SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
 issue22Qual prevenção? Aids, sexualidade e gênero em uma favela carioca author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Cadernos Pagu

Print version ISSN 0104-8333On-line version ISSN 1809-4449

Cad. Pagu  no.22 Campinas Jan./June 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-83332004000100015 

RESENHAS

 

Arlie Russell Hochschild e a sociologia das emoções

 

 

Maria da Gloria Bonelli

Professora de Sociologia do Departamento de Ciências Sociais, da Universidade Federal de São Carlos. gbonelli@uol.com.br

 

 

Em 2003, Arlie Hochschild está publicando seu sétimo livro acadêmico, The commercialization of intimate life: notes from home and work1, consolidando o campo da Sociologia das Emoções que ela começou a cavar mais fundo em seu livro The Managed Heart: commercialization of human feelings, em 1983.2

Já se passaram 20 anos desde que a autora cunhou o termo trabalho das emoções para referir-se ao processo no qual as pessoas tomam como referência um padrão de sentimento ideal construído na interação social, e procuram manusear e administrar suas emoções profundas para adequá-las a essa expectativa quando não estão sentindo assim internamente. Como a autora observa, o trabalho das emoções é mais acentuado entre os subalternos do que entre os senhores, entre os dominados do que entre os dominantes. Assim, em uma perspectiva de gênero, ele é mais acentuado entre as mulheres do que entre os homens.

A análise de Arlie Hochschild sobre a divisão de gênero no trabalho emocional3 focaliza como as mulheres administram as emoções, quais os custos e benefícios de fazer isso em público e na vida privada. As emoções4 funcionam como um mensageiro do self, um agente que relata instantaneamente a conexão entre o que estamos vendo e o que esperávamos ver, informando-nos sobre o que nos sentimos preparados para fazer sobre isso. Na visão da autora, os sentimentos não estão guardados dentro das pessoas, como na abordagem organicista, mas a administração das emoções pode contribuir para a própria criação de sentimentos, de acordo com o olhar interacionista.5 Entretanto, muito do que ela observa sobre os dilemas desse processo nas sociedades capitalistas avançadas resulta em sentimentos de perda de autenticidade. Tal percepção gera um paradoxo: quanto mais se busca recuperar os sentimentos verdadeiros ou entrar em contato consigo mesmo, o que é valorizado na modernidade, mais os sentimentos são submetidos ao comando, à manipulação e a serem administrados .

Sua proposta é enfatizar a perspectiva sociológica das emoções, relacionando os sentimentos como raiva, luto, deferência, inveja, afeto, alegria, culpa, entre outros, a fatores e contextos sociais, adquirindo características externas em vez da visão que os mantêm isolados no interior das pessoas. A forma consciente como os seres humanos atuam para suprimir a distância entre o que estão sentindo e o ideal que têm do que deveriam sentir é o trabalho emocional, que em muitas situações assume a característica de uma jornada de trabalho extra.

A montagem de sua abordagem parte principalmente das influências de Goffman e de Freud. Hochschild retira do primeiro a interação dos atores, mas critica Goffman por não ter dado uma psique a eles, e nem ter explicado de onde vinham os sentimentos que eles demonstravam nas representações.6 Ela extrai essa psique de Freud, mas discorda da concepção deste autor sobre o self sendo emocional e inconsciente. Para ela, o self é "sentiente", capaz de sentir e consciente de ser assim, contrastando também com a visão de Goffman sobre o self consciente e cognitivo.7

A autora dá densidade ao longo de sua carreira à contribuição que faz para a Sociologia das Emoções. Seu enfoque será apresentado aqui através da exposição resumida de quatro de seus livros: The managed heart, The second shift, The time bind e The commercialization of intimate life.8

O estudo sobre aeromoças e pessoal de cobrança de companhias de transporte aéreo feito em The managed heart é crucial em sua empreitada. Ela focaliza como predomina a expropriação das emoções "profundas" nessas atividades ocupacionais, através do aprendizado social de como controlá-las. Mostra que ser aeromoça é aprender o trabalho emocional de administrar os sentimentos, através da separação entre o "eu" e "meus sentimentos". Contrastando com a visão de Goffman que analisa como essa separação dá-se na superfície (nas expressões do corpo), no trabalho das emoções definido por Hochschild a separação dá-se na profundidade, no esforço de sentir, de treinar-se para isso e de mostrar esse sentimento. Trata-se de uma representação profunda distinta da representação teatral comum ou da manipulação consciente. A pessoa atua sobre si mesma para se adequar ao sentimento que julga importante sentir e não só mostrar aos outros. Para ela, a administração institucional das emoções é uma expropriação do indivíduo porque a finalidade da representação no trabalho emocional é fazer dinheiro.

