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Estudos de Psicologia (Natal)

On-line version ISSN 1678-4669

Estud. psicol. (Natal) vol.8 no.3 Natal Sep./Dec. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-294X2003000300010 

ARTIGOS

 

A natureza motivacional dos valores humanos: evidências acerca de uma nova tipologia

 

The motivational nature of human values: evidence of a new typology

 

 

Valdiney V. Gouveia

Universidade Federal da Paraíba

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Este artigo apresenta uma tipologia nova dos valores básicos, fundamentada nas necessidades humanas. Tais valores representam teoricamente três critérios de orientação, cada um subdividido em duas funções psicossociais: pessoal (experimentação e realização), central (existência e suprapessoal) e social (interacional e normativa). Foram consideradas duas amostras diversificadas (N = 606). Esta tipologia foi testada em relação aos seguintes aspectos: (1) estrutura interna - uma análise de escalonamento multidimensional (MDS) permitiu visualizar os três critérios de orientação teorizados, e uma análise fatorial confirmatória comprovou a existência das suas respectivas funções psicossociais; (2) convergência com a teoria de Schwartz - uma MDS mostrou que as seis funções psicossociais e os dez tipos motivacionais de valores aparecem em diferentes regiões espaciais, porém podem ser interpretados nos mesmos termos; e (3) predição do grau de religiosidade - consistentemente, esta variável se correlacionou em sentido positivo e negativo, respectivamente, com os valores normativos e de experimentação. Em suma, esta tipologia não é incompatível com a que propõe Schwartz, referendando a natureza motivacional dos valores humanos. Não obstante, tem a vantagem de ser mais parcimoniosa, assumindo um menor número de valores básicos.

Palavras-chave: valores básicos; motivação; necessidades; religiosidade


ABSTRACT

This article presents a new typology of basic values, based on human needs. Such values were theorized to represent three criteria of orientation, each one divided in two psychosocial functions: personal (experiential and promotion), central (preservation and supra-personal), and social (interactional and normative). Data were obtained from two diverse samples (N = 606). This typology was tested regarding to: (1) internal structure - a multidimensional scaling (MDS) permitted viewing these three criteria of orientation, and a confirmatory factor analysis proved their corresponding psychosocial functions; (2) convergence to Schwartz' theory - a MDS showed that the six psychosocial functions and the ten motivational types of values appeared in different spatial regions, but they were interpreted in the same terms; and (3) prediction of religiosity degree - consistently, this variable was positively and negatively correlated with normative and experiential values, respectively. In brief, this typology was not incompatible with Schwartz' theory, and supports the motivational nature of human values. However, it is more parsimonious, assuming a reduced set of basic values.

Key words: basic values; motivation; needs; religiosity


 

 

A tentativa de identificar os valores humanos básicos não é recente. Nas últimas décadas vários autores têm usado o termo valores básicos para representar diferentes atributos dos valores (Chinese Culture Connection, 1987; Kluckhohn, 1951; Ros, Schwartz, & Surkis, 1999; Schwartz, 1994). Por exemplo, este pode se referir ao grau de generalização (valores culturais, valores universais) ou ao número de valores que são adotados pelos indivíduos. Também pode contemplar uma ênfase em processos básicos que representam (necessidades, motivos) ou indicar a existência de alguma ordem dimensional (tipos de valores, valores de primeira ou segunda ordem). No presente estudo os valores básicos compreendem um conjunto de 24 valores primários, que representam as necessidades humanas e as pré-condições para satisfazê-las. Eles são vistos como princípios-guia disponíveis para todos os seres humanos, mas que podem ser assumidos em magnitudes distintas, uma vez que emergem associados às experiências de socialização e dependem do contexto sócio-cultural de cada pessoa.

Este artigo discute uma tipologia nova dos valores, baseada nas necessidades humanas. Especificamente, apresenta evidências empíricas em relação a três aspectos que a apóiam: (a) a adequação da estrutura interna dos valores básicos; (b) sua convergência com a teoria proposta por Schwartz (Schwartz, 1992, 1994; Schwartz & Bilsky, 1987, 1990); e, finalmente, (c) a correlação dos valores com o grau de religiosidade das pessoas, dois construtos que têm sido relacionados em estudos prévios (Bilsky & Peters, 1999; Gouveia, Clemente, & Vidal, 1997; Rokeach, 1973; Schwartz & Huismans, 1995).

O estado da arte

As tipologias dos valores são tão antigas como o esforço inicial em conhecer estes princípios de orientação (Pepper, 1954; Spates, 1983). Recentemente, várias destas tipologias têm sido propostas (Braithwaite & Law, 1985; Chinese Culture Connection, 1987; Inglehart, 1990; Levy, 1990; Rokeach, 1973; Schwartz & Bilsky, 1987, 1990), mas alguns dos seus problemas fundamentais estão ainda sem uma completa solução.

Natureza e origem dos valores

Uma vez que os valores são usualmente definidos com referência a outros construtos, que têm significados próprios e bem definidos, é difícil reconhecer sua própria legitimidade (ver comentários de Rohan, 2000). Por exemplo, os valores têm sido considerados como tipos específicos de necessidades (Maslow, 1954), atitudes (Levy, 1990) e crenças (Rokeach, 1973), ou como uma combinação de crenças e concepções desejáveis (Schwartz & Bilsky, 1987), metas, necessidades e preferências (Dose, 1997). Porém, os valores precisam ser pensados com independência destes construtos; eles poderiam referir-se unicamente à sua origem ou a algum processo cognitivo subjacente.

É também comum encontrar interpretações equivocadas quando se trata dos conteúdos dos valores ou suas concepções, que são geralmente identificados como propriedades valiosas. Nesta perspectiva, família, dinheiro, casa, trabalho, democracia e patriotismo, por exemplo, seriam todos considerados como valores, como se comprova algumas vezes na literatura (Chinese Culture Connection, 1987; Lee, 1991; Pepper, 1954). Contrariamente e desde a presente perspectiva, os valores não são relacionados a objetos específicos; eles perpassam situações, idéias ou instituições, e o número total destes é menor do que o das atitudes (Dose, 1997; Rokeach, 1973). É mais parcimonioso tratar com os valores como socialmente desejáveis (Kluckhohn, 1951), que servem de guia para os comportamentos das pessoas, reconhecendo que não são qualidades inerentes aos objetos.

