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Anais Brasileiros de Dermatologia

Print version ISSN 0365-0596

An. Bras. Dermatol. vol.85 no.2 Rio de Janeiro Mar./Apr. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962010000200018 

IMAGENS EM DERMATOLOGIA

 

Diagnóstico do tumor glômico pela dermatoscopia do leito e da matriz ungueal

 

 

Laura de Sena Nogueira MaeharaI; Eugenia Maria Damasio OheII; Mauro Yoshiaki EnokiharaIII; Nilceo Schwery MichalanyIV; Sergio YamadaIV; Sergio Henrique HirataIII

IResidente do 3º ano da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) - São Paulo (SP), Brasil
IIEspecialista da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) - São Paulo (SP), Brasil
IIIDoutor pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) - São Paulo (SP), Brasil
IVMestre, docente da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) - São Paulo (SP), Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

A cirurgia é o tratamento definitivo para os tumores glômicos. Algumas vezes, esse procedimento pode representar um desafio, pois, apesar de ser um tumor bem delimitado, a sua visualização pode ser difícil. O uso da dermatoscopia do leito e da matriz ungueal facilita o diagnóstico e auxilia a localização e delimitação do tumor. Trata-se de método simples e de baixo custo que não implica risco adicional ao paciente que irá se submeter a um procedimento cirúrgico.

Palavras-chave: Dermatoscopia; Doenças da unha; Tumor glômico


 

 

Durante muito tempo, alterações ungueais foram relegadas a segundo plano por médicos de várias especialidades. O surgimento de um crescente interesse no diagnóstico e tratamento dos distúrbios ungueais1 transformou uma área antes negligenciada por clínicos e pesquisadores em um campo de conhecimento atraente e obrigatório para os dermatologistas.

Os tumores glômicos correspondem a 1-5% dos tumores das partes moles das mãos. Trata-se de hamartomas benignos dolorosos e com sensibilidade aumentada ao frio. Originam-se do aparato mioarterial normal e são compostos por uma arteríola aferente e canais vasculares com endotélio, rodeados por células cuboides. 2,3 Aproximadamente 75% dos tumores glômicos localizam-se nas mãos, particularmente, no aparelho ungueal. Apresentam-se como nódulos róseo-azulados de localização subungueal e raramente levam a alterações da cor ou deformidade da lâmina ungueal.

O diagnóstico do tumor glômico faz-se através de exames clínicos e de imagem.

Fazem parte da análise clínica avaliações realizadas mediante as seguintes manobras:2

• Teste do alfinete de Love (Love’s pin test): possibilita a detecção da dor localizada na lesão, sendo positivo se o paciente retirar o dedo em consequência da dor;

• Teste de Hildreth: é a repetição do teste anterior após a instalação de torniquete; nesse caso, a dor está ausente;

• Teste de sensibilidade ao frio: aumenta a intensidade da dor com a diminuição da temperatura;

• Transiluminação;

• Dermatoscopia da lâmina ungueal.

Tumores glômicos, em geral, são pequenos e raramente palpáveis, o que faz com que os exames clínicos sejam insuficientes para determinar a sua localização precisa.4,5,6

Os exames de imagem auxiliam na localização exata do tumor e na avaliação pré-operatória de seu tamanho, dado importante para a escolha da abordagem cirúrgica.7 O ultrassom aponta lesões comumente hipoecogênicas de até 3mm de diâmetro, porém é exame operador-dependente.5 A ressonância magnética é mais sensível e evidencia a extensão da lesão. Sua desvantagem, além do custo, é a baixa especificidade (50%, produzindo imagens semelhantes em casos de cisto mucoide, hemangioma, inclusão epitelial e tumor de células gigantes de tendão). 6,8 A principal vantagem é a alta sensibilidade (90%), especialmente, se utilizada alta resolução, que detalha as características do tumor e permite o diagnóstico enquanto ainda pequeno.6,7

O exame dermatoscópico da lâmina ungueal pode evidenciar a presença de estruturas vasculares, porém, algumas vezes, estas podem ser discretas ou ausentes (Figura 1).

 

 

Uma vez feito o diagnóstico, a cirurgia de remoção do tumor é o tratamento definitivo, com alívio imediato da dor no pós-operatório. O procedimento-padrão é a excisão direta.2 Existem técnicas alternativas que envolvem incisão lateral, que permite a exposição do tumor sem a avulsão da lâmina ungueal, reduzindo a chance de deformidade no pós-operatório, porém aumentando a de ressecção incompleta do tumor.2,5

O tratamento dos tumores glômicos pode representar um desafio, pois, apesar de ser um tumor bem delimitado, a sua visualização pode ser difícil, algumas vezes. A recidiva costuma ocorrer em semanas e é consequente à incompleta excisão tumoral que ocorre, não raro, devido à dificuldade de se distinguir o tecido normal do tecido doente.