Já na pesquisa com as aeromoças a autora identificou como funciona a transposição do sistema emocional construído na vida privada para a vida pública e o mundo do trabalho. Essa passagem baseia-se nas regras de sentimentos que guiam o trabalho da emoção, estabelecendo um sentido de obrigação moral e/ou de direito que orienta a troca emocional. Quanto mais profundo o laço, mais se faz trabalho da emoção e menos consciente se é disso.

Nos anos 60, as regras de sentimentos vinculados aos papéis sociais de noiva, esposa, mãe, foram transpostas com sucesso para as atividades das aeromoças, através da representação profunda na qual agiam como se o avião fosse a sua casa, e os passageiros seus convidados. A partir dos anos 70, essa transposição fracassa porque as aeromoças são forçadas a acelerar o ritmo de trabalho, com turnos mais longos, e aumento no número de passageiros a serem atendidos em vôos mais rápidos. A representação profunda passa a ocorrer na superfície, como resistência. As contradições nas condições de trabalho comparadas com a imagem da casa são registradas através do tratamento irônico sobre a atividade, como se ela não fosse séria, fabricando ilusões.

Segundo Hochschild, a conduta adotada pelas aeromoças é uma forma de preservar a auto-estima com um reflexo menor do trabalho sobre o eu. Outra forma de lidar com essa situação é o distanciar-se, negando-se a fazer o trabalho emocional através do uso de máscaras, agindo como se fosse um robô. A conseqüência nesse caso é o fracasso tanto do profissional em envolver-se e realizar-se no trabalho quanto em convencer o outro, o cliente, a audiência.

A autora apresenta as seguintes características do trabalho emocional: 1) requer contato com o público; 2) o trabalhador precisa produzir um estado emocional em outra pessoa – gratidão, medo (no caso dos cobradores), etc.; 3) permite que o empregador exerça algum controle sobre a atividade emocional do empregado, através de treinamento e supervisão.

Entre os custos humanos do trabalho emocional estão o estresse, o estranhamento de si e a perda da capacidade de sentir. Uma forma adotada pelas aeromoças para evitar o estresse é recorrer ao "falso self", despersonalizando o trabalho e parando de preocupar-se com ele. Entretanto, a redução do estresse causa também a diminuição do sentimento, o que acarreta uma perda do significado que se atribui à interpretação do mundo.9 A tendência observada atualmente das pessoas buscarem a autenticidade e o sentimento espontâneo, através de terapias de ajuda para entrar em contato com os seus próprios sentimentos, é analisada como decorrência crítica da administração das emoções.

Através do trabalho emocional, Hochschild mostra como a empresa interfere na interpretação dos próprios sentimentos de seus funcionários e redefine-os. Eles, por sua vez, separam o significado dos sentimentos dado pela empresa, de seus próprios sentimentos e interpretações. Outra constatação é que essas emoções estão sujeitas às regras de produção em série, em massa. O sorriso e os sentimentos são expropriados do indivíduo e passam a pertencer à organização.

Depois de deter-se sobre essas duas ocupações em The managed heart, Hochschild muda seu foco de pesquisa para as relações conjugais entre casais que trabalham fora, têm filhos pequenos e precisam lidar com a chamada revolução em casa, impossibilitados de contratar serviços domésticos fixos, devido aos custos. Como os casais lutam para achar tempo e energia para o trabalho, as crianças e o casamento são abordados pela autora, em dois momentos: em The second shift e The time bind. No primeiro, ela acompanha o cotidiano de famílias de classe alta, média, trabalhadora e baixa na segunda metade dos anos 1980, identificando divisões na ideologia de gênero entre um ideal tradicional de cuidados familiares e um ideal igualitário. A autora observa que os conflitos entre o ideal tradicional, no qual a mulher assume a jornada da casa e da profissão e o ideal igualitário, no qual os cônjuges partilham as tarefas, estão relacionados com a divisão entre as classes favorecidas e desfavorecidas, com as tensões entre os parceiros no relacionamento, e até nas angústias internas à consciência polarizada entre os dois modelos.10