Em geral, a maioria dos instrumentos elaborados para medir os valores não tem uma teoria específica subjacente que permita identificar sua origem (Braithwaite & Scott, 1991). Uma exceção é a tipologia de Inglehart (1990), que apesar de basear-se na teoria das necessidades de Maslow, limitou-se apenas a uma dimensão cultural bipolar: materialismo e pós-materialismo. Sua teoria não tem o propósito de comparar indivíduos ou predizer condutas sociais; ela objetiva comparar culturas. Alguns autores tentaram justificar porque escolheram certos valores para compor suas medidas, porém o fizeram baseados em abordagens empíricas ou intuitivas (Braithwaite & Law, 1985; Chinese Culture Connection, 1987; Rokeach, 1973; Schwartz, 1992). Pelo menos duas conseqüências negativas podem emergir da falta de uma teoria específica: (1) a controvérsia sobre a adequação da lista de valores proposta, com a sugestão a posteriori para incluir valores identificados em uma amostra específica (Braithwaite & Law, 1985; Lee, 1991); e (2) a identificação de novas dimensões ou fatores definidos pelas respostas aos itens ou propostos por especialistas (Chinese Culture Connection, 1987).

Poderia ser mais conveniente identificar as necessidades humanas como sendo a fonte dos valores (Kluckhohn, 1951; Maslow, 1954; Pepper, 1954). Rokeach (1973) sugere que "os valores são representações cognitivas e transformações das necessidades" (p. 20), o que é amplamente referendado por Schwartz (1990, 1994). Não obstante, nenhuma teoria unificada e específica das necessidades é encontrada no trabalho destes autores. Rokeach (1973) considera sexo e agressividade como necessidades, sugerindo que a primeira pode ser transformada no valor amor maduro, e a última em segurança familiar. Independentemente de o primeiro valor ser relacionado com a necessidade de sexo, parece mais razoável relacioná-lo com as necessidades de amor e pertença; o segundo valor é em si a representação da necessidade de segurança. Maslow (1954) concebe a natureza humana como benévola, não admitindo necessidades negativas ou destrutivas. No seu modelo, a agressão não é uma necessidade, mas o resultado da insatisfação de necessidades prévias.

Identificação e operacionalização dos valores

Considerar os valores como representações das necessidades pode ser um passo importante na direção de uma elaboração teórica. Neste sentido, alguns critérios são necessários para sua identificação. Parra (1983) menciona sete requisitos: (1) as necessidades precisam ser expressas em termos de valores que deveriam ter uma aplicação geral; (2) estes valores necessitariam configurar um sistema fechado em que qualquer necessidade pudesse ser representada; (3) eles deveriam ser classificados de acordo com sua importância; (4) os grupos humanos precisariam realizar ou tentar encontrar tais valores; (5) eles deveriam representar as necessidades que existem em todos os grupos estudos; (6) toda sociedade precisaria realizar, com menor ou maior ênfase, o conjunto proposto de valores; e (7) tais valores deveriam ser adaptáveis às particularidades de cada estudo.

Uma vez identificadas as necessidades, é possível reconhecer o conjunto de valores que atendem aos critérios antes descritos. Obviamente, uma teoria prévia das necessidades deveria ser identificada, pois se isso não ocorresse, valores importantes poderiam ser omitidos como, por exemplo, sobrevivência. Este valor representa a necessidade fisiológica mais básica, provavelmente funcionando como um princípio-guia para pessoas e sociedades que vivenciam escassez (Inglehart, 1990). Apesar de ter sido mencionado nos anos 50 (Pepper, 1954), este valor não é comumente encontrado em instrumentos recentes (ver Braithwaite & Scott, 1991). Por exemplo, não figura nos questionários propostos por Rokeach (1973) e Schwartz (1992).

A falta de uma teoria coerente sobre as necessidades pode levar igualmente a subestimar ou negligenciar um valor ou um grupo de valores; isso é o que ocorre com a necessidade de segurança. Schwartz (1992, 1994) identifica um único tipo motivacional com este mesmo nome, mas, previamente, Schwartz e Bilsky (1987) reconheceram a importância de diferenciar dois tipos do valor segurança: um individual e outro coletivo. Rokeach (1973) sugere uma dimensão bipolar nomeada segurança na sociedade (um mundo em paz, segurança nacional, igualdade e liberdade) vs. segurança na família (segurança familiar, ambicioso, responsável e capaz). Do mesmo modo, Inglehart (1990) representa a necessidade de segurança usando dois componentes: segurança psíquica e segurança econômica. Quando se parte de uma teoria específica das necessidades, pode-se adequadamente reconhecer o conteúdo destas e listar os valores que servem para representá-las.

Finalmente, depois de identificar cada valor, é preciso ter uma definição operacional. Em geral, os instrumentos apresentam um número de valores que corresponde ao total de itens (ver Levy, 1991). Não obstante, este procedimento pode resultar psicometricamente inadequado: um valor, representado por um único item, pode produzir diferentes interpretações (Braithwaite & Scott, 1991). Gibbins e Walker (1993) demonstraram que entre os 18 valores terminais do Rokeach Value Survey, ao menos oito apresentaram três ou mais significados. Esta é a razão porque, em lugar de usar apenas um item para operacionalizar cada valor, seria recomendável elaborar múltiplos itens ou frases que o tornaria mais manejável, no sentido de dar uma idéia mais precisa do seu conteúdo para o respondente (Braithwaite & Law, 1985; Rokeach, 1973).

 

A tipologia dos valores humanos básicos

Este modelo teórico foi construído tendo em consideração a existência de uma relação entre os valores e as necessidades (Rokeach, 1973). Os valores básicos são definidos como categorias de orientação que são desejáveis, baseadas nas necessidades humanas e nas pré-condições para satisfazê-las, adotadas por atores sociais, podendo variar em sua magnitude e nos elementos que as constituem. Os aspectos principais desta definição são detalhados a seguir.

Categorias de orientação. Este componente sugere um conceito particular de valor, que é distinto da suposição de que este é um tipo específico de atitude ou crença. Permite igualmente conceber os valores como construtos latentes (Braithwaite & Law, 1985). Os valores não são simples palavras ensinadas às crianças. Como a inteligência e os traços de personalidade, eles são construtos latentes cuja presença se faz perceber no comportamento cotidiano das pessoas. Portanto, compreendem um conjunto de conceitos ou idéias que capacitam as pessoas a viverem em sociedade.

Vistos como desejáveis. O caráter desejável dos valores implica que eles são corretos ou justificáveis de um ponto de vista moral ou racional (Kluckhohn, 1951; Rokeach, 1973), e significa também que podem se referir tanto a um desejo pessoal como a uma orientação socialmente desejável. Esta condição indica um componente de desejabilidade social em alguns valores (Schwartz, Verkasalo, Antonovsky, & Sagiv, 1997), e talvez contribua para a predominância de correlações positivas entre eles.

Baseados nas necessidades humanas e nas pré-condições para satisfazê-las. A relação entre os valores e as necessidades é freqüentemente citada na literatura; aqui são incluídas também as pré-condições para satisfazer tais necessidades. Estas pré-condições representam os valores que guiam o comportamento no sentido de evitar a predominância de interesses estritamente pessoais em questões que possam ameaçar a harmonia social. Dois dos três requerimentos humanos universais, descritos por Schwartz e Bilsky (1987, 1990), parecem se assemelhar a estas pré-condições: (a) a interação social coordenada e (b) o bom funcionamento e a sobrevivência dos grupos.

