Open-access Cem vezes FórumAT!

No último 10 de setembro de 2024, o Fórum Acidentes do Trabalho (FórumAT) comemorou o seu 100º encontro! O espaço foi criado em 2008 para fomentar discussões plurais, ampliar o debate sobre segurança do trabalho, estimulando a substituição das práticas tradicionais de investigações dos acidentes.

O FórumAT foi estruturado como atividade de educação permanente criando agenda técnica e científica que dialoga sobre a construção de concepção de acidente – como compreender esses eventos – e sobre o seu enfrentamento como fenômenos sociotécnicos sistêmicos.

A substituição de investigações de acidentes de trabalho (AT) concluídas com atribuição de culpa às vítimas e explicações como eventos uni causais foram temas motivadores e permanentes da agenda do FórumAT1, como já ressaltado nessa Revista Brasileira de Saúde Ocupacional (RBSO).

O Fórum AT e o Modelo de Análise e Prevenção de Acidentes de Trabalho (MAPA)2 nasceram juntos recebendo apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), por meio de Projeto de Pesquisa em Políticas Públicas, que tinha como objetivos, entre outros, responder por que empresas fiscalizadas com base nas Normas de Saúde e Segurança não reduziam os índices de AT3? Com apoio da Ergonomia da Atividade4,5, descortinou-se, na cidade de Piracicaba–SP, uma rede de aspectos organizacionais que eram sistematicamente escondidos por serviços de Saúde e Segurança do Trabalho (SST), ancorados na abordagem hegemônica nos meios técnicos e profissionais do campo.

O grupo de criadores do Fórum incluiu núcleo de professores e pesquisadores de São Paulo e de outros estados, profissionais dos Centros de Vigilância em Saúde ou Centros de Referência em Saúde do Trabalhador – Cerest (destaque para o de Piracicaba), auditores-fiscais, procuradores e profissionais de saúde e segurança do trabalho do Ministério Público do Trabalho e outros. O Fórum contou com ajuda da Faculdade de Medicina de Botucatu, da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), do Cerest e da Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep) , da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), do Ministério Público do Trabalho e da Fapesp. Atualmente, a Associação de Saúde Ambiental e Sustentabilidade (ASAS) apoia a manutenção do Portal FórumAT.

FórumAT em números

Ao longo de sua existência, o Fórum envolveu pesquisadores e autores estrangeiros em eventos, presenciais e virtuais, e entrevistas e obras foram traduzidas e disponibilizadas no Portal e ou no canal Youtube. Durante a pandemia, manteve encontros virtuais transmitidos ao vivo.

Nos últimos 12 meses (até agosto de 2024), o site forumat.net.br teve 22.520 acessos, com média de 62 acessos por dia. Os dados de 2008–2024 revelam que o site é consultado regularmente, conforme segue:

  • 3.012 usuários ativos;

  • 3.322 postagens/artigos publicados;

  • 1.497 arquivos disponíveis, dos quais 671 em pdf;

  • 7.100 acessos em 2024 e

  • A atualização da busca também mostrou 12.000 acessos nos últimos 12 meses.

O Canal www.youtube.com/ForumAcidentes conta com 2.280 inscritos e 310 vídeos relacionados ao campo da Saúde e Segurança do Trabalho.

Caminhada marcada pelo pluralismo metodológico

O pluralismo metodológico firmou-se como marca da compreensão sobre acidentes no FórumAT. Novos conceitos e reflexões, em especial a articulação da pesquisa teórica com projetos de transformação das realidades e das pessoas envolvidas, foram produzidos e disseminados nas atividades do FórumAT e do canal Youtube. Esse processo estimulou reflexões sobre o trabalho, os acidentes, os comportamentos humanos em situações de trabalho etc., como processos sociais.

Por outro lado, esbarramos em impasses. Incômodos emergem em momentos em que investigações consideradas ricas e estimulantes acabam “engavetadas”, não se desdobram em intervenções transformadoras das realidades estudadas, a exemplo do que ocorria antes no uso da árvore de causas e em aplicações do MAPA. Apesar das metodologias estimularem a participação dos trabalhadores em todo o processo, foi possível reconhecer a natureza política dos desafios, que espelhava resistências e defesas jurídicas das organizações que evitam a todo custo reconhecer o acidente como evento sistêmico, com origens arraigadas na história dos sistemas estudados.

