SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.16 issue33Metrópole, cosmopolitismo e mediaçãoEstilos de vida e individualidade author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Horizontes Antropológicos

Print version ISSN 0104-7183

Horiz. antropol. vol.16 no.33 Porto Alegre June 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-71832010000100003 

ARTIGOS

 

Escarificações na adolescência: uma abordagem antropológica

 

 

David Le Breton

Université March Bloch - França

 

 


RESUMO

Piercings e tatuagens são formas de embelezamento do corpo. São escolhidos por sua beleza, por sua valorização do rosto ou corpo, por sua originalidade. Eles representam uma assinatura do sujeito sobre a pele. Em contrapartida, outros sujeitos não se reconhecem em uma pele que os prende à uma identidade intolerável. As escarificações são então um traçado de si mesmo. Trata-se de provocar a própria dor para ter menos dor. As escarificações são técnica de sobrevivência para os jovens em sofrimento.

Palavras-chave: adolescência, corpo, escarificações, sofrimento.


ABSTRACT

Piercings and tattoos are forms of body decoration. They are chosen because of their beauty, their valuing of the face or the body, their originality. They represent a signature of the person on their skin. However, other people do not recognize themselves in a skin that arrests them to an intolerable identity. Thus, scarifications are a layout of themselves. It is about provoking your own pain in order to have less pain. Scarifications are survival techniques for teenagers in suffering.

Keywords: adolescence, body, scarifications, suffering.


 

 

Resistir ao sofrimento

A mania das marcas corporais (tatuagens, piercings, etc.) pode ser analisada como um desejo de obter a sua "marca" no mundo de uma maneira lúdica, perto de si, com seu corpo. Para salvar a sua pele, entra-se em uma nova pele. Daí também a importância das lesões corporais intencionais (cortes, cicatrizes, etc.), nas pistas, dessa vez, da aflição. Frente à avalanche de emoções que experimentam, alguns adolescentes batem sua cabeça contra uma parede, quebram a mão contra uma porta, queimam-se com um cigarro, se ferem para conter um sofrimento que leva tudo em seu caminho. Ou, em segredo, fazem inscrições cutâneas com um compasso, com vidro, com uma navalha, com uma faca... Chocando-se contra o mundo, de maneira a se machucar, recuperam o controle de uma emoção poderosa e destrutiva, eles procuram uma contenção e encontram então a dor ou os ferimentos. Conjuração de impotência por um desvio simbólico que os permite ter controle sobre uma situação que lhes escapa.

A pele envolve o corpo, os próprios limites, estabelece a fronteira entre o dentro e o fora de maneira vívida, porosa, pois ela também é uma abertura para o mundo, uma memória viva. É um termômetro do gosto pela vida. Ela envolve e incorpora a pessoa distinguindo-a dos demais. É uma tela onde projetamos uma identidade sonhada, como no caso da tatuagem, do piercing ou das inúmeras maneiras de encenar a aparência que regem as nossas sociedades. Ou pelo contrário, ela encarcera em uma identidade insuportável da qual desejamos abdicar, tendo como testemunha as lesões corporais deliberadas. A pele é uma instância de manutenção do psiquismo, isto é, de enraizamento do sentimento de si dentro de um corpo que individualiza. Ela também exerce uma função de contenção, ou seja, de amortecimento das tensões que vêm de fora e de dentro. Fronteira que protege contra a agressão externa ou contra a tensão íntima, dá ao indivíduo a sensação dos limites de significado que o autorizam a sentir-se tomado por sua existência, ou à deriva do caos e da vulnerabilidade (Anzieu, 1985). A relação com o mundo de cada homem é, portanto, uma questão de pele, e de solidez ou não da sua função de contenção. Não estar bem em sua pele implica algumas vezes a reorganização de sua superfície para vestir uma nova pele e nela melhor se encontrar. As marcas corporais são balizas identitárias, formas de inscrever limites na pele, e não apenas enquanto metáfora (Le Breton, 2002). A pele participa intensamente no processo de separação-individuação que caracteriza a passagem do adolescente.

O adolescente sente-se enredado em um corpo que não é seu, mesmo que pertença a ele, preso em um corpo rebelde que fracassa incorporar como o seu próprio. Ele se sente errado, desajeitado, ridículo, feio, sente-se outro, sem conseguir esclarecer quem é. Em completa metamorfose, não reconhece mais o que fora outrora, na relativa euforia da infância, quando seus pais ainda tinham resposta para tudo e quando ele não tinha nenhuma dúvida assustadora para enfrentar. Ele ainda não se reconhece em seu rosto de homem ou de mulher, e esse momento de passagem é lacerado por dúvidas, desconforto, assombrado pelo medo do jovem de nunca se encontrar, nunca preencher de sentido o abismo, entre ele e ele mesmo, que se abriu bruscamente. Esse corpo-despojo do adolescente é o lugar onde se cristalizam todos os males. Ataques ao corpo são antes de tudo um ataque contra os significados que lhes são inerentes. Como as tentativas de suicídio, em outro nível, que são tentativas de se livrar de uma pele que adere à pele um sentimento insuportável de si mesmo, forma simbólica de destruí-la para adotar uma nova pele, e tornar-se diferente de si próprio. O corpo, especialmente a pele, que é sua instância visível, é o recurso mais imediato para alterar sua relação com o mundo. Redesenhando suas fronteiras, o indivíduo manipula as relações entre o eu e o outro, o dentro e o fora, o corpo e o mundo, etc. Procura inscrever-se noutra dimensão do real. Mudando seu corpo, ele pretende, antes de tudo, mudar sua vida.