O fato dos valores serem representações das necessidades não significa que estes são construtos isomorfos (Kluckhohn, 1951). Embora o número de valores seja limitado, devido à natureza claramente social e cultural que têm, eles superam o número de necessidades. Os valores são uma conseqüência mais do processo de socialização do que um resultado estrito das condições de escassez vividas pelo homem (Inglehart, 1990). Isso significa que as pessoas não dão importância apenas ao que não têm, mas também ao que é reconhecido como sendo importante para suas vidas e o que elas desejam ou receiam perder.

Assumidos por atores sociais. As pessoas que definem e simultaneamente assumem padrões desejáveis concebem os valores como sendo parte do seu repertório cognitivo. Através de uma argumentação moral e/ou racional, tais pessoas justificam o caráter desejável ou preferível dos valores que assumem diante dos outros (Zavalloni, 1980). Assim, os valores são pessoalmente adotados (e não construídos) pelos indivíduos.

Podendo variar na sua magnitude e nos elementos constitutivos. As pessoas não diferem devido aos seus valores específicos, mas em função da prioridade que dão a alguns valores. Além do mais, como construtos latentes, os valores podem ser operacionalizados por diferentes itens, e isso pode levar a construir um banco de itens facilmente adaptável para um contexto cultural ou interesse específico de pesquisa (Parra, 1983).

A Teoria das Necessidades de Maslow (1954) é considerada aqui para identificar o conjunto de valores básicos. Apesar da controvérsia sobre a adequação dos postulados da sua hierarquia de necessidades (Todt, 1982), existe um acordo sobre a existência e extensão destas (Ronen, 1994). Na presente tipologia, a teoria de Maslow não é plenamente aceita, mas sim sua lista de necessidades.

Além de enfatizar as necessidades humanas, que incluem necessidades fisiológicas, de segurança, amor, pertença, cognitiva, estética, estima e auto-realização, Maslow também se refere às pré-condições para satisfazê-las. Tendo em mente estes atributos, um conjunto de 24 valores básicos foi identificado. Para tanto, consideraram-se os requisitos de Parra (1983) em termos de identificar os valores como representações das necessidades, e os critérios de Gouveia (1998): (1) o conteúdo das necessidades ou das pré-condições em que estas são satisfeitas; (2) a possibilidade de diferenciar cada valor dos demais; e (3) a presença de cada valor em estudos prévios ou sua condição justificada de um princípio-guia desejável para os atores sociais. Depois de definir a lista de 24 valores, dois peritos independentes analisaram a adequação destes como representação das necessidades e pré-condições postuladas por Maslow. Tais valores são detalhados a seguir.

Os valores humanos básicos

Sobrevivência. Representa as necessidades mais básicas, como comer e beber. Resulta letal a privação dessas necessidades por um longo período de tempo. Sua relevância é evidente como princípio-guia na vida daquelas pessoas socializadas em um contexto de escassez, como também daquelas que atualmente vivem sem os recursos econômicos básicos.

Sexual. Representa a necessidade fisiológica de sexo, constituindo um padrão de orientação para pessoas jovens ou para aquelas que foram ou são privadas deste estímulo. É usualmente tratado como um elemento ou fator dos valores morais (Braithwaite & Scott, 1991) ou religiosos (Braithwaite & Law, 1985).

Prazer. Corresponde à necessidade orgânica de satisfação, em um sentido amplo (comer ou beber por prazer, ter diversão, etc.). Embora relacionado com o valor anterior, sua particularidade se fundamenta no fato de que a fonte da satisfação não é de um tipo específico. Este valor é incluído na maioria dos instrumentos (Braithwaite & Scott, 1991).

Estimulação. Representa a necessidade fisiológica de movimento, variedade e novidade de estímulos. Enfatiza estar sempre em atividade e ocupado, e descreve alguém que é impulsivo e talvez consciencioso. Existem alguns valores parecidos que são mencionados na literatura (Braithwaite & Law, 1985; Rokeach, 1973; Schwartz, 1992; Walsh et al., 1996).

Emoção. Representa a necessidade fisiológica de excitação e busca de experiências arriscadas. Difere do valor anterior devido à ênfase dada ao risco, que necessita estar sempre presente. As pessoas que adotam este valor são menos conformadas às regras sociais (Coelho Júnior, 2001). Este é considerado como parte do valor estimulação (Schwartz, 1992) ou estimulação social (Braithwaite & Law, 1985). Walsh e colaboradores (1996) sugerem a existência de um valor denominado risco, que provavelmente tem algo em comum com este valor.

Estabilidade Pessoal. A necessidade de segurança é parcialmente representada por este valor. Enfatiza uma vida planejada e organizada. As pessoas que assumem esta orientação tentam garantir sua própria existência. Provavelmente configure o tipo motivacional de segurança (Schwartz, 1992), e pode ser relacionado com itens específicos, tais como ter um trabalho estável (Levy, 1990) e segurança econômica (Walsh et al., 1996).

Saúde. Este também representa a necessidade de segurança (Schwartz & Bilsky, 1987). A idéia é não estar doente. A pessoa que adota este valor lida com um drama pessoal originado em um sentimento de incerteza que está implícito na doença. Assim, o indivíduo é orientado a procurar manter um estado ótimo de saúde, evitando coisas que possam ameaçar sua vida. Este valor é comum na literatura, seja com esta mesma etiqueta (Parra, 1983; Schwartz, 1992) ou considerado como bem-estar (Braithwaite & Law, 1985; Lapin, 1997).

Religiosidade. Este valor também representa a necessidade de segurança. Não depende de nenhum preceito religioso. É reconhecida a existência de uma entidade superior, através da qual as pessoas podem lograr a certeza e a harmonia social requeridas para uma vida pacífica. Este valor se encontra na maioria dos instrumentos (Braithwaite & Scott, 1991; Levy, 1990; Schwartz, 1992).

Apoio Social. Este valor representa a necessidade de segurança. Expressa a segurança no sentido de não se sentir sozinho no mundo e receber ajuda quando a necessite. Está presente em vários instrumentos, recebendo diferentes etiquetas: amigos próximos que me ajudem (Schwartz, 1992), solidariedade com os demais (Chinese Culture Connection, 1987) e contato social (Lapin, 1997).

Ordem Social. Com este valor se completa a lista daqueles que representam a necessidade de segurança. Implica uma escolha de alguém orientado a padrões sociais que assegurem uma vida diária tranqüila, um ambiente estável. Os seguintes itens podem representá-lo: ordem nacional (Braithwaite & Law, 1985; Inglehart, 1990), proteção da propriedade pública (Levy, 1990) e segurança nacional (Braithwaite & Law, 1985; Parra, 1983; Rokeach, 1973; Schwartz, 1992).

