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Psicologia Escolar e Educacional

Print version ISSN 1413-8557

Psicol. Esc. Educ. (Impr.) vol.1 no.1 Campinas  1996

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-85571996000100012 

Resenhas

 

Introdução à interação em sala de aula: elementos para compreensão

 

Luiz Fernando de Lara Campos

Pontifícia Universidade Católica de Campinas
Universidade São Francisco

 

Tsui, Amy B.M. (1995) Classroom Interaction . New York: Penguin, 122 pgs.

A interação entre professores e alunos na sala de aula se constitui como um dos principais elementos no processo de ensino-aprendizagem, sendo que sua compreensão não apenas facilita este processo como também influi na sua qualidade.

O objetivo do livro aqui resenhado é fornecer subsídios para melhor compreensão da interação professor-aluno no contexto pedagógico a partir da linguagem do professor e facilitar a análise do efeito desta no comportamento e linguagem dos participantes.

A Autora, Amy B.M. Tsui, é professora da Universidade de Hong Kong, tendo publicações nas áreas de interação em sala de aula, análise de discurso, análise de conversas entre outras.

O livro que está organizado em cinco capítulos, apresenta inicialmente uma breve introdução, onde Tsui apresenta os objetivos e conteúdo de sua obra, que irá abordar a interação em sala de aula em atividades de aprendizagem de um segundo idioma, o Inglês. Os capítulos estão organizados em uma seqüência lógica, iniciando pela apresentação dos fundamentos básicos da interação em sala de aula e a aprendizagem de línguas, seguindo a fala do professor, entrada de informação e interação, fala do estudante e finalizando com a apresentação das técnicas de observação em sala de aula.

No primeiro capítulo, intitulado Interação em Sala de Aula e Aprendizagem de Línguas, Tsui aborda os aspectos que caracterizam a sala de aula, que é definida como um local onde no mínimo duas pessoas estão reunidas com objetivos de aprendizagem, sendo uma aluno e outra professor. Segue a Autora apresentando considerações sobre a interação em sala de aula, a aprendizagem em geral e a aprendizagem de línguas. São tratados ainda aspectos relativos ao processo de interação, a formulação de questões, devolutivas e explicações fornecidas pelo professor e a fala do estudante. Muitos exemplos são citados ao longo das explanações, tais como, a relação entre a forma de perguntar do professor e o efeito negativo sobre o comportamento e aprendizagem do aluno, principalmente para os padrões culturais em Hong Kong.

Nesta primeira parte, a Autora, de forma muito habilidosa, apresenta informações relevantes sobre os principais tópicos do livro, de tal sorte que a leitura dos capítulos posteriores irá parecer familiar e atraente.

No segundo momento, Tsui centraliza esforços na avaliação detalhada da fala do professor, com especial ênfase ao efeito que as questões formuladas pelos docentes possuem sobre o comportamento dos alunos, posto que a Autora relata dados que indicam que quase 70% da comunicação em sala de aula ocorre a partir de perguntas de docentes aos alunos, sendo esta uma das melhores formas de ensino-aprendizagem de línguas.

São analisadas inicialmente, as vantagens e efeitos de questões abertas e fechadas, de modo que o primeiro tipo seja classificada como racional por considerar como e por quê dos fatos ocorrerem, enquanto a segunda é ti da como factual por se ater na ocorrência ou não de um determinado fato.

Por exemplo, perëm bateu o carro é fornecer a oportunidade do indivíduo estabelecer relações causais e formular sentenças maiores e com maior vocabulário, enquanto perguntar quando isto ocorreu é restringir a possibilidade de resposta do sujeito. Em relação as questões, são ainda apresentadas as vantagens e limitações da utilização de questões expositivas ou referenciais.

As explanações dos docentes são parte importante na interação em sala de aula, mas segundo Tsui não existem pesquisas significativas sobre esta forma de comunicação. Uma explanação pode ser classificada em: procedimento (quando organiza aspectos relativos à tarefa acadêmica) ou conteúdo (quando visa explicar regras gramaticais, textos, etc.). Segue o texto com apresentação de critérios para que uma explanação possa ser considerada efetiva, retroalimentação do desempenho do aluno e finaliza com considerações a respeito de correção e pontuação do erro. Vale à pena ressaltar a importância que a retroalimentação possui sobre a aprendizagem, uma vez que devolutivas negativas propiciam uma percepção de falha e inibe a criatividade, de modo que aos docentes é recomendado o uso de devolutivas positivas, que encorajam, motivam e estimulam os alunos a aprender.

