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Revista Brasileira de Educação

Print version ISSN 1413-2478

Rev. Bras. Educ.  no.21 Rio de Janeiro Sept./Dec. 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-24782002000300015 

RESENHAS

 

 

Marcus Vinicius da Cunha

Universidade de São Paulo Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto

 

 

MOREIRA, Carlos Otávio Fiúza. Entre o indivíduo e a sociedade: um estudo da filosofia da educação de John Dewey. Bragança Paulista: EDUSF, 2002.

O livro de Carlos Moreira é o resultado das pesquisas por ele desenvolvidas no curso de doutorado da PUC-Rio, orientado por Zaia Brandão. Suas motivações para abordar o assunto inscrevem-se no âmbito da retomada dos estudos sobre o pragmatismo, sobre as idéias deweyanas, sobre o movimento da Escola Nova e sobre o pensamento de Anísio Teixeira, o principal discípulo de John Dewey no Brasil. Essa retomada teve início em torno de 1990, após praticamente duas décadas em que os referidos temas estiveram mergulhados em profundo esquecimento na esfera da pesquisa e da reflexão teórica na área da educação.

Na Introdução do livro, o próprio Carlos Moreira analisa esse fato, situando-o no contexto político que envolveu nossa vida acadêmica nos anos de 1970 e 1980. Naquela época, as proposições escolanovistas em geral e, em especial, as teses deweyanas e anisianas eram vistas como impotentes, se comparadas à força do pensamento marxista, para afrontar o pensamento educacional hegemônico nos tempos da ditadura militar pós-64. Pelo raciocínio de então, perguntava-se: sendo Dewey um filósofo norte-americano, como não identificá-lo com o imperialismo, com o american way of life, com o liberalismo que em nosso meio tornou-se sinônimo de conservadorismo, diferentemente da conotação radical que possui nos Estados Unidos e, por extensão reducionista, com o positivismo, com o individualismo predador e com o oportunismo político?

Contexto e contextualização de texto são as chaves para compreender o livro. Isto se nota claramente pelos parâmetros cronológicos adotados, os quais acompanham os marcos da carreira acadêmica de John Dewey, iniciada em 1884, quando o pensador ingressou na Universidade de Michigan. Dez anos depois, em 1894, Dewey transferiu-se para a Universidade de Chicago, na qual permaneceu até 1904, seguindo finalmente para a Universidade de Colúmbia. Embora traçando relações com os demais períodos, o trabalho de Moreira enfoca especialmente a produção intelectual e as atividades desenvolvidas por Dewey em Chicago, onde ele e seus colaboradores criaram a Escola Laboratório. Moreira dedica particular atenção aos textos deweyanos escritos e publicados naquela época, englobando também alguns trabalhos posteriores, a exemplo de Como pensamos (1910) e Democracia e educação (1916).

Considerando que a obra de Dewey é usualmente classificada de acordo com o calendário de sua publicação Early works (1882 a 1889), Midlle works (1889 a 1924) e Later works (1925 a 1953) , compreende-se que Moreira posicione suas análises no segundo marco dessa periodização,
delimitando um espaço de tempo no interior desse período. Trata-se do momento em que, já tendo assimilado as influências de Charles Peirce (1839-1914), William James (1842-1910) e George Mead (1863-1931), Dewey começa a elaborar sua própria linha de reflexão e ação. Moreira caracteriza o pensamento deweyano que então se articula como integrante da tradição sociológica que inclui autores como Durkheim, Elias e Bourdieu, cada qual com sua identidade, é claro, mas todos eles envolvidos no mesmo projeto que consiste em elucidar as relações entre indivíduo e sociedade na educação, tema que, segundo palavras de Moreira, tornou-se "uma questão crucial, um ponto de cruzamento ou interseção de diferentes saberes sobre o homem."

Eis a razão do título do livro, Entre o indivíduo e a sociedade, pois Carlos Moreira percebe que a abordagem deweyana da socialização consiste em fundir um determinado entendimento da sociedade com uma certa concepção sobre o indivíduo. Diferentemente de Durkheim, Dewey não dicotomiza os campos da sociologia e da psicologia, como se ao primeiro coubesse estudar os fatos sociais e ao segundo restasse compreender o psiquismo individual. Desenvolvimento individual e articulação da ordem social formam um só processo, integrando-se ambos no escopo da visão política de Dewey, enfaticamente centrada na democracia como "forma de vida" que requer instituições escolares capazes de exercer a "modelagem social". Cabe à escola efetivar a socialização, é certo, mas deve fazê-lo por intermédio de um destacado senso ético.

O primeiro capítulo do livro é intitulado "John Dewey: um indivíduo em uma sociedade". Nele, nota-se claramente a competência de Carlos Moreira na arte de contextualizar. O autor desenha o contexto de formação das idéias de John Dewey no cenário da vida norte-americana desde meados do século XIX. Amparado em estudos de biógrafos e comentadores da obra do filósofo, somos levados a penetrar no ambiente intelectual e social vivido por Dewey desde a infância em Burlington, pequena cidade do estado de Vermont, onde nasceu em 1859, até os primeiros anos de sua carreira acadêmica e sua ida para Chicago. Dentre os autores que compuseram a trajetória intelectual de Dewey, merecem destaque Darwin e Hegel, bem como Kant, que foi tema da tese com a qual obteve o título de Doctor of Philosophy pela Universidade Johns Hopkins. Conforme observa Moreira, esse estudo não foi publicado e, para nosso infortúnio, não restaram sequer indicações claras sobre o seu conteúdo.