Afetividade. Este valor e o seguinte representam a necessidade de amor e afiliação. As relações próximas e familiares são enfatizadas, assim como o compartilhamento de cuidados, afetos e pesares. Está relacionado com a vida social. Geralmente são encontrados na literatura itens como amizade verdadeira (Rokeach, 1973; Schwartz, 1992), amigo próximo, íntimo (Chinese Culture Connection, 1987), ou satisfazer relações interpessoais (Braithwaite & Law, 1985; Levy, 1990).

Convivência. Enquanto o valor anterior descreve uma relação direta pessoa-pessoa, com ênfase na intimidade, o presente é centrado na dimensão pessoa-grupo e tem um sentido de socialização (por exemplo, pertencer a grupos sociais, conviver com os vizinhos). Schwartz (1992) apresenta o valor sentido de pertença; Levy (1990) propõe o item viver em vizinhança.

Êxito. Este valor e os dois seguintes representam a necessidade de estima. Este enfatiza ser eficiente e alcançar metas. As pessoas que adotam este valor têm uma idéia clara de sucesso e tendem a se orientar nessa direção. É incluído na maioria dos questionários (Braithwaite & Scott, 1991; Levy, 1990; Reeve & Sickenius, 1994; Walsh & cols., 1996).

Prestígio. O presente valor enfatiza a importância do contexto social. Não é uma questão de ser aceito pelos demais, mas de ter uma imagem pública. Os indivíduos que assumem este valor reconhecem a importância dos demais, desde que isso resulte em seu próprio benefício. Braithwaite e Law (1985) incluem o fator posição social que tem um conteúdo similar a este valor, mas que considera um aspecto de autoridade que define o valor poder. Outros autores citam valores equivalentes (Parra, 1983; Schwartz, 1992; Walsh et al., 1996).

Poder. Este valor é menos social do que o anteriormente tratado. As pessoas que atribuem importância a ele podem não ter a noção de um poder socialmente constituído. Este é provavelmente o valor menos socialmente desejado entre aquelas pessoas com uma orientação social horizontal (por exemplo, estudantes universitários). A maioria dos instrumentos o tem contemplado (Braithwaite & Scott, 1991; Chinese Culture Connection, 1987; Lapin, 1997).

Maturidade. A necessidade de auto-realização é representada por este valor. Enfatiza o sentido de auto-satisfação de uma pessoa que se considera útil como um ser humano. Os indivíduos que priorizam este valor tendem a apresentar uma orientação social que transcende pessoas ou grupos específicos. Apesar de certos elementos como auto-respeito e sabedoria serem incluídos em seu conteúdo (Rokeach, 1973; Schwartz, 1992), a idéia central é de crescimento pessoal (Braithwaite & Law, 1985), sendo expresso no fator auto-realização (Kraska & Wilmoth, 1991).

Autodireção. Este e o valor seguinte representam a pré-condição de liberdade para satisfazer as necessidades. Adotar este valor implica em um reconhecimento de auto-suficiência. Alguns valores são encontrados na literatura com uma etiqueta similar, tais como liberdade (Inglehart, 1990; Lee, 1991; Parra, 1983; Rokeach, 1973; Schwartz, 1992), autodeterminação (Reeve & Sickenius, 1994), autonomia (Walsh et al., 1996) e independência (Kraska & Wilmoth, 1991; Lapin, 1997).

Privacidade. Um espaço privado é necessário no sentido de diferenciar os diversos aspectos da vida pessoal. Aqueles que adotam este valor não rejeitam ou subestimam os demais; eles simplesmente reconhecem os benefícios de ter seu próprio espaço íntimo. Este valor é raramente citado. Schwartz (1992) mencionou o valor distanciamento, mas não reproduz o conteúdo do valor aqui tratado.

Justiça Social. Este valor representa a pré-condição de justiça ou igualdade para satisfazer as necessidades. As pessoas que dão importância a este valor pensam nos outros como um membro a mais da espécie humana. Cada um tem os mesmos direitos e deveres que capacitam uma vida social com dignidade. Este é geralmente mencionado com esta denominação (Parra, 1983; Schwartz, 1992) ou como igualdade (Braithwaite & Scott, 1991; Inglehart, 1990; Rokeach, 1973).

Honestidade. Representa a pré-condição de honestidade e responsabilidade para satisfazer as necessidades. Este valor enfatiza um compromisso em relação aos demais, permitindo manter um ambiente apropriado para as relações interpessoais. As relações em si são consideradas metas. Este é um valor muito comum na literatura (Braithwaite & Law, 1985; Chinese Culture Connection, 1987; Rokeach, 1973; Schwartz, 1992).

Tradição. Este valor e o próximo representam a pré-condição de disciplina no grupo ou na sociedade como um todo para satisfazer as necessidades. O presente sugere respeito aos padrões morais seculares e contribui para aumentar a harmonia na sociedade. Os indivíduos precisam respeitar símbolos e padrões culturais. Tomado como uma dimensão (Inglehart, 1990; Schwartz, 1992) ou um valor específico (Chinese Culture Connection, 1987; Lapin, 1997; Levy, 1990), sua presença é assegurada em outras tipologias.

Obediência. Este valor evidencia a importância de cumprir os deveres e as obrigações diárias, além de respeitar aos pais e aos mais velhos. É uma questão de conduta individual; os membros da sociedade assumem um papel e se conformam à hierarquia social tradicionalmente imposta. Tal valor é típico de pessoas mais velhas ou que receberam uma educação tradicional. É citado em outros estudos (Braithwaite & Scott, 1991; Rokeach, 1973; Schwartz, 1992).

Conhecimento. As necessidades cognitivas são representadas por tal valor, que tem um caráter extra-social. As pessoas orientadas por este valor procuram ter um conhecimento atualizado e saber mais sobre temas pouco compreensíveis. A presente definição corresponde a diferentes valores encontrados na literatura (por exemplo, imaginativo, criativo, intelectual, curioso, instruído, estudioso, conhecedor, informado) (Braithwaite & Law, 1985; Chinese Culture Connection, 1987; Levy, 1990; Schwartz, 1992; Walsh et al., 1996).

Beleza. Representa as necessidades de estética. Evidencia uma orientação global, sem uma definição precisa de quem se beneficia com o quê; não significa uma apreciação de um objeto ou pessoa específica, mas a beleza como um critério transcendental. Este valor tem sido relacionado com a natureza e os espaços físicos específicos (Braithwaite & Law, 1985; Inglehart, 1990; Rokeach, 1973; Schwartz, 1992). Inclui a idéia geral de estética (Walsh et al., 1996).

Sistema valorativo, critérios de orientação e funções psicossociais

Todos os valores básicos são terminais; eles expressam um propósito em si mesmos, sendo definidos como substantivos (Rohan, 2000; Rokeach, 1973). Tais valores são categorias-guia que transcendem situações específicas. Estes 24 valores formam um sistema valorativo baseado em três critérios de orientação, cada um subdividido em duas funções psicossociais, como segue: pessoal (experimentação e realização), central (existência e suprapessoal) e social (interacional e normativa).

