medicina (543 mulheres para 18.042 homens) (Brasil, 1940, citado em Besse, 1999, p.130).

Naqueles anos, em que se iniciaram as ações mais sistemáticas voltadas para a consolidação de faculdades de filosofia, ciências e letras, muitos senhores e mais senhoras do que estamos acostumadas a mencionar priorizaram suas pesquisas e dedicaram-se a elas e à comunicação pública de suas ciências (Massarani, 1998; Lopes, Sousa, Sombrio, 2. sem. 2004; Lopes, 2006c). Na conjuntura do pós-Primeira Guerra Mundial, foi intensa a valorização social internacional das atividades científicas, e figuras de cientistas como Einstein e Marie Curie4, que estiveram no Brasil em 1925 e 1926, respectivamente, desempenharam papéis destacados no uso da retórica científica para construir discursos públicos.

A retórica científica foi parte intrínseca de muitos dos discursos de e sobre Bertha. Nesse período em que a comunidade científica tomou para si a tarefa de tornar pública sua própria atividade, a proeminência feminista de Bertha na mídia lhe emprestou reputação em ciências.

'Proeminência' na mídia e 'reputação' em ciências competem entre si de forma relacional por amplos espectros de interação, não necessariamente sempre coincidentes. O que é 'proeminente' adquire valor de notícia, e 'reputação', em ciências, é produto da mídia, marca orientadora e indicador para auto-referência e autonomia. Como uma entre várias condições para alcançar proeminência na mídia, a reputação científica pode ser usada ou construída pela mídia como um critério de orientação implicitamente referente à competência e credibilidade de um cientista. Embora reputação científica e proeminência na mídia refiram-se a processos muito diferentes de atribuição de significados, eles se justapõem e interagem nos discursos públicos, nos quais política e ciência estão intrinsecamente envolvidos (Weingar, 1998), como no caso exemplar de Bertha e de outros e outras de sua geração.

A visibilidade e o alcance dos diversos feminismos nas primeiras décadas do século XX são inegáveis, e a imprensa - não só feminina ou feminista de diversos matizes - que caracterizou a década de 1920 como a década da mulher moderna foi fonte fundamental de pesquisas, já abordada em inúmeros trabalhos (Hahner, 1981; Leite, 1984; Buitoni, 1990; Besse, 1999). Se mudanças na moda e no comportamento transformavam em notícias a mulher moderna, tais aparências, lembra Miriam Moreira Leite, não percorriam homogeneamente o todo social, como não o fez o progresso tecnológico e científico propagado pela industrialização. Entre as questões colocadas para explicar o porquê dessa caracterização, além do cinema, do automóvel, da moda5, dos aperfeiçoamentos tecnológicos das comunicações e da urbanização, estão o crescente associativismo feminino/feminista, contextualmente relacionado aos mecanismos econômicos e políticos associados aos movimentos populares e militares emergentes nesses anos, bem como "as mudanças na mulher e nas idéias sobre o papel feminino que viriam das levas de profissionais que começavam a conquistar postos num mercado de trabalho até então masculino" (Leite, 1984, p.32).

Com a autoridade de uma brasileira que estivera "nos últimos sete anos estudando na Europa", Bertha se apresentava no manifesto Cartas de Mulher, publicado no Rio de Janeiro, em 28 de dezembro de 1918, na Revista da Semana, onde convocava as mulheres a fazerem "um ensaio de fundação de uma liga de mulheres brasileiras" (citado em Soihet, 2006, p.176). Desde seu retorno ao país, Bertha iniciara a publicização de suas idéias. Contou a Branca Moreira Alves (1977, p.137) que desde os anos que passara em Londres, antes da Primeira Guerra Mundial, se interessara pela campanha feminista, apesar da proibição da mãe, que não participava e não a deixava ir às manifestações. A mãe temia pela sua condição de estrangeira e menor de idade em um movimento que se radicalizava e em que as manifestantes eram presas. Já do Brasil, mandava a uma amiga - que lhe contava dos avanços acadêmicos e lhe perguntava sobre o andamento da tese - notícias de sua militância feminista, que recordavam as conversas que haviam mantido sobre o tema nos boulevards de Paris.6 Lá, aos 21 anos, Bertha pensara em ser escritora. Criou Gladys, a personagem de "One golden Summer", sua 1st novelette, cuja estória de um profundo e terno arcadian love foi cuidadosamente guardada em manuscrito com as provas datilografadas parcialmente corrigidas.7 Cultivou a paixão pela escrita ao longo da vida, atestada por seus inúmeros artigos publicados nos jornais, seus diversos artigos científicos e, particularmente, suas obras de história e comunicação pública das ciências.

Bertha obteve os diplomas de estudos superiores em botânica, química biológica e embriologia geral, datados, respectivamente, de 20 de junho de 1916, 18 de outubro de 1916 e 23 de outubro de 19178, e obteria seu diploma em sciences, na Sorbonne, em 1º de março de 1918. Se diplomar-se em curso superior poderia ter ainda um caráter transgressor, mesmo para as filhas de setores das elites brasileiras, Bertha obteve o seu no espaço por convenção apropriado às mulheres pelo menos desde o final do século XVIII. Botânica foi uma área de conhecimentos sancionada às mulheres, mais do que qualquer outra, pelo menos na Inglaterra e na França. Mas, se atentarmos para a dinâmica dessa área de conhecimentos que se profissionalizara na segunda metade do século XIX, especialmente na Inglaterra, veremos um progressivo afastamento das mulheres, dados os impedimentos formais à sua entrada nos cursos universitários no século XIX, situação que novamente começava a se alterar no início do século XX (Shteir, 1997). Ao longo de sua carreira, Bertha - que sempre se ocuparia de coleções botânicas - migraria para a área, então mais prestigiosa, de estudos da zoologia.

Recém-chegada ao Brasil, de fevereiro a abril de 1919 Bertha contribuiu com artigos ao Rio Jornal, na seção Rio Femina, enquanto organizava, por ordem de autores e títulos, os volumes dos Archivos do Museu Nacional para a publicação do centenário do Museu (Lutz, 1919), no qual, desde seu concurso público, amplamente discutido na mídia, ocupava o cargo de secretário. Nessas primeiras matérias de jornais já estavam presentes algumas das principais características dos feminismos da época, como a importância das redes de solidariedade, especialmente as internacionais. Tais redes, Mariza Corrêa (2003) sugere, expressariam manifestações conscientes da fragilidade da situação dessas mulheres profissionais feministas, que também buscaram apoio para suas causas em autoridades políticas masculinas.

Inúmeros jornais abriam espaço para Bertha, e havia também aqueles que abriam espaço para outras leituras dos feminismos e das ciências. Acompanhamos a seguir, brevemente, alguns dos passos da construção da proeminência na mídia da trajetória política e científica de Bertha, seguindo Shapin e Lawrence (1998, p.3) em suas sugestões para o tratamento de histórias de vida e trajetórias de cientistas. Para lidar com vidas corporificadas e conhecimentos incorpóreos, os autores propõem - não se trata de nada muito novo, devemos reconhecer - que "ampliemos o ofício do historiador para lidar com materiais concretos e então o objetivo passaria a ser contar estórias mundanas sobre coisas que tradicionalmente eram tidas como supra-mundanas". Mais mundanas e iconoclastas que as crônicas de Lima Barreto, para contarmos aspectos de histórias de vidas e das políticas das ciências, impossível. Relemos em tais crônicas outras visões sobre aspectos da trajetória política e científica de Bertha Lutz, no início de sua carreira feminista e de sua profissionalização no Museu Nacional do Rio de Janeiro. Na leitura dessas crônicas, estamos seguindo também Jordanova (1999), em seu fascínio pela maneira pela qual assuntos que são inevitavelmente difíceis, confusos, perturbadores e perigosos podem ser criativamente manipulados na escrita instigante e perturbadora de Lima Barreto.

