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Anais Brasileiros de Dermatologia

On-line version ISSN 1806-4841

An. Bras. Dermatol. vol.79 no.3 Rio de Janeiro May/June 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962004000300008 

CASO CLÍNICO

 

Halo nevo spilus*

 

 

Flávio Barbosa LuzI; Beatriz França da MataII; Mayra Carrijo RochaelIII

ISócio Efetivo SBD/ SBCD; Mestre em Dermatologia - UFF; Doutor em Dermatologia - UFRJ; Responsável pela Disciplina de Dermatologia Cirúrgica e Oncologia Cutânea - PGRJ/IPGMCC
IIEspecialista em Dermatologia pela UFF
IIISócia Colaboradora SBD; Professora Adjunta do Departamento de Patologia da UFF; Doutora em Anatomia Patológica - UFF; Pós-Doutorado em Dermatologia - A. B. Ackermann - Institute for Dermatopathology - Thomas Jefferson University

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Os autores descrevem o caso de paciente de 15 anos que apresenta um componente juncional de seu nevo spilus envolto por halo acrômico na coxa direita. O mecanismo imunológico constante no fenômeno halo e a resposta imune ao melanoma estão intimamente relacionados. Aparentemente, o fenômeno halo representa uma reação imunológica mediada por células contra um antígeno desconhecido presente nas lesões melanocíticas. Há também presença de anticorpos nessa reação.

Palavras-chave: imunidade; melanoma; nevo pigmentado


 

 

INTRODUÇÃO

O halo nevo é fenômeno relativamente comum, que ocorre sobretudo em adolescentes, em especial no dorso, e pode ser múltiplo. Sua evolução é característica: um nevo melanocítico preexistente é circundado por halo despigmentado que gradualmente desaparece com o nevo. Na tabela 1 observa-se essa progressão do ponto de vista histopatológico. Frank e Cohen1 relataram que pelo menos 50% dos halos nevos desaparecem espontaneamente. As áreas de despigmentação podem permanecer por meses ou anos, bem como repigmentar totalmente.2,3

A malignização das lesões do nevo spilus é conhecida. Foram encontrados descritos na literatura 15 casos de melanoma oriundos de lesões dessa natureza.4-18

O nevo spilus é um tipo especial de nevo melanocítico congênito. Alguns autores crêem que nevos melanocíticos pequenos apresentam risco aumentado de evolução para melanoma. Tal risco de malignização aumenta após a puberdade. Estima-se entre 0,8 e 4,9% a probabilidade cumulativa em pacientes com mais de 60 anos.19,20

 

RELATO DE CASO

Adolescente de 15 anos, parda, estudante, solteira apresentando desde a infância uma mácula hipercrômica de limites precisos, porém irregulares, localizada na face posterior da coxa direita (Figura 1). Um exame mais minucioso evidenciou máculas puntiformes enegrecidas na superfície da lesão. Há seis meses notou o surgimento de uma mácula acrômica numular de limites bem definidos no interior da lesão. O exame histopatológico mostrou tratar-se de uma reação tipo nevo halo de Sutton sobre um nevo juncional envolto por lentigo simples.

 

 

DISCUSSÃO

A reação tipo halo nevo é caracterizada clinicamente pelo surgimento de mácula acrômica em torno de lesão melanocítica tumoral, assemelhando-se a uma mancha de vitiligo. Do ponto de vista histopatológico, essa reação é formada por infiltrado mononuclear ao redor de células névicas, as quais vão sendo progressivamente destruídas.

Em l952, Ito e Hamada19 descreveram o nevo spilus como uma mácula castanho-clara de limites nítidos e irregulares com pontos enegrecidos em seu interior. Histopatologicamente, a área castanho-clara corresponde a um lentigo simples, e os pontos mais escuros a nevos juncionais ou compostos. O nevo spilus é uma lesão melanocítica congênita. A lesão costuma surgir no primeiro ano de vida, e os pontos mais escuros entre os seis e os 39 anos de idade.

Nessa reação vitiligóide tipo halo nevo de Sutton sobre uma lesão de nevo spilus não há sinais histológicos de atipia. Tal achado pode representar tanto uma resposta eficaz contra um melanoma bem inicial quanto um forte argumento contra a hipótese de esse tipo de resposta significar um mecanismo de defesa contra um processo de malignização.

