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Psico-USF

On-line version ISSN 2175-3563

Psico-USF vol.18 no.2 Itatiba May/Aug. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-82712013000200016 

NOTA TÉCNICA

 

"Psiu, repara aí!": avaliação de fôlder para prevenção de violência escolar

 

 

Ana Carina Stelko-PereiraI; Lúcia Cavalcanti de Albuquerque WilliamsII

IUniversidade Estadual do Ceará, Fortaleza, Brasil
IIUniversidade Federal de São Carlos, São Paulo, Brasil

Contato com as autoras

 

 

Muitos pesquisadores têm demonstrado ser frequente a violência entre pares na escola no Brasil (Codo, 2006; UNESCO, 2005). Tal violência consiste em situações de agressões físicas, psicológicas e envolvendo patrimônio (roubo, destruição proposital de materiais). Quando a violência a um aluno é frequente e em caráter crônico para com outro aluno, e quando o primeiro não tem condições de defender-se, havendo uma desigualdade de poder entre vítima e agressor, denomina-se o fenômeno de bullying ou intimidação por pares (para maiores detalhes, ver Stelko-Pereira & Williams, 2010).

Apesar de se saber que a violência entre pares nas escolas brasileiras é um problema grave, ainda que não exclusivo do Brasil (Due e cols., 2005), não se tem recursos pedagógicos brasileiros desenvolvidos e avaliados para lidar com tal problema. Diante disso, o Ministério da Educação e da Cultura (MEC) lançou a resolução de nº 15, em 8 de abril de 2009, a fim de estabelecer orientações e diretrizes para a produção de materiais que ensinem o respeito aos Direitos Humanos, aos indivíduos, desde a idade escolar. O objetivo deste estudo foi o de elaborar um fôlder sobre como evitar situações de agressão entre alunos na escola e avaliar a aceitação social do público-alvo do mesmo, desenvolvido com recursos da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (SECADI/MEC)1.

Tal fôlder se baseia em princípios da análise do comportamento (Skinner, 1953/2003), e para prever o comportamento humano, devem-se especificar as respostas, as ocasiões em que essas ocorrem e as consequências que as seguem. Assim, o fôlder descreveu quais seriam as respostas-alvo, isto é, as respostas agressivas entre pares mais recorrentes (xingamentos são mais comuns que agressões físicas, por exemplo), quais as ocasiões geralmente antecedentes a tais respostas (por exemplo, ter xingado um familiar do aluno, ofendida sua aparência) e as possíveis consequências indesejáveis para as respostas agressivas (como retaliação, ser suspenso de aulas, etc.). Certamente, há consequências reforçadoras ao se agir de modo violento, as quais mantêm o responder de modo agressivo. Contudo, buscou-se destacar as consequências que supostamente seriam aversivas e fornecer estímulos discriminativos para os alunos de modo a apresentarem respostas alternativas às agressivas (por exemplo: conversar com um adulto sobre o problema, ignorar o xingamento); que poderiam produzir reforçadores positivos (como atenção do adulto) ou negativos (como o aluno desistir de provocá-lo).

O fôlder teve como objetivo possibilitar a discussão entre alunos, bem como entre alunos e professores, sobre situações que tenham testemunhado ou vivenciado de violência escolar (seja como autores, seja como vítimas) e promover respostas alternativas às agressivas. Tal material foi desenvolvido para alunos de 6º a 9º ano do Ensino Fundamental. Suas características são: uma folha sulfite, em tamanho A3, de 4X4 cores, com duas dobras e impressão frente e verso, com apresentação de quatro jogos, sendo dois jogos por verso. Na capa do fôlder há a expressão: "Psiu, repara aí!". Tal fôlder encontra-se disponível no endereço eletrônico do Laboratório de Análise e Prevenção da Violência (LAPREV, www.ufscar.br/laprev). A sequência dos jogos baseia-se no desenrolar de uma história de seis personagens caracterizados como alunos que foram agressivos com seus respectivos colegas. Os personagens são três meninas e três meninos, com diferentes características étnicas.