Os critérios de orientação refletem dicotomias bastante conhecidas na literatura: associação vs. comunidade (Tönnies, 1887/1979), solidariedade mecânica vs. orgânica (Durkheim, 1893/1982) e individualismo vs. coletivismo (Hofstede, 1984). Diferentemente destas tipologias, no presente modelo se inclui a possibilidade de um conjunto de valores que seria compatível com todos os valores pessoais e sociais, isto é, os valores centrais. Tais valores são muito parecidos com os valores mistos, descritos por Schwartz (1994). Não obstante, têm a peculiaridade teórica de não se localizar em um espaço circular que indica oposição entre alguns valores específicos ou tipos de orientação valorativa, a exemplo do que foi sugerido para êxito e segurança no modelo deste autor (ver Schwartz & Bilsky, 1987, p. 554).

As funções psicossociais expressam uma ênfase em dois tipos de relação social que têm sido referidos em outros modelos, reconhecidos como liberdade vs. igualdade (Rokeach, 1973), distância de poder (Hofstede, 1984) e orientação vertical vs. horizontal (Triandis, 1995). Neste caso, as funções de experimentação, suprapessoal e interacional representam a dimensão horizontal, visto que primam pelo princípio de igualdade entre as pessoas. Por outro lado, as de realização, existência e normativa correspondem à vertical, sugerindo que as pessoas são diferentes, apresentando capacidades e condições de vida diferenciadas.

Como é possível observar, esta tipologia encontra bastante correspondência com a que propõe Triandis (1995) acerca do individualismo e coletivismo horizontal-vertical. Diferencia-se, porém, por sua ênfase nos valores em lugar das atitudes e por considerar que as orientações pessoal e social não são opostas, dando origem a um conjunto de valores que atende às aspirações pessoais e não compromete a estrutura social. Existe um padrão típico que é seguido pelas pessoas quando adotam um ou outro valor como um princípio-guia nas suas vidas. Este padrão implica os critérios de orientação apresentados a seguir.

Valores Pessoais. As pessoas que assumem tais valores usualmente mantêm uma relação pessoal contratual, visando alcançar metas pessoais. Procuram garantir seus próprios benefícios ou as condições nas quais estes possam ser alcançados sem ter uma referência particular (papel ou status). Para Rokeach (1973), esses valores são considerados de foco intra-pessoal. Em Schwartz (1994), atendem a interesses individuais. Considerando suas funções psicossociais, tais valores podem ser divididos em: (a) Valores de Experimentação: descobrir e apreciar estímulos novos, enfrentar situações arriscadas e buscar satisfação sexual são aspectos centrais destes valores (emoção, estimulação, prazer e sexual); e (b) Valores de Realização: além da experimentação de estímulos novos, o ser humano deseja também sua auto-promoção, correspondendo ao sentimento de ser importante e poderoso, ser uma pessoa com identidade e espaço físico próprios (autodireção, êxito, poder, prestígio e privacidade).

Valores Centrais. A expressão valores centrais é usada para indicar o caráter central ou adjacente destes valores; eles figuram entre e são compatíveis com os valores pessoais e sociais. Em termos da tipologia de Schwartz (1990, 1994), tais valores servem a interesses mistos (individuais e coletivos). Considerando suas funções psicossociais, os valores centrais podem ser divididos em dois grupos: (a) Valores de Existência. A questão é garantir a própria existência orgânica (estabilidade pessoal, saúde e sobrevivência). A ênfase não é sobre a individualidade pessoal, mas sobre a existência individual. Assim, os valores de existência não são incompatíveis com os pessoais e sociais. Eles são importantes para todas as pessoas, principalmente em contextos de escassez econômica, onde cada um busca sua sobrevivência; e (b) Valores Suprapessoais. As pessoas que assumem estes valores procuram alcançar seus objetivos independentemente do grupo ou da condição social. Descrevem alguém que é maduro, com preocupações menos materiais, sem se limitar a características descritivas ou traços específicos para iniciar uma relação ou promover benefícios (beleza, conhecimento, justiça social e maturidade). Tais valores enfatizam a importância de todas as pessoas, não exclusivamente daqueles indivíduos que compõem o endogrupo. Assim, eles são compatíveis com os valores pessoais e sociais. Provavelmente os tipos motivacionais segurança e universalismo, de Schwartz (1994), correlacionam-se com as funções psicossociais existência e suprapessoal, respectivamente.

Valores Sociais. As pessoas que assumem estes valores primam pela convivência com os demais. Em Rokeach (1973), correspondem aos valores de foco interpessoal, enquanto que em Schwartz (1994) assemelham-se aos valores relacionados com os interesses coletivos. Tais valores são assumidos por indivíduos que se comportam como alguém que gosta de ser considerado, que deseja ser aceito e integrado no endogrupo ou objetiva manter um nível essencial de harmonia entre os atores sociais em um contexto específico. Considerando suas funções psicossociais, eles podem ser divididos em: (a) Valores Normativos: aqueles que enfatizam a vida social, a estabilidade grupal e o respeito por símbolos e padrões culturais que prevaleceram durante anos. A ordem é valorizada acima de qualquer coisa (obediência, ordem social, religiosidade e tradição); e (b) Valores Interacionais: estes focalizam o destino comum e o compromisso com os demais. Os companheiros são fundamentais para assegurar a felicidade da própria pessoa. Sua especificidade radica no interesse em ser amado, ter uma amizade verdadeira e uma vida social ativa (afetividade, apoio social, convivência e honestidade).

Em resumo, o presente artigo propõe uma teoria nova sobre a natureza e a estrutura dos valores humanos que contribui para uma melhor compreensão do tema. Esta teoria tem sido desenvolvida e testada nos anos recentes (ver Coelho Júnior, 2001; Gouveia, 1998; Maia, 2000). Sua especificidade em relação à teoria de S. H. Schwartz, que é provavelmente a mais conhecida na Psicologia Social contemporânea, baseia-se nos seguintes aspectos: (1) apresenta uma visão inequívoca da natureza humana, considerada como benévola, evitando falar em valores negativos ou contra-valores (Molpeceres, 1994); (2) considera uma teoria específica sobre as necessidades humanas (Maslow, 1954), permitindo tanto derivar um conjunto de valores potencialmente universais como incluir alguns valores que têm sido negligenciados na literatura, como sobrevivência (Gouveia, Martinez, Meira & Milfont, 2001); (3) em razão dos aspectos anteriores, evita incluir valores irrelevantes, que raramente são considerados em análises posteriores, como o item "limpo" (Gouveia & Vidal, 1998), possibilitando maior parcimônia; e (4) não assume incompatibilidade ou conflito interno entre os valores, sem referência a variáveis externas. Apesar destas diferenças, como antes sugerido, é esperada uma convergência entre ambos modelos, fundamentalmente pela ênfase dada à natureza motivacional dos valores humanos.