 

O feminismo no museu

Os primeiros anos do feminismo de Bertha foram os últimos de vida de Afonso Henriques de Lima Barreto (1881-1922). Foram anos entremeados por fases de sucessivos internamentos psiquiátricos e produção literária mais constante e mais irônica. "Mulato ou negro, como queiram", anarquista, maximalista, irreverente, polêmico, defensor do divórcio e do direito de as mulheres soberanamente disporem de seus bens, misógino9, ou apenas contrário ao falso moralismo, aos privilégios de raça e classe, contrário ao feminismo elitista, branco, burocrático, em prol de cargos públicos, corporificados por ele em Bertha, Lima Barreto foi um detrator implacável da jovem cientista, e a troça foi sua maior arma: "troça e simples troça, para que tudo caia pelo ridículo".10 Lima Barreto modernizava em suas crônicas um estilo consagrado desde a segunda metade do século XIX em publicações como a Revista Ilustrada e Fon-Fon, entre outras, que usaram o deboche, a irreverência e o ridículo para a descaracterização das reivindicações femininas e/ou feministas por maior inserção nos espaços públicos (Soihet, 2001).

Entre seus interlocutores homens era a Rodrigo Otávio, que ocupava o "lugar rendoso de consultor-geral da República", que Lima Barreto, ambíguo, explicitava sua posição legalista sobre o que o interessava no feminismo, não sem o exagero que sugere ironia. Se d. João VI podia ser feminista sem o Congresso, Epitácio Pessoa não podia mais. E o "Senhor Rodrigo Otávio [deve saber que a mulher é] mais ou menos equivalente ao louco, ao menor, ao interdito. Está sempre debaixo de tutela e proteção de quem ela carece irremediavelmente". Foi com esse espírito da época que a Constituição de 24 de fevereiro tornou acessível a todos os "brasileiros - homens" os cargos públicos:

Não me move nenhum ódio às mulheres, mesmo porque não tenho fome de carne branca; mas o que quero é que essa coisa de emancipação da mulher se faça claramente, após um debate livre, e não clandestinamente, por meio de pareceres de consultores e auditores, acompanhados com os berreiros de Dona Berta e os escândalos de Dona Daltro. ("O nosso feminismo", ABC, 12 ago. 1922)

As dificuldades dos primeiros momentos de organização feminina não passaram despercebidas na escrita mordaz de Lima Barreto. Detratando, por não poder ignorar, mas contribuindo para sua proeminência na mídia, Lima Barreto11, na tentativa de lhe "roubar a palavra" - outra expressão de Mariza Corrêa -, renomearia Bertha.

Com o seu "feminismo invasor"12, a Liga Pela Emancipação Intelectual da Mulher, fundada em 1919 e transformada por Lima Barreto em Liga Pela Manumissão da Mulher Branca, tinha por líder e seguidora única dona Adalberta Luz. Onipotente e solitária, dividia-se entre a mesa e o público para dirigir a assembléia, votar suas próprias propostas, indicar-se e assumir a representação de si mesma. Entre as vitórias da Liga, que não haviam sido poucas, como o fim dos coletes para mulheres e o combate às seitas rivais - a Legião da Mulher Brasileira, o Partido Republicano Feminino e Madame Chrysanthème (Cecilia Bandeira de Melo Rebêlo de Vasconcelos, romancista, cronista, articulista, considerada de tendências conservadoras) -, faltava apenas o direito de voto, cujo apoio seria buscado nos quatro cantos do mundo13 e também localmente, junto a homens poderosos.

Maria Lacerda de Moura, que colaborara com a criação da Liga pela Emancipação Intelectual da Mulher e delegara a Bertha a representação da Federação Internacional Feminina - que criara com mulheres de São Paulo e de Santos - na Conferência Pan-Americana de Mulheres em Baltimore, em 1922 (a que Lima Barreto não deixaria de se referir), não tardaria a se identificar como "voz única e isolada do rebanho social domesticado". Dizendo-se individualista e representante apenas de si mesma, publicizava, também ambivalente e irônica, a nata das embaixatrizes naturalizadas:

A Embaixatriz 'nata, natural' da mulher brasileira que tem credenciais para representá-la é Bertha Lutz, Maria Eugênia, é Rosalina, é Jeronyma Mesquita, é Santos Lobo, é Olívia Penteado, é Helena de Magalhães Castro, é Telles de Menezes, é Olga Bergamini, é Alice Tibiriçá - são as embaixadoras da graça e da beleza, as embaixatrizes do voto e da caridade, embaixatrizes da poesia e dos salões elegantes... (Moura, 18 set. 1929, citado em Leite, 1984, p.65)

Tais divergências e convergências, já inúmeras vezes apontadas, ganham em Lima Barreto uma descrição primorosa e perspicaz, que explora as lutas internas e as diferentes ideologias. Em suas múltiplas faces, a diversidade dos feminismos brasileiros incluía mulheres que partilhavam concepções conflitantes de feminismos, de conotações ideológicas e prioridades variadas, diferentes credos religiosos ou nenhum; diversas opções políticas, teóricas, regionais, partidárias. Tais mulheres repensaram as relações de gênero no país, inseridas em maior ou menor grau em um contexto internacional de movimentos feministas, sufragistas, modernistas, cientificistas, pacifistas, anarquistas, comunistas, de reivindicações e lutas por diretos das mulheres.

As dissidências do feminismo nascente são, para ele, um prato cheio. Em crônica-carta endereçada à Academia de Altos Estudos, com o subtítulo de "Estudo de ciência social - feminismo e voto feminino" (Careta, 17 jan. 1922), explica:

Mal o feminismo surgiu entre nós, logo cindiu-se em porção de igrejinhas, rivais e inimigas. As principais que ainda existem, são quatro, também rivais e inimigas: Madame Chrysantème (é quase uma basílica); a Liga pela Emancipação Intelectual da Mulher (não confundir com a Cruz Vermelha)14 e Partido Republicano Feminino, em tupi-guarani "Iã Nabô Bokox" - mais uma de suas constantes referências à atuação indigenista de Leolinda Daltro. (citado em Resende, Valença, 2004, p.480)

Explicitamente nomeadas como Bertha Lutz ou ironicamente renomeadas como Adalberta Luz, ou simplesmente não nomeadas, as mulheres e os feminismos que corporificaram, os preconceitos que desafiaram, os direitos que reivindicaram ou não, desfilam nas páginas mordazes de Lima Barreto, mesclados com outros temas sujeitos às suas implicâncias, como a criação da Universidade, Carlos Chagas, as enfermeiras, os 'doutores' e o futebol - cujas partidas as damas passaram a freqüentar e as brigas, a imitar em suas reuniões.

Recordação da Idade Média, a Universidade que se pretendia criar no Rio de Janeiro não obedecia mais ao "espírito do nosso tempo, que quer nas profissões técnicas cada vez mais especialização". Lima Barreto sugeria que "como de todos os graus do nosso ensino, o pior é o superior, toda a reforma radical que se quisesse fazer nele, deveria começar por suprimi-lo completamente" ("A universidade", Careta, 13 mar. 1920, p.152-154). Manancial fantástico de análise sobre feminismos e culturas científicas de seu tempo, suas crônicas de Careta, assim como outras de suas obras, já foram consideradas por diversos autores (Figueiredo, 1998, 2006; Fernandes, 2004) que, embora mencionem Bertha, não se dedicaram especialmente às intrusões das políticas das ciências nas crônicas nem às personagens aí corporificadas.