O primeiro jogo consiste em um labirinto no qual o participante deverá encontrar o caminho que relaciona o nome do personagem à fala deste, expressando o motivo para qual ele agiu agressivamente. Por exemplo: "João agrediu o colega porque a mãe foi xingada". O segundo jogo consiste em palavras cruzadas com o acróstico da palavra prevenção. O participante deverá preencher os espaços disponíveis com todos os nomes dos personagens, os quais citam porque acham que estão certos pelo modo que agiram. Como ilustração, João acredita que, quando se fala "mal" da família, é seu dever retaliar a ofensa. O terceiro jogo consiste em um caça palavras no qual os participantes procuraram identificar oito consequências dos atos dos personagens, como: medo e culpa. O quarto jogo envolve desenhos dos personagens com suas respectivas falas, narrando o que poderiam ter feito diferentemente. Por exemplo, João poderia refletir "Minha mãe ia ficar envergonhada se soubesse que estou brigando". O aluno pode colorir os desenhos e colocar o nome de cada personagem. Há ainda um pequeno texto intitulado "Todos têm o direito de ser respeitados", descrevendo alguns dos Direitos Humanos, propondo a participação dos alunos para realizar atividades em toda a escola, como teatros, campanhas, etc.

O fôlder foi avaliado por 70 alunos, sendo metade do 6º e metade do 9º ano do Ensino Fundamental de uma escola estadual de cidade de porte médio do interior de São Paulo, com altos índices de violência escolar e situada em uma região de alta vulnerabilidade social (Fundação do Sistema Estadual de Análise de Dados, 2000). Escolheu-se tal público para a avaliação do material por um raciocínio semelhante ao da análise semântica de instrumentos de avaliação psicológica. Conforme explicita Pasquali (1997), deve-se: verificar se os itens são inteligíveis para o estrato mais baixo (de habilidade) e se são adequados para um estrato mais alto (de habilidade), evitando deselegância na formulação dos itens.

A primeira autora entregou o fôlder aos alunos que estavam sentados em duplas em contexto de sala de aula e, após o livre manuseio do material pelos estudantes (cerca de 20 minutos), leu seu conteúdo e corrigiu as respostas dos jogos junto com os alunos (durante aproximadamente 20 minutos). Em seguida, os estudantes anotaram em uma folha de registro o quanto gostaram do fôlder, podendo fazer um X em uma cara alegre, triste ou neutra e fazer comentários ao lado, tendo sido explicado o objetivo da avaliação para auxiliar na publicação do fôlder e distribuição em outras escolas.

A maioria dos alunos do 6º e 9º ano respondeu ter gostado do material. Entre os alunos do 6º ano, 30 (85%) afirmaram ter gostado, três disseram ter gostado "mais ou menos" (8,5%) e dois identificaram não ter gostado (6,5%), porém não descreveram o motivo. Entre os alunos do 9º ano, 32 (91%) afirmaram ter gostado do material e 3 (9%) disseram ter ficado indiferentes, sem explicar os motivos. Os comentários positivos foram semelhantes entre os alunos de ambas as séries, como: "Foi muito legal, eu acho que o fôlder deve ir para outro lugar.", "Foi divertido e legal!", "Me encinou [sic] a ver que briga, insulto não serve para nada.", "agreção [sic], briga é inutio [sic] e a briga não tem nada aver [sic] comigo e nem com ninguém", "Eu gostei do fôlder, porque ele ensina sobre como evitar brigas entre alunos, professores e funcionários.", "Ajudaria muito concientizar [sic] os alunos que a violência não é bom. Violência nota O"; "[...] E isso é importante para os alunos saberem como agir durante as agressões, o que fazer quando for vítima"; "Eu achei que não esta faltando nada, tá muito bom, as proposta [sic] estão muito bem colada [sic], e deveria deixar sem nenhuma mudanças".

Dentre as sugestões para aprimoramento, 7 alunos de 6º ano (20%) e 7 alunos do 9º ano (20%) sugeriram que: a atividade fosse realizada individualmente, pois ambos os alunos de cada dupla queriam que houvesse mais atividades, por terem gostado de realizá-las; que abordasse também o tema drogas na escola e racismo e desse mais dicas de como parar a violência.

Houve dois comentários que podem ser entendidos como críticas pelos alunos do 9º ano: "Palhaçada" e "Talvez se colocassem um pouco mais divertido". Por fim, houve um comentário revelador no sentido de apontar que o fato de os alunos terem informações sobre violência escolar é importante, mas que não deve ser a única estratégia para promover a paz escolar: "É interessante mas eu acho que ninguém vai respeitar".