 

Método

Amostras

Duas amostras foram consideradas. A primeira foi composta de 252 participantes, incluindo membros da população geral e estudantes universitários de João Pessoa (n1). Estes participantes apresentaram majoritariamente educação superior (51%) ou tinham concluído o ensino médio (18%). Aproximadamente 70% eram mulheres, com uma idade média de 25 anos, variando de 17 a 40. A segunda amostra foi formada por 354 participantes recrutados de três cidades da Paraíba (Cajazeiras, Gurinhém e João Pessoa). A maioria destes participantes era do sexo feminino (68%), solteira (82%), tendo concluído o ensino fundamental (49%) ou médio (39%). O mais jovem tinha 12 e o mais velho 84 anos (M = 22,7; DP = 11,34).

Instrumentos

Todos os participantes responderam um conjunto de perguntas sócio-demográficas (sexo, idade, número de amigos) e completaram o Questionário dos Valores Básicos. Este é composto por 24 valores descritos por dois itens cada um. Por exemplo, prestígio (saber que muita gente lhe conhece e admira; quando idoso receber uma homenagem por suas contribuições); apoio social (obter ajuda quando necessário; sentir que não está só no mundo). Os respondentes indicaram a importância que cada valor tinha como um princípio-guia na sua vida, utilizando uma escala de resposta de 1 (decididamente não importante) a 7 (extremamente importante). No fim do questionário, indicaram o valor menos e o mais importante de todos, os quais receberam as pontuações 0 e 8, respectivamente. Estas pontuações substituíram as respostas previamente dadas aos valores correspondentes, sendo consideradas em análises futuras.

Os participantes da amostra n1 também responderam uma questão sobre o grau de religiosidade auto-percebida (0 = Nada religioso, a 4 = Totalmente religioso), uma versão brasileira da Impression Management Scale (Seisdedos, 1996) e o Questionário de Valores de Schwartz (Tamayo & Schwartz, 1993). Este foi modificado em relação à versão original (Schwartz, 1992) no sentido de incluir o valor privacidade (o direito a ter um espaço pessoal), que passou a figurar no tipo motivacional de autodireção.

Procedimento

Os instrumentos foram randomicamente dispostos, procurando evitar o viés de exposição da informação, porém as características sócio-demográficas foram apresentadas sempre na última página. Três colaboradores treinados foram responsáveis por contatar os participantes e dar-lhes as instruções necessárias sobre como responder. Os participantes foram convidados a colaborar voluntariamente com o estudo, assegurando-lhes que suas respostas seriam anônimas. A aplicação dos questionários ocorreu na casa do participante ou em sala de aula, dependendo da amostra. Em média, aproximadamente 20 minutos foram suficientes para concluir sua participação.

Análise dos dados

O SPSS 10 foi usado para realizar o escalonamento multidimensional. As pontuações z foram calculadas para os valores básicos e uma solução bidimensional foi adotada. A análise fatorial confirmatória foi efetuada através do pacote estatístico LISREL 8.12. Os dados foram submetidos ao programa na forma de matriz de correlação, adotando-se o estimador GLS (General Least Squares).

 

Resultados

A estrutura dos valores básicos

A proposta principal deste estudo foi apresentar a estrutura interna dos valores humanos. De acordo com a teoria, esperar-se-ia identificar três critérios-guia. Estes deveriam ser subdivididos segundo as seguintes funções psicossociais dos valores: pessoais (experimentação e realização), centrais (existência e suprapessoal) e sociais (interacional e normativa). A Figura 1 apresenta os resultados do escalonamento multidimensional com a amostra total (n = 606).

 

 

Os indicadores de bondade de ajuste para o espaço bi-dimensional foram: RSQ = 0,82 e S-Stress = 0,19. É possível observar uma estrutura incluindo os valores sociais e pessoais nos lados direito e esquerdo da Figura 1, respectivamente. Os valores centrais aparecem entre estes dois grupos de valores. Apesar de ser heurística, esta configuração confirma a estrutura teórica em relação aos três critérios de orientação. Assim, uma análise fatorial confirmatória foi realizada no sentido de avaliar a adequação de dividir estes critérios de orientação valorativa e suas funções psicossociais. Os resultados podem ser vistos na Tabela 1.

 

 

Todos os lambdas (c, cargas fatoriais) foram diferentes de zero (t > 1,96, p < 0,05), resultando nos seguintes índices de bondade de ajuste: c²/g.l = 2,67, GFI = 0,91, AGFI = 0,89, RMSEA = 0,05, e N crítico = 279,04. Estes resultados são melhores do que aqueles que consideram unicamente os três critérios valorativos [Dc² (12) = 41,19, p < 0,001]. As seis funções psicossociais apresentaram consistência interna (Alfa de Cronbach) média de 0,51.

A convergência dos valores básicos com os tipos motivacionais

No sentido de comprovar a convergência do conjunto de valores básicos com os tipos motivacionais de valores derivados do Questionário de Valores de Schwartz (QVS), foi efetuado um escalonamento multidimensional (MDS). Assumiu-se uma solução bi-dimensional, estandardizando os escores (z) entre as variáveis. Este foi o segundo objetivo deste estudo, sendo os resultados apresentados na Figura 2.

 

 

Os índices de bondade de ajuste foram os seguintes: RSQ = 0,90 e S-Stress = 0,14. Percebe-se que os valores básicos (VB) e os tipos motivacionais (TM) figuram, respectivamente, nas partes inferior e superior da Figura 2. Esta MDS revela uma convergência do modelo de Schwartz com o aqui proposto. Como esperado, os valores sociais (interacionais e normativos) apareceram próximos aos tipos motivacionais com interesses coletivos (benevolência, conformidade e tradição); os valores pessoais (experimentação e realização) se posicionaram no mesmo espaço daqueles tipos motivacionais com interesses individuais (autodireção, estimulação, hedonismo, poder e realização); e, entre estes dois grupos de valores, emergiram os centrais (existência e suprapessoal) e os tipos motivacionais com interesses mistos (segurança e universalismo).

Correlação entre os valores básicos e o grau de religiosidade

A condição de que todos os valores humanos são positivamente correlacionados entre si não descarta que eles possam ser incompatíveis com relação a algumas variáveis externas. Assim, o terceiro objetivo foi comprovar a correlação entre os valores básicos e o grau de religiosidade dos participantes. Segundo o padrão observado para estes construtos em amostras de países predominantemente católicos: Espanha (Schwartz & Huismans, 1995) e México (Bilsky & Peters, 1999), esperar-se-ia que o grau de religiosidade no Brasil estivesse negativamente correlacionado com os valores de experimentação (emoção, estimulação, prazer e sexual) e positivamente com os normativos (obediência, ordem social, religiosidade e tradição). Os resultados para a amostra n1 são apresentados na Tabela 2.