Ciências e feminismos aparecem ironicamente associados em Lima Barreto. Bertha e a profissionalização das mulheres em cargos que exigiam maior escolaridade dividem a cena com Bruno Lobo e o cientificismo. A emancipação feminina é obra de um homem, de um doutor-cientista, personagem sempre marcado pelo grotesco em suas crônicas.

"O feminismo no museu" poderia ter sido o título do "Bilhete" endereçado ao diretor do Museu Nacional do Rio de Janeiro, Bruno Lobo - "o olhador de microscópio que passou a ser crítico de arte e pontífice em pintura, escultura, gravura, arquitetura, etc., etc." (Careta, 17 jun. 1922, p.527-528).

O médico Bruno Alvares da Silva Lobo dirigiu o Museu Nacional do Rio de Janeiro de 1915 a 1923 e foi responsável por modernizações nas áreas de pesquisa e de campo. Em sua gestão realizou-se a Expedição Barroso15, que mapeou a ilha da Trindade, no litoral brasileiro, da qual ele participou pessoalmente. Os resultados das pesquisas e coletas realizadas na ilha foram o foco principal da edição dos Archivos do Museu Nacional, v.22, de 1919, comemorativa do Centenário do Museu Nacional, em que Bertha Lutz faria sua primeira publicação na instituição.

Bruno Lobo seria desqualificado por Lima Barreto por suas relações na mídia, suas contínuas trocas de especialidades e pela influência que lhe atribuía na nomeação de Bertha para o Museu Nacional:

Conheci-te ainda estudante quando não tinhas tido a honra e glória de escrever a famosa brochura sobre A Estrutura do CilindroEixo. Como tu tinhas fartas relações com jornalistas e aderentes, a tua brochura tão especial teve grande repercussão, graças à 'reclame' que aqueles te fizeram. Arvorando-se ora em "histologista, olhador de microscópio, sabichão em história natural, em arqueologia egípcia, em antiguidades americanas, ora em crítico de arte e pontí-fice em pintura, escultura, gravura, arquitetura etc."; extrapolando suas competências, Bruno Lobo será o responsável pela emancipação feminina: "Feito diretor do museu, tu, meu caro Bruno, arvorando-te em Congresso Nacional, emancipaste a mulher e nomeaste a inefável Bertha Lutz secretário do referido museu". (citado em Resende, Valença, 2004, p.527)

Nessas crônicas não há menções, associações nem ironias envolvendo o pai de Bertha, Adolpho, embora figuras como Carlos Chagas16 não tenham sido poupadas:

Agora temos a faladora Berta Lutz que foi aos Estados Unidos, em Baltimore, creio, dizer que as moças do Brazil se dedicam a ensinar crianças. Grande novidade! Uma cousa, porém não disse e é que as moças do Brasil se fizeram arautos do feminismo burocrático. O que elas querem, é ser escriturárias, mediante concursos duvidosos, em que entram influências "brunísticas", para que tirem os primeiros lugares. Isto é o feminismo à Bruno Lobo, quando não é à Carlos Chagas, esse descobridor do mel de pau em ninho de coruja, que nos impingiu umas "americanas", mais ou menos alouradas, a fim de nos ensinar a dar lavagens e clisteres, obedecendo a métodos científicos, como se elas, apesar de louras e de seus olhos azuis, tivessem alguma idéia do que seja ciência, mesmo aquela esbodegada que tem referido o Chagas. ("Uma atuação da Dona Berta", Careta, 6 maio 1922, citado em Resende, Valença, 2004, p.521)

A "Escola de enfermeiras", em benefício da Diretoria de Saúde Pública e dirigida pelas americanas, as quais até Lima Barreto gostaria de "acudir", "se vestisse saias e estivesse na idade", continha coisas complicadas e up-to-date, como as próprias menções de Lima Barreto:

história e ética da enfermagem (que discursos, não dá!), noções de microbiologia, de matéria médica, de física, de química, nutrição e cozinha (bem achado!), etc. etc. Falta ainda alguma cousa, como: botânica, zoologia, astronomia, meteorologia, oceanografia e uma cadeira sobre o rádium e suas aplicações na medicina, sem esquecer algumas mais. ("Escola de enfermeiras", Careta, 25 mar. 1922, citado em Resende, Valença, 2004, p.513)

A profissionalização da enfermagem no Brasil, que se inicia no século XIX e se consolida nesse período, foi considerada em diversos trabalhos por Maria Lúcia Mott (2005). Viria a ser também uma das mais simbólicas das atuações de Bertha.

Bertha levou consigo para o Parlamento (Sousa, Sombrio, Lopes, 2005) evocações da dedicação da mãe a uma causa que fora também a de investigação científica do pai. Impossível não associar, em seus discursos, suas representações aos tradicionais papéis do feminino/sensibilidade e masculino/racionalidade de sua época. Mas, mesmo se identificada como feminina, a dedicação militante da mãe já passava por uma profissão. Dona Amy Fowler Lutz fora enfermeira voluntária da colônia de leprosos de Molokai, no Havaí, onde conheceu Adolpho Lutz (Benchimol, jan.-abr. 2003), e mais tarde fundou diversas obras sociais, até mesmo as primeiras escolas noturnas para trabalhadores aprendizes e uma escola diurna para pequenos vendedores de jornais. Na tribuna, entre 1936 e 1937, Bertha reivindicaria a defesa da profissionalização da enfermagem, como uma homenagem à mãe.

A mãe de Bertha é uma figura muito pouco presente em sua documentação. A imagem que nos legou da mãe, de sua trajetória de vida, de seu casamento com Adolpho Lutz é marcada pelo idealismo. Foi a imagem de uma verdadeira heroína, cidadã do mundo, que se uniu a ele por uma causa - a de corpos disformes indesejados: "A inglesinha que havia estudado enfermagem, havia estado em Paris, procurava uma vocação ... a jovem heroína, a quem tinham dado o nome de irmã Gertrudes Rosa, embarcou para Honolulu, para se instalar no Hospital de Leprosos..." (Lutz, s.d.).

Outra imagem que Bertha nos lega da mãe, em seu depoimento a Branca Moreira Alves (1977), é a influência em momentos decisivos de sua vida. Realizada a primeira prova do concurso de ingresso no Museu Nacional - o mesmo concurso que consagraria o "feminismo a Bruno Lobo" de Lima Barreto -, Bertha, que pensava em desistir, foi incentivada e advertida pela mãe: caso ela desistisse no meio do processo, seu comportamento repercutiria negativamente, prejudicando todas as outras mulheres que começavam, como ela, a disputar cargos no funcionalismo público, até então reserva de mercado exclusiva da mão-de-obra masculina.

Em diversas situações é a Bruno Lobo que Lima Barreto designa o papel de personagem principal em um feminismo no qual Bertha seria coadjuvante: "A senhorita Bertha Lutz continua nas suas manifestações de feminismo burocrático que são muito de agrado do meu antigo amigo Bruno Lobo". Entre negociações, influências políticas, recursos financeiros e melhoramentos urbanos, havia "margem para muito feminismo teórico e prático". Lima Barreto lamentava que a "apostolesa" - "tão curiosa senhora" - que andava "nos Estados Unidos devido a munificência do Governo Federal, a fazer propaganda da Exposição do Centenário"17, não se interessasse por ajudar Carlos Sampaio a derrubar o morro do Castelo ("Feminismo internacional", 3 jun. 1922, p.524).

