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Psico-USF

Print version ISSN 1413-8271

Psico-USF (Impr.) vol.16 no.1 Itatiba Jan./Apr. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-82712011000100011 

ARTIGOS

 

A teoria triangular do amor de Sternberg e o modelo dos cinco grandes fatores

 

Sternberg's triangular theory of love and the big five factor model

 

 

Bruna Gomes MônegoI; Maycoln Leoni Martins TeodoroII

IUniversidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, Brasil
IIUniversidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, Brasil

 

Endereço para correspondência


RESUMO

O presente estudo investigou a influência dos traços de personalidade de acordo com o modelo dos Cinco Grandes Fatores (CGF) e do amor segundo a Teoria Triangular do Amor de Sternberg na satisfação conjugal. A amostra foi composta por 192 universitários que vivenciavam um relacionamento amoroso classificado como ficante, namoro/noivado ou casamento. Os participantes responderam coletivamente à Escala Fatorial de Satisfação em Relacionamento de Casal, à Escala Triangular do Amor de Sternberg e à Bateria Fatorial de Personalidade. Os resultados indicaram padrões diferentes de correlação para cada tipo de relacionamento e o modelo de Regressão Linear Múltipla foi significativo (F=23,19, gl=10, p<0,001) e explicou 58% da variância. Os construtos intimidade, paixão e realização contribuíram positivamente para a satisfação, enquanto o traço neuroticismo apresentou influência negativa. O componente compromisso e os demais traços de personalidade não obtiveram significância estatística.

Palavras-chave: Satisfação conjugal, Modelo dos Cinco Grandes Fatores, Teoria Triangular do Amor de Sternberg


ABSTRACT

This present study investigated the influence of personality traits according to the Big Five Factors (CGF) model and to love according to Sternberg's Triangular Theory of Love in marital satisfaction. Sample was composed by 192 undergraduate students who experienced a loving relationship classified as an informal relationship, dating/engagement or wedding. Participants answered the "Escala Fatorial de Satisfação em Relacionamento de Casal", the Sternberg's Triangular Love Scale and the "Bateria Fatorial de Personalidade". Data showed different patterns of correlation for each type of relationship and multiple linear regression model was significant (F=23.19, df=10, p<0.001) and explained 58% of the variance. The intimacy, passion and conscientiousness constructs contributed positively to the satisfaction, while neuroticism had a negative influence. The commitment component and the other personality traits did not reach statistical significance.

Keywords: Marital satisfaction, Big Five Factor Model, Sternberg's Triangular Theory of Love


 

 

O relacionamento conjugal vem recebendo grande atenção da psicologia nas últimas décadas. Os estudos publicados englobam desde teorias e modelos sobre a satisfação conjugal e teorias do amor (Falcke, Diehl & Wagner, 2002; Lee, 1976; Rubin, 1970), até investigações empíricas que associam o amor a variáveis como história familiar (Donnellan, Larsen-Rife & Conger, 2005) e bem-estar subjetivo (Kim & Hatfield, 2004). O presente estudo pretende contribuir para a compreensão da satisfação conjugal em casais a partir da percepção relacionamento amoroso e de características de personalidade. Para tanto, será realizada uma breve apresentação sobre a Teoria Triangular do Amor de Sternberg (1986), a satisfação conjugal e o modelo dos Cinco Grandes Fatores (CGF) da personalidade.

A Teoria Triangular do Amor (Sternberg, 1986) caracteriza esse sentimento com base em três componentes: intimidade, paixão e decisão/compromisso, que formam os vértices de um triângulo. Sternberg define intimidade como a presença de felicidade, respeito, entendimento mútuo, capacidade de entregar-se, apoio emocional, comunicação e valorização. Interações baseadas isoladamente nesse componente caracterizam relações semelhantes à amizade. A paixão diz respeito à atração física e sexual, à vontade de estar junto e ao romance, indicando uma união com grande excitação. Decisão/compromisso, por sua vez, está relacionado à decisão de amar e à vontade de que a relação se mantenha em longo prazo. Quando isolado, revela um relacionamento que tende a durar, mas principalmente pela influência de fatores externos, pois a paixão e a intimidade não estão presentes. Esse tipo de união também é chamado de amor vazio (Sternberg, 1986, 1997).

