SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
 issue22Boys’ and girls’ underachievement: articulating gender and raceMaria Lacerda de Moura: trajetória de uma rebelde author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Cadernos Pagu

On-line version ISSN 1809-4449

Cad. Pagu  no.22 Campinas Jan./June 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-83332004000100011 

ARTIGOS

 

 

Hannah Arendt – Rahel Levin: duas biografias, sujeito e espelho

 

Hannah Arendt – Rahel Levin: two biographies, subject and mirror.

 

 

Eliane Sebeika Rapchan

Universidade Estadual de Maringá – UEM. esebeikar@hotmail.com

 

 


RESUMO

Este artigo propõe uma reflexão sobre a biografia de Rahel Levin produzida por Hannah Arendt com o intuito de abordar a complexidade desse exercício que revela tanto aspectos metodológicos, quanto dimensões sócio-antropológicas e intelectuais da autora e de seu tema. A análise desse trabalho biográfico, somada a outras fontes conduziu à descoberta de aspectos dos usos adotados por Arendt para o método biográfico, questões relacionadas à identidade e ao surgimento da categoria "indivíduo" na Europa a partir do século XVIII, ao lado de aspectos sutis do pensamento da biógrafa bem como suas relações com a mulher cuja vida a fascinou.

Palavras-Chave: Hannah Arendt, Rahel Levin, Método Biográfico, Indivíduo, Identidade, Romantismo.


ABSTRACT

This article proposes a reflection about Hannah Arendt’s biography on Rahel Levin aiming to approach this complexity that reveals methodological, social-anthropological and intellectual aspects of both the author and her theme. The analyses of this biographic work along with other sources has taken to the discovery of Arendt’s biographic method, of issues related to identity and the birth of the "individual" category in Europe since the 18th century, sided to subtle aspects of the writer as well as her relations with Levin’s fascinating life.

Key words: Hanna Arendt, Rahel Levin, Biographic Method, Individual, Identity, Romanticism.


 

 

Biografia, indivíduo e sociedade

Quais motivações levariam um filósofo a interessar-se pelo método biográfico? Mais precisamente, por que uma filósofa política, de origem judaica, nascida em Hanover, na Alemanha, em 1906, se interessaria pela biografia de uma outra mulher de origem judaica: Rahel, nascida Levin em Berlim, na segunda metade do século XVIII, conhecida principalmente por ter sido uma personagem importante no cenário cultural da Berlim de seu tempo?

Em Rahel Varnhagen - A vida de uma judia alemã na época do Romantismo de Hannah Arendt1 é possível encontrar muitas chaves para o enigma, mas não todas. É a abordagem biográfica de Arendt sobre Rahel que oferece elementos que, agrupados, favorecem o levantamento de algumas hipóteses que concorrem para esclarecer essas questões. No entanto, a associação desse exercício de leitura a analogias do tipo reflexo, baseadas em semelhanças ou coincidências observáveis nas histórias de vida dessas duas mulheres e agregadas a outros materiais biográficos correlatos a Arendt, revelou mais: contribuições de Arendt para trabalhos baseados nesse tipo de orientação, aspectos dos fundamentos de seu pensamento e, ainda, facetas surpreendentes das relações estabelecidas entre biógrafa e biografada.

Foi possível, em resumo, alcançar elementos que oferecem algo interessante, seja para as reflexões sobre o método biográfico propriamente dito, seja para se apreender facetas dos processos sociais marcantes pelos quais passou a Europa, notadamente os principados alemães no período correspondente à vida de Rahel; seja, ainda, para a compreensão de aspectos relevantes, mas sutis, do itinerário intelectual e pessoal de Hannah Arendt. Cruzam-se, aí, a questão judaica, a condição feminina, o romantismo, o iluminismo e a emergência e defesa da individualidade no contexto histórico de constituição da modernidade européia.

A opção de Hannah Arendt pela biografia de Rahel, por sua vez, solicita atenção em alguns de seus pressupostos. Mais do que dispor questões acerca da representatividade ou legitimidade dos significados que a vida de um indivíduo possuem diante do grupo e do momento histórico ao qual pertence, Arendt adota o método biográfico para abordar a trajetória de um sujeito num momento muito particular da história da Europa.

A partir da segunda metade do século XVIII, pessoas por todo o continente europeu buscaram ou sofreram as conseqüências de transformações sociais que contribuíram para acentuar os contornos da individualidade, as peculiaridades e singularidade dos sujeitos, enfatizando distinções entre eles mesmos e suas famílias, sua condição social, sua religião e suas origens.2 Dentre os que possuíam alguma percepção do que ocorria e buscaram conscientemente definir as fronteiras de suas individualidades, estavam Rahel e seu círculo.

Essa conjuntura correspondeu, para o ocidente, segundo alguns pensadores, ao momento do próprio surgimento social da categoria "indivíduo", em contraste com a categoria "pessoa".3 Por essa razão, a produção biográfica em questão revela, também, aspectos desse processo, pois sua disposição em favor da singularidade de Rahel por Arendt não exclui, de modo algum, suas relações. Por isso, simultaneamente, desenha os contornos que revelam os conflitos e alianças resultantes das relações entre uma singularidade humana e seu grupo, num momento crítico, em que tal singularidade pretende acentuar os limites de suas fronteiras.

Esse interesse pelo papel dos indivíduos e suas relações na sociedade, aliás, é constante no pensamento de Hannah Arendt e manifestou-se em muitos dos seus trabalhos. Dedicada a refletir sobre filosofia política, teoria social e debates políticos contemporâneos, sua obra é caracterizada por John McGowan a partir de três temas centrais: (1) as relações entre a emergência da identidade e a ação política, (2) as possibilidades e características das reivindicações e demandas modernas num mundo profundamente plural e (3) os esforços para compreender o mal.4 Ainda segundo McGowan, o pensamento de Arendt abriu caminhos para as questões referentes aos direitos humanos, a construção das identidades políticas e as possibilidades e limites da democracia participativa.

Tendo se preocupado, ao longo de toda sua vida intelectual, com as interações e mediações existentes entre as ações individuais e o espaço público, os interesses de Arendt pela biografia de Rahel, e pelas repercussões da mesma no contexto sócio-histórico de emergência de individualidades, mostram-se, assim, totalmente coerentes, no plano dos interesses. No contexto sócio-antropológico que Louis Dumont5 apontou como produtor de uma noção peculiar de sujeito calcada no indivíduo, como um produto singular do ocidente moderno, Hannah Arendt parece se perguntar onde está e em que consiste o "erro" que bloqueia ou destrói as possibilidades de integração dos judeus na Europa. Em consonância ao tipo de questão que marcou toda sua obra, por meio da história da vida de Rahel, ela parece, simultaneamente, olhar-se e perguntar-se, sobre onde estão os direitos das pessoas e onde estão os seus próprios.

No entanto, as possíveis relações estabelecidas entre as duas mulheres não param aí. Há, ainda, semelhanças sensíveis e explícitas resultantes de aproximações mais sutis e complexas, ou, ainda, sustentadas apenas por suposições.

O modo particular pelo qual Arendt faz uso do método biográfico coloca, para além das afinidades entre seus interesses intelectuais e contexto histórico-social da vida de Rahel, questões subjetivas de outra ordem, questões referentes à identidade, ou melhor, às identidades. Num plano, as decorrências das relações entre um pensador e o objeto/sujeito de seu pensamento. No outro, as contribuições históricas, políticas e de cunho social que resultam dessa reflexão. Ambos, inseparáveis.

No primeiro plano, aquele da atribuição de sentidos que resultam na motivação para pensar sobre algo (ou alguém), algumas relações são praticamente explícitas: ambas mulheres, ambas de origem judaica nascidas num meio germânico, ambas sintonizadas com seu tempo, ambas lutando por sua singularidade, ambas forjadas na juventude com esperanças de integração social numa sociedade mais liberal, menos intolerante e segregacionista, ambas vítimas de um retrocesso desse processo. São tantos os pontos de aproximação que se poderia imaginar que, como as determinações histórico-temporais só poderiam fazer com que a primeira tomasse consciência da existência da segunda, a escolha do método biográfico parecer ser quase uma "escolha natural" para a biógrafa.

E isso demanda mais do que interações mútuas entre a pesquisa de Arendt e as expectativas de Rahel diante da vida: requer uma identificação tout court entre duas trajetórias de vida ou, senão isso, ao menos uma aproximação intensa entre a vida vivida e a vida narrada. Ambas protagonizadas por sujeitos distintos dimensionados de tal modo que a biógrafa, ao buscar atender ao destino que a biografada perseguiu durante toda sua trajetória de vida, humanizou-a, restituiu-lhe a densidade pessoal através de suas relações, de seus pensamentos e sentimentos, trazidos à tona em toda a complexidade que seus registros permitiram, mas também incorporou algo de Rahel em sua própria vida.