 

 

A hipótese de pesquisa foi confirmada tanto para a correlação de ordem zero como a parcial, controlando o possível viés de desejabilidade social (Tabela 2). Considerando este último coeficiente, foi possível observar que os valores de experimentação se correlacionaram negativamente com o grau de religiosidade (r = -0,11, p < 0,05), tendo o valor emoção apresentado a correlação mais forte (r = -0,14, p < 0,05). Os valores normativos se correlacionaram diretamente com o grau de religiosidade (r = 0,48, p < 0,001); entre tais valores, religiosidade apresentou a correlação mais forte (r = 0,66, p < 0,001), seguido do valor obediência (r = 0,30, p < 0,001). Dois valores interacionais correlacionaram-se positivamente com esta variável: convivência (r = 0,26, p < 0,001) e honestidade (r = 0,11, p < 0,05). Entre os valores de existência, unicamente saúde apresentou uma correlação significativa com o grau de religiosidade (r = 0,11, p < 0,05). Nenhum dos valores de realização ou supra-pessoais correlacionou-se com esta variável (r < 0,10, p > 0,05).

 

Discussão

Este estudo pretendeu apresentar uma tipologia nova dos valores humanos básicos e algumas evidências empíricas que a sustentam. Consideraram-se amostras diversificadas, incluindo pessoas da população geral, estudantes do ensino médio e universitários. Os participantes provinham de três cidades diferentes, embora do mesmo estado coletivista (Gouveia & Clemente, 2000). É possível que esta limitação imponha restrições à generalização dos achados. Porém, pesquisas prévias em diferentes contextos culturais (Gouveia, 1998) e com diferentes amostras, incluindo crianças (Maia, 2000), sugerem a adequação desta tipologia.

A análise MDS do conjunto de valores em duas dimensões apresentou coeficientes de bondade de ajuste (RQS, S-Stress) aceitáveis (Kruskal & Wish, 1986), permitindo visualizar os valores divididos nos três critérios de orientação teorizados (pessoal, central e social). Além do mais, a análise fatorial confirmatória apoiou a adequação de organizar tais valores de acordo com suas funções psicossociais. Neste caso, os índices de bondade de ajuste foram muito próximos daqueles idealizados (uma tabela sumária pode ser encontrada em Van de Vijver & Leung, 1997, p. 101). O valor poder apresentou a carga fatorial mais baixa do conjunto de valores (Tabela 1), o que já poderia ser esperado (Gouveia, 1998; Ros & Grad, 1991). Lidar com as funções psicossociais dos valores é menos parcimonioso do que considerar diretamente os critérios de orientação, porém permite uma compreensão mais detalhada do padrão de orientação de pessoas e grupos, assegurando um maior poder de predição. A consistência interna destas funções, considerando a natureza da amostra (uma combinação de estudantes e pessoas da população geral) e o número reduzido de itens que as conformam, pode ser considerada aceitável.

A possibilidade dos valores centrais foi vista nas Figuras 1 e 2. Segundo o modelo teórico descrito, tais valores são compatíveis com os pessoais e sociais. Assumir os valores centrais pode significar uma ênfase (1) nas condições básicas para garantir a sobrevivência do indivíduo (valores de existência) ou (2) nos princípios sociais que são fundamentais para viver em sociedade (valores supra-pessoais). Neste caso, adotar os valores centrais resulta em assumir um pacto social, em que todos os direitos naturais são negociados por liberdades civis. É esperado que os valores de existência e supra-pessoais influenciem os comportamentos. Provavelmente, eles poderiam ser mais preponderantes para explicar o comportamento de indivíduos socializados em diferentes contextos de escassez (Inglehart, 1990). Por exemplo, Silva Filho (2001) observou que as pessoas que vivem em uma cultura com baixos indicadores econômicos atribuem mais importância aos valores de existência do que o fazem aqueles que desfrutam de melhores indicadores econômicos.

Por fim, com relação ao poder de predição da tipologia dos valores básicos, os achados sobre a variável grau de religiosidade são coerentes com aqueles de pesquisas prévias (Bilsky & Peters, 1999; Gouveia et al., 1997; Schwartz & Huismans, 1995). Consistentemente, um maior grau de religiosidade está diretamente associado com os valores normativos (obediência, religiosidade, tradição) e inversamente com aqueles de experimentação (emoção, prazer e sexual). Em geral, a correlação dessa variável não tem sido clara com relação aos valores de existência (estabilidade pessoal, sobrevivência), realização (êxito, poder) e supra-pessoais (conhecimento, beleza). O contraste entre valores normativos e de experimentação é bastante adequado para explicar atitudes, crenças e comportamentos que promovem ou ameaçam a ordem social. Por exemplo, em uma amostra de aproximadamente 1.500 jovens, Coelho Júnior (2001) observou que estes valores foram os mais importantes para explicar o uso potencial de drogas. Especificamente, constatou que os usuários potenciais pontuam mais nos valores de experimentação e menos nos normativos.

 

Conclusões e direções futuras

Propôs-se aqui uma tipologia nova dos valores, considerando sua estrutura interna, validade convergente e aplicabilidade para explicar o grau de religiosidade. Uma antiga proposta de dividir os valores em sociais e pessoais (Mueller & Wornhoff, 1990; Rokeach, 1973) foi contemplada, embora não tenha sido assumida uma incompatibilidade entre estes. A possibilidade da coexistência de aspirações individuais e coletivas, que parece caracterizar algumas pessoas e sociedades (Schwartz, 1990), foi representada pelos valores centrais.

O conjunto de valores básicos

Os 24 valores básicos configuram um número mínimo de elementos para representar as necessidades e as pré-condições para satisfazê-las. A possibilidade de acrescentar um ou mais valores não é descartada. Não obstante, seria recomendável seguir os critérios já mencionados, devendo ser justificadas todas as inclusões. Caso contrário, correr-se-iam riscos de especulações baseadas unicamente em achados empíricos (ver, por exemplo, Lee, 1991). Esta lista atual de valores deveria ser avaliada em função dos valores incluídos, não com base naqueles que poderiam ser incorporados. O conjunto de valores se revela apropriado, representando todas as necessidades e as condições fundamentais para satisfazê-las, como teorizadas por Maslow (1954). Tais valores são supostamente universais, no sentido de que todos podem reconhecê-los, embora adotados pelas pessoas em diferentes magnitudes. Com relação a esta universalidade, a definição dos valores básicos como construtos latentes faz possível elaborar novos itens que permitem organizar estes valores seguindo as características e as especificidades de cada cultura. Isso seria factível sempre que não se alterasse o significado intrínseco de cada valor. Neste sentido, apesar de ser recomendada a versão original do Questionário dos Valores Básicos, não são desencorajadas outras versões adaptadas a diferentes contextos.