A presença dos três componentes estabelece o amor pleno, enquanto a junção de dois deles indica outras formas de amar. A combinação entre intimidade e paixão, chamado de amor romântico, significa que mesmo próximo e desejando estar junto, o casal não tem a certeza de que isso será possível. Intimidade e decisão/compromisso (companheirismo) fazem com que os parceiros permaneçam unidos mesmo após o término do desejo sexual. Por fim, a paixão com decisão/compromisso (amor factual) é como o amor à primeira vista, no qual existe a atração física e a vontade de permanecer juntos mas o casal ainda não desenvolveu intimidade (Sternberg, 1986, 1997).

Alguns estudos sugerem que aspectos do amor contribuem para a satisfação com o relacionamento. Karwowski-Marques (2008), por exemplo, sugeriu que a percepção de intimidade de um dos cônjuges influencia a satisfação do outro. Complementariamente, Hernandez e Oliveira (2003) indicaram que aspectos relacionados à intimidade, comunicação, confiança e excitação física foram os preditores mais fortes de satisfação conjugal. Tais estudos corroboram o de Sternberg (1989), uma vez que o autor estabelece que a intimidade é o maior preditor de satisfação no relacionamento.

A satisfação conjugal, por sua vez, é definida por alguns autores como a avaliação que o próprio sujeito faz sobre o seu relacionamento e os ganhos que ele tem com esse (Wachelke, Andrade, Cruz, Faggiani & Natividade, 2004). Essa avaliação depende, dentre outros aspectos, da história romântica do indivíduo, de modo que suas experiências passadas são modelos de comparação e influenciam suas expectativas sobre o relacionamento presente (Bystronski, 1995). Dessa forma, a satisfação possui variações durante a história dos relacionamentos, não se apresentando, portanto, de maneira estagnada (Olson, 2000).

A literatura tem citado diversos preditores de satisfação conjugal. Alguns dizem respeito a características sociodemográficas, como escolaridade, número de filhos, nível socioeconômico e cultural e crença religiosa. Outros estão associados às experiências românticas anteriores ou, ainda, a construtos como proximidade, intimidade, coesão, estabilidade conjugal e estilos de amor. Há também aspectos cognitivos, como estratégias adequadas de resolução de problemas e habilidade de comunicação (Norgren, Souza, Kaslow, Hammerschmidt & Sharlin, 2004; Olson, 2000; Sharlin, Kaslow & Hammerschmidt, 2000; White, Hendrick & Hendrick, 2004). Complementarmente, tem-se enfatizado o papel de aspectos individuais, como a personalidade na satisfação conjugal (Engel, Olson & Patrick, 2002; Malouff, Thorsteinsson, Schutte, Bhullar & Rooke, 2010; Wan, Luk & Lai, 2000).

Quanto à personalidade, uma das teorias que mais têm sido empregadas em sua avaliação e compreensão é o modelo dos CGF, baseado nas teorias fatoriais e de traços (Digman, 1990; Nunes, 2005; Silva, Schlottfeldt, Rozenberg, Teles-Santos & Lelé, 2007). O CGF apresenta cinco dimensões que constituem a personalidade, traduzidas como extroversão (extraversion), socialização (agreeableness), realização (conscientiousness), neuroticismo (neuroticism) e abertura à experiência (openness to experience) (McCrae & John, 1992, Nunes, Hutz & Nunes, 2010). Cada dimensão engloba características que vão de um polo a outro. Sendo assim, o fator extroversão descreve desde indivíduos falantes, otimistas e sociáveis até os reservados, independentes e sóbrios. A socialização se refere tanto a pessoas afáveis, empáticas e interessadas em ajudar os demais, quanto àquelas inescrupulosas, desconfiadas e egoístas. Realização está associada a traços como responsabilidade, disciplina, zelo, honestidade e tenacidade, assim como à falta de ambição e/ou objetivos, hedonismo e, muitas vezes, distração. O neuroticismo aponta para os aspectos emocionais do indivíduo, principalmente quanto à forma como ele percebe e se comporta diante do sofrimento emocional. Altos escores nesse fator indicam vulnerabilidade, sintomas depressivos e ansiosos e estratégias de coping desadaptativas. Por fim, pessoas com alto índice de abertura à experiência são mais curiosas, criativas e versáteis. Já no outro polo, elas podem preferir rotinas, ser rígidas, austeras, convencionais e apegadas a hábitos ou a valores tradicionais (McCrae & John, 1992; Nunes, 2000, 2005; Silva e cols., 2007; Vasconcelos & Hutz, 2008).

