Resumo
Objetivo Estimar os custos diretos e indiretos das internações e óbitos por covid-19 entre profissionais de saúde no Brasil, de 2020 a 2022.
Métodos Estudo de avaliação econômica parcial do tipo custo da doença, conduzido sob as perspectivas do Sistema Único de Saúde (SUS) e da sociedade. Utilizaram-se dados do Sistema de Informação da Vigilância Epidemiológica da Gripe (Sivep-Gripe), Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) e Sistema de Informações Hospitalares (SIH/SUS). Os custos diretos foram estimados com base nas internações hospitalares; os indiretos, pela perda de produtividade, mensurada por anos potenciais de vida perdidos (APVP), de trabalho perdidos (APTP) e de renda perdidos (APRP), monetarizados pelo método do capital humano.
Resultados Foram registradas 3.698 internações e 11.231 óbitos de profissionais da saúde. Os APVP totalizaram 159.800,4, com maior concentração nas faixas etárias de 40–49 anos (28,55%) e 50–59 anos (26,30%). Os APTP somaram 72.031, com perda econômica de R$ 3.507.820.144,72. Os APRP totalizaram 139.728,0, correspondendo a R$ 6.602.378.714,38. Os custos diretos das internações foram R$ 23.399.642,85, e os indiretos associados aos dias de internação, R$ 12.551.903,26.
Conclusão Os achados evidenciam elevada carga epidemiológica e econômica da covid-19 sobre os trabalhadores da saúde.
Palavras-chave
Expectativa de Vida; Profissionais de Saúde; Gestão em Saúde; Covid-19; Custo da Doença; Saúde do Trabalhador; Avaliação em Saúde
Abstract
Objective To estimate the direct and indirect costs of hospitalizations and deaths due to COVID-19 among healthcare professionals in Brazil from 2020 to 2022.
Methods A partial economic evaluation study of the cost of illness, conducted from the perspectives of the Unified Health System (SUS) and society. Data were obtained from the Influenza Epidemiological Surveillance Information System (Sivep-Gripe), the Mortality Information System (SIM), and the Hospital Information System (SIH/SUS). Direct costs were estimated based on hospital admissions; indirect costs were estimated based on lost productivity, measured by potential years of life lost (PYLL), potential years of work lost (PYWL), and potential years of income lost (PYIL), monetized using the human capital method.
Results A total of 3,698 hospital admissions and 11,231 deaths among healthcare professionals were recorded. PYLL totaled 159,800.4, with the highest concentration in the 40–49 (28.55%) and 50–59 (26.30%) age groups. PYWL totaled 72,031, with an economic loss of R$ 3,507,820,144.72. PYIL totaled 139,728.0, corresponding to R$ 6,602,378,714.38. The direct costs of hospitalizations were R$ 23,399,642.85, and the indirect costs associated with days of hospitalization were R$ 12,551,903.26.
Conclusion the findings highlight the high epidemiological and economic burden of COVID-19 on healthcare professionals.
Keywords
Life Expectancy; Health Personnel; Health Management; COVID-19; Cost of Illness; Occupational Health; Health Evaluation
Introdução
Desde o início da pandemia de covid-19, as trabalhadoras e os trabalhadores da saúde assumiram papel estratégico na sustentação da resposta à crise sanitária, atuando na assistência direta, na vigilância, no diagnóstico, no cuidado hospitalar e na organização dos serviços, frequentemente sob condições de intensa exposição ocupacional e elevado desgaste físico e psíquico1.
No Brasil, a vulnerabilidade desse grupo foi agravada pela sobrecarga assistencial, pela escassez de equipamentos de proteção individual (EPIs), pela insuficiência de recursos materiais e humanos e pela persistência de formas precárias de inserção laboral, caracterizadas por vínculos instáveis, jornadas extensas, múltiplos empregos e marcadas desigualdades nas condições de trabalho entre regiões e categorias profissionais2. Nesse sentido, os efeitos da pandemia sobre os profissionais da saúde não podem ser reduzidos à dinâmica de transmissão do vírus, mas devem ser compreendidos à luz dos riscos estruturais inscritos no processo de trabalho em saúde e das limitações históricas das políticas de proteção à saúde do trabalhador.
A infecção, o adoecimento, a hospitalização e, em muitos casos, o óbito desses profissionais produziram repercussões que extrapolaram a esfera clínica, alcançando dimensões sociais, econômicas e institucionais3. Para além dos agravos à saúde física e mental, os afastamentos e as mortes comprometeram a disponibilidade da força de trabalho em saúde, afetando a continuidade do cuidado e a capacidade de resposta do sistema em um contexto de elevada demanda assistencial3. Tais eventos implicaram custos diretos para o sistema público, relacionados às internações, ao uso de unidades de terapia intensiva e aos tratamentos realizados, além de custos indiretos expressivos, decorrentes da perda de produtividade, da redução de rendimentos e dos Anos Potenciais de Vida Perdidos (APVP)4,5.
