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Psicologia Escolar e Educacional

On-line version ISSN 2175-3539

Psicol. Esc. Educ. (Impr.) vol.9 no.1 Campinas June 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-85572005000100019 

SUGESTÕES PRÁTICAS

 

Focos de intervenção em psicologia escolar

 

 

Edla Grisard Caldeira de Andrada1

Universidade Federal de Santa Catarina

Endereço para correspondência

 

Atualmente o Psicólogo Escolar é um profissional muito requisitado por educadores, equipe escolar e famílias, porém, é ainda compreendido, na maioria das vezes, como “aquele que pode tratar os alunos problemas e devolvê-los à sala de aula bem ajustados”. Essa visão caracteriza e fundamenta a intervenção clínica, uma prática que precisa ser abolida das Escolas, e revela a necessidade do estabelecimento de matrizes teóricas que fundamentem a prática deste profissional tão requisitado e tão pouco compreendido. Entre as tarefas descritas pelo CFP na resolução nº 014/00 destaco as seguintes possibilidades de atuação do psicólogo escolar:

a) aplicar conhecimentos psicológicos na escola, concernentes ao processo ensino-aprendizagem, em análises e intervenções psicopedagógicas; referentes ao desenvolvimento humano, às relações interpessoais e à integração famíliacomunidade- escola, para promover o desenvolvimento integral do ser;

b) analisar as relações entre os diversos segmentos do sistema de ensino e sua repercussão no processo de ensino para auxiliar na elaboração de procedimentos educacionais capazes de atender às necessidades individuais.

A partir das possibilidades acima descritas, alguns focos de intervenção na escola revelam-se como fundamentais e precisam estar embasados em conhecimentos da psicologia científica, tal qual propagada no curso de Psicologia.

FOCO 1 - As implicações do fazer pedagógico:

Todo fazer pedagógico precisa estar embasado em teorias do desenvolvimento e da aprendizagem, sendo que a prática do educador precisa estar coerente com tais teorias. Isso implica em material e atividades adequadas, clima de sala de aula, papel do professor e do aluno e concepção de ensino. Assim, o psicólogo escolar precisa estar atualizado quanto às teorias do desenvolvimento e da aprendizagem, especialmente com aquelas que embasam o corpo teórico da escola em que trabalha, focalizando os processos cognitivos.

Conhecimento necessário: Teorias do desenvolvimento e aprendizagem - inatismo, ambientalismo, construtivismo e psicologia histórico-cultural (Santos, 1997; Zanella, 2001; Davis & Oliveira, 1994). Possibilidade de intervenção

• Uma reunião inicial com a equipe pedagógica (orientadores e supervisores e direção, assim como professores) é mais que necessária. Faz-se importante deixar claro qual visão de sujeito o psicólogo tem (Andrada, 2005), o que pensa acerca da aprendizagem e quais estratégias diferenciadas tem a oferecer além do esperado atendimento individual na sala do psicólogo.

• Faz-se necessário conhecer o Projeto Político Pedagógico da Escola e participar da sua atualização.

• Trabalhar junto à equipe pedagógica em espaços semanais ou quinzenais de diálogo com os professores (intervenção mediada) a fim de juntos criar novos significados as situações cotidianas de sala de aula, eliminando a possibilidade de estigmatizar os alunos com dificuldade de aprendizagem (Curonici & MacCulloch, 1999).

• Criar espaços de discussão acerca das teorias de aprendizagem em Paradas Pedagógicas, sempre vislumbrando o Projeto Político Pedagógico (PPP) da escola e a prática pedagógica.

FOCO 2 - O envolvimento de pais e educadores no processo de formação e educação das crianças e adolescentes:

Quando pensamos em processo de formação dos alunos não podemos excluir a participação ativa das famílias e, certamente, dos educadores. Envolver a família, co-responsável no processo de educação de seus filhos e filhas, a fim de que se possa colher dados acerca do outro sistema direto em que participa o aluno é mais que necessário (Andrada, 2003).

Conhecimento necessário: história das famílias no Brasil (Costa, 1983); teorias sobre a dinâmica familiar e teorias sobre o desenvolvimento das famílias (Carter & Mcgoldrick, 1995).