Na primeira pesquisa sobre as relações conjugais ela constatou que a maioria das mulheres não pressionava seu companheiro para mudar e ajudar nos cuidados da casa e dos filhos. A mulher experimenta diversas estratégias ao longo do tempo para lidar com os dilemas e a tensão decorrente da dupla jornada: "de início procura ser supermãe, depois reduz o número de horas em casa, precipitando uma crise, e então ou diminui as horas dedicadas ao trabalho ou limita seu tempo de trabalho em casa. Fazendo isso, as esposas freqüentemente precisam de um grande empenho em termos de trabalho emocional para sustentar a ideologia e/ou o mito de que o relacionamento é, de fato, bom. Dentro dessa estratégia, ressentimento e cinismo voltam à tona em diferentes áreas da relação; custo emocional suportado tanto pelos maridos quanto pelas esposas".11

As mudanças na esfera pública e no mundo do trabalho repercutem na esfera privada e na vida íntima colocando uma cunha no relacionamento dos casais. A casa que eles habitam transforma-se em amortecedor das pressões contraditórias vindas de fora, reproduzindo em seu interior a coexistência entre tradição e modernidade. O trabalho das emoções feito principalmente pela mulher para lidar com a dupla jornada, e o custo emocional que ele representa tanto na negação do problema quanto nas separações conjugais que causam, tornam-se uma terceira jornada de trabalho na vida cotidiana.

Cinco anos depois desse estudo, Hochschild retorna ao problema no livro The time bind, abordando nesse segundo momento o ambiente de trabalho em vez do dia-a-dia das famílias com filhos pequenos visto a partir da casa. A empresa escolhida é a Amerco, por estar entre as dez mais bem avaliadas em termos de políticas para funcionários com filhos, visando facilitar o desempenho profissional e os cuidados com a família. Além de creche e atividades recreativas para as crianças até o final da tarde, a fábrica permitia a adoção de tempo parcial, jornada partilhada com outro empregado, afastamentos não-remunerados, licença maternidade e paternidade, além de outros benefícios que tornam o emprego na Amerco muito concorrido no mercado de trabalho e valorizado pelos funcionários. É nessa firma "family friendly" que a autora detém-se sobre o trabalho das emoções junto ao self em torno da dupla e da tripla jornadas, e as conseqüências não intencionais da administração da vida íntima, na relação com filhos, cônjuge e no emprego. Na pesquisa realizada entre 1990 e 1993, ela entrevista diretores, gerentes, funcionários de escritório e trabalhadores de chão de fábrica, num total de 130 informantes. Também acompanha o cotidiano de seis famílias, quatro delas compostas de cônjuges que trabalham fora e duas de mães solteiras empregadas na Amerco.

Hochschild observa uma inversão nos sentimentos em relação ao trabalho e à casa, para homens e mulheres. Na empresa, elas sentem-se mais realizadas, pela percepção de que essa jornada não é uma obrigação, como é a jornada da casa, que surte mais estresse às mulheres do que o trabalho profissional. Assim, a primeira jornada para as mulheres é aquela feita na firma e a segunda é a feita em casa. Já os homens ficam mais à vontade em casa do que no trabalho, que lhes gera maior estresse.

O apego, a valorização e a satisfação no trabalho fazem com que as mulheres prefiram suas atividades profissionais e dediquem a ela uma grande parte de seu tempo, mesmo em uma empresa que permite a adoção de jornadas flexíveis. "A falta de tempo para a família e a taylorização do pouco tempo destinado aos filhos está forçando os pais a fazerem ainda mais de um novo tipo de trabalho: o trabalho emocional necessário para reparar o dano causado pelas pressões do tempo em casa".12 As crianças resistem a esse ritmo de vida familiar não se ajustando. Elas fazem birra quando querem dormir e precisam acordar cedo para cumprir o horário da mãe, resistem a comer nos poucos minutos reservados para isso, querem brincar fora da hora que a mãe dispõe livre. O dilema também irrita e angustia a mãe que faz seu filho viver a mesma ligação com o tempo que a dela. "O trabalho emocional sujo de ajustar as crianças à casa taylorizada e compensá-las pelo estresse e o esforço é a parte mais dolorosa da crescente terceira jornada".13