A precarização do trabalho e a fragilidade das políticas de proteção social e de saúde e segurança no trabalho contribuíram para aprofundar esses efeitos, especialmente em cenários marcados por desigualdades regionais e por menor capacidade de resposta dos serviços6. Assim, a análise do impacto econômico da covid-19 entre profissionais da saúde requer uma abordagem que articule a determinação social do processo saúde-doença, as condições concretas de trabalho e os mecanismos institucionais de proteção da força de trabalho em saúde.
No Brasil, os casos de covid-19 que demandam hospitalização são de notificação compulsória no Sistema de Informação de Vigilância Epidemiológica da Gripe (Sivep-Gripe), enquanto os óbitos são registrados no Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM)7,8. Esses sistemas reúnem informações essenciais, como ocupação, características sociodemográficas, diagnóstico clínico e causas básicas e associadas do óbito, constituindo fontes relevantes para a vigilância epidemiológica e para a análise dos efeitos da pandemia em grupos ocupacionais específicos. De forma complementar, os custos diretos relacionados às hospitalizações são registrados no Sistema de Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde (SIH/SUS), instrumento oficial do Ministério da Saúde para o processamento da Autorização de Internação Hospitalar (AIH), para faturamento e pagamento de serviços hospitalares referentes às internações realizadas na rede pública e conveniada, possibilitando o monitoramento da produção assistencial e dos gastos hospitalares7,8.
Apesar da disponibilidade dessas bases, a inexistência de mecanismos sistemáticos de estimativa e monitoramento integrado dos custos econômicos associados ao adoecimento e à mortalidade de profissionais da saúde limitou o planejamento estratégico, a formulação de medidas compensatórias e o fortalecimento de políticas de proteção a essa força de trabalho9.
Diante desse cenário, o presente estudo teve como objetivo estimar os custos diretos e indiretos das internações e óbitos por covid-19 entre profissionais de saúde no Brasil, com base nos casos notificados no período de 2020 a 2022. A análise foi realizada a partir de bases oficiais, com ênfase na mensuração da carga econômica da doença sob as perspectivas do SUS e da sociedade, considerando que os impactos observados expressam não apenas a magnitude epidemiológica da pandemia, mas também as condições de trabalho, exposição ocupacional e proteção social que conformam o exercício do trabalho em saúde no país.
Métodos
Desenho do estudo e perspectiva
Trata-se de um estudo de avaliação econômica parcial do tipo custo da doença, desenvolvido sob as perspectivas do SUS e da sociedade. Foram estimados dois componentes: os custos diretos, representados pelos gastos com hospitalizações por covid-19 no âmbito do SUS, e os custos indiretos, relacionados à perda de produtividade decorrente do afastamento laboral e da mortalidade prematura entre profissionais de saúde.
Intervenção e comparadores
Por se tratar de estudo de custo da doença com base em dados secundários, não houve intervenção, comparador em saúde, nem mensuração de desfechos de efetividade, utilidade ou preferência.
População
A população estudada incluiu profissionais de saúde hospitalizados e/ou que foram a óbito por covid-19 no Brasil, no período de 2020 a 2022. Para identificação dos profissionais de saúde, utilizou-se o campo “ocupação”, codificado segundo a Classificação Brasileira de Ocupações (CBO 2002). Foram considerados elegíveis os registros cuja ocupação informada correspondia a categorias da área da saúde previamente definidas no estudo e descritas a seguir: 2212 – Biomédicos, 2231 – Médicos, 2232 – Cirurgiões-dentistas, 2234 – Farmacêuticos, 2235 – Enfermeiros, 2236 – Fisioterapeutas, 2237 – Nutricionistas, 2238 – Fonoaudiólogos, 2239 – Terapeutas Ocupacionais, 2515 – Psicólogos e psicanalistas, 2516 – Assistentes sociais, 3221 – Tecnólogos de terapias complementares, 3222 – Técnicos e auxiliares de enfermagem, 3223 – Técnicos em óptica e optometria, 3224 – Técnicos de odontologia, 3225 – Técnicos em próteses ortopédicas, 3226 – Técnicos de imobilizações ortopédicas, 3241 – Técnicos em equipamentos médicos e odontológicos, 3242 – Técnicos e auxiliares técnicos em patologia clínica, 3251 – Técnico em farmácia em manipulação farmacêutica, 3252 – Técnicos em produção, conservação e qualidade de alimentos, 5151 – Trabalhadores em serviços de promoção e apoio à saúde, 5152 – Auxiliares de laboratório da saúde, 3253 – Técnicos de apoio à biotecnologia, 3281 – Técnicos em necrópsia e taxidermistas.
Cenário
O estudo foi realizado no Brasil, país composto por 27 unidades da federação, distribuídas em cinco grandes regiões (Norte, Nordeste, Sudeste, Sul e Centro-Oeste), marcadas por desigualdades regionais na distribuição da força de trabalho em saúde, na organização da rede assistencial e na disponibilidade de leitos hospitalares e de Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Durante a pandemia de covid-19, essas desigualdades influenciaram a capacidade de resposta dos serviços, especialmente diante do aumento abrupto da demanda por atendimento, internações e cuidados intensivos.