É como se Arendt, ao procurar "...narrar a história da vida de Rahel como ela própria poderia ter feito", tomasse para si o compromisso da concretização de um destino que se iniciou na vida de Rahel, ligando-se desse modo, intimamente, à biografia de uma mulher que

...não podia escolher nem agir, porque a escolha e a ação iriam antecipar a vida e falsificar o puro acontecer. Tudo o que lhe restava era tornar-se uma "porta-voz" do que estava acontecendo, verbalizar o acontecido.6

Arendt, que adota o cuidado em não enveredar por abordagens psicanalíticas ou expor Rahel a fofocas, acaba por constituir, por meio de suas próprias escolhas, um caminho que, se não psicanalítico, é ao menos subjetivo, fundado na admiração, identificação e compromisso profundo e pessoal com a vida de Rahel, a ponto de pretender estabelecer uma continuidade entre a narrativa que Rahel fez de sua vida em diários e correspondências e sua narrativa biográfica.

A adoção do papel de narradora reforça mais ainda a posição especial de Hannah Arendt frente a Rahel, se lembrarmos de Paul Ricoeur7, para quem a narrativa é constituinte da própria vida, ou seja, só há vida quando é narrada. À narrativa, Arendt adiciona a perspectiva de destino, porque Rahel acreditava em um destino que, apesar de estar colado à condição judaica, não anulava sua individualidade e porque a crença num destino não correspondeu, da parte de Rahel, à doce aceitação de um devir pré-determinado. Pelo contrário, resultou num contínuo esforço em negar-se, a fim de reformular-se ao longo de sua existência.8 Por outro lado, isso não a impediu, também, de constatar, ao fim de sua vida, que algo em sua condição, apesar de todos os esforços, jamais fora alterado.

A complexidade que esse movimento de análise da biografia de Rahel, e que aponta seu sentimento de total incapacidade de escapar ao judaísmo, empresta às reflexões um caráter acerca de sua identidade que não pode ser ignorado. Rahel lutou por toda a vida para constituir-se como indivíduo e integrar-se socialmente, do mesmo modo que outros judeus de sua condição. A integração, via casamento com Varnhagen, custou-lhe a auto-negação e Rahel viu-se só: estranha à sociedade em que desejara viver porque, para estar ali, pagou o preço de não ser autêntica e vinculada a um grupo ao qual sentia pertencer de uma maneira remota, mas definidor de sua condição aos olhos da sociedade que a circundava:

Que história! Fugitiva do Egito e da Palestina, aqui estou, e encontro ajuda, amor e cuidados entre vocês. Com sublime enlevo penso nessas minhas origens e em todos esses encadeamentos do destino, através dos quais as lembranças mais antigas da raça humana colocam-se lado a lado com os últimos desenvolvimentos. As maiores distâncias no tempo e no espaço estão superadas. A coisa que por toda minha vida pareceu-me a maior vergonha, a miséria e o infortúnio mais amargos – ter nascido judia –, desta eu não devo agora por nenhum motivo desejar ter sido privada.9

Os esforços pessoais de Rahel não mudaram a ordem social. Mais do que isso, de uma certa perspectiva, apesar de fundado em rejeição, o sentimento expresso de Rahel ratifica a necessária interface entre o sujeito e um coletivo, o qual não precisa ser (e não foi) constituída na base de relações sociais concretas, mas que não dispensa as relações com uma comunidade imaginária, através das quais uma identidade foi mantida.

Em outras palavras, apesar de a realidade das relações sociais estar, para Rahel, predominantemente presente entre seus amantes, amigos, amigas e aqueles que admirava, ela partilhou, ao longo de toda sua vida, e à sua revelia, uma identidade com uma comunidade imaginária, e que acabou por dar contornos singulares à sua identidade. De tanto se esforçar por se desvencilhar da identidade judaica, de tal modo e com tal intensidade, Rahel parece ter forjado um modo judaico de não ser judia.

Do retrato feito por Arendt, Rahel desenhou a moldura e, portanto, seus limites, temas, formato e dimensões. Nele, Arendt pretendeu que suas críticas sobre Rahel fossem, de fato, as expressões da autocrítica de Rahel sobre si mesma. Assim, Arendt esforçou-se por não demonstrar saber mais do que Rahel sobre sua própria vida10 e o fez, justamente, porque pretendeu que sua narrativa se tornasse expressão dela mesma ou, pelo menos, seu reflexo mais fiel.

As próprias práticas individuais almejadas pelo grupo do qual Rahel participou, o desejo de tornar explícitos os sentimentos e o modo como foram experimentados, a reivindicação da liberdade em tornar públicos os auto-julgamentos e a extremada capacidade de Rahel fazer isso consigo mesma facilitaram, segundo Hannah Arendt, essa tomada de posição: não julgar Rahel, mas expô-la a si mesma e às opiniões de outras pessoas intimamente relacionadas a ela.11

A busca pela ênfase da singularidade individual, partilhada pelo grupo de relações do qual Rahel fez parte e expressou em seus diários e correspondência, revelou para Arendt um contexto em que a constituição dos limites da individualidade consistia, também, em fazer com que a intimidade fosse conhecida em seu grupo de referência, tornando-a explícita por via da manifestação, a mais visível possível, de idéias, sentimentos e valores de cada um para seus interlocutores.

Essa condição especial, que proporcionou a Arendt um acesso privilegiado à subjetividade desses indivíduos no contexto histórico de sua formação, permitiu-lhe tratar da vida de Rahel, não como algo em dicotomia com seu grupo, mas em interface com ele. Na medida em que tanto as relações sociais, afetivas e intelectuais estabelecidas, quanto as impressões e experiências daí advindas, estavam expressas nos textos, foi possível construir uma narrativa que diz respeito tanto ao sujeito quanto ao grupo em questão. Do mesmo modo, valores, formas de perceber, sentir, pensar e expressar se vinculam intensamente ao grupo, através dos textos de Arendt e Rahel, como uma comunidade de destino. O aparente antagonismo entre os esforços dos indivíduos em se construírem e se manifestarem enquanto diferentes uns dos outros e seus fortes vínculos com seus pequenos grupos se dissolve quando Arendt observa com mais cuidado esses microcosmos.

No caso de Rahel, seus esforços em expressar, por meio de cartas e diários, sua sinceridade eram, comparativamente, ainda mais acentuados. Devido a um certo aspecto inocente de personalidade, que a impulsionava a tratar "com todos a respeito de tudo"12, seus comentários e opiniões escapavam, inclusive, aos limites desses pequenos mundos e foram os maiores responsáveis por sua boa e má fama.

Esses elementos revelam muito de Rahel e das facetas do uso do método biográfico adotado por Arendt. No entanto, indo um pouco mais longe, dá-se de cara com algumas coincidências factuais em ambas as trajetórias, as quais têm muito mais valor por seus sentidos possíveis, do que por sua semelhança ou possibilidade de superposição e, por isso, revelam muito das relações entre biógrafa e biografada.

Fatores como identificação, afinidade, admiração, espanto e mesmo curiosidade podem levar alguém a se interessar por produzir uma biografia. No entanto, iniciado o processo, e na medida em que se mergulha na vida e no sujeito, podem surgir outras razões para continuar ou mesmo para chegar ao fim: assimilação, cumplicidade, compromisso. O contato intenso com uma trajetória de vida pode muito bem influenciar profundamente a outra.

Por isso não é absurdo pensar se certas coincidências factuais entre as vidas de Hannah e Rahel não resultaram de escolhas ou decisões influenciadas por reflexões decorrentes da confecção da biografia de Rahel, mesmo que não se tenham elementos para saber como, quais e até onde. Por outro ângulo, e considerando as coincidências de gênero e posição social das vidas de ambas, vale pensar, ainda, o quanto certas interpretações sobre a vida de Rahel não foram feitas por Arendt à luz de sua própria biografia, ou dos sentimentos que nutriu por estabelecer com Rahel certos laços de identidade.

Até mesmo as escolhas, feitas por Arendt, sobre a ordem de apresentação dos acontecimentos ou a ênfase maior ou menor sobre eles expressa decisões que não parecem neutras, mas carregadas de sentidos. Apesar de tudo estar aparentemente ordenado segundo um padrão cronológico, trechos de cartas e diários viajam livremente pelo texto, produzindo um segundo tempo narrativo, forjado por Arendt.