Para o adolescente, o corpo, enquanto representação da relação com o mundo, é simultaneamente o mundo interno e o mundo externo. Ele é, ao mesmo tempo, eu e não-eu, em suas mudanças, a sexualização que o atravessa, o sentimento de ser propriedade dos pais, etc. O corpo representa, então, o intermediário, um eu já alhures no mundo e um mundo já em si mesmo. O corpo é rejeitado fora de si, separado por mecanismos de defesa que fazem dele um objeto transicional paradoxal, um objeto lançado contra o mundo na tentativa de forçar uma passagem para existir apesar de tudo (Le Breton, 2007, 2009). Se um evento abriu um abismo na existência, ou se um sofrimento difuso impede o pensamento, o corpo, especialmente a pele, é o refúgio para se agarrar à realidade e não afundar. A utilização do corpo em situação de sofrimento se impõe, para não morrer. Aquele que está em carne viva, no plano dos sentimentos, esfola sua pele como em uma espécie de homeopatia. Para recuperar o controle, ele tenta se machucar, mas para ter menos dor.

O jovem exterioriza alguma coisa de seu caos interior a fim de vê-la mais claramente, ele reproduz em ato uma impossibilidade de dizer as coisas ou de transformá-las. Onde as palavras falham, o corpo fala, não para se perder, mas para encontrar marcas, restaurar uma fronteira coerente e propícia em relação ao mundo exterior. As palavras são, por vezes, muito impotentes frente à força dos significados ligados aos eventos, e a passagem pelo corpo se torna, então, a única opção. Esses comportamentos são tentativas de controlar um universo interior que ainda escapa e de elaborar uma relação menos confusa entre o eu e o outro em si mesmo. Formas paradoxais de comunicação, se eles não refletem um pensamento consciente e finalizado, tampouco representam uma atividade instantânea de pensamento. Perante os ataques da angustia e do sofrimento, é preciso sair de si, chocar-se ao mundo para cortar rente o afeto.

Os atentados à integridade corporal, em princípio, em nada dizem respeito à hipótese de morrer. As incisões, as escarificações, as queimaduras, as agulhadas, os cortes, os esfolamentos, as inserções de objetos sob a pele não são um indício de uma vontade de se destruir ou de morrer. Não são tentativas de suicídio, mas tentativas de viver (Le Breton, 2007). São a melhor forma de bricolar significados em seu corpo, sacrificando uma parte de si para poder continuar a existir. A ferida autoinfligida é oposição ao sofrimento, ela é um compromisso, uma tentativa de restauração do sentido. A conspiração íntima é menos existência contra a existência do que a seu favor, ela tenta traçar uma saída para finalmente permitir ser quem se é. O ato de passagem do ataque corporal, e não a passagem-ao-ato, onde a conduta de risco conjura uma catástrofe de sentido, ela absorve os efeitos destrutivos fixando-os na pele e tentando recuperar o controle.

 

Cortar a aflição pela raiz

O momento do ataque ao corpo é precedido pelo sentimento de perda de si, de uma perda de qualquer substância num tipo de hemorragia de sofrimento que destrói os próprios limites. Ele faz parte da vertigem que caracteriza todos os comportamentos de risco (Le Breton, 2009), este sentimento de cair em si mesmo que evoca uma perda de controle e lucidez, como se o solo do pensamento entrasse em colapso, momento da ruptura com o real, de turbilhão. Quando ocorre nessas circunstâncias, sem qualquer premeditação, ele não é todavia desprovido de uma consciência residual. O sujeito não se deteriora, não importa onde ou como. Há uma (antropo)lógica da ação, uma coerência, uma busca de conciliação e não de destruição pessoal. A profundidade do entalhe e o local de sua execução jamais são aleatórios. Os cortes são realizados sob a égide da visão, da mesma forma que não são feitos na face ou órgãos sexuais (salvo raras exceções, mas cujo prognóstico é mais pesado), eles não são feitos em qualquer lugar ou desacompanhados de um controle. A visão tem um efeito de controle sobre o ato. Mas, principalmente, ela ajuda a materializar o sofrimento sob a forma da incisão e do sangue. O choque do olhar multiplica o choque das sensações, e adiciona eficácia ao alívio experimentado. Esses jovens são lúcidos sobre o que fazem e sobre o que procuram, e falam disso com perspicácia.