Entre 2020 e 2022, a pandemia impôs elevada pressão sobre o SUS, exigindo reorganização da rede, ampliação emergencial de leitos e maior mobilização dos profissionais de saúde. Esse contexto produziu diferentes níveis de exposição ocupacional, sobrecarga de trabalho e vulnerabilidade entre regiões e categorias profissionais, sendo relevante para a interpretação dos custos diretos e indiretos associados às internações e aos óbitos por covid-19 entre profissionais de saúde. O horizonte temporal adotado correspondeu ao período de ocorrência dos eventos analisados, de 2020 a 2022, abrangendo a fase inicial da pandemia, o período de maior pressão assistencial em 2021 e a redução relativa dos eventos graves em 2022.
Modelo de avaliação
A avaliação econômica foi conduzida como estudo parcial do tipo custo da doença, com abordagem descritiva e retrospectiva, baseada na mensuração dos custos diretos e indiretos associados às internações e aos óbitos por covid-19 entre profissionais de saúde no Brasil. Não foi utilizado modelo analítico de decisão, como árvore de decisão ou modelo de Markov, uma vez que o objetivo não foi comparar intervenções, alternativas terapêuticas ou estratégias de prevenção, mas estimar a carga econômica observada a partir de eventos registrados em sistemas oficiais de informação.
O modelo de estimação considerou dois componentes principais. O primeiro correspondeu aos custos diretos hospitalares, estimados a partir dos dias de internação identificados entre profissionais de saúde e do custo médio diário de internação calculado com base nos registros do SIH/SUS. O segundo correspondeu aos custos indiretos, estimados pela perda de produtividade decorrente dos dias de internação e da mortalidade prematura, mensurada por meio dos APVP, Anos Potenciais de Trabalho Perdidos (APTP) e Anos Potenciais de Renda Perdidos (APRP), monetarizados pelo método do capital humano.
Premissas
Foram adotadas premissas metodológicas para viabilizar a mensuração dos custos a partir de bases secundárias, públicas e anonimizadas. Assumiu-se que os registros do SIM e do Sivep-Gripe com informação de ocupação compatível com categorias da saúde representavam profissionais de saúde elegíveis para o estudo. Para os óbitos, consideraram-se os registros com códigos da CID-10 relacionados à covid-19 como causas básicas ou associadas; para as internações, consideraram-se os casos classificados como SRAG por covid-19 no Sivep-Gripe. Como não foi realizado relacionamento individual entre os registros das bases, as estimativas de internações, óbitos e custos hospitalares foram tratadas de forma agregada.
Para os custos diretos, assumiu-se que o custo médio diário de internação por covid-19 estimado no SIH/SUS poderia ser aplicado aos dias de internação dos profissionais de saúde identificados no Sivep-Gripe, em razão do sub-registro e da inconsistência da variável ocupação no SIH/SUS. Para os custos indiretos, assumiu-se que a mortalidade prematura e os dias de internação produziram perda de produtividade equivalente ao tempo potencial de trabalho ou renda perdido. A monetarização foi realizada pelo método do capital humano, utilizando valores salariais padronizados por categoria profissional, jornadas de 40 horas semanais e dias úteis anuais. Não foram incluídos custos ambulatoriais, custos pós-alta, reabilitação, sequelas de longa duração, custos de acompanhantes, sofrimento psíquico, perdas familiares ou outros custos intangíveis, por não estarem disponíveis de forma padronizada nas bases utilizadas ou por extrapolarem o escopo da análise.
Fontes de dados
Os dados foram extraídos de sistemas de informação em saúde do SUS, disponíveis em acesso aberto: o SIM, utilizado para identificação dos óbitos; o Sivep-Gripe, para identificação dos casos de hospitalização; e o SIH/SUS, para estimativa dos custos diretos das internações.
Os registros de óbito foram extraídos do SIM, por meio dos arquivos públicos disponíveis no portal do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (Datasus)10. Foram incluídos os casos cujas causas básicas ou associadas continham os seguintes códigos da CID-10: B34.2 (infecção por coronavírus de localização não especificada), U07.1 (covid-19, vírus identificado) e U07.2 (covid-19, vírus não identificado).
As internações foram identificadas no Sivep-Gripe a partir dos registros com classificação final “5 – Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) por covid-19” e com informação de ocupação compatível com exercício de atividade na área da saúde, variável disponibilizada no sistema a partir de 31 de março de 2020. Foram considerados hospitalizados os indivíduos com quadro compatível com SRAG, incluindo sinais e sintomas como febre, tosse, dispneia, saturação de O2 ≤ 93%, frequência respiratória ≥ 30 rpm, relação PaO2/FiO2 < 300, linfopenia e sinais de edema alveolar. As bases foram obtidas em acesso público por meio do OpenDataSUS11.
Para a estimativa dos custos diretos, utilizaram-se as AIH do SIH/SUS, também obtidas por meio dos arquivos públicos disponíveis no Datasus10. Foram selecionados registros com os seguintes códigos da CID-10: B34.2 (infecção por coronavírus de localização não especificada), B97.2 (coronavírus como causa de doenças classificadas em outros capítulos), U07.1 (covid-19, vírus identificado), U07.2 (covid-19, vírus não identificado) e J80 (síndrome da angústia respiratória aguda – SARA). Também foram utilizados dados do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES) para obtenção do número de profissionais de saúde registrados no período, empregados como denominador no cálculo das taxas de APVP por 1.000 profissionais de saúde, disponíveis publicamente. Todos os dados foram extraídos do portal do Datasus (https://datasus.saude.gov.br/transferencia-de-arquivos/), em 7 de janeiro de 2025.