Fórum como espaço de debate e difusão de novos olhares

Aos poucos, firmou-se a compreensão de acidente como fenômeno histórico, representado pelo modelo da gravata-borboleta ou com três dimensões6: causas, riscos e consequências.

O primeiro desdobramento prático dessa abordagem foi o estímulo a análises de acidentes que explorassem em profundidade as “causas das causas”, o lado esquerdo da gravata-borboleta. Isso tanto aconteceu com conceitos propostos pelo MAPA, como também pela difusão de técnicas de investigação como os mapas verticais (AcciMaps)7,8. A aplicação dos conceitos do MAPA foi se modificando no tempo, por exemplo, com o estudo do trabalho real, de atividades cuja interação pode contribuir nas origens de acidentes. Novos conceitos foram sendo incorporados: gestão e compromisso cognitivo, compreensão, trabalho impedido, ação situada, sentido e significado do trabalho, armadilhas cognitivas, entre outros, na exploração de origens e consequências do acidente. Os caminhos sugeridos para a prevenção foram mudando.

O segundo desdobramento evidencia a questão da dívida social do país em relação ao reconhecimento de consequências tardias dos acidentes. Nossa aprendizagem a esse respeito foi alimentada por diversos casos, em especial aqueles em que a vítima era parte do grupo de excluídos, sem proteção de políticas públicas e sociais9. Serviços de saúde dos trabalhadores precisam ir além do manejo de lesões e incapacidades, explorando impactos de acidentes na identidade, na autoestima e no reconhecimento social de trabalhadores que, não raramente, são classificados como pessoas com deficiência e duplamente discriminados.

Nessa trajetória, o FórumAT interagiu com temas emergentes que destacam a necessidade de lidar com a prevenção antes que aconteçam os acidentes. Em destaque, diálogos com a literatura sobre organizações de alta confiabilidade, resiliência de sistemas, Segurança II, nova visão da segurança, avisos de acidentes, entre outros.

Do acidente à atividade e ao sistema de atividade

O percurso formativo sobre saúde e segurança no trabalho foi fortemente influenciado por estudos da Ergonomia desenvolvidos na França. Mais recentemente, outro encontro assume importância. Trata-se da proposta de Laboratório de Mudanças (LM)10, desenvolvida na Finlândia e que foi por nós percebida como ferramenta por excelência para o desenho – ou construção social – de intervenções transformadoras de realidades de trabalho.

A teoria histórico-cultural da atividade (THCA) e a abordagem do LM ganharam relevância no portal do Fórum e em seu canal do Youtube, estimulando mudanças nas formas como historicamente lidávamos com o papel do especialista na intervenção. O LM traz noções de coaprendizagem e desenvolvimento colaborativo da saúde do trabalhador11. A abordagem pressupõe que os atores internos participem intensamente no ciclo da aprendizagem expansiva a ser concluída com a implantação e o teste de novo modelo de sistema de atividade.

Acidentes persistem como tema de estudo, vistos em perspectiva ampliada e histórica. A hibridização de métodos vem sendo reconhecida como parte de nosso DNA e sendo assumida como tema de estudos recentes. Também os novos desafios e ameaças de era multicrises, de impasses associados a inovações sociais e tecnológicas em contexto de negacionismo invadem nossa agenda. Trata-se de processo estimulado pelos rumos assumidos na produção de conhecimento de outros atores que interagem com o Fórum.

Desafios do FórumAT para os próximos 100 encontros

Uma primeira ideia é reconhecer que o acidente demonstra o fracasso da prevenção. Se os acidentes, antes de seu desfecho, dão avisos, emitem sinais precursores que podem ser detectados12,13, por que precisamos chegar depois do desastre para dar início a processo de investigação? Seria possível estimular ou priorizar o desenvolvimento de ações consistentes, colaborativas e sistemáticas para identificar sinais de alerta e contradições em sua origem, que possibilitem construir defesas em profundidade contra acidentes e outras perdas e danos?

Um segundo objeto é somar forças para substituir a visão reducionista que ainda repousa intacta na NBR 14.28014, fartamente utilizada nas organizações para transformar um fenômeno complexo e multicausal em evento centrado no indivíduo portador de “baixa percepção de risco”, adepto de “comportamentos fora do padrão” etc. Depois da remoção do “ato inseguro” da Norma Regulamentadora no 1 do MTE, este é certamente um dos últimos redutos institucionais que prejudicam a prevenção.