A maioria dos pais que trabalha na Amerco tem a fantasia de ter uma vida familiar mais gratificante e com mais lazer. Tanto homens como mulheres lutam com o problema de estarem atados ao tempo, dentro de uma empresa cobiçada no mercado de trabalho. Em vez de aderirem a jornadas flexíveis ou reduzidas, o que Hochschild constata é que os homens temem o rótulo de "homem de família", que no passado significou ser bom provedor, mas hoje estigmatiza-os como pouco dedicados ao trabalho, fragilizando a masculinidade.

Pais e mães evitam o conflito com o fato de estarem presos ao tempo através de três estratégias. Na primeira reduzem o tempo que acham que a família realmente precisa deles, da convivência, segurança e proximidade, fazendo uma espécie de downsize emocional em relação à vida familiar. Crianças de 6 a 13 anos ficam sozinhas depois da escola e os pais negam que elas sintam a necessidade de tê-los mais presentes, caracterizando o que Hochschild chama de ascetismo emocional. A segunda estratégia adotada é a de comprar bens e serviços que economizam o tempo das mães. Essa prática alimenta as estratégias de marketing que prometem produtos que facilitam a vida corrida das mães. São anúncios de ferro de passar roupa com multa por excesso de velocidade, de alimento infantil que promete que a criança vai comer o café da manhã em 90 segundos, etc. O papel simbólico que cabe às mulheres de dispor de tempo para os laços pessoais é substituído pelo gasto de dinheiro com isso. A terceira estratégia é a dos pais imaginarem que, se tivessem tempo, atenderiam as necessidades de seus entes queridos, criando-se assim uma divisão entre a identidade atual e a identidade potencial.

Muitos dos trabalhadores entrevistados por Hochschild recorrem ao desenvolvimento do self potencial como estratégia para evitar o conflito com a falta de tempo, enquanto outros fazem alguma combinação entre as três estratégias. Se na fábrica predomina as virtudes da produção just-in-time, em casa os pais lidam com as pressões de tempo reelaborando o que realmente significa ser responsável pela casa, ser marido, mulher, pai ou mãe. Uma vez que os pais entendam o problema como sendo de eficiência, eles começam a moldar a casa de acordo com isso, encontrando soluções cotidianas para a falta de tempo que aumentam a vida taylorizada da família.

No livro recém-publicado The commercialization of intimate life, a autora junta seu olhar sobre o mundo do trabalho e a vida familiar, dando mais ênfase à construção de conceitos para o campo da Sociologia das Emoções. Assim, sintetiza a trajetória intelectual dos últimos 20 anos, que ora se deteve sobre o trabalho emocional em atividades profissionais ora no cotidiano dos casais com filhos pequenos, e avança na densidade teórica de sua concepção, articulando cultura, emoção, família, trabalho, cuidados e personalidade.

O livro fornece uma visão geral da obra da autora, expondo argumentos e conclusões detalhados nos três livros anteriores e traz novas investigações, introduzindo uma perspectiva que permite comparar o trabalho das emoções em outras culturas mais estranhas ao ideário norte-americano dominante. É o caso, por exemplo, dos capítulos em que contrasta manuais americanos e japoneses de auto-ajuda para mulheres. O olhar sobre o não-familiar também está presente nos capítulos em que focaliza as relações entre mães e filhas na Índia, e no qual aborda as relações entre babás filipinas nos Estados Unidos com as crianças sob seus cuidados e com seus filhos que ficaram no país de origem.

Um aspecto que unifica o livro é o do trabalho emocional sobre os cuidados, que tem sido tradicionalmente responsabilidade das famílias e passam a ser comercializados, requerendo que os sentimentos sejam trabalhados para adequar-se ao modelo do cuidado consumido/pago, ou pela visão que justifica emocionalmente um cuidado menor ou um descuido com crianças e velhos.