Jogando com as palavras, servindo-se de metáforas paleontológicas, Lima Barreto propõe um voto de agradecimento ao doutor Bruno Lobo, por ser o descobridor do feminismo pré-histórico no devoniano, entre os trilobitas ("O feminismo invasor", ABC, 21 jan. 1922, p.492); e qualifica sua voz: "Daí em diante, secundando as vozes altipotentes de Maurício de Lacerda18 e Bruno Lobo ... Trataram as moças e senhoras de arranjar bons padrinhos e colocarem-se nas repartições públicas saltando por cima das leis e outros obstáculos" ("O feminismo invasor", ABC, 21 jan. 1922, p.493).

Bertha, nas crônicas de Lima Barreto, aparece sem o pai mas tutelada por Bruno Lobo. Perde seu protagonismo na liderança feminista em exercícios de retórica que só podiam ser intencionais em Lima Barreto. Em suas lutas por "roubar-lhes a palavra" e o nome próprio, no feminismo a la Bruno Lobo, a Bertha que emerge das crônicas de Lima Barreto não tem nenhuma autonomia. Lima Barreto até sugere que ela bem poderia ser sufragista. Nem as conquistas feministas poderiam ser realizações das mulheres, ou para o seu próprio agrado. O clichê é antigo e será explorado nas diversas situações em que, no seu "feminismo tático" (Soihet, 2006), Bertha chamará ilustres políticos e intelectuais homens para sentar à mesa nas seções solenes dos seus congressos.

As crônicas de Lima Barreto detratavam, mas adicionavam visibilidade à luta política de Bertha e à sua posição institucional. Vinculavam-na intrinsecamente ao seu emprego público, nomeando Bruno Lobo, o diretor do Museu Nacional do Rio de Janeiro, instituição que havia um século - com altos e baixos, mas ininterruptamente - disputava e buscava manter seu prestígio científico-político junto às demais instituições científicas que se ampliavam e se modernizavam à época, no país.

Nesses anos em que Bertha entrara para o Museu Nacional, outras mulheres já o freqüentavam. Também pelas mãos de Bruno Lobo, que além de feminista era paraense, Henriette Mathilde Maria Elizabeth Emilie Snethlage, a doutora Emilia, a primeira diretora de um museu científico na América Latina - ainda que esse fosse o Museu Paraense, em dificuldades institucionais - tornou-se naturalista viajante do Museu Nacional em 1922, encerrando o "ciclo amazônico de sua vida científica", como quis Bertha (Lutz, 1958, p.40). Naturalista de campo por excelência (Corrêa, 2003; Lopes, 1998), a doutora Emília foi recebida na Academia Brasileira de Ciências19 por Miranda Ribeiro, "em discurso vazado em moldes clássicos, com votos de que as Parcas lhe concedessem longa meiada de dias" (Lutz, 1958, p.42). No ciclo brasileiro de sua obra científica, aumentaria as coleções ornitológicas do Museu Nacional com peles de pássaros amazônicos e percorreria estudando a distribuição da avifauna amazônica, a zona de transição entre a hiléia e o sertão, no Maranhão, em 1923 e o vale do São Francisco nas regiões de Minas Gerais e Bahia, em 1926. E foi "com a maior simplicidade", na opinião de Bertha, que a doutora Emilia - "pioneira dos naturalistas, que em levas sucessivas e crescentes viajaram pelo rio Araguaia" - descreveu "as aventuras e peripécias" de suas viagens a São Paulo, Goiás e longo trecho do rio Araguaia, em 1927. No ano anterior à sua morte em Porto Velho, quando ainda tinha planos, confidenciados ao irmão, de ir ao rio Branco pelo rio Negro para estudar a avifauna das fronteiras Brasil-Colombia e Brasil-Equador, a naturalista viajou do Paraná ao Rio Grande do Sul, e do vale do rio Uruguai à Argentina, às cataratas do Iguaçu e a Mato Grosso. E em 1929 ainda chegaria a Caparaó.

Em seu resumo dos trabalhos executados enquanto esteve na Europa, entre 1924 e 1925, estudando os pássaros que havia coletado com o auxílio dos preparadores do Museu Goeldi, entre 1914 e 1923, no Ceará, Maranhão, Pará, Amazonas e norte do Mato Grosso, a doutora Emilia justificava a Arthur Neiva, já então diretor do Museu Nacional, que apesar dos problemas financeiros relatados em cartas - que, ao que parecia, nem todas infelizmente haviam chegado às mãos do diretor -, conseguira cumprir a maior parte de seu programa de estudos graças ao auxílio dos seus colegas dos grandes museus europeus de história natural, principalmente os ingleses, austríacos e alemães. Divididas por suas afinidades zoológicas, tais coleções incluíam a coleção de pássaros do estado do Ceará, representando a fauna do sertão; a coleção de pássaros dos estados do Pará e Amazonas e da parte setentrional do Mato Grosso, representando a fauna da hiléia; e a coleção de pássaros do estado do Maranhão, a primeira contribuição de algum vulto à avifauna dessa zona de transição (Snethlage, 15 nov. 1926).

Em outro relato, que está longe de transparecer como ação transgressora, talvez por sua familiaridade com o círculo social e a instituição, Heloisa Alberto Torres contava que desde 1917, com sua irmã e as duas filhas de João Batista da Lacerda (ex-diretor do Museu Nacional), passara a freqüentar o Museu Nacional para ter aulas de história natural com Roquete Pinto (Corrêa, 2003; Ribeiro, 2000).

Diferentemente do concurso de Bertha - e mesmo tendo sido adiado por motivos de saúde da candidata -, o concurso de dona Heloisa, já estagiária do Museu, em 1925, não foi questionado pela mídia. Enquanto o primeiro fora um concurso para secretário, este voltava-se à contratação de uma professora substituta da Divisão de Antropologia e Etnografia: "Confessemos que havia certa hesitação em admitir que os poderes públicos homologassem a decisão dos julgadores de uma prova em que foram derrotadas algumas autoridades na matéria". Os louros do feminismo seriam aqui repartidos com os da nacionalidade, e a figura da "herdeira legítima das virtudes intelectuais de Alberto Torres" seria cuidadosamente preservada pelo jornal ABC: "Os louros do feminismo no Brasil ainda são raros. Heloisa Alberto Torres, orgulhosamente solitária, conscientemente distanciada de coquetteries e refratária a reclames espetaculares, pode ufanar-se da contribuição que a vitória de sua clara inteligência traz para o advento daquela causa (a nacionalidade) na nossa pátria. (ABC, 12 set. 1925, citado em Ribeiro, 2000, p.40).

Bertha e Heloísa foram e são constantemente associadas aos seus pais, com suas bem marcadas origens sociais distintas, e a figuras masculinas de prestígio como Bruno Lobo e Roquette Pinto. Bertha Lutz e Heloisa Alberto Torres tinham personalidades distintas, trilharam carreiras científicas em áreas disciplinares distintas, disputaram entre si posições e relações institucionais em diferentes espaços e partilharam interesses feministas diferenciados. Bertha nunca foi diretora da instituição que Heloisa comandaria por anos. Disputaram posições e tiveram desentendimentos, como no Conselho de Fiscalização, em que Bertha substituiu Heloisa (Sombrio, 2007), e no Museu Nacional, que parecia pequeno para a atuação das duas. Nos longos anos passados por Bertha entre as viagens e o estudo das coleções do pai em Manguinhos, a correspondência entre as duas cientistas testemunha suas amizades internacionais comuns e a cumplicidade em torno da causa feminista e dos posicionamentos políticos.

Se as categorias 'mulher de Estado' e 'mulher de ciência' não são suficientes para definir "a rica personalidade de Heloisa Alberto Torres, [que] não pertencia nem ao quadro estrito dos políticos nem àquele dos pesquisadores" (Ribeiro, 2000, p.106), também não o são para definir Bertha, se não assumirmos a total interdependência dessas e de algumas outras categorias que podem ser identificadoras não só de algumas mulheres dessas gerações de profissionais, mas também de seus pares homens na construção de suas carreiras científico-políticas.