 

Hannah e Rahel: dois sujeitos

Rahel adotou, ao longo de sua vida, em suas cartas e diários, nomes como Antonie Friederike e mesmo J. J. Rahel, às expensas de J. J. Rousseau. Mudou de nome mas, de seu próprio ponto de vista, não conseguiu fugir ao inevitável. Em outras circunstâncias, temporariamente, assinou o sobrenome Robert, como seus irmãos convertidos ao cristianismo e, posteriormente, tornou-se Varnhagen, por meio do casamento, sem, contudo, conseguir, segundo ela mesma, escapar ao seu destino de judia e schlemiel.13

Contudo, e apesar de todos os seus esforços, Rahel passou a vida se sentindo um paria e Hannah Arendt, por experiência pessoal, parece ter entendido muito bem o que é isso. Numa carta escrita em 1946 a seu ex-professor e amigo Karl Jaspers, após ter vagado por anos pela Europa desde a ascensão e queda do nazismo, Arendt comenta o quanto compreendia bem "the infinitely complex red-tape existence of stateless persons".14

Mudar de nome, nesse caso, remete aos esforços de Rahel em mudar de identidade, os quais, quanto a seu sucesso ou fracasso, podem ser interpretados a partir de mais de um ângulo, como se verá ao longo desse texto. Nessa direção, a emergência social da categoria "indivíduo", a dinâmica de construção de diferenças sociológicas baseadas em filiações étnicas, de classe ou estamento, de descendência religiosa e os papéis masculino e feminino que aparecem em combinações distintas na abordagem de Hannah Arendt, fazem da trajetória biográfica de Rahel um lugar privilegiado, também, para se pensar os sentidos e mecanismos de construção social de identidades e alteridades.

Na Berlim em que nasceu e passou sua infância, Rahel cresceu, como outras crianças de origem semelhante, sem apego à história judaica nem à alemã, acreditando, como os outros, que riqueza e cultura a tirariam do gueto e promoveriam sua assimilação. Assim, ela – como muitos judeus em condições sociais semelhantes à sua – buscava individualmente a integração num contexto social mais amplo, procurando constituir fortunas e almejando se beneficiar com a extensão dos direitos civis na Europa, fruto do iluminismo.15 Nessa arena, reviravoltas e contratempos em seu processo de inserção social fizeram com que Rahel freqüentemente, e até o fim de sua vida, considerasse o fato de ter nascido judia uma desgraça pessoal, um triste destino.16

Naquele momento, para muitos judeus que enriqueciam, a construção da individualidade se apresentava como via para libertação da condição judaica, tirando-os das margens da sociedade. Ou seja, enquanto judeus, seu passado pertencia ao coletivo, à tradição, aos laços de família e uma definição mais clara dos contornos de suas individualidades poderia libertá-los de seu grupo17, inserindo-os num plano em que os almejados direitos, status e igualdade social estavam no horizonte.

A construção de uma identidade individual em que um judeu poderia ser mais um entre outros indivíduos, em que sua trajetória de vida pudesse corresponder única e exclusivamente à sua própria trajetória pessoal, e não a seus antepassados, sua família, seu gueto ou sua religião, surge como uma alternativa de vida muito atraente. Isso pareceu, tanto para Rahel, quanto para outros judeus europeus, seus contemporâneos, uma possibilidade de integrar-se, romper os laços milenares com uma tradição e atomizar-se através do cultivo da personalidade e da adoção de um modo de vida, orientado pela singularidade destacada por um conjunto de relações entre indivíduos. Nesse caso, individualizar-se era tornar-se igual, era abandonar a alteridade judaica construída a partir tanto da reivindicação, quanto da rotulação e atribuição de uma identidade coletiva socialmente marginal e tomar pelas próprias mãos a possibilidade de "se fazer".

Tudo isso não quer dizer, entretanto, que Rahel fosse uma militante. Pelo contrário, oscilando entre uma tremenda consciência social e uma enorme futilidade, ela passou a maior parte de sua vida numa postura auto-centrada em seus sentimentos e necessidades. A relação de Rahel, e de muitos de seu tempo, com a história implicava em projetá-la como algo que dependia dos destinos individuais, algo como encarar a vida como um material a ser moldado, de modo que o destino pessoal era concebido como intimamente relacionado aos processos sociais e aos grupos intelectuais aos quais se integravam.18 Justamente isso possibilitou a Arendt um acesso privilegiado às redes que ligavam Rahel, enquanto indivíduo em formação, ao seu mundo.

Se esse era o mundo de Rahel, a menina Hannah, por sua vez, nascida no interior de uma família de judeus assimilados e bem-estabelecidos, cresceu em Königsberg, hoje Kaliningrado. Essa cidade, que passou pelas mãos de dois ditadores – Adolf Hitler e Stalin –, encontra-se praticamente em ruínas. O tempo de vida de Hannah, incidindo entre duas guerras mundiais, guerras civis e revoluções que proporcionaram homicídios em massa e as grandes catástrofes políticas e morais do século XX, dark times19, como ela mesma chamou, marcaram com mão pesada toda sua reflexão política, suas ações e sua própria existência.

Nesse sentido, o recurso ao método biográfico adotado por Arendt permite a aproximação de dois momentos históricos: o seu próprio e o de Rahel. Rahel viveu tempos em que a possibilidade de direito dos sujeitos, apesar de pálida, assustadiça e cambaleante, foi posta. Arendt viveu num contexto de crises tão agudas, que puseram essa possibilidade em cheque, apesar da longa e tortuosa jornada que tinha sido trilhada, até ali, em seu favor.

Rahel buscou sua individualização e seu lugar social principalmente através do exercício do pensamento e, por esse meio, lutou para forjar-se como um "indivíduo libertado".20 No entanto, apesar de seus esforços pessoais, o preconceito contra os judeus não deixara de ser uma realidade e, por isso, seu próprio discernimento não pôde libertá-la da intolerância dos que a cercavam. Seus esforços individuais não se concretizaram socialmente. Arendt adotou, por sua vez, a razão como sua mais forte aliada, mas isso não a impediu de ser mais uma das vítimas do nazismo.

E, nesse ponto, as trajetórias de ambas encontram-se: vítimas de um preconceito atrelado às suas condições de nascimento na mesma Alemanha, inteligentes e sensíveis, sofrendo as conseqüências da intolerância de seus contemporâneos e reagindo a elas, através das formas de expressão de que dispunham. Mas, também, se distinguem: Arendt percebeu claramente que os indivíduos, mesmo que libertos de suas amarras, só terão reais possibilidades de serem iguais se agirem politicamente e em favor do espaço público.

Hannah Arendt iniciou a leitura e análise da correspondência e diários de Rahel aos 27 anos, alguns anos depois de ter defendido seu doutorado em filosofia, na Universidade de Heildelberg. Coincidentemente, o manuscrito do livro ficou pronto, à exceção dos dois últimos capítulos21, no ano de 1933, exatamente quando se completou o centenário da morte de Rahel (07-03-1833). Ao ano de 1933 se integra, ainda, o período de ascensão do nazismo na Alemanha, quando Hannah Arendt teve de deixar seu país, depois de ter sido presa por pesquisar documentos que tratavam da exclusão de judeus das principais organizações profissionais alemãs.22

A dispersão dos documentos da Coleção Varnhagen da Divisão de Manuscritos da Biblioteca de Estado da Prússia pelo leste da Alemanha durante o domínio nazista, e com eles os diários e correspondência de Rahel, impediu Arendt de concretizar seu projeto tal como o havia originalmente idealizado. Contudo, não a impediu de, com o estímulo e ajuda da dra. Lotte Kohler, retomá-lo e publicá-lo em 1958.23

Mesmo tendo retomado o trabalho somente 25 anos depois, a idéia original de Arendt permaneceu: realizar um retrato de Rahel e produzir uma biografia que, não sendo autorizada, pudesse assemelhar-se a uma autobiografia.24 Ou seja, Arendt pretende escrever sobre Rahel como se fosse ela própria, colocando-se em seu lugar. E isso, talvez, justifique o fascínio e o compromisso de Arendt diante da memória de Rahel, que permaneceram vivos todo esse tempo e, também, provavelmente, o profundo e pessoal desejo em entender como e porque a integração dos judeus na Europa permanecera, pelos séculos, uma questão insolúvel.