Outra frente que bate insistentemente a nossa porta é a questão da saúde mental nas suas dimensões da vigilância, prevenção e atenção integral. O FórumAT já vem tratando do tema, mas esforços concentrados são necessários inclusive para apoiar profissionais que lidam com dificuldades e complexidade da temática.

As múltiplas interações surgidas vão reforçando a defesa da ideia de que a prevenção deve começar com abordagens do desenvolvimento dos sistemas e de suas atividades profissionais. Mas também com a compreensão de que muitas das novas formas de abordar velhos desafios refletem aspectos do como se dá o desenvolvimento histórico de nosso grupo. Persistem os velhos compromissos, entretanto passamos a enxergar nuances não vistas com as primeiras lentes usadas no passado.

Referências

  • 1 Jackson Filho JM, Vilela RA G, Garcia EG, Almeida IM. Sobre a "aceitabilidade social" dos acidentes do trabalho e o inaceitável conceito de ato inseguro. Res. Bras. Saúde Ocup. 2013 jan;38(127):6-8. https://doi.org/10.1590/S0303-76572013000100001
    » https://doi.org/10.1590/S0303-76572013000100001
  • 2 Almeida IM, Vilela RAG. Modelo de análise e prevenção de acidentes. Piracicaba: Centro de Referência em Saúde do Trabalhador; 2010.
  • 3 Vilela RAG. Ações interinstitucionais para o diagnóstico e prevenção de acidentes do trabalho: aprimoramento de uma proposta para a Região de Piracicaba: Relatório de Pesquisa em Políticas Públicas. São Paulo: Fapesp; 2012.
  • 4 Guérin F, Laville A, Daniellou F, Duraffourg J, Kerguelen A. Compreender o trabalho para transformá-lo: a prática da ergonomia. São Paulo: Edgard Blücher; 2004.
  • 5 Wisner A. O trabalhador diante dos sistemas complexos e perigosos. In: Wisner A. A inteligência no trabalho. São Paulo: UNESP; 1994. p. 53-70.
  • 6 Hale AR, Ale BJM, Goossens LHJ, Heijer T, Bellamy LJ, Mud ML et al. Modeling accidents for prioritizing prevention. Reliab Eng Syst Safe. 2007 Dec;92(12):1701-15. https://doi.org/10.1016/j.ress.2006.09.025
    » https://doi.org/10.1016/j.ress.2006.09.025
  • 7 Rasmussen J. Risk management in a dynamic society. Safety Sci. 1997;27(2-3):183-213. https://doi.org/10.1016/S0925-7535 (97)00052-0
    » https://doi.org/10.1016/S0925-7535 (97)00052-0
  • 8 Rasmussen J, Svedung I. Proactive risk management in a dynamic society. Karlstad: Swedish Rescue Services Agency; 2000.
  • 9 Almeida IM, Takahashi M. Consequências tardias de acidentes e desastres de causas externas relacionadas ao trabalho. In: Mendes R, organizador. Patologia do trabalho: o essencial, o novo e a prática. 4a ed. Rio de Janeiro: Atheneu; 2024. p. 683-94.
  • 10 Virkkunen J, Newnham DS. Laboratório de mudanças: uma ferramenta de desenvolvimento colaborativo para o trabalho e a educação. Belo Horizonte: Fabrefactum; 2015.
  • 11 Vilela RAG, Querol MAP, Beltran-Hurtado SL, Cerveny GCO, Lopes MGR. Desenvolvimento colaborativo para a prevenção de acidentes e doenças relacionadas ao trabalho. São Paulo: Ex-Libris; 2020.
  • 12 Llory M. O custo do silêncio. Rio de Janeiro: MultiMais; 1999.
  • 13 Llory M, Montmayeul R. O acidente e a organização. Belo Horizonte: Fabrefactum; 2014.
  • 14 Associação Brasileira de Normas Técnicas. NBR-14280: Cadastro de acidente do trabalho: procedimento e classificação. Rio de Janeiro: Associação Brasileira de Normas Técnicas; 2001.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    02 Dez 2024
  • Data do Fascículo
    2024
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