Organização dos dados
Para aumentar a transparência e a reprodutibilidade da análise, adotaram-se procedimentos de limpeza e tratamento dos dados previamente à etapa analítica. Inicialmente, as bases foram inspecionadas quanto à completude, à consistência e à duplicidade dos registros. Foram excluídos os registros duplicados, quando identificados, bem como aqueles com ausência ou inconsistência em variáveis essenciais à análise, como diagnóstico, evolução do caso, idade ou ocupação, conforme a finalidade específica de cada banco. Também foram padronizadas as variáveis categóricas, especialmente aquelas referentes a sexo, faixa etária, ano de ocorrência e ocupação. No caso do campo ocupação, procedeu-se à revisão e harmonização dos registros para enquadramento nas categorias profissionais analisadas, tomando como referência a CBO 2002. Registros sem informação suficiente para classificação ocupacional foram desconsiderados nas análises específicas por categoria profissional. Como as bases utilizadas são públicas e anonimizadas, não foi realizado relacionamento probabilístico ou determinístico.
Os autores tiveram acesso exclusivamente a dados anonimizados e de domínio público, já disponibilizados para consulta e extração pelos sistemas oficiais. Não foi realizada validação independente dos algoritmos de seleção dos registros adotados no estudo, os quais se basearam nos códigos da CID-10 e na informação de ocupação, conforme descrito acima.
Custos
Os custos hospitalares foram estimados a partir do custo médio por dia de internação calculado no SIH/SUS e posteriormente aplicado ao total de dias de internação dos casos identificados no Sivep-Gripe como trabalhadores da saúde. Adotaram-se procedimentos distintos conforme a disponibilidade e a qualidade da informação em cada base, visando compatibilizar a identificação ocupacional dos casos com a base oficial de custos hospitalares. No SIM e no Sivep-Gripe, a identificação dos profissionais de saúde foi realizada diretamente a partir do campo “ocupação”, com base nos códigos ou descrições compatíveis com categorias da saúde selecionadas no estudo. Já no SIH/SUS, o campo ocupação apresenta elevado sub-registro e preenchimento inconsistente, o que inviabilizou a identificação direta e confiável das internações de profissionais de saúde.
Os valores das internações foram calculados conforme a tabela de procedimentos do SUS, considerando os custos com permanência em leitos clínicos e UTI. O custo médio por dia de internação foi obtido pela razão entre o valor total das internações e o número total de dias de permanência hospitalar. Todos os valores monetários foram expressos em reais (R$) e convertidos em dólares americanos (US$), utilizando a taxa de câmbio média de maio de 2025 informada pelo Banco Central do Brasil (US$ 1,00 = R$ 5,71)12.
Para os custos indiretos, estimaram-se dois indicadores principais: os APVP e os Anos Potenciais de Trabalho e de Renda Perdidos (APTP e APRP), calculados com base nos óbitos registrados no SIM. Os APVP foram calculados utilizando-se a fórmula: APVP=∑(aidi), em que ai representa a diferença entre a expectativa de vida e a idade ao óbito (quando este ocorre entre as idades de i e i +1 anos), e di, o número de óbitos nessa faixa etária. Foram excluídos do cálculo os óbitos ocorridos em idade superior à expectativa de vida, conforme estimativas produzidas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE): sexo masculino – 71 anos (2020), 69,3 anos (2021), 72 anos (2022); feminino – 78,4 anos (2020), 76,4 anos (2021), 79 anos (2022)13.
Para permitir comparações proporcionais, calculou-se a Taxa de APVP (TAPVP) por 1.000 profissionais de saúde, utilizando o número de registros de profissionais da saúde no CNES como denominador. Também foi calculada a média de APVP por óbito, estratificada por sexo e faixa etária.
Os APTP foram calculados como a diferença entre a idade ao óbito e a idade mínima para aposentadoria: 65 anos para homens e 62 anos para mulheres, conforme a Emenda Constitucional nº 103/201914.
Os APRP foram obtidos subtraindo-se a idade ao óbito da expectativa de vida por sexo e ano. Ambos foram monetarizados por meio do método do capital humano, utilizando os valores de salário líquido anual estimado por ser a abordagem mais compatível com o objetivo de estimar o impacto econômico potencial da mortalidade prematura e dos afastamentos laborais entre profissionais de saúde. Esse método atribui valor monetário ao tempo de trabalho perdido com base na renda esperada no período produtivo.