Buscando compreender as atitudes, idéias e sentimentos de Rahel, Arendt, ao mesmo tempo, parece, por um lado, fundir-se e identificar-se com sua personagem – a mulher judia de intelecto vigoroso e inquieto, totalmente imersa em seu próprio tempo. Por outro, assumindo as vantagens decorrentes do ex post factum, esforça-se no sentido de colaborar para que o destino de Rahel se cumpra através de seu texto, como Rahel desejara. Arendt encarna, por essa via, a própria Rahel e, desse modo, tenta oferecer a realidade da vida a Rahel, pensada como alguém que ansiou viver e sentir tudo intensamente e descobriu na velhice que:

O maior milagre é sempre que após nossa morte os objetos do mundo continuam a existir como existiram durante nossas vidas: e que a vida, então, não foi pura imaginação.25

Assim, se é possível considerar que identidades sociais comuns entre Rahel e Hannah – de origem e de gênero – constituem um substrato que daria sentido aos vínculos constituídos pela segunda com a primeira; por outro lado, merece destaque a interpretação sobre a adoção do método biográfico num contexto que alude, mais do que à identidade, à identificação entre dois sujeitos. Se não há elementos textuais para se afirmar a existência de identificação pessoal entre biógrafa e biografada, provavelmente por pudor da primeira, salta aos olhos esse desejo: procurar fazer da biografia uma autobiografia, narrar a vida de Rahel como se fosse ela própria, trazer à tona o sujeito a partir de seus próprios escritos e relações, ser Rahel.

E, num curioso jogo de espelhos, Arendt recebeu, de certo modo, um tratamento semelhante ao que ofereceu a Rahel. Uma de suas biógrafas, Elizabeth Young-Bruehl, afirmou que optou por contar a vida de Arendt através da atualização das lembranças daqueles que a conheceram procurando, assim, adotar o tom que supôs ser o mais adequado ao conceito de biografia aceito pela biografada pois, de acordo com os preceitos de Arendt, quando se faz a biografia de autor, deve-se lembrar que seus livros pertencem ao mundo e sua sorte depende do que o mundo deseja para eles26; mas, o que fomos verdadeiramente se expressa através da memória daqueles com quem nos relacionamos.

A correlação explícita com Rahel afirmada por Arendt abre caminho para ir mais longe na busca de vínculos entre ambas e permite arriscar, ainda, uma possibilidade de que haja mais elementos que relacionam biógrafa e biografada, particularmente no que se refere à seleção de alguns aspectos de suas vidas, justamente alguns enfatizados na própria biografia que Arendt produziu sobre Rahel.

Jovens, Hannah aos 27 anos e Rahel aos 29 anos, saíram da Alemanha, ambas em estado de grande convulsão pessoal, devido a eventos particulares e outros mais gerais. Hannah deixou a Alemanha em 1933 devido à ascensão do nazismo. Vagou, então, pela Europa. Foi para Praga, Genebra e Paris, tendo ali permanecido até 1941 quando a França caiu sob domínio nazista através do governo de Vichy. Viajou para a Espanha, Lisboa e, por fim, Nova York, onde chegou sem dinheiro e quase sem saber falar inglês, mas conseguiu estabelecer-se lecionando em universidades e como escritora.27

Rahel saiu da Alemanha no ano de 1800. Seu noivado com o conde von Fickenstein havia terminado tragicamente devido a suas investidas para integrá-lo a seu grupo de amigos que perseguiam suas próprias individualidades e da fuga dele para o interior de sua classe e de sua família, o único espaço social onde era capaz de se sentir alguém, naquele mundo empenhado em questionar o valor dos indivíduos baseado em suas origens.28 Com esse noivado morreram, para Rahel, uma paixão imensa totalmente forjada e imersa nas influências do romantismo e a possibilidade de escapar ao judaísmo pelo casamento com um nobre pertencente a uma antiga família prussiana rural.29 Nasceu daí uma profunda vergonha diante da perda e da constatação de que não havia lugar no mundo para si.30

A Alemanha em transição social, cultural, política e econômica entre o final do século XVIII e início do século XIX, num período de aproximadamente três décadas, produziu um tipo singular de "comunidades urbanas"31: os salões judaicos. Esses salões, aliás Rahel possuiu o seu, são caracterizados por Arendt, antes da burguesia assumir o controle político daquela sociedade, como lugares de "sociabilidade cultivada" onde nobres, artistas, intelectuais e judeus se encontravam. Os primeiros por estarem em pleno declínio social, os segundos por se encontrarem fora da sociedade burguesa, os terceiros por provirem de classe média e encontrar ali pares e ambiente e, por fim, os últimos por, ao mesmo tempo, estarem "acostumados a desempenhar um papel" e terem constituído seus salões como "uma espécie de zona neutra onde as pessoas de cultura se encontravam". Lugares onde, segundo Goethe em Wilhelm Meister citado por Arendt, seus freqüentadores podiam expressar "o que eles eram", ao contrário dos burgueses, que só se importavam em "mostrar o que eles tinham".32 Enfim, durante algum tempo, os salões judaicos foram um lugar para o cultivo e a expressão de uma individualidade romântica, não de uma individualidade burguesa.

Em outras palavras, novamente a dicotomia entre indivíduo e grupo não se colocava ali. Arendt enfatiza que Rahel, ao expressar-se e registrar a dinâmica de sua rede de relações, uma das fontes mais importantes para a biografia, está o tempo todo falando de si mesma. Ao se referir aos outros, em seus textos, está manifestando o que sente, seus valores, como pensa e como se vê. Além disso, Arendt, para compor a narrativa biográfica, não deixa de recuperar alhures idéias de pessoas que participaram por períodos longos ou curtos do círculo de Rahel, ou de círculos semelhantes.

Naquele contexto biográfico, a relação indivíduo-grupo33 não se constitui pela tomada da parte pelo todo, em que o indivíduo é tomado como representativo do grupo sem, no entanto, apresentar especificidade alguma, como se fosse um microcosmo idêntico ao macrocosmo. Tampouco se constitui na base da parte pela parte em que o indivíduo é tomado em si, como se fosse o único depositário de seus próprios os valores, personalidade e características, sem dever nada ao seu meio, seu grupo e seu momento histórico.

Repercussões do grupo sobre a vida de Rahel revelam, ainda, seus esforços desesperados em expor-se à vida, sem antecipar ou falsificar o puro acontecer. Por isso, poderia parecer, à primeira vista, uma personalidade fraca ou volúvel e, portanto, não suficiente marcante para merecer seu registro numa biografia. Contudo, essas características são enfatizadas por Hannah Arendt como qualidades, diante da empreitada que pretende realizar: o modo como Rahel experimenta a vida e a registra é encarado como um sinal indiscutível dos níveis mais profundos a que puderam chegar as influências do romantismo na constituição de uma vida e de uma personalidade, sem deixar de reconhecer a dimensão singular de uma identidade individual, num contexto mais amplo.

Os salões, tão importantes para Rahel e seu grupo, podem ser vistos, ainda, por um outro ângulo, no tocante, às relações de identidade entre Arendt e Rahel. De modo semelhante a Rahel, que experimentou nesse período a possibilidade de não ser excluída por sua condição judaica, até mesmo o contrário, Arendt vivenciou, nas décadas em que viveu em Nova York, o predomínio dos intelectuais residentes nessa cidade no cenário norte-americano, quando e onde ser judeu ou parcialmente judeu era quase uma pré-condição para ser reconhecido nesse meio.34 Segundo Jacoby, a influência exercida, na década de 50, pelos intelectuais nova iorquinos e judeus sobre o cenário intelectual americano pode ser sentida até hoje. Eles "dominavam o cenário cultural e freqüentemente definiam os termos e os limites do debate".35

Contudo, esse foi, também, um momento de transição em que os intelectuais deslocavam-se da vida de boemia, aluguel barato, ganhos irregulares adquiridos através de trabalho free lancer e dependência de aceitação de seus textos para publicação por mérito e a estabilidade da vida universitária. Isso significou, simultaneamente, uma visível ascensão social e econômica, o preenchimento da maior parte do tempo com atividades burocráticas e, principalmente, a acomodação lenta aos valores americanos, o abandono da crítica ácida, independente e polêmica e o fim da interface entre intelectuais e sociedade: a academia tornara essa e as gerações seguintes em especialistas que se dirigem apenas, e somente, aos seus pares, fazendo o mesmo, inclusive, com muitas revistas.

Os intelectuais judeus que viviam na América não escaparam a essa transição e, para eles, segundo Jacoby, ela pode ser interpretada por duas faces. De um lado, a concepção canônica segundo a qual os intelectuais judeus eram capazes de maior crítica frente à sociedade ocidental por não terem sido criados no interior da civilização cristã e, por isso, inconformados, optavam pelas vias da reforma social ou da revolução. De outro, a observação da vulnerabilidade dos imigrantes e judeus frente "ao êxito convencional, ao dinheiro e ao reconhecimento"36 proporcionados pelo ingresso profissional na vida acadêmica.