Possibilidade de Intervenção

• Em entrevista com a família levantar dados acerca das seguintes questões: autonomia X dependência; limites; autoritarismo X autoridade; relacionamento cognitivo e emocional na família, com o objetivo de resignificar os relacionamentos intra-familiar (Papp, 1992; Minuchin, 1982).

• Junto com a família, em encontros sistematizados, refletir sobre a função da dificuldade de aprendizagem neste momento do ciclo de vida familiar (Carter & Mcgoldrick, 1995), criando estratégias com pais e cuidadores que possibilitem o sucesso escolar da criança.

• Confrontar família e professor quando necessário, criando um espaço de dialogo franco acerca das dificuldades de todos, não só do aluno, diluindo no s sistemas a “culpa” pelo fracasso escolar. Assim, outra armadilha é enfraquecida: “a culpa sempre é da família”.

• Unir pais e professores no processo educacional das crianças em estratégias cognitivas que contem com a participação de ambas as partes.

• O Psicólogo Escolar, questionador, curioso e acima de tudo assumindo uma posição investigativa, pode criar junto à equipe uma estratégia de intervenção colaborativa, na qual todos têm influência sobre o aluno, assim como sofrem influência mutuamente (Andrada, 2005; Curonici & McCulloch, 1999).

FOCO 3 - O esclarecimento das dimensões psicológicas implicadas no processo de ensino e aprendizagem.

O processo de ensino e aprendizagem implica em várias áreas do conhecimento humano, sendo que nenhuma área se sobrepõe a outra. A educação é um fenômeno muito complexo para ser vislumbrada somente pela pedagogia, ou pela psicologia, ou medicina. Dessa forma, é preciso reconhecer que a dificuldade de aprendizagem tem origem, causas e desenvolvimento múltiplos o que exige do profissional pesquisa em áreas distintas do conhecimento (Polity, 2001; Fernandez, 1990). Faz-se necessário um trabalho que considere todas as dimensões implicadas, dentre as quais a psicologia se faz presente.

Conhecimento necessário: Processos cognitivos; teorias sobre memória, atenção, concentração, apropriação do conhecimento e linguagem (Antunes, 1998; Rezende, Tronca & Tronca, 2004; Antunes, 2002). Problemas de aprendizagem: hiperatividade, déficit de atenção, dislexia, dislalia, disgrafia, entre outros (Ciasca, 2003; Neves & Almeida, 2003).

Possibilidades de intervenção

• Diagnóstico e encaminhamento das crianças com suspeita de dificuldades de aprendizagem para especialistas da área.

• Acompanhamento do processo de aprendizagem dos alunos com dificuldades de aprendizagem.

• Criação de estratégias psicopedagógicas junto à equipe escolar e professores envolvidos.

• Ouvir os professores, suas demandas e fazê-los participar em alguns dos atendimentos com as crianças, repensando novas práticas e novos olhares sobre o aluno que chama de “problema”.

• Participar das reuniões e conselhos de classe, nas quais o psicólogo poderá estabelecer novas maneiras de perceber o processo educacional dos alunos, evitando rótulos, diagnósticos imprecisos e hipóteses únicas e fechadas.

FOCO 4 - Os sistemas de interações existentes no interior da Escola.

Os problemas de aprendizagem podem ser fruto de falhas nas inter-relações do sistema direto do qual a criança participa. A criança precisa ser compreendida dentro de seu sistema social de interação, como parte inseparável do seu sistema social, o qual inclui família, escola, entre outros. Dentro da escola, fazse necessário procurar entender os problemas que a criança está apresentando relacionando-os aos diferentes sujeitos envolvidos, com o objetivo de planejar as intervenções necessárias (Del Prette, 2001; Souza, 1997).

Conhecimento necessário: Teoria sistêmica (Vasconcellos, 2002; Moraes, 1997); teoria de grupos, papéis e atitudes sociais (Gayotto, 1992; Osório, 2003; Yozo, 2001).

Possibilidade de intervenção

Criar espaços para escutar as demandas dos sujeitos da escola e pensar maneiras de lidar com situações que são cotidianas. Faz-se necessário circular pelos corredores, estar atento aos movimentos dos sujeitos.

• Criar formas de reflexão em conjunto com todos os sujeitos (alunos, professores e especialistas) para que se possa trabalhar com suas relações e paradigmas (Andrada, 2003).