A presença de mecanismos imunológicos na patogênese do halo nevo pode ser evidenciada por dois fatores: infiltrado celular mononuclear envolvendo progressivamente as células névicas em degeneração e a presença de anticorpos direcionados aos antígenos que reagem com células névicas e melanócitos in vitro.21

A imunidade mediada por células T no desenvolvimento do halo nevo pode ser comprovada por estudos imuno-histoquímicos, os quais revelam que a maioria dos linfócitos do infiltrado é derivada da linhagem linfóide T, estimando que, em sua maior parte, sejam células T CD8+.22

As células natural killer foram encontradas em pequenas quantidades, e linfocinas por elas ativadas não têm muita influência na citotoxicidade dos melanócitos no vitiligo,23 permitindo supor que as mesmas não estejam envolvidas em reações imunes que levam à despigmentação.

Embora nenhuma demonstração direta de morte dos melanócitos pelas células efetoras presentes no halo tenha sido observada, a abundância de células apresentadoras de antígeno no nevo em regressão e a presença de linfócitos T no local de despigmentação sugerem a participação dessas células no fenômeno halo. Dentro desta última população de células, as evidências apontam para envolvimento de células T CD8+ como importantes agentes destruidores de nevos melanocíticos. Possíveis fatores deflagradores da migração e ativação de linfócitos em nevos aparentemente sem alterações permanecem inexplicados.21 Mooney et al.,24 estudando 142 halos nevos, observaram que o fenômeno de despigmentação ocorre numa variedade de tipos de nevos histologicamente atípicos. Esse estudo demostra que pode haver um amplo espectro de atipia entre os halos nevos, sendo que naqueles com intensa atipia pode ser difícil sua diferenciação do raro fenômeno halo do melanoma maligno.

O estudo do fenômeno halo no melanoma é de fundamental importância para o entendimento de sua regressão, bem como daquela do halo nevo. Copeman e Eliot25 evidenciaram a presença de anticorpos contra componentes citoplasmáticos de células de melanoma em pacientes com halo nevo em involução. Eles concluíram que anticorpos circulantes contribuem para a ocorrência do halo nevo e que tal fato sugere que a reação vitiligóide possa significar uma rejeição do organismo a um melanoma inicial que esteja se desenvolvendo sobre uma lesão névica. Grispan et al.26 também sugerem que esse fenômeno ocorra sobre lesões displásicas de nevos spilus.

A tirosinase é um auto-antígeno em potencial envolvido na resposta contra melanócitos no vitiligo auto-imune27 e células malignas do melanoma.28 Outro estudo comprova que em ambas as doenças ocorre produção de anticorpos devida aos antígenos comuns aos melanócitos e melanoma.29 Como bem conhecido na prática clínica, anticorpos direcionados contra o melanoma são citotóxicos também para melanócitos normais, podendo desencadear lesões de vitiligo em pacientes com melanoma.

Apesar de existir relação entre a despigmentação do halo nevo e a produção de anticorpos contra células névicas, a regressão do nevo não ocorre simultaneamente com o surgimento de anticorpos circulantes reagentes contra o citoplasma das células do melanoma. Krebs et al.30 sugeriram que a citotoxicidade imunologicamente mediada destruiria células névicas que, por sua vez, produziriam anticorpos. A lesão da célula alvo por linfócitos T citotóxicos parece ser o evento primário na formação do halo nevo.

Após estudar 46 casos de nevos halo e melanomas em regressão, baseando-se em aspectos imuno e histopatológicos, Campos31 concluiu que o fenômeno halo aparenta ser determinado por antígenos que não especificam o tipo nem o caráter benigno ou maligno das lesões, uma vez que o halo nevo, o melanoma e os melanócitos normais compartilham alguns dos alvos moleculares responsáveis pelo fenômeno de regressão.

Os autores relatam o caso de uma paciente com nevo spilus no qual foi observado fenômeno halo clínica e histopatologicamente. A possibilidade de reação auto-imune contra células atípicas ou mesmo típicas presentes nessas lesões, à semelhança do que ocorre no melanoma, tem sido apresentada por alguns autores, embora sua causa permaneça inexplicada.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência
Flávio Barbosa Luz
Rua Desembargador Izidro, 28 / 606 - Tijuca
20521-160 Rio de Janeiro RJ
Tel.: (21) 2298-2013 / 2570-5841
E-mail: flavioluz@dermatologista.net

Recebido em 07.01.2002
Aprovado pelo Conselho Consultivo e aceito para publicação em 05.10.2002

 

 

* Trabalho realizado nos serviços de Dermatologia e Anatomia Patológica da Universidade Federal Fluminense-UFF.