Resultados de uma pesquisa de Fisher e McNulty (2008) indicaram impacto negativo do traço neuroticismo na satisfação conjugal e sexual de casais. De maneira semelhante, White e cols. (2004) relataram que o mesmo traço foi o principal preditor negativo de satisfação e de intimidade conjugal. O fator realização, por outro lado, foi apontado como preditor de todos os componentes do amor da Teoria Triangular do Amor de Sternberg (1986) e da satisfação para homens no estudo de Engel e cols. (2002). No grupo feminino, a mesma dimensão foi preditora de intimidade, paixão e, juntamente com extroversão, de satisfação. Os autores sugerem que os indivíduos com escores altos no traço realização sejam mais engajados, empenhados e motivados em seus relacionamentos.

Embora tenha crescido o número de pesquisas nas últimas décadas sobre os relacionamentos amorosos, os resultados ainda são muito distintos. Percebe-se que a personalidade e o amor contribuem para a satisfação conjugal, mas poucos estudos incluem esses três construtos em suas análises (Engel e cols., 2002; White e cols., 2004).

Desse modo, o presente trabalho se propõe a investigar algumas características sociodemográficas da amostra (tipo de relacionamento, sexo e local onde reside) e associações entre a satisfação conjugal, os componentes do amor da Teoria Triangular de Sternberg (1986) e os traços de personalidade de acordo com o modelo CGF. Por fim, também serão analisados preditores da satisfação conjugal. Assim, o presente trabalho tem como hipóteses: (a) o neuroticismo será preditor negativo de satisfação conjugal e (b) os componentes do amor serão preditores positivos de satisfação conjugal.

 

Método

Participantes

Participaram deste estudo 198 universitários de diferentes áreas do conhecimento (psicologia, engenharia, jornalismo, ciências sociais, relações públicas, economia, serviço social e administração) que estavam vivenciando alguma relação amorosa. Destes, seis foram excluídos da amostra por não terem classificado seus relacionamentos em Ficantes, Namoro/Noivado ou Casamento. Assim, totalizou 192 participantes, dos quais 72 (37,3%) viviam no estado de Alagoas e 121 (62,7%) no Rio Grande do Sul. A amostra foi separada de acordo com o tipo de relacionamento a fim de investigar possíveis diferenças. A Tabela 1 descreve o sexo, a idade e o tempo de relacionamento dos participantes.

Instrumentos

1 - Escala Triangular do Amor de Sternberg (ETAS, Sternberg's Triangular Love Scale).

Avalia a percepção do indivíduo sobre o seu relacionamento amoroso, de acordo com a Teoria Triangular do Amor (Sternberg, 1986). A escala é composta por 45 itens divididos em três subescalas referentes aos construtos intimidade, paixão e decisão/compromisso. Para cada item, o participante responde o quanto cada afirmativa é verdadeira em uma escala do tipo Likert que varia de um (de jeito nenhum) a nove (extremamente). No Brasil, alguns estudos (Cassepp-Borges & Teodoro, 2007, 2009; Gouveia, Fonseca, Cavalcanti, Diniz & Dória, 2009, Sternberg, 1997) investigaram as propriedades psicométricas da ETAS e de sua versão abreviada e indicaram estrutura fatorial adequada e índices satisfatórios de consistência interna. Os alfas de Cronbach obtidos na presente pesquisa foram 0,93, 0,96 e 0,91 para os componentes intimidade, decisão/compromisso e paixão, respectivamente.

2 - Escala Fatorial de Satisfação em Relacionamento de Casal (EFS-RC).

A EFS-RC foi desenvolvida no Brasil com o intuito de avaliar a satisfação conjugal (Wachelke e cols., 2004). A escala possui nove itens que são respondidos em uma escala do tipo Likert que varia de um (discordo fortemente) a cinco (concordo fortemente) pontos. Possui dois fatores chamados satisfação com atração física e sexualidade (SAFS) e satisfação com afinidades de interesses e comportamentos (SAIC). Em um estudo complementar, Wachelke, Andrade, Souza e Cruz (2007) encontraram alfa de Cronbach para a escala total de 0,90. No presente estudo, esse valor foi de 0,69.