Hannah Arendt passou por essa transição, tendo sido, durante o período em que viveu nos Estados Unidos, tanto uma intelectual pública quanto professora universitária em Princeton (1953, 1959), Berkeley, University of Chicago(1963-67), Columbia, Northwestern, Cornell Universitye a New School for Social Research (1967-75).

Em 1800, quando Rahel deixou Berlim, os salões judaicos começaram a desaparecer para dar lugar aos salões burgueses37, o de Rahel agüentou-se até 1806. As trajetórias pessoais daqueles, judeus e não judeus, que freqüentaram seus aposentos e pretendiam inserir-se, enquanto sujeitos, em seu contexto histórico, definindo suas identidades e mergulhando nos valores românticos, vigentes naquele período, tomaram outros rumos. Ao longo desse processo, passado o período em que a nobreza germânica concedeu algum reconhecimento social aos judeus ricos, que durou até a regulamentação do crédito e o fim da agiotagem, os judeus passaram a ser associados economicamente à burguesia, trocando a neutralidade social, que os salões lhes haviam concedido, pelos privilégios econômicos. Ou seja, a mesma ascensão econômica que, aparentemente, emancipava e integrava os judeus donos de patrimônios, garantiu seu isolamento social numa sociedade em que a industrialização foi brutal e tardia e a nobreza ainda dava o tom do comportamento social, enquanto os judeus pobres estavam submetidos a leis de controle de casamentos, para conter a natalidade, e às taxas compulsórias de imigração.38

Diante das transformações sociais, as amizades de Rahel se diluíram, as pessoas se afastaram e a desprezaram. Sua irmã havia se casado fora do círculo judaico e sua família expressou seu descaso por essa solteira tardia e pouco dotada de beleza. Rahel viu-se só, amargurada e infeliz. Foi, então, "empurrada" para Paris, para acompanhar a condessa Karoline von Schlabrendorff que não era alguém de comportamento trivial. Eventualmente, usava roupas masculinas e buscou refúgio no exterior porque estava esperando um filho ilegítimo. Em Paris, Rahel descobriu alguma felicidade e algum prazer. Viu-se num país estrangeiro, livre de suas amarras sociais e familiares e, desse modo, percebeu que "Amar a vida é fácil quando se está no exterior" e que "Ser estrangeira é bom".39 Rahel voltou a Berlim em 1802, desejando não ser recepcionada e ter sido esquecida.40

Em 1814, depois de ter vivido amores e paixões muito intensos – entre eles, os noivados com o conde Karl von Finckenstein e com o secretário da Delegação Espanhola Don Raphael d’Urquijo, a paixão profunda e platônica por Friedrich Gentz e o relacionamento com o comerciante Wilhelm Bokelmann –, Rahel casou-se com August Varnhagen, aos 43 anos, quando foi batizada e adotou um novo nome: Antonie Friederike Varnhagen. Rahel pensava, então, como os judeus, seus contemporâneos: não haveria possibilidade de assimilação sem ascensão social e via seu próprio caso como quase uma "espécie de privilégio", por não conhecer, nem se relacionar, com nenhum judeu pobre ou trabalhador e acreditando que a integração social era um processo exclusivamente individual.41

Das pessoas que marcaram, no plano afetivo, as vidas de Arendt e Rahel, as relações com Heidegger e Fickenstein, merecem atenção pelo tipo de projeção que esboçam nos mecanismos que relacionam biógrafa e biografada.

Fickenstein foi o responsável pela primeira grande decepção amorosa de Rahel, não desapareceu de sua vida imediatamente após o rompimento, que foi lento e doloroso, trocando com ela cartas por um prolongado período enquanto a família dele encaminhava planos para um casamento socialmente aceito, com alguém de sua classe.42 Onze anos após o rompimento do noivado com Rahel, em 1811, Fickenstein a procura novamente e lhe causa um grande impacto.

Hannah casou-se duas vezes, a primeira com Gunter Anders e a segunda com Heinrich Bluecher. No entanto, foi sua relação com o filósofo Martin Heidegger a mais perturbadora. Eles se conheceram em 1924 quando ela, aos 17 anos, fora sua aluna em seminários realizados na Universidade de Marburg. Ele tinha o dobro da idade dela e era casado com Frau Elfride. Os sinais da relação Arendt-Heidegger que resistiram ao tempo estão nas cartas trocadas entre ambos, editadas por Ursula Ludz e publicadas pela Editora alemã Klostermann em 1999. Uma correspondência polêmica, ardente, erótica e apaixonada dessa relação clandestina entre dois grandes pensadores. Ela, crítica e polêmica do totalitarismo envolvendo-se constantemente em questões referidas aos judeus, ao longo de sua vida. Ele, pensador elegante, fino, contido, de estilo marcante, abstrato, lógico. Eleito reitor da Universidade de Freiburg por professores simpatizantes do nazismo em 1933, mesmo ano em que Hannah foge da Alemanha.

Ursula Ludz classifica essa correspondência em três períodos: (1) o que se inicia com uma carta de Heidegger em 10-02-1925 e precede um ano e meio de trocas intensas, que se atenuam a partir do momento que Hannah muda-se para Heidelberg para estudar com Karl Jaspers, mas dura até 1929; (2) O reencontro de ambos em 1950, quando Hannah retorna, pela primeira vez, à Europa. Em 1952 ele pede que ela não mais o procure, mas a correspondência se arrasta até 1959 e (3) O último período, marcado por expressões de ternura e preocupações mútuas, que se estende de 1966 à morte de Hannah, em 1975, quando Heidegger escreve uma carta a Hans Jonas intitulada "Ligado ao círculo de amigos em profunda dor".43

Muito mais que qualquer semelhança, porventura encontrável, entre essas relações afetivas estabelecidas por Hannah e Rahel, reflexos de uma sobre a outra aparecem no modo de encarar os sentimentos e aqueles a quem dirigiram. Rahel e Fickenstein, Hannah e Heidegger se aproximaram, apesar dos profundos impedimentos sociais que havia entre eles, mas não conseguiram superá-los. Os grupos sociais aos quais pertenciam esses homens parecem ter exercido, sobre eles, influências mais fortes do que suas vontades individuais diante das próprias paixões.

Muito mais que qualquer semelhança, porventura encontrável, entre essas relações afetivas estabelecidas por Hannah e Rahel, reflexos de uma sobre a outra aparecem no modo de encarar os sentimentos e aqueles a quem eles foram dirigidos. Rahel e Fickenstein, Hannah e Heidegger se aproximaram, apesar dos profundos impedimentos sociais que havia entre eles, mas não conseguiram superá-los. Os grupos sociais aos quais pertenciam esses homens parecem ter exercido, sobre eles, influências mais fortes do que suas vontades individuais diante das próprias paixões.

Os sentimentos de Rahel por Fickenstein e de Hannah por Heidegger justificaram-se para elas, inclusive e apesar, de eles terem negado idéias centrais nas orientações que cada uma adotou para sua vida e, provavelmente também, pelo fato de eles mesmos terem flertado inicialmente com os anseios que orientaram as vidas dessas mulheres. Ambas entenderam que suas paixões ultrapassaram as próprias vontades deles, mas suas posições sociais os confinaram

Hannah e Rahel justificaram-nos, inclusive e apesar, de eles terem negado idéias centrais na orientação da vida de cada uma delas, à revelia de, eles mesmos, terem flertado inicialmente as idéias que orientaram as vidas delas. Fickenstein rejeitou radicalmente a possibilidade de existência social de um indivíduo por seus próprios méritos, características, qualidades e defeitos. Fugiu disso para se refugiar junto à sua família e seu título de nobreza. Heidegger, apesar de ter sido aceito de boa vontade e partilhado a liberalidade das relações entre judeus e não-judeus no meio universitário, assumiu o cargo de reitor, indicado e apoiado por simpatizantes do nazismo.44

Ainda no plano das relações afetivas, mas num outro ângulo, alguns detalhes da relação de Rahel com Varnhagen são particularmente interessantes e serão retomados, às vezes por tocarem, às vezes por entrarem em conflito, de diversos modos, com a biografia de Rahel feita por Hannah Arendt. Auguste Varnhagen nasceu em Düsseldorf, filho de mãe protestante e pai católico não praticante, um livre pensador que abandonou uma clínica de prática médica que possuía em Düsseldorf, para mudar-se com o filho para Estrasburgo e juntar-se à Revolução Francesa, momento a partir do qual levou uma vida de errante e distante de sua esposa e filha.45 Varnhagen foi a primeira pessoa pobre e sem posição social que entrou na vida de Rahel46 e, por meio dela, escalou e galgou um lugar na sociedade, levando-a consigo.