Acompanhando a ação dessas personagens e especialmente a trajetória feminista, política e científica de Bertha Lutz nos primeiros anos de sua carreira, de 1919 à década de 1930 - que estamos analisando em sua vasta documentação, em grande parte ainda inédita -, começamos a visualizar mudanças sutis pelas quais estava passando uma das mais importantes instituições científicas brasileiras, o Museu Nacional do Rio de Janeiro. Essas mudanças envolveram desde redefinições de áreas de pesquisa até a incorporação de mulheres nos seus quadros funcionais. Apoiaram-se, não apenas no caso específico dessas personagens, em amplas redes nacionais e internacionais, e envolveram interesses políticos, ações da mídia e relações de amizade, sem dúvida marcadas pelas freqüentemente ainda negligenciadas dimensões de gênero.

Mas, por essa época, tais mulheres já estavam longe de serem as únicas, apesar da insistência de Lima Barreto em reduzir todo um movimento à persona de Bertha. Várias outras mulheres - ainda pouco consideradas - estavam ascendendo e obtendo reconhecimento público em suas carreiras e profissões, muito mais graças à capacitação obtida pela formação especializada, trabalho árduo e longa experiência, do que por suas redes de relações familiares ou políticas (Mott, 2005). Maria Antonieta de Castro não parece confirmar o papel secundário a que foram relegadas as mulheres nas histórias da saúde pública no Brasil, que consideraram médicos e engenheiros seus principais elementos. Ela também tinha seus discursos, participações em congressos científicos e conferências amplamente publicizados nos jornais paulistas, e através de sua trajetória é possível acompanhar o processo de institucionalização da educação sanitária em São Paulo (Rocha, 2005).

O feminismo de Bertha foi seguramente uma das dimensões que impulsionaram sua carreira profissional. Ele lhe emprestava a notoriedade e visibilidade - cuidadosamente construídas - que se articulariam com seu desempenho profissional. A ciência lhe conferia prestígio social e garantia legitimidade para suas causas. Para essas notoriedade e visibilidade seriam decisivas não só as crônicas de Lima Barreto, mas fundamentalmente a propaganda feminista sufragista na mídia20, que as suscitava, a dimensão jornalística da atuação feminista e a coluna (inúmeras vezes redigida pela própria Bertha) que a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino manteve de forma constante nos anos iniciais de sua carreira, em O Paiz. Como lembra Carmen Portinho,

tínhamos muita cobertura da imprensa. Na década de 30 existia o jornal O País, que era o jornal do governo, e nos apoiava. Também o Jornal do Brasil nos dava muito espaço. O Barbosa Lima Sobrinho era o executivo do JB e publicava nosso material. Dessa forma, ele teve papel importante no feminismo brasileiro, apoiando as primeiras mulheres e suas lutas. Para não ficar para trás, os outros jornais também nos abriram espaço. (citado em Costa, nov. 1995, p.51)

Nos jornais de diferentes linhas foram constantes e significativas as menções às representações internacionais do país, que muitas vezes Bertha fez em viagens de estudo sob a chancela do Museu Nacional. Sua imagem sempre bem cuidada - com os cabelos curtos - apresentava então uma Bertha jovem, moderna, mas séria, nomeada pelo título de doutora, referência a sua titulação em ciências naturais pela Sorbonne, em reportagens que atribuíam cientificidade aos congressos de que participava. A título de exemplo, no artigo "O movimento feminista brasileiro", publicado no jornal O Brazil em 3 de março de 1925 (Figura 1), um dos inúmeros sobre sua presença na imprensa, esse 'movimento' é representado por Bertha em sua dimensão intrinsecamente internacional. O texto entrelaça a Conferência Pan-americana de Mulheres ao Congresso Científico de Lima. Este ganha subtítulo na matéria, ao lado das principais reivindicações feministas - apresentadas como "as vitórias conseguidas em 1924, com o esforço e trabalho da mulher brasileira": a nacionalidade da mulher casada, temática que seria retomada no texto apresentado para a conclusão de seu curso de direito, depois traduzido para o inglês21 -, a legislação do trabalho e o voto feminino.

 

 

Entre as conquistas obtidas em 1924, além do que se refere às reivindicações de direitos sobre "a nacionalidade da mulher casada, a legislação do trabalho e o voto feminino", estariam também aquelas relacionadas às mudanças na carreira de Bertha, não mais atribuídas a Bruno Lobo. Contrariando os jornais, a própria Bertha as atribuiria a Arthur Neiva.

Em 1924 os jornais relatavam, que por solicitação da Seção de Botânica do Museu Nacional e com a concordância do ministro da Agricultura, Bertha fora designada para aquela seção pelo então diretor do Museu Nacional Artur Neiva, que "conhecedor da sua dedicação ao trabalho e comprovada competência não hesitou em designá-la para exercer suas atividades nesse departamento". Desde 7 de maio de 1924, Bertha passara a exercer funções de naturalista na Seção de Botânica do Museu Nacional do Rio de Janeiro. São seus rascunhos das Palestras Culturais do Museu Nacional, de 8 de julho de 1958, sobre os "Traços biográficos do dr. Alberto José de Sampaio - Chefe da seção de Botânica do Museu Nacional", que nos contam sua versão da 'promoção', revelando sutilezas das disputas acadêmicas no ambiente científico do Rio de Janeiro:

houve um momento em que fui trabalhar na seção de Botânica, quando eu entrei no Museu foi como secretária e ficou logo estabelecido que quando houvesse oportunidade eu sairia da secretaria para trabalhar numa seção técnica. Eu só consegui trabalhar nesta secção técnica quando o dr. Neiva veio para o museu, e por um motivo muito esquisito: tinha desconfiança, sendo meu pai amigo do Chagas, eu pudesse fazer espionagem sobre o Neiva em benefício do Instituto Oswaldo Cruz. Era uma idéia sem cabimento nenhum dada a psicologia do dr. Lutz e a minha e as nossas relações tanto com um como com outro. Mas foi bom porque fui parar na secção de Botânica e tive ocasião de ver o prof. Sampaio de perto e da lá - eu consegui ficar uns tempos - e fui parar na Zoologia, e não tive de voltar para esse cargo sumamente aborrecido que era ser secretária do Museu Nacional. (Arquivo Nacional. Fundo Bertha Lutz, caixa 1, doc. s.n., p.6.)

Jamais descuidando da carreira, seus subseqüentes pedidos de enquadramento funcional traziam em reforço aos seus títulos de licence a sciences da Universidade de Paris, com certidão de ter cursado a cadeira de botânica da Sorbonne, referências a alguns de seus mestres mais eminentes: os especialistas Gaston Bonnier (morfologia), M. Molliard (fisiologia), L. Matruchot e R. Viguier (sistemática: criptógamos e fanerógamos) e Coupin (prática de laboratório). Explicando ser legítimo seu pedido para assumir a vaga do naturalista efetivo dr. Julio Cesar Diogo, falecido em 1937, Bertha não deixa de mencionar, além de suas publicações na área22, relatórios de viagens de estudos, coleta, classificação e organização de coleções, entre os trabalhos de vulgarização executados de acordo com o chefe da seção, professor Sampaio, como também um anuário em português acessível aos estudantes dos princípios de botânica científica de Engler e Prantl etc.