Para esse cálculo, consideraram-se jornadas de 40 horas semanais, com base em dias úteis trabalhados, incluindo 13º salário, férias e encargos sociais, conforme a Consolidação das Leis do Trabalho (Decreto-Lei nº 5.452/1943)15. Os valores foram baseados no piso salarial da enfermagem (Lei nº 14.434/2022)16 para os profissionais de nível superior e técnico da saúde; no piso dos Agentes Comunitários de Saúde (ACS) e Agentes de Combate às Endemias (ACE) (Lei nº 11.350/2006, com alterações da Emenda Constitucional nº 120/2022)17,18 para as categorias equivalentes; e, para os médicos19, nas bolsas dos programas Mais Médicos e Médicos pelo Brasil, por constituírem referências públicas, nacionais e padronizadas de remuneração vinculadas à provisão de trabalho médico no país. Essa opção buscou conferir maior comparabilidade às estimativas e reduzir a heterogeneidade associada às diferenças de vínculos, especialidades, jornadas e contextos regionais de remuneração da categoria.
Para estimar a perda financeira por dias de internação, o salário líquido anual foi dividido pelo número médio de dias úteis do ano (253 dias em 2020, 252 em 2021 e 251 em 2022), e esse valor diário foi multiplicado pelo total de dias de internação por caso. Não foram incluídos custos relacionados a acompanhantes, por não constituírem objeto central da presente estimativa de perda de produtividade e por não estarem disponíveis de forma padronizada e individualizada nas bases utilizadas.
Análises estatísticas e de sensibilidade
Foram realizadas análises estatísticas descritivas para caracterizar as internações e os óbitos por covid-19 entre profissionais de saúde no Brasil, no período de 2020 a 2022. As variáveis categóricas foram descritas por meio de frequências absolutas e relativas, segundo sexo, faixa etária, raça/cor da pele, categoria ocupacional, ano de ocorrência e unidade da federação de residência. Para as variáveis quantitativas relacionadas aos custos e às perdas potenciais, foram calculados totais, percentuais, médias e taxas, conforme a natureza de cada indicador.
Os APVP foram estimados em valores absolutos, percentuais, média por óbito e taxa por 1.000 profissionais de saúde, estratificados por sexo, faixa etária e ano. Também foram calculados o total de dias de internação, o valor total das internações, o salário diário estimado e a perda salarial associada às internações por covid-19 entre profissionais de saúde, segundo categoria ocupacional e ano. A perda de produtividade decorrente da mortalidade prematura foi estimada por meio dos APTP e APRP e seus respectivos valores monetários, segundo categoria ocupacional, faixa etária e sexo dos óbitos. Não foram realizados testes de hipótese ou modelos inferenciais, uma vez que o objetivo do estudo foi estimar e descrever a carga econômica observada a partir dos registros disponíveis em sistemas oficiais de informação.
Foi realizada análise de sensibilidade determinística univariada para avaliar a robustez das estimativas dos custos indiretos frente à variação de parâmetros críticos do modelo. Foram testados três grupos de parâmetros: expectativa de vida (±1 ano), salários (± 20%) e taxa de desconto (0%, 3% e 5% ao ano). Nos cenários com variação da expectativa de vida, foram recalculados os APVP e os APRP. Nos cenários com variação salarial, mantiveram-se constantes os anos potenciais perdidos, variando apenas os valores monetários dos APTP e APRP. Nos cenários com taxa de desconto, mantiveram-se constantes os anos potenciais perdidos, com variação apenas dos valores monetários futuros. Os resultados foram comparados ao cenário-base por meio de variação absoluta e percentual, sendo apresentados em tabelas suplementares. No caso-base, não foi aplicada taxa de desconto aos custos indiretos. A influência desse parâmetro foi examinada exclusivamente na análise de sensibilidade, com cenários de 0%, 3% e 5% ao ano.
A análise dos dados foi realizada com auxílio dos softwares Microsoft Excel® e TabWin/Datasus.
Resultados
Entre 2020 e 2022, foram identificados 3.698 casos de internação por covid-19 no Sivep-Gripe e 11.231 óbitos no SIM entre profissionais de saúde no Brasil. Na distribuição por sexo, observou-se predominância de pessoas do sexo feminino entre os internados (59,9%) e do sexo masculino entre os óbitos (59,3%). Em relação à faixa etária, as internações concentraram-se entre 30 e 59 anos, especialmente entre 40 e 49 anos (23,4%) e 30 e 39 anos (22,7%). Já os óbitos concentraram-se em profissionais com 60 anos ou mais (60,5%), com destaque para a faixa de 70 anos ou mais (36,7%) (Tabela 1).
Quanto à raça/cor da pele, predominou a categoria branca tanto entre os internados (49,1%) quanto entre os óbitos (62,8%). Destaca-se, contudo, a maior incompletude dessa variável no Sivep-Gripe, com 11,7% de registros ignorados, enquanto no SIM essa proporção foi de 1,7%.
No que se refere à ocupação, os técnicos/auxiliares de enfermagem representaram o maior grupo entre os internados (35,1%) e também entre os óbitos (37,2%), seguidos por médicos (23,3% e 19,3%, respectivamente) e enfermeiros (18,1% e 12,7%). Esses três grupos concentraram a maior parte da carga de morbimortalidade observada no período (Tabela 1).
A Figura 1 mostra que São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais concentraram os maiores números absolutos de internações e óbitos no triênio. Amazonas, Pará e Pernambuco também apresentaram volume expressivo de eventos, enquanto estados como Acre e Roraima registraram os menores números, evidenciando marcada heterogeneidade territorial da carga da covid-19 entre profissionais de saúde.