A relação entre Rahel e Auguste foi marcada de um modo singular. Ele não possuía uma vida e ela deu-lhe a sua própria. Ela ensinou-o a compreendê-la e, ao fazer isso, segundo Arendt, ele foi diluindo os segredos dela, inseriu transparência e planura numa vida complexamente translúcida e multifacetada:

Ele removeu de sua vida, não apenas de seu passado, todos os mistérios, todas as obscuridades, todas as dissimulações. Diante dele, seu amigo permanente, todas as ambigüidades se tornaram conseqüências interpenetráveis, pois ele conhecia e compreendia o todo. Se a compreendia falsa ou corretamente, isso era totalmente irrelevante. O fato de que ele dava a cada um a sua aprovação clara, conhecedora e entusiástica, conferia a tudo a mesma clara transparência.47

À medida em que Rahel e Varnhagen foram se conhecendo e aprofundando sua relação, ela deu a ele toda sua correspondência e seus diários. Desse modo, ele apossou-se dos fatos da vida dela. No ano seguinte à morte de Rahel, 1834, Varnhagen editou e publicou as cartas de Rahel em seu Buk des Andenkens. Arendt rejeitou esse material visceralmente. Ela própria teve muito cuidado com seus próprios papéis e escritos e sabia de sua importância. A Biblioteca do Congresso norte-americano possui, em seus arquivos, uma divisão chamada The Hannah Arendt Papers, formada por documentos pessoais, uma extensa correspondência travada com indivíduos e organizações, notas manuscritas ou datilografadas, artigos, revisões e manuscritos de seus livros, poemas, discursos, comentários sobre leituras e ensaios.

O argumento objetivo que Arendt usou para rejeitar o trabalho de Varnhagen consistiu na maneira como ele expôs os resultados impressos sobre o material, a partir da seleção e da alteração das cartas, resultando num enfoque da vida de Rahel que supervalorizava as relações mais aristocráticas e menos judaicas, mutilando sua trajetória de vida:

(...) A grande arbitrariedade de Varnhagen na publicação ou preparação dos documentos de Rahel é suficientemente conhecida, não se tendo furtado em alguns casos, não numerosos, de fazer também interpolações, mutilações e adulterações, corrigindo por atacado, extirpando porções essenciais e cifrando nomes de tal maneira que o leitor era deliberadamente induzido ao erro.48

No entanto, não é só. Rahel parece ter aceitado plenamente a forma como Varnhagen a compreendia, mesmo que de modo inexato, como se viu. Mas Arendt parece odiá-lo pelo que fez. Para além das alterações promovidas por Varnhagen, cuja crítica feita por Arendt é absolutamente louvável, há mais. Arendt, sem dúvida, rejeita o trabalho de produção de Varnhagen sobre a memória de Rahel e considera-se uma biógrafa mais legítima para Rahel do que ele: "...O que me interessava unicamente era narrar a história de Rahel como ela própria poderia ter feito".

Arendt procurou atender os desejos de Rahel e quis mostrar ao mundo a mulher oculta pela imagem pública que lhe fora atribuída, através de um "retrato literário convencional", produzido em boa parte por iniciativas de August Varnhagen von Ense. Segundo Arendt, Varnhagen não só usou e assimilou os diários e correspondência como se fossem expressões de seus próprios sentimentos e relações pessoais, mas também procurou, através deles, valorizar-se, por contato e proximidade, a partir das experiências e trajetória de vida da própria Rahel, publicando-os num formato mutilado.

Arendt mostra-se inconformada com as atitudes de Varnhagen, frente a seus escritos, por ele ter alterado identificações e abreviaturas de nomes, seja para reduzir as impressões acerca do contato de Rahel com homens e mulheres de origem judaica, seja para acentuar as que relacionavam Rahel com grandes personalidades alemãs de sua época tais como Goethe e Beethoven. Segundo interpretações da própria Hannah Arendt, essas atitudes de Varnhagen tiveram exclusivamente a intenção de incluir pessoas famosas no círculo de amigos de Rahel e, valorizando-a, valorizar-se.49 Arendt rejeita o retrato "mais convencional" de Rahel produzido por Varnhagen e trazido a público. Rahel foi, certamente, presença marcante no cenário cultural e iniciadora do culto a Goethe em Berlim, mas não é disso que Hannah Arendt pretende tratar em sua biografia.

Para Rahel, as cartas que trocou possuíam sentido e valor muito especiais. Através delas, Arendt pôde vislumbrar alguns de seus traços românticos mais marcantes. Por meio da narração de suas emoções àqueles que faziam parte de seu círculo mais íntimo, e não da adoção da escrita como pura e simples expressão das mesmas, Rahel foi capaz de circunscrever, objetivar, dissecar cada pequeno acontecimento, sentimento ou impressão que narrou de sua vida, por meio do texto, procurando transformar sua vida, de acordo com o que Schlegel definiu como o ideal romântico, construindo, na escrita, uma espécie de reunião de pequenos fragmentos constituídos por obras de arte.50

Em contrapartida, ao desejar narrar a história de vida de Rahel, Arendt pode ter pretendido, de fato, restituir-lhe a própria vida, devolvendo-lhe a intensidade com que viveu e experimentou cada acontecimento, cada encontro, cada situação, que haviam sido embotados pela biografia produzida por Varnhagen. Indiscrição e ausência de vergonha frente aos próprios sentimentos eram ingredientes indispensáveis à narração das emoções ao modo romântico e, como Ricoeur, Arendt percebeu que a vida de Rahel, entrecortada por suas emoções, "adquire realidade apenas no ato de ser confessada".

A força do interesse de Arendt em ser a porta-voz desse destino a ser cumprido se manifesta, também, no formato de sua narrativa, que se inicia com as últimas palavras de Rahel, registradas por Varnhagen em seu leito de morte. Por meio delas, aquela que tanto lutou por sua própria singularidade vê-se perplexa por entender que sua trajetória de vida havia sido determinada, não por seus esforços pessoais em se individualizar e seguir suas próprias determinações, mas por uma história que começara dezessete séculos antes de seu nascimento, com a diáspora judaica.51

A questão da importância das cartas merece, ainda, uma outra observação: elas são uma das fontes mais valiosas de acesso de Arendt a Rahel. Há, entre essas duas mulheres, algumas gerações de distância. Arendt não pôde entrevistar Rahel ou seus contemporâneos, mas os diários e principalmente as cartas são o meio através do qual Rahel se revela à sua biógrafa. Se, no século XIX, muitos ficcionistas adotaram o romance epistolar como um mecanismo capaz de acentuar a veracidade de suas narrativas, certamente elas têm efeito semelhante quando permeiam uma biografia histórica e exercem significativas influências sobre aqueles que lêem a biografia de Rahel.

Aliás, provavelmente, Hannah Arendt também amava as cartas e entendia seu valor. Ela própria foi capaz de corresponder-se durante 26 anos (1949 a 1975) com sua grande amiga, a escritora Mary MacCarthy, pois, como informa Rita Goldberg sobre essas mulheres, duas das maiores intelectuais americanas de sua geração, socialmente ativas, politicamente engajadas: "They were just old enough to rely on letters in a way almost obsolete in the age of the telephone, so plenty of opinions make their way onto this pages".52

Sua correspondência revela a atitude comum de estarem totalmente dispostas a se expressar honestamente, e mesmo de modo desagradável, se fosse necessário. Aliás, essa relação intensa entre as duas amigas Hannah e Mary, a primeira, uma mulher considerada intelectualmente arrogante ou, pelo menos, excessivamente auto-confiante e a segunda vista como narcisista por muitos, encontra, também, alguns curiosos paralelos com a relação entre Rahel e sua amiga Pauline Wiesel, registrados e manifestos nas cartas trocadas. Pauline era para Rahel "a mais comprometida das amigas do tempo de juventude". Após seu casamento com Varnhagen, uma das medidas tomadas por Rahel foi procurar restabelecer o contato com ela, a fim de "proteger sua própria verdade", contato que Varnhagen repudiava e que procurou anular no Buk des Andekens, deixando de publicar a correspondência integral entre ambas e reproduzindo apenas algumas passagens em que indicava Pauline com iniciais irreconhecíveis.