3 - Bateria Fatorial da Personalidade (BFP).

Avalia a personalidade de acordo com o modelo CGF. Possui 126 itens, que são pontuados em uma escala do tipo Likert de sete pontos, na qual um representa "Absolutamente não me identifico com a frase" e cinco significa "Descreve-me perfeitamente". Os dados psicométricos relacionados à estrutura fatorial e à consistência interna foram adequados, apresentando alfas de Cronbach de 0,89, 0,84, 0,85, 0,83 e 0,74 para neuroticismo, extroversão, socialização, realização e abertura à experiência, respectivamente (Nunes, Hutz & Nunes, 2010). Na presente investigação, os índices foram de 0,90, 0,85, 0,79, 0,80, 0,69, respectivamente.

Procedimentos

Primeiramente foi feito contato com as universidades e, em seguida, com os coordenadores de cursos de graduação que conduziam os professores. A aplicação foi realizada coletivamente em sala de aula e durou cerca de 45 minutos.

Esse estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa. Todos os participantes que concordaram em participar dessa pesquisa assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Análise de dados

Para análise de dados, foram realizadas correlações de Spearman e Teste T e análise de variância one-way (ANOVA) para comparação entre os grupos. Para investigação de preditores da satisfação conjugal foi utilizada análise de regressão linear múltipla com método Enter. Para afirmar que existe relação entre duas variáveis, foram consideradas as correlações moderadas a fortes. O nível de significância adotado foi de p<0,05.

 

Resultados

Diferenças entre os grupos

Análises comparativas para sexo e estado dos participantes foram realizadas com o Teste T. A idade média (t(190)=-3,97; p<0,001) e tempo médio de relacionamento (t(133,99)=-2,10; p<0,05) dos homens foram superiores aos das mulheres. O grupo feminino, por sua vez, apresentou média superior ao masculino no traço socialização (t(185)=2,52; p<0,05). Em relação ao local de coleta, houve diferenças quanto à idade (t(191)=3,72; p<0,001) e quanto ao tempo de relacionamento (t(179,19)=3,77; p<0,001), sendo as médias dos participantes do Rio Grande do Sul maiores do que as de Alagoas. Dentre os fatores de personalidade, a amostra de Alagoas apresentou média superior a do Rio Grande do Sul no traço neuroticismo (t(186)=-2,66; p<0,01) e inferior nos traços socialização (t(102,84)=2,24; p<0,05) e realização (t(108,19)=3,53; p<0,01).

Além disso, realizou-se análise de variância one-way (ANOVA) para comparar os tipos de relacionamentos quanto a idade, tempo de relacionamento, traços de personalidade e componentes do amor. A Tabela 2 mostra as diferenças significativas encontradas.

O Teste Post Hoc de Bonferroni demonstrou que os participantes casados eram mais velhos do que os demais e possuíam escores mais altos no traço realização. O grupo ficantes, por outro lado, apresentou médias inferiores aos outros grupos quanto ao tempo de relacionamento, satisfação conjugal, socialização, intimidade, decisão/compromisso e paixão.

Satisfação, amor, personalidade e tipo de relacionamento

Padrões de correlações entre traços de satisfação conjugal, amor e personalidade foram diferentes pra cada tipo de relacionamento amoroso. Na Tabela 3 estão descritos os escores de Spearman para os grupos ficantes, namoro/noivado e casamento.

Como pode ser visto na Tabela 3, houve correlações moderadas e fortes em todos os grupos, embora a grande maioria seja moderada. Pode-se perceber que a satisfação conjugal, assim como seus fatores, apresentaram associações moderadas com todos os componentes do amor nos grupos namoro/noivado e casamento.

Amor e personalidade como preditores da satisfação conjugal

A investigação dos preditores de satisfação conjugal foi feita por meio de regressão linear múltipla com método Enter. As variáveis independentes utilizadas para o modelo foram os componentes do amor, as dimensões da personalidade, o tipo de relacionamento, sexo e local dos participantes. Para investigar o efeito específico de cada tipo de relacionamento, as variáveis ficantes, namoro/noivado e casamento foram transformadas em medidas binárias. Os resultados estão descritos na Tabela 4.