No capítulo em que analisa os manuais de auto-ajuda americanos ("O espírito comercial da vida íntima e a abdução do feminismo"), a autora classifica-os segundo a forma como burilam os sentimentos para enquadrar a mulher no padrão ideal tradicional ou no padrão moderno. O manual ajuda na construção do trabalho emocional de sentir-se, seja apegada a um homem (tradicional), seja distinguindo-se e descolando-se dele (moderno frio). Segundo a autora, há uma analogia entre o protestantismo e o espírito do capitalismo e o feminismo e o espírito comercial. O espírito do capitalismo é transferido para o âmbito da vida íntima através do espírito comercial. A auto-disciplina ascética é aplicada ao apetite, ao corpo e ao amor da mulher. A devoção ao chamado para ganhar dinheiro é aplicada pelas mulheres ao "ter e fazer tudo".14

O modelo oferece como ideal um self defendido contra ser machucado. O trabalho emocional é o de controlar os sentimentos de medo, vulnerabilidade e desejo de conforto. O self ideal não precisa de muito e o que precisa pode ser obtido por si mesmo. A idéia de independência e liberação que as feministas adotaram para o direito do voto, direito de aprender e de trabalhar, as "modernas senhoras de si" aplicam ao direito de se desprender emocionalmente. Para Hochschild esta é uma visão instrumentalista e assimila a percepção masculina sobre as regras do amor. Ela observa que o movimento foi da existência de dois códigos emocionais – um masculino e um feminino – para um código unisex, baseado no código masculino antigo. As mulheres assimilaram as regras masculinas dos velhos tempos rapidamente, enquanto os homens têm mudado muito devagar em relação aos códigos femininos. Isso resulta em um cenário onde as mulheres estão no trabalho, os homens estão fora de casa e as crianças e os velhos providenciam seus próprios cuidados ou estão entregues aos cuidados comerciais.

Na visão da autora, o capitalismo está competindo não só no mundo das empresas, mas também com a família e, em especial, com o papel de mãe e esposa. A família vai se tornando mínima e recorrendo ao mercado por causa disso, o que o fortalece e torna-a mais mínima ainda.

No capítulo "Códigos de gênero e o jogo da ironia", Hochschild aborda a problemática das regras de sentimentos que considera pouco teorizada na obra de Goffman. Assim, ela constrói códigos de gênero apoiando-se nos recursos culturais dos quais as mulheres extraem, combinam, misturam e equilibram códigos mais ou menos femininos e masculinos de forma semiconsciente. A tipologia formada a partir desses recursos contrasta o tipo tradicional (hierárquico) e o moderno (uma forma de igualitarismo), tendo por base diferentes aparências, jeitos de vestir, estilos de interação, expressões e posturas do rosto, do corpo, das mãos, da fala, das regras de sentimentos e da administração das emoções. Experimentar como esses códigos são sentidos pelas mulheres leva ao processo de encaixar ou não o código com o self essencial. A ironia é o tom que eclode quando a pessoa não consegue reter aquele código nem pode deixá-lo ir embora. Os livros de auto-ajuda baseiam-se nos dois códigos arquetípicos: o tradicional e o igualitário. Seguindo a sugestão de Ann Swidler, Hochschild também considera que as mulheres constróem sua identidade através das formas como combinam e equilibram os códigos esquematizados na tipologia. A ironia feminina é a forma de lidar com as ambigüidades e contradições de um mundo moderno regido por velhas regras.

A comparação entre os manuais de auto-ajuda americanos e japoneses permite vislumbrar o espaço que as mulheres encontram na cultura (cultural room) para se mexer dentro dos códigos de gênero. A cultura de gênero

está impregnada por: a) um senso de conexão entre o passado e o presente (peso cultural), b) uma conexão com outros desconhecidos na sua própria cultura (elasticidade cultural), c) uma conexão com outros no próprio lugar que a pessoa ocupa na cultura (enraizamento cultural).15

A análise dos manuais japoneses e americanos leva essas três dimensões em conta ao focalizar como as mulheres agem e o espaço cultural que têm para agir. A cultura é concebida pela autora como resultado de acordos continuamente renegociados. Ela constata que os manuais japoneses dão mais peso às tradições e os americanos tratam o passado como algo leve. Não só a tradição é distinta em termos de conteúdo, como também é sentida de forma diferente, sendo pesada para as japonesas e leve para as americanas. A maior parte dos manuais japoneses lida com práticas culturais e virtudes morais das mulheres, que se refletem em qualquer coisa que elas estejam fazendo. Os manuais americanos focalizam mais o amor entre homens e mulheres e o casamento.