A relação entre ambas havia esmaecido no período em que Rahel se empenhou exclusivamente em usar suas energias para conseguir um lugar na sociedade. Pauline fora amante do príncipe Louis Ferdinand e por seus braços e mãos passaram inúmeros homens e quantidades vultosas de dinheiro. Quando jovem, foi amada por sua beleza e desconcertante naturalidade, mas foi encontrada por Varnhagen em 1816, a pedido de Rahel, afundada em "desastres financeiros, débitos e casos amorosos verdadeiros ou inventados".53 Pauline era a única pessoa que Rahel considerava uma igual:

Cara amiga, bem-amada e amigo: Alguém que conhece a natureza e o mundo como nós..., que conhece tudo por antecedência como nós..., que não fica surpreso diante de nada incomum e que está eternamente preocupado com o mistério do comum...54

Pauline vivera intensamente o que Rahel pensara viver também de forma intensa, mas não conseguiu por falta de sorte ou coragem para fazê-lo.55

A relação entre Hannah e Mary, quando observada através da perspectiva da longa correspondência trocada por ambas56, revela, além da profunda ligação marcada pela troca de idéias, em Mary uma correspondente mais constante, expressando uma prosa excitante, marcada pelo domínio de um estilo flexível, confessional e engraçado, através do qual expunha tanto as polêmicas em que estava envolvida, quanto os mínimos detalhes de um caso de amor que se tornou seu quarto, e último, marido. As cartas de Hannah, por sua vez, revelam uma mente brilhante sustentada na carreira cheia de vitalidade da professora e escritora, orientada por um senso de justiça profundamente enraizado em sua própria experiência pessoal. alguém que afirmou sobre si mesma, em carta a Mary, que esse negócio de pensar era sua atividade favorita.57

Essa correspondência expressou, ainda, a solidariedade mútua diante das repercussões da recepção dos trabalhos mais expressivos e controversos de cada uma, publicados, coincidentemente, em 1963. Ambas sofreram enormes pressões. O romance O grupo, de MacCarthy, foi recebido com escândalo e agressividade. Seu pioneirismo em tratar de temas como as atitudes e sensações experimentadas nos primeiros contatos sexuais, sugar seios, perder a virgindade e usar diafragma como método anticoncepcional, provocou reações violentas, inclusive por parte de seus amigos. Escrever sobre sexo explícito era, então, coisa para homens e ela foi acusada tanto por escrever nos moldes da superficialidade encontrada em revistas femininas, quanto pela expressão da sexualidade explícita.58 Eichmann em Jerusalém de Arendt, por sua vez, recebeu duros ataques tanto por ter indicado a cooperação de líderes judeus nas deportações de nazistas na II Guerra Mundial, quanto por ter explorado o retrato do mal como banal, rotineiro e burocrático, não como algo grandioso, principesco e demoníaco.

 

Homens, mulheres, romantismo e condição judaica

Questões de gênero também permeiam o sentimento romântico. Nesse sentido, saltam do texto as referências em que a constituição de "uma personalidade tipicamente ‘romântica’" foi modulada. Por meio de alguns personagens, Arendt destaca maneiras singulares, atreladas a gênero, de assimilar o romantismo, colocando o problema dos papéis sociais e do que chama de "o problema feminino". Isto é, os conflitos entre as representações "gerais" sobre as mulheres e as mulheres "reais", em suas expectativas e possibilidades.59

Do mesmo modo, a recusa de Rahel de sua condição judaica imprimiu-lhe, também, um modo peculiar de passar pela experiência romântica, constituindo-se enquanto indivíduo que se esforçava em livrar-se de seu passado, na medida em que delineava seus próprios contornos, e pensar por si própria, inspirada na razão iluminista. Submeter os fatos à razão, supunha Rahel, possibilitaria a submissão do fato de ter nascido judia à sua própria capacidade de discernimento. A luta de Rahel contra os fatos era, na essência, uma luta contra si mesma.60

Os contrastes existentes entre um modo "feminino" (e judeu) e um modo "masculino" (e não judeu) de viver o espírito romântico podem ser observados a partir das superposições que Arendt faz entre as perspectivas adotadas diante da vida por Friedrich von Gentz, Wilhelm von Humboldt, Friedrich Schlegel e Rahel, todos contemporâneos.

Segundo Arendt, Gentz, Humboldt e Schlegel estavam, cada um a seu modo, em busca da realidade, da experiência do mundo e, de modos diferentes, suas preocupações com um real palpável distinguiam-se das de Rahel. Para ela o desfrute não leva ao real, ao contrário, o real não é a coisa, mas o modo como se experimenta algo, mesmo que esse algo nunca tenha se concretizado, pela via da experiência, do fato ou da História.61 Nesse sentido, para Rahel, o real é o modo como determinada experiência é vivida e, mais real será, quanto mais intensa for a percepção que dele se tiver.

Wilhelm von Humboldt, por sua vez, ao invés de assimilar o romantismo como uma forma de modular a vida, nos planos da descrição e da imaginação, o trouxe para dentro dela. Assim, as contradições entre os fatos, a História e as maneiras de senti-los, pensá-los e expressá-los, foram assimilados por ele em seu modo de viver. Por isso, a busca desesperada pela experiência no plano factual o teria levado a não experimentar nada subjetivamente, tornando-o "vazio", segundo a própria Rahel. Mas, se a reflexão subjetiva sobre a experiência lhe era ausente, a busca desenfreada por viver era uma constante: ele

se libertou de si mesmo através da experimentação e desse modo tornou-se livre para viver, não havia nada maior do que a vida. A vida não precisava realizar coisa alguma, nem mesmo a cultura ou a personalidade.62

Já Friedrich Gentz, com quem Rahel viveu um amor nunca realizado e uma relação cheia de altos e baixos que se estendeu até a velhice e a morte dela, por sua vez, buscava "diretamente, ingenuamente e sem reservas" o prazer, o desfrutável, o belo, o poder enquanto demonstração de força. Vaidoso, suscetível à adulação, foi um romântico porque incomum e não-convencional e um não-romântico porque estabeleceu, sem sacrifícios, um contato com o real e conseguiu representar algo nele.63

Por outro lado, Friedrich Schlegel, que construiu na literatura um personagem feminino considerado despudorado e totalmente disposto a eliminar as fronteiras entre o íntimo e o público – Lucinde – com o qual Rahel tanto se identificou, concebia a vida como um conjunto de fragmentos sem continuidade, pois entendia que é a reflexão sobre a vida o que lhe dá sentido. Lucinde, diga-se de passagem, é um romance em que quase não se encontram acontecimentos da vida da personagem. Apenas algumas informações gerais são apresentadas, de modo a constituir uma rede de acontecimentos, em que a densidade é dada pela maneira como a personagem experimenta e interpreta cada evento isolado.64

Aliás, frente aos outros homens mencionados, Schlegel, segundo Arendt, é o que mais teve afinidade com Rahel: "Schlegel possuía o mesmo tipo de magnetismo pessoal que tornou Rahel famosa naquela época". Contudo, ao mesmo tempo em que não só era capaz de suportar, mas também criava paradoxos no mundo literário e imaginário, Schlegel desejava "o equilíbrio e a harmonia final"65, sucumbindo diante do envelhecimento e dos paradoxos que a vida comum e cotidiana lhe apresentaram.

Apesar das singularidades manifestas em cada um, é possível perceber que, para von Humboldt, Gentz e Schlegel, particularmente para os dois primeiros, ser romântico era agir de modo romântico, adotar direções tendo o Eu como o parâmetro mais legítimo de orientação. Para Rahel, Pauline Wiesel e para a personagem Lucinde, de Schlegel, ser romântica era sentir a vida de modo romântico, era experimentar e dar sentido a cada fragmento da vida, tendo em vista seu modo singular e intenso de fazê-lo. Assim, se sentir ao modo romântico era algo que podia reservar às mulheres algumas liberdades, em contrapartida, manifestar publicamente tais sentimentos lhes trouxe conseqüências morais, quanto a julgamentos de falta de recato, de pudor e de limites.

Para Rahel, a adesão ao romantismo foi também, mas não apenas, uma tentativa de negar um fato da vida – ter nascido judia – em favor da maneira como se experimentava a vida. Para ela, a adoção de um modo de vida romântico – mesmo que, a certa altura, tenha aderido a convenções e buscado status social ao lado de Varnhagen – constituía uma descoberta de si mesma, que lhe revelou tanto as possibilidades dos sujeitos, quanto os vínculos inquebráveis de sua identidade com uma comunidade imaginária judaica. Por mais que Rahel tenha lutado para se libertar de sua condição de nascimento e para imprimir caráter e personalidade próprios à sua vida, isso não dependeu única e exclusivamente de sua vontade – como a jovem filósofa, diante da ascensão do nazismo, precisou abandonar a Alemanha, uma carreira universitária e seu amante, com o qual se correspondeu por 30 anos.