O modelo de regressão foi adequado (F(12)=19,21; p<0,001) e explicou 58% da variância da satisfação conjugal (vide Tabela 4). Dentre as variáveis independentes utilizadas, foram significativos os componentes intimidade (β=0,40) e paixão (β=0,40) e os traços neuroticismo (β=-0,15) e realização (β=0,16). As demais variáveis não contribuíram significativamente para o modelo.

 

Discussão e Considerações finais

A presente pesquisa buscou investigar as contribuições do amor e das características individuais, como a personalidade, para a satisfação conjugal. Pelas análises comparativas, correlacionais e causais, foi possível verificar algumas semelhanças entre os resultados obtidos neste estudo e os mencionados em investigações anteriores.

Não houve diferença significativa das medidas de amor e satisfação entre os grupos masculino e feminino do presente estudo. Isso também foi reportado por Engel e cols. (2002) e Karwowski-Marques (2008), indicando semelhança na percepção da intensidade do relacionamento entre homens e mulheres. Por outro lado, algumas diferenças foram encontradas com relação ao local de coleta. No entanto, em virtude do número reduzido de participantes, essas diferenças não podem ser abordadas com base nos aspectos culturais. Salienta-se, também, que a amostra deste estudo foi selecionada por conveniência, impossibilitando, assim, generalizações para a população.

De modo geral, os resultados apresentados indicam haver associações entre o modo como as pessoas percebem o seu relacionamento romântico e o quanto elas sentem-se satisfeitas com essa união. Alguns traços de personalidade também parecem ter uma importante participação nesse aspecto. Contudo, tais associações demonstram padrões específicos para cada tipo de relacionamento, tendo os grupos namoro/noivado e casamento apresentado resultados mais semelhantes entre si.

As análises e discussão dos resultados das correlações têm foco nos escores com magnitude de moderada a forte, a fim de buscar resultados mais robustos (Dancey & Reidy, 2006). Quanto à percepção do amor, observam-se importantes associações entre todos os seus componentes e a satisfação como já reportado na literatura (Hernandez & Oliveira, 2003; Karwowski-Marques, 2008). Essas associações são mais proeminentes nos grupos namoro/noivado e casamento.

Quanto aos resultados referentes aos traços de personalidade, as análises correlacionais apontaram associações entre o traço socialização e os aspectos românticos, sugerindo que pessoas bondosas e empáticas têm percepções mais positivas sobre seus relacionamentos nos grupos casamento e namoro/noivado. Isto, porém, não ocorreu no grupo ficantes. No entanto, pode-se observar nesse grupo que pessoas mais empenhadas, confiáveis e motivadas (maior realização) relataram mais intimidade na sua relação amorosa, assim como pessoas comunicativas e assertivas (maior extroversão) percebiam mais paixão. As diferenças de resultados entre os grupos devem-se, provavelmente, ao tempo de relacionamento, o que acaba produzindo relações mais consolidadas para namorados e casados. De modo geral, os resultados deste estudo mostram que determinadas características individuais estão relacionadas com a forma de perceber a relação amorosa, sendo essa associação específica para o tipo de relacionamento vivenciado.

Os dados referentes à análise de regressão destacam a paixão e a intimidade como principais preditores positivos de satisfação. Outros autores encontraram dados em comum aos relatados no presente estudo tanto para aspectos referentes à intimidade (Hernandez & Oliveira, 2003; Karwowski-Marques, 2008; Martinez & Fernandez, 1993) quanto para aqueles que dizem respeito ao envolvimento sexual (Hendrick, Hendrich & Adler, 1988; Hernandez & Oliveira, 2003).

Nessa mesma direção, Norgren e cols. (2004) relatam que, entre outros aspectos, a comunicação, a proximidade e a coesão apresentaram significância quando regredidos para a satisfação conjugal. Tais pontos também são incluídos no componente intimidade, que, segundo Sternberg (1986), é responsável pela longa duração dos relacionamentos, assim como decisão/compromisso. No entanto, deve-se ter cautela quanto a algumas comparações, visto que o estudo de Norgren e cols. foi realizado com casais unidos há mais de vinte anos, enquanto a amostra da presente pesquisa é mais nova, possui relacionamentos mais curtos e inclui indivíduos que não são casados. Desse modo, é possível dizer que existem evidências de que tanto as dimensões afetivas (intimidade) quanto as de relacionamento físico (paixão) são fatores que contribuem para a satisfação conjugal.