Distribuição de óbitos (Mapa A) e internações (Mapa B) por covid-19 entre profissionais de saúde, por Unidade da Federação. Brasil, 2020–2022
Estimaram-se 159.800,4 APVP no período, correspondentes a 8.116 óbitos elegíveis, média de 19,69 anos perdidos por óbito e taxa acumulada de 13,21 APVP por 1.000 profissionais de saúde (Tabela 2). O ano de 2021 concentrou o maior volume de APVP (96.510,1), seguido de 2020 (54.586,2) e 2022 (8.704,1).
Os maiores volumes de APVP concentraram-se nas faixas de 40 a 49 anos, com 45.626,7 APVP (28,55%), e de 50 a 59 anos, com 42.025,2 (26,30%). Em seguida, destacaram-se as faixas de 30 a 39 anos, com 32.796,8 APVP (20,52%), e de 60 a 69 anos, com 26.002,8 (16,27%). A faixa de 70 anos ou mais respondeu por 4.220,2 APVP (2,64%), e a de 18 a 29 anos, por 9.128,7 (5,71%).
Na estratificação por sexo, o sexo feminino apresentou 114.346,0 APVP, correspondente a 71,6% do total, com média de 21,2 anos perdidos por óbito e taxa de 14,2 por 1.000 profissionais. Para o sexo masculino, foram estimados 45.454,4 APVP, com média de 16,6 anos por óbito e taxa de 11,3 por 1.000 profissionais (Tabela 2).
No que se refere às perdas de produtividade por mortalidade prematura, a Tabela Suplementar 1 estimou 72.031 APTP e 139.728,0 APRP, correspondendo a R$ 3.507.820.144,72 em perdas associadas ao trabalho e a R$ 6.602.378.714,38 em perdas de renda no conjunto das categorias analisadas.
Entre os agrupamentos ocupacionais, os profissionais de nível superior, excluídos os médicos, totalizaram 30.985 APTP e 58.361 APRP, equivalentes a R$ 1.545.368.299,20 e R$ 2.939.392.170,00, respectivamente. Os técnicos de enfermagem apresentaram 30.959 APTP e 63.139,4 APRP, com perdas monetárias de R$ 1.118.837.827,06 e R$ 2.109.002.914,12. Entre os médicos, estimaram-se 5.582 APTP e 10.213,8 APRP, correspondendo a R$ 761.649.696,00 e R$ 1.407.515.136,60. Para agentes de saúde, auxiliares de laboratório e parteiras, os valores foram de 4.505 APTP e 8.013,8 APRP, com perdas de R$ 81.964.322,66 e R$ 146.468.493,66 (Tabela Suplementar 1).
As perdas de produtividade concentraram-se sobretudo nas faixas etárias de 40 a 49 anos e 50 a 59 anos, que somaram 26.081 e 15.759 APTP, respectivamente, além de 45.626,7 e 42.025,2 APRP. Pessoas do sexo feminino responderam por maior volume de perdas, com 42.406 APTP e 95.380,7 APRP, superando aquelas do sexo masculino, que apresentaram 29.625 APTP e 44.347,4 APRP.
Na análise de sensibilidade, as variações na expectativa de vida produziram alterações discretas nos APVP e APRP, enquanto as variações salariais impactaram proporcionalmente os valores monetários das perdas. A introdução de taxas de desconto de 3% e 5% reduziu de forma mais expressiva os valores monetários dos APTP e APRP. Ainda assim, em todos os cenários testados, os custos indiretos permaneceram elevados e superiores aos custos diretos das hospitalizações, reforçando a robustez da conclusão principal do estudo. Os resultados detalhados estão apresentados na Tabela Suplementar 2.
Em relação aos custos diretos das hospitalizações por covid-19, foram registrados 34.249 dias de internação no período, correspondendo a R$ 23.399.642,85. O maior gasto ocorreu em 2021, com R$ 12.104.629,99 e 17.717 dias de internação, seguido de 2020, com R$ 10.013.973,10 e 14.657 dias, e de 2022, com R$ 1.281.039,76 e 1.875 dias (Tabela 3).
Número de dias de internação e valor total em Reais (R$) das internações por covid-19 entre profissionais de saúde, segundo categoria ocupacional e ano. Brasil, 2020 a 2022
Os maiores custos hospitalares acumulados foram observados entre técnicos de enfermagem, com R$ 8.249.895,97 e 12.075 dias de internação, médicos, com R$ 6.219.362,58 e 9.103 dias, e enfermeiros, com R$ 3.588.277,74 e 5.252 dias. Juntas, essas três categorias responderam por aproximadamente 77,2% do custo total das internações.
Custos também relevantes foram identificados entre dentistas (R$ 1.261.226,33), farmacêuticos (R$ 1.201.786,09) e fisioterapeutas (R$ 628.563,50). Em contraste, categorias como técnico de laboratório, ACS, ACE e parteira apresentaram menores valores absolutos, refletindo menor volume de internações registrado no período.