A bióloga tornada feminista ainda se faria advogada e especialista em museus. O Museu Nacional, que permanecia e se atualizava como um dos pólos dinamizadores das atividades educacionais e de divulgação científica do país, seria o palco de inúmeras iniciativas modernizadoras para a época, no que se refere às práticas educativas e comunicativas dos museus (Lopes, maio 2006). Seguir Bertha Lutz, como temos feito em nossos trabalhos, nos momentos iniciais de sua trajetória indissociavelmente feminista e científica, nessas décadas marcadas também pela luta em prol do voto feminino, tem permitido vislumbrar aspectos da cultura científica de setores sociais do país no período.

Trazer a público o protagonismo que cabe a Bertha em sua própria carreira não significa desconsiderar o valor agregado do capital simbólico que o nome do pai trouxe à sua trajetória. A literatura de gênero internacional é pródiga em demonstrar o quanto relações familiares incentivadoras foram essenciais no apoio e estímulo às primeiras gerações de cientistas a cada novo século. Longe de entender essa herança como demérito à sua prática científica, a imprensa sempre a destacou, e Bertha a conservaria de forma indubitavelmente respeitosa, amorosa.

Uma vez que, em termos de micropolíticas das ciências, cada ação, cada rotina, cada citação assume um significado político, reconhece uma fonte de autoridade, foi em nome do pai que Bertha escreveu muitas de suas obras. Relações de gênero, geração, raça, autoridade paterna, cuidados familiares emergem de inúmeros textos. Quando Adolpho Lutz já estava ficando cego e passando dos "mosquitos, dos insetos, para os anfíbios", Joaquim Venâncio e Bertha seriam seus olhos, classificando sapos e lendo para ele nas escadas do Pavilhão Mourisco (Lopes, Oliveira, jan.-abr. 2003). Tais relações são perceptíveis até mesmo nas simples referências às fotos das hilas que seu irmão Gualter, como um bom auxiliar de campo, tirava dos animais que Bertha descrevia em seus textos. Foi à memória do pai, do irmão Gualter e de Joaquim Venâncio - o técnico invisível e incansável - que Bertha dedicou a sistematização do trabalho síntese de toda sua vida, apresentado como um empreendimento familiar: Brazilian species of hyla (Lutz, 1973).

Este livro deveria ter sido escrito por meu pai, Dr. Adolpho Lutz, que começou nosso trabalho sobre anfíbios ... A continuação do trabalho herpetológico caiu sobre mim. De fato logo se tornou um projeto familiar, pois as fotografias apresentadas no livro são obra do meu falecido irmão professor Gualter Adolpho Lutz ... Outra pessoa que deve ser mencionada: Joaquim Venâncio, um modesto trabalhador do Instituto Oswaldo Cruz. Analfabeto, adquiriu uma perspicácia científica e um conhecimento prático de sistemática aliado a um tino pela ecologia animal, que embora individual poderia ter sido proveniente de suas origens africanas. Se não fosse a falta de oportunidades educacionais ele teria se tornado um pesquisador independente, era um gentleman, um amigo, um excelente colaborador. (Preface, in Lutz, 1973, s.p.)

Em nome do pai, Bertha Lutz teria realizado grande parte de sua própria carreira. Depois da morte de Adolpho Lutz em 1940, Bertha se faria encarregar, entre suas atividades no Museu Nacional, do serviço de organização de seus arquivos e publicações, bem como da ampliação de suas coleções. Se a organização de tais arquivos e a revisão e ampliação das coleções a ocupariam pelo restante de sua vida acadêmica, em trabalho de constante homenagem ao pai, é inegável que lhes possibilitaram a consolidação de sua própria carreira. Seus próprios artigos foram publicados em revistas científicas no país e no exterior e são ainda citados em sua especialidade (Lopes, 2006a; Lopes, Sousa, 2007).

Bertha classificou diversas espécies de hila e ainda deu nome a uma delas - Hyla berthae (Barrio, 1964). Em seu livro, as cinco páginas de agradecimentos começam por mencionar o apoio constante recebido do CNPq - então Conselho Nacional de Pesquisas - e conferem autoridade a sua trajetória de vida, marcada por viagens de campo a diversos países e relações científicas com pesquisadores de todo o mundo, numa rede invejável de instituições científicas. A própria Bertha identificou as diversas hilas de sua descrição, além daquelas classificadas em conjunto com o pai. Apenas para mencionar algumas das classificações apresentadas em seu livro, referidas às publicações originais na nomenclatura da época, temos: Hyla secedens B. Lutz, 1963; Hyla musica B. Lutz, 1948; Hyla punctata rubrolineata B. Lutz, 1951; Hyla nahdereri Lutz & Bokermann, 1963; Hyla polytaenia cipoensis B. Lutz, 1968; Hyla polytaenia goiana B.Lutz, 1968; Hyla longilinea B. Lutz, 1968; Hyla duartei, duartei B. Lutz, 1952; Hyla catharinae alcatraz B. Lutz, 1972.

Como já afirmamos anteriormente, suas práticas sugerem que, como uma cientista kuhniana normal, de área não considerada de ponta no seu ambiente acadêmico, Bertha Lutz arriscou-se muito mais no campo da política, do feminismo, do que nas redondezas do Rio de Janeiro ou no interior do país, onde parece ter praticado com muito prazer a velha ciência normal. O prestígio político internacional impulsionou sua carreira, assim como seu status de cientista conferia autoridade a muitas de suas teses feministas e políticas.

Também na legenda da Figura 2 Bertha está vinculada à sua carreira política, ao Museu Nacional do Rio de Janeiro e à organização das mulheres brasileiras. Ela participou, como delegada plenipotenciária do Brasil na Conferência de São Francisco, da fundação da ONU, em 1945, onde se firmou a Carta das Nações Unidas - considerado o primeiro instrumento internacional em que se estabelece o princípio de igualdade de direitos entre homens e mulheres. Em 1948 ela figura entre as quatro mulheres a assinarem a Declaração dos Direitos Humanos pelas Nações Unidas. Bertha, do Brasil, e as delegadas dos Estados Unidos, Virginia Gildersleeves, da República Dominicana, Minerva Bernardino, e da China, Wu Yi-Tang, foram as responsáveis pela mudança do nome da Declaração de Direitos do Homem para Declaração dos Direitos Humanos. Lutaram para que as mulheres fossem reconhecidas no conteúdo da carta e por sua inclusão nos cargos políticos da ONU.

 

 

Do alto de sua autoridade política, feminista e científica, foram inúmeras as vezes em que Bertha pareceu querer emprestar seu próprio à construção da memória do pai, nunca reconhecido à altura - segundo ela - do que mereceu. Revelador das imagens construídas sobre Bertha, o depoimento de Esmeraldino de Souza nos dá uma idéia sem artifícios da indissociabilidade das suas práticas político-científicas, do quanto sua proeminência feminista lhe adicionava reputação no Museu e em Manguinhos:

 

 

As pessoas a respeitavam pelo que ela era dentro e fora do Museu. Uma vez por mês, a dra. Bertha Lutz tinha audiência com o sr. presidente da República, o falecido dr. Getúlio Vargas. Todas as quintas-feiras, a partir de 15 horas, o dr. Getúlio Vargas a recebia. Por quê? Porque tinha grande contato com os Estados Unidos. A sede da presidência da Internacional das Mulheres - não sei bem tudo -, a Comissão Internacional das Mulheres, a sede era dentro da Casa Branca ... A vida política dela lá fora consistiu nisso. Era a representante do Brasil, e como vocês sabem, isso influiu dentro do Museu, influiu no Instituto. Ninguém mexia com a dra. Bertha Lutz. O ministro a obedecia. (citado em Sá, Domingues, jan.-abr. 2003, p.417)

 

Considerações finais

Guardadas as devidas proporções e consideradas as condições específicas nas primeiras décadas do século XX no Brasil, Bertha Lutz e suas colegas das primeiras gerações de pesquisadoras nas instituições científicas do país não parecem ter necessitado de estratégias de ocultamento para conquistar sua própria autoridade científica não dissociada da sua visibilidade política. Chegaram, mesmo, a se apoiar nela, diferentemente do que parece ter sido a estratégia de sobrevivência da geração de mulheres norte-americanas na época, que repudiaram o gênero como um referente para a produtividade científica (Lopes, 2006a, 2006b).