"Pensando na prática: a Escola Laboratório da Universidade de Chicago" é o título do segundo capítulo, pelo qual Carlos Moreira nos coloca diante das primeiras experiências educacionais de Dewey, as quais deram início à reflexão sistemática que desenvolveu dali por diante. Foi em Chicago que Dewey, insatisfeito com os rumos da filosofia de sua época, dispôs-se a elaborar um pensamento sistematizado voltado para a prática, em estreito intercâmbio com a prática, o que implicou construir uma inovadora filosofia da educação. Moreira descreve e analisa com acuidade o panorama das idéias educacionais daqueles tempos, bem como as experiências escolares em curso, no intuito de situar as indagações e as primeiras respostas esboçadas por Dewey no quadro da vida social e cultural norte-americana. Desde então, nota-se que o filósofo buscava um caminho que distanciasse a escola dos padrões em vigor, ao mesmo tempo em que a mantivesse apartada do laissez-faire tipicamente inspirado no darwinismo social. Foi com a prática da Escola Laboratório que Dewey traçou a noção de que indivíduo e sociedade compõem um só e mesmo processo, idéia que se consolidou na aliança entre o desenvolvimento individual e a formação de hábitos de cooperação social.

O terceiro capítulo do livro chama-se "Socialização e hábito". Nele, Moreira analisa a teorização elaborada por Dewey em três trabalhos fundamentais: Como pensamos e Democracia e educação, ambos já mencionados acima, e Natureza humana e conduta, publicado em 1922. Desses estudos, destaca-se a peculiar elaboração da noção de hábito, a qual significa, em Dewey, a criação de "disposições para uma ação mais fácil e eficaz numa dada direção", ou seja, a conversão da "experiência em algo aproveitável em outras oportunidades" conforme assinala Carlos Moreira. Assim, hábito não se identifica com rotina ou conduta mecanizada, mas sim com plasticidade, com capacidade para extrair da experiência atual elementos potencialmente norteadores de experiências futuras. A constituição do hábito se faz mediante o pensamento reflexivo, aquele que é aplicado à resolução de situações problemáticas, o que implica envolvimento do indivíduo com o ambiente social. Mais uma vez, Moreira retoma o tema central de seu livro, a relação indivíduo-sociedade, desta feita por intermédio da discussão da tarefa socializadora da escola no que diz respeito à formação de hábitos. Compete à escola propiciar situações objetivas de aprendizagem para que o educando aprenda a pensar, o que é sinônimo de aquisição de hábitos ou condutas flexíveis que o capacitem a envolver-se ativamente com seu meio social.

A última parte do livro discorre sobre dois temas centrais da filosofia deweyana, conforme expresso no título do quarto capítulo: "Ciência e democracia". Embora não desenvolva uma análise detida desses assuntos mesmo porque ambos já abordados ao longo do livro , Moreira os situa com clareza no âmago do pensamento de John Dewey e no contexto político e cultural da sociedade estadunidense, bem como no plano das representações sobre o avanço científico até então elaboradas. Merece destaque a exposição dos vínculos estabelecidos entre o pensamento reflexivo, a prática científica, a vivência democrática e a educação escolar, elementos que se associam na constituição da filosofia deweyana, uma filosofia que deseja "desviar a atenção do eterno para o futuro". Este é o sentido da utopia democrática, conforme formulada por Dewey.

O estudo de Carlos Moreira não esgota o tema a que se dedica. Esta, aliás, é uma das características dos bons trabalhos de pesquisa, como o que resultou no livro ora resenhado: eles delimitam um determinado campo de reflexões e, ao fazê-lo, abrem espaço para novas investigações. É o que faz Moreira: ao mesmo tempo em que elucida a filosofia de John Dewey e a distingue de caracterizações equivocadas, muito difundidas em nosso meio acadêmico, instiga o leitor a ir a Dewey e dar continuidade à reflexão ali iniciada. Desse modo, o livro Entre o indivíduo e a sociedade atua, bem ao gosto deweyano, como uma experiência intelectual que fornece subsídios para novas experiências. Tanto é assim que, na seção de anexos, Moreira nos brinda com dois ensaios de sua autoria: O Pragmatismo e a Escola de Chicago e Norbert Elias e John Dewey: uma pequena aproximação. Ao invés de colocar um ponto final em seu texto, tão bem elaborado e de agradável leitura, Moreira nos incita a continuar dialogando com Dewey.

O livro de Carlos Moreira serve de antídoto contra as diversas formas de desqualificação apressada e inconsistente do pensamento deweyano e das idéias escolanovistas em geral. Seu trabalho de pesquisa é a clara demonstração de que só aprimoramos nosso entendimento sobre a história e a filosofia da educação quando nos dedicamos à investigação cuidadosa, metódica e paciente das fontes no caso, os textos de Dewey , bem como à contextualização dessas mesmas fontes em sua época, diante da cultura intelectual e política de seu tempo.