A perda salarial associada aos dias de internação totalizou R$ 12.551.903,26 no triênio. O valor foi maior em 2021 (R$ 6.204.339,61), seguido de 2020 (R$ 5.692.277,74) e 2022 (R$ 655.285,91), acompanhando a distribuição temporal dos dias de internação (Tabela 4).
Número de dias de internação, salário diário estimado e perda salarial associada, em Reais (R$), às internações por covid-19 entre profissionais de saúde, segundo categoria ocupacional e ano. Brasil, 2020 a 2022
Os médicos apresentaram a maior perda salarial agregada no período, com R$ 5.839.392,44, seguidos pelos técnicos de enfermagem, com R$ 2.691.638,25, e pelos enfermeiros, com R$ 1.840.668,44. Entre as categorias de menor magnitude destacaram-se auxiliares de laboratório (R$ 21.722,73), ACS (R$ 38.478,24), ACE (R$ 15.580,94) e parteiras (R$ 15.983,31).
Discussão
Os resultados deste estudo evidenciam que a covid-19 produziu impacto expressivo sobre a morbimortalidade e sobre os custos associados ao trabalho em saúde no Brasil. No período analisado, foram registradas 3.698 internações e 11.231 óbitos entre profissionais de saúde. Entre os óbitos elegíveis para o cálculo dos APVP, estimaram-se 159.800,4 APVP, além de 72.031 APTP, 139.728,0 APRP, R$ 23.399.642,85 em custos diretos de hospitalização e R$ 12.551.903,26 em perda salarial associada aos dias de internação.
A concentração das internações entre 30 e 59 anos e dos óbitos em profissionais com 60 anos ou mais sugere perfis distintos de gravidade e desfecho, possivelmente influenciados pela idade, pela presença de comorbidades e pela intensidade da exposição ocupacional. Ainda assim, a maior carga de APVP, APTP e APRP concentrou-se entre 40 e 59 anos, indicando que a mortalidade prematura em idades economicamente ativas gerou perdas sociais e econômicas desproporcionais, padrão também observado em estudos que apontam maior vulnerabilidade dos profissionais de saúde durante os períodos de maior pressão assistencial1,20,21.
O predomínio de pessoas do sexo feminino entre os internados e do sexo masculino entre os óbitos, associado ao maior volume absoluto de APVP no sexo feminino, deve ser interpretado à luz da composição da força de trabalho em saúde no país. Considerando que as mulheres são a maioria nas categorias mais numerosas, especialmente a enfermagem e outras ocupações assistenciais, o maior número absoluto de perdas nesse grupo pode refletir, simultaneamente, o maior contingente ocupacional e a elevada exposição durante a pandemia3.
Os achados por categoria profissional reforçam a centralidade de técnicos de enfermagem, médicos e enfermeiros na dinâmica da pandemia entre trabalhadores da saúde. Esses grupos concentraram a maior parte das internações e dos óbitos e responderam, em conjunto, pela maior parcela dos custos diretos hospitalares. No caso das perdas de produtividade por mortalidade prematura, destacaram-se os profissionais de nível superior, excluídos os médicos, e os técnicos de enfermagem, enquanto os médicos apresentaram a maior perda salarial relacionada aos dias de internação, em razão do maior valor diário atribuído à categoria. Esse padrão é coerente com estudos nacionais e internacionais que evidenciaram maior exposição e maior carga de morbimortalidade em ocupações centrais da assistência à saúde2,21.
O pico de custos e perdas observado em 2021 é consistente com o período de maior pressão sobre os serviços de saúde no país. Nesse ano, registraram-se os maiores valores anuais de APVP, custos hospitalares diretos e perda salarial por internação, o que sugere que a combinação entre elevada transmissão viral, sobrecarga assistencial e maior gravidade dos casos ampliou, de forma simultânea, o impacto epidemiológico e econômico da pandemia. A literatura também descreve aumento importante da pressão sobre os serviços de saúde e sobre os trabalhadores em momentos de maior circulação viral e agravamento dos casos1,21.
A heterogeneidade observada entre as unidades da federação, com concentração de internações e óbitos em estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, indica que a carga da covid-19 entre profissionais de saúde acompanhou, ao menos em parte, a distribuição territorial da rede assistencial, do contingente de trabalhadores e da intensidade da circulação viral. Esse padrão reforça a importância de estratégias de proteção à força de trabalho sensíveis às desigualdades regionais e à capacidade de resposta dos serviços em diferentes contextos3.
Sob a perspectiva da avaliação econômica, os resultados confirmam que os custos associados à mortalidade prematura e à perda de produtividade superam amplamente os custos diretos hospitalares. Essa diferença evidencia que o ônus econômico da pandemia não se restringiu ao financiamento da assistência, mas alcançou de forma intensa a reposição e a sustentabilidade da força de trabalho em saúde. Desse modo, análises restritas ao custo assistencial tendem a subdimensionar o impacto real de emergências sanitárias sobre sistemas de saúde dependentes de trabalho especializado, em consonância com estudos que demonstraram maior peso relativo dos custos indiretos em diferentes contextos nacionais7,20,22,23.