No caso de Bertha Lutz, simplesmente praticar ciências e feminismos já fazia toda a diferença, uma vez que ela transgrediu na própria trajetória a sub-representação das mulheres nas ciências e na política, recusando-se ao casamento e à maternidade, acoplando ideais feministas a uma concepção de ciência neutra, racional e objetiva em um contexto no qual não se questionava a ciência.

Questões como essas, suscitadas a partir de leituras de e sobre Bertha, apontam para a existência de uma série de dificuldades metodológicas para as análises do campo de gênero em ciências, ainda emergente no país. Na realidade, também em ciências "não se trata de buscar padrões de feminilidade ou masculinidade da época, nesse tempo tão próximo do nosso", adverte Mariza Corrêa (2003). Do que se tratava - e continua se tratando, com variações de detalhes, nuances significativas de conteúdos, é claro - era da luta no campo científico, cultural e político, que se alargava possibilitando a entrada de novos atores. Mais promissoras são as tentativas de recolocar essas personagens em seus próprios cenários, "tentando compreender a leitura que seus interlocutores faziam de sua presença ali e situando-as no contexto de atuação de suas contemporâneas em outros lugares do mundo" (p.31).

Colocando-as ao lado de seus colegas profissionais e analisando suas trajetórias no contexto da época de cada uma, começam a emergir definições de feminina e de masculino, explicitadas em disputas pelo poder, pelo prestígio ou por privilégios de vários tipos e pela atribuição a elas de um estatuto ambíguo, como se tratasse de seres andróginos a quem é preciso conjurar, desmentir, redefinir tão logo essa atribuição se expresse nos discursos a respeito de seus feitos científicos. (Corrêa, 2003, p.30)

Bertha e suas companheiras de geração parecem mais constituir-se "como seres de natureza imaginária, por estarem fora de seu espaço 'natural', sem terem sido admitidas ao novo espaço social que procuravam ocupar: nem homens, nem mulheres, em termos culturais: seres anômalos, aparentados antes aos monstros do que à raça humana" (Corrêa, 2003, p.31). Em termos de idealizações retóricas dos persistentes estereótipos que acompanham as gerações de mulheres de ciências, também no Brasil no início do século XX as cientistas eram uma contradição em si (Rossiter, 1995), o que continua dificultando as leituras sobre elas. As abordagens tradicionais as compreendem sem seus nomes próprios, enquadradas em um nome de família ou como discípulas de seus professores. Próximas talvez - aí sim - das norte-americanas que Bertha tanto admirou: como cientistas eram atípicas, e como mulheres não eram cientistas comuns, eram estranhas.

 

NOTAS

1 Este artigo sistematiza e avança uma série de pesquisas em realização no contexto do projeto Temático Fapesp: Gênero, Corporalidades, coordenado pela professora doutora Mariza Corrêa. Não seria escrito sem a colaboração essencial de Lia Gomes Pinto de Souza, historiadora, mestranda do Programa de Pós-Graduação em História das Ciências (COC/Fiocruz), e de Mariana Moraes de Oliveira Sombrio, historiadora, mestre em Política Científica (IG/Unicamp). A elas, que sem dúvida se reconhecerão em partes deste texto, e a Valter Ponte meus agradecimentos, pelo apoio fundamental à pesquisa.

2 Entre outras autoras, são referências para nossas pesquisas: Emilia Snethlage (1868-1929), zoóloga, diretora do Museu Paraense Emílio Goeldi e naturalista do Museu Nacional do Rio de Janeiro (Lutz, 1958; Corrêa, 2003; Lopes, 1997); Heloísa Alberto Torres (1895-1977), diretora do Museu Nacional de 1938 a 1955 (Corrêa, 2003; Ribeiro, 2000); a médica Carlota Pereira de Queiroz (1892-1982), primeira deputada federal do Brasil (Schpun, 2004); a educadora e jornalista Maria Lacerda de Moura (1887-1945) e as faces do seu feminismo (Leite, 1984); a farmacêutica feminista de Goiás Velho, Consuelo Caiado (Kofes, 2001); Carmen Portinho (1903-2001), a terceira mulher a se tornar engenheira civil no país, com destacada atuação na arquitetura brasileira, e que foi casada por poucos anos com Gualter, irmão de Bertha Lutz (Costa, nov. 1995). Sobre Bertha, além das teses fundacionais de Rachel Soihet (1974) e Branca Moreira Alves (1977), ver os trabalhos atuais de Rachel Soihet (jul.-dez. 2002, 2004, 2006) e os meus próprios trabalhos.

3 Para uma abordagem mais contextualizada e cronológica de flashes da trajetória político-científica de Bertha Lutz, ver, entre outros artigos, Lopes, 2006a, e Lopes, Sousa, 2007.

4 Marie Sklodowska Curie (1867-1934) e sua filha Irène visitaram o Brasil em agosto de 1926, tendo sido recebidas no Museu Nacional por dona Heloísa e Bertha Lutz. A imprensa afirmou que a chegada da cientista ao Brasil extrapolou a repercussão esperada, o que significaria um "marco na luta histórica das mulheres", indicando o 'reconhecimento oficial' da capacidade intelectual da mulher por parte dos cientistas brasileiros (Lopes, Sousa, abr. 2006).

5 Entre diversos exemplos espalhados pelo país, a professora Georgina Pires, que com suas colegas Dolores Diniz e Júlia Augusta Medeiros e outras colaboradoras editaram o Jornal das Moças de 1926 a 1932 em Caicó, Rio Grande do Norte. Era reconhecida como muito elegante e ousada, tendo sido a primeira mulher a usar preto sem estar de luto, a usar costa-nua em Caicó e a dirigir um carro Ford (Rocha Neto, 2002).

6 Carta de Paris, 8 jun. 1919: "Dans votre dernière lettre vous me dites que vous vous occupez de féminisme, que vous écrivez des articles, faites des conférences. C'est sans doute tout cela qui vous absorbe" [Em sua última carta, a senhorita me disse que está envolvida com o feminismo e que escreve artigos, faz conferências. É tudo isso que, sem dúvida, a absorve]. (Arquivo Nacional, COACE DIADI, pacote 11).

7 "To you, oh my book, I confiding this story; it is not the story of an amourette, nor the story of a violent passion, but rather of an arcadian love, that blossomed like the flower of the summer something indefinably deep and tender, a poem that refreshed the lives of two people and brought in some of that tranquil mysticism that rises from depths of the subconscious, shall we say the super-conscious where the fusion with All-Soul is born" [Para ti, oh meu livro, faço confidências dessa história. Ela não é uma história de uma aventura amorosa, nem a história de uma paixão violenta, mas sim a de um amor arcadiano, que floresceu como a flor do verão, algo indefinidamente profundo e suave, um poema que revigorou as vidas de duas pessoas e trouxe um tanto daquele tranqüilo misticismo em que nasce a fusão com todas as almas]. Trecho inicial do manuscrito de Bertha, "One golden Summer". (Arquivo Nacional, COACE DIADI, pacote 11, Produção Intelectual de Bertha Lutz. 1st Novelette by B. L.)