O corte é uma incisão de realidade, ele dá um imediato enraizamento do sujeito na espessura de sua existência. O sujeito em sofrimento se apega à sua pele para não escorregar. Ele procura nela um vestígio de realidade, obtido pelo sangue, pela dor possível. O corte é um freio que serve como contentor, uma cura para não morrer, não desaparecer no colapso de si. Uma vez feita a incisão, o sujeito reencontra uma calma temporária. A incisão fornece uma barreira para afastar os sentimentos de perda narcísica, a ascensão meteórica da ansiedade ou de um sentimento que ameaça levar tudo em seu caminho. O sofrimento transborda, ele arromba e ameaça destruir um eu enfraquecido e vulnerável. O papel da barreira de excitação da pele é ultrapassado pela virulência da emoção, e o corte é a única oposição ao sentimento de ser prejudicado. O jovem sente o aumento do afeto como uma asfixia. Entalhando seu corpo e fazendo sair aquilo que o sufoca, ele recupera sua respiração, e encontra entre si e o mundo um espaço de simbolização que restaura sua posição como ator. O invólucro do sofrimento é perfurado por uma agressão voltada contra si mesmo, porque apenas ela é controlável. A incisão corporal é um freio para o colapso. O choque de realidade que ela introduz, a dor consentida, o sangue que corre, reconectam os fragmentos de si mesmo. Ela permite juntar seus pedaços. Ela alimenta a sensação de estar vivo e restaura os próprios limites. A incisão permite uma autorrepresentação, uma individuação que permite romper o sentimento de queda, de vertigem. A despersonalização é cortada rente pelo ato.

A restauração brutal das fronteiras do corpo, da própria unidade, o freio da queda na dor, eles removem a vertigem e provocam a sensação de estar vivo e de ser real, e então voltar a ser quem se é. O paradoxo da lesão intencional é preencher uma lacuna de sentido através da qual flui o sofrimento. Ela fala do desapontamento pelo eu e pelo outro, direcionando os golpes contra um lugar do corpo, a pele, que melhor simboliza a interface com o mundo. Ela se destina a cortar a tensão pela raiz. A lesão é a prova da existência incessantemente reiterada, enquanto uma significação mais favorável não foi elaborada, para restaurar o sentimento do real.

O sujeito experimenta uma invasão mortal, ele vive um colapso de significado, a implantação de um sentimento que parece interminável; atira-se contra seu corpo para inscrever um limite sobre a pele, a fixação da vertigem. Em vez de ser vítima, ele se torna o ator. A incisão é um meio paradoxal, mais provisoriamente eficaz, de lutar contra a vertigem pela iniciativa de saltar no vazio, mas controlando suas condições. Quando o sofrimento submerge, entram em colapso as fronteiras entre o eu e o eu mesmo, entre o exterior e interior, entre o sentimento da presença e as emoções que surgem. A redenção é enfrentar o mundo, em busca de um contentor. A lesão tenta romper a dissolução, ela testemunha a tentativa de reconstituir a relação interior-exterior através de uma manipulação dos limites de si mesmo. É uma restauração temporária do invólucro narcísico. O dano psíquico é absorvido por uma pele que não é totalmente sua, já que o corpo não é aceito, enraizado numa existência renegada, nem totalmente outro, já que é lugar inevitável da presença no mundo.

O desvio pela agressão física é uma forma paradoxal de apaziguamento. O corpo é matéria de cura, já que é matéria de identidade. Ele é suporte de um remédio severo, mas eficaz. A dor purifica o sujeito de seus "humores" infelizes, ela o põe na trilha após quitar a dívida momentânea. O sangue não é uma substância qualquer, ele provém do corpo, é associado com a vida e com a morte, com a saúde e com as feridas, fazê-lo espalhar-se deliberadamente remete à busca de um poder de transgressão. Os poderes simbólicos do sangue para as medicinas tradicionais, no que concerne à cura, são altamente comprovados. Substância de vida interna e ao mesmo tempo substância de morte, quando se derrama para fora, ele é sempre revestido de um poder simbólico, sobretudo se aquele que o faz jorrar é o controlador daquilo que se inflige. O corte é um sinal identitário para se purgar do "sangue ruim", do "pus", da "sujeira" que existe em si, expulsá-lo de si é reencontrar, provisoriamente, um corpo limpo e não invadido pelo outro. A escarificação é um tipo de homeopatia simbólica. Quando o sangue surge sobre a pele, ele é um influxo de realidade para o sujeito que se escarifica, colocando a tensão fora de si. "It's all right to hurt yourself because it proves you are real." (Favazza, 1987, p. 195). "Je veux évacuer quelque chose de mauvais, ce qui me ronge et me détruit, je veux l'expulser, que ça s'arrête." (Vanessa, 19 anos, estudante). O desinvestimento de si retorna sob a forma dessas imagens negativas. O fluxo do sangue é um tipo de "drenagem" dessa onda de sofrimento e de impureza na qual o indivíduo está imerso.