Rahel, como se viu, lutou, aderiu ao romantismo, forjou-se, renunciou a suas origens para não ser uma judia e ser somente Rahel ao longo de toda sua existência. Ao final de sua vida se sentia fracassada, mas Hannah Arendt, em sua análise, não deposita sobre os ombros de Rahel, o indivíduo, o fracasso nessa empreitada, do qual a própria Arendt foi uma das vítimas. O problema e a solução estão, para Arendt, na ação coletiva dos indivíduos em favor do coletivo.

Diante da biografia de Rahel, Arendt se pergunta, como o faz ao longo de toda sua obra, as razões para, no contexto europeu de produção de uma sociedade de indivíduos, sujeitos serem punidos por terem nascido em determinadas comunidades – se todos os membros dessa mesma sociedade também provêm de um meio onde predominaram relações comunitárias. Segue se perguntando até onde é possível continuar sendo alguém que não se pretende ser, apenas por eficácia de uma identidade atribuída e se a identidade atribuída aos judeus, pelos outros europeus, seria um fenômeno mais resistente do que a identidade reivindicada pelo indivíduo numa sociedade moderna. Se assim for, é preciso, ainda, saber se a possibilidade de ser um indivíduo se estende a todos que a desejam.

Em contrapartida, e indo mais longe, ficam, entre as linhas de Arendt, questões sobre a possibilidade de mediação direta e total entre o sujeito individualizado e a sociedade à qual pertence, que apontam para se pensar se existem situações em que as relações com a sociedade são mediadas por subgrupos sociais em que os sujeitos são tratados como membros desses subgrupos, não como indivíduos. Se for assim, e se os indivíduos, por reivindicação, necessidade ou atribuição, estão sempre ligados a grupos, o quanto isso compromete os ideais de liberdade individual e os valores sociais decorrentes dela?

 

Vida e biografia: retratos

O jogo de palavras e os termos adotados por Arendt em sua proposição de um exercício biográfico – retrato, biografia e autobiografia – esboçam os vínculos pessoais que a biógrafa estabelece com a biografada no plano da escrita. Se o retrato não é o retratado em sua existência real, mas uma representação do mesmo, mediada pelas interações, percepções e representações do retratista, não deixa de ser, ainda, uma iniciativa que pretende ser fiel a algum parâmetro de representação legítima. E, nesse sentido, vale lembrar José Saramago pela ponte que constrói entre pintura e escrita, retratos e biografias:

Reparando bem nestas subtilezas (existem elas mesmo, ou apenas na minha cabeça?), venho a comparar que as diferenças não são muitas entre palavras que às vezes são tintas, e as tintas que não conseguem resistir ao desejo de quererem ser palavras. Assim o meu tempo passa, com o tempo dos outros e o tempo que aos outros se inventou.66

Se as identidades entre os sujeitos Rahel e Hannah parecem apontar para suas origens comuns e para a luta mútua em favor da definição de identidades próprias numa Alemanha politicamente atribulada, acentuadas pela própria iniciativa de construção de uma narrativa biográfica da segunda com relação à primeira, não se pode deixar de pensar que, se há reflexos, pode haver espelhos e, nos espelhos, as imagens refletidas encontram-se invertidas mas, ainda assim, capazes de serem sobrepostas.

 

 

Recebido para publicação em fevereiro de 2002, aceito em setembro de 2003.

 

 

1 ARENDT, H. Rahel Varnhagen: judia alemã na época do romantismo. Rio de Janeiro, Relume Dumará, 1994.         [ Links ]
2 TÖNNIES, F. Comunidade e Sociedade. In: BIRNBAUM, P. & CHAZEL, F. Teoria Sociológica. São Paulo, Hucitec/Edusp, 1977.         [ Links ]
3 Cf. MAUSS, M. Uma categoria do espírito humano: a noção de pessoa, a noção do EU. Sociologia e Antropologia. São Paulo, EPU/EDUSP, 1974, vol. I;         [ Links ]DUARTE, L. F. Três ensaios sobre Pessoa e Modernidade. Boletim do Museu Nacional, nº 41, Rio de Janeiro, 1983;         [ Links ]e DUMONT, L. O Individualismo. Rio de Janeiro, Rocco, 1993.         [ Links ]
4 MCGOWAN, J. Hannah Arendt. An Introduction. Minessota, University of Minnestoa Press, 1999.         [ Links ]
5 DUMONT, L. O Individualismo. Op. cit.
6 ARENDT, H. Rahel Varnhagen... Op. cit., p.11.
7 RICOEUR, P. História e Verdade. Rio de Janeiro, Forense, 1968.         [ Links ]
8 ARENDT, H. Rahel Varnhagen... Op. cit., p.22.
9 VARNHAGEN apud ARENDT, H. Rahel Varnhagen... Op. cit., p.15.
10 ARENDT, H. Rahel Varnhagen... Op. cit., pp.12-13.
11 ID., IB., p.12.
12 ID., IB., p.26.
13 O schlemiel é um personagem típico da literatura e do folclore judaicoeuropeu, que bem poderia ser chamado, em português, de ‘pobre-diabo’ ou ‘João-ninguém’. ARENDT, H. Rahel Varnhagen... Op. cit., p.15.
14 KOHN, J. The World of Hannah Arendt. Three Essays: The Role of Experience in Hannah Arendt's Political Though, 1999. http://memory.loc.gov/ammem/arendthtml/essay1.html         [ Links ]
15 ARENDT, H. Rahel Varnhagen... Op. cit., pp.18-19.
16 ID., IB., pp.15-16.
17 ID., IB., p.36.
18 ID., IB., p.13.
19 KOHN, J. The World of Hannah Arendt. Op. cit.
20 ARENDT, H. Rahel Varnhagen... Op. cit., p.20.
21 ID., IB., p.9.
22 BENHABIB, S. As cartas polêmicas de Hannah Arendt e Heidegger. O Estado de S.Paulo, 26 de dezembro de 1999.         [ Links ]
23 ARENDT, H. Rahel Varnhagen... Op. cit., p.14.
24 ID., IB.. pp.11 e 9.
25 VARNHAGEN apud ID. IB, p.187.
26 YOUNG-BRUEHL, E. Por amor ao mundo. Rio de Janeiro, Relume-Dumará, 1997.         [ Links ]
27 KOHN, J. The World of Hannah Arendt. Op. cit.
28 ARENDT, H. Rahel Varnhagen... Op. cit., p.42.
29 ID., IB., pp.33 e 39.
30 ID., IB., pp.43 e 45.
31 Cf. TÖNNIES, F. Comunidade e Sociedade. Op. cit.
32 ARENDT, H. Rahel Varnhagen... Op. cit., p.56.
33 Cf. RICOEUR, P. História e Verdade. Op. cit.; e Tempo e Narrativa. Campinas, Papirus, Tomo I, 1983.         [ Links ]
34 GOLDBERG, R. Review of BRIGHTMAN, C. (ed.) Between Friends: The Correspondence of Hannah Arendt and Mary McCarthy, 1949-1975. Harcourt, Brace, Boston Review Review, April 1995, p.2.         [ Links ]
35 JACOBY, R. Intelectuais nova-iorquinos, judeus e outros. In: Os últimos intelectuais. São Paulo, Trajetória Cultural/Edusp, 1990, p.90.         [ Links ]
36 JACOBY, R. Intelectuais nova-iorquinos, judeus e outros. Op., cit., p.101.
37 ARENDT, H. Rahel Varnhagen... Op. cit., p.56.
38 ID, IB., pp.150 e 151.
39 ID., IB., p.56.
40 ID., IB., p.71.
41 ID., IB., p.149.
42 ID., IB, p.49.
43 BENHABIB, S. As cartas polêmicas de Hannah Arendt e Heidegger. Op. cit.
44 ARENDT, H. Rahel Varnhagen... Op. cit., p.49.
45 ID., IB., p.123.
46 ID., IB., p.151.
47 ID., IB., p.132.
48 ID., IB., p.10.
49 ID., IB. pp.10-11.
50 ID, IB., p.29.
51 ID., IB, p.15.
52 GOLDBERG, R. Review... Op. cit., p.1.
53 ARENDT, H. Rahel Varnhagen... Op. cit., p.170.
54 ID., IB., pp.196 e 170.
55 ID., IB., p.172.
56 Cf. GOLDBERG, R. Review... Op. cit.
57 ID., IB.
58 ID., IB.
59 ARENDT, H. Rahel Varnhagen... Op. cit., p.13.
60 ID., IB., p.22.
61 ID., IB., p.74.
62 ID., IB., p.62.
63 ID., IB., pp.75 e 76.
64 ID., IB., p.29.
65 ID., IB., pp.59 e 60.
66 SARAMAGO, J. Manual de Pintura e Caligrafia. São Paulo, Cia. das Letras, 1992, p.97.
        [ Links ]

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License