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Revista Brasileira de Educação

Print version ISSN 1413-2478On-line version ISSN 1809-449X

Rev. Bras. Educ. vol.13 no.38 Rio de Janeiro May/Aug. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-24782008000200018 

RESENHAS

 

 

Rodrigo Barchi

Mestre em educação pela Universidade de Sorocaba e especialista em educação ambiental pela Universidade de São Paulo. E-mail: rbarchicore@uol.com.br

 

 

GALLO, Silvio. Pedagogia libertária: anarquistas, anarquismos e educação. São Paulo: Imaginário; Manaus: Editora da Universidade Federal do Amazonas, 2007. 268p.

Outra vida, outra militância. Um pensamento independente e de solidariedade intelectual. Na apresentação de seu novo trabalho, Pedagogia libertária: anarquistas, anarquismos e educação, lançado pela editora paulista Imaginário, especializada em livros libertários, e pela Editora da Universidade Federal do Amazonas, Silvio Gallo nos convida a contatos e leituras que se possibilitem como alternativas aos pensamentos hegemônicos na educação. Afirma que escolheu trabalhar com as perspectivas anarquistas justamente por elas não se aterem aos pensamentos políticos marxistas e nem às práticas do movimento estudantil dominantes nos anos de 1980, período de formação filosófica do autor.

Esse livro é uma coletânea de textos escritos durante os anos de 1990 e nos primeiros anos de 2000, dispersos em revistas e capítulos de livros, que dizem respeito a uma perspectiva libertária em educação.

Sílvio Gallo já havia abordado a temática libertária em dois trabalhos anteriores: Pedagogia do risco (Papirus, 1995), baseada em sua dissertação de mestrado, no qual apresenta uma filosofia da educação anarquista sob a perspectiva do conceito de risco; e Educação anarquista: um paradigma para hoje (Editora da Universidade Metodista de Piracicaba, 1995), no qual mostra os principais pontos de sua tese de doutorado, procurando construir uma filosofia anarquista da educação.

No conjunto de textos aqui apresentados, Gallo nos traz, ao mesmo tempo, um tom acadêmico e um tom panfletário. Acadêmico pelas exigências conceituais que as perspectivas libertárias devem ter como reivindicatória de novas formas de convivência social e não submissa, resistente às ações dos agentes e órgãos hegemônicos. Panfletário pelo posicionamento político não alinhado às tendências dominantes, que convoca à ações imediatas e diretas.

A multiplicidade de diálogos que o autor faz com os pensadores das mais diversas áreas e períodos, principalmente a filosofia e a educação, durante os catorze anos que separam o artigo mais antigo (1992) e o artigo mais recente (2006), contribui para ampliar o leque de possibilidades de ações e perspectivas da educação libertária.

O livro tem os textos agrupados em quatro grandes categorias temáticas. O primeiro grupo apresenta quatro artigos que tratam dos conceitos e da filosofia da educação anarquista.

Em "Paradigma anarquista em educação", explica que o anarquismo tem quatro princípios geradores: a autonomia individual (como ação social baseada em cada um dos indivíduos); a autogestão social (como contrária a todo tipo de poder institucionalizado); o internacionalismo (a construção de uma sociedade libertária através da dissolução dos estados-nações) e a ação direta (sendo principais atividades a propaganda e a educação). O papel da educação está justamente na construção coletiva da liberdade, pela denúncia das injustiças e dos sistemas de dominação, além da criação de indivíduos desajustados, ou seja, aqueles que não se compatibilizam com o Estado e com a estrutura capitalista.

A educação libertária não se inclui nem entre concepções essencialistas nem entre materialistas, mas uma concepção própria, conforme o segundo texto, "Pedagogia libertária: princípios políticos e pedagógicos". Aqui também ocorre uma discussão intensa entre as idéias escolanovistas fundadas em Rosseau (cuja autogestão como meio de ensino, contribui somente para o lassez-faire capitalista absoluto) e as noções fundadas no anarquismo de Proudhon e Bakunin, cuja tendência é afirmar a autogestão em um meio heterogestionário, construindo a liberdade e não a percebendo como algo predeterminado.

Os conceitos de educação integral e politecnia estão no texto seguinte, "Politecnia e educação: a contribuição anarquista". Para dar conta das três dimensões da primeira, é necessário a união da aprendizagem com a educação na instrução literária e científica, combinada com a instrução industrial nas mais diversas técnicas, ou seja, a politecnia. Baseado nas idéias de Proudhon, nas experiências de Paul Robin (e o orfanato Prevóst) e de Sebastian Faure (no colégio La Ruche), Gallo propõe que os dois conceitos passem por profundas discussões, mas que não sejam banalizadas como diversas outras propostas educacionais.

Finalizando essa primeira parte sobre os conceitos filosóficos da educação libertária, o texto "Ética, ciência e educação na perspectiva anarquista" apresenta a contribuição do catalão Francisco Ferrer Y Guardia que, no começo do século XX, propôs a livre distribuição dos conhecimentos científicos como forma de construção social da liberdade. Rejeitava, assim, a idéia dos seus colegas positivistas, que também acreditavam que a ciência, por si própria, seria libertadora e formadora dos indivíduos.

Quatro textos compõem a segunda parte do livro, que trata das experiências históricas da educação libertária.