Remédio contra a desintegração pessoal, a incisão é parte do fogo que salvaguarda a existência. Ela é um ritual particular para retornar ao mundo depois de quase perder seu lugar, pagando seu preço. O fluxo de sangue reforça a fronteira entre o dentro e o fora, ele materializa uma fronteira tranquilizadora. Trata-se de liberar-se de tensões intoleráveis que ameaçam desintegrar o eu. Após a incisão, a calma retorna, o mundo é novamente passível de ser pensado, mesmo se continua, muitas vezes, sendo doloroso. O corpo é o espaço transicional que permite distinguir de maneira radical o interior e o exterior, ele é o equilíbrio da existência, usado como objeto transicional para suportar a dureza das circunstâncias. "Tant que quelqu'un a du sang en lui, il a en même temps la capacité de se donner un enveloppement chaud et protecteur", diz uma paciente de J. Kafka (1969, p. 209).

A sensação de relaxamento experimentada, às vezes até mesmo uma sensação de alegria, resulta do alívio que produz o ato posterior à purgação dos sentimentos, ele permite recolocar-se de pé, não mais ser levado pelo caos. Esse desaparecimento da tensão, e a surpresa de voltar a ser quem se era, é o que induz a essa formulação comum, repleta de equívocos possíveis, fazendo referência a uma sensação agradável, especial, etc., que parecem referir-se a cenários sadomasoquistas, ao passo que traduzem bem a resolução súbita da tensão.

A escarificação é muito mais uma tentativa de controlar as sensações corporais, um autocontrole, retomando a distribuição do poder, assim que as feridas requerem, para alguns, que sejam cuidadas secretamente, para não chamar a atenção para elas, ou, ao contrário, mantê-las como centro das sensações. Em ambos os casos, que podem se alternar, o sujeito continua a se sentir vivo, experimentando a consistência de sua relação com o mundo por meio da recordação de um limite, até mesmo em sua carne.

 

Atos de passagem e não passagens-ao-ato

Essas ameaças deliberadas são tentativas de forçar a passagem para existir. Martina, agora com 38 anos, cortou-se por muitos anos, por volta de seus 20 anos, quando era estudante:

C'était un état d'esprit. Une sorte de trop plein de quelque chose. Il fallait que je le fasse sortir, comme du pus. Quelque chose de destructeur. C'était une sorte d'énergie noire, il fallait que je la supprime, et je la faisais physiquement sortir de moi, peut-être parce que je ne pouvais pas la dire.

Falando de si mesma, evoca a busca obsessiva por balizas que torturava, então, sua existência:

Il y avait une recherche de limites. Mais pas seulement à travers le fait de me couper. Je voulais trouver le point où je ne pouvais pas aller plus loin. Ces limites là je les ai cherchées dans le risque, le danger. Je me suis mis sans cesse dans des situations de déséquilibre. Je cherchais quelque chose qui allait me ramener là où j'étais en sécurité.

Ela conclui enfaticamente: "Les coupures c'était la seule manière de supporter cette souffrance. C'est la seule manière que j'ai trouvée à ce moment là pour ne pas vouloir mourir."

Chloe, vítima de incesto, contou com sutileza como esses cortes não apenas faziam-na suportar esses episódios de sofrimento mas produziam igualmente um tipo de saber sobre a adversidade vivida: "Je trouve qu'on apprend à comprendre et à accepter sa douleur. Pour moi, à ce moment, c'est à ça que ça servait." Lucie, também uma vítima de incesto, explica que

c'est un peu comme si on arrivait nous-mêmes à gérer notre souffrance. C'est pas quelqu'un de l'extérieur qui va nous faire du mal, comme dans le cas de l'inceste ou de l'abus sexuel, ce mal c'est nous-mêmes qui nous l'infligeons. Donc on a un contrôle sur la souffrance subie. D'autres choses entrent en jeu, c'est aussi, entre guillemets, un mal pour un bien. C'est laisser sortir une certaine souffrance qui pourrait être dite avec des mots et qui passe là par une maltraitance du corps.

As condutas de risco ou as escarificações são frequentemente descritas como passagens-ao-ato, o que raramente são. Elas oscilam entre acting out e o que gostaríamos de nomear de atos de passagem. A passagem-ao-ato não é uma modalidade de resolução da tensão interna, ela a mantém no seio do sujeito, como se ele se debatesse dentro de uma rede. O acting out, na tradição lacaniana, quando do seminário sobre a angústia, é um ato cujo objetivo inconsciente é ser visto, na busca de reconhecimento pelos outros ou por um outro. Forma paradoxal de comunicação, não está sob a égide de uma consciência clara, mas exige cuidados. Se ela é mostrada aos outros, o ferimento proposital visa também chamar a atenção para si, provocar a compaixão e o amor. Ela pode não ser exibida intencionalmente, mas o sujeito, inconscientemente, age para que suas cicatrizes ou feridas sejam descobertas.