Segundo Hochschild, os manuais americanos que enfatizam o tradicionalismo fazem-no como se este fosse divertido em vez de ser o certo, que predomina nos manuais japoneses. Outras diferenças que ela observa são: a) que os manuais americanos enfatizam o individualismo e os japoneses dão destaque aos laços sociais; b) que os japoneses definem o espaço cultural como o que é ou não é virtuoso (moralmente) ou em termos de boas ou más maneiras, e os americanos definem-no em termos do que uma pessoa sente ou não sente autenticamente.

Devido ao enfoque comparado, a autora conclui que:

Paradoxalmente, para começar uma revolução de gênero, nós precisamos de uma cultura "leve", que dê espaço cultural para as mulheres moverem-se ao redor, mas para completar essa revolução, nós precisamos basear-nos em uma cultura "mais pesada" da qual é feito o apoio social.16

Os quatro livros resumidos acima evidenciam como o olhar interacionista de Hochschild articula o impacto macrossocial do capitalismo nas sociedades avançadas sobre a dimensão microssocial do trabalho das emoções que os seres humanos realizam. Essa análise torna ultrapassada a crítica que rotula as abordagens interacionistas simbólicas de não levarem em conta a dimensão estrutural da vida social, ao priorizarem a interação face-a-face, ignorando os condicionantes sociais pré-existentes como a dominação.

A forma como a autora percebe as conseqüências da modernidade sobre as relações de gênero diferencia-se tanto da visão de Giddens quanto do olhar de Bourdieu.17 Giddens vincula a modernidade ao elevado grau de mudança social, o que caracteriza a ruptura do presente com a tradição. Ao analisar as transformações da intimidade na cultura moderna, ele aponta o papel fundamental que as mulheres exerceram nesse processo, viabilizando a possibilidade de uma democratização da esfera pessoal. Destaca como as mudanças na vida privada ganharam espaço navida pública, alterando as relações entre os gêneros. Para esse autor, na alta modernidade os relacionamentos íntimos tendem na direção do relacionamento puro. Este refere-se à relação social que é mantida apenas por ela mesma, que só continua enquanto as partes acreditam que extraem satisfações suficientes para cada um individualmente para nela permanecerem. No relacionamento puro, os envolvidos vinculam o amor à sexualidade, que é parte de uma reestruturação genérica da intimidade não se restringindo ao casamento heterossexual.18

Giddens argumenta que as últimas décadas são marcadas pelas conquistas femininas, com destaque para as liberdades sexuais. As mulheres ficaram encarregadas da administração da intimidade, esfera que a modernidade colocou em andamento. A reivindicação do prazer sexual feminino transformou-se em um elemento básico da insubordinação das mulheres, e sua emancipação sexual tende a refletir-se na reorganização emocional mais abrangente da vida social. Considera que a democratização da ordem privada nas sociedades ocidentais abre a possibilidade da democratização na esfera pública, já que para esse autor a mudança na esfera íntima é um requisito fundamental para a mudança nos outros campos sociais.

Segundo ele, a busca pela democracia no domínio público foi de início um projeto masculino. A inclusão das mulheres e de outras minorias na reflexividade da modernidade deveu-se às lutas que elas travaram. Ao mobilizar-se por direitos de igualdade política e econômica, o movimento feminista subverteu os elementos constitutivos das relações ente os gêneros, discutindo características básicas da identidade pessoal. As questões levantadas pelo feminismo e pelo homossexualismo estão interligadas ao tema do eu como um projeto reflexivo. O poder de mudança atribuído a esses movimentos na modernidade expõe a visão de Giddens sobre como a dualidade dessa estrutura gera constrangimentos, mas também oportunidades de ação para sujeitos desencaixados em um presente rompido com o passado.

Já para Bourdieu a modernidade não rompe com o passado. O velho e novo convivem no habitus. Isso tem enormes conseqüências na forma como o autor vê a persistência da desigualdade entre os gêneros, mesmo com toda a mudança. Homens e mulheres inserem-se nas relações de dominação, reproduzindo-as na intimidade. Bourdieu concebe o

desejo masculino como desejo de posse, como dominação erotizada, e o desejo feminino, como desejo da dominação masculina, como subordinação erotizada, ou mesmo, em última instância, como reconhecimento erotizado da dominação.19

A violência simbólica é a adesão do dominado ao dominante.

