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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.10 no.2 Rio de Janeiro Apr./June 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232005000200028 

RESENHAS REVIEWS

 

 

Ana Helena Rotta Soares

Instituto Fernandes Figueira/Fiocruz

 

 

Heilborn ML (org.). Família e sexualidade. Maria Luiza Heilborn. Editora FGV, Rio de Janeiro, 2004, 153 pp.

Família e sexualidade discute as múltiplas transformações ocorridas nas relações entre família e sexualidade durante as últimas décadas a partir da ótica socioantropológica. Assim sendo, os autores aproximam a sexualidade como um domínio da vida social vinculado à socialização e à aprendizagem de regras, roteiros e cenários culturais. Segundo a coordenadora do livro, Maria Luiza Heilborn, tais mudanças resultam do extenso processo pelo qual a conjugalidade se torna independente do espaço familiar, não limitando o exercício da atividade sexual à esfera matrimonial. Contudo, a família ainda ocupa um lugar chave na socialização das novas gerações no que diz respeito ao sexo. Devido aos movimentos feminista e homossexual, o cenário da sexualidade contemporânea se encontra mais simétrico, porém, não ocupa um lugar de liberação sexual já que os constrangimentos sociais relacionados à sexualidade foram tanto modificados quanto acomodados às antigas prescrições de gênero. A autora ressalta também que as mudanças na esfera da sexualidade são comumente designadas à modernização dos costumes sexuais, referidos a mulheres e homens e influenciados por fenômenos como o desenvolvimento de métodos contraceptivos hormonais nos anos 60 e a epidemia de HIV/Aids nos anos 80.

O livro divide-se em quatro capítulos, sendo os dois primeiros baseados em dados referentes ao material etnográfico oriundo da Pesquisa Gravad (Gravidez na Adolescência: Estudo Multicêntrico sobre Jovens, Sexualidade e Reprodução no Brasil, 2002), que discutem família e sexualidade através da abordagem do tema da juventude e da socialização relativa à sexualidade durante este período da vida. No primeiro capítulo, "Homem… já viu, né?: representações sobre sexualidade e gênero entre homens de classe popular", Tânia Salem explora as representações sobre as sexualidades feminina e masculina e a relação entre gêneros de homens de classe popular. As singularidades discursivas encontradas nos depoimentos coletados indicam a complementaridade entre os gêneros, bem como alguns desencontros na equação descontrole sexual masculino/controle sexual feminino. A autora observou ainda que os homens entrevistados mostram-se mais dispostos a generalizar com base nas noções de homem e mulher, quando as mulheres de classe média tendem a reforçar as variações individuais. Foi observado também o tema da conjugalidade nos discursos referentes à categorização de mulheres percebidas como parceiras qualitativamente distintas. Por essa razão, a autora sugere que a complementaridade entre os gêneros na área da sexualidade repousa também em uma complementaridade atuada entre mulheres.

O segundo capítulo, "Iniciação sexual e afetiva: exercício da autonomia juvenil", traz a análise de Eliane Reis Brandão acerca da socialização adolescente e juvenil através dos discursos de famílias de classe média do Rio de Janeiro que experimentaram um episódio de parentalidade de um dos filhos, sendo estes do sexo feminino ou masculino. A autora explora como a iniciação sexual e afetiva é experimentada e significada pelos jovens, além do vínculo decorrente da gravidez subseqüente. Ainda, a autora nos traz que tal qual a iniciação sexual, o aprendizado e o domínio da contracepção na adolescência possuem um caráter processual no qual o conhecimento dos métodos não exclui a possibilidade de ocorrência da gravidez. Brandão considera a sexualidade um cenário privilegiado para o exercício gradual da autonomia juvenil e, assim sendo, os constrangimentos familiares se fazem presentes na expectativa dos pais acerca do engajamento dos filhos na construção de uma carreira profissional. Finalmente, o texto explora as negociações e regulação do exercício da sexualidade no interior da família.

No terceiro capítulo, "Homossexualidade e parentalidade: ecos de conjugação", Anna Paula Uziel explora a reivindicação da homoparentalidade e as formas como são encaradas as famílias cujos pais são homossexuais. A autora discute o direito de adoção de crianças por casais homossexuais através das discussões sobre o tema nos Estados Unidos e França. No caso dos EUA, pesquisas demonstram a preocupação como o impacto dos pais sobre as crianças e o comportamento das mesmas. E mais, estudos refletem sobre o desenvolvimento intelectual, emocional, moral e principalmente psicossexual, referente à identidade de gênero da criança. Já o debate francês focaliza os riscos da constituição do casal do mesmo sexo em relação aos filhos, utilizando como eixo principal a ausência de reconhecimento da diferença entre os sexos. Uziel analisa os discursos de técnicos e operadores do direito da Vara da Infância e da Juventude na comarca do Rio de Janeiro e constata que mesmo aqueles que não tratam a homossexualidade como impedimento para a adoção não reconhecem o casal homossexual como entidade familiar, além de reproduzir o preconceito e estigma relacionado a homossexuais.

No capítulo quatro, "A nova normatividade das condutas sexuais ou a dificuldade de dar coerência às expectativas íntimas", Michel Bozon discute uma nova abordagem sobre as normas atuais sobre a sexualidade. Acerca de normas temporais, o autor discute uma extensão da vida sexual devido à reorganização das idades consideradas lícitas para a atividade sexual. Segundo o autor, a antiga preocupação ética de colocar o indivíduo em conformidade com um ideal absoluto foi substituída pelo esforço individual de se adaptar às situações e dar coerência a diferentes experiências, transformando a sexualidade em um instrumento de desabrochamento pessoal e social. Sendo assim, tal crescente individualização das trajetórias sexuais exige dos sujeitos um grande "trabalho sobre si" no sentido de estabelecer a coerência de suas experiências íntimas apesar da oscilação das referências pertinentes.

O livro estimula a discussão sobre a necessidade de rever os conceitos tradicionais acerca do campo da família e da sexualidade podendo colaborar para a formulação de políticas públicas que levem em consideração os novos rearranjos familiares e de gênero. Percebe-se, a necessidade de conceituar a família não através de restritos parâmetros de universalidade, mas considerando a especificidade e a diversidade de contextos culturais, sociais e históricos, além da dinâmica singular de cada família. Desta maneira, o livro se configura como uma referência no Brasil para profissionais de programas tais como o Programa de Saúde da Família (PSF) e campanhas direcionadas para a prevenção das DST/Aids, no que possibilita a reavaliação crítica acerca de valores, conceitos e novas práticas profissionais necessárias para o enfrentamento deste cenário de transformações.