A passagem-ao-ato é um deslizamento do jovem fora da cena social, ela deriva apenas de uma consciência residual, ela constantemente conduz ao pior. É certo que o resultado pode transformar-se em comunicação com os outros, se o jovem disso fala ou se as marcas de sua conduta são descobertas. Mas em todos os casos, em grau maior ou menor, o ato autoriza uma passagem, uma transição para a outra margem. O acting out é uma tentativa de restauração do laço, a passagem-ao-ato é uma maneira de escapar da adversidade. Mas mesmo esse último é potencialmente um ato de passagem caso se torne, posteriormente, causa de comunicação ou um retorno a si mesmo do jovem. Em contraste, de maneira mais imediata, o ato de passagem é um ato deliberado, perfeitamente pensado, para superar o crescimento da emoção. A ação sobre si mesmo que funciona como um suporte para desvincular-se de antigos fardos, remédio para extirpar-se de uma situação sem saída. O ato de passagem, mesmo se repetido, é um caminho traçado no corpo, cujo preço é pago, para reencontrar e reestabelecer o laço social. Ele funda, ao longo do tempo, em si e em torno de si, as condições para a continuidade da existência. Nesse caso, o apoio simbólico dos outros faltou, levando o jovem a recorrer aos seus próprios recursos.

As ritualizações íntimas participam da superação da barreira do sofrimento e desenham uma área de transição onde se emaranham a experiência emocional e o processo de simbolização. São, constantemente, resistências imediatas, ou exibidas ao longo do tempo, diante do mal-estar experimentado. Maneira de curvar-se e de levantar-se diante da emoção ou da situação sem se quebrar, de manifestar uma forma de esquiva eficaz que evita a ruptura, as condutas de risco permitem um enfrentamento, são formas de coping, comportamentos de ajuste a uma situação pessoal dolorosa. O período da juventude é também um ponto de viragem, ele é uma encruzilhada de caminhos. Se a infância fertiliza as dificuldades da idade adulta, é no momento da adolescência que o indivíduo delas se desembaraça ou no qual elas se organizam de maneira definitiva. É uma segunda chance para que as falhas da infância se resolvam, mas elas podem também se acentuar. Entretanto, o mais frequente é que encontrem elas mesmas uma resolução por causa do alargamento de possibilidades de ação do jovem, do distanciamento dos pais.

 

Um invólucro de dor

A dor da lesão e sua cicatrização, a tensão que permanece na pele, a visão da ferida ou seus traços acalmam a dor. O freio da dor física persegue o caos e dá o sentimento de poder sempre controlá-lo. Daí a valorização do instrumento utilizado para numerosos adolescentes que se cortam: a navalha, o estilete, a faca, o pedaço de vidro, que são usados ritualmente, são percebidos como objetos de salvaguarda que fornecem apaziguamento. Os ataques ao corpo tentam restabelecer uma contenção para a pele através do estabelecimento regular, não de um invólucro de sofrimento (Anzieu, 1985, p. 109), mas de um invólucro de dor1 que permite justamente o controle do sofrimento. Essa última é da ordem do incontrolável e da evasão de si, a dor autoinfligida não possui tal virulência, ela é uma sobrecarga dolorosa mas que vem justamente para conter o sofrimento que existe na vida e no interior da pessoa. A oferenda da dor é uma tentativa de aliviar o sofrimento. Ela restaura uma função defeituosa de vínculo com o mundo. Mary, uma paciente de J. Kafka, fala bastante bem desse imperativo de não adicionar sofrimento, mas lutar contra ele. Ela explica a seu terapeuta que ela se corta com uma lâmina de barbear, mas para quando a dor se torna muito grande, e ela se esforça para manter-se sobre uma linha na qual finalmente se sente "viva". A dor é procurada apenas sob a forma de um limite, um freio identitário que alimenta o sentimento de existir. Quando transborda e transforma-se em sofrimento, Mary para de cortar-se e olha o sangue fluir com calma, de maneira quase feliz (Kafka, 1969, p. 207).

Je gravais, je gravais, et je voyais ce sang qui coule, je me souviens même pas que ça faisait mal, je me souviens que ça piquait, ça piquait, ça oui [...]. Je crois que j'avais tellement mal au cœur que je ne sentais pas la douleur en fait [...]. La première fois je l'ai fait avec du verre que j'avais trouvé et puis, comme une cinglée, je suis repassée dessus deux ou trois jours après avec une lame de rasoir, et je me trimbalais avec un canif dans le sac à cette époque là, donc, avec le canif aussi en fait, après c'est devenu pratiquement systématique. Dès que quelque chose n'allait pas, je repassais dessus. Après je l'ai fait à la cheville, c'est vrai que ça fait moins mal, la cheville, oui, puis je devais être moins amoureuse pour sentir plus la douleur [...]. Tu sais que tu vis, déjà, quand tu te coupes, tu ressens des sensations, tu te sens vivante, et après, quand tu vois ton sang, c'est comme si ta vie elle t'appartiens, je peux faire ce que je veux, mon sang je peux le faire couler comme je veux, mon corps il est à moi. Si je veux je peux m'ouvrir les veines, je peux mourir, je suis maître vraiment de mon corps, j'existe quoi, c'est un peu ce sentiment là quand tu vois ton sang couler. (Muriel).