Pode-se dizer que o material foi atrativo aos participantes, de fácil entendimento a estes e que promoveu reflexões sobre o cotidiano escolar. Porém, seria importante que este servisse como modelo para o desenvolvimento de mais materiais pedagógico-lúdicos, uma vez que pareceu que esses são escassos em escolas públicas situadas em regiões de alta vulnerabilidade, que buscassem prevenir também o abuso de substâncias e o racismo, conforme sugestão dos alunos. Seria interessante, também, desenvolver o conteúdo do fôlder como um jogo de computador e comparar qual seria o método mais interessante segundo os alunos.

Por fim, estudos futuros poderiam avaliar se o fôlder é uma estratégia eficiente para a redução de comportamentos agressivos por parte de alunos, uma vez que avaliação de aceitação não é o mesmo que avaliação de resultados. Existem intervenções que são bem aceitas, porém com pouca eficiência na alteração de comportamentos (Biglan, Mrazek, Carnine & Flay, 2003). No momento, está sendo elaborado um breve manual para educadores sobre como utilizar o fôlder para sua disseminação. Estudos futuros poderiam realizar avaliação de resultados e de aceitação quando o material é aplicado por educador ao invés de pesquisador.

 

Referências

Brasil (2009). Resolução CD/FNDE, nº 15, de 8 de abril de 2009. Recuperado 14 de abril de 2013. Disponível: http://www.fnde.gov.br/fnde/legislacao/resolucoes/item/3301-resolução-cd-fnde-nº-15-de-8-de-abril-de-2009.         [ Links ]

Biglan, A. Mrazek, P. J., Carmine, D. & Flay, B. R., (2003). The integration of research and practice in the prevention of youth problem behaviors. American Psychologist, 58(6/7),433-440.         [ Links ]

Codo, W. (2006). Educação: Carinho e trabalho (4º ed.). Petrópolis, RJ: Vozes.         [ Links ]

Due, P., Holstein, B. E., Lynch, J., Diderichsen, F., Gabhain, S. N. & Scheidt, P. (2005). Bullying and symptoms among school-aged children: international comparative cross sectional study in 28 countries. European Journal of Public Health, 15(2),128-132.         [ Links ]

Fundação do Sistema Estadual de Análise de Dados, SEAD (2000). Espaços e dimensões da pobreza nos municípios do estado de São Paulo. Recuperado em 20 de maio, 2012, de http://www.seade.gov.br/produtos/ipvs/pdf/apresentacao.pdf.         [ Links ]

Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (2005). Cotidiano das escolas: entre violências. Brasília: UNESCO.         [ Links ]

Pasquali, L. (1997). Psicometria: teoria e aplicações. Brasília: Editora Universidade de Brasília.         [ Links ]

Stelko-Pereira, A. C. (2009). Violência em escolas com características de risco contrastantes. Dissertação do curso de Pós-Graduação em Educação Especial da Universidade Federal de São Carlos. São Carlos, SP.

Stelko-Pereira, A. C. & Williams, L. C. A. (2010). Reflexões sobre o conceito de violência escolar e a busca por uma definição abrangente. Temas em Psicologia, 18(1),45-55.         [ Links ]

Skinner, B. F. (1953/2003). Ciência e comportamento humano. J. C. Todorov & R. Azzi (Trads.). São Paulo: Martins Fontes.         [ Links ]

 

 

Contato com as autoras:
Rua Tenente João Gomes da Silva, 972 - Mercês
CEP 80810-100 - Curitiba-PR, Brasil
E-mail: anastelko@gmail.com

 

 

Sobre as autoras:
Ana Carina Stelko Pereira é prof.ª adjunta da Universidade Estadual do Ceará.
Lúcia Cavalcanti de Albuquerque Williams é prof.ª titular da Universidade Federal de São Carlos e cordenadora do Laboratório de Análise e Prevenção da Violência.

 

 

1 Tal fôlder é parte do Projeto Violência Nota Zero, o qual envolve a elaboração de um livro e um vídeo para educadores e a avaliação de um programa (Stelko-Pereira & Williams, 2010).

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