A opção pelo método do capital humano mostrou-se coerente com o propósito de dimensionar o impacto social e econômico da perda de trabalhadores da saúde. Embora abordagens alternativas, como o custo de fricção, produzam estimativas mais conservadoras, o método adotado permite captar de forma mais abrangente as perdas potenciais em contextos de elevada demanda assistencial e necessidade de força de trabalho qualificada. Nessa mesma direção, a análise de sensibilidade demonstrou que, mesmo nos cenários mais conservadores, os custos indiretos permaneceram elevados e superiores aos custos diretos das hospitalizações, reforçando a robustez da principal conclusão do estudo. Esse comportamento é compatível com achados da literatura internacional sobre carga econômica da covid-19, especialmente quando se consideram mortes prematuras e perda de produtividade7,20,22.
Os resultados também têm implicações relevantes para a formulação de políticas públicas. Medidas de prevenção, proteção ocupacional, dimensionamento adequado de pessoal, disponibilidade contínua de EPI, vigilância em saúde do trabalhador e apoio psicossocial podem reduzir não apenas o adoecimento e a mortalidade, mas também perdas econômicas expressivas associadas à interrupção do trabalho e à morte precoce de profissionais essenciais. Nesse sentido, a proteção da força de trabalho em saúde constitui dimensão estratégica da resposta sanitária e da resiliência dos sistemas de saúde3,24.
Algumas limitações devem ser consideradas na interpretação dos achados. Por se tratar de estudo baseado em dados secundários, as estimativas estão sujeitas à incompletude, ao sub-registro e a inconsistências de preenchimento, especialmente em variáveis como ocupação, o que pode ter levado à subestimação de eventos e custos. Além disso, a utilização de bases públicas e anonimizadas impossibilitou a realização de linkage entre os registros do SIM, do Sivep-Gripe e do SIH/SUS, impedindo o pareamento individual dos casos e limitando a reconstrução de trajetórias de adoecimento, hospitalização e óbito.
Deve-se considerar, ainda, que os APVP dependem dos parâmetros de expectativa de vida adotados e, por definição, excluem os óbitos ocorridos acima desse limite, razão pela qual o número de mortes incluídas nesse cálculo é inferior ao total de óbitos observados no SIM. Adicionalmente, não foram contemplados custos pós-alta, sequelas de longa duração, sofrimento psíquico, repercussões familiares e outras dimensões intangíveis ou de longo prazo da pandemia, o que indica que o impacto econômico e social da covid-19 sobre os profissionais de saúde pode ser ainda maior do que o estimado neste estudo25,26.
Conclusão
A covid-19 impôs elevada carga epidemiológica e econômica à força de trabalho em saúde no Brasil, produzindo efeitos que extrapolaram o âmbito assistencial e incidiram sobre a sustentabilidade do sistema de saúde. Os achados demonstram que o adoecimento, as hospitalizações e os óbitos entre profissionais de saúde configuram expressão concreta de desigualdades e vulnerabilidades relacionadas ao processo e às condições de trabalho, afirmando a centralidade da saúde do trabalhador na compreensão dos impactos da pandemia. Desse modo, a proteção da força de trabalho em saúde não deve ser tratada apenas como medida contingencial diante de crises sanitárias, mas como eixo estruturante das políticas de saúde do trabalhador, da gestão do trabalho e da organização dos serviços. Fortalecer ações de vigilância, prevenção, proteção e cuidado dirigidas a esses trabalhadores é condição estratégica para a resiliência do SUS e para a preparação frente a futuras emergências em saúde pública.
Supplementary Materials
Apêndice
Referências
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Informações sobre trabalho acadêmico:
Artigo baseado na tese de doutorado, intitulada “Mortalidade e custos econômicos da Covid-19 entre profissionais da saúde no Brasil, 2020-2022”, defendida pela autora Flávia Nogueira e Ferreira de Sousa no Programa de Pós-graduação em Medicina Tropical da Universidade de Brasília, em 30 de junho de 2025.
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Disponibilidade dos dados:
Os dados utilizados neste estudo são secundários, públicos e anonimizados. Os registros foram obtidos a partir das bases do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS) e do OpenDataSUS, cujos links de acesso e datas de consulta estão informados na lista de referências do manuscrito.
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Declaração sobre uso de Inteligência Artificial:
Durante a elaboração do artigo, foi utilizada a ferramenta de inteligência artificial ChatGPT versão 5.5 Thinking, com o objetivo de revisão de linguagem; tradução; revisão de análise dos dados e sugestões metodológicas.
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Apresentação do estudo em evento científico:
Os autores informam que o estudo não foi apresentado em evento científico.
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Financiamento:
Os autores declaram que o estudo não foi subvencionado.
Editado por
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Editora responsável:
Leila Posenato Garcia https://orcid.org/0000-0003-1146-2641 Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho – FUNDACENTRO
Os dados utilizados neste estudo são secundários, públicos e anonimizados. Os registros foram obtidos a partir das bases do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS) e do OpenDataSUS, cujos links de acesso e datas de consulta estão informados na lista de referências do manuscrito.


Fonte: Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) e Sistema de Informação da Vigilância Epidemiológica da Gripe (Sivep-Gripe).