Na falta de um investimento emocional suficiente, da parte dos pais, durante a infância (falta de containing), ou na sequencia de um ferimento interior (incesto, abuso sexual, frustração, etc.), o indivíduo fica em falta, em suspenso de si mesmo. O corpo, não tendo sido sentido como experiência de prazer, fica fora de si, descolado, vinculando-se apenas através de uma dor controlada que restaura um signo identitário. A pele não é mais a fronteira favorável de regulação das trocas de sentido. A dor e a cicatriz reformulam os contornos, restabelecem uma fronteira ainda a ser retomada entre o dentro e o fora, preenchem as lacunas. O invólucro da dor é o preço a ser pago para garantir sua própria continuidade. Não se trata, em nenhum caso, de masoquismo, já que o objetivo não é desfrutar da dor, e sim de sofrê-la e assegurar, desse modo, uma existência de outro modo incerta. Essa necessidade de provocar dor a si mesmo, para ter menos sofrimento, de experimentar suas fronteiras pessoais para assegurar sua existência, conhece enormes variações individuais, e o significado íntimo do ato tem uma polissemia surpreendente (Le Breton, 2003).

A incisão é superficial ou profunda de acordo com a intensidade do sofrimento sentido, ela é limitada a uma parte do corpo ou dispersa. Ela economiza uma possível intervenção no mundo. Mudamos nosso corpo diante da falta de poder mudar um ambiente nefasto, amortecemos em nós um ataque do exterior ou do interior, ameaçador para o sentimento identitário. A incisão é antes de tudo uma cirurgia de significados. Ela permite que "isso" saia. A conversão do sofrimento em dor física restaura provisoriamente o enraizamento no mundo. O apaziguamento obtido se apresenta diferentemente de acordo com as circunstâncias e de acordo com as pessoas que atentam contra seus corpos. Alguns se dizem "acalmados" pelo simples fato do ferimento, outros pela dor sentida no momento, outros pelo fluxo do sangue. Em princípio, o apaziguamento é sempre provisório. Ele não resolve nada das circunstâncias que provocaram a tensão, mas oferece uma trégua.

As lesões corporais serem significativamente mais numerosas nas garotas do que nos garotos confirma o fato de que, para as primeiras, o sofrimento se interioriza, ao passo que para os segundos ele toma mais a forma de uma agressão contra o mundo exterior (Le Breton, 2007). A mulher toma para si a aflição, enquanto o homem se projeta com força contra o mundo. Esses comportamentos, mesmo à margem, reproduzem padrões educativos que impõem ao homem uma demonstração de si, acompanhando os valores tradicionalmente associados à virilidade: agressividade, violência, alcoolismo, excesso de velocidade são por vezes explicitamente valorizados como condutas "viris". O homem deve demonstrar que está à altura, que sabe enfrentar os desafios, proteger a sua honra, fazer-se respeitar, que ele suporta sua dor ou consegue burlar a lei, se tem uma chance de não ser pego.

A mulher internaliza sua consternação, traduzida mais facilmente em fragilidade, indo ao encontro dos critérios de sedução que são impostos a ela. Mas direcionando seu sofrimento (aquele que existe em sua vida) contra a sua própria pele, a mulher rejeita também o modelo de sedução que a sufoca e que faz de sua aparência o principal critério de avaliação sobre quem ela é, enquanto homem é julgado sobretudo pelos seus feitos. Ela diz exatamente que está sempre à flor da pele. E que às vezes não aguenta mais, riscando-a com gestos raivosos, buscando se livrar de uma identidade feminina que cola em sua pele mas que ela não mais suporta (Le Breton, 2003).

Esse investimento, diferindo na pele de homens e mulheres, se traduz também nos status respectivos de seus entalhes. Enquanto a mulher muitas vezes age de maneira solitária e discreta,2 é comum que o homem o faça sob o olhar de outros, numa clara demonstração de sua "virilidade". Numa situação de dificuldades, ele acredita ser bom mostrar que não as tem e que não devem julgá-lo através de aparências enganosas. Um sofrimento certamente está refletido em seu ato, mas o ataque é sublimado, ampliado, desviado para outro significado que supostamente o valoriza. Slim, 17 anos, está num café com amigos de sua idade, que dele debocham gentilmente. As mesas estão repletas de copos vazios de cerveja. O tom das discussões aumenta. Slim, que acumula fracassos pessoais, inflama-se repentinamente para mostrar sua força de caráter. Ele tira a sua camiseta e pega a faca que estava no seu bolso e se corta várias vezes no peito com um ar de desafio. Ele proclama diante de seus amigos atordoados: "Je vous baise tous." Slim proclamou simbolicamente sua virilidade, mesmo que, até agora, a vida jamais tenha se mostrado sorridente para com ele. As lesões deliberadas são, por vezes, uma manifestação de excelência viril e resistência, mas elas também estão destacando o sofrimento sentido interiormente, da mesma forma que os hematomas causados por golpes contra uma mesa ou uma porta, no rosto ou nas mãos, golpes autodirecionados, são masculinos.