8 Os dados pessoais e funcionais que seguem constam das fichas "Declaração de família dos funcionários do Museu Nacional", reunidas em: (1) Fundo Bertha Lutz (em organização), Documentos Particulares, assunto: Lutz, Bertha Maria Julia. Museu Nacional. (Min. da Educação e Saúde. Rio de Janeiro. Classe 121. Museu Nacional); (2) Requerimento com dados biográficos e cópia do ofício 383, 7 maio 1924. (Arquivo Nacional, COACE-DIADI, caixa 11).

9 Para Figueiredo (2004), especialista em Lima Barreto, seria falsa e equivocada a acusação de misoginia. Posicionando-se contra o que considerava o "feminismo bastardo, burocrata", e não contra as mulheres, Lima Barreto tinha "ojeriza aos signos do progresso republicano", e a ambigüidade implícita e explícita em seus artigos não permeia o retrato positivo da mulher elaborado em seus romances, novelas e contos.

10 Ver as crônicas de Lima Barreto na revista Careta, 1919 a 1922, especialmente "Ajuste de contas" (11 maio 1918), "Negócio de maximalismo" (20 set. 1919, p.21) e "O feminismo em ação" (8 abr. 1922). Ver Resende, Valença, 2004.

11 Carmem Lúcia N. Figueiredo (2004, p.164), autora cuja leitura é obrigatória para considerações sobre a obra de Lima Barreto, afirma: "em 'Impressões de leituras' Lima Barreto apresenta com sarcasmo, um trecho do romance de estréia de Albertina Berta (conhecida militante do feminismo)". Lima Barreto não está, nesse caso, se referindo a Bertha Lutz, mas sim a Albertina Berta de Lafayette Stockler, carioca, nascida em 1880, filha do jurista e conselheiro do Império Lafayette Rodrigues Pereira, a qual escreveu diversos romances, como Exaltação (1916) e Voleta (1926).

12 Título da crônica de Lima Barreto publicada no jornal ABC em 21 jan. 1922 (Resende, Valença, 2004, p.491-493).

13 São inúmeros os exemplos da amplitude internacional das redes de solidariedade tecidas por Bertha, que em alguns casos se iniciaram pelas relações do pai. Da Embaixada Imperial do Japão em Paris, Bertha recebia resposta a sua carta de 6 nov. 1921, do dr. Muyajima, do Kitasato Institute for Infectious Diseases de Tóquio, em que este, inteirando-se de que o movimento das mulheres no Brasil avançava alguns passos, mas não tanto quanto na Europa e na América do Norte, não sabia informar se existiam organizações de luta feminina no Japão, mas sugeria que Bertha entrasse em contato com Mademoiselle Tetsu Yasui, diretora de um Women's College em Tóquio. Informava-lhe sobre o cultivo das pérolas, que lhe poderia interessar em função de seus estudos de conquiologia; das dificuldades inerentes a participações em Congressos - no caso, o de Higiene - quando não se dominava uma língua como o francês. Se esse era um contato de Adolpho, era seguramente também de Bertha. Em carta datada de 4 dez. 1920, escrita em papel timbrado do Instituto Oswaldo Cruz, Bertha agradece o envio de uma linda coleção de conchas japonesas para o Museu daquela instituição; informa que Gualter está na Europa; que um amigo em comum estivera no Brasil; e que seu pai e sua mãe mandavam lembranças. A ela, ele agradecerá em 1923, lamentando não tê-la encontrado nos Estados Unidos, a intermediação para o envio dos mosquitos com que Bruno Lobo o presenteara - presumindo tratar-se de idéia de Bertha; e afirma que enviará cópias de seu livro como presente para seu pai Adolpho e para Bruno Lobo. (Cartas de 4 dez. 1920, 2 dez. 1921 e 22 jan. 1923. Arquivo Nacional COACE. DIASE).

14 A propósito da Cruz Vermelha, cabe lembrar a atuação expressiva da médica Maria Rennotte (1842-1952), criadora da filial da Cruz Vermelha em São Paulo e uma das diretoras da Aliança Paulista pelo Sufrágio Feminino, responsável pela recepção da norte-americana Carrie Chapman Catt em São Paulo (Mott, 2005).

15 Dada a importância estratégica da ilha da Trindade durante a Primeira Guerra Mundial, a partir de maio de 1916, por iniciativa do ministro da Marinha Alexandre de Alencar, ela foi ocupada militarmente e facultada à pesquisa. Em sua conferência "Ilha da Trindade", proferida na Biblioteca Nacional em 18 de julho de 1918, Bruno Lobo apresenta as características gerais da ilha e dos trabalhos lá desenvolvidos em 1916 e não deixa de agradecer a hospedagem que os pesquisadores do Museu Nacional receberam a bordo do Barroso, navio da Marinha de Guerra brasileira, ressaltando a importância da cooperação entre marinheiros e cientistas para o progresso do Brasil (Lobo, 1919).

16 Sobre Carlos Chagas ver os trabalhos de Kropf, 2005, e Kropf, Hochman, 2007.

17 Além de participar da Conferência Pan-Americana de Baltimore, Bertha realizou intercâmbio de coleções com diversos museus norte-americanos e foi incumbida pelo ministro da Agricultura do estudo sobre os métodos de divulgação do ensino de agricultura e de economia doméstica nos Estados Unidos (Lopes, 2006a).

18 Maurício de Lacerda (1888-1959), advogado e jornalista, foi deputado federal pelo Rio de Janeiro e participou dos levantes tenentistas de 1922 e 1924, quando também esteve preso. Fundou a Liga Socialista do Estado do Rio de Janeiro e em 1930 elegeu-se novamente deputado federal, pela Aliança Nacional Libertadora (ANL). Com a extinção da ANL, em 1935, fundou a Aliança Popular por Pão, Terra e Liberdade. (Ver Coleção Maurício de Lacerda. BR UNICAMP IFCH/AEL ML).

19 Mais como atributo de prestígio à academia do que às cientistas, duas mulheres foram convidadas para integrar a Academia Brasileira de Ciências, em 1926: Marie Sklodowska Curie e Emilie Snethlage. A próxima cientista a ser admitida na Academia, a paleontóloga norte-americana/brasileira Carlota Joaquina de Paiva Maury, só o seria dez anos depois, em 1937 (Melo, Casemiro, set.-dez. 2003).

20 A título de exemplo, ver as notícias sobre o vôo de Bertha e das companheiras feministas no Rio de Janeiro, panfletando as principais avenidas e locais públicos com postais sobre o voto feminino (Lopes, Sousa, abr. 2006).

21 O projeto de lei sobre a nacionalidade da mulher casada, apresentado por Bertha ao Senado Federal ainda em 1925, parece ser ter sido parte dos encaminhamentos relacionados ao primeiro ponto do programa da União Interamericana. A versão em inglês do projeto foi publicada no Boletim da União Pan-Americana (Washington, 1926, n.2), "Nationality of married women in the American republics", e em 1933 figura, vinculada à FBPF, a obra A nacionalidade da mulher casada: seção de estudos jurídicos da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (Rio de Janeiro, Irmãos Pongetti). O mesmo tema, A nacionalidade da mulher casada perante o direito internacional privado, foi apresentado como tese por Bertha à Faculdade de Direito de Niterói para concorrer à livre-docência de direito internacional privado. De 1928 a 1933, Bertha havia cursado direito na Universidade do Brasil.

22 São desses anos seus trabalhos especificamente botânicos: "Apontamentos decorrentes do Herbário do Museu Nacional e de observações feitas no litoral", "Estudos sobre a biologia floral da Mangífera indica L." e "The flora of the Serra da Bocaina", artigos que, uma vez publicados, foram amplamente distribuídos para seus correspondentes internacionais (Lopes, 2006a).

 

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Recebido para publicação em outubro de 2007.
Aprovado para publicação em fevereiro de 2008.

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