Para contornar essas dificuldades, sugerimos a dermatoscopia do leito e da matriz ungueal,9,10 previamente à exérese do tumor. Trata-se de procedimento feito durante o intraoperatório, após a realização de bloqueio anestésico e avulsão cuidadosa da lâmina ungueal. Recomenda-se o uso de torniquete para impedir sangramentos que possam dificultar a visualização das estruturas a serem examinadas. O torniquete não deve ser muito apertado, pois a isquemia pode impedir a visualização das estruturas vasculares. Utilizando o dermatoscópio de luz polarizada, é possível o exame de todo o leito e matriz ungueal sem contato com o campo cirúrgico, preservando-se as condições de assepsia.

Essa técnica auxilia a localização do tumor e a visualização do padrão vascular da lesão (Figura 2), sugerindo o diagnóstico de tumor glômico. Especialmente quando o tumor não é encapsulado, o uso da dermatoscopia facilita a delimitação das margens cirúrgicas no intraoperatório (Figura 3) e permite que se visualize, após a exérese da lesão, se existem outros focos macroscópicos residuais do tumor no aparelho ungueal (Figura 4).

 

 

 

 

 

 

A realização da dermatoscopia não substitui o exame histopatológico, que sempre deve ser feito. O estudo do leito e da matriz ungueal revela novos aspectos não observados quando a lâmina ungueal se interpõe entre a lesão e o dermatoscópio. Trata-se de método simples e de baixo custo que auxilia o diagnóstico e a exérese da lesão, não implicando risco adicional ao paciente que irá se submeter a um procedimento cirúrgico.

 

REFERÊNCIAS

1. Scher RK. Nail disorders - one of dermatology's last frontiers. Dermathol Ther. 2007;20:1-2.         [ Links ]

2. McDermott EM, Weiss AP. Glomus tumors. Hand Surg. 2006;31:1397-400.         [ Links ]

3. Baran R, Richert B. Common nail tumors. Dermatol Clin. 2006;24:297-311.         [ Links ]

4. Takemura N, Fujii N, Tanaka T. Subungual glomus tumor diagnosis based on imaging. J Dermatol. 2006;33:389-93.         [ Links ]

5. Chen SH, Chen YL, Cheng MH, Yeow KM, Chen HC, Wei FC. The use of ultrasonography in preoperative localization of digital glomus tumors. Plast Reconstr Surg. 2003;112:115-9.         [ Links ]

6. Al-Qattan MM, Al-Namla A, Al-Thunayan A, Al-Subhi F, El-Shayeb AF. Magnetic resonance imaging in the diagnosis of glomus tumours of the hand. J Hand Surg Br. 2005;30:535-40.         [ Links ]

7. Drapé JL, Idy-Peretti I, Goettmann S, Guérin-Surville H, Bittoun J. Standard and high resolution magnetic resonance imaging of glomus tumors of toes and fin gertips. J Am Acad Dermatol. 1996;35:550-5.         [ Links ]

8. Van Ruyssevelt CE, Vranckx P. Subungual glomus tumor: emphasis on MR angiography. AJR Am J Roentgenol. 2004;182:263-4.         [ Links ]

9. Hirata SH, Yamada S, Almeida FA, Enokihara MY, Rosa IP, Enokihara MM, et al. Dermoscopic examination of the nail bed and matrix. Int J Dermatol. 2006;45:28-30.         [ Links ]

10. Hirata SH, Yamada S, Almeida FA, Tomomori-Yamashita J, Enokihara MY, Paschoal FM, et al. Dermoscopy of the nail bed and matrix to assess melanonychia striata. J Am Acad Dermatol. 2005;53:884-6        [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência:
Sergio Henrique Hirata
Departamento de Dermatologia
Universidade Federal de São Paulo
Rua Borges Lagoa 508 Vila Clementino
04038 001 São Paulo, SP - Brasil

Recebido em 22.01.2010.
Aprovado pelo Conselho Consultivo e aceito para publicação em 29.01.2010.
Conflito de interesse: Nenhum
Suporte financeiro: Nenhum

 

 

* Trabalho realizado Departamento de Dermatologia da Universidade Federal de São Paulo