 

Faire la part du feu3

As escarificações impressionam mais fortemente do que as condutas de risco das gerações jovens que levam à hipótese não negligenciável de morrer. Uma pessoa que se corta está, no entanto, longe de colocar sua vida em perigo. Mas o ferimento deliberado choca os espíritos, porque mostra uma série de transgressões insuportáveis para a nossa sociedade: as das fronteiras do corpo, o fato de infligir-se dor deliberadamente, o fluxo de sangue, e o jogo simbólico com a morte. Ao cortar a pele, o indivíduo rompe com a sacralidade social do corpo. A pele é um recinto impenetrável, e o contrário causa horror. Da mesma forma, é impensável que alguém se fira, em plena consciência, sem que se evoque a loucura, masoquismo ou perversidade. O derramamento de sangue é uma outra proibição transgredida, já que, para numerosos de nossos contemporâneos, sua simples visão provoca desmaios ou terror. E, todavia, temos aqui indivíduos que deliberadamente fazem correr o sangue. Mais além, o corte é um jogo simbólico com a morte naquilo que imita o suicídio, jogando com a dor, com o sangue, com a mutilação (Le Breton, 2003, 2007). Em se tratando de condutas de risco ou de escarificações, a transgressão abre o caminho para a salvação possível.

Etimologicamente, sacrifício significa sacra-facere, a ação de tornar sagrados atos ou coisas. O sacrifício expele o sujeito para fora da vida ordinária, ele fornece um aumento de sentidos, uma intensidade de ser propício à mudança, à autotransformação radical, na proporção da significação daquilo que é sacrificado de si mesmo. Liberando o sagrado, ou seja, a intensidade de ser, a escarificação restitui ao ator recursos próprios para redefinir sua existência. Para aquele que aceita pagar o preço se anuncia uma possível vita nova, uma passagem para fora da zona de turbulência, um renascimento no mundo através de recursos de sentido renovados que varrem de uma vez o antigo sentimento de identidade. O sacrifício aqui é desvelamento ou revelação de si, cujo impacto é mais ou menos forte. A escarificação é uma forma simbólica de faire la part du feu. Ferir-se para estar menos ferido. Ela opõe a dor ao sofrimento, a lesão física à lesão moral. Muriel, 16 anos na época, o testemunha com eloquência. Apaixonada por um rapaz viciado em drogas e traficante, ela acaba de saber que ele está novamente preso. Ela está só em um parque público. Seu olhar recai sobre um caco de vidro no chão. Ela grava em sua pele as iniciais de seu namorado, ela formula de maneira exemplar o poder de atração de um corte nesses momentos de aflição:

T'es tellement malheureuse au fond de toi-même, c'est le chagrin d'amour, tu vois. T'es tellement malheureuse dans ton cœur, et puis tu te fais mal pour avoir une douleur corporelle plus forte pour ne plus sentir ta douleur dans le cœur, tu vois un peu comment c'est?

Nesse contexto, o sacrifício não se inscreve num desejo de troca interessada, na medida em que o sujeito ignora o que virá a seguir. A provação se impõe ao seu corpo coagido. As condutas de risco ou os ataques ao corpo não perseguem uma lógica de interesse, mas sim de perda, de consumação. Buscam um significado prenunciado, sobre o qual o indivíduo não tem uma consciência clara. A eficácia simbólica envolvida é poderosa o suficiente por causa das transgressões feitas pelo ato para transformar o sujeito.

Para a objeção de que tais comportamentos são privados e não são válidos para outros, que são antirritos, ou rituais degradados ou perturbados, é fácil de responder que apenas o ator é responsável por seu significado, apenas a ele convém o investimento que opera sobre ele. Um rito socialmente valorizado não é necessariamente feliz para o ator que pode vivê-lo com o tédio ou a indiferença, pode permanecer sem qualquer eficácia se não for apropriado pelo ator em primeira pessoa. O que importa, no que diz respeito aos comportamentos ou aos ataques ao corpo durante a adolescência, não é a dimensão social e valorizada do comportamento, mas o que envolve o jovem que a eles se entregam, a busca que é dele e cujo objetivo nem sempre conhece.