Os valores básicos não são tipos motivacionais de valores, no sentido de representar um índice composto de valores. Eles são simplesmente valores, descritos por dois itens cada um. Contudo, é evidente sua natureza motivacional. Alguns deles merecem mais atenção (por exemplo, sobrevivência). Como indicado previamente, este valor não é freqüentemente encontrado em outras tipologias (Braithwaite & Scott, 1991). É importante comprovar sua utilidade em pesquisas futuras; por exemplo, ele poderia ser útil para explicar o proto-individualismo, identificado inicialmente por Triandis (1988). O valor privacidade, que representa a pré-condição de liberdade para satisfazer as necessidades, não é incluído nas versões originais de instrumentos bastante conhecidos (por exemplo, Rokeach, 1973; Schwartz, 1992), embora tenha um potencial para explicar alguns comportamentos sociais. Por exemplo, pode ser útil para explicar dimensões do individualismo (auto-suficiência, autodireção) ou a identificação com endogrupos (ver Gouveia, 1998).

O construto segurança, quando visto como um fator dos valores humanos (Rokeach, 1973) ou um tipo motivacional (Schwartz, 1992), é ambíguo. Gouveia expressou previamente esta preocupação, considerando que ele reúne muitas idéias, a maioria das quais com uma ênfase coletivista (por exemplo, segurança familiar, segurança nacional, sentido de pertença) (Gouveia 2001; Gouveia & Vidal, 1998). No presente estudo é possível detectar que os valores básicos que representam a necessidade correspondente podem ser reunidos em critérios de orientação diferentes (por exemplo, saúde e estabilidade pessoal aparecem como valores centrais; ordem social e religiosidade figuram como valores sociais). Este aspecto precisa ser levado em conta para compreender a estrutura e o conteúdo dos valores humanos. Considerar separadamente estes sentidos de segurança poderia ser mais adequado do que juntá-los em apenas um índice de valores, pois asseguraria predições mais confiáveis.

Critérios de orientação e funções psicossociais

Além da divisão dos valores em pessoais, centrais e sociais ter sido facilmente visualizada através da representação espacial, a análise fatorial confirmatória corroborou a subdivisão destes critérios segundo suas respectivas funções psicossociais. Schwartz e Bilsky (1987, 1990) reconhecem a vantagem de tratar com índices compostos de valores, uma vez que permitem uma melhor predição e interpretação dos resultados. No presente estudo, tais critérios possibilitaram predizer satisfatoriamente o grau de religiosidade dos participantes, achados que foram compatíveis com os presentes na literatura (Bilsky & Peters, 1999; Schwartz & Huismans, 1995).

Em relação às funções psicossociais dos valores, algumas delas são similares aos quatro subsistemas que Lapin (1997) defende como correspondendo às necessidades humanas. Seu subsistema vital indica a preocupação com a saúde e a segurança pessoal, sendo assim relacionado com os valores de existência. O subsistema interacional é bastante relacionado com os valores interacionais, representando as necessidades de comunicação e interação dos indivíduos. O subsistema socialização indica a idéia presente nos valores normativos, descrevendo a conexão entre a vida da própria pessoa e a daquelas de gerações passadas. Finalmente, o subsistema sentido da vida inclui parte da idéia contida nos valores supra-pessoais (por exemplo, o valor da vida, virtudes, beleza).

As funções psicossociais dos valores não foram configuradas para corresponder aos tipos motivacionais de valores (Schwartz, 1992). Eles estão correlacionados entre si, mas não são isomorfos. As funções psicossociais podem perpassar os tipos motivacionais de valores. Por exemplo, a função realização inclui valores dos tipos motivacionais autodireção, êxito e poder; e a função normativa reúne os tipos motivacionais tradição e conformidade. Tais funções foram pensadas no sentido de representar afinidades dentro de um conjunto de valores, segundo padrões comportamentais ou princípios de orientação adotados pelas pessoas.

Como tem sido estabelecido, este modelo não é incompatível com outros previamente elaborados e tem muito em comum com o apresentado por Schwartz e seus colaboradores (Ros et al., 1999; Schwartz, 1990, 1992, 1994; Schwartz & Bilsky, 1987, 1990; Tamayo & Schwartz, 1993). Apesar de ter sido considerado um marco teórico algo diferente, a presente tipologia produziu resultados muito similares aos derivados do modelo de Schwartz. Por exemplo, a correlação entre os valores e a religiosidade sugere uma curva sinusoidal que tinha sido previamente observada por Schwartz e Huismans (1995). Provavelmente, isso é uma evidência para uma estrutura circular dos valores (Schwartz & Bilsky, 1987, 1990). A especificidade da presente tipologia se refere a sugerir uma lista de valores que representa as necessidades humanas previamente identificadas como básicas, assumindo o pressuposto da natureza benévola do ser humano (Maslow, 1954).

Direções futuras

Três questões principais merecerão atenção no futuro: (1) entender a correlação presumível entre os valores e as necessidades. Esta correlação é assumida (Rokeach, 1973; Schwartz, 1994), mas com exceção das hipóteses de socialização e privação de Inglehart (1990), muito pouco é conhecido sobre sua natureza; (2) comprovação da validade intra e inter-cultural desta tipologia. Será especialmente útil provar sua natureza ética; e (3) coletar novos dados sobre as particularidades deste modelo teórico em relação a outros previamente publicados (por exemplo, Inglehart, 1990; Rokeach, 1973; Schwartz, 1992).

Finalmente, como Bilsky e Peters (1999) mencionam, a literatura sobre os valores evidencia a carência de uma orientação teórica e taxonomia. Apesar da soma de estudos empíricos, os sistemas teóricos para incorporar os resultados têm sido escassos. O presente estudo representa uma tentativa nesta direção. Partindo de um marco teórico diferente, foi possível observar resultados que corroboram aqueles de Schwartz e Bilsky (1987, 1990). Neste sentido, parece adequado ter em conta a natureza motivacional dos valores humanos.

 

Agradecimentos

A presente pesquisa foi apoiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), através de bolsa de produtividade concedida ao autor (Proc. 301705/91-7). Este agradece à referida instituição e aproveita para reconhecer os valiosos comentários que Cláudio Vaz Torres, María Ros, Shalom H. Schwartz e Wolfgang Bilsky realizaram de uma versão prévia deste artigo.

 

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Endereço para correspondência
Universidade Federal da Paraíba; Departamento de Psicologia CCHLA
João Pessoa, PB; 58051-900 BRASIL
Tel.: (83) 216-7006
E-mail: vgouveia@cchla.ufpb.br ou vvgouveia@uol.com.br

 

 

Recebido em 16.ago.02
Revisado em 04.fev.03
Aceito em 18.out.03

 

 

Valdiney V. Gouveia, doutor em Psicologia pela Universidade Complutense de Madrid, Espanha, é professor no Departamento de Psicologia, Universidade Federal da Paraíba.

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