Os dados analisados também apontaram para a influência dos fatores neuroticismo e realização na satisfação conjugal. Estudos prévios também relataram o papel negativo do neuroticismo na satisfação, justificando a hipótese do presente estudo (Donnellan, Conger & Bryant, 2004; Fisher & McNulty, 2008; White e cols., 2004). Sugere-se que essa influência deva-se aos problemas relacionados à saúde mental do indivíduo, os quais são avaliados por essa dimensão. Quando em altos níveis, esse traço indica características que afetam o bem-estar subjetivo de modo geral (Nunes, Hutz & Giacomoni, 2009), construto correlato da satisfação conjugal.

Indivíduos com altos escores na dimensão neuroticismo tendem a apresentar ansiedade exagerada, dificuldades para tolerar frustração, impulsividade e maior vulnerabilidade ao sofrimento emocional (Nunes, 2000). Além disso, evidências indicam que essas pessoas têm uma visão mais negativa das situações e tendem a se envolver em mais problemas, apresentando, assim, maior ocorrência de eventos estressores ao longo da vida (Watson & Hubbard, 1996). Desse modo, suas relações interpessoais, assim como seus relacionamentos amorosos, são prejudicadas.

Quanto ao fator realização, nota-se que ele também foi preditor de satisfação no estudo de Engel e cols. (2002). Já que para chegar a um relacionamento longo e saudável é necessário o empenho e investimento de ambos os cônjuges em prol de um objetivo comum, que seria a construção dessa união (Norgren & cols., 2004), a falta desses esforços, como discutido por Engel e cols., pode prejudicar a relação. De forma complementar, há outras características abarcadas pela realização que podem influenciar positivamente o relacionamento conjugal, como motivação e capacidade de planejamento, que, por sua vez, contribui para a habilidade de resolução de problemas (Bruck & Allen, 2003). Essa última habilidade também já foi relatada por casais satisfeitos (Norgren e cols., 2004). Ademais, uma meta-análise realizada por Malouff e cols. (2010) sobre o modelo dos CGF e satisfação com o relacionamento também apoia os resultados obtidos no presente estudo. Dentre os cinco fatores de personalidade, apenas abertura a experiência não demonstrou associações com a satisfação com o relacionamento. As correlações foram negativas com o traço neuroticismo e positivas com realização, socialização e extroversão.

O presente estudo contribui para a produção de conhecimento em relação à participação dos traços de personalidade e da percepção do amor na satisfação conjugal, sendo, entretanto, necessárias pesquisas futuras para um melhor esclarecimento sobre essa temática, especialmente envolvendo ambos os cônjuges. Estudos com casais poderiam esclarecer melhor sobre os papéis das características individuais e das relacionais. Nesse sentido, se buscaria investigar de que forma as características individuais (personalidade) de cada cônjuge contribuem para um relacionamento a dois.

Além disso, esta investigação fornece suporte para o desenvolvimento de estratégias terapêuticas mais eficazes no que tange ao relacionamento amoroso. Dessa forma, salienta-se a importância de estimular as habilidades de comunicação, assim como trabalhar com a motivação, com a construção de metas comuns, com a saúde mental e com a atração física e sexual dos casais.

 

Referências

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Recebido em novembro de 2010
Reformulado em janeiro de 2011
Aprovado em março de 2011

 

 

Sobre os autores:
Bruna Gomes Mônego é psicóloga graduada pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS), mestranda em Psicologia e especializanda em Neuropsicologia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Trabalha, principalmente, com avaliação psicológica, terapia cognitivo-comportamental e construção e validação de instrumentos psicológicos.
Maycoln Leoni Martins Teodoro é psicólogo graduado e mestre pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), doutor pela Albert-Ludwigs-Universität Freiburg (Alemanha) com estágio pós-doutoral na UFRGS. Atualmente é professor adjunto na Graduação e Pós-Graduação em Psicologia da UFMG. Trabalha, principalmente, com relações familiares, problemas emocionais e de comportamento, vulnerabilidade cognitiva para a depressão, pesquisa em terapia cognitivo-comportamental e construção e validação de instrumentos psicológicos.

 

 

Endereço para correspondência:
Universidade Federal de Minas Gerais - FAFICH
Departamento de Psicologia
Av. Antonio Carlos, 6.627, Pampulha - 31270-901
Belo Horizonte - MG, Brasil.
E-mail: mlmteodoro@hotmail.com