Todo sofrimento testemunha esse algo que foi freado no movimento da vida, mas ainda assim continua o seu caminho e deve continuar a viver sem se perder completamente. A lesão voluntária permite avançar sobre o fio da navalha, para encontrar uma existência que não seja mais fulminada pelo sofrimento. O intolerável da morte na vida e da vida na morte remete à necessidade de se libertar da ambivalência, resolver a calamidade de sentidos para dar lugar à cicatrização das lembranças, quer dizer, uma memória que possamos evocar através de palavras, e não mais pela dor e pelo sangue. O ataque ao corpo é uma recolocação dos significados em movimento, mesmo quando o indivíduo vivia uma espécie de muro barrando seu horizonte. O sacrifício é um duro golpe contra o sofrimento, tomando a iniciativa de fazer-se mal, uma vontade de faire la part du feu para livrar-se do pior.

Esses comportamentos dolorosos permitem o enfrentamento, são formas de adaptação a uma situação pessoal dolorosa. Apontar o caráter antropo-lógico ou pato-lógico, insistindo em sua natureza provisória, não significa tampouco que é preciso deixar o adolescente se machucar. Se esses comportamentos são chamados para viver, eles também são pedidos de ajuda, solicitando um reconhecimento, um acompanhamento do jovem, uma compreensão de que são signos de um sofrimento intenso a montante. Eles não devem passar como indiferentes, mobilizando órgãos de saúde pública, organizações de prevenção, de apoio aos adolescentes, para impedi-los ou, se não for possível, para acompanhá-los e reduzir a violência. Estes são jovens em sofrimento. A primeira tarefa de nossa sociedade é convencê-los de que sua existência é preciosa, e de desviá-los desses jogos de morte para levá-los aos jogos de viver. A ferida provocada é uma abertura, um acting out, ela procura, inconscientemente, um interlocutor. São jovens em busca de adultos dando a eles o gosto de viver. Daí a necessidade, se possível, de tomar conta, em termos de acompanhamento ou de psicoterapia, de presença, conselhos, ou simplesmente de amizade.

Os atos de passagem são as alavancas para uma retomada do diálogo ou de um acompanhamento. Em sua grande maioria, esses comportamentos afetam os adolescentes "comuns", que não sofrem de qualquer patologia no sentido psiquiátrico do termo, mas sofrem de lesões reais ou imaginárias em suas vidas. Esses atos de passagem se impõem às jovens mulheres, ou, mais raramente, jovens homens "comuns", mas enfrentando uma zona de turbulência, uma aflição persistente ou transitória que deve ser superada, mantendo-os vivos. As escarificações são o preço a pagar para não se perder, a parte a ser sacrificada para salvar o todo da existência. Elas são um recurso antropo-lógico para opor-se a esse sofrimento e preservar-se.

 

Referências

ANZIEU, D. Le moi-peau. Paris: Dunod, 1985.         [ Links ]

FAVAZZA, A. R. Bodies under siege: self-mutilation in culture and psychiatry. Baltimore: The John Hopkins University Press, 1987.         [ Links ]

KAFKA, J. S. The body as transitional object: a psychoanalytic study of a self-mutilating patient. British Journal of Medical Psychology, v. 42, n. 3, p. 207-212, 1969.         [ Links ]

LE BRETON, D. Signes d'identité: tatouages, piercings et autres marques corporelles. Paris: Métailié, 2002.         [ Links ]

LE BRETON, D. La peau et la trace: sur les blessures de soi. Paris: Métailié, 2003.         [ Links ]

LE BRETON. En souffrance: adolescence et entrée dans la vie. Paris: Métailié, 2007.         [ Links ]

LE BRETON, D. Condutas de risco: dos jogos de morte ao jogo de vivir. Campinas: Autores Associados, 2009.         [ Links ]

 

 

Recebido em: 06/10/2009
Aprovado em: 26/03/2010

 

 

Traduzido do francês por Débora Krischke Leitão e Maria Eunice Maciel.
1 O sofrimento é justamente aquilo ao qual se opõe o ataque ao corpo. Trata-se de jogar a dor contra o sofrimento (Le Breton, 2007). É exatamente o que explica porque tantos adolescentes dizem que suas incisões não os machucam. Eles sentem bem o corte, mas não o sentem como um sofrimento.
2 Em um contexto de institucionalização, o status da lesão autoinfligida difere. Se ela é mais comumente secreta no contexto da vida cotidiana, se exibe claramente se o sujeito está preso, separado da família. A lesão é então uma forma de teste da capacidade da equipe educativa, ou que dele toma conta, de reconhecê-lo. A verificação toma forma, por vezes, de uma tortura repetitiva, o jovem procura saber até onde ele pode ir na mobilização da paciência da equipe. Mas, paralelamente, os cuidados necessários são momentos de engatar o diálogo, uma maneira de dizer mais do que de recorrer ao corpo, e que leva frequentemente o jovem a recusar totalmente o médico ou o hospital com o objetivo de ser acolhido por uma educadora, um psicólogo, uma figura percebida como suscetível de entender a queixa melhor do que outros (Le Breton, 2003).
3 Optamos por manter a expressão "faire la part du feu" tal qual apresentada no texto original do autor, já que a mesma não possui equivalente em língua portuguesa, significando a opção por resignar-se a perder o que não pode ser salvo para conservar o restante (N. de T.).