O primeiro é justamente sobre a experiência de Ferrer na Escola Moderna de Barcelona. Executado pelo governo espanhol em 1909, em razão de sua militância libertária, seu maior esforço foi divulgar e disseminar os conhecimentos científicos e o debate ético anarquista como forma de colaboração na construção social da liberdade.

Em "Limites de uma educação autogestionária: a experiência da pedagogia institucional", o autor traz uma intensa análise sobre o conceito de autogestão a partir das pesquisas de um grupo de psicossociólogos e educadores franceses nos anos de 1960, entre eles Georges Lapassade, Michel Lobrot e René Lourau. O autor alerta sobre alguns dos equívocos e riscos em torno desta idéia, como a geração de autoritarismo ou da abdicação da função do professor, e também de diferenças políticas entre membros dos grupos autogestionários e entre esses e outros grupos.

A experiência de Ferrer Y Guardia é retomada no artigo "Pedagogia libertária e ideologia: vias e desvios da liberdade", no qual é debatida a ação ideológica do Estado - mascaradora e mantenedora da exploração - nas escolas. Além de alertar que nenhum debate sobre educação libertária deve deixar de fora a experiência e a teoria desse pensador catalão, ele lembra também que autores anarquistas como Willian Goodwin, no fim do século XVIII, e Proudhon e Bakunin no século XIX, anteciparam as teorias crítico-reprodutivistas da segunda metade do século XX, as quais orientaram bastante as práticas nas escolas libertárias.

É com um pequeno texto panfletário, "Universidade libertária e utopia", que Gallo chama de crônica da esperança, que termina a segunda parte. Nele retoma idéias de Paul Robin e Ferrer e elabora o conceito de universidade libertária: local onde os estudantes são livres na construção de sua vida acadêmica, assim como os docentes são livres na formação e distribuição dos conhecimentos científicos, já que esses, em uma perspectiva anarquista, devem pertencer à comunidade, por ela ser justamente o principal objetivo da pesquisa acadêmica.

No terceiro bloco de textos, são analisadas as questões relativas ao ensino público, e como o anarquismo lida com elas.

O primeiro, "Educação pública como função do Estado" faz uma análise histórica, a partir de uma perspectiva libertária, das ações e intenções do Estado brasileiro em sua trajetória como mantenedor da educação pública. Afirma que, se em momentos anteriores, as escolas estatais tinham como uma das principais funções a promoção da nacionalidade e da submissão à pátria, nos dias atuais o sucateamento das escolas públicas é uma ação proposital, em favorecimento às iniciativas privadas.

No outro texto desse bloco (o mais recente de toda a coletânea), "Escola libertária e legislação autoritária", Gallo questiona, com Goodwin, a possibilidade de as escolas anarquistas poderem sobreviver em uma sociedade cujos sistemas públicos são de origem burguesa. E com a idéia de sociedades de controle, de Deleuze, discute a prática pedagógica libertária como sendo resistente - a partir de linhas de fuga singularizantes - à formação inquestionável de "bases comuns nacionais", cujas intenções evidentes são a uniformização do acesso aos saberes e a preparação somente para o mercado de trabalho.

No último bloco de textos, há uma leitura contemporânea dos princípios libertários básicos para a educação.

Em "Educação brasileira contemporânea em uma perspectiva libertária", questiona a necessidade ou não da existência do nacionalismo. A nação, constituidora de unidades lingüísticas, fronteiras territoriais e de indivíduos, precisa da educação para reafirmar constantemente conceitos tão abstratos quanto projeto nacional e laços de civismo. Mas, para isso, sucateia a educação e deixa os indivíduos à mercê da propaganda nacionalista veiculada pela mídia.

As contribuições de Michel Foucault (na construção teórica sobre as micropolíticas do poder e as resistências a ele imanentes); de Gilles Deleuze (suas análises sobre as sociedades de controle contemporâneas); e Jacques Ranciére (sobre o dissenso como real política entre diferentes, e o consenso como polícia geradora de uniformização) são trazidas no artigo "Anarquismo e filosofias da diferença", no qual Gallo propõe uma educação libertária como aquela que investe em singularização e práticas sociais de diferença (que não deve ser confundida com desigualdade social).

Para encerrar o livro, o texto inédito "Estúpida retórica: algumas considerações sobre risco, liberdade e educação", aborda de maneira rápida quase todos os conceitos já vistos nos outros artigos do livro: liberdade, funções da educação estatal, os debates das tendências anarquistas e escolanovistas (liberdade como fim ou meio), e sobre o risco. Aliás, o risco está primordialmente presente nas perspectivas libertárias, pois é somente o assumindo é que se assume a liberdade, podendo lançar-se a um horizonte aberto, de eventos ilimitados, não se prendendo às seguranças irresponsáveis da educação autoritária padrão estatal.

Com Gallo, podemos pensar, portanto que, se as propostas educativas hegemônicas instituídas constituem-se em um processo de subjetivação que fornece aos indivíduos um panorama social e os territorializa nesse padrão, fazendo-os aquilo que se espera deles. Sendo um mecanismo de construção heterônoma, a pedagogia libertária se quer como um processo de singularização, na qual o indivíduo constrói-se a si mesmo em diálogo ativo com os outros e com o meio, em um mecanismo autônomo que desterritorializa, na construção de territórios sempre novos.

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