• Faz-se necessário ouvir os alunos, o que pensam sobre sua escola e sua turma. Isso pode ser feito através de desenhos, entrevistas, ou mesmo que escrevam o que pensam, sentem, como percebem sua turma e sua escola.

 

REFERÊNCIAS

Andrada, E.G.C. (2003). Família, escola e a dificuldade de aprendizagem: intervindo sistemicamente. Em: Psicologia Escolar e Educacional, Associação Brasileira de Psicologia Escolar e Educacional, v.7, n.2, jul-dez,         [ Links ].

Antunes, C. (2002). A memória: como os estudos sobre o funcionamento da mente nos ajudam a melhorá-la: fascículo 9, Petrópolis, RJ: Vozes.         [ Links ]

Antunes, C. (1998). As inteligências múltiplas e seus estímulos. Campinas, SP: Papirus.         [ Links ]

Carter, B., & Mcgoldrick,M. (1995). As mudanças do ciclo de vida familiar. POA: Artes Médicas.         [ Links ]

Ciasca, S.M. (org.) (2003). Distúrbios de aprendizagem: proposta de avaliação interdisciplinar. SP: Casa do Psicólogo.         [ Links ]

Costa, J.F. (1983). Ordem médica e norma familiar. 2ed, Graal.         [ Links ]

Curonici, C., & McCulloch, P. (1999). Psicólogos e Professores: uma visão sistêmica acerca dos problemas escolares. SP: EDUSC.         [ Links ]

Davis, C; Oliveira, Z. (1994). Psicologia na Educação, 2ed.; SP: Cortez.         [ Links ]

Del Prette, Z.A.P. (org.) (2001). Psicologia Escolar e Educacional, saúde e qualidade de vida. SP: Editora Alínea.         [ Links ]

Fernández, A. (1990). A Inteligência Aprisionada. 2.ª ed, Porto Alegre: Artes Médicas.         [ Links ]

Gayotto, M.L.C.(Org) (1992). Creches: desafios e contradições da criação coletiva da criança pequena. São Paulo: Ícone.         [ Links ]

Minuchin, S. (1982). Famílias, funcionamento e tratamento. POA: Artes médicas.         [ Links ]

Moraes, M. C. (1997). O Paradigma Educacional Emergente. Campinas, SP: Papirus.         [ Links ]

Neves, M.M.B.J; Almeida, A.F.C. (2003). A atuação da psicologia escolar no atendimento aos alunos com queixas escolares. Em: Almeida, S.F.C. (org) Psicologia Escolar: ética e competências na formação e atuação profissional. SP: Ed. Alínea.         [ Links ]

Osório, .L.C. (2003). Psicologia Grupal. Porto Alegre: Artmed         [ Links ]

Papp, P. (1992). O processo de mudança. Porto Alegre: Artes Médicas.         [ Links ]

Polity, E. (2001). Dificuldade de Aprendizagem e Família: Construindo Novas Narrativas. São Paulo; Vetor.         [ Links ]

Rezende, E.S., & Tronca, F.Z.; Tronca, G.A. (2004). A ciência psicopedagógica: pressupostos fundamentais para o trabalho transdisciplinar. Tubarão: Ed. UNISUL.         [ Links ]

Santos, M.A. (1997). Psicologia escolar no Brasil: fazeres e saberes. Dissertação de mestrado, Programa de Pósgraduação em Educação. UFSC/SC.         [ Links ]

Souza, M.P.R. (1997). Psicologia Escolar: em busca de novos rumos 3ed. São Paulo: Casa do Psicólogo.         [ Links ]

Vasconcellos, M. J. E. (2002). Pensamento Sistêmico: o novo paradigma da ciência. Campinas, SP: Papirus.         [ Links ]

Yozo, R.Y.K. (1996). 100 Jogos para Grupos: uma abordagem psicodramático para empresas, escolas e clínicas. 5ed, SP: Ágora.         [ Links ]

Zanella, A.V., & Vygotsky, L. (2001). Contribuições à psicologia e o conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal. Itajaí: Univali.         [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência:
Edla Grisard Caldeira de Andrada
Largo Benjamin Constant, 691 – apto 403
CEP 88015-390 – Florianópolis - SC
e-mail: edla@floripa.com.br

 

1 Psicóloga e docente da Universidade Federal de Santa Catarina

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