Analisando os fatores de mudança nas relações de gênero, o autor ressalta o trabalho crítico feito pelo movimento feminista. Aponta também a função da instituição escolar na reprodução da diferença entre os gêneros, aumento do acesso das mulheres à instrução e, correlativamente, à independência econômica e à transformação das estruturas familiares, incluindo o divórcio. Entretanto,

as mudanças visíveis que afetaram a condição feminina mascaram a permanência de estruturas invisíveis que só podem ser esclarecidas por um pensamento relacional, capaz de pôr em relação a economia doméstica, e portanto, a divisão do trabalho e de poderes que a caracteriza, e os diferentes setores do mercado de trabalho (os campos) em que estão situados homens e mulheres.20

Ao contrário de Giddens, a esfera íntima não consegue romper com o habitus sozinha e ajudar a democratizar outros campos. Bourdieu considera que essas lutas pertencem à lógica mais tradicional da política, e que estão ligadas às estruturas dos inconscientes masculinos e femininos, contribuindo para a perpetuação das relações sociais de dominação entre os sexos.

Para Hochschild, a intimidade na alta modernidade está longe de representar o relacionamento puro e o amor confluente na relação entre os gêneros, quando os pais trabalham e criam filhos. Em vez da igualdade na esfera privada expandir-se para outros campos, ela identifica o ritmo do trabalho impondo-se sobre a vida familiar e a intimidade. Embora sua posição seja mais próxima da concepção de Bourdieu ao identificar a coexistência da tradição e do novo nas relações entre os gêneros, ela se diferencia na visão sobre o habitus, através da construção da tipologia dos códigos de gênero. Assim, reconhece que há na realidade recursos culturais de gênero tradicionais e modernos, que permitem às mulheres combinarem os códigos construindo para si um mix cultural com o qual se identificam. O trabalho emocional é uma forma de burilar o self para a interação em uma sociedade na qual regras típicas do passado persistem no presente. Hochschild demonstra como as pessoas criam sentimentos através dessa forma de agir, não se limitando à contenção ou liberação das pulsões.

 

 

Recebida para publicação em junho de 2003, aceita em novembro de 2003.

 

 

1 HOCHSCHILD, Arlie R. The commercialization of intimate life: notes from home and work. Berkeley, The University of California Press, 2003.
2 HOCHSCHILD, A. R. The managed heart: commercialization of human feeling. Berkeley, University of California Press, 1983.
3 Para a autora "trabalho emocional significa a administração dos sentimentos para criar uma exposição facial ou corporal publicamente observável; o trabalho emocional é vendido por um salário e, assim, tem um valor de troca. (...) Os termos sinônimos trabalho das emoções ou administração das emoções referemse a esses mesmos atos em um contexto privado onde eles têm valor de uso.” ID., IB., p.7.
4 Emoção é conceituada como a consciência da cooperação do corpo com uma idéia, um pensamento ou atitude e o rótulo posto nessa consciência. Sentimentoé definido como uma emoção amena. HOCHSCHILD, A. R. The managed heart... Op. cit., p.75.
5 ID., IB., p.88.
6 ID., IB., p.7.
7 ID., IB., p.77.
8 HOCHSCHILD, Arlie R. The second shift. New York, Avon Books, 1989; e The time bind: whem work becomes home and home becomes work. New York, Metropolitan Books, 1997.
9 ID., IB. p.188.
10 WILLIAMS, Simon J. Arlie Russell Hochschild. In: STONES, Rob. (org.) Key sociological thinkers. NY, New York University Press, 1998.
11 ID., IB., p.244.
12 HOCHSCHILD, A. The time bind... Op. cit., p.51.
13 ID., IB., p.51.
14 HOCHSCHILD, Arlie R. The commercialization of intimate life... Op. cit., p.24.
15 ID., IB., p.58.
16 ID, IB., p.72.
17 GIDDENS, Anthony. A transformação da intimidade: sexualidade, amor e erotismo nas sociedades modernas. São Paulo, Ed. Unesp, 1993; e BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1999.
18 GIDDENS, A. A transformação da intimidade... Op. cit., pp.68-89.
19 BOURDIEU, P. A dominação masculina... Op.cit., p.47.
20 ID., IB., p.126.

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License