No terceiro capítulo, a Autora apresenta os conceitos fundamentais de entrada de informação (input) e interação, processo básico na transmissão de conhecimento. São apresentadas várias estratégias de modificações na fala do professor que podem facilitar a aprendizagem. A sintática é aquela na qual o docente faz reformulações na frase para facilitar a compreensão, a semântica ocorre com a modificação na estratégia da linguagem utilizada. São ainda abordados aspectos relacionados ao método socrático, no qual o professor reconduz os alunos ao tema com um novo questionamento, de modo que estes possam perceber, avaliar e relacionar as perguntas para a emissão da resposta.

A Autora ainda indica esquemas para a modificação da interação, como a estratégia de confirmar ao falante que ele está sendo compreendido, ou então pedir maior clareza, repetições e decomposição da fala para facilitar a compreensão. Outra estratégia importante apresentada é a auto-repetição, seja ela exatamente igual a anterior ou não, pois isto facilita a prática do vocabulário e a memorização das palavras.

A fala do aluno, suas características e efeitos é o tema do quarto capítulo, com especial atenção para a relação entre o envolvimento efetivo do aluno no processo de aprendizagem de uma segunda língua. O envolvimento do aluno para Tsui é sinônimo de participação em aula, sendo tarefa do docente conseguir que seus alunos respondam e levantem questões, oferecendo comentários e idéias a respeito da temática tratada. Esta posição baseia-se na premissa que as crianças falam (participam) para aprender, sendo que o mais grave é o fato do número de questionamentos formulados pelos pequenos aprendizes diminuírem a partir de sua entrada na escola.

Especificamente no caso da aprendizagem de Inglês, os principais obstáculos enfrentados pelos alunos são a baixa proficiência nesta língua, timidez e falta de confiança, dificuldade de compreensão das questões, explicações e aspectos culturais, além da ansiedade apresentada em relação a comunicação em si e a avaliação do desempenho. Tsui aponta para o fato que a tentativa mal sucedida de favorecer a diminuição da ansiedade acaba por aumentar a própria reação emocional, sendo uma estratégia bem sucedida priorizar a relação com os alunos, diminuindo o impacto da retroalimentação negativa. Outro modo eficaz de trabalhar o silêncio dos alunos é facilitar a oportunidade de trabalhos em pequenos grupos, com metas e tarefas definidas.

No quinto e último capítulo, Tsui aborda as principais estratégias para a observação de salas de aula. Inicialmente, são apresentadas as características da observação em sala de aula, seja esta por categorias ou por critérios pré-determinados, de tal forma que durante a observação seja realizada a análise dos registros previamente selecionados como relevantes. A partir da análise histórica das técnicas de observação de sala de aula, os limites da observação sistemática são apontados, como, por exemplo, a simples análise quantitativa dos dados ou a necessidade de categorias pré-determinadas que podem induzir à distorções e erros de interpretação.

A seguir, a proposta F.O.C.U.S. (sigla em inglês para foco para observação da comunicação em ambientes) é apresentada como uma estratégia alternativa. Esta proposta parece enfatizaro ambiente, permitindo uma avaliação compreensiva dos dados a partir de informações verbais, não verbais, o interrelacionamento professor-aluno e a descrição da comunicação dentro ou fora da sala de aula. Finaliza este capítulo com a observação etnográfica, descrita como uma técnica de coleta de dados com características perceptiva, empírica, holística e eclética que permite reconstruir aspectos da situação observada de modo mais fidedigno.

A leitura deste livro é recomendada a todos os envolvidos no processo de ensinoaprendizagem, seja de uma segunda língua ou não, uma vez que oferece um amplo cabedal de conhecimento muito bem exemplificado, sustentado por uma boa revisão da literatura. Sua linguagem é de fácil compreensão, assim como seus principais termos, uma vez que, ao final do livro, Tsui elaborou breve mas importante glossário.

A interação em sala de aula é um importante instrumento no processo de ensinoaprendizagem. A obra de Tsui é um importante caminho para iniciar uma leitura mais acurada desta temática